sexta-feira, 25 de setembro de 2026

FORA BET

Lula veta bets a nove dias das eleições e contraria medidas da própria gestão

Depósito para jogos fica proibido a partir da publicação da MP; apostadores poderão resgatar depósitos até 5 de outubro. Setor faturou R$ 57,1 bilhões, o saldo entre depósitos e prêmios pagos, durante primeiros 18 meses de atuação. 

Pedro S. Teixeira, fsp. 25.092026 às 18h20. Atualizado: 25.092026 às 20h17

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou nesta sexta-feira (25) uma medida provisória para jogar as apostas online na ilegalidade em todo o país, após vender, desde 2024, 85 outorgas a R$ 30 milhões cada com permissão para explorar a atividade por cinco anos.

O anúncio foi feito pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que disse que os governos anteriores trataram o tema com vergonha e descaso. Ele afirmou que não haverá devolução das outorgas, argumentando que eram uma "relação precária válida para aquele momento". Originalmente, a permissão deveria durar até o fim de 2029.

Uma das principais representantes das bets reguladas no Brasil, a ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) classificou a proibição como a aniquilação da livre iniciativa e da dignidade da pessoa humana. Para a entidade, mais de 30 milhões de apostadores serão jogados nas mãos de milhares de sites ilegais.

O presidente Lula (PT) durante reunião para tratar das bets no Brasil. - Pedro Ladeira - 1.set.26/Folhapress

Pelas novas regras, o depósito nas bets fica proibido a partir da publicação da MP. Os sites ficam no ar até às 23h59 do dia 5 de outubro para que os apostadores possam resgatar seus depósitos. No dia seguinte, o governo inicia uma força-tarefa, com Anatel e CGI (Comitê Gestor da Internet) para tirar todas as plataformas do ar.

Entre os dias 6 e 14 de outubro, as instituições financeiras, por ordem do Banco Central, começarão a individualizar os saldos das contas-bolsão das bets a fim de identificar as quantias de cada cliente. Esses dados serão repassados para a Caixa, que fará a intermediação da devolução dos valores remanescentes.

No momento da publicação da MP no Diário Oficial da União, também fica proibida a contratação de novos anúncios de apostas online. Os contratos vigentes poderão ser cumpridos até 5 de outubro.

A medida também determina a proibição de transferências, via Pix ou TED, para CNPJs cuja CNAE esteja ligada a apostas online. "O objetivo é que essas empresas não possam sequer receber transferências financeiras", disse Durigan.

O ministro da Saúde, Alexandre de Padilha, disse que sua pasta vai usar os dados da SPA de quem apostava, frequência de jogo e pedidos de autoexclusão para fazer uma busca ativa das pessoas com possíveis problemas de dependência do jogo. O SUS oferece, hoje, 100 mil teleatendimentos para pessoas diagnosticadas. "Temos a obrigação de continuar cuidando dessas pessoas."

UNIVERSO DE JOGADORES

Dados do Ministério da Fazenda, obtidos via Lei de Acesso à Informação, mostram que 43,8 milhões de brasileiros já tinham apostado até o fim de agosto, embora a quantidade de apostadores ativos estivesse baixando, devido a restrições já implementadas contra beneficiários de programas sociais e do programa Desenrola, contra o endividamento. 

Nos três primeiros semestres de mercado legal, o prejuízo para os jogadores foi de R$ 57,1 bilhões — o valor que as bets faturaram no período.

A medida partiu da campanha eleitoral de Lula e contraria iniciativas da própria gestão petista, que apresentou o projeto de lei de regulamentação do setor com pedido de urgência, trabalhou para a inclusão dos caça-níqueis online como o jogo do tigrinho no arcabouço e se articulou para derrubar limites na publicidade das chamadas bets.

As bets se tornaram um dos temas centrais do governo e da campanha de reeleição do petista. Um dos motivos são estudos que ligam o acesso a essas plataformas ao aumento do endividamento e ao vício. Além disso, a oposição a essas empresas é popular junto ao eleitorado, e serve para o petista buscar mais votos a pouco mais de uma semana do primeiro turno das eleições.

O pacote apresentado no evento inclui um projeto de lei para criminalizar a exploração do jogo, com previsão de pena de até seis anos de prisão. De acordo com o ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, o governo vai propor a criação de cinco novos tipos penais ligados ao jogo de azar na internet no projeto enviado ao Congresso em regime de urgência.

Entre 2023 e 2024, o governo apresentou a regulamentação como uma forma de combater a lavagem de dinheiro, aumentar a arrecadação e gerar empregos. Disse ainda que era uma exigência legal, dado que a última lei sancionada pelo então presidente Michel Temer (MDB) que liberou as apostas online no país determinava a regulamentação em até quatro anos. O governo Bolsonaro se omitiu da responsabilidade por pressão de parlamentares evangélicos.

Em nota, o Ministério da Fazenda afirmou que a regulação do setor "manteve o foco na proteção das pessoas, com regras rígidas de entrada, combate à lavagem de dinheiro, controle dos meios de pagamento, proteção de crianças e adolescente e responsabilização das empresas na relação com os cidadãos".

O setor de apostas online diz que o veto pode levar à dispensa de até 10 mil empregos diretos, mas parte das empresas deve manter suas equipes, para testar se as medidas do Executivo resistirão à Justiça e ao Legislativo. As bets são um setor com baixa intensidade de trabalho, tendo a maior parte de seu investimento dedicado ao marketing e à tecnologia.

Desde quarta-feira (23), representantes das plataformas de apostas dizem que irão recorrer à Justiça para buscar a devolução das outorgas pagas e o ressarcimento dos investimentos realizados. https://c-level.folha.uol.com.br/negocios/2026/09/bets-ameacam-ir-a-justica-contra-possivel-veto-do-governo-para-pedir-de-volta-r-30-mi-de-outorga.shtml

As associações do setor também já buscam frentes parlamentares ligadas ao centrão, o maior bloco do Congresso, para levantar oposição à iniciativa governista. A FPLM (Frente Parlamentar pelo Livre Mercado) elaborou um estudo estimando desfalque de R$ 2,69 bilhões em repasses aos estados devido à suspensão da destinação social de 13% sobre as receitas das bets — parte vai a ministérios e outra a associações beneficentes da saúde e do esporte.

Segundo dados da Receita Federal, a arrecadação com o setor foi de cerca de R$ 10 bilhões em 2025. Já no primeiro semestre de 2026, foram arrecadados cerca de R$ 7,3 bilhões. Em 2027, ainda havia previsão de tributação da atividade por meio do imposto seletivo, chamado popularmente de "imposto do pecado". 

Bruno Moretti, ministro do Planejamento, disse que haverá ajustes no Projeto de Lei Orçamentária Anual para se adaptar à ausência de arrecadação vinda das bets, como as destinações sociais. No PLOA, o governo indicava que receberia cerca de R$ 5 bilhões com essas destinações sociais, taxa de fiscalização e novas outorgas.

As cifras ainda descontam uma taxa de fiscalização cobrada pela Secretaria de Prêmios e Apostas, subordinada à Fazenda, e a eventual compra de novas outorgas — a segunda maior bet dos EUA, DraftKings, por exemplo, negociava sua entrada no país.

Reportagem da Folha também mostrou que o fim das apostas lícitas deve ter impacto nas emissoras de televisão e nos times de futebol, embora não seja um golpe fatal. Os contratos publicitários das empresas do setor têm cláusulas destinadas a mudanças regulatórias. Bets que patrocinam programas de televisão notificaram emissoras como Globo, Band e RedeTV!. Elas avisaram que rescindiriam contratos caso Lula decidisse banir as casas de apostas no Brasil.

O setor é um dos que mais anunciam em programas de TV aberta, com investimento declarado de R$ 153 milhões só em agosto. Segundo a coluna Outro Canal, https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/outro-canal/ setores comerciais da Globo, da ESPN, da TNT Sports e da CazéTV se articulam nos bastidores em busca de alternativas.

As casas de apostas que patrocinam times das Séries A e B do Campeonato Brasileiro também notificaram os clubes sobre a possibilidade de romper os vínculos comerciais de forma imediata. De acordo com integrantes do governo, após o período de restrições eleitorais, também devem ser anunciadas medidas de amparo aos clubes de futebol, como um possível aumento na concessão de crédito ou renegociação de dívidas.

De acordo com o Painel, a campanha de Lula aposta que a decisão do presidente de proibir as bets pega no contrapé a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). A avaliação é que o senador não teria como fazer reparos à medida, que tem apelo popular e agrada a uma parte importante de sua base, a dos evangélicos. Pesquisas internas do PT também mostram popularidade do veto às bets entre as mulheres, eleitorado no qual Lula tenta abrir vantagem.

Um levantamento do instituto Ipsos-Ipec, realizado com a entidade More in Common, mostrou, em julho, que 18% dos entrevistados atribuíam a culpa do avanço das bets ao petista, enquanto 4% ligavam a situação à gestão bolsonarista e 33%, às duas gestões — 35% diziam que não era culpa do governo.

A proibição seria uma forma de reverter a imagem pública de Lula em relação às bets, que faz fortes críticas à atividade desde o ano passado, embora seu Ministério da Fazenda tenha comandado o desenho do atual mercado regulado. A iniciativa seria uma continuidade do cerco regulatório iniciado em junho, após a quantidade de anúncios de apostas ter espantado os espectadores brasileiros.

Como vídeo nas redes sociais fez governo mudar regulação das bets durante a Copa - vídeo 


VEJA LINHA DO TEMPO DA REGULAÇÃO DAS BETS NO BRASIL

Nov.2018: O Congresso Nacional aprova por aclamação a Medida Provisória 846/2018, que cria a modalidade de apostas esportivas de quota fixa no Brasil sob o pretexto de destinar verbas à segurança pública.

12.dez.2018: O presidente Michel Temer sanciona a Lei 13.756/2018, legalizando o setor. A legislação estabelece prazo de dois anos, prorrogáveis por mais dois, para o Ministério da Fazenda regulamentar a atividade.

12.dez.2022: Esgota-se o prazo legal de quatro anos para a regulamentação das apostas. O governo de Jair Bolsonaro não edita o decreto regulamentador, permitindo a operação das empresas no país sem regras tributárias ou de fiscalização.

25.jul.2023: O Executivo apresenta o PL 3.626/2023 com pedido de urgência. A exposição de motivos defende resultados positivos da regulação e a contenção do mercado ilegal.

13.set.2023: A Câmara dos Deputados amplia o texto para incluir eventos virtuais (jogos online). O governo orienta voto contrário à Emenda 26, que proibiria apostas por inadimplentes e beneficiários do CadÚnico e do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

12.dez.2023: O Senado aprova emenda que retira os jogos online do projeto.

22.dez.2023: A Câmara derruba a exclusão feita pelo Senado. O governo e sua federação partidária orientam voto pela manutenção dos jogos online. A Lei 14.790/2023 é sancionada em 29 de dezembro.

26.dez.2025: Sancionada a Lei Complementar 224/2025, que eleva a carga tributária sobre a receita bruta dos jogos (GGR) de forma escalonada para a seguridade social.

Jul.2026: O governo edita portarias (SPA/MF nº 1.964 e Interministerial nº 73) impondo advertências obrigatórias e regras de proteção ao consumidor em ações de publicidade.

2.set.2026: Comissão do Senado aprova substitutivo do PL 2.470/2026. O texto veda publicidade e patrocínio de apostas e prevê a retirada de jogos de risco excessivo, estipulando prazos de transição.

18 e 19.set.2026: Lula critica publicamente o acesso ao jogo via celulares e o endividamento da população, sinalizando a edição de uma medida provisória com restrições ao setor.

25.set.2026: Governo Lula assina medida provisória proibindo as bets e envia projeto de lei para criminalizar a exploração de apostas online

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Peixe

Flávio e a sombra dos milicianos

É extremamente preocupante que um candidato à Presidência tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um miliciano condenado pelo Supremo pela morte de Marielle

O Estado 23/09/2026 

Este jornal informou na primeira página de sua edição de ontem que, em 2023, uma assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou pessoalmente com o miliciano Robson Calixto, vulgo “Peixe”, o repasse de quase R$ 200 mil provenientes de emenda parlamentar em troca de vantagens indevidas. A negociata já seria escandalosa se Flávio não fosse candidato à Presidência da República e se o tal “Peixe” fosse um sicário qualquer, desses com os quais a população do Rio de Janeiro, lamentavelmente, acostumou-se a conviver. Ocorre que Flávio não só é candidato, como tem boas chances de ser eleito. E “Peixe”, definitivamente, não é um ilustre desconhecido do sistema de Justiça.


Em fevereiro deste ano, por unanimidade, “Peixe” foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão em regime fechado por ter participado do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. O indigitado era uma espécie de “faz-tudo” para os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, mandantes do crime, e elo da dupla com a milícia da zona oeste da capital fluminense de onde saiu o facínora Ronnie Lessa, autor dos disparos. Todos cumprem pena presos.


É extremamente preocupante, para dizer o mínimo, que um candidato à Presidência da República tenha mantido vínculo tão próximo com um criminoso de sangue até pouco tempo atrás. Para piorar, confrontado com um fato dessa gravidade, Flávio se limitou a dar uma resposta protocolar, afirmando, por meio de nota, que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente” e que a responsabilidade pela prestação de contas é de quem recebe os recursos, não do parlamentar. Sobre o fato mais escabroso – a proximidade entre o senador e um miliciano condenado –, Flávio não deu uma satisfação sequer aos eleitores.


Talvez seja mesmo difícil para o candidato tratar do tema com mais objetividade. Afinal, faz mais de duas décadas que, por onde quer que ande, Flávio Bolsonaro está sempre acompanhado pela sombra dos milicianos do Rio de Janeiro com os quais se relaciona, abertamente, desde o seu primeiro mandato como deputado estadual, iniciado em 2003. A ligação entre Flávio e “Peixe”, por mais problemática que seja, não é um desvio pontual.


Recorde-se que, em 2007, Flávio subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para legitimar as milícias como um “novo tipo de policiamento”. Na ocasião, o então deputado estadual reduziu os crimes praticados por milicianos – não raro policiais e bombeiros corruptos – a “casos isolados”. Em outro discurso, Flávio chegou a dizer que “não se importaria” em pagar mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” às milícias para “ter mais segurança”. Ele sabia do que falava. Além de condecorar dezenas de milicianos, pouco tempo depois, Flávio empregara em seu gabinete na Alerj familiares de um dos mais temidos matadores do País, Adriano da Nóbrega, capo da milícia Escritório do Crime, baseada em Rio das Pedras.


Adriano seria morto durante troca de tiros com a polícia em 2020, escondido sob nome falso no interior da Bahia. Mas o grupo criminoso que ergueu em Rio das Pedras, envolvido no assassinato de Marielle Franco, sobreviveu a ele – e agora volta às páginas do jornal pela negociação do tal “Peixe” e a assessora de Flávio Bolsonaro.


Estamos a poucos dias da eleição que definirá o futuro presidente do Brasil. Por óbvio, não é questão menor ter entre os postulantes à chefia de Estado e de governo um candidato cuja biografia política está indelevelmente marcada por vínculos estreitos e reiterados – e jamais devidamente explicados – com membros de organizações criminosas responsáveis por execuções sumárias, extorsões, exploração ilegal do comércio e controle social, na base do terror, sobre larguíssimas porções do território do Rio de Janeiro.


Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Grande sertão: veredas - Cap. 4

Grande sertão: veredas - "O diabo na rua, no meio do redemoinho" - Edição especial 70 anos, João Guimarães Rosa, p. 523, Companhia das Letras, 2026.

Continuação de Grande sertão: veredas - Cap. 3 ( ver aqui) 

NB: Entre colchetes [ ] as páginas do livro.

Com ele (Alaripe) a gente desproduzia qualquer remorso

Joaquim Beijú e o Quipes ainda foram na cozinha, cortar um de-comer, arranjar matula. Por essa volta, o Jacaré mesmo combatia também, às vezes em que não estava cozinhando, e vinha atirar, da beira duma janela, com o Mijafogo. A noite breava própria; o mais escuro ia ser regulando em antes das dez horas, que quando depois podia subir um caco de lua. Aos poucos, foi dando um tão respeitável silêncio, não se atirava de parte nem de outra, a gente mesma ficava na cautela de não se fabricar rumor nenhum, de não se pautear sem necessidade. De noite, o clarão das pólvoras marca denúncia do lugar do atirador. - "Noite é p'ra surpresas de estratagemas, noite é de bicho no usável..." - o Alaripe baixo falou. O cearense bom: esse permanecia em tudo igual, com ele a gente desproduzia qualquer remorso, o brigar parava sendo obrigação de vivente, conciso dever de homem. Por uns assim, eu punia. Por uns, assim, eu devia de ser inteiro leal, eu mesmo. Mas, então, eu carecia de encostar Zé Bebelo, o espremer na franca fala. A que ele soubesse de minha lei: a que ele sem um aviso não se desgraçasse. Mesmo por causa da gente - porque Zé Bebelo era a perdição, mas também só ele podia ser a salvação nossa. Então, com ele eu ia falar, o quieto desafio. Adiantava? Ai não adiantasse. Mas, então, eu carecia de armar um poder, carecia de subir para clma daquele homem. Eu tinha de encher de medo as algibeiras de Ze Bebelo. Số isso era o que valia. [251]

Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio.

Mas, então, a soldadesca tinha vindo, alcançada, estavam chegando? Era. Era! Remexendo um rebuliço, de nós todos, mesmo porque os mais não conheciam aquele motivo, de nada não soubessem o tencionado. Os praças? O tiroteio deles, pegando os hermogenes de supetão, surpresa bruta, de retaguarda. Os tiros, que eram: .. a bala, bala, bala... bala, bala, bala... a bala: bá!.. desfechavam com metraIhadora. Aí arrejàrrajava, feito um capitão de vento. Até destroçavam também nas custas da Casa? - "Apre, meninos, faz mal não. A vantagem do valente é o silêncio do rumor.." -- Zé Bebelo sentenciava. Zé Bebelo trepava em altas serras. Duvidava de nada. Que vencia! Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio. [257]

No assim simples eles obedeceram

Depois, um sujeito apareceu, do capim, e veio, devia de ter passado por um rombo feito na cerca. A certa distância estava, no eirado, e um dos nossos disse, reconhecendo: -"Ah, é o Rodrigues Peludo, homem devoto do Ricardão..." Que era, que era - os outros companheiros concordaram. Atrás desse, meio engatinhando também, surgiu mais um: - "E o Lacrau!" E o Rodrigues Peludo virava para trás, falava qualquer coisa, parecia que estava mandando o Lacrau ir sembora. Mas o Lacrau teimava, seguia acompanhando o outro. - "Xente, dond' é que está se comparecendo esse Lacrau? Faz tempo que não se tinha ciência nenhuma dele." O qual era dos Gerais do Bolôr, terra jequitinhonha, e homem de certa valia. Caboclo claro. E que, ele sendo réu, tinha esfaqueado na sala de juúri um promotor, em outroras. De ver os dois, perto, assim pessoas, escada acima, e presentes em pé, diante da gente, nas decididas condições, achei muita esquisitice. Rodrigues Peludo levantou os olhos, feito se a gente estivesse no céu, e saudou normal. Daí disse:

- "Seô Chefe.."

"Homem, te vira de costa!" - Zé Bebelo regrou.

No assim simples eles obedeceram, tanto um, tanto o outro. Mas estavam muito armados. Momentos que foram, eu louvei a coragem calma daqueles dois. que de qualquer longe recanto um soldado talvez estivesse em poder de derrubar por belprazer. Porque os soldados não pertenciam nessa cerimônia. Afiguro o que pensei.

E Zé Bebelo perguntou, impondo ordem de resposta: que mandatela eles traziam? Do lado meu, o Diodôlfo chiava boca num dente, conforme sestro dele, e o José Gervásio sussurrou: "Tramoia..." Mas Zé Bebelo regia tudo, mão em revólver. Um homem falar seu recado, de costas, no meio dos contrários, na boca de tantas armas - o senhor já presenciou essas circunstâncias? Assim o Rodrigues Peludo deu conta, sem rasgo de tremor na voz:

"Com sua licença dada, e nos usos, estou trazendo estas palavras, Seô Chefe, que para repetir ao senhor fui mandado: - Que, em vistas desses soldados, e do mais, que é contra todos, se não era mais aproveitável, para uma parte e outra, de se fazer trato de paz, por uns tempos.. E por essa oferta é que venho, por ordens. Que - se serve, ou valor tem, o dito - pergunta faço; e se o senhor há de estar ou não de acordo, me dando a resposta que queira dar, para eu levar para os meus chefes..."

"Que chefes?" - Zé Bebelo indagou, sem tom de nenhuma malícia.

Rodrigues Peludo demorou um ponto, fazendo menção de virar o rosto, mas ○ que deixou em tempo de fazer. E contestou:

- "Nhô Ricardão. E seô Hermógenes..."

- "E eles então estão querendo paz?" "Estão propondo um acordo correto... [259-260]

Com os vivos é que a gente esconde os mortos

Mas isto tudo, que conto ao senhor, se compartiu de caber em pouquinhos minutos instantes. E do modo de um prosseguir sem partes. Porque Zé Bebelo, as mãos na cinta, se encurtava frio em siso, feito uma a cobra. O que disse, o quanto:

- "Homem, e o que mais?" 

- "Era tudo o que eu já falei, Chefe, seó. Ao que peço vossa resposta, para conduzir. E em caso de algum acordo, que é de bom respeito, as ordens tenho para com meu juramento fechar trato..." foi a resposta de Rodrigues Peludo, com a clara voz de quem está mais cumprindo do que querendo. Até inveja eu tive dele: porque, para viver um punhado completo, só mesmo em instâncias assim.

- "Antes bem" Zé Bebelo glosou, "quem é que está rodeando e vexando os outros, e atacando?"

"O em usos...-- é a gente... Isto é ..." - o Rodrigues Peludo compôs o con- fessar.

- "Ah. Isto era. Ah, e então?!"

- "Ao que vim ajustar é propostas. Ao para salvo e lucro das nulas partes. As ambas. Caso se Ossa Seoria se concorde." 

Somenos aprumo, nem o tom. Mas, de tudo seja, também, o que gravei, aí, desse Rodrigues Peludo, foi um ter-tem de existidas lealdades. Assim que, inimigo, persistia só inimigo, surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o desleixo de si. E que podia conceber sua outra razão, também. Assim que, então, os de lá - os judas - não deviam de ser somente os cachorros endoidecidos; mas, em tanto, pessoas, feito nós, jagunços em situação. Revés - que, por resgate da morte de Joca Ramiro, a terrível que fosse, agora se ia gastar o tempo inteiro em guerras e guerras, morrendo se matando, aos cinco, aos seis, aos dez, os homens todos mais valentes do sertão? Uma poeira dessa dúvida empoou minha ideia - como a areia que a mais fininha há: que é a que o rio Urucuia rola dentro de suas largas aguas, quando as chuvaradas do inverno. 

Ali, dos meus companheiros, tantos mortos. Acaso, que companheiros eram; e agora o que se depositava deles era o assunto de lembranças, e aquele amassado e envelhecido feder, que as horas repontava. Constado que produziam isso, mesmo estando amontoados no cômodo soturno, entrapadas as frestas da porta, e cá fora se torrando couros com folhas polvreadas. 

Mediante os estoques desse mau-cheiro, por certo Rodrigues Peludo e o Lacrau iam orçar a boa conta de nossos mortos, afora os feridos, leves graves 

Mas Ze Bebelo anteteve de mandar chamar Marcelino Pampa, João Concliz e muitos diversos outros, e o apinho e apessoar, nosso, ombros em ombros, aprazava efeito de bando signilicado, numeroso. Com os vivos é que a gente esconde os mortos. [260-261]

Uma tristeza meiga, muito definitiva

- "... Você se casa, Riobaldo, com a moça da Santa Catarina. Voces vão casar sei de mim, se sei; ela é bonita, reconheço, gentil moça paçã, peço a Deus que ela te tenha sempre muito amor... Estou vendo vocês dois juntos, tão juntos, prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Ah, o que as mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca, com muitas rendas.. A noiva, com o alvo véu de filó ..."

Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Melar mel de flôr. E me embebia - o que estava me ensinando a gostar da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho, se sonsom, teito se imaginasse sempre, a ío razoável de cada dia, no estar Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-amores para que minhas mãos gostassem deles mais. E Otaciia tomando conta da casa, de nossos filhos, que decerto íamos ter. Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em camisola fina de ló. Otacília indo por meu braço as festas da cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em seu vestido novo de molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse. De meu juízo eu perdi o que tinha sido começo da nossa discussão, agora só ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez alguma causa que ele até de si guardava e que eu não podia inteligir. Uma tristeza meiga, muito definitiva. [272]

A gente só sabe bem aquilo que não entende

No tempo, não apareci no meio daquilo. Assim foi que foi. Até que vieram uns companheiros, com João Concliz, Sidurino e João Vaqueiro, que ajuntaram lenhas e armaram um fogo bem debaixo do paratudo. Ao relançar das labaredas, e o refreixo das cores dando la acima nos galhos e folhas, essas trocavam tantos brilhos e rebriIhos, de dourado, vermelhos e alaranjado as brasas, essas esplendências, com mais realce que todas as pedras de Arassuaí, do Jequitinhonha e da Diamantina. Era dia-de-anos daquela árvore? Ao quando bem anoiteceu, foi assim. A gente só sabe bem aquilo que não entende.

O senhor veja: eu, de Diadorim, hoje em dia, eu queria recordar muito mais coisas, que valessem, do esquisito e do trivial; mas não posso. Coisas que se deitaram, esqueci fora do rendimento. O que renovar e ter eu não consigo, modo nenhum. Acho que é porque ele estava sempre tão perto demais de mim, e eu gostava demais dele. [272-273]

O que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma

A hora tinha de ser o comeco de muita aflição, eu pressentia. Raça daqueles homens era diverseada distante, cujos modos e usos, mal ensinada. Esses, mesmo no trivial, tinham capacidade para um ódio tão grosso, de muito alcance, que não custava quase que esforço nenhum deles; e isso com os podêres da pobreza inteira e apartada; e de como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio regedor eles nem divulgavam. Só o mau fato de se topar com eles, dava soloturno sombrio. Apunha algum quebranto. Mas mais que por conosco não avirem medida, haviam de ter rogado praga. De pensar nisso, eu até estremecia; o que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma. Aqueles homens eram orelhudos, que a regra da lua tomava conta deles, e dormiam farejando. E para obra e maleficios tinham muito governo. Aprendi dos antigos. Capatazia de soprar quente qualquer ódio nas folhas, e secar a árvore; ou de rosnar palavras em buraco pequeno que abriam no chão, tapando depois: para o caminho esperar a passagem de alguém, e a ele fazer mal; ou guardavam um punhado de terra no fechado da mão, no prazo de três noites e três dias, sem abrir, sem largar: e quando jogavam fora aquela terra, em algum lugar, nele com data de três meses ficava sendo uma sepultura... 

De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea. Numa o senhor põe ouro, na outra prata; depois, para ninguém não ver, elas o senhor fecha bem. E foi o que eu pensei. [280]

Eu comecei a tremeluzir em mim

E aquele lugar, o Valado, eu aceitei - senhor preste atenção! - ; para ficar, uns meus tempos, ali, ainda me valia. Senti assim, meu destino. Dormindo con um pano molhado em cima dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca, de noite o destino da gente as vezes conversa, sussurra, explica, até pede para não se atrapalhar o devido, mas ajudar. Crendice? Mas coração não é meio destino? Permanecer, ao menos ali, eu quis. Mas Zé Bebelo duvidou de ficar. Ze Bebelo suscitado determinou, que a gente fosse mais para adiante. Ele concebia medo. Conheci. Estava.

Zé Bebelo pegou a principiar medo! Por que? Chega um dia, se tem. Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiu podiam ter trazido o mau-ar, e que mesmo o Sucruiu ainda demeava vizinho justo demais. Tanto ri. Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo. Assim mesmo, em errei; disso não sabia. Mas o cabedal é um só, do misturado viver de todos, que mal varêia, e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se suprira certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim. [288]

Me ensina o que eu sabia

E ali, redizendo o que foi meu primeiro pressentimento, eu ponho que era por minha sina o lugar demarcado, começo de um grande penar em grandes pecados terríveis. Ali eu não devia nunca de me ter vindo; lá eu não devia de ter ficado. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse, no avistar o redondo daquilo e a velhice da casa. Que mesmo como coruja era - mas da orelhuda, mais mor, de tristes gargalhadas; porque a suindara é tão linda, nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma, por cima de riscas sedas de brancura. E aquele situado lugar não desmentia nenhuma tristeza. A vereda dele demorava uma aguinha chorada, demais. Até os buritís, mesmo, estavam presos. O que é que burití diz? Me ensina o que eu sabia... Bobice de todos. Só esta coisa o senhor guarde: meia-légua dali, um outro córgo-vereda, parado, sua água sem-cor por sobre de barro preto. Essas veredas eram duas uma perto da outra; e logo depois, alargadas, formavam um tristonho brejão, tão fechado de môitas de plantas, tão apodrecido que em escuro: marimbús que não davam salvação. Elas tinham um nome conjunto - que eram as Veredas-Mortas. [289]



domingo, 20 de setembro de 2026

Paulo Freire (19.9.1921 - 2.5.1997)

Educação tem nome próprio 

Paulo Freire propõe um método de conscientização como centro de sua teoria pedagógica. Foi autor de um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária.

Muniz Sodré, fsp, 19.9.2026

Se existisse o Prêmio Nobel da Educação, teria havido provavelmente a chance de o Brasil contar pela primeira vez com essa láurea. E o contemplado não poderia ser outro senão aquele cujos 105 anos agora se celebram, in memoriam: Paulo Freire, um dos três intelectuais mais citados na área de ciências humanas no mundo, com 48 títulos de doutor honoris causa por universidades como Harvard, Oxford e Cambridge, em várias das quais foi professor. Na França, incluído entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.

O educador Paulo Freire em 1963 - Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

É o Patrono da Educação do Brasil. Mas resta saber de que "Brasil" se trata. Não certamente o mesmo daqueles que o prenderam durante a ditadura militar, tentando desqualificar o seu método de alfabetização e seus conhecimentos sobre educação. Para eles, Paulo Freire não passaria de "um criptocomunista encapuzado sob a forma de alfabetizador". Cripto, encapuçado, quer dizer, "comunista oculto? Nunca foi, era cristão, católico de formação. Nem é também o mesmo país das figuras recentes da extrema direita que o elegeram como alvo de "guerra cultural". O ex-presidente hoje enjaulado prometia "entrar com um lança-chamas no MEC para tirar Paulo Freire de lá". Ainda que sem saber por quê, claro.

Não só: o parque jurássico da pedagogia sempre talhou carapuças injuriosas a Freire. O porquê pedagógico exigiria a redação de um tratado. Para começar, seria preciso deixar claro que Paulo Freire não foi mero "alfabetizador". Ele é mesmo uma exceção histórica, por destoar do liberalismo puro, valorizando a tomada de consciência das condições sociais em que se dá o processo educacional. Alguém que enfatiza a autonomia da consciência do educando e as práticas escolares afinadas com a compreensão dos conteúdos do saber.

Quem foi Paulo Freire - fotos

Pressupondo uma simbiose da consciência do mundo e da consciência de si, Freire propõe um "método de conscientização" como centro de sua teoria pedagógica. Portanto, um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária. Inovador nesse panorama é o fato de que, desde a década de 1990 no Brasil, os movimentos sociais ditos "rurais" ou "do campo" põem a educação entre as suas demandas principais. Presentes, a inspiração teórica de Freire e o fundo utópico que lastreia o direcionamento político de um projeto popular, ideologicamente apoiado na educação.

Voltada para as classes exteriores ao poder econômico-político, a educação freireana induz os movimentos sociais a se constituírem como sujeitos pedagógicos coletivos. Uma pedagogia shakespeareana do sonho construtivo: "I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space, were it not that I have bad dreams" (Hamlet, ato 2, cena 2). "Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e me achar rei do espaço infinito, se não tivesse maus sonhos". Falando da liberdade sonhada dentro de um espaço limitado, Shakespeare dialoga com Paulo Freire: a consciência se educa para ser livre, ainda que estreitos o seu entorno e a mente dos brucutus.



quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A educação e a IA

Todo mundo deveria estar falando disso.

PULSO IA por Maria Carolina Mariano

Olá, tudo bem?

Essa semana eu quero fazer uma coisa um pouco diferente. Em vez de contar uma cena da escola ou uma conversa que eu tive, eu quero sentar com vocês e ler um documento. Um relatório de umas trinta páginas, publicado pelo MIT no dia 13 de agosto, que, na minha leitura, é um dos documentos mais importantes sobre IA e educação que saiu esse ano, e que quase ninguém está comentando.

Eu traduzi os trechos que considero centrais. Vou colocar aqui, na ordem em que eles me chamaram atenção.

Quem escreveu isso, e por que importa que tenha sido o MIT?

Em janeiro de 2026, a reitoria do MIT montou um comitê com professores de todas as escolas do instituto, alunos de graduação e pós, bibliotecários e a equipe do laboratório de ensino. O pedido inicial era mapear como a IA estava sendo usada, levantar inovações em avaliação e propor uma política de uso.

Cinco meses depois, o comitê devolveu outra coisa. Logo na introdução, eles dizem que o que aprenderam os convenceu de que a comunidade precisava enfrentar perguntas mais profundas sobre a estrutura, o sentido e o valor de uma educação no MIT.

E aqui está o ponto que eu insisto no vídeo. Não é uma universidade qualquer. O laboratório de inteligência artificial do MIT foi fundado em 1959 por Marvin Minsky e John McCarthy, o homem que cunhou o termo “inteligência artificial”. Claude Shannon lecionava lá. Joseph Weizenbaum criou a ELIZA lá, em 1966, o primeiro chatbot da história (e o relatório lembra dela, com uma ironia bonita, porque a ELIZA foi feita para mostrar como a conversa com uma máquina era rasa... e as pessoas se apegaram a ela mesmo assim). Seymour Papert, que vocês já me viram citar tantas vezes, dirigiu esse laboratório ao lado de Minsky.

Quando a instituição que se descreve como profundamente identificada com o nascimento da IA escreve que precisa repensar o próprio ensino, o argumento “IA é só uma onda das big techs” perde sustentação.

Imagem gerada pelo ChatGPT

O que eles dizem que está acontecendo lá dentro?

O relatório não é um manifesto entusiasmado. É um diagnóstico, e boa parte dele é desconfortável.

Eles descrevem uma queda na frequência aos horários de atendimento dos professores, menos participação nas discussões online e, como relato informal, menos grupos de estudo nos dormitórios e bibliotecas. Descrevem alunos que se sentem pressionados a resolver tudo com IA, e professores que passaram a “policiar” o uso e sentiram a relação com os alunos se deteriorar. Descrevem um “contrato social” entre quem ensina e quem aprende que está se rompendo.

E aí vem o trecho que eu li no vídeo, da seção 1.1(*), que eles chamam de “paisagem”:

“A IA está gerando mudanças rápidas e imediatas, e também rupturas tectônicas de longo prazo. É provável que toda disciplina ensinada no MIT precise ser reexaminada, e possivelmente reformulada, para garantir que a forma como os alunos são ensinados, o que eles aprendem e como são avaliados levem a IA em consideração. [...] Para além das disciplinas específicas, o advento da IA exige uma reavaliação ampla e holística da natureza, do alcance e do propósito do ensino superior hoje.”

Reparem na palavra escolhida. Tectônica. Não é ajuste, não é atualização de ementa. É reestruturação profunda.

Então a resposta é proibir?

Não. E é aqui que o relatório fica mais interessante do que a maioria das discussões que eu vejo por aí.

Eles são explícitos contra os detectores de IA, porque geram uma corrida armamentista inútil e porque erram mais com alunos que não são falantes nativos de inglês ou neurodivergentes. São contra o racionamento de notas máximas que outras universidades adotaram, porque isso só aumenta o incentivo para trapacear. E são contra transformar tudo em prova presencial cronometrada, porque isso destrói justamente o trabalho longo, difícil e pensado que constrói maestria.

O que eles propõem, em vez disso, é voltar à pergunta de origem. Antes de decidir se a IA pode ou não pode numa disciplina, o professor precisa responder o que o aluno deve saber, saber fazer e passar a valorizar ao fim daquele curso. Só depois disso desenha a avaliação, exames orais, portfólios de semestre, trabalhos feitos fora da sala e discutidos dentro dela.

Eles têm um nome para o critério. Aumentar, não automatizar. Uma IA “pró-aprendiz” é aquela que expande o que o aluno consegue pensar e resolver, e não a que substitui o esforço de pensar. O relatório cita inclusive o fenômeno da “rendição cognitiva”, quando o estudante recorre à IA ao primeiro sinal de dificuldade.

Quem acompanha o Pulso há mais tempo vai reconhecer aqui exatamente o que eu venho chamando de esforço produtivo. Não fui eu que inventei. É a mesma coisa que o MIT está escrevendo.

E o que isso tem a ver com uma escola de educação básica em Belo Horizonte?

Aqui eu saio do relatório e entro na minha leitura.

A educação básica no Brasil está organizada, na prática, como uma esteira de 14 anos que desemboca num vestibular. A gente pode discordar disso, mas é assim que a maioria das escolas funciona e é assim que a maioria das famílias avalia uma escola.

Só que o vestibular leva para a universidade. E a universidade, pelo menos uma das mais importantes no mundo, está dizendo que precisa reavaliar como suas práticas garantem o seu propósito, e qual é, de fato, o seu propósito.

Vocês enxergam a cascata? Se o topo da pirâmide está sendo repensado, a base não pode continuar formatando crianças para um destino que está mudando de forma.

E para onde a escola vai? O relatório, de novo, responde. Este é o segundo trecho que eu li no vídeo, da seção 2.4:

“O produto mais importante da educação não é uma nota ou um diploma, mas os próprios alunos: seu crescimento pessoal, sua maturidade intelectual e o desenvolvimento de sua própria imaginação, discernimento e julgamento. [...] Precisamos ajudá-los a desenvolver capacidades metacognitivas para pensar sobre o próprio pensamento, a se engajar em práticas reflexivas e a fortalecer seu senso de agência.”

Competências de pensamento. Competências de meta-aprendizagem. Saber olhar para o próprio jeito de aprender. Isso não é apenas “bonito de dizer”, é o que está escrito no relatório da universidade onde a IA nasceu.

O que muda para as famílias?

Muda um lugar confortável. Eu entendo esse lugar, de verdade. A gente escolhe uma escola, talvez, porque estudou nela, muitas vezes porque conhece o prédio, e outras tantas vezes porque já sabe o que esperar. Isso dá sensação de controle.

Esse lugar acabou, gente. Porque o mundo para o qual ela preparava não é mais o mesmo, e irá se transformar ainda mais. A pergunta que uma família precisa fazer hoje, quando visita uma escola, não é mais “quantos alunos vocês aprovaram” e sim “como vocês ensinam uma criança a pensar sobre o que ela está aprendendo”.

Na Casa Fundamental, essa pergunta é o centro do projeto há mais de dez anos. Não porque a gente previu a IA, mas porque a investigação e a construção sempre foram a nossa forma de ensinar. O relatório do MIT me deu a impressão estranha de ler, escrito em inglês por um comitê de Cambridge, o que a gente vem construindo, dia a dia, há 10 anos, na nossa Casa, em Belo Horizonte.

Eu recomendo que vocês leiam o relatório inteiro. Está em aiandeducation.mit.edu/report, com apêndices e uma FAQ.

Até a próxima,

Maria Carolina Mariano

Assista ao Pulso IA da semana no Instagram.

Quer se formar como um Líder Educacional na Era da IA? Conheça o meu curso

https://casafundamental.ensinio.com/g/ia-para-liderancas-educacionais/about

...

(*)

1.1 The Landscape

This report’s recommendations reflect the following insights about the educational landscape at MIT.

Generative AI is everywhere already, spurring an assortment of views:

  • MIT students use AI frequently and pervasively – with strongly mixed feelings, from curiosity, creative inspiration, and gratitude to resignation, concern, and anxiety.
  • Instructors’ attitudes range from enthusiastic exploration and growing reliance on AI to skepticism, suspicion, and “AI refusal”– and there’s a widespread desire to share experiences, ideas and techniques.

While AI is allowing instructors to develop exciting new learning experiences and enabling students to learn and experiment in innovative ways, there have been a number of concerning effects on the life of the campus, including signs that AI is:

  • Upending foundational elements of the MIT educational experience, especially for undergraduates, from the p-set, the take-home exam and UROPs to office hours and the study group.
  • Increasing isolation.
  • Undermining student mastery and confidence.
  • Eroding the “social contract” between instructors and students.
  • Making it much harder to assess student progress.
  • Challenging decades of distinctive MIT community norms and values about rigor, the creative friction required for learning, collaborative problem solving, and personal integrity.

AI is generating both immediate rapid changes and long-term tectonic disruptions – and MIT needs to respond:

  • Students are confused and concerned about a lack of clarity, consistency and justification about the use of AI, within a given subject and across the curriculum.
  • Every subject taught at MIT will likely need to be reexamined and potentially revamped to make sure that how students are being taught, what they’re learning, and how they’re assessed are “AI-aware.”
  • AI is changing what students need to know and know how to do.
  • Beyond its implications for specific subjects and disciplines, the advent of AI demands a broader, holistic reassessment of the nature, scope and purpose of higher education today.

Finally, AI presents substantial practical concerns for our community, from data privacy and confidentiality to questions around disparate access, bias, fairness, and accountability. AI’s explosive growth and ascendance also raise important questions for society, from the environmental impact of AI data centers, to the use of intellectual property and training data, to the overall human impact of the technology and the industry – and MIT needs to engage with those questions too.

Other educational institutions are grappling with similar questions around AI and generating interesting ideas – but no one seems to have it all figured out.

Three notes on the words we use:

  • N.B. In this report, “Instructors” includes faculty and everyone else engaged in teaching at MIT.
  • Most references to “students” apply to both undergraduate and graduate students, except in a few obvious places, as when we refer to the General Institute Requirements (GIRs) or to participants in the Undergraduate Research Opportunities Program (UROP).
  • “We,” “us,” and “our” sometimes refer to the members of the committee, and sometimes the whole of MIT. The difference should be clear from the context.
In Report​ MIT’s Ad Hoc Committee on AI Use in Teaching, Learning, and Research Training, August 13, 2026 https://aiandeducation.mit.edu/report/

domingo, 13 de setembro de 2026

Festival de Veneza 2026

Festival de Veneza 2026 - “Woman Unknown” venceu o Leão de Ouro e a mulher que Veneza quase não tinha 

EPA/ETTORE FERRARI

José Vieira Mendes, Visão, 13.09.2026

PALMARÉS — 83.º FESTIVAL DE CINEMA DE VENEZA 

Venezia 83 — Competição 

Leão de Ouro — Melhor Filme: Woman Unknown, de May el-Toukhy 

Leão de Prata — Grande Prémio do Júri: Possible Love, de Lee Chang-dong 

Leão de Prata — Melhor Realização: Ilya Khrzhanovsky, por DAU 

Prémio Especial do Júri: NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor 

Melhor Argumento: Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce, por Un bon petit soldat 

Coppa Volpi — Melhor Ator: John Malkovich, por Wild Horse Nine 

Coppa Volpi — Melhor Atriz: Mathilde Arcel, por Woman Unknown 

Prémio Marcello Mastroianni — Jovem Actor ou Actriz Revelação: Malou Khebizi, por 15/18 


Leão do Futuro — Prémio Luigi De Laurentiis 

Melhor Primeira Obra: House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu 


Orizzonti 

Melhor Filme: Diane in the Loop, de Ann Sirot e Raphaël Balboni 

Melhor Realização: Jacqueline Lentzou, por A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra 

Prémio Especial do Júri: House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu 

Melhor Ator: Riccardo Scamarcio, por The Children of the Monkey 

Melhor Atriz: Laleh Marzban, por Falling House 

Melhor Argumento: Tommaso Landucci e Damiano Femfert, por The Children of the Monkey 

Melhor Curta-Metragem: Quelques instants de bonheur, de Shaden Safieddine Tazi 


Venice Spotlight 

Prémio do Público Armani Beauty: I Matter, de Alina Șerban 


Venice Classics 

Melhor Filme Restaurado: Long Night of 1943, de Florestano Vancini 


Venice Immersive 

Grande Prémio: The Pigeon Ring, de Shixin Tao e Yuqi Zhang 

Prémio Especial do Júri: Out of the Ashes, de Rory Mitchell e Nonny de la Peña 

Achievement Prize: Empire at Sea, de Peter Flaherty 

Leões de Ouro de Carreira 

George Clooney 

Ellen Burstyn 

...

O Festival de Veneza fechou a 83.ª edição (2 a 12 de setembro) com uma surpresa daquelas que ainda justificam esperar pela abertura dos envelopes. Woman Unknown, de May el-Toukhy, roubou o Leão de Ouro aos favoritos e transformou o último ato da Mostra numa inesperada vitória do cinema e das mulheres-realizadoras sobre as previsões.

A realizadora dinamarquesa May el-Toukhy e o seu filme Woman Unknown não estavam nas contas nem nas apostas. E a sua atriz Mathilde Arcel também não. Porém, saíram ambas da noite de gala dos prémios e da Sala Grande, uma com o Leão de Ouro de Melhor Filme e a outra com a Coppa Volpi de Melhor Atriz, enquanto o favorito Possible Love, do coreano Lee Chang-dong, teve de se contentar com a prata. Mas o palmarés desta 83.ª Mostra diz bastante mais sobre algumas das grandes inquietações do cinema contemporâneo: premiou a desigualdade social, a loucura soviética de DAU, a denúncia devastadora de NAZA, a ditadura empresarial de Stéphane Brizé, um extraordinário John Malkovich e a juventude ferida de Malou Khebizi. Veneza começou a discutir porque tinha tão poucas mulheres na Competição e acabou entregando o Leão precisamente a uma delas. Às vezes os júris ainda servem, felizmente, para estragar as tabelas de estrelas. 

Da diversidade do cinema contemporâneo 

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Veneza terminou com uma bela piada involuntária. Durante onze dias discutiu-se cinema, Gaza, Musk, Inteligência Artificial, bilionários, bunkers, Rupert Murdoch, CIA, ditaduras, corpos, guerras, memória e poder e, logo no arranque, uma questão bastante mais simples: onde estavam as mulheres realizadoras? Eram praticamente duas na Competição: May el-Toukhy, única mulher a assinar sozinha uma longa-metragem, Woman Unknown, e Rachel Szor, co-realizadora com Yuval Abraham do documentário NAZA. Maggie Gyllenhaal, presidente do júri, logo no início, não fugiu à pergunta nem tentou embrulhá-la naquele celofane diplomático que os festivais adoram. Existe um problema sistémico, disse, porque as mulheres continuam a ter maior dificuldade em financiar filmes e porque aquilo que querem contar nem sempre é reconhecido pelos mesmos senhores que durante décadas decidiram o que merece a nobre classificação de “grande cinema”. Onze dias depois, o Leão de Ouro foi parar às mãos de May el-Toukhy, realizadora dinamarquesa de origem egípcia, e, para completar a ironia, Mathilde Arcel levou também a Coppa Volpi. Duas mulheres, dois dos grandes prémios da noite e um filme que praticamente ninguém colocava no topo das apostas. O Leão, pelos vistos, não consultou as tabelas da crítica antes de sair da jaula. 

Woman Unknown também não parece material fabricado em laboratório para ganhar festivais. Passa-se na Dinamarca do verão de 1945, terminado o pesadelo da ocupação nazi, quando a euforia da libertação rapidamente descobre a sua própria capacidade para produzir vingança, humilhação e hipocrisia. Marie, interpretada por Mathilde Arcel, é uma criada prestes a casar com o patrão, um viúvo mais velho e abastado. Só que o passado recusa-se a obedecer às ordens da História. Marie manteve uma relação com um soldado alemão e, numa Dinamarca que persegue, rapa o cabelo e expõe publicamente as mulheres acusadas de confraternizarem com o inimigo, o corpo feminino volta a ser território ocupado. Primeiro pela guerra, depois pela moral dos vencedores. Mudam-se os uniformes e as bandeiras, permanece aquela irresistível tentação masculina de decidir o que uma mulher pode fazer com o próprio corpo. 

May el-Toukhy consegue assim fazer um drama histórico chegar violentamente ao presente. Falou esta noite de mulheres invisíveis, sem voz, e do corpo feminino como campo de batalha. Mathilde Arcel, na sua primeira protagonista no cinema, recusa transformar Marie numa santa pronta a caber num cartaz militante. Dá-lhe medo, desejo, culpa, cálculo, vergonha e instinto de sobrevivência. A sua Coppa Volpi não é um prémio de acompanhamento do Leão: é uma das razões pelas quais o Leão existe. 

A prata coreana, o laboratório soviético e o horror convertido em algoritmo 

A surpresa torna-se maior porque o campeonato das previsões parecia relativamente resolvido. Possible Love, o regresso de Lee Chang-dong oito anos depois de Burning, chegava à cerimónia com aquele ar de vencedor antecipado, reforçado pelo Prémio FIPRESCI da crítica internacional. Foi um dos filmes mais unanimemente elogiados da Mostra e um daqueles que provavelmente continuarão connosco depois de desaparecer todo o show off dos festivais. Lee cruza dois casais de classes sociais opostas: Ho-seok e Mi-ok, feridos pelo desemprego e pela precariedade; Ye-ji, documentarista abastada que decide filmá-los, e o marido, Sang-woo, pertencente ao universo onde os problemas económicos são normalmente coisas que acontecem aos outros. A partir daí entra numa zona moral muito mais perigosa: quem observa quem, quem utiliza quem e até onde pode alguém transformar a miséria alheia em matéria artística? Lee Chang-dong não precisa de pôr Karl Marx a sair de trás de uma porta. Basta-lhe uma sala, uma mesa, dois casais e as pequenas humilhações que o dinheiro introduz numa relação aparentemente igual. Possible Love parecia o Leão de Ouro lógico. Recebeu o Leão de Prata — Grande Prémio do Júri. Perdeu o ouro, mas não saiu derrotado. 

Já o Leão de Prata de Melhor Realização para Ilya Khrzhanovsky por DAU talvez seja o prémio que melhor leva a palavra “realização” até às últimas consequências. Foram cerca de vinte anos de um projeto que deixou há muito de parecer uma produção cinematográfica normal para se transformar numa espécie de Estado paralelo com câmaras. Khrzhanovsky reconstruiu um universo soviético, instalou pessoas lá dentro, filmou milhares de horas e criou filmes, instalações, experiências e polémicas em torno do físico Lev Landau, da ciência submetida ao poder e daquela velha tendência dos Estados totalitários para adorarem cientistas desde que descubram exatamente aquilo que o Estado deseja. São mais de três horas de física, Stalin, medo, desejo, sexo, ciência e opressão. Pode discutir-se quase tudo em DAU, incluindo os métodos do próprio Khrzhanovsky, mas poucas obras desta Competição tiveram tamanha vertigem, ambição e loucura cinematográfica. Melhor Realização? Talvez fosse preciso inventar o prémio para Melhor Obsessão. 

E depois apareceu NAZA, já perto do fim, quando começávamos a fechar balanços e escolher favoritos. Mudou o ar da sala. Depois de Musk, foi provavelmente a sessão mais inquietante desta Veneza 83, mas por razões ainda mais brutais. Alex Gibney mostrava-nos um homem com um poder tecnológico assustador; Yuval Abraham e Rachel Szor fizeram algo mais perturbador: perante vítimas tantas vezes silenciadas, puseram os homens do sistema a falar. O documentário constrói-se a partir dos depoimentos de 24 militares e agentes israelitas e mostra o que acontece quando tecnologia, algoritmos, Inteligência Artificial e poder militar deixam de pertencer à ficção científica e passam a decidir, a quilómetros de distância, quem pode morrer. Não precisa de exibir continuamente corpos. Mostra o mecanismo que os produz: dados, percentagens, autorizações, coordenadas, margens aceitáveis de vítimas civis. Uma guerra transformada numa folha de Excel com mísseis. O Prémio Especial do Júri foi uma das decisões politicamente mais fortes deste palmarés. Um prémio não trava uma bomba, evidentemente, mas Veneza colocou oficialmente entre os vencedores um filme que acusa um sistema de ter industrializado a desumanização. 

Recursos Humanos, CIA e outras formas civilizadas de violência 

O prémio de Melhor Argumento para Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce por Un bon petit soldat também faz todo o sentido. Brizé regressa ao território que conhece bem: a empresa contemporânea como pequena ditadura onde ninguém é oficialmente carrasco porque todos estão apenas a cumprir procedimentos. Alba Rohrwacher interpreta Carla Moretti, nova responsável de Recursos Humanos de uma grande companhia de seguros. Recursos Humanos: duas palavras maravilhosas, sobretudo porque significam frequentemente que alguém deixou de ser pessoa e passou a recurso. Carla chega com boas intenções, vontade de corrigir abusos e aquela ingenuidade profissional de quem ainda acredita que um código de ética serve para alguma coisa quando começa a incomodar os lucros. Encontra chefias abusivas, discursos progressistas para consumo externo, hierarquias, interesses e a necessidade permanente de proteger a empresa da realidade da própria empresa. Ninguém precisa de gritar “viva a ditadura”. Basta perguntar se uma decisão moral poderá afetar os resultados trimestrais. Há cartões de identificação, departamentos jurídicos, PowerPoints e reuniões de avaliação. Muito mais civilizado. O argumento transforma assim um conflito laboral numa anatomia da obediência. 

A Coppa Volpi de Melhor Ator para John Malkovich por Wild Horse Nine era, ao contrário do Leão de Ouro, uma surpresa bastante menor. Desde que Martin McDonagh apresentou o filme, Malkovich ficou imediatamente na zona dos premiáveis. Ao lado de Sam Rockwell, regressa ao universo que McDonagh domina como poucos: homens moralmente estragados, diálogos que parecem granadas com temporizador, violência absurda, culpa e amizades masculinas que só conseguem exprimir sentimentos através do insulto. A CIA, o Chile, a sombra de Allende e a Ilha da Páscoa servem de cenário a uma comédia negra sobre homens que passaram demasiado tempo a matar em nome de causas que talvez nunca tenham compreendido inteiramente. Malkovich interpreta um veterano que começa a fazer contas à vida precisamente quando já há poucas contas para fazer. É divertido, venenoso, cansado, cruel e inesperadamente comovente. Consegue parecer que está a gozar com a personagem e a sofrer por ela ao mesmo tempo. Não esteve na Sala Grande — enviou uma mensagem gravada porque está a filmar em Toronto —, mas saiu de Veneza com uma bela rampa de lançamento para a corrida aos Oscars. 

O Prémio Marcello Mastroianni para Malou Khebizi por 15/18 (A Place to Heal) é, pelo contrário, daqueles que parecem pequenos quando se lê rapidamente o palmarés e podem tornar-se enormes para quem os recebe. Cédric Kahn instala a câmara numa unidade pública de psiquiatria para adolescentes entre os 15 e os 18 anos e recusa transformar aqueles jovens numa coleção de diagnósticos. Malou Khebizi, como Lucia, ocupa o centro emocional desse pequeno caos: desafiante, sexualizada, furiosa, vulnerável, carregando marcas de abuso e a necessidade permanente de atacar antes de voltar a ser atacada. Kahn filma-a sem piedade sentimental e sem a reduzir à “jovem problemática” de um relatório clínico. Num festival carregado de Malkovich, Bardem, Cruz, Pattinson, Clooney e Rockwell, é saudável que um dos prémios principais vá parar às mãos de alguém que ainda agora começou. 

A Maggie tinha avisado 

É aqui que regressamos a Maggie Gyllenhaal. Dos 21 filmes da Competição, apenas Woman Unknown era exclusivamente realizado por uma mulher; NAZA tinha Rachel Szor como co-realizadora com Yuval Abraham. Não foi propriamente uma invasão feminina ao Lido. Gyllenhaal lembrou desde o início que o problema começa muito antes de Alberto Barbera escolher os filmes: em quem consegue dinheiro para filmar, quem recebe confiança para dirigir produções, que histórias são consideradas universais e quais continuam arrumadas na gaveta dos chamados “assuntos de mulheres”. 

Também não vale transformar agora o júri numa conspiração de saias. Eram sete jurados: Maggie Gyllenhaal, Kaouther Ben Hania e Shahrbanoo Sadat, três mulheres; Johnnie To, Xavier Giannoli, Daniel Blumberg e Francesco Casetti, quatro homens. Quase ela por ela. Woman Unknown não foi escolhido por um “júri feminino”. Foi escolhido por um júri internacional presidido por uma mulher numa Competição que quase não lhe deu outras realizadoras para avaliar. Na verdade, trata-se de um palmarés sobre o poder. E talvez seja isso que o torna mais interessante do que uma simples lista de vencedores. O júri recusou concentrar tudo num filme ou confirmar obedientemente as tabelas da crítica. Deu o ouro à surpresa dinamarquesa, a prata ao favorito coreano, a realização à experiência soviética de Khrzhanovsky, o prémio especial ao documentário mais explosivo da Mostra, o argumento à dissecação empresarial de Brizé, as Coppa Volpi a uma actriz praticamente desconhecida e a um ator que conhecemos há quarenta anos, e o prémio de revelação a uma jovem francesa perdida numa instituição psiquiátrica. Há, aliás, uma curiosa linha subterrânea a unir quase todos estes vencedores: o poder. Woman Unknown fala do poder da sociedade sobre o corpo feminino; Possible Love, do dinheiro e da classe; DAU, do Estado; NAZA, da máquina militar e tecnológica; Un bon petit soldat, da empresa; Wild Horse Nine, das ruínas deixadas pelo poder político; A Place to Heal, das instituições perante jovens que já chegaram feridos. Talvez o júri não tenha deliberadamente construído este mapa. Melhor ainda. Os bons palmarés dizem por vezes coisas que os próprios jurados não planearam dizer. E fica finalmente a ironia perfeita do título. A “mulher desconhecida” chegou ao Lido fora do pelotão dos favoritos, entre grandes autores, estrelas de Hollywood, filmes intermináveis e aquela bolsa de valores crítica que todos fingimos desprezar enquanto consultamos religiosamente as cotações. Sai como a mulher mais conhecida da noite. Um Leão de Ouro não resolve a desigualdade nem corrige uma indústria. Mas deixa uma imagem bastante boa para fechar Veneza 2026: May el-Toukhy com o Leão, Mathilde Arcel com a Coppa Volpi e um filme chamado Woman Unknown no lugar mais visível da fotografia. Depois de onze dias a perguntar onde estavam as mulheres, uma delas acabou no palco. E levou o Leão  de Ouro consigo para casa. 

NB: os link ocultos (nos filmes) são deste que vos fala

sábado, 12 de setembro de 2026

O pulso ainda pulsa

Datafolha: Lula tem 39%, e Flávio Bolsonaro, 35% no 1º turno; rivais empatam no 2º

Na primeira rodada, Cury tem 6%, seguido de perto por Caiado (4%), Renan Santos (3%) e Zema (2%). Na segunda, petista tem 46% e senador, 44%; pesquisa foi primeira do instituto após a crise no STF.

Igor Gielow, fsp, 11.09.2026

A primeira pesquisa do Datafolha realizada sob o impacto pleno da crise do Supremo Tribunal Federal mostra uma situação de estabilidade na corrida ao Planalto, com o presidente Lula (PT) marcando 39% no primeiro turno e o senador Flávio Bolsonaro (PL), 35%.

Augusto Cury (Avante) tem 6%, seguido por Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, Renan Santos (Missão), com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 2%. Samara (UP), Edmilson Costa (PCB), Clariana Barão (DC) e Rui Costa Pimenta (PCO) têm 1%. Dizem votar voto branco ou nulo 6%, e 4% se dizem indecisos.



Há uma semana, Lula marcava 38%, ante 33% de Flávio. Já Cury havia subido seis pontos, chegando a 8%.

O resultado é estável para a dupla à frente, mas a distância numérica entre eles é a menor desde maio, tendo passado de 10 para 4 pontos percentuais — o que sugere empate no limite máximo da margem de erro de dois pontos para mais ou menos, com maior probabilidade de Lula estar à frente.

Na votação espontânea, quando o eleitor não vê a lista de candidatos, Lula segue sendo o mais lembrado, passando de 31% para 33% ante a rodada anterior. Flávio foi de 22% para 25% e Cury oscilou de 5% para 3%. Os indecisos estão em 23%, nível mais baixo até aqui.



Já na simulação de segundo turno, o petista teria 46% e o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro, 44%. Na rodada anterior, os números eram os mesmos, indicando um empate técnico.

Não houve alterações significativas em termos de perfil de eleitorado, embora Flávio tenha novamente invertido o sinal com Lula no Sudeste, região mais populosa com 42% da amostra do Datafolha. Nela, o senador marca 37%, ante 35% do petista; há uma semana, o bolsonarista tinha 34% e o presidente, 36%.

Nos grandes estratos, Lula segue com boa vantagem entre os 28% menos instruídos (52% a 24%), os 49% mais pobres (47% a 27%), os 27% de nordestinos (53% a 25%) e os 50% de católicos (46% a 29%).

Flávio, por sua vez, lidera com mais vantagens entre os 47% com ensino médio (40% a 35%) e os 25% com diploma superior (37% a 30%). Na classe média que ganha de 2 a 5 salários mínimos, 33% da população, bate Lula por 42% a 31%, taxa que sobe acompanhando a renda. Vence entre os 15% de sulistas (40% a 29%), nos 18% moradores do Norte/Centro-Oeste (40% a 32%) e nos 28% de evangélicos (50% a 22%).

PESQUISA É PRIMEIRA COM CRISE NO STF

A pesquisa foi realizada sob o impacto da crise do STF. Ela foi encerrada, contudo, antes da revelação nesta sexta (11) de que Flávio é investigado no inquérito do caso "Dark Horse" e a determinação do fim do sigilo sobre os dados da apuração.

A crise começou com a revelação, pelo ministro André Mendonça, de relatório sigiloso a que Alexandre de Moraes teve acesso no qual são reveladas relações próximas do colega com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master preso sob acusação de comandar a maior fraude financeira da história brasileira.

Moraes revidou questionando os atos do colega formalmente. Mendonça, por sua vez, reagiu determinando o afastamento do chefe da Polícia Federal e do diretor de inteligência do órgão. O presidente da corte, Edson Fachin, buscou ganhar tempo e acalmar ânimos suspendendo todas as medidas.

Ele também marcou para a terça que vem (15) uma sessão para debater a abertura ou não de investigação sobre Moraes, a quem removeu do polêmico inquérito das fake news, que desde 2019 era conduzido pelo ministro.

Flávio adotou já no evento do 7 de Setembro a estratégia de associar Lula a Moraes, que comandou o julgamento que condenou seu pai a 27 anos e três meses de cadeia por tentativa de golpe de Estado e manteve aliança tática com o petista ao longo do terceiro mandato do presidente.

Lula, por sua vez, viu seu ex-ministro da Justiça Flávio Dino, hoje no Supremo, recolocar em foco as relações do senador fluminense com Vorcaro.

Flávio Bolsonaro foi gravado pedindo dinheiro ao então banqueiro já em apuros, o chamando de "meu irmão" e prometendo lealdade.

A verba, quase R$ 70 milhões, se destinaria, segundo o senador, para bancar o filme "Dark Horse" (azarão, em inglês), sobre a carreira de seu pai. Só que Flávio não apresentou as contas e disse se tratar de uma empreitada privada, quando houve dinheiro da prefeitura paulistana envolvido.

Dino abriu o capítulo ao autorizar ação da PF para verificar o uso de verbas parlamentares no financiamento, atingindo o deputado bolsonarista Mário Frias (PL-SP). O eventual impacto desse evento na pesquisa está prejudicado, dado que o trabalho dos entrevistadores já estava avançado.

Por fim, o fim do sigilo sobre o caso no Supremo mostrou que Flávio é investigado, mas a pesquisa já havia sido encerrada.