sábado, 25 de janeiro de 2020

Sumário do Blog

Pedro  09/08/2020

73 vacas  08/08/2020

Hiroshima 75 anos  06/08/2020

App da inclusão  01/08/2020

Educação vigiada   24/07/2020

Marguerite Duras  24/07/2020

Florestan  23/07/2020

Mumbuca  21/07/2020

Filmes parte 7  19/07/2020

Um de nós morrerá  16/07/2020

O desprezo  11/07/2020

Tudo acaba em barro  07/07/2020

INTOLERÂNCIA  03/O7/2020

Covid nas aldeias brasileiras  29/06/2020

Filmes a levar na mala  29/06/2020

O debate selvagem: ensino presencial ou EaD  27/06/2020

O ensino remoto, a pandemia, a alienação e o produtivismo  21/06/2020

O que é alienação em Marx  20/06/2020

Filmes - parte 6  19/06/2020

A economia pré e pós pandemia e seu reflexos no mundo do trabalho  15/06/2020

Poema para meu irmão branco  12/06/2020

AULA AO PÉ DO OUVIDO  06/06/2020

UFES (1954 - 2020) perdas e ganhos  30/05/2020

Tempos da peste  15/05/2020

Um virus entre duas crises  14/05/2020

O neoliberalismo e a pandemia  08/05/2020

A pandemia e o desmonte neoliberal no país  06/05/2020

 De frente para a tragédia na escola pública 04/05/2020

Filmes parte 5   02/05/2020

O ensino a distância na Educação Básica e a Invasão dos bárbaros  1/05/2020

Fordismo científico  27/04/2020

Uma república profanada    25/04/2020

Educação Básica no Brasil 2019  20/04/2020

Educação Superior no Brasil 2018  19/04/2020

A falsa cordialidade dos brasileiros  13/04/2020

'Desta terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela'  11/04/2020

Filmes parte 4   06/04/2020

SÓ!  28/03/2020

Quem fará a ruptura no Brasil?  26/03/2020

Tatiana Leskova  23/03/2020

Austeridade é a maior aliada do coronavírus no Brasil  16/03/2020

MISSA DO GALO  04/03/2020

Filmes - parte 3  02/02/2020

Paraisópolis: a política do extermínio, 25/01/2020 

Monogamia, 13/01/2020 

A igreja branca, 10/01/2020 

GRETA, 17/11/2019

Universidade e negócios, 24/11/2019

Eliane Brum, 27/10/2019 

Ofensiva final contra os povos indígenas, 15/10/2019

Bacurau e o Brasil brutal, 07/10/2019 

Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil, 24/09/2019

O Narciso de Caravaggio, 07/09/2019

Tupi, 29/08/2019                                                                                                              

ANGUSTIA de Graciliano, 16/08/2019                                                                      

Elzita, 05/08/2019                                                                                                          

Altamira e Belo Monte, 03/08/2019                                                                          

Filmes - parte 2, 30/07/2019


Ítala Nandi, 09/07/2019

Serra Pelada e o desastre ambiental, 07/07/2019

Moro, o justiceiro vingador e o PT, 05/07/2019

Canudos, 09/06/2019

Um Brasil Mad Max, 05/06/2019

Caravaggio Imortal, 10/05/2019

Abraço da serpente, 29/04/2019

LULA, 27/04/2019

Paulo Freire, 14/04/2019

Filmes, 06/04/2019

Ana Paula e a vida na senzala, 18/03/2019

Roma - o filme, 12/03/2019

O país sem alvará para funcionar, 13/02/2019

Brumadinho: crime anunciado, 28/01/2019

Sob velha direção, 01/01/2019

SALTEADORES DA TESSÁLIA, 28/12/2018

Sexo sem culpa, 21/12/2018

Yawanawás, 16/12/2018

O espelho, 12/12/2018

Mônica, 12/12/2018

Emilia Galindo, 28/11/2018

Virginie Despentes, 22/11/2018

Um casamento feliz, 18/11/2018

Sistema Internacional de Unidades: atualização, 16/11/2018

Escola sem partido, 06/11/2018

A guerrilha do recalque, 16/10/2018

Vidas Secas, 11/10/2018

Tratar um câncer transforma a vida, nem sempre para pior, 13/09/2018

Violência no Brasil, 25/08/2018

Porque escrevo (Ensaios de risco), 24/08/2018

Catástrofe a vista, 17/08/2018

A dor da existência, 10/08/2018

Nossas dores, 26/07/2018

Cão sem plumas, 16/07/2018

As minhas seleções, 14/07/2018

Três pinos, 23/06/2018

Deus salve o casamento, 22/05/2018

Sexo forte, 12/05/2018

Daniela Vega, 30/04/2018

Lou, 26/04/2018

Minha libido foi comprar cigarro, 21/04/2018

Queimada, 18/04/2018

John Huston: "Ele se esqueceu da humanidade", 11/04/2018

Lula, o humano, 09/04/2018

2001: uma odisseia no espaço, 02/04/2018

Juliette, 01/04/2018

Mabel, 27/03/2018

Marielle, 18/03/2018

Epifania, 16/03/2018

Oscar 2018 e o cinema, 07/03/2018

Carta para F., 02/03/2018

Para sempre fiel, 24/02/2018

Bondade cruel - Tuiuti, 21/02/2018

, 18/02/2018

C'est la vie, 22/01/2018

Loving Vicent - como pintar um filme, 07/12/2017

Como nossos pais - o filme, 24/11/2017

The Handmaid's Tale, 18/11/2017

Socialismo ou barbárie, 17/11/2017

A igreja do diabo, 03/11/2017

Puta que pariu, eu amo essa mulher, 22/10/2017

A Cartomante, 17/10/2017

Não me esqueça num canto qualquer, 23/09/2017

Aparência e Essência, 17/08/2017

Feliz dia dos pais, João, 16/08/2017

Família profana, 04/08/2017

Vontade de viver, 31/07/2017

Teamo, 25/07/2017

A coroa de orquídeas, 20/05/2017

PSA: a radiografia de um câncer, 28/04/2017

Ofélia, 17/02/2017

A casa-grande surta quando a senzala vira médica, 08/02/2017

Inventando mulheres, 02/01/2017

Um conto de Natal Brasileiro, 28/12/2016

Balanço das Eleições 2016 por Sakamoto, 31/10/2016

Chicago e a violência. E nóis?, 04/10/2016

O golpe parlamentar e empresarial, 11/09/2016

, 13/05/2016

O engodo dos arautos da casa - grande, 27/04/2016

Réquiem, 03/04/2016

IA e a barbárie, 30/03/2016

Elza, 07/12/2015

Super-ricos, 02/09/2015

Deixe os mortos enterrarem seus mortos, 08/08/2015

Boca do lixo, 22 de julho de 2015

Casmurro, 11 de abril de 2015

O nó górdio do século, 12/02/2015

O "alto" índice de criminalidade em Barretos, 08/01/2015

Terra inacabada 4: a agonia do rio Madeira, 13/11/ 2014

A ditadura não acabou, 06/11/2014

Lobo Solitário, 02/11/2014

Asfixia, 23 de outubro de 2014

YUKI, 13 de outubro de 2014

Clash by night, 16/09/2014

Acredite, caso queira, 15/08/ 2014

Tortura, 29/07/2014

O cinema versus IA, 14/07/2014

O nazi horror, 03/07/2014

Eleonora, 25/06/2014

Formação profissional em engenharia, 19/05/2014

Sou escorpião, minha filha, 04/05/2014

Lição de Anchieta, 28/04/2014

A erva generosa, 21/04/2014

Terra inacabada 3, 15/03/2014

A Copa do Cu do Mundo, 01/03/2014

Aberrações da Humanidade, 07/01/2014

Contra o silício, 06/01/2014

Insurgentes, 13/12/2013

Sempre juntos, eternamente separados, 01/12/ 2013

Ruthinéia, nossa Santa da Vida, 03/09/2013

Violência em alta, 26/07/2013

Onde estão os ex-fascistas?, 25/07/2013

Vândalos, 04/07/2013

Copa das Federações - Brasil, junho de 2013, 17/06/3013

Touradas, 06/06/2013

A questão das drogas no Brasil, 19/05/2013

Machado de Assis, 16/02/2013

O rabo da cachorra, 22/11/2012

A greve nas IFES, 14/09/2012

A era do écran, a internet e o vício, 20/08/2012

A morte, 24/07/2012

A greve, 14/07/2012

Mulher inacessível, 13/07/2012

Carlos Reichenbach: tradução cinema, 22/062012

Pai, 09/06/2012

Caravaggio, 30/05/2012

Meias, 22/05/2012

Terra inacabada 2, 25/03/2012

Metodologia científica, 02/03/2012

Internet e as controvérsias, 14/02/2012

Violência no Espirito Santo. Até quando?, 30/11/2011

Educação e telemática, 01/12/2011

Marcos não reclama da vida, 19/11/2011

Terra inacabada, 07/11/2011

Assédio sexual em metrô, 23/10/2011

Beatrix, 12/10/2011

Desvinculação amorosa, 06/10/2011

Finoca, 21/09/2011

O Estado privatizado, 08/09/2011

Resultados da crise de 2008: bancos ricos. E quem paga a conta?, 06/09/2011

Aprendizagens, 25/08/2011

Telma e Ricardo, 15/08/2011

Inácia, 8 de agosto de 2011

Dora, 11/07/2011

República de bananas, 06/07/2011

Parcerias ou promiscuidade público-privada?, 01/07/2011

Qualquer semelhança não é mera coincidência, 25/06/2011

Origens, 23/06/2011

Docência: uma profissão dividida, 19/06/2011

Palmas para os estudantes, 16/06/2011

Americanos, 13/06/2011

Os dinossauros, 06/06/2011

Flexal 2 e os dez mandamentos, 03/06/2011

Solidão clandestina, 01/06/2011

Os humanos não são animais, 27/05/2011

Mariana Librina: a tia-tetravó barretense, 24/05/2011

Loser, 23 de maio de 2011

Gerônimo: não basta abater o homem para anular o exemplo, 23/05/2011

Tô puta, 22/05/2011

Projeto: a banalização de um conceito, 21/05/2011

Alma salva Alba, 20/05/2011

Marlon, 20/05/2011

Paraisópolis: a política do extermínio

A economia política do extermínio: Paraisópolis e a próxima “tragédia”…

Será que conseguiremos confrontar o poder burguês no Brasil sem colocar no centro da agenda política o enfrentamento ao extermínio da população negra? Como colocar no centro da cena política a questão do extermínio?

Publicado em 13/01/2020

Por Jones Manoel.

Tenho uma foto do que era, na época, minha turma de segunda série. Eram dez alunos que estudavam nos fundos da Igreja Católica São Francisco de Assis na favela da Borborema, em Recife. Das dez crianças presentes na foto, apenas duas estão vivas. Eu e mais um. Fui o único a fazer curso superior. Os outros oito morreram. Todos de forma violenta, com tiros ou facadas. Seis deles eu vi os corpos estendidos na rua, esperando o carro do IML chegar. Nas favelas e morros do Brasil há uma estranha curiosidade mórbida por ficar olhando o corpo até ele ser recolhido. Minha mãe, na melhor das intenções, também tinha uma pedagogia um pouco macabra (costume comum a várias mães): levar o filho para ver o corpo e saber como termina quem “entra na vida errada” para tentar dissuadi-lo das “tentações do crime”.

Ampliando um pouco mais a memória, consigo lembrar rapidamente de quase trinta nomes de amigos e colegas com os quais convivi durante infância, adolescência e parte da vida adulta, que foram mortos de maneira violenta. Lembro com clareza de Rafael, que dava em cima da minha irmã, e foi morto com 16 anos em um bar porque um cara estava com ciúmes de sua namorada. Lembro de Juruna, meu colega de capoeira que foi morto com um tiro no olho por um policial. Lembro também de Neto, morto perto do Aeroporto do Recife, também em um bar, com mais de sete tiros etc.

Parando para pensar sociologicamente, eu tenho memórias de guerra. Conheço centenas de pessoas assassinadas. Vi muitos corpos e muito sangue espalhado na rua. Porém, teoricamente, eu não estive em uma guerra. Tudo isso aconteceu durante o período auge da linda e pujante democracia brasileira.
Acrescento outro registro de memória pessoal. Quando tinha onze anos de idade, meu pai foi assassinado. Desde muito cedo, aprendi com os filmes de Hollywood que toda polícia tem um departamento de investigação ultramoderno, cheio de técnicas e artifícios capazes de descobrir qualquer crime e, enfim, fazer justiça. Esperava que acontecesse o mesmo com a morte do meu pai. Não foi o que ocorreu. Mais de 80% dos homicídios no Brasil não são investigados ou solucionados. Sem falar na qualidade dos inquéritos e sentenças judiciais dos casos ditos “solucionados”. Meu pai Luis Manoel, ou Mané do Bode (como os amigos chamavam), foi só mais um, entre milhares, a ter a vida ceifada como se não fosse nada.

Esses registros pessoais de memória, depois que me tornei militante e professor, passaram a ser lidos dentro de um prisma sociológico. Note: no Brasil, há um complexo que articula aparatos do Estado e da mal chamada sociedade civil numa sinergia intensa de modo a reproduzir e legitimar uma política de extermínio de milhares de pessoas todos os anos – cerca de 60 mil. Ergue-se toda uma institucionalidade paralela ou um conjunto de leis oficiosas, que todo mundo  conhece muito bem, sem que isso implique qualquer contradição fundamental com a estrutura jurídico-política formal do Estado.

Exemplo básico disso. Desde os meus dez anos de idade, ando com o RG no bolso. Até hoje faço isso. Minha mãe me ensinou que não posso sair sem carteira de identificação na rua. A ideia implícita é que eu, garoto negro, pobre e favelado, poderia ser morto e o mínimo era identificar meu corpo. Minha mãe também me ensinou, ainda criança, que quando eu visse a polícia na rua deveria lembrar de nunca correr ou fazer qualquer movimento brusco, pra não correr o risco de provocar algum disparo por parte deles.

Nesses ensinamentos está contida uma sabedoria prática que retrata a realidade não inscrita nos códigos jurídicos ou na Constituição, mas que registra o funcionamento concreto do poder político no Brasil. Aprendi desde cedo formas de tentar tornar-me um pouco menos “matável” – embora ainda tenha que andar com o RG, pois, a despeito do que eu faça, eu continuo um ser matável. E essa realidade material de extermínio convive bem com o Judiciário, o Legislativo, o Executivo, os intelectuais, a universidade, as igrejas, o cinema, os partidos políticos etc.
O fato de termos pessoas que têm memórias e experiências de vida semelhantes ou piores que as de um iraquiano ou um sírio (pra citar países que, nos últimos anos, passaram por guerras brutais fruto de invasão neocolonial do imperialismo) não é uma questão central na política brasileira – mais do que isso: não é e não foi para nenhum presidente da República no chamado período democrático. Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma e Temer contêm poucas diferenças entre si nessa questão. A grande diferença é Bolsonaro, que consegue ser o pior de todos.

O único líder político no pós-ditadura empresarial militar que pode bater no peito e dizer fez ou tentou fazer algo para parar esse extermínio no Brasil chama-se Leonel de Moura Brizola (em sua gestão à frente do governo do estado do Rio de Janeiro). De resto, ou no discurso se coloca um pouco contra (mas mantém tudo na prática) ou reforça a legitimidade da política de extermínio no discurso. Essa legitimação tem ampla guarida inclusive na “esquerda”. Lula da Silva, em 2007, depois de a Polícia Militar matar dezenove pessoas no Rio de Janeiro, disse que “não se enfrenta bandidos com rosas”. A prova de que as dezenove pessoas mortas eram “bandidos” foi… a PM dizer que eles eram bandidos. Lula nunca foi devidamente cobrado por declarações como essas.

Em 2015, depois da Rondesp matar doze jovens negros, o governador petista da Bahia, Rui Costa, disse que os policiais são como artilheiros na hora de fazer um gol e que às vezes erram. Rui também nunca foi cobrado como se deve por atitudes como essa e é cotado para uma… candidatura presidencial.

Isso para não falar de como se fazem reflexões sobre Direito, sistema político, democracia, cultura, desigualdade, instituições e afins não incorporando esse dado básico da realidade brasileira: todos os anos mais de 60 mil pessoas são assassinadas. Talvez, e isso é apenas uma hipótese, o centro da questão esteja na economia política: o capital, a acumulação capitalista no Brasil, não sente falta dessa força de trabalho exterminada. Note um dado curioso: mesmo com mais de 60 mil assassinados por ano, formando 1 milhão de mortos em 17 anos, o capital não sente falta ou escassez de força de trabalho. Antes, talvez, o contrário: esse extermínio perene seja funcional ao controle do exército industrial de reserva, ou superpopulação relativa, sempre crescente e com níveis cada vez mais assustadores na periferia do sistema capitalista.

O brilhante sociólogo francês Loïc Wacquant demonstrou com substância a relação entre o neoliberalismo e a onda punitiva de encarceramento em massa. O sistema prisional dos Estados Unidos, por exemplo, chegou a superar os dois milhões de encarados a partir da contrarrevolução neoliberal comandada por Ronald Reagan. Ao sintetizar seus estudos, Wacquant fala de três formas fundamentais de controle da pobreza: a) socialização (por meio de políticas sociais); b) medicalização (por exemplo: internar pessoas em situação de rua, como se o alcoolismo e outros problemas se resumissem a fenômenos biomédicos); e c) encarceramento1. A tese de Wacquant a respeito da relação orgânica entre neoliberalismo e encarceramento se mostra corretíssima, guardadas suas particularidades, também para o Brasil, mas o pensador francês que já escreveu coisas bastante interessantes sobre o nosso país, não percebeu que aqui temos uma quarta estratégia central de controle: o extermínio.

O projeto neoliberal, ampliando o desemprego, o trabalho precário e informal e a chamada marginalidade, veio acompanhado, em nosso país, não só do encarceramento em massa, mas também do aumento sempre crescente da letalidade do Estado. Por isso nosso sistema prisional não pode ser encontrado nas páginas do Vigiar e Punir, de Michel Foucault: ele assemelha-se muito mais a um campo de concentração, com rodadas periódicas também de extermínio e mortes em decorrência de doenças como tuberculose.

A constatação desse dado básico das últimas décadas reforça a hipótese aqui levantada: o neoliberalismo tornou ainda mais funcional à reprodução da ordem capitalista no Brasil o extermínio permanente de milhares todos os anos. O sangue, majoritariamente negro, deve correr para manter o capital lubrificado. Agrego que se faz necessário incorporar um dado fundamental. É incorreto falar somente de extermínio no âmbito da violência direta. Disse certa vez Bertold Brecht,

“Há muitas maneiras de matar uma pessoa. Cravando um punhal, tirando o pão, não tratando sua doença, condenando à miséria, fazendo trabalhar até arrebentar, impelindo ao suicídio, enviando para a guerra etc. Só a primeira é proibida por nosso Estado”

Quantos não morrem todos os anos de fome, falta de atendimento médico, trabalho desumano, precariedade do transporte, ausência de remédios, péssimas condições nos hospitais, secas, grandes obras – como Belo Monte – e afins? Dois anos atrás um militante comunista e enfermeiro me garantiu, durante um debate sobre o tema do extermínio da população negra, que o Brasil não tem menos que 120 mil mortos todos os anos.

Liberais, conservadores, socialdemocratas, “socialistas democráticos” e até certos marxistas, em especial meus amigos trotskistas, adoram fazer contabilidade de corpos na URSS ou na China Popular. Mas que tal fazermos esse exercício aqui mesmo no Brasil?

Poderíamos aprofundar ainda mais a questão e pensar a história da formação social brasileira em longa duração histórica. O genial Darcy Ribeiro já falou do Brasil como um “moinho de gastar gente”, tratando dos ciclos de extermínio de indígenas, negros e afins2. Na história recente do Brasil, é difícil pensar em um momento de modernização desprovido de um grande massacre para coroar as transformações no padrão de dominação política e acumulação de capital: Canudos, Contestado, Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, Carandiru etc.

Em suma, ontem, como hoje, somos um moinho de gastar gente. Uma fantástica fábrica de cadáveres que convive normalmente, com Estado de Direito, “com supremo, com tudo”. Trata-de um genocídio permanente, com sangue e corpos nas ruas todos os dias, com crianças sendo assassinadas com balas de fuzil atravessando seu corpo e nada acontece (um amigo de militância estudou Medicina em Cuba e teve dificuldade de explicar para os cubanos como tem tiroteio todo dia no Brasil e como é normal ver corpos na rua, sendo que não estamos em guerra civil).

Mas e Paraisópolis? Essa é a grande questão. O massacre de Paraisópolis foi o massacre do momento por uma semana. Já passou a repercussão. A família, alguns movimentos populares e juristas com compromisso popular é que ficam até o fim com compromisso com a verdade. O caso passa. A vida volta ao normal. Depois vem “outro caso”. Depois outro. E outro. E assim segue. Desde que me tornei militante, em 2010, não passou um mês sem um “grande caso” da polícia matando alguém. Cláudia, Amarildo, DG, 111 tiros no Costa Barros, Cabula, chacina de Fortaleza etc. etc. etc.
Aqui mora o centro da questão: esse extermínio é normal. E normal aqui no sentido sociológico da palavra, como conceito: uma série de práticas sociais e suas correspondentes ideologias de legitimação aceitas como parte constitutiva da sociedade em seu funcionamento cotidiano. É como a pobreza. Embora em discurso seja dito que ela é um problema e precisa ser combatida, não deixamos de comer, dormir, beber, estudar, se divertir ou sair toda semana na rua por causa da pobreza. Eu, você e todos nós saímos na rua, vemos pessoas na miséria, voltamos para nossa casa e segue a rotina.


O extermínio brasileiro não é uma anomia, nos termos colocados por Émile Durkheim.
Aconteceu Paraisópolis, e vai acontecer a próxima “tragédia”. E a próxima… Usar os “casos” para provar que a polícia é uma máquina no genocídio da população negra ou que existe racismo estrutural é um discurso que tem um impacto na hora, momentâneo, e depois volta tudo ao normal.
Numa coluna anterior aqui do Blog da Boitempo chamada “Duas teses sobre a questão racial no Brasil” eu apontei a importância do antirracismo revolucionário na estratégia da Revolução Brasileira. Será que conseguiremos confrontar o poder burguês no Brasil sem colocar no centro da agenda política o enfrentamento ao extermínio da população negra? Aliás, como podemos colocar no centro da cena política a questão do extermínio? Como tirar esse massacre cotidiano da normalidade, da naturalização, do “é isso mesmo”?

Essas são perguntas centrais para esse ano que se inicia. Para fazer com que massacres como o de Paraisópolis deixem de ser comuns. E não vou tentar, agora, fornecer as respostas. No decorrer do ano, voltaremos a esse tema no âmbito das nossas reflexões sobre o antirracismo revolucionário. O primeiro passo, porém, é entender o que disse a música:

“O pedido do secretário de segurança é especifico:
Soldados, atenção! Sem testemunha e feridos;
abatam pelo cabelo, pela roupa, pela cor.
Só cuidado com a laje, com cinegrafista amador.
Dá um vazio vê que ainda não fiz o escrito
com o poder de evitar os enterros coletivos;
impedir que os antigos vizinhos de rua
depois dos bum se tornem vizinhos de sepultura.

Eduardo Taddeo, “A era das chacinas”, A fantástica fábrica de cadáver.

NOTAS
1 Loïc Wacquant, Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos (3° edição). Editora Revan, Rio de Janeiro, 2007.
2 Darcy Ribeiro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Global editorial, São Paulo, 2017.

Jones Manoel é pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Começou sua militância na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da história de Borborema a entrar em uma universidade pública). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de história na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil até 2016, hoje atua no movimento sindical e na área da educação popular. Mestre em serviço social, atualmente é professor de história, mantém um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB.

A VER
Sangue preto e sangue indígena como moeda de negociação

24/01/2020

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Monogamia

Monogamia é cômoda e barata, mas absolutamente frágil, diz sexólogo

Para Manuel Lucas Matheu Bolsonaro e Trump exploram valores familiares nos quais ninguém realmente acredita


Sexólogo espanhol Manuel Lucas Matheu, 70, presidente da Sociedade Espanhola de Intervenção em Sexologia, bem como membro vitalício da Academia Internacional de Sexologia Médica - Reprodução/Universidad de Antioquia


A expertise do espanhol Manuel Lucas Matheu, 70, é sexo. Presidente da Sociedade Espanhola de Intervenção em Sexologia há quase duas décadas e membro da Academia Internacional de Sexologia Médica desde 2011, ele é frequentemente requisitado a falar sobre temas que aparecem cada vez mais no noticiário e na boca de governantes conservadores, como homossexualidade, poligamia e casamento. Sua visão sobre o assunto é liberal. Critica presidentes como Jair Bolsonaro e Donald Trump que, segundo ele, exploram pretensos valores familiares nos quais ninguém realmente acredita. Diz que estudos apoiam a teoria de que o medo, a ansiedade e a aversão que alguns heterossexuais sentem a gays e lésbicas podem crescer com a repressão de seus próprios desejos homossexuais.

"A sexualidade não é algo sujo. A sujeira está nas mentes que foram contaminadas com uma sexofobia patológica e doente, cheia de medos e insatisfações", afirma.

Afirma também que a monogamia estrita é quase um mito. "A monogamia não é uma lei universal e está mais ligada à pobreza que à riqueza. E, quando falo de riqueza, no caso dos humanos, não me refiro apenas à riqueza econômica, mas também à estética, intelectual, social etc."

O sexólogo diz que aqueles que fazem críticas a gays, como Bolsonaro, podem estar reprimindo seus próprios desejos homossexuais. "Pois que tomem nota o senhor Bolsonaro e os que têm o mesmo discurso homofóbico e se olhem no espelho." Segundo Matheu, "a sexualidade é um valor e uma capacidade de desenvolver, e não algo sujo."

Para ele, ações educativas são o único caminho para um futuro saudável nas camas do mundo todo. "Precisamos com urgência do fomento de atitudes de igualdade e equidade, seja qual for sua condição ou forma de viver sua sexualidade. Só assim as relações sexuais deixarão de ser genitalizadas e falocráticas."

Em uma entrevista à BBC, o senhor falou que só somos monogâmicos porque somos pobres. O senhor poderia explicar melhor esse pensamento?


Eu não disse exatamente isso. Disse que a monogamia está muito mais presente em toda a escala filogenética quando há escassez de recursos.

A monogamia só está presente em 3% dos mamíferos.

Ela tampouco é uma moda muito frequente entre nossos parentes mais próximos, os primatas. Em um estudo realizado por Ford e Beach em 185 sociedades humanas, menos de 16% restringiam seus membros à monogamia.

Em outro estudo sobre as 238 diferentes sociedades humanas em todo o planeta, Murdoch encontrou casamento monogâmico em apenas 43 delas.

Definitivamente, o verdadeiro título da minha entrevista, e não aquele que a imprensa divulgou, é que a monogamia não é uma lei universal, que as formas de relação sexual são muito diversas e que a monogamia real e efetiva está mais ligada à pobreza que à riqueza. E, quando falo de riqueza, no caso dos humanos, não me refiro apenas à riqueza econômica, mas também à estética, intelectual, social etc. Supondo que todos os seres acordassem ricos da noite para o dia.


O senhor acredita que as pessoas abandonariam imediatamente a monogamia?

A monogamia real e estrita é quase um mito. Está muito mais ligada à dificuldade de romper vínculos ou de acessar outros pares e é sustentada por fortes regras morais e religiosas. A monogamia é cômoda e barata, mas absolutamente frágil.

A monogamia está de algum modo ligada à infelicidade?

A construção amorosa ocidental se baseia em um malabarismo quase impossível: o amor apaixonado. O amor apaixonado acaba quando o amor é consumado e tão logo se transforma em amor consumido, seja pela rotina ou pelo cumprimento de um contrato amoroso daquele tipo que ninguém lê as letrinhas pequenas antes de assinar. E é um contrato diabolicamente difícil de cumprir, porque é um contrato não apenas amoroso, mas econômico, sexual, de poder, de tarefas, recreativo, e, se há filhos, pedagógico.

Qual o segredo para que um relacionamento aberto funcione?

Ainda que eu não creia que a monogamia esteja necessariamente ligada à infelicidade, um amor maduro e relativamente feliz precisa de bons conhecimentos sobre como construí-lo, e isso ninguém ensina nem na escola nem na família. Conhecimentos para resolver os conflitos inerentes aos casais, para se comunicar, para se compreender. As conveniências sociais e econômicas e fortes repressões religiosas são capazes de manter muitos casais quando eles realmente não são felizes juntos. Ainda que, repito, não seja impossível ser feliz.

No Brasil, vivemos uma onda conservadora que diz agir em defesa da família e da moral. Por que o senhor acha que, de tempos em tempos, as pessoas retornam à ideia de que a forma correta de fazer sexo é com um marido/esposa?

Estou mais preocupado do que nunca. Já tivemos de tudo na Casa Branca, mas nunca um descerebrado machista, homofóbico, racista, provincianos rico, polígamos sequencial, mal-educado e sobretudo egocêntrico. Ao lado de Putin, Bolsonaro, Boris Johnson etc., Trump explora pretensos valores familiares nos quais ninguém realmente acredita.

O presidente do Brasil já se envolveu em situações que tinham o sexo como protagonista, como quando usou sua conta oficial no Twitter para perguntar o que é golden shower e pública fixação por criticar homossexuais. Uma pessoa falar de sexo sempre com uma conotação suja pode indicar algum distúrbio?

Elizabeth Badinter, discípula de Simone de Beauvoir, disse: "A homofobia contribui para reforçar a frágil heterossexualidade de muitos homens". Isso vem corroborar um estudo multicêntrico conduzido por uma equipe formada por investigadores da Universidade de Rochester, da Universidade de Essex, e da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara que conclui que a homofobia se dá com mais assiduidade em indivíduos com uma atração não reconhecida pelo mesmo sexo.

As descobertas apoiam a teoria de que o medo, a ansiedade e a aversão que alguns heterossexuais sentem a gays e lésbicas podem crescer com a repressão de seus próprios desejos homossexuais. Pois que tomem nota o senhor Bolsonaro e os que têm o mesmo discurso homofóbico e se olhem no espelho.

A sexualidade é um valor e uma capacidade de desenvolver, e não algo sujo. A sujeira está nas suas mentes, que foram contaminadas com uma sexofobia patológica e doente, cheia de medos e insatisfações, de origem multifatorial, onde têm relação com fatores educativos, traumas infantis e graves problemas de apego.


As pessoas têm pensado mais em sexo e por isso a pornografia é tão popular ou as pessoas têm pensado mais em sexo porque a pornografia é tão popular?

A pornografia, como é produzida e comercializada, retrata claramente um modelo de relações sexuais reducionista, genitalizado, falocrático, masculinizado, produtivista, desportivo e marginalizador. E não só retrata este modelo como o consolida. Por isso é tão preocupante que este tipo de pornografia esteja disponível para todas as idades.

E, fora do ambiente virtual, as pessoas têm feito mais sexo no mundo?

As novas tecnologias têm um impacto importante na sexualidade humana. Uma das vantagens é que o acesso à informação sobre sexo fica mais democrático, bem como o acesso às terapias sexuais. O ponto negativo é a progressão de uma nova forma de solidão, a eletrônica.

Há pessoas que se fecham em si e na comodidade do seu rincão cibernético. Isso pode produzir problemas psicológicos, e, sobretudo, a amputação dos campos sensoriais em detrimento de um dos aspectos fundamentais da sexualidade: o contato corporal e a satisfação da sede de pele, que é tão intensa no ser humano.

 

Marcella Franco

SÃO PAULO, 13/01/2020

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A igreja branca

A igreja branca tem que acabar

Dodô Azevedo, 9/01/2020

Lemos e ouvimos por aí um discurso arrogante, oportunista e preconceituoso que diz: “A esquerda precisa conversar com os evangélicos, chegar às periferias”. Oportunista porque se vale da ingenuidade dos que não conhecem a natureza diversa da periferia e o universo evangélico e crêem em qualquer um que escreva:: “Eu vim da periferia, vocês não sabem o que se passa lá. Eu sei, e vou contar para vocês.” Arrogante, porque se coloca como voz única do que é necessariamente polifônico. Preconceituoso porque parte do princípio que pobres e evangélicos têm a cabeça vazia, são espécie de teletubies que aderem ao primeiro discurso que a eles chegar, a quem se apresentar mais próximo.

Uma das belezas do projeto Quadro-negro, é a oportunidade convidar as muitas vozes que, juntas, apresentam uma visão mais honesta do que tem se tornado um produto feitichizado para ser consumido por brancos “entusiastas das periferias e dos pobres”. Ronilso Pacheco é teólogo e pastor de São Gonçalo e ativista colaborador de diversas organizações de direitos humanos no Brasil. Atualmente mestrando em Teologia pelo Union Theological Seminary, da Universidade de Columbia (EUA), o organizador do livro  “Jesus e os Direitos Humanos: porque o reino de Deus é justiça, paz e alegria”, publicado pelo Instituto Vladimir Herzog, em 2018, escreveu recentemente, em uma de suas redes sociais:
“A impressão é que, nas periferias, nos territórios empobrecidos, evangélicas e evangélicos formam um grupo inculto e obtuso, limitado politicamente, incapaz de pensar por si mesmo e criar suas próprias linhas de fuga e sobrevivência.”

E aqui ele escreve sua primeira colaboração para o Quadro-negro, publicado um dia após a censura ao trabalho do Porta dos Fundos, explicando que, para além disso, o que ele chama de  “cristianismo branco” em nada se parece com a igreja original, que surgiu após a passagem de Jesus Cristo pela terra.

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O Fim da Igreja branca é o fim de uma Igreja que não tolera a diversidade e a solidariedade – Por Rosilso Pacheco

Eu já escrevi que a bíblia é um livro negro de hermenêutica branca. Com “negro”, me refiro a toda diversidade que há na bíblia (de povos, culturas, tradições, religiosidade), e que foram violentamente deturpadas e invisibilizadas para prevalecer a forma europeia-colonial de lê-la e se projetar nela. A negação e a repressão desta diversidade nos afetou profundamente. E esta é uma das razões pelas quais a igreja branca precisa acabar. Ou ela vai nos destruir enquanto sociedade.

Mesmo não achando necessário, faço questão de dizer que quando falo da “igreja branca” não estou me referindo às pessoas “brancas” que estão na igreja (ao menos não de maneira direta). Indivíduos, brancos e brancas, não precisam se acharem tanto. Eu estou falando necessariamente de um modelo de igreja que foi construído com padrões determinados de teologia, de construção de referências de vida cristã, e de formas de conhecer a Bíblia, a Deus e a Fé.

O neocalvinismo, por exemplo, que está cada vez mais assentado no governo Bolsonaro (e cada vez mais o apoia) hoje, tem como seu principal articulador e formulador o teólogo e político Abraham Kuyper, um holandês, no século XIX. Kuyper, por sua vez desenvolveu uma ideia de “cosmovisão cristã” a partir da leitura da obra de James Orr, um escocês, e que foi influenciado por Wihelm Dilthey, um alemão. Uma construção teológica nasce em quintal branco, masculino e europeu, e isto é universalizado como genuína compreensão de Deus, da bíblia e “teologia de verdade”. Isto é a igreja branca.

Isto é um problema? Obviamente que sim. Neocalvinistas em torno do governo Bolsonaro estão comprometidos com uma visão de livre mercado, apoiam políticas hostis à imigrantes, negam o escravidão e os efeitos do racismo na sociedade brasileira, e rezam em uma cartilha neoliberal que moraliza e responsabiliza excessivamente o indivíduo, enquanto poupa e sacraliza a estrutura (por mais desigual, homofóbica, violenta e racista que a estrutura possa ser).
O que une pentecostais e neopentecostais, calvinistas e luteranos, batistas ou metodistas, em maior ou menor grau, em uma frente de conservadorismo que cada vez mais surpreende e assusta, com seu discurso de ódio nas relações, preconceituoso nas interações, violento na política e ganancioso na economia, é uma identidade branca da igreja que herdamos, ou a branquitude da identidade da mesma.

O que está sendo exposto são os limites de uma igreja estruturada no imaginário branco de ser igreja. De cara, este imaginário é racista. Mas ele também hostiliza os pobres, é violento, moralizador e punitivista (ou culpabilizador). Isto é a igreja branca, e ela precisa deixar de existir. Isto é um modelo de igreja que formou e dominou o Brasil na sua organização colonial, escravista, exploradora e que “batizou” a elite e seus privilégios.

Ronilso Pacheco é autor de “Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão” (Ed. Novos Diálogos)


Ronilso Pacheco, colunista convidado da semana, é pastor e mestrando em Teologia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque (Foto: Divulgação / Paulo Barros)



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

GRETA

Greta Thunberg foi recebida como heroína em Lisboa ao descer com outros cinco passageiros de um pequeno barco a vela com o qual tinham cruzado o Atlântico para não poluir. Mas nessa recepção, no dia 3, houve um viajante que não apareceu na entrevista coletiva no píer: o pai da ativista adolescente, Svante. Ele sempre a acompanha, mas fica em segundo plano. Tampouco manda em sua filha, dizem numerosas pessoas que convivem com a “personalidade do ano” escolhida pela revista Time, a adolescente sueca de 16 anos que inspirou um movimento global para lutar contra a crise climática.



A família Thunberg, no Natal de 2018


Desde que se tornou conhecida, há 15 meses, Thunberg é alvo de suspeitas de que alguém está por trás dela. Seus pais, agências de publicidade ou o bilionário George Soros foram apontados em teorias da conspiração que acabaram sendo desmanteladas. Seu entorno afirma que ela é “sua própria chefa” e sua desenvoltura em público transmite essa sensação.

Durante sua permanência em Madri, do dia 6 ao 11, para a Cúpula do Clima da ONU, Thunberg esteve rodeada de um punhado de pessoas de confiança. Além de Svante, foi acompanhada por Erika Jangen, uma amiga da família que a conhece desde que nasceu. Um grupo reduzido de assistentes, pessoas com experiência no mundo do ativismo climático, ajudou-a com a agenda. Sua mãe, Malena Ernman, e sua irmã, Beata, dois anos mais nova que Greta, permaneceram na Suécia.
Segundo o relato familiar, não são os pais que influenciam a menor, mas sim o contrário. Greta caiu aos 11 anos em uma forte depressão que a levou a parar de comer e de conversar com estranhos.

Diagnosticada com síndrome de Asperger, ela diz que sua paixão por salvar o planeta se deve em parte à forma de ver o mundo de uma pessoa autista, capaz de concentrar toda a sua atenção e todos os seus esforços em um único tema. Sua mãe, uma famosa cantora de ópera que representou a Suécia no festival Eurovision de 2009, e seu pai, um ator de teatro, mudaram sua forma de pensar graças a ela. Tornaram-se veganos, reduziram seu consumismo e pararam de viajar de avião. Relataram isso no livro Nossa Casa Está em Chamas, a versão em português de uma autobiografia familiar lançada na Suécia em 23 de agosto de 2018 com o título de Scener ur Hjärtat (Cenas do coração).

Três dias antes da publicação do livro, Greta tinha iniciado seu histórico protesto. Instalou-se sozinha diante do Parlamento sueco com um cartaz que dizia “Greve escolar pelo clima”, publicou sua foto nas redes sociais, e a revolução começou. A imagem de uma estudante de 15 anos que não ia às aulas para se manifestar em defesa do meio ambiente viralizou, e em poucas horas apareceram os primeiros jornalistas suecos, dos jornais Dagens ETC e Aftonbladet. Ajudou o fato de a Suécia estar a poucos dias da realização de eleições gerais. O jornal britânico The Guardian, que há anos dá uma atenção especial ao clima, foi o primeiro veículo de comunicação internacional a entrevistá-la, na semana seguinte. Depois vieram os convites para dar uma palestra TED em Estocolmo, ir a fóruns internacionais, as manifestações em massa e assim por diante até hoje.

No livro, assinado pelos quatro membros da família, mas narrado na voz da mãe, os pais de Greta se apresentam como duas pessoas que acreditam com firmeza na causa. Contam de maneira explícita as brigas, insultos e choros em um lar em crise devido à condição das duas pequenas. Beata foi diagnosticada com transtorno de hiperatividade e déficit de atenção. As doenças mentais que proliferam no Ocidente são, como relatam, a manifestação em nossa parte do mundo da crise de sustentabilidade gerada por um modelo que gira em torno do crescimento sem limites. As consequências desse sistema em outros continentes seriam as secas, os deslizamentos de terras e o aumento do nível do mar.

Foi durante as férias que Greta teve a ideia de iniciar a greve escolar. Inspirou-se nos adolescentes americanos do movimento Zero Hour, frustrados pela passividade dos políticos em relação ao clima. Seus pais, meio reticentes no início, apoiaram-na ao ver o entusiasmo despertado por sua filha, até então triste e avessa a se relacionar com estranhos.
Greta já havia previsto que sua greve atrairia a atenção da mídia. Nos dias anteriores, sua energia aumentou e, durante suas férias, fazendo trilha na área do lago Trollsjön, na Lapônia sueca, não parava de perguntar ao seu pai como deveria fazer. Svante a orienta.

− Você vai ouvir toda hora: “Foram seus pais que lhe disseram que fizesse isso?”.

− Então vou responder a verdade. Que fui eu que influenciei vocês, e não o contrário.

Em seu primeiro discurso em público, na praça Nytorget de Estocolmo em 8 de setembro do ano passado, o público deu a Greta uma sonora ovação. Uma mulher ao lado de Svante lhe perguntou se ele estava orgulhoso. “Não, não estou orgulhoso, só muito feliz porque vejo que Greta está bem”.

“Só estou aqui como pai”

Em público, Greta já deu muitas amostras de estar no controle da situação, inclusive durante sua estadia na Península Ibérica. Quando os repórteres cruzavam com Greta em Lisboa ou Madri, nenhum adulto se interpunha. Em uma ocasião, enquanto tomava suco com seu pai e os companheiros da viagem de barco na Praça do Comércio, saiu sozinha do estabelecimento para pedir a alguns jornalistas que por favor não os gravassem no local.

“É ela que está interessada, que está motivada, que faz com que seu pai se mova, foi ela que teve essas ideias”, diz Riley Whitelun, o navegante australiano que ofereceu seu barco para levá-la dos EUA para a Europa. Durante 21 dias, conviveu com eles no catamarã e viu que as teorias de que ela seria uma marionete são falsas: “Não se pode esconder uma farsa dessa magnitude 24 horas por dia”.

Nem Greta nem Svante quiseram fazer declarações para esta reportagem. “Só estou aqui como pai”, limitou-se a dizer Svante na terça-feira, enquanto esperava que sua filha terminasse uma reunião na Cúpula do Clima com Michelle Bachelet, alta comissária da ONU para os Direitos Humanos. “É ela que decide o que quer fazer, aonde vai e o que diz”, afirma Alejandro Martínez, um espanhol de 25 anos que participou de reuniões com Thunberg e sua equipe em Madri.
Thunberg também consulta um grupo de destacados cientistas climáticos, entre eles Kevin Anderson, professor da Universidade de Manchester, e Johan Rockström, diretor do Instituto de Postdam para os Estudos Climáticos.

Sua turnê pela América do Norte e Europa foi custeada pela família. Ela pode cobrir parte dos gastos graças a dois documentários que está gravando. Um deles é filmado por uma equipe da BBC que teve acesso exclusivo a ela em Lisboa e Madri.

Greta decidiu limitar sua exposição pública após sua chegada à Europa. Nos Estados Unidos, tinha aparecido em programas de televisão de grande audiência, como os de Ellen DeGeneres e Trevor Noah. Também se deixou ver com o ex-presidente Barack Obama e com os atores Leonardo DiCaprio e Arnold Schwarzenegger.

Se quisesse, teria aparecido em todo lugar em Madri. Autoridades, políticos, artistas e jornalistas quiseram aparecer com ela, segundo seu entorno, mas ela disse chega. A bola da mídia foi longe demais e ela sentiu que sua voz estava impedindo que fossem ouvidos outros ativistas do movimento contra a mudança climática, como cientistas ou pessoas dos países mais expostos a desastres naturais.
“A atenção da mídia é completamente desproporcional em relação à que deveriam ter os cientistas ou os líderes jovens do Sul global”, diz Luisa Neubauer, que apresentou juntamente com Greta dois painéis na Cúpula do Clima.

Greta, que tirou um ano sabático em sua escola secundária, ainda não anunciou seus planos para 2020. Agora ela está viajando para a Suécia com seu pai, de trem, ônibus e carro elétricos, para passar o Natal em família. Apesar do perfil mais discreto, seu círculo acredita que a ativista recarregará as energias para seguir em frente, porque, como ela disse mais de uma vez, esta luta deu à sua vida “um significado”.

Fernando Peinado
Madri, 14/12/2019
El Pais


domingo, 24 de novembro de 2019

Universidade e negócios


Como os Estados Unidos arruinaram suas universidades públicas

A transformação das universidades públicas norte-americanas em mais uma modalidade de negócios foi um “grande erro”, afirma professor da Universidade da Califórnia com livro sobre o tema

Enquanto no Brasil o governo federal pretende que as universidades terceirizem sua gestão e mesmo as atividades-fim sob comando de organizações privadas (OS), passem a depender cada vez mais de fundos de mercado, dirijam seus esforços para o empreendedorismo e ampliem a arrecadação própria com doações, cobranças de taxas e, futuramente, de mensalidades (como já demanda o Banco Mundial em seu último documento sobre o país), nos Estados Unidos, onde tudo isso já foi feito, o resultado foi amplamente negativo. A avaliação é de Christopher Newfield, professor da Universidade da Califórnia (a maior e mais prestigiosa universidade pública norte-americana) que lançou recentemente o livro The Great Mistake: How We Wrecked Public Universities and How We Can Fix Them (“O grande erro: como arruinamos as universidades públicas e como podemos recuperá-las”, Johns Hopkins University Press, 2016). Na entrevista a seguir, ele demonstra que a política neoliberal para as universidades norte-americanas foi também lá, no modelo original, um desastre.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Nas últimas décadas, enfrentamos um discurso dominante que colonizou o senso comum ao afirmar que as universidades devem fazer “entregas rápidas”, focadas em “resultados”, ser cada vez mais concebidas de acordo com modelos de negócios, produzir conhecimento como mercadoria e educar profissionais para ganhos privados. Alguma parte da ideia de “universidade” se perdeu ao longo do caminho?

CHRISTOPHER NEWFIELD – Isso não se perdeu, foi deliberadamente enterrado. As universidades fazem várias coisas que nenhuma outra instituição faz. Elas criam conhecimento como parte do mesmo processo pelo qual o espalham – a pesquisa é tão importante quanto o ensino. A pesquisa e o ensino universitário são autodirecionados e, quando as universidades estão funcionando corretamente, são exemplos de uma autogestão que é muito difícil de alcançar em um local de trabalho comum. O resultado desejado é triplo: o desenvolvimento pessoal-intelectual combinado do aluno (o que a tradição teórica prussiana chamou de Bildung); um novo conhecimento sobre todos os tópicos do planeta; e a prática do conhecimento como um processo totalmente social. Esta última não é bem compreendida, mas coloca o aprendizado e a pesquisa fora das estruturas de mercado. Nos últimos cinquenta anos, as empresas e seus aliados políticos tentaram controlar as universidades, por razões que não são tão diferentes das da Igreja Católica ou do Estado bonapartista em outras épocas.

Você apresenta uma imagem impressionante do desmantelamento das universidades públicas dos Estados Unidos e sua transformação em meros prestadores de serviços, orientada para o mercado. O que motivou essa transformação e em que momento histórico o ataque às universidades públicas dos Estados Unidos e a sua missão pública fundamental começou?

O motivo, em uma frase, era bloquear as ameaças aparentes das universidades aos poderes econômicos e políticos estabelecidos. Um momento decisivo foi a campanha de Ronald Reagan para governador da Califórnia em 1966. Seu oponente, o então ocupante do cargo Pat Brown, era um progressista popular do New Deal que construía obras e serviços públicos para pessoas comuns (brancas). Eleitores gostam de escolas, rodovias, hospitais, pontes e faculdades gratuitas; Reagan decidiu que não poderia concorrer contra Brown, mas poderia concorrer contra manifestantes estudantis de esquerda na UC Berkeley, e foi isso que ele fez. Ele derrotou Brown, em parte, apresentando as universidades de Brown como lugares que encenavam ataques a norte-americanos respeitáveis e tementes a Deus, que reverenciavam o sistema de livre-comércio. Um segundo evento importante ocorreu em 1970, quando o futuro juiz da Suprema Corte, Lewis Powell, então um moderado juiz republicano da Virgínia, enviou um longo memorando à Câmara de Comércio, pedindo às empresas que lutassem contra o sentimento anticapitalista alojado nos campi das universidades. Suas sugestões para financiar pesquisadores e think tanks que criariam e difundiriam visões conservadoras ajudaram a construir as redes políticas conservadoras que ainda dominam a política local.

Em seu livro, você diz que, durante 25 anos, trabalhou em um lugar privilegiado, testemunhando o esforço contínuo de tornar a universidade pública mais parecida com uma empresa. Você pode explicar melhor como isso aconteceu e o preço social pago por essa privatização indireta?

Nas décadas de 1980 e 1990, os gerentes das universidades aceitaram o novo argumento de consenso – tanto dos conservadores de Reagan quanto dos centristas de Clinton – de que bens como o ensino superior tinham benefícios fundamentalmente privados e não públicos, devendo assim ser pagos em particular. Quando comecei a trabalhar em comitês de planejamento e orçamento depois de 2000, fiquei surpreso com a perda de confiança no modelo de financiamento público e com a fé cega de que os contratos de filantropia e pesquisa tornariam as universidades públicas bem-sucedidas como suas contrapartes privadas. Isso criou dois problemas. A primeira foi que as universidades enfraqueceram sua reivindicação pelos altos níveis de financiamento público de que desfrutavam anteriormente. Se a graduação da universidade serve para aumentar os salários individuais, em vez de promover a sociedade, o público não precisa pagar o custo da educação por meio de impostos. Essa visão está incorreta: a maioria dos efeitos do ensino superior é não pecuniária, ou social, ou ambos. O segundo problema é que as universidades não ficam realmente ricas com fundos privados. Elas se tornam dependentes da renda proveniente da mensalidade do estudante, que agora atingiu seu limite. E elas perdem dinheiro com subsídios de pesquisa patrocinados e ganham muito pouco para operações gerais da filantropia. O preço social assume várias formas: as universidades têm problemas financeiros, os estudantes pagam demais e assumem dívidas educacionais e a sociedade recebe menos benefícios não monetários porque o ensino e a pesquisa gravitam em torno de assuntos monetizáveis. Observe também que os estudantes que possuem altas dívidas educacionais desejam uma renda mais alta para pagá-las. Eles são menos capazes de seguir seus compromissos políticos ou éticos no serviço social, uma vez que os salários mais baixos desses empregos dificultam o pagamento da dívida da universidade.

A missão e o amplo espectro de capacidades humanas da universidade estão diminuindo cada vez mais para formar Homo economicus, ou seja, animais de mercado?

A pesquisa é um bem público básico. Uma nova ideia ou descoberta não tem valor de mercado. Isso ocorre apenas mais tarde, com o desenvolvimento comercial, se é que ocorrerá. Descobrir algo novo não pode ser incentivado pela expectativa de um retorno de mercado incerto, remoto ou inexistente. As universidades existem em grande parte para apoiar a exploração que não dará dinheiro. E ninguém pode ser um bom pesquisador enquanto opera como Homo economicus: o “animal de mercado” sempre busca retornos monetários, e não benefícios não monetários ou que agregam à multidão, e não ao pesquisador ou empresa. Isso vale especialmente para as disciplinas de artes e humanas, nas quais um relato melhor da relação entre escravidão e capitalismo na década de 1820 tem um valor intrínseco e provavelmente político, mas não traz dinheiro. As disciplinas de engenharia e ciências aplicadas são exceções parciais. Mesmo assim, o dinheiro real será ganho por laboratórios corporativos focados no desenvolvimento de produtos, não nas universidades que exploram conceitos fundamentais.

Ainda assim, você demonstra que é uma falácia pensar que as universidades são apoiadas por recursos corporativos. Elas ainda são amplamente subsidiadas pelo governo, mensalidades e patrocínios. Sendo assim, por que o mercado está definindo cada vez mais as premissas e os resultados do ensino e das pesquisas?

Um dos mitos da privatização a meio caminho era que, se os acadêmicos fizessem um trabalho melhor na comercialização de suas pesquisas, o dinheiro corporativo chegaria. As universidades agora divulgam incessantemente suas start-ups e objetivos comerciais, mas o dinheiro nunca chegou. Na realidade, o financiamento corporativo representa entre 5% e 7% do total das despesas de pesquisa nas universidades norte-americanas há décadas; isso nunca substituiu os fundos federais.

Você diz que as universidades públicas dos Estados Unidos eram em sua maioria gratuitas, até começarem a cobrar uma taxa simbólica, e progressivamente esse valor aumentou de modo exponencial para compensar o investimento público em queda e as políticas de austeridade. Isso levou novamente a uma elitização do acesso. Isto é, o que pagou a conta para reduzir o orçamento público, no final, foram os próprios alunos e suas famílias, e não as empresas privadas, como é propagado?

Você está certo – os estudantes e suas famílias cobriram o financiamento público que os estados retiraram. O efeito mais visível é a dívida estudantil, que atingiu US$ 1,6 trilhão nos Estados Unidos. Aumentou muito mais rapidamente do que a renda necessária para atendê-la; mais de 10% dos empréstimos estudantis estão em inadimplência. Desde 1993, o financiamento estatal diminuiu 25% (corrigido pela inflação), enquanto as mensalidades líquidas (o valor que os alunos pagam do bolso após a aplicação de toda a ajuda financeira) dobraram. Isso sugere como a privatização é ineficiente.

Nos últimos quinze anos, nos Estados Unidos, o montante transferido para as universidades privadas passou de US$ 4,6 bilhões para US$ 26 bilhões por ano. Como o lobby privado funciona para capturar fundos públicos?

As faculdades com fins lucrativos têm as taxas mais baixas de graduação e emprego do país, com o custo mais alto para os alunos. Como no Brasil, elas existem apenas porque o governo federal concede empréstimos aos estudantes para que paguem as mensalidades para frequentá-las. O governo teve de aprovar uma regra de que não mais que 90% de sua receita total deve vir de empréstimos estudantis concedidos pelo governo, ou a maioria delas teria conseguido 100% de seu dinheiro dessa maneira. São as piores instituições de ensino superior da história. Não caia na alegação de que ampliam o acesso de estudantes pobres e de primeira geração! Como no Brasil, elas transmitem dívidas às pessoas pobres, não conhecimento.

No final do livro, você refuta as afirmações de que não haveria alternativa (Tina, no jargão neoliberal de Thatcher), de que não há mais recursos públicos e de que o que aconteceu era inevitável “como as leis da física”. Você poderia resumir aqui seus conselhos para “consertar isso”, como você diz ironicamente?

Desde que eu escrevi The Great Mistake, duas de suas principais soluções se tornaram parte do debate nacional. Muitos candidatos políticos democratas, liderados por Bernie Sanders e Elizabeth Warren, estão clamando por uma faculdade gratuita e pelo alívio da dívida estudantil. Os estudantes de baixa renda precisam ter suas despesas de moradia pagas, bem como todos os gastos educacionais. Os Estados Unidos tornaram o ensino médio gratuito no século XIX. Fizemos o mesmo para as universidades no século XX. De fato, vamos reverter o modelo de alto custo para as universidades públicas. É só uma questão de tempo.

Qual mensagem você gostaria de enviar aos brasileiros, considerando que o governo Bolsonaro está reduzindo violentamente os recursos das universidades públicas e agora está apresentando um projeto para a privatização indireta?

Três mensagens: seu modelo de ensino superior para o desenvolvimento social está certo. Seu modelo de ensino gratuito está certo, porque é a única maneira de ter acesso democrático. Se você cobra mensalidades que estabelecem barreiras de custo e restringem a alocação de bens educacionais (que é o que os mercados fazem bem), seu sistema universitário não será democrático – aumentará as desigualdades sociais em vez de reduzi-las. Segundo, não acredite que as universidades privatizadas serão mais ricas e mais estáveis: elas não serão. A maioria será mais pobre e dedicará mais dinheiro para angariar fundos. Terceiro, podemos proteger e promover as universidades como locais de formas autogovernadas de produção pós-capitalista. A ciência e os estudos avançam quando ideias e recursos são amplamente compartilhados. Dessa maneira, as universidades públicas reais esperam um mundo democrático e sustentável. Elas precisam de grande apoio e amor público.

Estão crescendo no Brasil e em outros países, que formam uma nova internacional de ultradireita, um claro projeto de poder baseado na desinformação e na intolerância, contrário ao esclarecimento e às evidências científicas e históricas. Como você entende o papel das universidades nesse contexto?

As crises políticas e ecológicas do mundo também são crises de conhecimento. Líderes autocráticos destrutivos, como Trump, Putin, Modi, Erdoğan, Duterte e Bolsonaro, abrem caminho para suas políticas insistindo que não há evidências ou argumentos válidos contra suas posições e fingem provar isso com ataques a disciplinas ou pesquisadores. Eles apresentam falsamente o fundamentalismo religioso e a civilização produtora de carbono como sendo vontade do povo, enquanto lotam as instituições com seus próprios partidários. Trump nomeia juízes que se opõem categoricamente aos direitos reprodutivos e à igualdade sexual das mulheres, assim como regulamenta uma técnica predatória de extração de energia etc. Receio que nosso presidente tenha agravado os problemas, como Bolsonaro no Brasil, ao estabelecer um ataque ao conhecimento e suas instituições. Todas essas figuras percebem que as universidades oferecem análises independentes que podem expor a intencionalidade de suas posições e oferecer conhecimento para fundamentar o dissenso em relação a elas. Essas figuras neocoloniais e antidemocráticas, portanto, se opõem à liberdade acadêmica e ao conhecimento popular ou do ponto de vista, e o fazem alegando que elas incorporam a sabedoria superior das pessoas comuns. Na realidade, ao longo dos anos, a universidade, mesmo com suas falhas, fez muito mais por pessoas comuns do que esses líderes fazem. Elas fizeram isso em parte aprendendo com a própria sociedade e oferecendo a criação de conhecimento independente a serviço de todos. Por isso, são mais importantes para as sociedades democráticas do que nunca, e espero que as universidades públicas e os movimentos sociais brasileiros agora se apoiem mutuamente, com foco e determinação.

Pedro Fiori Arantes é arquiteto e urbanista, professor da Unifesp e pró-reitor de Planejamento.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL

Edição 147 | EUA, por Pedro Fiori Arantes, 1 de outubro de 2019


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Dívida pública e a corrupção



Dois meses antes de o governo Dilma Rousseff anunciar oficialmente o corte de 70 bilhões de reais do Orçamento por conta do ajuste fiscal, uma brasileira foi convidada pelo Syriza, partido grego de esquerda que venceu as últimas eleições, para compor o Comitê pela Auditoria da Dívida Grega com outros 30 especialistas internacionais. A brasileira em questão é Maria Lucia Fattorelli, auditora aposentada da Receita Federal e fundadora do movimento “Auditoria Cidadã da Dívida” no Brasil.

Mas o que o ajuste tem a ver com a recuperação da economia na Grécia? Tudo, diz Fattorelli. “A dívida pública é a espinha dorsal”.
Enquanto o Brasil caminha em direção à austeridade, a estudiosa participa da comissão que vai investigar os acordos, esquemas e fraudes na dívida pública que levaram a Grécia, segundo o Syriza, à crise econômica e social. “Existe um ‘sistema da dívida’. É a utilização desse instrumento [dívida pública] como veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro”, complementa Fattorelli.

Esta não é a primeira vez que a auditora é acionada para esse tipo de missão. Em 2007, Fattorelli foi convidada pelo presidente do Equador, Rafael Correa, para ajudar na identificação e comprovação de diversas ilegalidades na dívida do país. O trabalho reduziu em 70% o estoque da dívida pública equatoriana.
Em entrevista a CartaCapital, direto da Grécia, Fattorelli falou sobre como o “esquema”, controlado por bancos e grandes empresas, também se repete no pagamento dos juros da dívida brasileira, atualmente em 334,6 bilhões de reais, e provoca a necessidade do tal ajuste.

CartaCapital: O que é a dívida pública?
Maria Lucia Fattorelli: A dívida pública, de forma técnica, como aprendemos nos livros de Economia, é uma forma de complementar o financiamento do Estado. Em princípio, não há nada errado no fato de um país, de um estado ou de um município se endividar, porque o que está acima de tudo é o atendimento do interesse público. Se o Estado não arrecada o suficiente, em princípio, ele poderia se endividar para o ingresso de recursos para financiar todo o conjunto de obrigações que o Estado tem. Teoricamente, a dívida é isso. É para complementar os recursos necessários para o Estado cumprir com as suas obrigações. Isso em principio.

CC: E onde começa o problema?
MLF: O problema começa quando nós começamos a auditar a dívida e não encontramos contrapartida real. Que dívida é essa que não para de crescer e que leva quase a metade do Orçamento? Qual é a contrapartida dessa dívida? Onde é aplicado esse dinheiro? E esse é o problema. Depois de várias investigações, no Brasil, tanto em âmbito federal, como estadual e municipal, em vários países latino-americanos e agora em países europeus, nós determinamos que existe um sistema da dívida. O que é isso? É a utilização desse instrumento, que deveria ser para complementar os recursos em benefício de todos, como o veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro. Esse é o esquema que identificamos onde quer que a gente investigue.

CC: E quem, normalmente, são os beneficiados por esse esquema? Em 2014, por exemplo, os juros da dívida subiram de 251,1 bilhões de reais para 334,6 bilhões de reais no Brasil. Para onde está indo esse dinheiro de fato?
MLF: Nós sabemos quem compra esses títulos da dívida porque essa compra direta é feita por meio dos leilões. O processo é o seguinte: o Tesouro Nacional lança os títulos da dívida pública e o Banco Central vende. Como o Banco Central vende? Ele anuncia um leilão e só podem participar desse leilão 12 instituições credenciadas. São os chamados dealers. A lista dos dealers nós temos. São os maiores bancos do mundo. De seis em seis meses, às vezes, essa lista muda. Mas sempre os maiores estão lá: Citibank, Itaú, HSBC…é por isso que a gente fala que, hoje em dia, falar em dívida externa e interna não faz nem mais sentido. Os bancos estrangeiros estão aí comprando diretamente da boca do caixa. Nós sabemos quem compra e, muito provavelmente, eles são os credores porque não tem nenhuma aplicação do mundo que pague mais do que os títulos da dívida brasileira. É a aplicação mais rentável do mundo. E só eles compram diretamente. Então, muito provavelmente, eles são os credores.

CC: Por quê provavelmente?
MLF: Por que nem mesmo na CPI da Dívida Pública, entre 2009 e 2010, e olha que a CPI tem poder de intimação judicial, o Banco Central informou quem são os detentores da dívida brasileira. Eles chegaram a responder que não sabiam porque esses títulos são vendidos nos leilões. O que a gente sabe que é mentira. Porque, se eles não sabem quem são os detentores dos títulos, para quem eles estão pagando os juros? Claro que eles sabem. Se você tem uma dívida e não sabe quem é o credor, para quem você vai pagar? Em outro momento chegaram a falar que essa informação era sigilosa. Seria uma questão de sigilo bancário. O que é uma mentira também. A dívida é pública, a sociedade é que está pagando. O salário do servidor público não está na internet? Por que os detentores da dívida não estão? Nós temos que criar uma campanha nacional para saber quem é que está levando vantagem em cima do Brasil e provocando tudo isso.

CC: Qual é a relação entre os juros da dívida pública e o ajuste fiscal, em curso hoje no Brasil?
MLF: Todo mundo fala no corte, no ajuste, na austeridade e tal. Desde o Plano Real, o Brasil produz superávit primário todo ano. Tem ano que produz mais alto, tem ano que produz mais baixo. Mas todo ano tem superávit primário. O que quer dizer isso, superávit primário? Que os gastos primários estão abaixo das receitas primárias. Gasto primários são todos os gastos, com exceção da dívida. É o que o Brasil gasta: saúde, educação…exceto juros. Tudo isso são gastos primários. Se você olhar a receita, o que alimenta o orçamento? Basicamente a receita de tributos. Então superávit primário significa que o que nós estamos arrecadando com tributos está acima do que estamos gastando, estão está sobrando uma parte.

CC: E esse dinheiro que sobra é para pagar os juros dívida pública?
MLF: Isso, e essa parte do superávit paga uma pequena parte dos juros porque, no Brasil, nós estamos emitindo nova dívida para pagar grande parte dos juros. Isso é escândalo, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe o que se chama de anatocismo. Quando você contrata dívida para pagar juros, o que você está fazendo? Você está transformando juros em uma nova divida sobre a qual vai incidir juros. É o tal de juros sobre juros. Isso cria uma bola de neve que gera uma despesa em uma escala exponencial, sem contrapartida, e o Estado não pode fazer isso. Quando nós investigamos qual é a contrapartida da dívida interna, percebemos que é uma dívida de juros sobre juros. A divida brasileira assumiu um ciclo automático. Ela tem vida própria e se retroalimenta. Quando isso acontece, aquele juros vai virar capital.  E, sobre aquele capital, vai incidir novos juros. E os juros seguintes, de novo vão se transformados em capital. É, por isso, que quando você olha a curva da dívida pública, a reta resultante é exponencial. Está crescendo e está quase na vertical. O problema é que vai explodir a qualquer momento.

CC: Explodir por quê?
MLF: Por que o mercado – quando eu falo em mercado, estou me referindo aos dealers – está aceitando novos títulos da dívida como pagamento em vez de receber dinheiro moeda? Eles não querem receber dinheiro moeda, eles querem novos títulos, por dois motivos. Por um lado, o mercado sabe que o juros vão virar novo título e ele vai ter um volume cada vez maior de dívidas para receber. Segundo: dívida elevada tem justificado um continuo processo de privatização. Como tem sido esse processo? Entrega de patrimônio cada vez mais estratégico, cada vez mais lucrativo. Nós vimos há pouco tempo a privatização de aeroportos. Não é pouca coisa os aeroportos de Brasília, de São Paulo e do Rio de Janeiro estarem em mãos privadas. O que no fundo esse poder econômico mundial deseja é patrimônio e controle. A estratégia do sistema da dívida é a seguinte: você cria uma dívida e essa dívida torna o pais submisso. O país vai entregar patrimônio atrás de patrimônio. Assim nós já perdemos as telefônicas, as empresas de energia elétrica, as hidrelétricas, as siderúrgicas. Tudo isso passou para propriedade desse grande poder econômico mundial. E como é que eles [dealers] conseguem esse poder todo? Aí entra o financiamento privado de campanha. É só você entrar no site do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] e dar uma olhada em quem financiou a campanha desses caras. Ou foi grande empresa ou foi banco. O nosso ataque em relação à dívida é porque a dívida é o ponto central, é a espinha dorsal do esquema.

CC: Como funcionaria a auditoria da dívida na prática? Como diferenciar o que é dívida legítima e o que não é?
MLF: A auditoria é para identificar o esquema de geração de dívida sem contrapartida. Por exemplo, só deveria ser paga aquela dívida que preenche o requisito da definição de dívida. O que é uma dívida? Se eu disser para você: ‘Me paga os 100 reais que você me deve’. Você vai falar: “Que dia você me entregou esses 100 reais?’ Só existe dívida se há uma entrega. Aconteceu isso aqui na Grécia. Mecanismos financeiros, coisas que não tinham nada ver com dívida, tudo foi empurrado para as estatísticas da dívida. Tudo quanto é derivativo, tudo quanto é garantia do Estado, os tais CDS [Credit Default Swap – espécie de seguro contra calotes], essa parafernália toda desse mundo capitalista ‘financeirizado’. Tudo isso, de uma hora para outra, pode virar dívida pública. O que é a auditoria? É desmascarar o esquema. É mostrar o que realmente é dívida e o que é essa farra do mercado financeiro, utilizando um instrumento de endividamento público para desviar recursos e submeter o País ao poder financeiro, impedindo o desenvolvimento socioeconômico equilibrado. Junto com esses bancos estão as grandes corporações e eles não têm escrúpulos. Nós temos que dar um basta nessa situação. E esse basta virá da cidadania. Esse basta não virá da classe politica porque eles são financiados por esse setor. Da elite, muito menos porque eles estão usufruindo desse mecanismo. A solução só virá a partir de uma consciência generalizada da sociedade, da maioria. É a maioria, os 99%, que está pagando essa conta. O Armínio Fraga [ex-presidente do Banco Central] disse isso em depoimento na CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] da Dívida, em 2009, quando perguntado sobre a influência das decisões do Banco Central na vida do povo. Ele respondeu: “Olha, o Brasil foi desenhado para isso”.

CC: Quanto aproximadamente da dívida pública está na mão dos bancos e de grandes empresas? O Tesouro Direto, que todos os brasileiros podem ter acesso, corresponde a que parcela do montante?
MLF: Essa história do Tesouro Direto é para criar a impressão que a dívida pública é um negócio correto, que qualquer um pode entrar lá e comprar. E, realmente, se eu ou você comprarmos é uma parte legítima. Agora, se a gente entrar lá e comprar, não é direto. É só para criar essa ilusão. Tenta entrar lá para comprar um título que seja. Você vai chegar numa tela em que vai ter que escolher uma instituição financeira. E essa instituição financeira vai te cobrar uma comissão que não é barata. Ela não vai te pagar o juros todo do título, ela vai ficar com um pedaço. O banco, o dealer, que compra o título da dívida é quem estabelece os juros. Ele estabelece os juros que ele quer porque o governo lança o título e faz uma proposta de juros. Se, na hora do leilão, o dealer não está contente com aquele patamar de juros, ele não compra. Ele só compra quando o juros chega no patamar que ele quer. Invariavelmente, os títulos vêm sendo vendidos muito acima da Selic [taxa básica de juros]. Em 2012, quando a Selic deu uma abaixada e chegou a 7,25%, nós estávamos acompanhando e os títulos estavam sendo vendidos a mais de 10% de juros. E eles sempre compram com deságio. Se o título vale 1000 reais, ele compra por 960 reais ou 970 reais, depende da pressão que ele quer impor no governo aquele dia. Olha a diferença. Se você compra no Tesouro Direto, você não vai ter desconto. Pelo contrário, você vai ter que pagar uma comissão. E você também não vai mandar nos juros. É uma operação totalmente distinta da operação direta de verdade que acontece lá no leilão.

CC: Por que é tão difícil colocar a auditoria em prática? Como o mercado financeiro costuma reagir a uma auditoria?
MLF: O mercado late muito, mas na hora ele é covarde. Lá no Equador, quando estávamos na reta final e vários relatórios preliminares já tinham sido divulgados, eles sabiam que tínhamos descoberto o mecanismo de geração de dívida, várias fraudes. Eles fizeram uma proposta para o governo de renegociação. Só que o Rafael Correa [atual presidente do Equador] não queria negociar. Ele queria recomprar e botar um ponto final. Porque quando você negocia, você dá uma vida nova para a dívida. Você dá uma repaginada na dívida. Ele não queria isso. Ele queria que o governo dele fosse um governo que marcasse a história do Equador. Ele sabia que, se aceitasse, ficaria subjugado à dívida. Ele foi até o fim, fez uma proposta e o que os bancos fizeram? 95% dos detentores dos títulos entregaram. Aceitaram a oferta de recompra de no máximo 30% e o Equador eliminou 70% de sua dívida externa em títulos. No Brasil, durante os dez meses da CPI da Dívida, a Selic não subiu. Foi incrível esse movimento. Nós estamos diante de um monstro mundial que controla o poder financeiro e o poder político com esquemas fraudulentos. É muito grave isso. Eu diria que é um mega esquema de corrupção institucionalizado.

CC: O mercado financeiro e parte da imprensa costumam classificar a auditoria da dívida de calote. Por que a auditoria da dívida não é calote?
MLF: A auditoria vai investigar e não tem poder de decisão do que vai ser feito. A auditoria só vai mostrar. No Equador, a auditoria só investigou e mostrou as fraudes, mecanismos que não eram dívidas, renúncias à prescrição de dívidas. O que é isso? É um ato nulo. Dívidas que já estavam prescritas. Uma dívida prescrita é morta. E isso aconteceu no Brasil também na época do Plano Brady, que transformou dívidas vencidas em títulos da dívida externa. Depois, esses títulos da dívida externa foram usados para comprar nossas empresas que foram privatizadas na década de 1990: Vale, Usiminas…tudo comprado com título da dívida em grande parte. Você está vendo como recicla? Aqui, na Grécia, o país está sendo pressionado para pagar uma dívida ilegítima. E qual foi a renegociação feita pelo [Geórgios] Papandréu [ex-primeiro-ministro da Grécia]? Ele conseguiu um adiamento em troca de um processo de privatização de 50 bilhões de euros. Esse é o esquema. Deixar de pagar esse tipo de dívida é calote? A gente mostra, simplesmente, a parte da dívida que não existe, que é nula, que é fraude. No dia em que a gente conseguir uma compreensão maior do que é uma auditoria da dívida e a fragilidade que lado está do lado de lá, a gente muda o mundo e o curso da história mundial.

CC: Em comparação com o ajuste fiscal, que vai cortar 70 bilhões de reais de gastos, tem alguma estimativa de quanto a auditoria da dívida pública poderia economizar de despesas para o Brasil?
MLF: Essa estimativa é difícil de ser feita antes da auditoria, porém, pelo que já investigamos em termos de origem da dívida brasileira e desse impacto de juros sobre juros, você chega a estimativas assustadoras. Essa questão de juros sobre juros eu abordei no meu último livro. Nos últimos anos, metade do crescimento da divida é nulo. Eu só tive condição de fazer o cálculo de maneira aritmética. Ficou faltando fazer os cálculos de 1995 a 2005 porque o Banco Central não nos deu os dados. E mesmo assim, você chega a 50% de nulidade da dívida, metade dela. Consequentemente para os juros seria o mesmo [montante]. Essa foi a grande jogada do mercado financeiro no Plano Real porque eles conseguiram gerar uma dívida maluca. No início do Plano Real os juros brasileiros chegaram a mais de 40% ao ano. Imagina uma divida com juros de 40% ao ano? Você faz ela crescer quase 50% de um ano para o outro. E temos que considerar que esses juros são mensais. O juro mensal, no mês seguinte, o capital já corrige sobre o capital corrigido no mês anterior. Você inicia um processo exponencial que não tem limite, como aconteceu na explosão da dívida a partir do Plano Real. Quando o Plano Real começou, nossa dívida estava em quase 80 bilhões de reais. Hoje ela está em mais de três trilhões de reais. Mais de 90% da divida é de juros sobre juros.

CC: E isso é algo que seria considerado ilegal na auditoria da dívida pública?
MLF: É mais do que ilegal, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe juros sobre juros para o setor público. Tem uma súmula do Supremo Tribunal Federal, súmula 121, que diz que ainda que tenha se estabelecido em contrato, não pode. É inconstitucional. Tudo isso é porque tem muita gente envolvida, favorecida e mal informada. Esses tabus, essa questão do calote, muita gente fala isso. Eles tentam desqualificar. Falamos em auditoria e eles falam em calote. Mas estou falando em investigar. Se você não tem o que temer, vamos abrir os livros. Vamos mostrar tudo. Se a dívida é tão honrada, vamos olhar a origem dessa dívida, a contrapartida dela.

CC: Ao longo da entrevista, a senhora citou diversos momentos da história recente do Brasil, o que mostra que esse problema vem desde o governo Fernando Henrique Cardoso, e passou pelas gestões Lula e Dilma. Mas como a questão da dívida se agravou nos últimos anos? A dívida externa dos anos 1990 se transformou nessa dívida interna de hoje?
MLF: Houve essa transformação várias vezes na nossa história. Esses movimentos foram feitos de acordo com o interesse do mercado. Tanto de interna para externa, como de externa para interna, de acordo com o valor do dólar. Esses movimentos são feitos pelo Banco Central do Brasil em favor do mercado financeiro, invariavelmente. Quando o dólar está baixo, e seria interessante o Brasil quitar a dívida externa, por precisar de menos reais, se faz o contrário. Ele contrai mais dívida em dólar. Esses movimentos são sempre feitos contra nós e a favor do mercado financeiro.

CC: E o pagamento da dívida externa, em 2005?
MLF: O que a gente critica no governo Lula é que, para pagar a dívida externa em 2005, na época de 15 bilhões de dólares, ele emitiu reais. Ele emitiu dívida interna em reais. A dívida com o FMI [Fundo Monetário Internacional] era 4% ao ano de juros. A dívida interna que foi emitida na época estava em média 19,13% de juros ao ano. Houve uma troca de uma dívida de 4% ao ano para uma de 19% ao ano. Foi uma operação que provocou danos financeiros ao País. E a nossa dívida externa com o FMI não era uma dívida elevada, correspondia a menos de 2% da dívida total. E por que ele pagou uma dívida externa para o FMI que tinha juros baixo? Porque, no inconsciente coletivo, divida externa é com o FMI. Todo mundo acha que o FMI é o grande credor. Isso, realmente, gerou um ganho político para o Lula e uma tranquilidade para o mercado. Quantos debates a gente chama sobre a dívida e as pessoas falam: “Esse debate já não está resolvido? Já não pagamos a dívida toda?’. Não são poucas as pessoas que falam isso por conta dessa propaganda feita de que o Lula resolveu o problema da dívida. E o mercado ajuda a criar essas coisas. Eu falo o mercado porque, na época, eles também exigiram que a Argentina pagasse o FMI. E eles também pagaram de forma antecipada. Você vê as coisas aconteceram em vários lugares, de forma simultânea. Tudo bem armado, de fora para dentro, na mesma época.

CC: O que a experiência grega de auditoria da dívida poderia ensinar ao Brasil, na sua opinião?
MLF: São muitas lições. A primeira é a que ponto pode chegar esse plano de austeridade fiscal. Os casos aqui da Grécia são alarmantes. Em termos de desemprego, mais de 100 mil jovens formados deixaram o país nos últimos anos porque não têm emprego. Foram para o Canadá, Alemanha, vários outros países. A queda salarial, em média, é de 50%. E quem está trabalhando está feliz porque normalmente não tem emprego. Jornalista, por exemplo, não tem emprego. Tem até um jornalista que está colaborando com a nossa comissão e disse que só não está passando fome por conta da ajuda da família. A maioria dos empregos foram flexibilizados, as pessoas não têm direitos. Serviços de saúde fechados, escolas fechadas, não tem vacina em posto de saúde. Uma calamidade terrível. Trabalhadores virando mendigos de um dia para o outro. Tem ruas aqui em que todas as lojas estão fechadas. Todos esses pequenos comerciantes ou se tornaram dependentes da família ou foram para a rua ou, pior, se suicidaram. O número de suicídios aqui, reconhecidamente por esse problema econômico, passa de 5 mil. Tem vários casos de suicídio em praça pública para denunciar. Nesses dias em que estou aqui, houve uma homenagem em frente ao Parlamento para um homem que se suicidou e deixou uma carta na qual dizia que estava entregando a vida para que esse plano de austeridade fosse denunciado.

CartaCapital nº 1079

8 de Novembro de 2019