1. Raimundo Rodrigues Pereira (1940-2026)
2. "Escrevo para não matar e não morrer”. Eliane Brum
3. 'Beijo 2348/72' com Fernanda Torres
4. Sotheby's vai leiloar fóssil de Tyrannosaurus rex estimado
5. Chanchada de Flávio com Trump pode acabar em duplo naufrágio
6. 'Natal Amargo', filme admirável de Almodóvar
7. 'Grande Sertão: Veredas', Guimarães Rosa e os 70 anos do lançamento
8. O que falta na encíclica do papa Leão 14 sobre a IA
9. Karl Marx vive!
10. Taika Waititi vai de 'Thor' a 'Star Wars'
11. Os 20 favoritos de Kubrick
12. Músico e poeta Emmanuel 7Linhas assassinado em Vila Velha
13. Volta Seca no Pasquim
14. Universidade na encruzilhada frente à guerra cultural
15. Dez anos de falência democrática
16. A folha corrida de um senador
17. Um homem, uma mulher e um negro
18. Vargas uniu, o agro desfez
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1. Raimundo Rodrigues Pereira (1940-2026)
O (quase) engenheiro que fazia jornais
Lembranças de Raimundo Rodrigues Pereira
Tonico Ferreira, piauí, junho 2026
Logo após a morte de Raimundo Pereira, https://www.poder360.com.br/poder-gente/jornalista-raimundo-rodrigues-pereira-morre-no-rio-aos-85-anos/ recebi uma carta dele vinda do além. Pelo menos, assim me pareceu. Não sou religioso, e o Raimundo também não era. Talvez eu tenha apenas revisto, numa fantasia nostálgica, os catorze anos em que trabalhei lado a lado com aquele pernambucano meio sério, meio brincalhão, reconhecido como o principal editor de jornais oposicionistas durante a ditadura militar.
Caro Tonico, escrevo agora porque não tivemos tempo de conversar antes de eu partir. Queria que você dissesse aos nossos amigos e amigas que passo bem e que continuo um criador de jornais. Ainda preciso me ambientar deste lado, mas já estou pensando em algum periódico que possa lançar. Tenho, antes, que planejar a arrecadação dos recursos financeiros, como fizemos ao conceber o semanário Movimento em 1975. Foi a realização de um velho sonho, lembra? Vou atrás de bons jornalistas que já deram as caras por aqui – Mino Carta, Sérgio de Souza, Paulo Patarra, Matías Molina, Elifas Andreato, os de sempre. Acho que você gostará de saber que, nestas bandas, tudo é perdoado. Por isso, circulo desarrumado sem causar espanto e, assim, sigo cultivando um aspecto importante do meu marketing pessoal.[1]
Nascido em Exu, no sertão de Pernambuco, Raimundo Rodrigues Pereira morreu no último dia 2 de maio, aos 85 anos. Ainda me recordo vivamente de nosso primeiro encontro, em 1967. Eu cursava o segundo ano de arquitetura na Universidade de São Paulo. “O cara é um gênio”, me adiantaram pouco antes de eu conhecê-lo. Ele havia passado duas vezes seguidas no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o mais difícil do país na época. Era considerado ótimo redator e se preparava para virar editor-chefe do Amanhã, primeiro semanário que dirigiu. Eu imaginei que encontraria um jornalista austero, bem-vestido, com óculos de armação grossa e talvez gravata, um Clark Kent, mas encontrei um sujeito de pernas tortas e roupas muito simples.
Sua biografia exibia mais lances interessantes. Em 1964, pouco depois do golpe, o Raimundo foi preso e expulso do ITA quando já fazia o último ano de engenharia aeronáutica. A acusação dos militares era falsa: ele integraria um grupo subversivo de estudantes que planejava dinamitar uma ponte na Via Dutra. O plano seria impedir que tropas de São Paulo chegassem ao Rio de Janeiro, onde o golpe estava em andamento. Uma maluquice total. No ITA, o Raimundo se comportava mais como um anarquista, nunca como um “terrorista”. Escrevia artigos bem-humorados para uma publicação estudantil (seu batismo no jornalismo), sem se importar que estava numa rígida escola militar.
A prisão e a expulsão do instituto liquidaram impiedosamente o sonho de Lindanora e Joaquim, pais do Raimundo. O casal não via a hora de o rapaz tirar o diploma de engenheiro, depois de a família ter se esforçado tanto, desde que fugiu da seca em 1942, quando o filho mal completara 2 anos. Raimundo, porém, deu a volta por cima. Entrou na USP, onde se formaria em física, lecionou matemática e trabalhou em revistas especializadas da Editora Abril, como Máquinas & Metais. Em 1967, ainda universitário e atraído pela crescente agitação dos estudantes, aceitou o convite para comandar o Amanhã, um dos primeiros jornais da chamada imprensa alternativa ou nanica, que reunia publicações de resistência à ditadura. O semanário estudantil seria vendido em banca.
Tonico, estou em dúvida sobre qual será o posicionamento político do jornal que pretendo lançar aqui. Isso é sempre um problema. O Amanhã, que você me ajudou a fazer, teve apenas seis edições e fechou pelos mesmos motivos que destruíram outros veículos alternativos de esquerda: perseguição do governo, dificuldades financeiras e rachas por questões ideológicas às vezes incompreensíveis para quem não era do meio.
O grêmio da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP criou e bancou o Amanhã. Ex-colega do Raimundo no ITA, também expulso em 1964, José Roberto Arantes de Almeida liderava o grêmio e, em 1968, assumiu a vice-presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). Com o acirramento da ditadura, aderiu à luta armada e acabou assassinado nos porões do regime militar.
Raimundo engatou uma carreira de sucesso na grande imprensa assim que o Amanhã fechou. Em 1971, na revista Realidade, dirigiu a equipe que assinou a premiada edição especial sobre a Amazônia. Pouco antes, em 1969, coordenou uma corajosa reportagem na revista Veja que furou o bloqueio da censura e denunciou o uso sistemático de tortura pelo governo na repressão aos opositores.
O jornalista estava no auge profissional quando decidiu mudar de rumo para combater a ditadura de maneira ainda mais contundente. Em 1972, trocou um emprego com bom salário em São Paulo por outro não tão bem remunerado no Rio. Iria lançar e chefiar o Opinião, segundo semanário que fizemos juntos. Ele escolheu morar num apartamento muito próximo da favela Santa Marta, em Botafogo, com a mulher – a ativa socióloga Sizue Imanishi, que morreu em 2020 – e as quatro filhas. Depois, a família se mudou para uma casinha no Rio Comprido, bairro da região central. O sertanejo Raimundo, que se criou em pequenas cidades do interior paulista, sempre preferiu lugares menos sofisticados. Em São Paulo, morou na Freguesia do Ó.
O empresário nacionalista e democrata Fernando Gasparian, futuro proprietário da editora Paz & Terra, patrocinava o Opinião. À época, o Raimundo já nutria a ideia de fazer um jornal de jornalistas, sem patrão. Mesmo assim, apostou que o projeto de Gasparian daria certo – e realmente deu, mas por algum tempo.
Depois que a ditadura se tornou mais truculenta, quase todas as grandes empresas jornalísticas tinham se acomodado a uma situação de censura progressiva que vinha asfixiando a imprensa brasileira. Eu achava que havia espaço para um semanário de oposição com uma equipe disposta à luta. Muitos profissionais experientes se mostravam insatisfeitos com o conformismo da mídia tradicional e desejavam atuar num jornal como o Opinião, ainda que trabalhassem mais e ganhassem menos.
A oposição democrática estava aguardando iniciativas do tipo para sair da apatia. Iniciava-se, naquele período, a mobilização da sociedade civil que levaria mais adiante à anistia, à eleição (mesmo que indireta) de um presidente não militar e à Constituinte.
Eu acho, Tonico, que uma das maiores contribuições do Opinião foi mostrar que era possível enfrentar a ditadura sem apelar para a luta armada. Em 1972, graças às torturas e aos assassinatos, a repressão já tinha derrotado praticamente todos os adversários que pegaram em armas. Tamanha violência do governo, no entanto, não parecia apropriada para combater uma oposição que pretendia atuar dentro da legalidade.
Gasparian fincou a bandeira do Opinião na Rua Abade Ramos, 78, no Jardim Botânico. Nada era clandestino. Ele almejava uma publicação moderada de esquerda, à maneira da revista britânica The New Statesman, que oferecesse análises políticas e culturais. Já o Raimundo queria uma redação composta essencialmente por jornalistas. O que saiu foi uma boa junção das duas ideias. Vieram para o semanário repórteres, editores e críticos como Aguinaldo Silva (hoje telenovelista), Bernardo Kucinski, Dirceu Brisola, Flavio Pinheiro, Aloysio Biondi, Tárik de Souza, Sérgio Augusto e Ana Maria Bahiana. Um time de intelectuais respeitados também escrevia no jornal: Paul Singer, Nelson Werneck Sodré, Celso Furtado, Boris Fausto, Francisco Weffort, Chico de Oliveira... Lembro bem quando aterrissou na redação um jovem economista ainda desconhecido, vindo da Universidade Estadual de Michigan, um tal de Eduardo Matarazzo Suplicy.
Em A ditadura escancarada, livro de Elio Gaspari, o autor diz que, no Opinião, “havia espaço para as mulheres, os negros e os homossexuais como tais, sem que fizessem parte de uma marcha da humanidade em direção ao socialismo. Ao cosmopolitismo e à boa qualidade de seus articulistas [...], [o jornal somava] uma seção cultural que vocalizava a hostilidade ao dogma do nacional-popular, base do prestígio dos intelectuais da esquerda tradicional”.
O sucesso veio logo nos primeiros números. O semanário chegou a vender 38 mil exemplares por semana. Pegos de surpresa, os militares contra-atacaram com a censura prévia. A tesoura do governo começou a agir na edição 9 e não parou mais. Em algumas ocasiões, metade dos textos enviados aos censores – que ficavam longe da redação, em Brasília – era total ou parcialmente cortada. Raimundo nunca desanimou.
Você sabe que gosto de futebol. Eu jogaria bola em qualquer lugar e por qualquer motivo, mas as partidas semanais com o pessoal da redação também tinham a função de fortalecer o espírito coletivo naquele momento difícil.
Ele jogava bem. Atuava no meio- campo e organizava o time. Sua aliança com Gasparian durou 121 edições e cerca de dois anos. Foi rompida por “divergências políticas”, segundo o jornalista, ou “problemas de gestão interna”, segundo o empresário. A redação toda se demitiu quando o editor-chefe saiu, mas o Opinião circulou até abril de 1977.
Raimundo, eu e muitos outros da equipe voltamos a São Paulo e, em 1975, fundamos um novo semanário, o Movimento. Nosso intuito era finalmente botar de pé o jornal sem patrão. Como nos faltava dinheiro para lançá-lo, organizamos uma campanha de arrecadação entre colegas e profissionais de diversas áreas. O capital necessário apareceu rapidamente. Naquela altura, a sociedade civil que rejeitava os militares estava bem mais organizada.
O Movimento ajudou a agregar os vários setores da oposição e, nos primeiros anos, contou com o apoio de todas as camadas da esquerda. Basta ver alguns dos nomes que compunham o Conselho Editorial: o cantor Chico Buarque, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o indigenista Orlando Villas-Bôas.
Com sede no bairro paulistano de Pinheiros, o jornal tinha sucursais nas principais capitais do Brasil. Vendas em bancas e assinaturas anuais garantiam parte substancial do faturamento, mas também havia vendedores avulsos espalhados por todo o país, que comercializavam o semanário de mão em mão. Uma parcela deles iria se destacar mais tarde na política, como o acreano Chico Mendes, o alagoano Aldo Rebelo e o mato-grossense Dante de Oliveira.
Os desafios para produzir o Movimento eram enormes. Precisávamos alcançar o equilíbrio financeiro, manter unida uma equipe de diferentes tendências ideológicas e encarar os censores. Dessa vez, a ditadura estava mais esperta e implantou a censura prévia já no primeiro número. Por outro lado, a redação também estava mais atenta e foi descobrindo caminhos para driblar a tesoura.
Raimundo gostava de relembrar nossa longa jornada no semanário, que durou inacreditáveis seis anos. Eu não tenho o mesmo prazer. Foi uma fase de debates intermináveis, divisões no grupo, muito trabalho e pouca grana (deixei de fumar porque não conseguia nem comprar cigarro). Raimundo sofria críticas frequentes, acusado de ser um chefe rígido, centralizador e teimoso, o que de fato era. Para mim, no entanto, a memória que deve prevalecer é a da importância do Movimento na luta contra a ditadura e pelos direitos civis.
Quando a publicação acabou, em 1981, segui o meu caminho no telejornalismo (embora formado em arquitetura, nunca exerci a profissão). Fragmentada em inúmeros veículos de linhas políticas distintas, a imprensa nanica perdeu força e praticamente desapareceu. Eu me senti derrotado, mas o Raimundo continuou na batalha dos alternativos. Criou, por exemplo, a importante coleção de fascículos Retratos do Brasil. Também escreveu livros e artigos para vários jornais e revistas, inclusive a piauí.
Ele não conseguiu, porém, realizar o objetivo que perseguiu desde o fim do Movimento: lançar um jornal diário e popular que narrasse os acontecimentos “sob o ponto de vista do trabalhador”. Lutou incansavelmente, mas o Brasil tinha mudado e não havia condições políticas nem jornalísticas para sustentar um veículo de esquerda com um ideário tão radical quanto o que o Raimundo pregava. Se por isso ele se sentiu derrotado, não deu a entender. Como os missionários, fechou os olhos convicto de que trilhou o caminho certo.
Tonico, sempre que tiver oportunidade de falar com jovens jornalistas, cite a lição dos chineses que está no Livro de Hã: “Busque a verdade nos fatos.” Esse foi o meu norte no jornalismo.
Depois, se despediu:
Estou feliz ao lado da minha querida Sizue. Vamos acompanhar as nossas filhas Ana, Lia, Rute e Raquel a distância, com muito amor e sem interferir na vida delas, como sempre fizemos. Até.
[1] As declarações pós-morte foram escritas com base em algumas reportagens, em reminiscências de Tonico Ferreira e na biografia Contracorrente: a história de Raimundo Rodrigues Pereira, assinada por Júlia Rabahie e Rafael Faustino.
Tonico Ferreira: Um dos fundadores do jornal Movimento, foi repórter e correspondente internacional da TV Globo.
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2. "Escrevo para não matar e não morrer” (Eliane Brum)
Eliane Brum: “Escrevo para não matar e não morrer” - vídeo
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3. 'Beijo 2348/72' com Fernanda Torres
Inventiva, comédia 'Beijo 2348/72', com Fernanda Torres, segue prazerosa
Longa de 1990 ganha exibição especial nesta sexta, na Cinemateca. Trabalho tem ainda Maitê Proença e o notável Chiquinho Brandão.
Inácio Araujo, fsp, 28.05.2026
Às vezes, um filme antigo nos revela um velho mundo. É o caso do "Beijo 2348/72", de 1990, com uma nova cópia que será exibida, nesta sexta (29), na Cinemateca Brasileira, como parte do Programa Revisão Crítica do Cinema Brasileiro.
É um filme que nos mostra uma tecelagem em São Paulo. Uma indústria enorme em funcionamento. Dentro, operários e operárias. Fora, pequenas casas, o ponto de ônibus, as ruas. Dentro, acontece a comédia. Norival — papel de Chiquinho Brandão — é atazanado pela falante e casadoura Valdete — Fernanda Torres —, mas está de olho na séria e casada Catarina — Maitê Proença.
De tanto dar em cima de Catarina, acaba sendo acusado de tê-la beijado em pleno expediente e é demitido por justa causa. O tal beijo durante o expediente, a demissão e o processo que veio a seguir realmente aconteceram.
Todo o resto devemos ao diretor, ao roteirista, à equipe, aos atores. Mais do que todos, a Chiquinho Brandão. Esse comediante notável —morto prematuramente, em 1991, aos 39 anos —, é essencialmente quem dá vida às ideias do cineasta Walter Rogério. E ali tem de tudo.
Num momento, estamos numa comédia burlesca, pouco depois vamos para o "slapstick" — a comédia maluca, que quem domina, aqui, é a jovem Fernanda Torres. Podemos até cortejar a comédia romântica — o comando passa a Maitê Proença. Mas voltamos sempre a Brandão, ou Norival. Ele pode fazer um Chaplin ou um Buster Keaton, pode invadir o território silencioso, mas povoado de mínimos ruídos, de Jacques Tati ou frequentar o nonsense de Jerry Lewis.
Veja cenas de 'Beijo 2348/72', de Walter Rogério - galeria
As espertezas que abrem caminhos ou os percalços que os barram ali estão e nos fazem rir. Como um velho bairro fabril amanhece novo —na bela direção de arte de Beto Mainieri—, esses velhos e imbatíveis comediantes retornam para mostrar de São Paulo uma face mais sorridente, mais lúdica, em que a repressão que afasta o casal de amantes se dobra ao malandro sonhador que é Norival.
Assim também, aquela virada dos anos 1980 para os 1990 talvez tenha sido osso duro na produtiva São Paulo, mas ainda era possível a imaginação imaginar alguma esperança para o anárquico Norival e suas divas.
Sendo um filme que se pode hoje admirar tanto quanto há 30 anos — permanece original do mesmo jeito —, é preciso dizer que também traz à lembrança alguns problemas que já se manifestavam na sua estreia.
O primeiro, maior, deles é não ter podido criar para Norival uma cara, um tipo particular, algo que correspondesse à força da mímica do ator. Isso quase acontece no momento rápido em que ele se disfarça para melhor vigiar a casa de sua namorada.
Confira filmes do rei da comédia Jerry Lewis - galeria
O aproveitamento das atrizes também é muito bom. Não é impossível que Maitê viva um dos melhores momentos de sua carreira no instante em que é puxada para longe de Norival, durante a paródia de "A Idade do Ouro", de Buñuel.
E Fernanda Torres retoma o tipo de garota assanhada de "Marvada Carne", agora com um sotaque metropolitano que faz toda a diferença. No início, Walter Rogério parece se encantar com a interpretação e cerra a imagem da atriz até chegar a um plano próximo demais de seu rosto. Mas isso passa, e o diretor parece encontrar a distância melhor nos enquadramentos.
Por fim, a fotografia franca está bem próxima ao tipo de luz das comédias de Jerry Lewis, por exemplo. Se tivesse o tempo — ou o dinheiro, o que em geral é a mesma coisa em cinema para encontrar um tipo mais marcante para Norival, "Beijo 2348/72" seria um filme exemplar. Como está, continua digno de ser visto com muito prazer por qualquer fã de comédias inventivas.
Mais sobre:
'Beijo 2348/72' no iutubi aqui
NB: alguns links ocultos, neste texto, são de autoria deste que vos fala.
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4. Sotheby's vai leiloar fóssil de Tyrannosaurus rex estimado em R$ 152 milhões
Venda do T. rex Gus, encontrado em 2021 nos EUA, está marcada para 14 de julho. Casa diz ser um dos esqueletos da espécie mais completos já descobertos
Zehra Munir, fsp, 28.05.2026
A Sotheby's está prestes a leiloar um Tyrannosaurus rex de 67 milhões de anos. Isso dois anos após ter vendido o fóssil mais caro da história, um estegossauro, para Ken Griffin, dono da Citadel.
O T. rex apelidado de Gus — homenagem a Gary Gus Licking, o fazendeiro em cuja propriedade ele foi encontrado, em Dakota do Sul — será leiloado por um valor entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões (R$ 101 milhões e R$ 151,7 milhões, respectivamente), a maior estimativa já atribuída a um fóssil de dinossauro, no dia 14 de julho.
Conheça o esqueleto do Tyrannosaurus rex Gus - fotos
A oferta do espécime, que segundo a Sotheby's está entre os esqueletos de T. rex mais completos já descobertos, é um sinal de que a casa de leilões de luxo continua apostando no mercado de fósseis como um espaço no qual a elite mundial gastará dezenas de milhões.
A estimativa pré-leilão para Apex, o estegossauro de Griffin que foi vendido em 2024, variava entre US$ 4 milhões e US$ 6 milhões. O chefe de fundo de hedge comprou o dinossauro por US$ 44,6 milhões.
Fóssil de estegossauro bate recorde em leilão nos EUA - galeria
"Para este espécime, o perfil de compradores será muito amplo", disse Cassandra Hatton, vice-presidente da Sotheby's e diretora global de ciência e história natural, ao FT. A grande maioria dos compradores de fósseis quer "emprestar suas aquisições a um museu ou colocá-las em exibição em seus países", segundo Hatton. Hoje, Apex está em exibição no Museu Americano de História Natural, em Nova York.
O primeiro dinossauro vendido em leilão também foi um T. rex na Sotheby's, em uma oferta de 1997 impulsionada pela Walt Disney e pelo McDonald's. O esqueleto de Sue foi arrematado por US$ 8,4 milhões e agora está no Field Museum, em Chicago. A Christie's vendeu Stan, outro T. rex, por US$ 31,8 milhões em 2020 para o governo de Abu Dhabi.
Leia mais sobre o T. rex
Tyrannosaurus rex andava na ponta dos pés como uma galinha de 8 toneladas
Espécie de dinossauro provavelmente tocava o chão primeiro com os dedos, como as aves modernas
Tyrannosaurus rex crescia até os 40 anos e sua expectativa de vida era de 55
Gus foi descoberto em uma fazenda de gado de 2.630 hectares no condado de Harding, no estado de Dakota do Sul, em 2021. A escavação e o trabalho de laboratório foram realizados pelos paleontólogos comerciais da Theropoda Expeditions e levaram quase cinco anos, sendo concluídos no início deste ano.
"Parece que estamos montando o quebra-cabeça mais difícil do mundo, só que primeiro precisamos encontrar todas as peças. Todos aqueles ossos separados por 67 milhões de anos que agora podemos, quase magicamente, encaixar de volta", afirmou Thomas Heitkamp, presidente da Theropoda Expeditions.
"Essas vendas são muito importantes porque estão nos ajudando a encontrar fósseis que, de outra forma, seriam perdidos para todos", disse Hatton, da Sotheby's.
Ainda segundo ela, esse fóssil em particular tem "elementos que nos ajudam a responder a perguntas que não foram respondidas" por T. rex anteriores, como "marcas de mordida e ossos que quebraram e se curaram".
Mercado de ossos de dinossauro está em alta - fotos
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5. Chanchada de Flávio com Trump pode acabar em duplo naufrágio
Visita diversionista do senador aos EUA coincide com queda inédita da popularidade do republicano. Pesquisa da revista The Economist indica que há 90% de chance de americano perder a Câmara em novembro.
Marcos Augusto Gonçalves, fsp, 28.05.2026
A chanchada diversionista encenada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nos EUA, onde conseguiu aparecer numa foto com Donald Trump, tem, como se sabe, o intuito de desviar a atenção dos rolos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, peça central do escândalo do Banco Master.
Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras – as do Brasil.
Escoltado por Eduardo, brother desertor, resolveu reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi bem sucedido. Os EUA, como já se esperava, anunciaram o desatino. A ver o que acontecerá de fato. Aliás, considerando-se o histórico de proximidade do clã Bolsonaro com figuras do mundo do crime, foi ousada, na verdade eleitoral e hipócrita, a animação do filhão com a ideia, que pode sair pela culatra.
Flávio demonstrou o que já se sabia: ele, seus parentes e Paulo Figueiredo, neto do ditador que disse preferir cheiro de cavalo a cheiro do povo, têm trânsito nos círculos trumpistas. Natural. Há tempos, desde a época em que Olavo de Carvalho e o tradicionalista fascistoide Steve Bannon pontificavam, são conhecidas as relações da ultradireita bolsonarista com os soldados ideológicos de Trump e seus amigos antiliberais.
Enquanto o servilismo da direita tapada brasileira se exibe em Washington e vira meme, o líder americano perde prestígio e apoio em seu país.
A revista The Economist revelou nesta semana que ele se tornou o presidente mais impopular desde que a pesquisa realizada pela publicação começou, em 2009. A façanha é fruto de um leque de erros A chanchada diversionista encenada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nos EUA, onde conseguiu aparecer numa foto com Donald Trump, tem, como se sabe, o intuito de desviar a atenção dos rolos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, peça central do escândalo do Banco Master.
Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras –as do Brasil.
Dois homens posam no Salão Oval da Casa Branca. Um está sentado atrás da mesa Resolute, o outro está em pé atrás dele. Ao fundo, janelas com cortinas douradas, bandeiras dos Estados Unidos e símbolos militares.
O senador Flávio Bolsonaro ao lado do presidente americano, Donald Trump, na Casa Branca, na terça (26) - Divulgação
Escoltado por Eduardo, brother desertor, resolveu reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi bem sucedido. Os EUA, como já se esperava, anunciaram o desatino. A ver o que acontecerá de fato. Aliás, considerando-se o histórico de proximidade do clã Bolsonaro com figuras do mundo do crime, foi ousada, na verdade eleitoral e hipócrita, a animação do filhão com a ideia, que pode sair pela culatra.
Flávio demonstrou o que já se sabia: ele, seus parentes e Paulo Figueiredo, neto do ditador que disse preferir cheiro de cavalo a cheiro do povo, têm trânsito nos círculos trumpistas. Natural. Há tempos, desde a época em que Olavo de Carvalho e o tradicionalista fascistoide Steve Bannon pontificavam, são conhecidas as relações da ultradireita bolsonarista com os soldados ideológicos de Trump e seus amigos antiliberais.
Enquanto o servilismo da direita tapada brasileira se exibe em Washington e vira meme, o líder americano perde prestígio e apoio em seu país. A revista The Economist revelou nesta semana que ele se tornou o presidente mais impopular desde que a pesquisa realizada pela publicação começou, em 2009. A façanha é fruto de um leque de erros cometidos em diversas frentes, da política externa à econômica. Uma parcela de 58% dos americanos desaprova a atuação do governante, contra 34% que aprovam e 6% que dizem não saber.
O principal motivo de insatisfação é a economia, que está longe de apresentar o desempenho prometido durante a campanha. O aumento dos preços dos combustíveis, provocado pela estúpida guerra movida em parceria com Israel contra o Irã, é um aspecto relevante na percepção de que as finanças pessoais e familiares estão piorando.
Cerca de dois terços dos eleitores consideram que foi um erro entrar nesse conflito e 53% afirmam que a imagem e a posição dos EUA no mundo pioraram desde que ele reassumiu o cargo. Não é demais lembrar que um dos pontos martelados na disputa eleitoral foi a condenação ao envolvimento do país em guerras longínquas e sem motivo claro.
Essa promessa era um dos pilares do slogan "América em primeiro lugar", bandeira de Trump e seus aliados nacionalistas de extrema direita. Não por acaso, a pesquisa aponta para uma sensível perda de apoio do republicano numa base que se mostrava bastante fiel, formada por americanos brancos sem ensino superior.
O modelo de previsão da revista, em parceria com a empresa de pesquisas YouGov, indica que os democratas têm 90% de chance de conquistar o controle da Câmara nas eleições de meio de mandato, em novembro.
Ainda faltam uns bons meses para o pleito tanto lá como cá. No momento, porém, os ventos prenunciam um duplo naufrágio.
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6. 'Natal Amargo', filme admirável de Almodóvar
'Natal Amargo' é filme admirável de Almodóvar e coroa fase brilhante
Obra é baseada em conto do livro 'O Último Sonho', de 2024. Longa não venceu prêmio no Festival de Cannes, onde estreou.
Sérgio Alpendre, fsp, 25.05.2026
Natal Amargo l Teaser Trailer Oficial - vídeo
"Natal Amargo", último longa do diretor espanhol Pedro Almodóvar, chega ao circuito comercial brasileiro logo depois de sua exibição no Festival de Cannes, onde, mais uma vez, dividiu a crítica. O filme, que não venceu prêmio algum, é baseado em uma das tramas de seu livro de contos "O Último Sonho", lançado no Brasil em 2024. A literária não é a melhor faceta de Almodóvar, nem a mais prolífica. Mas, como matéria-prima, rendeu um belo filme.
Nos escritos sobre o seu cinema, é comum lermos a expressão "filme de crise", principalmente no século 21, quando realizou três deles —"Má Educação", de 2004, "Abraço Partido", de 2009, e "Dor e Glória", de 2019. Este último é, sem dúvida, o único deles que pode ser considerado bem-sucedido cinematograficamente, e o que mais tem a ver com "Natal Amargo", pela relação de um cineasta com suas dores e as dores do mundo.
Há um outro fator, bem mais animador para quem se assusta com a simples menção do termo crise. Almodóvar vem de três belíssimos longas. Além de "Dor e Glória", "Mães Paralelas", de 2021, e principalmente "O Quarto do Lado", de 2024, mostram um diretor no auge de sua forma.
E, com uma fase recente tão boa, até um filme de crise se torna admirável. É o caso de "Natal Amargo", que mais uma vez nos mostra os dramas de pessoas envolvidas com a criação artística.
Acompanhamos a história de Elsa, personagem de Bárbara Lennie, uma diretora de cinema que se refugiou na publicidade por dinheiro e porque seus dois filmes tiveram público entusiasmado, mas não fizeram sucesso. Tornaram-se o que ela mesma chama de "cult". Esse momento da trama é ambientado em 2004, quando o termo não era tão questionado.
Veja cenas de 'Natal Amargo', de Pedro Almodóvar - fotos
Elsa sofre de terríveis enxaquecas, que pioram quando atravessa crises de ansiedade. Segundo a psicanalista, ela substituiu o luto pela morte da mãe, um ano antes, por trabalho incessante, e agora precisa de descanso.
Bonifácio (Patrick Criado), um bombeiro que trabalha como stripper nos fins de semana, a apoia como pode. É um namorado amoroso e atencioso. Mas ela resolve passar um tempo no campo com sua amiga Patrícia, papel de Victoria Luengo.
Mais ou menos paralelamente, vamos acompanhando o drama de um cineasta chamado Raúl Duran, vivido por Leonardo Sbaraglia. Raúl está em 2026, e escreve um roteiro para seu retorno ao cinema, depois de cinco anos sem filmar. Ele vive com o assistente-companheiro Santi, papel de Quim Gutiérrez, e trabalha com a assistente e ex-companheira Mónica, personagem de Aitana Sanchez-Gijón. São duas relações complicadas, que ele parece não conseguir — ou não fazer questão — de situar bem.
Temos então dois núcleos de relações humanas, cada qual com seus problemas. Mas percebemos logo que um núcleo é criação do outro. Ou seja, Elsa, Bonifácio e Patrícia, assim como outros personagens que interagem com eles, estão no roteiro de Raúl, são projeções dele.
Como fica claro no filme, Raúl se aproveita de pessoas e situações reais para escrever seus roteiros de ficção. Não temos como saber até que ponto os personagens e dramas que vemos em 2004 são apoiados na realidade e o que têm de invenção.
Almodóvar repete a prática de lidar com um criador às voltas com suas criações, motivo que já rendeu algumas grandes obras artísticas, e no cinema ao menos uma obra-prima —"Providence", de Alain Resnais—, ainda que em "Natal Amargo" uma instância não chegue a coincidir com a outra.
Os cineastas que Almodóvar retrata em seus filmes costumam ser escritos à sua semelhança, com alguns traços de invenção ou projeção. Por trás de Raúl, vemos uma estante de livros que, sinceramente, não é de um cineasta muito sério. Parece mais de alguém de outra área.
Tirando um ou outro livro, como um de Renoir que se destaca na prateleira, boa parte ali é puramente decorativo, com informações muito básicas sobre arte e cinema.
Talvez essa estante pobre de títulos queira dizer, e pode ser de modo inconsciente, que esse cineasta tenha pouco conhecimento cinematográfico e leia pouco —alguém, por sinal, diferente do próprio Almodóvar. Talvez venha daí sua dificuldade de criar novas tramas.
De todo modo, nesse entroncamento de ficções, a trama que vemos sendo criada, a de 2004, é mais interessante, e a de 2026 só ganha força quando a crise do criador se impõe e se sobrepõe à sua criação, e o filme se abre à corajosa autocrítica.
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7. Guimarães Rosa e os 70 anos do lançamento de 'Grande Sertão: Veredas'
Romance publicado em 1956 causou espanto até em críticos e autores consagrados. Desde quando o li pela primeira vez, no início da década de 1980, até hoje, jamais o tirei da memória
Tom Farias, fsp, 27.05.2026
Eu cresci a partir de dois grandes livros que me marcaram fortemente a leitura: "Ulisses", de James Joyce — presente do seu tradutor Antônio Houaiss —, e "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, pelo qual enverguei a espinha seguidas noites sobre um volume de 1979 — a 13ª edição, publicada pela José Olympio Editora —, exemplar que conservo na fileira de honra da estante entre as minhas mais destacadas raridades.
No caso de "Ulisses", lembro-me bem que Houaiss — então ministro da Cultura do governo Itamar Franco — perguntou-me duas semanas depois da entrega o que eu havia achado do livro. Fiquei impactado com a pergunta, não pelo fato de ele supor que para mim era fácil encarar aquelas 846 páginas.
Com sacrifício — e muito desajeitadamente —, confessei ao filólogo carioca que, com base na sua esmerada tradução, eu tateava as primeiras dez páginas da obra do autor irlandês, mal escondendo a insensatez de minha resposta, na verdade por receio de dizer-lhe que, com muito custo, eu escalava aquele emaranhado de palavras e termos rebuscados, onde cabia de tudo e até um certo "escuro recurvo de escada", entre outros dizeres. Para meu espanto, no lugar de estranhamento, Houaiss devolveu meu mau jeito com uma expressão bastante compassiva: "Normal".
Com relação a "Grande Sertão: Veredas", a conversa é outra. Minha imersão nesta obra deu-se de forma bem mais complicada e difícil. Acostumado às leituras dos nossos clássicos, Machado de Assis na dianteira, meu primeiro embate foi com a construção da linguagem, depois com a disposição dos personagens centrais no enredo —preferencialmente Riobaldo e Diadorim — e, por último, com o conjunto ambiental sertanejo forjado na dimensão mítica que alimenta toda a narrativa.
Noto que a surpresa que ainda hoje este romance reserva, certamente um dos mais modernos da língua portuguesa, atravessado pelo seu tom forte e disruptivo, também se causava em 1956, ano em que foi lançado, visto como "uma revolução completa da sintaxe", no dizer do jornal Correio da Manhã.
Veja anotações de Guimarães Rosa - fotos
O crítico Sérgio Milliet, por exemplo, escreveu na época que o aparecimento da obra de Guimarães Rosa ocorria "com o raro poder do espanto", acrescentando que depois deste livro "será preciso reescrever a gramática do português no Brasil".
A escritora Clarice Lispector, que morava fora do país, foi outra que deixou registrada sua impressão sobre a estreia ficcional roseana. Numa carta endereçada ao colega Fernando Sabino, escreveu:
"Fernando, estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela linguagem íntima da gente — e nesse sentido ele mais que inventou, ele descobriu, ou melhor, inventou a verdade."
200 anos, 200 livros - webstories
Esta obra seminal acaba de completar 70 anos de publicada, neste mês de maio. Até aonde se conhece de Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas" beira a livro confessional, espécie de profissão de fé de seu autor.
Desde quando o li pela primeira vez, no início da década de 1980, até hoje, jamais o tirei da memória. E nenhum outro escritor, sem a autoridade literária que tinha Guimarães Rosa, conseguiria impor à literatura brasileira um livro tão mágico e subversivo.
Conheça o livro que biografa Guimarães Rosa nos 70 anos de 'Grande Sertão: Veredas' - vídeo
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8. O que falta na encíclica do papa Leão 14 sobre a IA
Pontífice citou Agostinho, Tolkien, Beethoven, Guernica, Martin Luther King Jr. e até Frankl e seu 'otimismo trágico'. Difícil acreditar que tenha escapado ao papa que Pentecostes guarde tantas semelhanças com a inteligência artificial.
Rui Tavares, fsp, 26.05.2026
Tem Santo Agostinho. Mas tem Tolkien também. Tem Beethoven, tem Guernica, tem Martin Luther King Jr., tem Viktor Frankl e o seu "otimismo trágico". Tem muita doutrina social da igreja, valorização dos trabalhadores e críticas ao nacionalismo, Realpolitik e pós-humanismo.
Para um ateu de esquerda como eu — com duas exceções, sobre aborto e família de "um homem e uma mulher"— não há quase nada para discordar na encíclica "Magnifica Humanitas" do papa Leão 14.
Mas quero é escrever do que não está lá. A encíclica foi datada de 15 de maio e apresentada em 25 de maio. E o que aconteceu entre uma coisa e outra? As celebrações de Pentecostes, no domingo (24). Que uma encíclica escrita e lançada em Pentecostes não fale de Pentecostes é uma coisa que me intriga e confunde. E acho que essa ausência é decisiva.
Vou explicar o porquê. A encíclica começa logo na primeira frase por uma referência à Torre de Babel, metáfora evidente para a inteligência artificial, que é contraposta a uma história muito menos conhecida, a do profeta Neemias que reconstrói as muralhas de Jerusalém.
O papa está nos convidando ao trabalho paciente de construção institucional das nossas "muralhas", se não queremos que a IA nos destrua e disperse. E eu acho que ele tem razão: ao contrário do que aconteceu com outras questões existenciais da história contemporânea da humanidade, não se vê sequer o mínimo esforço de criar para a IA algo como os tratados que deram origem à Declaração Universal de Direitos Humanos e às convenções sobre refugiados ou de controle nuclear.
Do ponto de vista internacional, tudo certo. Mas em chave bíblica o contraponto à Torre de Babel não é Neemias (também do Antigo Testamento), mas Pentecostes, no Novo Testamento. E o que acontece em Pentecostes? Os apóstolos falam na sua língua, mas todos os estrangeiros os entendem, cada um na sua língua.
Papa Leão 14 visita a África em primeira grande viagem internacional de seu pontificado - galeria
Ora, esse é um dos sinais mais manifestos da IA: quando cada um escreve na sua língua e é lido em todas as línguas de todos os leitores, podendo concretizar um potencial de diálogo através do espírito. Difícil acreditar que tenha escapado ao papa na própria semana de Pentecostes.
A explicação talvez esteja em duas outras ausências: faltam dois Jonas. Um é o filósofo Hans Jonas, e o seu princípio da responsabilidade, ao qual o papa quase alude sem citar. Mas o outro é o profeta Jonas mesmo; aquele que vai a Nínive profetizar contra vontade, mas acaba salvando a cidade.
Ao citar Neemias, o papa acaba por se revelar como pessimista: se a derrocada das muralhas está aí, ele exorta à reconstrução. Mas a mensagem de que a humanidade precisa é outra: se tiver que ser, reconstruiremos; mas por agora vamos mobilizar-nos para não deixar destruir.
Pentecostes e os dois Jonas apontam nesse sentido: a capacidade de nos entendermos sem termos de falar uma língua única, de aceitarmos o princípio da responsabilidade, e sobretudo de entender que ainda é possível salvar a cidade, mesmo uma com tantos pecadores como Nínive.
As muralhas da humanidade ainda não caíram. Corações ao alto! É novamente altura de engrandecer a humanidade para lhe mostrar o melhor de que ela é capaz.
Robert Fancis Prevost, o papa Leão 14 - webstories
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9. Karl Marx vive!
TUDO sobre Karl Marx com professor José Paulo Netto - MARX VIVE! - vídeo
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10. Taika Waititi vai de 'Thor' a 'Star Wars'
Como o ator e diretor Taika Waititi vai de 'Thor' a 'Star Wars' e Roald Dahl. Neozelandês ainda acumula a série 'Nossa Bandeira É a Morte', um filme sobre futebol, e isso é só o começo.
Dave Itzkoff, fsp, 04.07.1922
The New York Times - Mesmo quando seu trabalho é sonhar aventuras interplanetárias para um deus nórdico, você ainda pode ter vontade de fugir um pouco para brincar de pirata. Por isso, nas semanas em que estava editando "Thor: Amor e Trovão", filme da Marvel que estreia na próxima quinta-feira, Taika Waititi, o diretor e um dos roteiristas do filme, ocasionalmente tirava fins de semana de folga para realizar uma jornada bem diferente.
Equipado com uma longa peruca grisalha, barba e bigode do mesmo matiz e tatuagens temporárias, e vestido no tipo de roupa de couro com que os fetichistas sonham, ele interpreta o Barba Negra, um bucaneiro e espadachim sedutor que é um dos personagens principais de "Nossa Bandeira É a Morte", série de humor da HBO Max.
Essa com certeza não é uma maneira tediosa de ocupar o tempo livre, ainda que Waititi às vezes se preocupe com aquilo que perde ao fazer esse tipo de escolha. Como ele contou recentemente, "às vezes você fica fulo da vida e se questiona, sem saber por que aceita tudo o que propõem". "Reclama de não ter vida social, de só trabalhar, sem descanso. Mas quando o filme ou a série enfim sai, você vê para que serviu todo aquele trabalho duro, e que ele realmente valeu a pena."
Na televisão, Waititi, de 46 anos, esteve envolvido nas comédias "Reservation Dogs" (ele foi um dos criadores do programa) e "What We Do in the Shadows" (baseada em um filme que ele roteirizou e codirigiu), para o canal FX, e em "Wellington Paranormal", uma história derivada desta última série. No cinema, ele dá voz a um dos mocinhos da história em "Lightyear" e interpreta um vilão em "Free Guy – Assumindo o Controle".
Confira cenas do filme 'Lightyear' - galeria
Waititi também está editando "Next Goal Wins", um drama cômico sobre futebol que ele escreveu e dirigiu para o estúdio Searchlight. Ele está escrevendo o argumento de um novo filme da franquia "Star Wars", para a Lucasfilms, e uma série chamada "Time Bandits" para o Apple TV+. Também está preparando duas adaptações de histórias do escritor Roald Dahl para a Netflix e adaptando uma graphic novel de Alejandro Jodorowsky e Moebius, para o cinema.
Se isso não bastasse, repare que precisei de todos esses parágrafos antes de mencionar que Waititi conquistou um Oscar por melhor roteiro adaptado com o filme "Jojo Rabbit", uma comédia dramática sobre a Segunda Guerra Mundial, na qual ele interpretou – em suas próprias palavras – "uma versão adorável, excêntrica e fantasiosa de Hitler".
Veja cenas de 'Jojo Rabbit' - fotos
Com base apenas nesse retrospecto ("sem falar das cinco outras coisas que ainda não foram noticiadas", disse Waititi), é possível avaliar o quanto os serviços dele estão em demanda. Em apenas alguns anos, Waititi se transformou num dos mais engenhosos e confiáveis dos produtores de fábulas escapistas e ao mesmo tempo criou rotas de fuga que permitem que ele escape de vez em quando ao escapismo. E seu estilo cinematográfico é marcante o suficiente para que continue a reluzir mesmo em filmes monolíticos e cada vez mais previsíveis, como os da Marvel.
Mas seu currículo extenso também é um sinal da dificuldade que Waititi sente para dizer não. E, se você está imaginando como é que alguém consegue manter equilibrados tantos projetos exigentes, saiba que não está sozinho e que Waititi faz a mesma pergunta a si mesmo o tempo todo.
"Às vezes, quando acordo, me pergunto se estou passando por uma crise de meia-idade", ele disse. "Questiono se deveria continuar a trabalhar no cinema e imagino que o melhor talvez tivesse sido ser marceneiro. Ou que talvez eu devesse trabalhar como jardineiro."
Novo filme da Disney, 'Free Guy - Assumindo o Controle', coloca Ryan Reynolds em um videogame - galerias
A respeitável carreira de Waititi não é necessariamente o que ele imaginou para sua vida quando criança, na Nova Zelândia –a meio mundo de distância de Hollywood e sem fazer ideia do que fazer para atrair a atenção do mundo. "Eu teria preferido ser piloto de caça, ou bombeiro, mas aí descobri que você na verdade precisa ser muito inteligente para ser piloto."
Ele acrescentou, com mais sinceridade, que só começou a trabalhar em filmes no final da casa dos 20 anos, depois de se dedicar ao trabalho como artista gráfico, músico e comediante, antes disso. "Não sei se corri de verdade atrás de qualquer dos meus sonhos", disse Waititi. "Meus sonhos se desenvolveram essencialmente como sonhos."
Ainda que ele tenha se apaixonado pelo cinema, Waititi define o relacionamento como "um casamento arranjado". E a solução que ele encontrou para administrar sua carga de trabalho é essencialmente a de não pensar demais a respeito e jamais ficar parado por tempo demais no mesmo lugar.
"Porque se eu desse um passo para trás e parasse para contemplar tudo o que estou fazendo, eu provavelmente teria um ataque de pânico", ele disse. "Sei que são coisas demais. Sei que estou trabalhando em excesso. Tenho que reorientar meu foco a cada duas horas."
Usando roupas confortáveis, em tons pastel, e um bigode elegantemente aparado, o comportamento dele parecia ser uma espécie de combinação de todos os irmãos Marx. Waititi alternava momentos de sedução, de modéstia repentina e de manipulação e parecia sempre pronto a recorrer ao humor autodepreciativo.
Um exemplo é dizer "os neozelandeses odeiam elogios". "Acho que isso vem de nossas mães. São elas que veem o que fazemos e no final dizem que não precisamos nos preocupar, que elas gostaram da coisa mesmo assim. É esse o tipo de apoio que você recebe, na Nova Zelândia."
Waititi não era o candidato mais óbvio para se tornar parte do time de diretores da Marvel quando o estúdio começou a estudar seu nome, em 2015. Na época, os trabalhos dele como diretor incluíam curtas-metragens intimistas (entre os quais "Two Cars, One Night", indicado ao Oscar) e longas-metragens como "Boy", um tributo afetuoso às suas raízes em uma comunidade rural maori, sobre um menino que vive fascinado pelo pai, um calhorda charmoso (interpretado por Waititi, é claro).
Antes disso, Waititi tinha estudado teatro na Universidade Victoria, em Wellington, onde fez amizade com os futuros colaboradores Jemaine Clement e Bret McKenzie (que viriam a formar a dupla musical satírica Flight of the Conchords), cultivou seu fascínio pelo Monty Python e estava constantemente em busca de veículos que permitissem que mostrasse seu humor seco.
"Naquela época, tudo que eu queria era ter alguma coisa em que trabalhar", disse Waititi. "Eu fazia longas listas de todas as coisas que tinha vontade de fazer."
Mas pessoas que o conheceram naquele período encaravam Waititi como um sujeito altamente motivado e destinado a realizar suas ambições. "Continuo a ver dentro de Taika o mesmo humorista alternativo ousado da década de 1990", disse o ator Rhys Darby, velho amigo do cineasta e seu colega no elenco de "Nossa Bandeira É a Morte".
"Ele descobriu que criar por trás das câmeras era mais viável do que trabalhar diante delas", afirmou Darby. "Mas, mesmo quando ele está dirigindo, ele se coloca diante das câmeras e mostra aos atores o que quer que eles façam. Ele pede que o imitem. É por isso que sempre termina fazendo algum papel em seus filmes. Porque tenta controlar tudo."
Na Marvel, o estúdio sabia que precisava reinventar completamente o personagem Thor. Lançado em 2013, "Thor: O Mundo Sombrio", uma continuação morna da história inicial com o personagem, com certeza não é o filme favorito da franquia. "Estávamos em queda, em termos de interesse pelo personagem", disse Chris Hemsworth, que interpreta Thor desde 2011. "Eu me sentia cansado, e a audiência também parecia estar cansada do personagem. Se não fizéssemos algo de diferente e mudássemos as coisas, não estou certo de que teríamos trazido o público de volta."
Waititi, que conhece muito bem o mundo dos quadrinhos, nunca tinha sido fã de Thor, um sujeito irritantemente certinho, desprovido de falhas, que ele descreve como "um mauricinho do espaço sideral que termina aprisionado no gueto". Mas, pensando melhor, Waititi veio a compreender sua resistência ao herói e se descobriu capaz de fazer um filme que reconhecesse e abraçasse as características que não o agradavam.
Além disso, Waititi também estava interessado em descobrir se tinha capacidade de comandar filmes de escala verdadeiramente colossal. Ele conta ter dito a si mesmo que sempre teve medo de trabalhar para os estúdios, sempre se preocupou com a ideia de trabalhar nos Estados Unidos e com o efeito que isso poderia ter sobre ele. "Por que não mergulhar fundo e descobrir o que acontece?"
O resultado foi o imensamente bem-sucedido "Thor: Ragnarok", de 2017, no qual a divindade viking se vê desprovida de seu martelo mágico e de suas madeixas loiras, mas mesmo assim derrota sua malévola irmã Hela, papel de Cate Blanchett, e o extravagante vilão Grandmaster, vivido por Jeff Goldblum.
Dirigido por Waititi, com base em um roteiro creditado a Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost, "Thor: Ragnarok" destacava muitas das preferências pessoais do diretor –como duas cenas de combate ao som de "Immigrant Song", do Led Zeppelin– e também permitiu que ele fizesse o papel de Korg, um guerreiro com corpo de pedra e fala macia. O filme recebeu críticas muito favoráveis e faturou mais de US$ 853 milhões nas bilheterias de todo o planeta, superando os resultados de seus predecessores.
A Marvel e Waititi começaram a desenvolver uma continuação quase imediatamente, mas levar o diretor de volta ao comando de um filme provou não ser uma tarefa assim tão simples. Poucas semanas depois que Waititi recebeu seu Oscar, a pandemia explodiu. "Aprender a pintar, estudar um novo idioma, fazer exercícios –você acha que fiz alguma dessas coisas?", disse Waititi. "Não, não fiz. O que eu queria era dormir sem parar por um mês, e o que aconteceu na realidade é que terminei dormindo por seis meses."
E depois disso ele se atirou aos projetos que vinha negligenciando. Àquela altura, a Marvel já tinha se acostumado a ficar esperando por Waititi.
Veja fotos de 'Thor: Ragnarok' - galerias
Como afirmou Kevin Feige, o presidente do estúdio, "quando o assunto era ‘Thor: Ragnarok’, ele nos explicou que tinha de terminar uma outra coisinha primeiro". A "coisinha" era o filme "Uma Fuga Para a Liberdade", comédia dramática que Waititi dirigiu em 2016.
"E, enquanto estávamos escrevendo e desenvolvendo o novo filme, ele disse que tinha um outro trabalho para filmar em Manhattan Beach." Waititi estava falando de sua participação em "The Mandalorian", série da qual ele dirigiu um episódio e no qual fez a voz do robô caçador de recompensas IG-11. "Ele disse que ia passar algumas semanas no Havaí, e eu pensei que provavelmente estava tirando férias com a família", Feige relembra. Mas na verdade ele estava filmando "Next Goal Wins".
Imagens da série Star Wars: The Mandalorian - galerias
Mesmo depois que a filmagem de "Thor: Amor e Trovão" terminou, no terceiro trimestre do ano passado na Austrália, e o trabalho de pós-produção do filme foi iniciado em Los Angeles, disse o executivo, "tínhamos de viver em alerta porque Taika tinha coisas demais em sua agenda". "Nossa expectativa era a de que passaríamos muito tempo esperando por ele na sala de edição, mas na verdade ele estava sempre lá conosco."
Hemsworth disse que as numerosas atividades extracurriculares de Waititi não significam dispersão, mas uma necessidade intelectual. "Se ele não estiver criando continuamente, acredito que termine por se sentir estagnado", disse o ator. "A maioria das pessoas desabaria de cansaço, se trabalhasse tanto. Mas, no caso dele, o excesso de trabalho serve como combustível, estranhamente."
A lista de tarefas que aguardavam Waititi incluía "Nossa Bandeira É a Morte", cujo criador, David Jenkins, levou três anos para convencer o cineasta a participar do projeto –primeiro como produtor-executivo e diretor do episódio piloto e mais tarde fazendo o papel de Barba Negra.
"É como compor uma canção para Prince", disse Jenkins, que obteve permissão da Disney e da Marvel para pegar Waititi emprestado durante os finais de semana. "Ele empresta seu prestígio aos projetos em que se envolve e oferece 100% de apoio às ideias que os movem."
Waititi disse que não precisou de muita persuasão para fazer o papel de Barba Negra, quando Jenkins sugeriu que ele parecia ser o cara certo para encarnar o personagem. "Era só o que eu precisava ouvir", disse Waititi. "Meu ego ama isso."
Mas "Nossa Bandeira É a Morte" oferecia a Waititi mais do que uma injeção de autoestima. E cuidado com os "spoilers" agora, tripulação. Embora a série conte em tom cômico a história de Stede Bonnet, papel de Darby, um aristocrata bem intencionado mas sempre confuso que está tentando fazer sucesso como pirata, Barba Negra não é usado simplesmente como um mentor improvável para Bonnet e como fonte de especulações sobre as preferências afetivas dos personagens.
No penúltimo episódio da primeira temporada, Bonnet e Barba Negra percebem que se amam e se beijam carinhosamente. O romance deles será parte importante do futuro da série e inspirou incontáveis desenhos feitos por fãs, que Waititi diz guardar em seu celular.
Por mais que compreenda o fascínio cultural quanto ao beijo de Bonnet e Barba Negra, Waititi disse que preferiria que a cena fosse menos rara nas telas. "É algo que precisamos normalizar."
É um desejo que Waititi compreende, mas não necessariamente pode realizar em um filme da Marvel, a despeito do diálogo malicioso entre Thor e seu aliado gostosão, Star-Lord, papel de Chris Pratt, num trailer de "Thor: Amor e Trovão".
"Ninguém comenta sobre a cena de amor entre Tom Cruise e Jennifer Connelly em ‘Top Gun’", ele disse. "Mas em ‘Nossa Bandeira É a Morte’, o beijo dos dois piratas na praia se tornou um assunto muito comentado. Eu acho bacana que as pessoas falem a respeito, porque tenho muito orgulho daquele momento. Mas meu sonho é que nosso mundo seja como o dos piratas, onde ninguém dá a mínima para aquilo."
O novo filme de Thor envolve em parte uma expansão do império da Marvel para adicionar Russell Crowe como o vaidoso deus grego Zeus e Christian Bale no papel do nefário Gorr, o deus carniceiro. Mas, como o título indica, o filme também tem um lado romântico, e leva adiante a jornada que Thor iniciou em "Vingadores: Ultimato", de 2019.
Ao observar o personagem naquele filme, Waititi disse ter se perguntado o que é que mais fazia falta na vida do herói. E a resposta foi "era o amor, era um par". "Para pessoas maiores do que a vida, quem é que as completa? E acho que, no caso de muitos super-heróis, se você prestar atenção, eles são só caras solitários."
A narrativa ofereceu a oportunidade de trazer de volta Natalie Portman, que interpretou o par romântico de Thor, Jane Foster, nos dois primeiros filmes, mas não participou de "Thor: Ragnarok". Portman, que no novo filme tem a oportunidade de combater usando o poderoso martelo de Thor como arma, disse que assistiu a "Thor: Ragnarok" e que ficou empolgada com "o estilo tão livre e tão criativo" de Waititi.
"Os outros trabalhos dele também me impressionaram demais ao longo dos anos, sua capacidade de misturar o tolo ao profundo e tudo isso com um estilo visual tão distintivo", disse a atriz. "Tudo nos filmes dele parece espontâneo, hilariante e repleto de sentimento."
A ideia de ansiar por uma companheira é especialmente forte no mais recente filme de Thor, e seria possível especular por que isso interessa tanto a Waititi. Seus pais se separaram quando ele ainda era pequeno, e ele é divorciado da produtora de cinema Chelsea Winstanley, com quem tem duas filhas.
Mas, quando conversamos sobre os elos que unem seus diferentes trabalhos, o cineasta preferiu apontar para temas mais amplos. "Todos os meus filmes falam de pessoas que estão por baixo", ele disse. "Sobre não poder escolher a família a que você pertence, e que às vezes nem mesmo é sua família de verdade, mas só aquele grupo na direção do qual você termina gravitando. E você se pergunta como foi parar em companhia daquele bando de esquisitos. O que aqueles caras têm em comum comigo?"
Sem exatamente se pôr no papel-título do monólogo, Waititi falou longamente sobre os motivos para que certas pessoas –quem quer que elas possam ser– jamais consigam se ver como bem-sucedidas, como plenamente realizadas.
"O que move as pessoas é essa ideia de ‘vou mostrar a todo mundo’", ele disse. "Às vezes é uma ideia percebida erradamente, uma ideia falsa, de que os outros não têm fé em você. Você continua a carregar isso consigo mais tarde na vida, e sempre haverá alguém que diga que ‘ei, você pode deixar isso de lado, você já provou o quanto vale’."
Ele ergueu a voz comicamente antes de prosseguir. "Não, ainda há algumas pessoas mortas a quem preciso provar alguma coisa! Meu pai já morreu, mas preciso que ele veja o que me tornei!" E, em seguida, em um tom mais suave e sincero, ele acrescentou que "é um apego estranho".
Assim que o novo filme de Thor for lançado em segurança, mais trabalho aguarda Waititi. "Estou tentando escrever uma ideia para ‘Star Wars’, no momento", ele disse. "Preciso descobrir como é que ela deve ir adiante, porque, quando a submeter, a qualidade pode determinar quando, ou se, ela será produzida." Mas em seguida ele acrescentou que "ou seria legal tirar seis meses de folga e curtir com as minhas filhas".
Perguntei se ele estava começando a se sentir como Leonardo DiCaprio em "A Origem", desesperado por chegar em casa e ser abraçado pelos filhos já na porta, e Waititi aceitou a comparação. "Elas estão na Nova Zelândia", ele disse. "Não poderiam estar mais longe de mim."
Ele tenta se consolar com a lembrança de que se esforçou para levar as filhas para ficar com ele o máximo possível, no set de "Thor: Amor e Trovão" e tentou propiciar a elas experiências que no futuro talvez sejam úteis.
"Eu sei que no futuro elas vão se lembrar daquele período e pensar que um dia estiveram em um set de filmagem com Christian Bale", disse Waititi. "E foram rudes com ele e o ignoraram."
Tradução de Paulo Migliacci
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11. Os 20 favoritos de Kubrick
Não são os melhores filmes do cinema para Stanley, mas os que ele via e revia com prazer.Além dos clássicos inevitáveis das cinematecas, inclui também grandes filmes 'comerciais'.
Ruy Castro, fsp, 16.05.2026
Foi outro dia. Estava em busca de não sei o quê na internet e, de repente, ela me ofereceu uma opção de vídeos, todos irrelevantes e irresistíveis. Um deles: os 20 filmes favoritos de Stanley Kubrick. Mordi a isca. Abri. Ei-los.
20. "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica; 19. "Cidadão Kane" (1941), de Orson Welles; 18. "Os Boas-Vidas" (1953), de Federico Fellini; 17. "Morangos Silvestres" (1957), de Ingmar Bergman; 16. "Ouro e Maldição" (1924), de Erich von Stroheim; 15. "Luzes da Cidade" (1931), de Charles Chaplin; 14. "Henry V" (1944), de Laurence Olivier; 13. "Na Estrada da Vida" (1954), também de Fellini; 12. "O Tesouro de Sierra Madre" (1948), de John Huston; 11. "Pernas Provocantes" (1942), de William Wellman; 10. "Relíquia Macabra" (1941), também de Huston; 9. "O Fugitivo" (1932), de Mervin Le Roy; 8. "Cantando na Chuva" (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly; 7. "Napoleão" (1927), de Abel Gance; 6. "A General" (1926), de Buster Keaton; 5. "Conspiração do Silêncio" (1955), de John Sturges; 4. "Soberba" (1942), também de Orson; 3. "Glória Feita de Sangue" (1957), de, veja só, Stanley Kubrick; 2. "Os Melhores Anos de Nossas Vidas" (1947), de William Wyler; 1. "Umberto D." (1951), também de De Sica.
Atenção, não são os maiores do cinema para Kubrick, mas os seus favoritos. Há uma diferença. A arte desperta emoções pessoais, donde os favoritos de Kubrick não serão os seus. Mas, para minha surpresa, alguns dele são também dos meus. E não são os óbvios Fellinis, Orsons e De Sicas, mas filmes "comerciais" que não frequentam cinematecas.
Refiro-me a "Pernas Provocantes", a maior comédia de tribunal já feita e um triunfo para Ginger Rogers; "O Fugitivo", uma pedrada na sociedade americana; e "Conspiração do Silêncio", com Spencer Tracy demolindo Ernest Borgnine com um braço só.
Não, Kubrick não se "esqueceu" dos filmes de Billy Wilder ou de outros. São os favoritos dele, lembra-se? Chato é se um deles fosse a obra-prima "Dark Horse", a super superprodução sobre Bolsonaro.
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12. Músico e poeta Emmanuel 7Linhas assassinado em Vila Velha
Farol Brasil - 3:18 horas
Músico e poeta Emmanuel 7Linhas é morto em ataque a tiros em Vila Velha
7Linhas tinha mais de 30 anos de carreira e era um músico, poeta e rapper muito conhecido por participar de projetos culturais e fazer trabalhos sociais. O músico, poeta e ativista social Luiz Emmanuel Pinto, conhecido como Emmanuel 7Linhas, foi morto a tiros na madrugada de sexta-feira (8), no Ibes, em Vila Velha.
Segundo informações da Polícia Militar, dois homens passaram de moto efetuando vários disparos na região conhecida como favelinha do Ibes.
Os tiros teriam sido direcionados a pessoas em situação de rua que ficam no local. Uma mulher de 37 anos não identificada também foi morta na ação. O músico de 45 anos tinha um trabalho de ativismo social e estaria interagindo com as pessoas em situação de rua no momento do crime.
Um homem de 34 anos também foi baleado e ferido, mas foi atendido pela equipe do Samu, sendo encaminhado ao Hospital Antônio Bezerra de Faria.
O velório e o enterro do músico ocorreram neste sábado (9) no cemitério Jardim da Paz, na Serra.
Amigos e familiares contaram à repórter Alice Sousa, da TV Gazeta, que Emmanuel 7Linhas era morador de um bairro vizinho ao Ibes e tinha costume de bater papo na calçada com as pessoas.
O ativista social Marcelo Ciqueira relatou que 7Linhas era muito ativo na parte cultural e buscava fazer transformações nesses territórios. “7Linhas era um ativista social, como eu também sou. A gente vive dentro do território, a gente está lutando contra isso. Isso mostra que a gente não tá blindado 24 horas, né? Mesmo a gente fazendo o bem, a gente pode ser vítima disso aí”, contou.
A filha do músico, Mayrianne Mattos, estudante de Medicina, lembrou que o pai lutava sempre pelo que era justo e era um grande sonhador: acreditava em sonhos coletivos através da arte, da cultura e da literatura. “Ele transitava com afeto e carinho em todos os tipos de arte, de forma sensível, profunda, autêntica. Meu pai era um espírito livre que vai continuar com a gente, independentemente de onde ele esteja. A gente espera encontrar paz e força”, relata.
7Linhas tinha mais de 30 anos de carreira e era um músico, poeta e rapper muito conhecido por participar de projetos culturais e fazer trabalhos sociais, lidando também com pessoas em situação de rua.
Pedido de apuração rigorosa
A deputada estadual Camila Valadão (Psol) @Camilavaladao50 também se manifestou sobre a perda. Ela afirmou que na função de presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa vai enviar ofício às autoridades para exigir rigorosa apuração do crime.
Rapper e ativista é morto a tiros durante ação voluntária no ES - texto
Rapper morto em ataque brutal deixa legado social e comove o ES - texto
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13. Volta Seca no Pasquim
VOLTA SECA fala ao "PASQUIM" - Parte I. - vídeo
VOLTA SECA fala ao "PASQUIM" - Parte 2. - vídeo
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14. A universidade está na encruzilhada, vista como frente da guerra cultural
Manifesto pede que o campus volte a ser espaço de crítica. É preciso escolher entre pluralismo e trincheiras ideológicas.
Wilson Gomes, fsp, 11.05.2026
A universidade pública brasileira chegou a uma encruzilhada. Ou reafirma com clareza os princípios que justificam seu prestígio, sua autonomia e o investimento público que recebe ou continuará perdendo legitimidade diante de uma sociedade que já começa a vê-la como uma frente da guerra cultural.
A universidade existe não para disputar poder, ensinar doutrinas ou mobilizar identidades, causas e paixões, mas para submeter ideias e evidências ao teste público da razão, do método e da crítica. Defendê-la é recusar a condescendência diante de práticas que a impedem de ser, como queria Darcy Ribeiro, autônoma em todos os sentidos: livre de tutela política, imune à instrumentalização ideológica, resguardada do clientelismo e da mediocridade.
Foi para defender essa missão que um grupo de professores e pesquisadores lançou recentemente o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. O documento nasce de uma constatação incômoda: há hoje, nas universidades públicas, um ambiente crescente de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso.
O paradoxo da liberdade acadêmica no Brasil está na indignação seletiva. Quando governos como o de Jair Bolsonaro tentaram interferir na universidade, desrespeitando procedimentos de nomeação de reitores, vigiando aulas, ameaçando professores ou usando o orçamento como coação, a reação foi imediata — e correta. Invocamos autonomia universitária, pluralismo, liberdade de cátedra e resistência ao autoritarismo.
Mas a mesma régua desaparece quando a agressão vem de dentro do campus, em nome de causas progressistas. Nesse caso, domina a autocomplacência: a interdição do dissenso vira proteção de grupos vulneráveis; o veto a palestrantes, defesa de "espaços seguros"; a intimidação de docentes, punição moral justificada.
Disso resulta uma universidade invertida: em vez de se afirmar como o espaço por excelência da liberdade de pensar, experimentar e discordar, converte-se no lugar onde as pessoas devem ser protegidas de ideias que as contrariem. Em vez de formar estudantes capazes de enfrentar argumentos difíceis com razões e evidências, passa a treinar militantes que mandam calar, denunciam, punem e expulsam, como se a universidade fosse deles, não um bem coletivo. A liberdade que deveria valer para todos torna-se condicional: absoluta quando protege quem pensa de um jeito; revogável quando ampara o outro lado.
Discursos discriminatórios e assédio existem e devem ser objeto do devido processo. Mas isso é muito diferente de tratar diferenças sobre políticas públicas, economia, segurança, relações internacionais, gênero, raça, religião ou costumes como delitos morais.
Trata-se de autoritarismo e de intolerância. O autoritarismo aparece sempre que um grupo considera seus valores tão superiores que se sente autorizado a punir o dissenso, interditar adversários e subordinar a liberdade a uma causa redentora. A intolerância política, por sua vez, nem sempre se apresenta como ódio explícito a um grupo; muitas vezes surge como recusa a certos atos —falar, convidar, ensinar, discordar— quando praticados por quem está fora da ortodoxia dominante.
A universidade precisa encontrar saídas. Neutralidade institucional não significa indiferença moral, covardia intelectual ou abstenção pública diante de ameaças à universidade ou à democracia. Significa que a instituição deve garantir que todos os lados legítimos numa democracia —progressistas, conservadores, liberais ou outros— tenham o mesmo direito de existir e debater no espaço público acadêmico.
PM cerca reitoria da USP ocupada por estudantes - fotos
Pluralismo não significa que todas as ideias valem o mesmo, mas que ideias devem ser testadas por argumentos, dados e crítica qualificada, não por gritos, vetos, intimidação ou superioridade moral autoproclamada. A universidade existe não para poupar adultos do atrito intelectual nem para fazer curadoria ideológica, mas para ensinar que conviver com a discordância é parte da vida democrática e da honestidade científica.
É do próprio Darcy, de cujas credenciais progressistas ninguém há de duvidar, a frase que sintetiza o espírito que deveria reger a vida acadêmica nacional: "Nesta universidade ninguém, professor ou aluno, será punido ou premiado, jamais, por sua ideologia". A universidade precisa, então, escolher entre ser capturada pela lógica das trincheiras ideológicas, como mais um território da guerra cultural, ou recuperar sua vocação mais nobre como instituição aberta, onde a luz da razão tem alguma chance contra as paixões sectárias do tempo.
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15. Dez anos de falência democrática
O golpe de 2016 é o grande divisor de águas da vida política brasileira deste século: ainda vivemos à sua sombra.
Luis Felipe Miguel, maio 12, 2026
Hoje, completam-se 10 anos desde que a presidente Dilma Rousseff teve que se afastar da presidência da República, deixando o cargo para Michel Temer. Meses depois, em 31 de agosto, o Senado aprovaria o impeachment, sacramentando que seu afastamento era definitivo.
A deposição de Dilma atende por um nome preciso: golpe. Um dos golpes de novo tipo, que se tornaram frequentes, em que instrumentos legais, como o instituto do impeachment, são desvirtuados para afastar dos cargos de poder pessoas e grupos que se tornaram indesejados.
O impeachment foi levado adiante por um pretexto (as “pedaladas fiscais”). Todo mundo sabia que era um pretexto (e, posteriormente, o Tribunal de Contas da União viria a confirmar). No desenrolar do processo, mal se falava delas. Falava-se de “conjunto da obra”, dizia-se que a popularidade de Dilma estava baixa demais para que ela pudesse continuar na presidência da República, evocavam-se os valores familiares. E, sobretudo, a quadrilha de Sérgio Moro estava em operação.
Uma triangulação entre os juízes e procuradores corruptos da Lava Jato, a imprensa corporativa e as fábricas de notícias falsas manejadas pela direita alimentava um clima de opinião contrário a Lula, ao PT e à presidente. Era o triplex, era o pedalinho, eram os vazamentos marotos. Cada boato virava uma manchete, cada manchete virava uma investigação. Com o Supremo, com tudo. No Jornal Nacional, William Bonner desfiava mentiras com voz soturna, com a imagem do esgoto de dinheiro atrás.
Era para destruir Lula, o PT, a esquerda e Dilma – para sempre. Impossível enfrentar o tsunami, sobretudo diante do caráter desmobilizador do lulismo. Como François Andrieux disse a Napoleão, “on ne s’appuie que sur ce qui résiste”: só nos apoiamos sobre o que resiste. A base popular não sabia resistir, logo não servia de apoio. O lulismo tinha ensinado que a única forma de expressão política era o voto.
Não que o governo fosse bom. Emparedada pelos donos do poder no Brasil, Dilma resolveu, no seu segundo mandato, promover um ajuste fiscal antipopular, que minava o diferencial dos governos petistas (as políticas compensatórias em favor dos mais pobres) e que estava em contradição absoluta com o que havia prometido na campanha, sobretudo no segundo turno. Quem quer que defendesse a democracia no Brasil, naquele momento, tinha a obrigação de lutar pela continuidade do mandato da presidente legitimamente eleita. Mas era difícil.
Sempre lembro das faixas as manifestações do campo democrático: “Fica, Dilma, mas melhora”. É preciso muita sofisticação política para chegar nessa posição, de defender um governo do qual não se gosta. Mas foi o que fizemos – e fomos, como se sabe, fragorosamente derrotados.
O golpe foi a culminação da estratégia inaugurada pelo candidato derrotado da direita, Aécio Neves, que declarou, celebremente, que estava apenas querendo “encher o saco” quando iniciou um pedido de cassação da chapa vencedora no Superior Tribunal Eleitoral. O que aconteceu foi que a direita brasileira percebeu que, naquele momento, não era capaz de chegar ao poder pela eleição. Afinal, com o mais absurdo cerco da imprensa corporativa, com as maquinações da conspiração Lava Jato funcionando a todo vapor, com a baixaria no máximo, depois do baque de 2013, com a economia periclitando, Dilma, ainda assim, foi capaz de se reeleger. Decidiram, então, que era hora de romper com as regras do jogo, de virar a mesa. E foi o que fizeram.
No processo, deram à luz uma direita competitiva eleitoralmente. O PSDB foi imolado na fogueira de sua própria tentação golpista, para dar lugar ao bolsonarismo.
De fato, o caso do Brasil mostra com perfeição como as classes dominantes estimulam o surgimento de uma direita mucho loca. De fato, não são poucas as semelhanças com a ascensão do nazismo na Alemanha, tal como descrita pelo historiador francês Johann Chapoutot, em seu recente livro Les irresponsables.
A extrema-direita foi colocada nas ruas para aumentar a pressão em favor da deposição de Dilma. Ela podia também manipular o discurso antissistêmico, necessário para a agitação golpista, mas que casava mal com figuras como Aécio Neves, Michel Temer ou José Serra.
A expectativa era que, consumada a deposição da presidente, os cães hidrófobos seriam recolhidos de novo ao canil. O governo do usurpador serve de ilustração. Os extremistas foram importantes na mobilização, mas ficaram de fora do primeiro escalão. Teve ministério até para uma nulidade como Roberto Freire, mas não para a turma de Jair.
Ou seja: é claro que o golpe de 2016 não foi desferido para colocar Bolsonaro na presidência. Ele foi comandado pelos caciques da velha política, cansados de dividir o poder com o PT, interessados em garantir a continuidade de seus esquemas depredação do Estado, alinhados com setores da burguesia que achavam que as políticas de redução das desigualdades já tinham ido longe demais. A extrema-direita tinha destaque na mobilização das ruas, açulando o ressentimento das classes médias e propagando o pânico moral, mas era absolutamente secundária na articulação no Congresso, no Judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal e na imprensa, aquela articulação que foi essencial para queda de Dilma.
Nem por isso é possível dizer que a vitória de Bolsonaro foi fruto do acaso. Os articuladores do golpe deram espaço para discursos que namoravam o fascismo, sabendo o que significavam, e bateram palmas quando eles ganharam os corações e mentes de uma boa metade dos brasileiros. É como aquele sujeito que enche a cara, pega o carro e acaba batendo. Não vamos dizer que a batida era seu objetivo, mas também não dá para dizer que ela surpreende.
A analogia falha num ponto. Imaginamos que o bêbado deplora o acidente que sofreu. A direita tradicional brasileira, não. Ressalvadas exceções, adaptou-se muito bem ao bolsonarismo e mergulhou de cabeça no extremismo. Foi tipo uma redenção, a desobrigação de fingir civilidade e compromisso com a democracia.
O golpe, assim, foi o grande ponto de ruptura da política brasileira recente. Ele marcou a dissolução dos consensos que, bem ou mal, definiam o cenário desde o final da ditadura. A gramática dos direitos, que a Constituição de 1988 estabelecia como terreno para as disputas, foi dispensada. O discurso de defesa da igualdade, que muitas vezes era apenas da boca pra fora, mas era comungado por todos, foi rompido. Afirmou-se, pelo próprio fato da destituição da presidente legítima, que não se considerava mais que a obtenção do voto popular era o único meio de acesso ao poder. A arquitetura liberal do equilíbrio de poderes foi substituída por um vale tudo, em que vigora a regra do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Cientistas políticos conservadores gostam de dizer que a nossa democracia sobreviveu, que as instituições são fortes, como forma de minimizar o significado do golpe de 2016 e também do bolsonarismo. Mesmo entre gente progressista, a vitória de Lula, em 2022, e o fracasso da intentona de 8 de janeiro de 2023 aparecem como sendo sinais do sucesso da retomada democrática no Brasil. Mas não é assim. O governo Lula avançou pouco, não teve força para promover de fato esta retomada.
Houve a aplicação de punição aos golpistas, mas não o suficiente para que a ampla parcela oportunista e pusilânime da elite parlamentar se sentisse ameaçada. Com exceção de alguns poucos, como Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, os políticos que trabalharam ativamente contra a democracia não foram punidos. Muitos deles se tornaram homens importantes do governo Lula, indicando ministros, ocupando cargos, exercendo poder.
Não conseguimos recompor o apoio social à ordem democrática. A direita continuou nadando de braçada no debate nas redes sociais, o jornalismo corporativo continuou normalizando a extrema-direita, a esquerda continuou investindo pouco, muito pouco, na educação política. A opção por punir os golpistas começando pelos bagrinhos, com penas muitas vezes exageradas, ao gosto do ministro Alexandre de Moraes, alimentou a narrativa da vitimização, que a direita usou com competência.
É como se uma casa tivesse sido devastada por um furacão e uma enchente. O governo Lula tomou conta, tirou um pouco da lama, trocou umas lâmpadas. Mas as janelas continuam quebradas, as paredes rachadas. As fissuras que o golpe de 2016 produziu em nossa institucionalidade democrática, que sempre foi meio capenga, permanecem aí.
E, o que é o mais triste, continuamos lutando apenas para evitar o pior, sem expectativa de mudança real no nosso horizonte.
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16. A folha corrida de um senador capaz de agredir quem cuida dele
O uso do peso do cargo é a definição mais pura de covardia política
Ricardo Noblat, 03/05/2026
O novo capítulo da biografia do senador Magno Malta (PL-ES), com a acusação de agressão a uma profissional de saúde no hospital DF Star, em Brasília, não é apenas um “incidente isolado”, mas o retrato fiel de uma trajetória marcada pelo excesso e pela controvérsia.
Para quem construiu a carreira sobre o pilar da “moral e dos bons costumes”, o senador parece ter uma dificuldade crônica em praticar a mansidão que prega nos altares para enganar os trouxas.
A denúncia é grave: um tapa no rosto e xingamentos de “imunda” contra uma técnica de enfermagem que apenas tentava realizar um procedimento médico, aplicando-lhe uma injeção. Enquanto Malta se defende falando em “falha técnica” e “guerra espiritual”, a realidade do “chão de fábrica” da saúde brasileira — onde profissionais já trabalham sob pressão extrema — ganha um contorno de crueldade quando o agressor é alguém que detém o poder de um mandato.
A folha corrida do senador não o ajuda a ter o benefício da dúvida. Olhar para o passado de Malta é mergulhar em um arquivo de episódios que desbotam qualquer aura de santidade. É impossível esquecer a história de Luiz Alves de Lima, ex-cobrador de ônibus em Vitória, que foi preso e torturado após ser acusado injustamente de pedofilia por Malta. O homem perdeu a visão, a guarda da filha e amargou nove meses de vida em um cárcere pavoroso. Restou-lhe pedir uma indenização ao Estado.
O senador também já teve seu nome envolvido no escândalo da “Máfia das Sanguessugas”, no qual foi acusado de receber propina para liberar verbas de ambulâncias — um caso que, embora não tenha terminado em condenação, colou nele o rótulo da velha política que ele diz combater.
Por atos e palavras, não raras vezes Malta se comporta como um sacripanta. No dia 21 de maio de 2023, o jogador brasileiro Vinícius Júnior foi chamado de “macaco” por torcedores do Valência, na Espanha. Dois dias depois, em discurso no Senado, Malta satirizou o ocorrido ao perguntar: “Cadê os defensores da causa animal que não defendem o macaco?”.
A agressão no DF Star, se confirmada pelas câmeras que o próprio senador agora diz querer ver, é a cereja amarga de um bolo que o Brasil já está cansado de comer. Um parlamentar que usa o peso do cargo para humilhar quem está ali para cuidar dele é a definição mais pura de covardia política.
Se houver um pingo de justiça no Senado, Magno Malta deveria responder não aos fiéis que ouvem suas pregações, mas ao Conselho de Ética por quebra de decoro. Afinal, imunidade parlamentar não é licença para distribuir tapas.
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17. Um homem, uma mulher e um negro
Um lapso canhestro de linguagem
Muniz Sodré, fsp, 02.05.2026Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor. A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis.
Embora com alguma lógica, foram açodados os ataques dirigidos à apresentadora televisiva que descreveu a diversidade da tripulação da missão Artemis 2 como "um homem, uma mulher e um negro". A frase é racista, claro, mas não aval automático desse mesmo julgamento a quem a enunciou. A ressalva pode soar como eufemismo acadêmico, mas o esclarecimento é oportuno quando se aborda o racismo no país sem a comodidade da pedra na mão. Açodamento é atitude apressada, irrefletida, que polariza sem dialogar.
A dificuldade deve-se à inquietante singularidade do racismo no Brasil. O sociólogo francês Gabriel Tarde observou em fins do século 19 que "cada civilização faz a sua raça" (ao invés de "a raça faz a civilização"). A modalidade brasileira é diferente da norte-americana, uma leucocracia com linha divisória entre claros e escuros a partir da "one drop rule", a regra de que uma gota de sangue imaginariamente "negro" faz emergir a separação racial, qualquer que seja a gradação cromática da pele. Aqui, não, o colorismo hierarquiza as tonalidades: quanto mais claro, mais aceitável. Ou negociável.
No interior da forma social escravista, que continua a existir desligada da materialidade da antiga estrutura escravista, o processo cognitivo é complexo. O abolicionista Joaquim Nabuco anteviu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil (...) ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância". A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis. As primeiras se traduzem em normas, as segundas aparecem em atos reflexos, que espelham a forma social. A reflexividade produz imagens instauradoras de um campo sensível, responsável pelas afecções discriminatórias.
Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor. A eles preside raça, categoria anacrônica e obscura, embora investida de poder de aplicação capaz de subsistir ao esvaziamento da noção original. Pode ressurgir ou manifestar-se em ocasiões inesperadas.
Um episódio particular: Em Paris, um pickpocket furta de um brasileiro um cartão de crédito. Mais tarde, um notório intelectual progressista conta que lhe aconteceu algo igual, mas teve na delegacia uma segunda experiência desagradável: fizeram-no esperar longo tempo sentado ao lado de "todos aqueles africanos". Subsumia-se que ser africano equivaleria ao negro escravizado, logo, ao afrodescendente brasileiro, objeto de velado preconceito.
Esse equívoco discursivo é próximo ao da jornalista: "homem, mulher e negro". Mas está longe de sua imputação como sujeito de consciência racista, pois a diferença entre a discriminação visível e a invisível, o lapso, resta ser testado em atos na vida social, como agora em Canoas (RS), onde um tribunal, em inequívoco racismo religioso, determinou a segregação cautelar de uma acusada por "ser mãe de santo". Em geral, o problema converge para a linguagem, um jogo que "fala" o sujeito, espelhando a forma escravista com força estruturante. Daí a importância de escola, escrita e imagens antirracistas. E certamente de reciclagens institucionais.
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18. Vargas uniu, o agro desfez
Noventa anos depois, o interior calou 'A Voz do Brasil'. O fim da obrigatoriedade do programa estatal representa a vitória das paróquias sobre o projeto nacional.
Gustavo Alonso, fsp, 24/04/2026
Gustavo Alonso: Vargas uniu o agro desfez - vídeo
Nos anos 90 era comum se falar no fim da "Era Vargas". Diante das transformações neoliberais capitaneadas por Collor e FHC, o legado intervencionista, industrializante e nacionalizante de Vargas foi sendo corroído pelas privatizações e pela inserção do Brasil na ordem liberal da globalização. No entanto, alguns legados varguistas sobreviveram, e só hoje em dia estão sendo desmontados, como é o caso do tradicional programa radiofônico "A Voz do Brasil".
Neste mês, o Ministério das Comunicações divulgou o calendário de 2026 para a flexibilização do "A Voz do Brasil", permitindo que rádios priorizem coberturas locais. Com a medida, as emissoras podem dispensar ou adiar a transmissão do programa para cobrir "eventos de grande relevância regional", como aniversários de cidades, festas religiosas e feiras agropecuárias.
Criado em 22 de julho de 1935, no governo de Getúlio Vargas, o então "Programa Nacional" foi o embrião da atração radiofônica mais antiga ainda em exibição no país. Em 1938, a transmissão tornou-se obrigatória no horário das 19h às 20h, sob o nome de "A Hora do Brasil". Em 1962 o programa adotou sua denominação atual, "A Voz do Brasil".
Quando Vargas tornou obrigatório o seu programa, ironicamente chamado pelo povo debochado de "o fala sozinho", o objetivo estava inserido em seu plano desenvolvimentista e centralizador. Em resposta ao contexto da República anterior, que batizou de "velha", Vargas defendia a ideia de um governo forte e industrializante. Ditatorial a partir de 1937, o Estado Novo de Vargas tinha um projeto de país que era crítico não apenas à democracia, mas também ao federalismo que julgava desorganizado.
Foi por isso que a Constituição ditatorial de 1937 determinou o fim dos símbolos que não fossem aqueles que representassem a nação unida sob Vargas. Para mostrar que não estava brincando, o ditador realizou um ato simbólico. Em 27 de novembro daquele ano aconteceu a queima das bandeiras dos Estados brasileiros em plena Praia do Russel, no centro da então capital federal, o Rio de Janeiro.
O caderno inédito de Getúlio Vargas em seu autoexílio - galerias
No centro da celebração, havia uma pira onde as bandeiras dos 21 estados da época foram depositadas e queimadas ao som do Hino Nacional. O evento foi cercado de pompa militar, com desfiles e música, para dar um ar de festa cívica à destruição dos símbolos regionais.
O então ministro da Justiça de Vargas, Francisco Campos, responsável pela promulgação da Constituição do Estado Novo, discursou: "Os brasileiros se reuniram em torno do Brasil e decretaram desta vez com determinação não consentir que a discórdia volte novamente a dividi-lo, que o Brasil é uma só pátria e que não há lugar para outro pensamento do Brasil nem espaço e devoção para outra bandeira que não seja esta".
A criação do programa "A Voz do Brasil" se inseriu neste contexto de unificar o Brasil para além das fraturas regionais e locais, superando o federalismo desengonçado da República Velha. O projeto integrador passava pela industrialização a partir de um Estado forte e intervencionista. O papel de "A Voz do Brasil" era transmitir às diversas regiões do país seus papéis neste projeto desenvolvimentista. Agora, o programa de mais de 90 anos encontrou seu golpe mais mortal.
O "A Voz do Brasil" já tinha sido flexibilizado em 4 de abril de 2018, quando o então presidente Michel Temer assinou a lei n.º 13.644. A transmissão do noticiário, antes obrigatória às 19h, tornou-se flexível e passível de ser apresentado em qualquer horário entre 19h e 22h por emissoras comerciais. Diante da flexibilização atual, o que vemos é a vitória dos poderes regionais em se apoderar da "Hora do Brasil".
Em época de internet e excesso de informação, é de se perguntar até que ponto é justo manter um programa estatal de comunicação. Se até na época de Vargas o programa era chamado de "o fala sozinho", que dirá hoje em dia, inchados que estamos de toda sorte de mídias.
O fim parcial da programação nacional de "A Voz do Brasil" representa a força de um país rural e agrário, que toma os poderes estaduais e consegue se impor frente aos discursos centralizadores, questionando qualquer ideia de projeto nacional. Vargas se revira no túmulo.













