O assunto (mestiçagem) ganhou novos contornos com a divulgação do Censo de 2022. Pela primeira vez na história, pardos se tornaram o maior grupo racial, com 45,3% da população. Já brancos eram 43,5% e pretos eram 10,2%.
No Brasil, não é a extrema direita que rejeita mestiçagem
Entre nós, são setores da esquerda que combatem a ideia de miscigenação e defendem identidades estanques. Expulsão de Beatriz Bueno de programa de pós-graduação da UFF ilustra particularidades brasileiras
Rodrigo Perez, fsp, 07.02.2026 Doutor em história social pela UFRJ, com pós-doutorado na Universidade Complutense de Madrid. Professor do departamento de história e do programa de pós-graduação em história da Universidade Federal da Bahia
[RESUMO] O debate sobre mestiçagem assume contornos peculiares no Brasil de hoje, analisa professor. Enquanto no cenário global a extrema direita busca uma pretensa pureza racial, que se manifesta politicamente no combate à imigração, por aqui ela se prende à tese de democracia racial para saudar uma suposta relação pacífica de diferentes grupos étnicos e negar a existência do racismo. Por outro lado, setores da esquerda contestam a miscigenação e acionam a narrativa da ancestralidade para ancorar identidades profundamente essencializadas.
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23 de julho de 2022. 31° Festival de Verão de Bálványos, Transilvânia, Romênia. O discurso mais esperado do evento seria feito pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, descrito pela literatura um dos mais importantes líderes da direita radical europeia, como "autocrata eleitoral".
O convidado subiu ao púlpito aplaudido por cerca de 100 mil pessoas. Figura central na política húngara desde o final dos anos 1980, quando se destacou como líder da oposição à ocupação soviética, Orbán foi eleito pela primeira vez em 1998, governando até 2002. Retornou ao poder em 2010, permanecendo no posto até hoje. Desde então, foram quatro vitórias eleitorais consecutivas.
Orbán se apresenta como idealizador da "democracia iliberal", caracterizada pela preservação de eleições periódicas, em meio a um cenário de restrições das liberdades civis. A pesquisadora Kim Scheppele afirma que a modalidade de legalismo autoritário fundada por Orbán não pode ser definida como uma democracia alternativa ao modelo liberal, mas sim como um regime autocrático que manipula as leis para perpetuar no poder o Fidesz, partido político comandado pelo primeiro-ministro.
Orbán é reconhecido pela retórica violenta com a qual trata o tema da imigração, o que vem sendo um ativo político que ajuda a explicar seu sucesso político/eleitoral. Mas em nenhum discurso anterior ele havia sido tão agressivo como foi naquele pronunciado em 23 de julho de 2022. Disse Orbán:
"Há um mundo em que os povos europeus se misturam com povos não europeus. Esses países já não são nações. Eles não passam de conglomerados de povos. […] Nós estamos dispostos a nos misturar uns com os outros, mas não queremos nos tornar povos de raça mista. [...] A migração dividiu a Europa —ou melhor, dividiu o Ocidente— em duas partes. Uma parte é composta por países onde europeus e não europeus vivem juntos. A outra é composta por países que não querem se tornar sociedades pós-nacionais".
Orbán define a mestiçagem como ameaça à identidade nacional, reivindicando a pureza racial como virtude a ser preservada por meio de políticas de controle migratório. O discurso chocou a opinião pública ocidental, tendo sido amplamente criticado em editoriais publicados nos principais veículos da imprensa internacional.
O alarde poderia sugerir que Orbán é uma exceção na geopolítica global, uma experiência isolada de autoritarismo e racismo institucional. Definitivamente, não é. Como identificou o então deputado brasileiro Eduardo Bolsonaro durante visita à Hungria, Orbán "é o melhor exemplo de sucesso de um governo de direita".
A rejeição à mestiçagem e a reivindicação da pureza racial são signos estruturantes do discurso político da extrema direita contemporânea. Donald Trump mobiliza a metáfora do "sangue envenenado" para representar os imigrantes como risco àquilo que considera ser a cultura genuína dos EUA.
Diz Trump: "Eles estão envenenando o sangue do nosso país. É isso que eles fizeram. Eles envenenam instituições em todo o mundo, não apenas na América do Sul, mas em todo o mundo. Eles estão vindo para o nosso país, da África, da Ásia, de todo o mundo".
É impossível não identificar semelhanças com o vocabulário enunciado por Hitler, associação negada por Trump. Seja como for, se diretamente inspirado ou não no nazismo, o fato é que estamos diante de falas que inspiram violência política. O drama civilizatório não se restringe ao plano da linguagem, mas ganha forma jurídica e institucional.
Em janeiro de 2025, Trump anunciou um decreto que pretende negar a cidadania para filhos de imigrantes ilegais ou com visto temporário, mesmo que nascidos nos EUA. O ato foi alvo de inúmeras contestações na Justiça e ainda não entrou em vigor. Chama atenção como a iniciativa aciona certa concepção de "ancestralidade" baseada na premissa de que "ser americano" é mais do que nascer no território nacional. Seria necessário estar autorizado por uma linhagem considerada genuína.
Em diferentes latitudes, formulações semelhantes podem ser identificadas em outras manifestações da extrema direita global. Tanto em Portugal como na Espanha, o alvo da interdição são os imigrantes de origem muçulmana, enquanto latino-americanos costumam ser tratados com mais benevolência por supostamente pertencerem ao que líderes como Santiago Abascal chamam de "iberosfera".
O partido Alternativa para a Alemanha (AFD), liderado por Alice Weidel, é ainda mais restritivo ao defender a "remigração", ou seja, a deportação em massa não apenas de imigrantes ilegais, mas também de estrangeiros legalizados, mas considerados não assimilados pela cultura alemã.
Na França, o "reagrupamento nacional" liderado por Jordan Bardella e Marine Le Pen cria dificuldades para o casamento inter-racial, colocando essas uniões sob constante suspeita de serem forjadas por imigrantes criminosos visando a obtenção da cidadania francesa.
Na Índia, o Bharatiya Janata Party (BJP), partido político do primeiro-ministro Narendra Modi, criou uma ampla legislação que dificulta casamentos entre hindus e muçulmanos. Aqui, a premissa não é a defesa da pureza racial, mas sim da homogeneidade religiosa, definida como fundamental para o fortalecimento nacional.
É interessante como no Brasil essas disputas ganham contornos específicos. O tema da imigração ilegal não está no centro de nossas preocupações coletivas, o que não acontece com a mestiçagem, assunto já muito explorado ao longo da história do pensamento político brasileiro.
Dos letrados reunidos no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) ainda na primeira metade do século 19, chegando até aos cientistas sociais que no final do século 20 foram influenciados pelos estudos pós-coloniais e pelo movimento negro, passando por Nina Rodrigues, Silvio Romero, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes.
Para uns, a mestiçagem foi definida como estratégia de diluição das heranças raciais consideradas inferiores, um grande projeto de embranquecimento da nação. Para outros, foi tratada como vetor de decadência biológica e moral.
Em Gilberto Freyre, autor mais citado e difamado do que lido e compreendido, a mestiçagem foi positivada e alçada à condição de fundamento da identidade nacional. Florestan Fernandes denunciou a incapacidade dessa ideia em superar as hierarquias oriundas da escravidão.
Cientistas sociais como Antonio Sergio Guimarães, Thomas Skidmore e Abdias do Nascimento identificam a mestiçagem como formulação ideológica pertencente à tese da "democracia racial", cujo objetivo seria negar a existência de racismo no Brasil.
Depois de décadas de relativa hegemonia do enquadramento proposto pelos cientistas sociais pós-coloniais, o tema voltou a ser disputado. Por motivos óbvios, diferente de suas congêneres europeias, a extrema direita brasileira não poderia negar a mestiçagem e reivindicar a pureza racial como virtude.
Em diversas ocasiões, o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores a mencionaram para afirmar que o Brasil não possuía tensões raciais legítimas. Em 7 de setembro de 2020, Bolsonaro disse que:
"A identidade nacional começou a se formar com a miscigenação entre índios, brancos e negros. Posteriormente, ondas de imigrantes trouxeram esperanças que haviam perdido em suas terras. [...] O Brasil desenvolveu um senso de tolerância. Os diferentes tornaram-se iguais".
Cronologia da Lei de Cotas no Brasil - fotos
Recentemente, o assunto explodiu de vez na internet, na esteira da atuação da jovem intelectual pública Beatriz Bueno. Em síntese, ela critica a tese sustentada no Estatuto da Igualdade Racial, que coloca pardos e pretos no mesmo grupo/identidade racial: os negros.
Beatriz reivindica especificidade para a identidade parda, pensada como o espectro racial que sintetiza a experiência da miscigenação que atravessa a história do Brasil. O mote para a reflexão é a suposta desigualdade entre pretos retintos e pardos no acesso a direitos, sobretudo à política de cotas.
Baseada em casos de reprovações de pardos nas bancas de heteroidentificação de concursos públicos e vestibulares, Beatriz argumenta que o tratamento de pardos como negros é estratégico para reforçar a interpretação do Brasil formulada pelo movimento negro, segundo a qual a maior parte da população brasileira é formada por negros.
Negros o suficiente para inflar a estatística conveniente, mas não tão negros para passar nas cotas do vestibular e estudar medicina na universidade pública. Os argumentos de Beatriz foram apresentados no livro "Parditude: Um Guia para te Resgatar do Limbo Racial", recentemente publicado pela editora Planeta.
As reflexões de Beatriz vêm provocando desconforto em setores do ativismo racial influentes nos partidos políticos de esquerda e nas universidades. Os críticos parecem negar a mestiçagem como realidade social concreta, definindo-a como discurso racista, ao mesmo tempo em que costumam reivindicar uma "ancestralidade" africana que seria comum a todos os negros brasileiros.
A temperatura dos conflitos aumentou no final do ano passado, quando Beatriz foi expulsa do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (PPCUT/UFF), onde cursava o mestrado.
Beatriz alega ter sido vítima de perseguição ideológica, enquanto os coordenadores do programa afirmam que ela não cumpriu requisitos regimentais mínimos e que o jubilamento teve motivação exclusivamente administrativa. Ao que parece, o conflito será levado à Justiça.
Este é Abdias Nascimento - galeria
Fato é que Beatriz tornou-se alvo de ataques orquestrados na internet que comemoram sua expulsão da universidade, questionam sua competência como pesquisadora e a acusam de atualizar a ideologia da democracia racial, sabotando a luta antirracista.
Essas polêmicas revelam algo interessante sobre a realidade política brasileira: entre nós, são setores da esquerda que negam a mestiçagem e acionam a narrativa da ancestralidade para ancorar identidades profundamente essencializadas. Desde que seja entendida como vínculo sexual e afetivo estabelecido consensualmente entre pessoas de diferentes grupos étnicos, a mestiçagem é indispensável para toda nação que se pretenda diversa, multicultural e inclusiva.
Negá-la só faz sentido na ficção autoritária que acredita na existência de raças puras e superiores. É algo que precisa ser vigorosamente combatido, em todos os lugares, venha de onde vier.
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Resposta: Parditude é conceito inovador, que busca equilíbrio e nada tem de retrocesso. Autores distorcem propostas, alegando que a noção fragmenta o campo negro e é funcional à branquitude
Beatriz Bueno, fsp, 30.08.2025 Mestranda em cultura e territorialidades pela UFF (Universidade Federal Fluminense)
[RESUMO] Em resposta a artigo de Érico Andrade e Lia Vainer Schucman, autora afirma que a noção de parditude não é um retrocesso, mas um passo para a construção de um debate racial mais inclusivo e representativo no Brasil e que, em vez de fragmentar o movimento negro, busca reconhecer a especificidade da experiência parda.
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Érico Andrade e Lia Vainer Schucman publicaram nesta Ilustríssima o texto "Noção de parditude é equivocada e representa regressão no debate racial do país". Fiquei lisonjeada com a atenção, afinal, já tive a oportunidade de conversar com os dois.
Érico me disse que, apesar das nossas divergências, era evidente que lutávamos juntos contra o racismo. Gentilmente, ele me enviou seu livro. Lia não foi diferente: ela reconheceu que o termo pardo está em disputa e que existem opiniões diversas e também me enviou seu trabalho. Curiosamente, longe dos olhos do público, ambos disseram que nós lutamos juntos.
Apesar do tom amigável das nossas conversas pessoais, em sua intervenção pública na Folha, eles adjetivaram meu trabalho como regressivo, perigoso, reacionário e até eugenista. Fui retratada como ressentida e não como alguém motivado por um interesse intelectual e político legítimo.
Esse tipo de retórica é estranha ao debate acadêmico e científico, que deve se manter no campo das ideias e dos argumentos, evitando desqualificações pessoais e suposições infundadas sobre as intenções ou estados mentais dos interlocutores. Acredito que o mais importante é discutir o mérito da questão e, nesse esforço, os adjetivos quase sempre atrapalham. Em resumo, os termos utilizados pelos autores violam os princípios de uma discussão construtiva e de um debate rigoroso e plural.
A redução da parditude a uma caricatura
Para um debate ser construtivo, é preciso compreender e apresentar os argumentos do outro com honestidade. Distorcer falas, criar versões simplificadas ou atribuir intenções inexistentes é uma tática que revela a recusa em dialogar genuinamente, buscando apenas a vitória fácil sobre uma versão distorcida do que foi dito. Infelizmente, é isso que tem acontecido no debate envolvendo a parditude.
Distorcem minhas propostas alegando que a noção de parditude não tem lastro no debate científico ou político, que ela fragmenta o campo negro e é funcional à branquitude, que presume a existência de raças puras, que é uma confusão ou que evoca discursos de pureza racial e, por fim, que visa retirar direitos de outros grupos — quando na verdade busca apenas assegurar direitos já designados por lei a pessoas pardas. Por isso, sou obrigada a mais uma vez defender meus argumentos de tantas distorções.
O debate acadêmico e científico sobre o pardo
Diferentemente do que alegam os autores, a mestiçagem e o debate sobre o pardo são temas clássicos das ciências humanas e do debate político brasileiro, não uma confusão. Um exemplo recente é o novo livro do pesquisador Alberto Carlos Almeida, "A Cabeça do Brasileiro, Vinte Anos Depois: O que Mudou", que dedica um capítulo inteiro à discussão sobre a questão do pardo.
A verdadeira confusão surge quando paradigmas antigos não conseguem explicar o mundo e seus defensores se recusam a aceitar esse fato. Nesse caso, preferem gastar suas energias omitindo ou minimizando as evidências de sua própria crise a se abrir à descoberta e aos debates controversos, que fazem a ciência avançar.
Veja a evolução das questões sobre cor ou raça no Censo no Brasil - galeria
Fragmentação da luta antirracista
Uma das críticas mais comuns e, a meu ver, mais falhas à noção de parditude é que ela fragmenta o campo negro e é funcional à branquitude. Isso não só inverte a lógica do problema como ignora as verdadeiras causas das fissuras na luta antirracista.
Na verdade, a fragmentação nasce da insistência em uma categorização binária que apaga nuances e exclui parcelas significativas da população. São as contínuas exclusões de pardos das políticas de ações afirmativas e do próprio debate público que enfraquecem a agenda antirracista. Como pode haver um "pacto coletivo" entre pardos e negros, como sugerem os autores, se os pardos são marginalizados dentro da própria luta?
Longe de ser uma ferramenta da branquitude, a parditude é um movimento de autoafirmação e busca por justiça. A negação da experiência mestiça não promove união, mas enfraquece a luta antirracista. Se o objetivo é fortalecer o combate ao racismo, é necessário abraçar todas as suas manifestações e identidades, incluindo a complexidade da parditude, em vez de exigir a adesão a um modelo único que não reflete a realidade social de tantos brasileiros.
Mestiçagem e 'raças puras'
Acusam-me de acreditar em raças puras. Ora, é uma obviedade que as raças humanas, no sentido biológico, não existem e que todos somos produto de misturas genéticas. Contudo, ao afirmar a existência do mestiço, refiro-me a um conceito social e culturalmente construído em cima de diferenças físicas observáveis.
O fato de as classificações raciais serem socialmente construídas não as torna menos reais em seus profundos efeitos materiais e simbólicos. É surpreendente que os detratores do debate sobre a parditude recorram à retórica do "somos todos mestiços".
Curiosamente, essa abordagem ecoa os mesmos argumentos daqueles que buscam esvaziar a discussão sobre o racismo, ignorando que, em um país com a história do Brasil, as pessoas são persistentemente lidas, classificadas e hierarquizadas de acordo com características físicas que remetem a origens geográficas distintas — apesar de serem todas biologicamente mestiças.
Quem trabalha no campo das relações étnico-raciais sabe, portanto, que o ser humano é um espectro de misturas. Porém, sabe também que as classificações históricas, enraizadas na colonização e no racismo, criaram hierarquias baseadas em características físicas percebidas, o fenótipo. Se é bem verdade que existem variações fenotípicas e corpos diversos, essas variações são visíveis e reais em seus efeitos.
Afinal, é justamente com base nessas variações que as comissões de heteroidentificação têm decidido quem incluir ou excluir, muitas vezes deixando as pessoas percebidas como mestiças em um limbo. Assim, a ambiguidade fenotípica dos pardos é frequentemente agenciada por grupos de interesse para seus próprios fins. Afinal, quem é aprovado nas bancas de heteroidentificação? Quem recebe olhares de desconfiança e reprovação? Quem é considerado branco demais para ser negro e negro demais para ser branco?
Cidades e estados com mais pretos, brancos, pardos, amarelos e indígenas no Brasil - fotos
O conceito de raças puras, embora cientificamente infundado, foi instrumentalizado por eugenistas como Madison Grant, que, em sua obra "The Passing of the Great Race" (1916), argumentava que a miscigenação entre brancos e outros grupos raciais resultava em uma descendência inferior. Essa ideologia da hipodescendência influenciou leis de segregação racial como a Regra de uma gota de sangue nos Estados Unidos, que buscava manter a "pureza" da raça branca, isolando-a de povos considerados subalternos.
No Brasil, nos anos 1970, conforme Kabengele Munanga em seu livro "Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil", os movimentos negros começaram a adotar o conceito de hipodescendência para redefinir a identidade negra do país, incluindo os mestiços com ascendência negra na categoria da negritude. Essa mudança gerou avanços importantes, como as cotas raciais, mas também trouxe uma série de problemas, com que lidamos até hoje.
A invenção das categorias raciais também levou ao apagamento do mestiço. Conceitos como negro e indígena foram criados durante a modernidade, no processo de colonização, desmantelando uma infinidade de etnias indígenas e africanas, reduzindo-as a rótulos homogêneos. Povos indígenas das Américas, como os tupis, guaranis, mapuches e navajos, foram forçosamente agrupados sob o termo índio. Da mesma forma, na África, sociedades ricas e diversas como os iorubás, bantos e mandingas foram simplificadas ao termo negro.
A pergunta é: por que não se esforçam em apagar os termos negro e índio das categorias como se esforçam em apagar o mestiço? A defesa da hipodescendência para gerar união ignora que a união e a solidariedade podem existir entre diferentes. Por que os mulatos não podem se unir aos negros sabendo que são mulatos? E os indígenas, por que continuam a ignorar que nessa soma os pardos indígenas são totalmente apagados?
A experiência concreta do mestiço e a rejeição nas bancas de heteroidentificação
A experiência de ser mestiço é concreta e não um mero sentimento a ser desconsiderado. A própria Lia Vainer, em seu livro "Famílias Inter-raciais", apresenta uma menina parda chamada Amanda, cujo pai branco diz que ela é branca enquanto sua mãe negra diz que ela é negra. Amanda, vinda de uma família abastada, não deseja cotas, mas quer entender seu lugar no mundo. Paradoxalmente, a mesma Vainer que relata o caso de Amanda em seu livro diz agora em seu novo texto que essa experiencia não é válida, é subjetiva, como se fosse algo pessoal e irrelevante.
No entanto, a realidade é que essa experiência se manifesta de forma contundente em políticas públicas. No concurso do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (DF e TO), 72% dos candidatos autodeclarados pardos foram reprovados pelas comissões de heteroidentificação. Dos 2.010 convocados, apenas 545 tiveram sua autodeclaração reconhecida como legítima. Seriam 72% de brancos fraudadores malignos?
Como justificar que mais de sete em cada dez pessoas pardas tenham sido consideradas fraudadoras ou achar que isso é algo subjetivo ou um erro pontual da política? Quero ajudar todas as Amandas que diariamente me mandam mensagens de socorro, pessoas que estão com pensamentos suicidas por receberem ataques ao serem chamadas de fraudadoras e acusadas de estarem invadindo espaços que não são seus.
Racismo e a redução da diversidade racial: a experiência parda
Frequentemente, argumenta-se que indivíduos classificados como pardos devem ser considerados negros porque eles têm uma experiência compartilhada de racismo. Um argumento comum é que "a polícia sabe quem é negro," sugerindo que a violência policial contra uma pessoa parda a torna automaticamente negra.
Essa perspectiva é limitada e reforça a noção equivocada de que apenas indivíduos negros enfrentam racismo ou, pior ainda, que ser negro é ser definido exclusivamente pela experiência do racismo.
Parditude: um conceito inovador para pensar o Brasil
Parditude é um conceito inovador porque busca integrar todo aprendizado do movimento negro à perspectiva da mestiçagem. É diferente das propostas feitas no passado que romantizavam a mestiçagem e minimizavam o problema do racismo. É a busca por equilíbrio.
Se a centralidade da categoria pardo impõe a necessidade de mais conceituação e teorização, que isso seja feito dentro de um debate plural e científico, em que todos possam apresentar seus argumentos sem medo de retaliação e censura. A atualização sobre o debate da mestiçagem, junto com a renovação de uma identidade nacional que não apague os legados indígenas e negros, é uma aposta em um país em que direitos sejam universalizados e pessoas saiam da pobreza extrema e vivam livres da discriminação racial.
Em resumo, a parditude não é um retrocesso, mas um passo para a construção de um debate racial mais inclusivo e representativo. Em vez de fragmentar, ela busca reconhecer a especificidade da experiência parda, sem negar a solidariedade fundamental com a comunidade negra.
É tempo de abandonar as resistências e abraçar a complexidade da racialização brasileira, permitindo que a parditude emerja como uma categoria política legítima e necessária para aperfeiçoar as ações afirmativas e garantir que a justiça racial alcance a todos.
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Noção de parditude é equivocada e representa regressão no debate racial do país
Pretos e pardos compartilham experiência de violência; instituir nova categoria é inflexão perigosa na luta antirracista
Érico Andrade Marques de Oliveira, fsp, 23.08.2025 Professor do Departamento de Filosofia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) & Lia Vainer Schucman, Professora do Departamento de Psicologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Autora de “Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo: Branquitude, Hierarquia e Poder na Cidade de São Paulo”
[RESUMO] A ideia de parditude não é lastreada conceitualmente no extenso debate sobre a questão racial brasileira e é politicamente regressiva, sustentam autores. A nova categoria proposta, ainda que apresentada sob o pretexto de dar visibilidade a experiências subjetivas de pessoas racializadas, fragmenta o campo negro do país e é funcional aos interesses da branquitude por enfraquecer o pacto coletivo que sustentou a construção das ações afirmativas e a denúncia do racismo institucional.
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Discutir a categoria pardo no Brasil se tornou inescapável. Ela está presente nos registros estatais, nas políticas públicas, nas dinâmicas institucionais e, sobretudo, nas disputas simbólicas e identitárias que estruturam as relações raciais no país.
Ignorá-la ou tratá-la como categoria residual nos distancia das tensões vividas cotidianamente por milhares de pessoas que se reconhecem ou são socialmente identificadas como pardas. Não há mais tempo para negligenciar esse debate. O Brasil já pagou caro quando nos furtamos a discutir com reacionários e nos refugiamos nos muros seguros da universidade.
Um dos temas mais recorrentes e delicados nesse debate dizem respeito ao sentimento de não pertencimento vivenciado por sujeitos que, embora racializados, não se reconhecem plenamente como brancos, negros ou indígenas. Muitas dessas pessoas descrevem sua posição social como ambígua e marcada por exclusões simbólicas de ambas as margens do espectro racial, como se houvesse simetria entre o racismo das pessoas brancas que lhes é dirigido e um eventual comentário de uma pessoa negra que questiona o entendimento da pessoa parda a respeito de sua negritude.
Esse sentimento, real e legítimo, tem sido frequentemente mobilizado para tensionar critérios de pertencimento racial, especialmente em contextos como as bancas de heteroidentificação em processos seletivos vinculados às políticas de ação afirmativa.
Há, de fato, um crescente ressentimento de parte desses sujeitos quando são desclassificados por não se enquadrarem nos parâmetros fenotípicos exigidos, o que, em alguns casos, configura um equívoco de julgamento ao desconsiderar a racialização social a que estão submetidos. Com efeito, as políticas públicas têm erros na sua implementação e precisam ser aperfeiçoadas, mas não deslegitimadas.
No entanto, ao lado dessas situações concretas, se observa também o uso estratégico da ambiguidade identitária por indivíduos brancos que recorrem à autoidentificação como pardos para se desresponsabilizarem diante dos privilégios herdados da branquitude. A afirmação genérica de "ser misturado" opera, nesses casos, como um subterfúgio discursivo que busca dissolver os marcadores da branquitude na fluidez da mestiçagem, apagando a posição social de vantagem que a brancura historicamente confere no Brasil.
Em nenhum momento, a brancura no Brasil é pensada em uma dimensão sanguínea, mas ela está diretamente ligada aos marcadores de fenótipo e tem uma dimensão relacional e regional inegável. Isto é, não há um protótipo absoluto ou um modelo de ser negro ou branco —em um país mestiço como o Brasil, a minoria das pessoas são branquíssimas ou negras retintas—, mas essas categorias se relacionam em determinados contextos regionais nos quais uma pessoa é negra ou branca em relação às outras que pertencem a um mesmo contexto.
Pessoas que são socialmente lidas como brancas e que passam a se reconhecer como pardas fomentam uma forma de evasão da branquitude porque desconsideram o caráter contextual da raça no Brasil.
Essa postura, em geral, leva o debate das relações raciais apenas para o campo da subjetividade, como se o fato de uma pessoa branca ser mestiça, como todas as pessoas no Brasil são, a retirasse da sua responsabilidade social como pessoa branca. Isso dificulta a construção de diagnósticos objetivos e compromete o combate à desigualdade racial no Brasil, que, pelo menos hoje, não está dividido entre pessoas completamente brancas e pessoas completamente negras, mas sobre como a branquitude mobiliza os fenótipos brancos como marcas identitárias de poder.
Nesse cenário, se torna urgente retomar uma distinção fundamental: reconhecer experiências subjetivas não implica validar automaticamente categorias políticas ou epistemológicas derivadas dessas experiências. O primeiro argumento a ser enfrentado nesse debate é justamente a tendência de converter sentimentos reais de rejeição, que podem ocorrer nos mais variados e problemáticos contextos, em premissas políticas sem a mediação do caráter estrutural do racismo.
Sentir-se como mestiço ou vivenciar a não pertença não significa, necessariamente, que exista uma realidade objetiva da mestiçagem como categoria fixa. Isso pode falar muito mais do racismo, que dificulta as pessoas se tornarem negras, como uma vasta produção científica brasileira mostra, do que uma fixidez que poderia conferir uma identidade própria à categoria mestiça.
Afinal, as raças não existem como uma realidade fora dos contextos das relações sociais. A raça pura, nunca é demais lembrar, só existiu na mente de nazistas e fascistas. Toda a humanidade é resultado de contínuas misturas genéticas.
A própria ideia de um sujeito mestiço real, como defendida pela influenciadora e graduada em produção cultural pela UFF (Universidade Federal Fluminense) Beatriz Bueno, se revela conceitualmente equivocada, pois pressupõe a existência de raças puras como ponto de origem — algo refutado por décadas de pesquisa genética, antropológica e por inúmeros estudos em ciências sociais de modo geral, como os trabalhos de Guerreiro Ramos, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento etc.
O que existe, em termos concretos, são variações fenotípicas inscritas em corpos diversos, que são socialmente interpretadas e carregadas de significados discursivos, os quais são sempre situados em determinados contextos.
Essas marcas corporais — como cor da pele, traços faciais, textura do cabelo — não têm valor em si mesmas, mas são lidas dentro de um sistema racializado que as hierarquiza e as associa a determinados lugares sociais. É esse processo de significação que funda a experiência do racismo, não a suposta mistura genética que não apenas é redundante (afinal, qual povo no planeta não é misturado?) como informa muito pouco a respeito das questões sociais.
Portanto, embora seja fundamental escutar os afetos, as dores e os desconfortos que atravessam os sujeitos racializados de modo ambíguo e nunca de maneira uniforme, isso não pode se converter em critério absoluto para a definição das categorias analíticas.
A centralidade da categoria pardo nos debates atuais impõe a necessidade de elaboração conceitual rigorosa, capaz de dar conta da complexidade das experiências sem abrir mão da crítica à estrutura racial que organiza a sociedade brasileira. É preciso que esse debate recupere a extensa literatura produzida sobre o tema no Brasil porque, do contrário, estaremos reeditando mais um capítulo do que Sueli Carneiro denunciou como epistemicídio, outra linha de atuação do racismo.
É nesse contexto que se torna necessário lembrar por que, historicamente, pretos e pardos formaram juntos a categoria política de negro. Desde sua formulação nos movimentos negros do século 20, essa categoria nunca propôs o apagamento da identidade parda. Pelo contrário, sempre reconheceu a diversidade fenotípica e a especificidade das experiências de discriminação dentro do grupo racializado.
A força da categoria negro reside exatamente na solidariedade construída entre pretos e pardos, que, apesar das diferenças, compartilham a experiência histórica da subalternização e da violência racial. O racismo, sabemos, incide sobre esses corpos. A construção da identidade negra como categoria política foi e continua sendo uma estratégia de fortalecimento coletivo frente à supremacia branca e à fragmentação colonial.
Nesse ponto, é igualmente fundamental enfrentar com honestidade as hierarquizações que se expressam dentro do próprio grupo de pessoas negras. Embora seja legítima a crítica ao colorismo e à sobreposição histórica de corpos de pele mais clara em posições de visibilidade, essa crítica tem sido, por vezes, convertida em desqualificação generalizada de sujeitos negros de pele clara. Isso pode apontar para um compreensível desconforto diante de desigualdades internas reais, mas também o risco de reprodução de lógicas excludentes dentro de um campo político que deveria se basear na solidariedade radical.
O combate ao colorismo não pode ser transformado em uma nova forma de policiamento identitário. Quando o julgamento se volta contra aqueles que não têm a pele escura como forma de deslegitimar sua negritude, o que se faz, inadvertidamente, é alimentar a cisão que tanto se pretende evitar. É usar as armas do colonizador contra a própria população negra.
É precisamente por isso que a proposta de criação de uma nova categoria racial, como a chamada parditude, deve ser recusada com clareza e firmeza. A ideia de instituir uma categoria racial distinta da categoria negro representa uma inflexão profundamente perigosa no campo das lutas antirracistas. Ainda que apresentada sob o pretexto de dar visibilidade a uma experiência de ambiguidade, a parditude opera, na prática, uma cisão política artificial e funcional aos interesses da branquitude.
É notável a adesão de pessoas lidas socialmente como brancas ao que se chama parditude. Fragmentar o campo negro em categorias supostamente mais fiéis à experiência subjetiva é, neste momento histórico, uma estratégia conservadora que se reveste de reconhecimento. Isso porque as experiências subjetivas são infinitamente diferentes, pelo seu próprio caráter subjetivo, mas o que reúne as pessoas pretas e pardas na categoria de negras é o fato de que elas sofrem racismo pelo que guardam, com mais ou menos marcadores, de negro ou, em alguns casos, de indígenas.
A categoria parditude não é apenas algo que não encontra lastro conceitual no diálogo com o extenso debate racial consolidado no Brasil porque poderia ser uma categoria que ainda seria mais bem desenvolvida. Ela é politicamente regressiva. Aqui repousa a sua gravidade.
Ao propor um nome próprio para a ambiguidade, retoma e atualiza o velho projeto colonial e eugenista que buscava nomear e classificar os corpos misturados para mantê-los sob vigilância e fora do campo político da negritude. Ao separar pardos de pretos, se enfraquece o pacto coletivo que sustentou a construção das ações afirmativas, da denúncia do racismo institucional e da politização da identidade racial como instrumento de transformação social. A parditude oferece à branquitude uma alternativa confortável: desresponsabiliza, desvia o foco e aprofunda a confusão.
Não é de uma nova categoria que precisamos, mas da afirmação radical da solidariedade entre os que sofrem os efeitos do racismo. Reforçar a unidade política da negritude não significa dizer que exista uma essência de ser negro ou que todas as pessoas negras são iguais e contêm os mesmos marcadores fenotípicos.
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É importante não confundir a realidade com um filme como "Pantera Negra", que divide as pessoas entres pretas e brancas de forma binária. No Brasil, há um extenso matiz de pessoas negras com as suas diversidades, mas isso não as torna menos negras quando é a hegemonia branca que organiza socialmente a desigualdade racial do Brasil.
Acreditamos que é uma tarefa urgente diante das tentativas de esvaziamento e fragmentação da negritude que tenhamos consciência da complexidade da experiência da negritude no Brasil. Isso inclui, também, o enfrentamento honesto das hierarquizações internas, produzidas por algumas pessoas negras. O desafio que se impõe é o de construir uma abordagem que reconheça a legitimidade da singularidade das vivências, sem sacrificar as categorias políticas de enfrentamento ao racismo.






