Pedaços, trechos, galhos de uma árvore plantada por João Guimarães Rosa
Compadre meu Quelemem sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons-espíritos me protegem. [18]
Mas minha velhice já principiou, errei de toda conta. E o reumatismo... Lá como quem diz: nas escorvas. Ahâ. Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoicer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma [19]
Vai e acontece, que, perto mesmo de mim, defronte, tomou assento, voltando deste brabo Norte, um moço Jazevedão, delegado profissional. Vinha com um capanga dele, um secreta, e eu bem sabia os dois, de que tanto um era ruim, como o outro ruim era. A verdade que diga, primeiro tive o estrito de me desbancar para um longe dali, mudar de meu lugar. Juízo me disse, melhor ficasse. Pois, ficando, olhei. E - lhe falo: nunca vi cara de homem fornecida de bruteza e maldade mais, do que nesse. Como era urco (cavalo grande e bonito), trouxo de atarracado, reluzia em crú nos olhos pequenos, e armava um queixo de pedra, sobrancelhas; não demedia nem testa. Não ria, não se riu nem uma vez; mas falando ou calado, a gente via sempre dele algum dente, presa pontuda de guará. [20]
Mas, as barbaridades que esse delegado (Jazevedão) fez e aconteceu, o senhor nem tem calo em coração para poder me escutar. Conseguiu de muito homem e mulher chorar sangue, por este simples universozinho nosso aqui. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal... [21]
Dor de corpo dor de ideia marcaram forte, tão forte como todo amor e raiva de ódio. Vai, mar... De sorte que, então, olhe: o Firmino, por apelidado Piolho-de-Cobra, se lazarou com a perna desconforme engrossada, dessa doença que não se cura; e não enxergava quase mais, constante o branquiço nos olhos, das cataratas. De antes, anos, teve de se desarrear da jagunçagem. Pois, uma ocasião, algum esteve no rancho dele, no Alto Jequitaí, depois contou - que, vira tempo, vem assunto, ele dissesse: - "Me dá saudade é de pegar um soldado, e tal, pra uma boa esfola, com faca cega... Mas, primeiro castrar... " O senhor concebe? Quem tem mais dose de demo em si é índio, qualquer raça de bugre. (...) Piolho-de-Cobra se dava de sangue de gentio. Senhor me dirá: mas que ele pronuncêia aquilo fora de boca, maneira de representar que ainda não estava velho decadente. Obra de opor, por medo de ser manso, e causapara se ver respeitado.[23]
De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece e para a devoção. Bem-querer de minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também - mas Diadorim é a minha neblina. [23]
É noite de muito volume. Treva toda no sertão, sempre me fez mal. Diadorim, não, ele não largava o fogo de gelo daquela ideia e nunca se cismava. Mas eu queria que a madrugada viesse. Dia quente noite fria. Arrancávamos canela-de-ema, para acender fogueira. Se a gente tinha o que comer e beber, eu dormia logo. Sonhava. Só sonho, mal ou bem, livrado. Eu tinha uma lua recolhida. Quando o dia quebrava as barras, eu escutava outros pássaros. Tirirí, graúna, a fariscadeira, juriti-do-peito-branco ou a pomba-vermelha-do-mato-virgem. Mas mais o bem-te-vi. Atrás e adiante de mim, por toda a parte, parecia que era um bem-te-ví só - "Gente! Não se acha até que ele é sempre um, em mesmo?" - perguntei a Diadorim. Ele não aprovou, e estava incerto de feições. Quando meu amigo ficava assim, eu perdia meu bom sentir. E permaneci duvidando que seria - que era um bem-te-ví exato, perseguindo minha vida em vez, me acusando de más-horas que eu ainda não tinha procedido. Até hoje é assim. [30]
Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dôr. E a vida do homem está presa encantoada - erra rumo, dá em aleijões com esses, dos meninos sem pernas e braços. Dôr não dói até em criancinhas e bichos, e nos dôidos - não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? Ah, medo tenho não é de ver a morte, mas de ver o nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é a sua instrução do senhor..."[49-50]
NB: Entre colchetes [ ] a página do livro.
Grande sertão: veredas - "O diabo na rua, no meio do redemoinho" - Edição especial 70 anos, João Guimarães Rosa, 573 p., Companhia das Letras, 2026.

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