quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Peixe

Flávio e a sombra dos milicianos

É extremamente preocupante que um candidato à Presidência tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um miliciano condenado pelo Supremo pela morte de Marielle

O Estado 23/09/2026 

Este jornal informou na primeira página de sua edição de ontem que, em 2023, uma assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou pessoalmente com o miliciano Robson Calixto, vulgo “Peixe”, o repasse de quase R$ 200 mil provenientes de emenda parlamentar em troca de vantagens indevidas. A negociata já seria escandalosa se Flávio não fosse candidato à Presidência da República e se o tal “Peixe” fosse um sicário qualquer, desses com os quais a população do Rio de Janeiro, lamentavelmente, acostumou-se a conviver. Ocorre que Flávio não só é candidato, como tem boas chances de ser eleito. E “Peixe”, definitivamente, não é um ilustre desconhecido do sistema de Justiça.


Em fevereiro deste ano, por unanimidade, “Peixe” foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão em regime fechado por ter participado do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. O indigitado era uma espécie de “faz-tudo” para os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, mandantes do crime, e elo da dupla com a milícia da zona oeste da capital fluminense de onde saiu o facínora Ronnie Lessa, autor dos disparos. Todos cumprem pena presos.


É extremamente preocupante, para dizer o mínimo, que um candidato à Presidência da República tenha mantido vínculo tão próximo com um criminoso de sangue até pouco tempo atrás. Para piorar, confrontado com um fato dessa gravidade, Flávio se limitou a dar uma resposta protocolar, afirmando, por meio de nota, que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente” e que a responsabilidade pela prestação de contas é de quem recebe os recursos, não do parlamentar. Sobre o fato mais escabroso – a proximidade entre o senador e um miliciano condenado –, Flávio não deu uma satisfação sequer aos eleitores.


Talvez seja mesmo difícil para o candidato tratar do tema com mais objetividade. Afinal, faz mais de duas décadas que, por onde quer que ande, Flávio Bolsonaro está sempre acompanhado pela sombra dos milicianos do Rio de Janeiro com os quais se relaciona, abertamente, desde o seu primeiro mandato como deputado estadual, iniciado em 2003. A ligação entre Flávio e “Peixe”, por mais problemática que seja, não é um desvio pontual.


Recorde-se que, em 2007, Flávio subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para legitimar as milícias como um “novo tipo de policiamento”. Na ocasião, o então deputado estadual reduziu os crimes praticados por milicianos – não raro policiais e bombeiros corruptos – a “casos isolados”. Em outro discurso, Flávio chegou a dizer que “não se importaria” em pagar mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” às milícias para “ter mais segurança”. Ele sabia do que falava. Além de condecorar dezenas de milicianos, pouco tempo depois, Flávio empregara em seu gabinete na Alerj familiares de um dos mais temidos matadores do País, Adriano da Nóbrega, capo da milícia Escritório do Crime, baseada em Rio das Pedras.


Adriano seria morto durante troca de tiros com a polícia em 2020, escondido sob nome falso no interior da Bahia. Mas o grupo criminoso que ergueu em Rio das Pedras, envolvido no assassinato de Marielle Franco, sobreviveu a ele – e agora volta às páginas do jornal pela negociação do tal “Peixe” e a assessora de Flávio Bolsonaro.


Estamos a poucos dias da eleição que definirá o futuro presidente do Brasil. Por óbvio, não é questão menor ter entre os postulantes à chefia de Estado e de governo um candidato cuja biografia política está indelevelmente marcada por vínculos estreitos e reiterados – e jamais devidamente explicados – com membros de organizações criminosas responsáveis por execuções sumárias, extorsões, exploração ilegal do comércio e controle social, na base do terror, sobre larguíssimas porções do território do Rio de Janeiro.


Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Grande sertão: veredas - Cap. 4

Grande sertão: veredas - "O diabo na rua, no meio do redemoinho" - Edição especial 70 anos, João Guimarães Rosa, p. 523, Companhia das Letras, 2026.

Continuação de Grande sertão: veredas - Cap. 3 ( ver aqui) 

NB: Entre colchetes [ ] as páginas do livro.

Com ele (Alaripe) a gente desproduzia qualquer remorso

Joaquim Beijú e o Quipes ainda foram na cozinha, cortar um de-comer, arranjar matula. Por essa volta, o Jacaré mesmo combatia também, às vezes em que não estava cozinhando, e vinha atirar, da beira duma janela, com o Mijafogo. A noite breava própria; o mais escuro ia ser regulando em antes das dez horas, que quando depois podia subir um caco de lua. Aos poucos, foi dando um tão respeitável silêncio, não se atirava de parte nem de outra, a gente mesma ficava na cautela de não se fabricar rumor nenhum, de não se pautear sem necessidade. De noite, o clarão das pólvoras marca denúncia do lugar do atirador. - "Noite é p'ra surpresas de estratagemas, noite é de bicho no usável..." - o Alaripe baixo falou. O cearense bom: esse permanecia em tudo igual, com ele a gente desproduzia qualquer remorso, o brigar parava sendo obrigação de vivente, conciso dever de homem. Por uns assim, eu punia. Por uns, assim, eu devia de ser inteiro leal, eu mesmo. Mas, então, eu carecia de encostar Zé Bebelo, o espremer na franca fala. A que ele soubesse de minha lei: a que ele sem um aviso não se desgraçasse. Mesmo por causa da gente - porque Zé Bebelo era a perdição, mas também só ele podia ser a salvação nossa. Então, com ele eu ia falar, o quieto desafio. Adiantava? Ai não adiantasse. Mas, então, eu carecia de armar um poder, carecia de subir para clma daquele homem. Eu tinha de encher de medo as algibeiras de Ze Bebelo. Số isso era o que valia. [251]

Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio.

Mas, então, a soldadesca tinha vindo, alcançada, estavam chegando? Era. Era! Remexendo um rebuliço, de nós todos, mesmo porque os mais não conheciam aquele motivo, de nada não soubessem o tencionado. Os praças? O tiroteio deles, pegando os hermogenes de supetão, surpresa bruta, de retaguarda. Os tiros, que eram: .. a bala, bala, bala... bala, bala, bala... a bala: bá!.. desfechavam com metraIhadora. Aí arrejàrrajava, feito um capitão de vento. Até destroçavam também nas custas da Casa? - "Apre, meninos, faz mal não. A vantagem do valente é o silêncio do rumor.." -- Zé Bebelo sentenciava. Zé Bebelo trepava em altas serras. Duvidava de nada. Que vencia! Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio. [257]

No assim simples eles obedeceram

Depois, um sujeito apareceu, do capim, e veio, devia de ter passado por um rombo feito na cerca. A certa distância estava, no eirado, e um dos nossos disse, reconhecendo: -"Ah, é o Rodrigues Peludo, homem devoto do Ricardão..." Que era, que era - os outros companheiros concordaram. Atrás desse, meio engatinhando também, surgiu mais um: - "E o Lacrau!" E o Rodrigues Peludo virava para trás, falava qualquer coisa, parecia que estava mandando o Lacrau ir sembora. Mas o Lacrau teimava, seguia acompanhando o outro. - "Xente, dond' é que está se comparecendo esse Lacrau? Faz tempo que não se tinha ciência nenhuma dele." O qual era dos Gerais do Bolôr, terra jequitinhonha, e homem de certa valia. Caboclo claro. E que, ele sendo réu, tinha esfaqueado na sala de juúri um promotor, em outroras. De ver os dois, perto, assim pessoas, escada acima, e presentes em pé, diante da gente, nas decididas condições, achei muita esquisitice. Rodrigues Peludo levantou os olhos, feito se a gente estivesse no céu, e saudou normal. Daí disse:

- "Seô Chefe.."

"Homem, te vira de costa!" - Zé Bebelo regrou.

No assim simples eles obedeceram, tanto um, tanto o outro. Mas estavam muito armados. Momentos que foram, eu louvei a coragem calma daqueles dois. que de qualquer longe recanto um soldado talvez estivesse em poder de derrubar por belprazer. Porque os soldados não pertenciam nessa cerimônia. Afiguro o que pensei.

E Zé Bebelo perguntou, impondo ordem de resposta: que mandatela eles traziam? Do lado meu, o Diodôlfo chiava boca num dente, conforme sestro dele, e o José Gervásio sussurrou: "Tramoia..." Mas Zé Bebelo regia tudo, mão em revólver. Um homem falar seu recado, de costas, no meio dos contrários, na boca de tantas armas - o senhor já presenciou essas circunstâncias? Assim o Rodrigues Peludo deu conta, sem rasgo de tremor na voz:

"Com sua licença dada, e nos usos, estou trazendo estas palavras, Seô Chefe, que para repetir ao senhor fui mandado: - Que, em vistas desses soldados, e do mais, que é contra todos, se não era mais aproveitável, para uma parte e outra, de se fazer trato de paz, por uns tempos.. E por essa oferta é que venho, por ordens. Que - se serve, ou valor tem, o dito - pergunta faço; e se o senhor há de estar ou não de acordo, me dando a resposta que queira dar, para eu levar para os meus chefes..."

"Que chefes?" - Zé Bebelo indagou, sem tom de nenhuma malícia.

Rodrigues Peludo demorou um ponto, fazendo menção de virar o rosto, mas ○ que deixou em tempo de fazer. E contestou:

- "Nhô Ricardão. E seô Hermógenes..."

- "E eles então estão querendo paz?" "Estão propondo um acordo correto... [259-260]

Com os vivos é que a gente esconde os mortos

Mas isto tudo, que conto ao senhor, se compartiu de caber em pouquinhos minutos instantes. E do modo de um prosseguir sem partes. Porque Zé Bebelo, as mãos na cinta, se encurtava frio em siso, feito uma a cobra. O que disse, o quanto:

- "Homem, e o que mais?" 

- "Era tudo o que eu já falei, Chefe, seó. Ao que peço vossa resposta, para conduzir. E em caso de algum acordo, que é de bom respeito, as ordens tenho para com meu juramento fechar trato..." foi a resposta de Rodrigues Peludo, com a clara voz de quem está mais cumprindo do que querendo. Até inveja eu tive dele: porque, para viver um punhado completo, só mesmo em instâncias assim.

- "Antes bem" Zé Bebelo glosou, "quem é que está rodeando e vexando os outros, e atacando?"

"O em usos...-- é a gente... Isto é ..." - o Rodrigues Peludo compôs o con- fessar.

- "Ah. Isto era. Ah, e então?!"

- "Ao que vim ajustar é propostas. Ao para salvo e lucro das nulas partes. As ambas. Caso se Ossa Seoria se concorde." 

Somenos aprumo, nem o tom. Mas, de tudo seja, também, o que gravei, aí, desse Rodrigues Peludo, foi um ter-tem de existidas lealdades. Assim que, inimigo, persistia só inimigo, surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o desleixo de si. E que podia conceber sua outra razão, também. Assim que, então, os de lá - os judas - não deviam de ser somente os cachorros endoidecidos; mas, em tanto, pessoas, feito nós, jagunços em situação. Revés - que, por resgate da morte de Joca Ramiro, a terrível que fosse, agora se ia gastar o tempo inteiro em guerras e guerras, morrendo se matando, aos cinco, aos seis, aos dez, os homens todos mais valentes do sertão? Uma poeira dessa dúvida empoou minha ideia - como a areia que a mais fininha há: que é a que o rio Urucuia rola dentro de suas largas aguas, quando as chuvaradas do inverno. 

Ali, dos meus companheiros, tantos mortos. Acaso, que companheiros eram; e agora o que se depositava deles era o assunto de lembranças, e aquele amassado e envelhecido feder, que as horas repontava. Constado que produziam isso, mesmo estando amontoados no cômodo soturno, entrapadas as frestas da porta, e cá fora se torrando couros com folhas polvreadas. 

Mediante os estoques desse mau-cheiro, por certo Rodrigues Peludo e o Lacrau iam orçar a boa conta de nossos mortos, afora os feridos, leves graves 

Mas Ze Bebelo anteteve de mandar chamar Marcelino Pampa, João Concliz e muitos diversos outros, e o apinho e apessoar, nosso, ombros em ombros, aprazava efeito de bando signilicado, numeroso. Com os vivos é que a gente esconde os mortos. [260-261]

Uma tristeza meiga, muito definitiva

- "... Você se casa, Riobaldo, com a moça da Santa Catarina. Voces vão casar sei de mim, se sei; ela é bonita, reconheço, gentil moça paçã, peço a Deus que ela te tenha sempre muito amor... Estou vendo vocês dois juntos, tão juntos, prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Ah, o que as mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca, com muitas rendas.. A noiva, com o alvo véu de filó ..."

Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Melar mel de flôr. E me embebia - o que estava me ensinando a gostar da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho, se sonsom, teito se imaginasse sempre, a ío razoável de cada dia, no estar Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-amores para que minhas mãos gostassem deles mais. E Otaciia tomando conta da casa, de nossos filhos, que decerto íamos ter. Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em camisola fina de ló. Otacília indo por meu braço as festas da cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em seu vestido novo de molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse. De meu juízo eu perdi o que tinha sido começo da nossa discussão, agora só ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez alguma causa que ele até de si guardava e que eu não podia inteligir. Uma tristeza meiga, muito definitiva. [272]

A gente só sabe bem aquilo que não entende

No tempo, não apareci no meio daquilo. Assim foi que foi. Até que vieram uns companheiros, com João Concliz, Sidurino e João Vaqueiro, que ajuntaram lenhas e armaram um fogo bem debaixo do paratudo. Ao relançar das labaredas, e o refreixo das cores dando la acima nos galhos e folhas, essas trocavam tantos brilhos e rebriIhos, de dourado, vermelhos e alaranjado as brasas, essas esplendências, com mais realce que todas as pedras de Arassuaí, do Jequitinhonha e da Diamantina. Era dia-de-anos daquela árvore? Ao quando bem anoiteceu, foi assim. A gente só sabe bem aquilo que não entende.

O senhor veja: eu, de Diadorim, hoje em dia, eu queria recordar muito mais coisas, que valessem, do esquisito e do trivial; mas não posso. Coisas que se deitaram, esqueci fora do rendimento. O que renovar e ter eu não consigo, modo nenhum. Acho que é porque ele estava sempre tão perto demais de mim, e eu gostava demais dele. [272-273]

O que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma

A hora tinha de ser o comeco de muita aflição, eu pressentia. Raça daqueles homens era diverseada distante, cujos modos e usos, mal ensinada. Esses, mesmo no trivial, tinham capacidade para um ódio tão grosso, de muito alcance, que não custava quase que esforço nenhum deles; e isso com os podêres da pobreza inteira e apartada; e de como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio regedor eles nem divulgavam. Só o mau fato de se topar com eles, dava soloturno sombrio. Apunha algum quebranto. Mas mais que por conosco não avirem medida, haviam de ter rogado praga. De pensar nisso, eu até estremecia; o que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma. Aqueles homens eram orelhudos, que a regra da lua tomava conta deles, e dormiam farejando. E para obra e maleficios tinham muito governo. Aprendi dos antigos. Capatazia de soprar quente qualquer ódio nas folhas, e secar a árvore; ou de rosnar palavras em buraco pequeno que abriam no chão, tapando depois: para o caminho esperar a passagem de alguém, e a ele fazer mal; ou guardavam um punhado de terra no fechado da mão, no prazo de três noites e três dias, sem abrir, sem largar: e quando jogavam fora aquela terra, em algum lugar, nele com data de três meses ficava sendo uma sepultura... 

De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea. Numa o senhor põe ouro, na outra prata; depois, para ninguém não ver, elas o senhor fecha bem. E foi o que eu pensei. [280]

Eu comecei a tremeluzir em mim

E aquele lugar, o Valado, eu aceitei - senhor preste atenção! - ; para ficar, uns meus tempos, ali, ainda me valia. Senti assim, meu destino. Dormindo con um pano molhado em cima dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca, de noite o destino da gente as vezes conversa, sussurra, explica, até pede para não se atrapalhar o devido, mas ajudar. Crendice? Mas coração não é meio destino? Permanecer, ao menos ali, eu quis. Mas Zé Bebelo duvidou de ficar. Ze Bebelo suscitado determinou, que a gente fosse mais para adiante. Ele concebia medo. Conheci. Estava.

Zé Bebelo pegou a principiar medo! Por que? Chega um dia, se tem. Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiu podiam ter trazido o mau-ar, e que mesmo o Sucruiu ainda demeava vizinho justo demais. Tanto ri. Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo. Assim mesmo, em errei; disso não sabia. Mas o cabedal é um só, do misturado viver de todos, que mal varêia, e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se suprira certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim. [288]

Me ensina o que eu sabia

E ali, redizendo o que foi meu primeiro pressentimento, eu ponho que era por minha sina o lugar demarcado, começo de um grande penar em grandes pecados terríveis. Ali eu não devia nunca de me ter vindo; lá eu não devia de ter ficado. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse, no avistar o redondo daquilo e a velhice da casa. Que mesmo como coruja era - mas da orelhuda, mais mor, de tristes gargalhadas; porque a suindara é tão linda, nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma, por cima de riscas sedas de brancura. E aquele situado lugar não desmentia nenhuma tristeza. A vereda dele demorava uma aguinha chorada, demais. Até os buritís, mesmo, estavam presos. O que é que burití diz? Me ensina o que eu sabia... Bobice de todos. Só esta coisa o senhor guarde: meia-légua dali, um outro córgo-vereda, parado, sua água sem-cor por sobre de barro preto. Essas veredas eram duas uma perto da outra; e logo depois, alargadas, formavam um tristonho brejão, tão fechado de môitas de plantas, tão apodrecido que em escuro: marimbús que não davam salvação. Elas tinham um nome conjunto - que eram as Veredas-Mortas. [289]



domingo, 20 de setembro de 2026

Paulo Freire (19.9.1921 - 2.5.1997)

Educação tem nome próprio 

Paulo Freire propõe um método de conscientização como centro de sua teoria pedagógica. Foi autor de um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária.

Muniz Sodré, fsp, 19.9.2026

Se existisse o Prêmio Nobel da Educação, teria havido provavelmente a chance de o Brasil contar pela primeira vez com essa láurea. E o contemplado não poderia ser outro senão aquele cujos 105 anos agora se celebram, in memoriam: Paulo Freire, um dos três intelectuais mais citados na área de ciências humanas no mundo, com 48 títulos de doutor honoris causa por universidades como Harvard, Oxford e Cambridge, em várias das quais foi professor. Na França, incluído entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.

O educador Paulo Freire em 1963 - Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

É o Patrono da Educação do Brasil. Mas resta saber de que "Brasil" se trata. Não certamente o mesmo daqueles que o prenderam durante a ditadura militar, tentando desqualificar o seu método de alfabetização e seus conhecimentos sobre educação. Para eles, Paulo Freire não passaria de "um criptocomunista encapuzado sob a forma de alfabetizador". Cripto, encapuçado, quer dizer, "comunista oculto? Nunca foi, era cristão, católico de formação. Nem é também o mesmo país das figuras recentes da extrema direita que o elegeram como alvo de "guerra cultural". O ex-presidente hoje enjaulado prometia "entrar com um lança-chamas no MEC para tirar Paulo Freire de lá". Ainda que sem saber por quê, claro.

Não só: o parque jurássico da pedagogia sempre talhou carapuças injuriosas a Freire. O porquê pedagógico exigiria a redação de um tratado. Para começar, seria preciso deixar claro que Paulo Freire não foi mero "alfabetizador". Ele é mesmo uma exceção histórica, por destoar do liberalismo puro, valorizando a tomada de consciência das condições sociais em que se dá o processo educacional. Alguém que enfatiza a autonomia da consciência do educando e as práticas escolares afinadas com a compreensão dos conteúdos do saber.

Quem foi Paulo Freire - fotos

Pressupondo uma simbiose da consciência do mundo e da consciência de si, Freire propõe um "método de conscientização" como centro de sua teoria pedagógica. Portanto, um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária. Inovador nesse panorama é o fato de que, desde a década de 1990 no Brasil, os movimentos sociais ditos "rurais" ou "do campo" põem a educação entre as suas demandas principais. Presentes, a inspiração teórica de Freire e o fundo utópico que lastreia o direcionamento político de um projeto popular, ideologicamente apoiado na educação.

Voltada para as classes exteriores ao poder econômico-político, a educação freireana induz os movimentos sociais a se constituírem como sujeitos pedagógicos coletivos. Uma pedagogia shakespeareana do sonho construtivo: "I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space, were it not that I have bad dreams" (Hamlet, ato 2, cena 2). "Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e me achar rei do espaço infinito, se não tivesse maus sonhos". Falando da liberdade sonhada dentro de um espaço limitado, Shakespeare dialoga com Paulo Freire: a consciência se educa para ser livre, ainda que estreitos o seu entorno e a mente dos brucutus.



quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A educação e a IA

Todo mundo deveria estar falando disso.

PULSO IA por Maria Carolina Mariano

Olá, tudo bem?

Essa semana eu quero fazer uma coisa um pouco diferente. Em vez de contar uma cena da escola ou uma conversa que eu tive, eu quero sentar com vocês e ler um documento. Um relatório de umas trinta páginas, publicado pelo MIT no dia 13 de agosto, que, na minha leitura, é um dos documentos mais importantes sobre IA e educação que saiu esse ano, e que quase ninguém está comentando.

Eu traduzi os trechos que considero centrais. Vou colocar aqui, na ordem em que eles me chamaram atenção.

Quem escreveu isso, e por que importa que tenha sido o MIT?

Em janeiro de 2026, a reitoria do MIT montou um comitê com professores de todas as escolas do instituto, alunos de graduação e pós, bibliotecários e a equipe do laboratório de ensino. O pedido inicial era mapear como a IA estava sendo usada, levantar inovações em avaliação e propor uma política de uso.

Cinco meses depois, o comitê devolveu outra coisa. Logo na introdução, eles dizem que o que aprenderam os convenceu de que a comunidade precisava enfrentar perguntas mais profundas sobre a estrutura, o sentido e o valor de uma educação no MIT.

E aqui está o ponto que eu insisto no vídeo. Não é uma universidade qualquer. O laboratório de inteligência artificial do MIT foi fundado em 1959 por Marvin Minsky e John McCarthy, o homem que cunhou o termo “inteligência artificial”. Claude Shannon lecionava lá. Joseph Weizenbaum criou a ELIZA lá, em 1966, o primeiro chatbot da história (e o relatório lembra dela, com uma ironia bonita, porque a ELIZA foi feita para mostrar como a conversa com uma máquina era rasa... e as pessoas se apegaram a ela mesmo assim). Seymour Papert, que vocês já me viram citar tantas vezes, dirigiu esse laboratório ao lado de Minsky.

Quando a instituição que se descreve como profundamente identificada com o nascimento da IA escreve que precisa repensar o próprio ensino, o argumento “IA é só uma onda das big techs” perde sustentação.

Imagem gerada pelo ChatGPT

O que eles dizem que está acontecendo lá dentro?

O relatório não é um manifesto entusiasmado. É um diagnóstico, e boa parte dele é desconfortável.

Eles descrevem uma queda na frequência aos horários de atendimento dos professores, menos participação nas discussões online e, como relato informal, menos grupos de estudo nos dormitórios e bibliotecas. Descrevem alunos que se sentem pressionados a resolver tudo com IA, e professores que passaram a “policiar” o uso e sentiram a relação com os alunos se deteriorar. Descrevem um “contrato social” entre quem ensina e quem aprende que está se rompendo.

E aí vem o trecho que eu li no vídeo, da seção 1.1(*), que eles chamam de “paisagem”:

“A IA está gerando mudanças rápidas e imediatas, e também rupturas tectônicas de longo prazo. É provável que toda disciplina ensinada no MIT precise ser reexaminada, e possivelmente reformulada, para garantir que a forma como os alunos são ensinados, o que eles aprendem e como são avaliados levem a IA em consideração. [...] Para além das disciplinas específicas, o advento da IA exige uma reavaliação ampla e holística da natureza, do alcance e do propósito do ensino superior hoje.”

Reparem na palavra escolhida. Tectônica. Não é ajuste, não é atualização de ementa. É reestruturação profunda.

Então a resposta é proibir?

Não. E é aqui que o relatório fica mais interessante do que a maioria das discussões que eu vejo por aí.

Eles são explícitos contra os detectores de IA, porque geram uma corrida armamentista inútil e porque erram mais com alunos que não são falantes nativos de inglês ou neurodivergentes. São contra o racionamento de notas máximas que outras universidades adotaram, porque isso só aumenta o incentivo para trapacear. E são contra transformar tudo em prova presencial cronometrada, porque isso destrói justamente o trabalho longo, difícil e pensado que constrói maestria.

O que eles propõem, em vez disso, é voltar à pergunta de origem. Antes de decidir se a IA pode ou não pode numa disciplina, o professor precisa responder o que o aluno deve saber, saber fazer e passar a valorizar ao fim daquele curso. Só depois disso desenha a avaliação, exames orais, portfólios de semestre, trabalhos feitos fora da sala e discutidos dentro dela.

Eles têm um nome para o critério. Aumentar, não automatizar. Uma IA “pró-aprendiz” é aquela que expande o que o aluno consegue pensar e resolver, e não a que substitui o esforço de pensar. O relatório cita inclusive o fenômeno da “rendição cognitiva”, quando o estudante recorre à IA ao primeiro sinal de dificuldade.

Quem acompanha o Pulso há mais tempo vai reconhecer aqui exatamente o que eu venho chamando de esforço produtivo. Não fui eu que inventei. É a mesma coisa que o MIT está escrevendo.

E o que isso tem a ver com uma escola de educação básica em Belo Horizonte?

Aqui eu saio do relatório e entro na minha leitura.

A educação básica no Brasil está organizada, na prática, como uma esteira de 14 anos que desemboca num vestibular. A gente pode discordar disso, mas é assim que a maioria das escolas funciona e é assim que a maioria das famílias avalia uma escola.

Só que o vestibular leva para a universidade. E a universidade, pelo menos uma das mais importantes no mundo, está dizendo que precisa reavaliar como suas práticas garantem o seu propósito, e qual é, de fato, o seu propósito.

Vocês enxergam a cascata? Se o topo da pirâmide está sendo repensado, a base não pode continuar formatando crianças para um destino que está mudando de forma.

E para onde a escola vai? O relatório, de novo, responde. Este é o segundo trecho que eu li no vídeo, da seção 2.4:

“O produto mais importante da educação não é uma nota ou um diploma, mas os próprios alunos: seu crescimento pessoal, sua maturidade intelectual e o desenvolvimento de sua própria imaginação, discernimento e julgamento. [...] Precisamos ajudá-los a desenvolver capacidades metacognitivas para pensar sobre o próprio pensamento, a se engajar em práticas reflexivas e a fortalecer seu senso de agência.”

Competências de pensamento. Competências de meta-aprendizagem. Saber olhar para o próprio jeito de aprender. Isso não é apenas “bonito de dizer”, é o que está escrito no relatório da universidade onde a IA nasceu.

O que muda para as famílias?

Muda um lugar confortável. Eu entendo esse lugar, de verdade. A gente escolhe uma escola, talvez, porque estudou nela, muitas vezes porque conhece o prédio, e outras tantas vezes porque já sabe o que esperar. Isso dá sensação de controle.

Esse lugar acabou, gente. Porque o mundo para o qual ela preparava não é mais o mesmo, e irá se transformar ainda mais. A pergunta que uma família precisa fazer hoje, quando visita uma escola, não é mais “quantos alunos vocês aprovaram” e sim “como vocês ensinam uma criança a pensar sobre o que ela está aprendendo”.

Na Casa Fundamental, essa pergunta é o centro do projeto há mais de dez anos. Não porque a gente previu a IA, mas porque a investigação e a construção sempre foram a nossa forma de ensinar. O relatório do MIT me deu a impressão estranha de ler, escrito em inglês por um comitê de Cambridge, o que a gente vem construindo, dia a dia, há 10 anos, na nossa Casa, em Belo Horizonte.

Eu recomendo que vocês leiam o relatório inteiro. Está em aiandeducation.mit.edu/report, com apêndices e uma FAQ.

Até a próxima,

Maria Carolina Mariano

Assista ao Pulso IA da semana no Instagram.

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https://casafundamental.ensinio.com/g/ia-para-liderancas-educacionais/about

...

(*)

1.1 The Landscape

This report’s recommendations reflect the following insights about the educational landscape at MIT.

Generative AI is everywhere already, spurring an assortment of views:

  • MIT students use AI frequently and pervasively – with strongly mixed feelings, from curiosity, creative inspiration, and gratitude to resignation, concern, and anxiety.
  • Instructors’ attitudes range from enthusiastic exploration and growing reliance on AI to skepticism, suspicion, and “AI refusal”– and there’s a widespread desire to share experiences, ideas and techniques.

While AI is allowing instructors to develop exciting new learning experiences and enabling students to learn and experiment in innovative ways, there have been a number of concerning effects on the life of the campus, including signs that AI is:

  • Upending foundational elements of the MIT educational experience, especially for undergraduates, from the p-set, the take-home exam and UROPs to office hours and the study group.
  • Increasing isolation.
  • Undermining student mastery and confidence.
  • Eroding the “social contract” between instructors and students.
  • Making it much harder to assess student progress.
  • Challenging decades of distinctive MIT community norms and values about rigor, the creative friction required for learning, collaborative problem solving, and personal integrity.

AI is generating both immediate rapid changes and long-term tectonic disruptions – and MIT needs to respond:

  • Students are confused and concerned about a lack of clarity, consistency and justification about the use of AI, within a given subject and across the curriculum.
  • Every subject taught at MIT will likely need to be reexamined and potentially revamped to make sure that how students are being taught, what they’re learning, and how they’re assessed are “AI-aware.”
  • AI is changing what students need to know and know how to do.
  • Beyond its implications for specific subjects and disciplines, the advent of AI demands a broader, holistic reassessment of the nature, scope and purpose of higher education today.

Finally, AI presents substantial practical concerns for our community, from data privacy and confidentiality to questions around disparate access, bias, fairness, and accountability. AI’s explosive growth and ascendance also raise important questions for society, from the environmental impact of AI data centers, to the use of intellectual property and training data, to the overall human impact of the technology and the industry – and MIT needs to engage with those questions too.

Other educational institutions are grappling with similar questions around AI and generating interesting ideas – but no one seems to have it all figured out.

Three notes on the words we use:

  • N.B. In this report, “Instructors” includes faculty and everyone else engaged in teaching at MIT.
  • Most references to “students” apply to both undergraduate and graduate students, except in a few obvious places, as when we refer to the General Institute Requirements (GIRs) or to participants in the Undergraduate Research Opportunities Program (UROP).
  • “We,” “us,” and “our” sometimes refer to the members of the committee, and sometimes the whole of MIT. The difference should be clear from the context.
In Report​ MIT’s Ad Hoc Committee on AI Use in Teaching, Learning, and Research Training, August 13, 2026 https://aiandeducation.mit.edu/report/

domingo, 13 de setembro de 2026

Festival de Veneza 2026

Festival de Veneza 2026 - “Woman Unknown” venceu o Leão de Ouro e a mulher que Veneza quase não tinha 

EPA/ETTORE FERRARI

José Vieira Mendes, Visão, 13.09.2026

PALMARÉS — 83.º FESTIVAL DE CINEMA DE VENEZA 

Venezia 83 — Competição 

Leão de Ouro — Melhor Filme: Woman Unknown, de May el-Toukhy 

Leão de Prata — Grande Prémio do Júri: Possible Love, de Lee Chang-dong 

Leão de Prata — Melhor Realização: Ilya Khrzhanovsky, por DAU 

Prémio Especial do Júri: NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor 

Melhor Argumento: Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce, por Un bon petit soldat 

Coppa Volpi — Melhor Ator: John Malkovich, por Wild Horse Nine 

Coppa Volpi — Melhor Atriz: Mathilde Arcel, por Woman Unknown 

Prémio Marcello Mastroianni — Jovem Actor ou Actriz Revelação: Malou Khebizi, por 15/18 


Leão do Futuro — Prémio Luigi De Laurentiis 

Melhor Primeira Obra: House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu 


Orizzonti 

Melhor Filme: Diane in the Loop, de Ann Sirot e Raphaël Balboni 

Melhor Realização: Jacqueline Lentzou, por A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra 

Prémio Especial do Júri: House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu 

Melhor Ator: Riccardo Scamarcio, por The Children of the Monkey 

Melhor Atriz: Laleh Marzban, por Falling House 

Melhor Argumento: Tommaso Landucci e Damiano Femfert, por The Children of the Monkey 

Melhor Curta-Metragem: Quelques instants de bonheur, de Shaden Safieddine Tazi 


Venice Spotlight 

Prémio do Público Armani Beauty: I Matter, de Alina Șerban 


Venice Classics 

Melhor Filme Restaurado: Long Night of 1943, de Florestano Vancini 


Venice Immersive 

Grande Prémio: The Pigeon Ring, de Shixin Tao e Yuqi Zhang 

Prémio Especial do Júri: Out of the Ashes, de Rory Mitchell e Nonny de la Peña 

Achievement Prize: Empire at Sea, de Peter Flaherty 

Leões de Ouro de Carreira 

George Clooney 

Ellen Burstyn 

...

O Festival de Veneza fechou a 83.ª edição (2 a 12 de setembro) com uma surpresa daquelas que ainda justificam esperar pela abertura dos envelopes. Woman Unknown, de May el-Toukhy, roubou o Leão de Ouro aos favoritos e transformou o último ato da Mostra numa inesperada vitória do cinema e das mulheres-realizadoras sobre as previsões.

A realizadora dinamarquesa May el-Toukhy e o seu filme Woman Unknown não estavam nas contas nem nas apostas. E a sua atriz Mathilde Arcel também não. Porém, saíram ambas da noite de gala dos prémios e da Sala Grande, uma com o Leão de Ouro de Melhor Filme e a outra com a Coppa Volpi de Melhor Atriz, enquanto o favorito Possible Love, do coreano Lee Chang-dong, teve de se contentar com a prata. Mas o palmarés desta 83.ª Mostra diz bastante mais sobre algumas das grandes inquietações do cinema contemporâneo: premiou a desigualdade social, a loucura soviética de DAU, a denúncia devastadora de NAZA, a ditadura empresarial de Stéphane Brizé, um extraordinário John Malkovich e a juventude ferida de Malou Khebizi. Veneza começou a discutir porque tinha tão poucas mulheres na Competição e acabou entregando o Leão precisamente a uma delas. Às vezes os júris ainda servem, felizmente, para estragar as tabelas de estrelas. 

Da diversidade do cinema contemporâneo 

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Veneza terminou com uma bela piada involuntária. Durante onze dias discutiu-se cinema, Gaza, Musk, Inteligência Artificial, bilionários, bunkers, Rupert Murdoch, CIA, ditaduras, corpos, guerras, memória e poder e, logo no arranque, uma questão bastante mais simples: onde estavam as mulheres realizadoras? Eram praticamente duas na Competição: May el-Toukhy, única mulher a assinar sozinha uma longa-metragem, Woman Unknown, e Rachel Szor, co-realizadora com Yuval Abraham do documentário NAZA. Maggie Gyllenhaal, presidente do júri, logo no início, não fugiu à pergunta nem tentou embrulhá-la naquele celofane diplomático que os festivais adoram. Existe um problema sistémico, disse, porque as mulheres continuam a ter maior dificuldade em financiar filmes e porque aquilo que querem contar nem sempre é reconhecido pelos mesmos senhores que durante décadas decidiram o que merece a nobre classificação de “grande cinema”. Onze dias depois, o Leão de Ouro foi parar às mãos de May el-Toukhy, realizadora dinamarquesa de origem egípcia, e, para completar a ironia, Mathilde Arcel levou também a Coppa Volpi. Duas mulheres, dois dos grandes prémios da noite e um filme que praticamente ninguém colocava no topo das apostas. O Leão, pelos vistos, não consultou as tabelas da crítica antes de sair da jaula. 

Woman Unknown também não parece material fabricado em laboratório para ganhar festivais. Passa-se na Dinamarca do verão de 1945, terminado o pesadelo da ocupação nazi, quando a euforia da libertação rapidamente descobre a sua própria capacidade para produzir vingança, humilhação e hipocrisia. Marie, interpretada por Mathilde Arcel, é uma criada prestes a casar com o patrão, um viúvo mais velho e abastado. Só que o passado recusa-se a obedecer às ordens da História. Marie manteve uma relação com um soldado alemão e, numa Dinamarca que persegue, rapa o cabelo e expõe publicamente as mulheres acusadas de confraternizarem com o inimigo, o corpo feminino volta a ser território ocupado. Primeiro pela guerra, depois pela moral dos vencedores. Mudam-se os uniformes e as bandeiras, permanece aquela irresistível tentação masculina de decidir o que uma mulher pode fazer com o próprio corpo. 

May el-Toukhy consegue assim fazer um drama histórico chegar violentamente ao presente. Falou esta noite de mulheres invisíveis, sem voz, e do corpo feminino como campo de batalha. Mathilde Arcel, na sua primeira protagonista no cinema, recusa transformar Marie numa santa pronta a caber num cartaz militante. Dá-lhe medo, desejo, culpa, cálculo, vergonha e instinto de sobrevivência. A sua Coppa Volpi não é um prémio de acompanhamento do Leão: é uma das razões pelas quais o Leão existe. 

A prata coreana, o laboratório soviético e o horror convertido em algoritmo 

A surpresa torna-se maior porque o campeonato das previsões parecia relativamente resolvido. Possible Love, o regresso de Lee Chang-dong oito anos depois de Burning, chegava à cerimónia com aquele ar de vencedor antecipado, reforçado pelo Prémio FIPRESCI da crítica internacional. Foi um dos filmes mais unanimemente elogiados da Mostra e um daqueles que provavelmente continuarão connosco depois de desaparecer todo o show off dos festivais. Lee cruza dois casais de classes sociais opostas: Ho-seok e Mi-ok, feridos pelo desemprego e pela precariedade; Ye-ji, documentarista abastada que decide filmá-los, e o marido, Sang-woo, pertencente ao universo onde os problemas económicos são normalmente coisas que acontecem aos outros. A partir daí entra numa zona moral muito mais perigosa: quem observa quem, quem utiliza quem e até onde pode alguém transformar a miséria alheia em matéria artística? Lee Chang-dong não precisa de pôr Karl Marx a sair de trás de uma porta. Basta-lhe uma sala, uma mesa, dois casais e as pequenas humilhações que o dinheiro introduz numa relação aparentemente igual. Possible Love parecia o Leão de Ouro lógico. Recebeu o Leão de Prata — Grande Prémio do Júri. Perdeu o ouro, mas não saiu derrotado. 

Já o Leão de Prata de Melhor Realização para Ilya Khrzhanovsky por DAU talvez seja o prémio que melhor leva a palavra “realização” até às últimas consequências. Foram cerca de vinte anos de um projeto que deixou há muito de parecer uma produção cinematográfica normal para se transformar numa espécie de Estado paralelo com câmaras. Khrzhanovsky reconstruiu um universo soviético, instalou pessoas lá dentro, filmou milhares de horas e criou filmes, instalações, experiências e polémicas em torno do físico Lev Landau, da ciência submetida ao poder e daquela velha tendência dos Estados totalitários para adorarem cientistas desde que descubram exatamente aquilo que o Estado deseja. São mais de três horas de física, Stalin, medo, desejo, sexo, ciência e opressão. Pode discutir-se quase tudo em DAU, incluindo os métodos do próprio Khrzhanovsky, mas poucas obras desta Competição tiveram tamanha vertigem, ambição e loucura cinematográfica. Melhor Realização? Talvez fosse preciso inventar o prémio para Melhor Obsessão. 

E depois apareceu NAZA, já perto do fim, quando começávamos a fechar balanços e escolher favoritos. Mudou o ar da sala. Depois de Musk, foi provavelmente a sessão mais inquietante desta Veneza 83, mas por razões ainda mais brutais. Alex Gibney mostrava-nos um homem com um poder tecnológico assustador; Yuval Abraham e Rachel Szor fizeram algo mais perturbador: perante vítimas tantas vezes silenciadas, puseram os homens do sistema a falar. O documentário constrói-se a partir dos depoimentos de 24 militares e agentes israelitas e mostra o que acontece quando tecnologia, algoritmos, Inteligência Artificial e poder militar deixam de pertencer à ficção científica e passam a decidir, a quilómetros de distância, quem pode morrer. Não precisa de exibir continuamente corpos. Mostra o mecanismo que os produz: dados, percentagens, autorizações, coordenadas, margens aceitáveis de vítimas civis. Uma guerra transformada numa folha de Excel com mísseis. O Prémio Especial do Júri foi uma das decisões politicamente mais fortes deste palmarés. Um prémio não trava uma bomba, evidentemente, mas Veneza colocou oficialmente entre os vencedores um filme que acusa um sistema de ter industrializado a desumanização. 

Recursos Humanos, CIA e outras formas civilizadas de violência 

O prémio de Melhor Argumento para Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce por Un bon petit soldat também faz todo o sentido. Brizé regressa ao território que conhece bem: a empresa contemporânea como pequena ditadura onde ninguém é oficialmente carrasco porque todos estão apenas a cumprir procedimentos. Alba Rohrwacher interpreta Carla Moretti, nova responsável de Recursos Humanos de uma grande companhia de seguros. Recursos Humanos: duas palavras maravilhosas, sobretudo porque significam frequentemente que alguém deixou de ser pessoa e passou a recurso. Carla chega com boas intenções, vontade de corrigir abusos e aquela ingenuidade profissional de quem ainda acredita que um código de ética serve para alguma coisa quando começa a incomodar os lucros. Encontra chefias abusivas, discursos progressistas para consumo externo, hierarquias, interesses e a necessidade permanente de proteger a empresa da realidade da própria empresa. Ninguém precisa de gritar “viva a ditadura”. Basta perguntar se uma decisão moral poderá afetar os resultados trimestrais. Há cartões de identificação, departamentos jurídicos, PowerPoints e reuniões de avaliação. Muito mais civilizado. O argumento transforma assim um conflito laboral numa anatomia da obediência. 

A Coppa Volpi de Melhor Ator para John Malkovich por Wild Horse Nine era, ao contrário do Leão de Ouro, uma surpresa bastante menor. Desde que Martin McDonagh apresentou o filme, Malkovich ficou imediatamente na zona dos premiáveis. Ao lado de Sam Rockwell, regressa ao universo que McDonagh domina como poucos: homens moralmente estragados, diálogos que parecem granadas com temporizador, violência absurda, culpa e amizades masculinas que só conseguem exprimir sentimentos através do insulto. A CIA, o Chile, a sombra de Allende e a Ilha da Páscoa servem de cenário a uma comédia negra sobre homens que passaram demasiado tempo a matar em nome de causas que talvez nunca tenham compreendido inteiramente. Malkovich interpreta um veterano que começa a fazer contas à vida precisamente quando já há poucas contas para fazer. É divertido, venenoso, cansado, cruel e inesperadamente comovente. Consegue parecer que está a gozar com a personagem e a sofrer por ela ao mesmo tempo. Não esteve na Sala Grande — enviou uma mensagem gravada porque está a filmar em Toronto —, mas saiu de Veneza com uma bela rampa de lançamento para a corrida aos Oscars. 

O Prémio Marcello Mastroianni para Malou Khebizi por 15/18 (A Place to Heal) é, pelo contrário, daqueles que parecem pequenos quando se lê rapidamente o palmarés e podem tornar-se enormes para quem os recebe. Cédric Kahn instala a câmara numa unidade pública de psiquiatria para adolescentes entre os 15 e os 18 anos e recusa transformar aqueles jovens numa coleção de diagnósticos. Malou Khebizi, como Lucia, ocupa o centro emocional desse pequeno caos: desafiante, sexualizada, furiosa, vulnerável, carregando marcas de abuso e a necessidade permanente de atacar antes de voltar a ser atacada. Kahn filma-a sem piedade sentimental e sem a reduzir à “jovem problemática” de um relatório clínico. Num festival carregado de Malkovich, Bardem, Cruz, Pattinson, Clooney e Rockwell, é saudável que um dos prémios principais vá parar às mãos de alguém que ainda agora começou. 

A Maggie tinha avisado 

É aqui que regressamos a Maggie Gyllenhaal. Dos 21 filmes da Competição, apenas Woman Unknown era exclusivamente realizado por uma mulher; NAZA tinha Rachel Szor como co-realizadora com Yuval Abraham. Não foi propriamente uma invasão feminina ao Lido. Gyllenhaal lembrou desde o início que o problema começa muito antes de Alberto Barbera escolher os filmes: em quem consegue dinheiro para filmar, quem recebe confiança para dirigir produções, que histórias são consideradas universais e quais continuam arrumadas na gaveta dos chamados “assuntos de mulheres”. 

Também não vale transformar agora o júri numa conspiração de saias. Eram sete jurados: Maggie Gyllenhaal, Kaouther Ben Hania e Shahrbanoo Sadat, três mulheres; Johnnie To, Xavier Giannoli, Daniel Blumberg e Francesco Casetti, quatro homens. Quase ela por ela. Woman Unknown não foi escolhido por um “júri feminino”. Foi escolhido por um júri internacional presidido por uma mulher numa Competição que quase não lhe deu outras realizadoras para avaliar. Na verdade, trata-se de um palmarés sobre o poder. E talvez seja isso que o torna mais interessante do que uma simples lista de vencedores. O júri recusou concentrar tudo num filme ou confirmar obedientemente as tabelas da crítica. Deu o ouro à surpresa dinamarquesa, a prata ao favorito coreano, a realização à experiência soviética de Khrzhanovsky, o prémio especial ao documentário mais explosivo da Mostra, o argumento à dissecação empresarial de Brizé, as Coppa Volpi a uma actriz praticamente desconhecida e a um ator que conhecemos há quarenta anos, e o prémio de revelação a uma jovem francesa perdida numa instituição psiquiátrica. Há, aliás, uma curiosa linha subterrânea a unir quase todos estes vencedores: o poder. Woman Unknown fala do poder da sociedade sobre o corpo feminino; Possible Love, do dinheiro e da classe; DAU, do Estado; NAZA, da máquina militar e tecnológica; Un bon petit soldat, da empresa; Wild Horse Nine, das ruínas deixadas pelo poder político; A Place to Heal, das instituições perante jovens que já chegaram feridos. Talvez o júri não tenha deliberadamente construído este mapa. Melhor ainda. Os bons palmarés dizem por vezes coisas que os próprios jurados não planearam dizer. E fica finalmente a ironia perfeita do título. A “mulher desconhecida” chegou ao Lido fora do pelotão dos favoritos, entre grandes autores, estrelas de Hollywood, filmes intermináveis e aquela bolsa de valores crítica que todos fingimos desprezar enquanto consultamos religiosamente as cotações. Sai como a mulher mais conhecida da noite. Um Leão de Ouro não resolve a desigualdade nem corrige uma indústria. Mas deixa uma imagem bastante boa para fechar Veneza 2026: May el-Toukhy com o Leão, Mathilde Arcel com a Coppa Volpi e um filme chamado Woman Unknown no lugar mais visível da fotografia. Depois de onze dias a perguntar onde estavam as mulheres, uma delas acabou no palco. E levou o Leão  de Ouro consigo para casa. 

NB: os link ocultos (nos filmes) são deste que vos fala

sábado, 12 de setembro de 2026

O pulso ainda pulsa

Datafolha: Lula tem 39%, e Flávio Bolsonaro, 35% no 1º turno; rivais empatam no 2º

Na primeira rodada, Cury tem 6%, seguido de perto por Caiado (4%), Renan Santos (3%) e Zema (2%). Na segunda, petista tem 46% e senador, 44%; pesquisa foi primeira do instituto após a crise no STF.

Igor Gielow, fsp, 11.09.2026

A primeira pesquisa do Datafolha realizada sob o impacto pleno da crise do Supremo Tribunal Federal mostra uma situação de estabilidade na corrida ao Planalto, com o presidente Lula (PT) marcando 39% no primeiro turno e o senador Flávio Bolsonaro (PL), 35%.

Augusto Cury (Avante) tem 6%, seguido por Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, Renan Santos (Missão), com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 2%. Samara (UP), Edmilson Costa (PCB), Clariana Barão (DC) e Rui Costa Pimenta (PCO) têm 1%. Dizem votar voto branco ou nulo 6%, e 4% se dizem indecisos.



Há uma semana, Lula marcava 38%, ante 33% de Flávio. Já Cury havia subido seis pontos, chegando a 8%.

O resultado é estável para a dupla à frente, mas a distância numérica entre eles é a menor desde maio, tendo passado de 10 para 4 pontos percentuais — o que sugere empate no limite máximo da margem de erro de dois pontos para mais ou menos, com maior probabilidade de Lula estar à frente.

Na votação espontânea, quando o eleitor não vê a lista de candidatos, Lula segue sendo o mais lembrado, passando de 31% para 33% ante a rodada anterior. Flávio foi de 22% para 25% e Cury oscilou de 5% para 3%. Os indecisos estão em 23%, nível mais baixo até aqui.



Já na simulação de segundo turno, o petista teria 46% e o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro, 44%. Na rodada anterior, os números eram os mesmos, indicando um empate técnico.

Não houve alterações significativas em termos de perfil de eleitorado, embora Flávio tenha novamente invertido o sinal com Lula no Sudeste, região mais populosa com 42% da amostra do Datafolha. Nela, o senador marca 37%, ante 35% do petista; há uma semana, o bolsonarista tinha 34% e o presidente, 36%.

Nos grandes estratos, Lula segue com boa vantagem entre os 28% menos instruídos (52% a 24%), os 49% mais pobres (47% a 27%), os 27% de nordestinos (53% a 25%) e os 50% de católicos (46% a 29%).

Flávio, por sua vez, lidera com mais vantagens entre os 47% com ensino médio (40% a 35%) e os 25% com diploma superior (37% a 30%). Na classe média que ganha de 2 a 5 salários mínimos, 33% da população, bate Lula por 42% a 31%, taxa que sobe acompanhando a renda. Vence entre os 15% de sulistas (40% a 29%), nos 18% moradores do Norte/Centro-Oeste (40% a 32%) e nos 28% de evangélicos (50% a 22%).

PESQUISA É PRIMEIRA COM CRISE NO STF

A pesquisa foi realizada sob o impacto da crise do STF. Ela foi encerrada, contudo, antes da revelação nesta sexta (11) de que Flávio é investigado no inquérito do caso "Dark Horse" e a determinação do fim do sigilo sobre os dados da apuração.

A crise começou com a revelação, pelo ministro André Mendonça, de relatório sigiloso a que Alexandre de Moraes teve acesso no qual são reveladas relações próximas do colega com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master preso sob acusação de comandar a maior fraude financeira da história brasileira.

Moraes revidou questionando os atos do colega formalmente. Mendonça, por sua vez, reagiu determinando o afastamento do chefe da Polícia Federal e do diretor de inteligência do órgão. O presidente da corte, Edson Fachin, buscou ganhar tempo e acalmar ânimos suspendendo todas as medidas.

Ele também marcou para a terça que vem (15) uma sessão para debater a abertura ou não de investigação sobre Moraes, a quem removeu do polêmico inquérito das fake news, que desde 2019 era conduzido pelo ministro.

Flávio adotou já no evento do 7 de Setembro a estratégia de associar Lula a Moraes, que comandou o julgamento que condenou seu pai a 27 anos e três meses de cadeia por tentativa de golpe de Estado e manteve aliança tática com o petista ao longo do terceiro mandato do presidente.

Lula, por sua vez, viu seu ex-ministro da Justiça Flávio Dino, hoje no Supremo, recolocar em foco as relações do senador fluminense com Vorcaro.

Flávio Bolsonaro foi gravado pedindo dinheiro ao então banqueiro já em apuros, o chamando de "meu irmão" e prometendo lealdade.

A verba, quase R$ 70 milhões, se destinaria, segundo o senador, para bancar o filme "Dark Horse" (azarão, em inglês), sobre a carreira de seu pai. Só que Flávio não apresentou as contas e disse se tratar de uma empreitada privada, quando houve dinheiro da prefeitura paulistana envolvido.

Dino abriu o capítulo ao autorizar ação da PF para verificar o uso de verbas parlamentares no financiamento, atingindo o deputado bolsonarista Mário Frias (PL-SP). O eventual impacto desse evento na pesquisa está prejudicado, dado que o trabalho dos entrevistadores já estava avançado.

Por fim, o fim do sigilo sobre o caso no Supremo mostrou que Flávio é investigado, mas a pesquisa já havia sido encerrada.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Grande sertão: veredas - Cap. 3

Continuação de Grande sertão: veredas - Cap. 2 ( ver aqui) 

Desagasalhados na alegria

O senhor havia de gostar de ver aquela ajuntação de povo, as coisas que falavam e faziam, o jeito como podiam se rir, na vadiação, todos bem comidos, entalagados, Daí, escureceu. Homens deitados no chão, escornados até quase debaixo do mijo dos cavalos pastantes. Eu estava que impava, queria um bom sono. A ver, fui com Diadorim para o rumo dos pés de fruta, seguindo o rego. Com a entrada da noite, o passar da agua canta friinho, permeio, engrossa, e a gente aprecia o cheiro do musgúz das árvores. Zé Bebelo tinha ido embora, para sempre, no cavalo de duas cores, fez pouca poeira. Nós estávamos no jaz ali, repimpados, enfunando as redes. Disso não esqueço? Não esqueço. A gente estava desagasalhados na alegria, feito meninos. [205-206]

O rio desmazelado, livre rolador

Naquela mesma da hora, Joca Ramiro dava partida também de volta para o São joão do Paraíso. Lá ia ele, deveras, em seu cavalão branco,   ginete - ladeado por So Candelário e o Ricardão, igual iguais galopavam. Saíam os chefes todos - assim o desenrolar dos bandos. em caracol, aos gritos de vozear. Ao que reluzia o bem belo. Diadorim olhou, e fez o sinal da cruz, cordial.- "Assim, ele me botou a benção..." foi o que disse. Dá sempre tristezas algumas, um destravo de grande povo se desmanchar. Mas, nesse dia mesmo, em nossos cavalos tão bons, dobramos nove léguas.

As nove. Com mais dez, até à Lagoa do Amargoso. E sete, para chegar numa cachoeira no Gorutuba. E dez, arranchando entre Quem-Quem e Solidão; e muitas idas marchas sertão sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Mas saímos, saímos. Subimos. Ao quando um belo dia, a gente parava em macias terras, agradáveis. As muitas águas. Os verdes já estavam se gastando. Eu tornei a me lembrar daqueles pássaros. O marrequim, a garrixa-do-brejo, frangos-ďágua, gaivotas. O manuelzinho-da-crôa! Diadorim, comigo. As garças, elas em asas. O rio desmazelado, livre rolador. E aí esbarramos parada, para demora, num campo solteiro, em varjaria descoberta, pasto de muito gado. [207-208]

Pêjo de vento

Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. Melhor alembro. Eu estava sozinho, num repartimento dum rancho, rancho velho de tropeiro, eu estava deitado numa esteira de taquara. Ao perto de mim, minhas armas. Com aquelas, reluzentes nos canos, de cuidadas tão bem, eu mandava a morte em outros, com a distância de tantas braças. Como é que, dum mesmo jeito, se podia mandar o amor? O rancho era na borda- da- mata. De tarde, como estava sendo, esfriava um pouco, por pêjo de vento - o que vem da Serra do Espinhaço - um vento com todas almas. [210]

Um Diadorim só para mim

O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor..." Como era que eu podia dizer aquilo? Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas - como quando a chuva entre-onde-os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abracava com meu corpo aquele Diadorim - que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de mim: uma serepente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava. [211]

Mataram Joca Ramiro

O Gavião-Cujo abriu os queixos, mas palavra logo não saíu, ele gaguejou ar e demorou - decerto porque a notícia era urgente ou enorme.

- "Ar'uê, então?!" - Titão Passos quis. - "Te rogaram alguma praga?"

O Gavião-Cujo levantou um braço, pedindo prazo. À fé, quase gritou:

"Mataram Joca Ramiro.!.."

Aí estralasse tudo no meio ouvi um uivo dôido de Diadorim -: todos os homens se encostavam nas armas. Ar, ei, feras! Que no céu, só vi tudo quieto, só um moído de nuvens.Se gritava - O araral. As vertentes verdes do pindaibal avançassem feito gente pessoas. Titão Passos bramou as ordens. Diadorim tinha caído quase no chão, meio amparado a tempo por João Vaqueiro.

Caíu, tão pálido como cera do reino, feito um morto estava Ele, todo apertado em seus couros e roupas, eu corri, para ajudar. A vez de ser um desespero. O Paspe pegou uma cuia d'água, que com os dedos espriçou nas faces do meu amigo. Mas eu nem pude dar auxílio: mal ia pondo a mão para descolete-jaleco, e Diadorim voltou a seu si, num alerta, e me repeliu, muito feroz. Não quis apôio de ninguém. sozinho se sentou, se levantou. Recobrou as cores, e em mais vermelho o rosto, numa fúria, de pancada. Assaz que os belos olhos dele formavam lágrimas. Titão Passos mandava, o Gavião-Cujo falava. Assim os companheiros num estupor. Ao que não havia mais chão, nem razão, o mundo nas iuntas se desgovernava.

_ "Repete, Gavião!"

"Ai, chefe, ai, chefe: que mataram Joca Ramiro..."

- "Quem? Adonde? Conta!

Arre, eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços. Secou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Até atravessado, na barriga, me doeu. Antes mais, o pobre Diadorim. Alheio ele dava um bufo e soluco, orço que outros olhos, se suspendia nas sussurrosas ameaças. Tudo tinha vindo por cima de nós feito um relâmpago em fato.

- ... " Matou foi o Hermógenes...

- "Arraso, cão! Caracães! O cabrobó de cão! Demônio! Traição! Que me  pagal..." - constante não havendo quem não exclamasse. O ódio da gente, alí em verdade, armava um pojar para estouros. Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter matado? Aquilo era como fosse um touro preto, sozinho surdo nos êrmos da Guararavacã, urrando no meio da tempestade. Assim Joca Ramiro tinha morrido. E a gente raivava alto, para retardar o surgir do medo - e a tristeza em crú - sem se saber por que, mas que era de todos, unidos malaventurados.

- ". ○ Hermógenes... Os homens do Ricardão.... O Antenor.. Muitos..."

- "Mas. adonde onde!?"

- "A desgraca foi num lugar, na Jerara, terras do Xanxerê, beira da Jerara - lá onde o córrego da Jerara desce do morro do Voo e cai barra no Riachão da Lapa... Diz-se que foi sido de repente, não se esperava. Aquilo foi traição toda. Morreram os muitos, que estavam persistindo lealmente. Ai mortos: João Frio, o Bicalho, Leôncio Fino, Luís Paieú, o Cambó, Leite-de-Sapo, Zé Inocêncio...uns quinze. Até se deu um tiroteio terrível; mas o pessoal do Hermógenes e do Ricardão era demais numeroso... Dos bons, quem pôde, fugiram corretamente. Silvino Silva conseguiu fuga, com vinte e tantos companheiros..." [214-215]

A caraíba-de-flor-rôxa, tão urucuiana

A gente os quatro, com o cavalo, era nada, as arrobazinhas. E nós entramos, depois que o patrão nos saudou, em nome de Nosso Senhor Cristo-Jesus e disse: "Eu cá sou amigo de todos, segundo a minha condição..." E o Alaripe aceitou dele um gole de cachaça, aceitamos. Jesualdo disse, repostando: "Amigo de todos? Rio-abaixo, na canoa, quem governa é o remador!" Bem que rio-acima é que era, mas com remeiros muito bons esforçados. Aí constante, o velêjo, vento em pano - nem remeiro com o varejão não carecia de fazer talento. Pediram notícias do sertão. Essa gente estava tão devolvida de tudo, que eu não pude adivinhar a honestidade deles. O sertão nunca đá notícia. Eles serviram à gente farta jacuba. - "Por onde os senhores vieram?" - o patrão indagou. - "Viemos da Serra Rompe-Dia..." - respondemos. Mentiras d'água. Tanto fazia dizer que tínhamos vindo da de São Felipe. O barqueiro não acreditou, deu o zé de ombros. Mas levou a gente travessia fácil, frenteando a boca do Urucúia. .  Ah, o meu Urucúia, as águas dele são claras certas. E ainda por ele entramos, subindo légua e meia, por isso pagamos uma gratificação. Rios bonitos são os que correm para o Norte, e os que vêm do poente - em caminho para se encontrar com o sol. E descemos num pojo, num ponto sem praia, onde essas altas árvores - a caraíba-de-flor-rôxa, tão urucuiana. E o folha-larga, o aderno-preto, o pau-de-sangue; O pau-paraíba, sombroso. O Urucúia, suas abas. E vi meus Gerais! [222]

Me alembro, meu é

 E que, com o nosso cansaço, em seguir, sem eu nem saber, o roteiro de Deus nas serras dos Gerais, viemos subindo até chegar de repente na Fazenda Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda. Que's borboletas! E era em maio, pousamos lá dois dias, flôr de tudo, como sutil suave, no conhecimento meu com Otacília. O senhor me ouviu. Em como Otacília e eu ficamos gostando um do outro, conversamos, combinados no noivável, e na sobremanhã eu me despedi, ela com sua cabecinha de gata, alva no topo da alpendrada, me dando a luz de seus olhos; e de lá me fui, com Diadorim e os outros. E de como viemos, em cata do grosso do bando de Medeiro Vaz, que dali a quinze léguas recruzava, da Ratragagem para a Vereda-Funda, e com eles nos ajuntamos, economizando rumo, num lugar chamado o Bom-Burití. Me alembro, meu é. Ver belo: o céu poente de sol, de tardinha, a roséia daquela cor. E lá é cimo alto: pintassilgo gosta daquelas friagens. Cantam que sim. Na Santa Catarina. Revejo. Flores pelo vento desfeitas. Quando rezo, penso nisso tudo. Em nome da Santíssima Trindade. [223]

Viver é muito perigoso

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, que produz os sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já e um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe. O Reinaldo era Diadorim - mas Diadorim era um sentimento meu. Diadorim e Otacília. Otacília sendo forte como a paz, feito aqueles largos remansos do Urucuia, mas que é rio de braveza. Ele está sempre longe. Sozinho. Ouvindo uma violinha tocar, o senhor se lembra dele. Uma musiquinha até que não podia ser mais dansada - so o debulhadinho de purezas, de virar-virar... Deus está em tudo - conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse, por uma vez. Como é que se pode pensar toda hora nos novissimos, a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito. Eu penso é assim, na paridade. O demônio na rua... Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro e o do sentidor. O que eu quero, é na palma da minha mão. Igual aquela pedra que eu trouxe do Jequitinhonha. Ah, pacto não houve, Pacto? Imagine o senhor que eu fosse sacerdote, e um dia tivesse de ouvir os horrores do Hermogenes em confissão. O pacto de um morrer em vez do outro e o de um viver em vez do outro, então?! Arrenego. E se eu quiser fazer outro pacto, com Deus mesmo - posso? - então não desmancha na rás tudo o que em antes se passou? Digo ao senhor: remorso?  Como no homem que a onça comeu, cuja perna. Que culpa tem a onça, e que culpa tem o homem? [226]

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Ledo engano

Amara Moira#

Vários são os aspectos que tornam o Grande sertão: veredas um marco na literatura brasileira, mas, dentre todos, o componente sexual e de gênero é o que mais me chama a atencão. Nas primeiras resenhas que a obra recebeu, já se pontuava esse aspecto, por exemplo no seguinte trecho, em que se discute a "grande afeição de Riobaldo por Diadorim, afeição exagerada, assumindo um aspecto corydonesco - embora o heroi de Guimarães Rosa não pareça ter uma ideia nítida dos verdadeiros motivos que o aproximam do companheiro".*

Quando diz "verdadeiros motivos", a resenha defende que, a despeito do homoerotismo que domina a obra por 485 páginas, o que vale mesmo é o segredo revelado nas quinze últimas: "Diadorim era mulher e não homem, explicando-se assim, fora da perspectiva gidiana, todo o seu fascínio sobre Riobaldo".** Ou seja, é como se Riobaldo já intuisse o que só descobriria após a morte de Diadorim, e essa intuicão, aos olhos da resenha, bastasse para heterossexualizar o desejo manifestado ao longo de toda a narrativa. Nas palavras de outro resenhista, Octavio Mello Alvarenga: "O fecho fica perfeito. O amor de Riobaldo não tinha sujice".*** A reviravolta um tanto inverossimil é comemorada nessas primeiras resenhas, que funcionam também como um alerta ao leitor, uma forma de prepará-lo para um livro que parecerá deveras homossexual, mas no fim, bem no finzinho mesmo, se revelará hétero.

E eis um dos grandes ardis de JGR: sua obra máxima nos convida a mergulhar no prazer que o protagonista sente ao apaixonar-se por outro homem, mas cria um alibi perfeito para, nas páginas finais, podermos alegar que tudo não passou de um malentendido, um ledo engano. O curioso é que Riobaldo conhecia o desfecho quando começa a desfiar suas memórias, mas escolhe contá-las de forma a fazer com que experienciemos o que ele próprio viveu, isto é, os sentimentos conflituosos de um desejo homossexual. Terá Riobaldo a mesma certeza que seus resenhistas de primeira hora?

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* Correlo da Manhã, 15 ago, 1956, p. 9.

* Ibid.

*** Ibid, 10 nov.1956, p.9.

# Grande sertão: veredas - "O diabo na rua, no meio do redemoinho" - Edição especial 70 anos, João Guimarães Rosa, p. 523, Companhia das Letras, 2026.

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