quarta-feira, 22 de julho de 2026

Ana María Rodas - Poemas da esquerda erótica

LA POESÍA DE A. M. RODAS O SER EN SU ESTAR, ESTAR EN SU SER 

Marie-Louise Ollé, Université Toulouse II - Le Mirail, IRIEC  

Actas XVI Congreso AIH. Marie-Louise OLLÉ. La poesía de A. M. Rodas o ser en su estar, estar en su ser / Centro Virtual Cervantes

A POESIA DE A. M. RODAS OU SER EM SEU ESTAR, ESTAR EM SEU SER (tradução livre)

De acordo com D. Liano, quando A. M. Rodas publicou em 1973 Poemas da esquerda erótica, livro fundacional da poesia de mulheres centro-americanas segundo a crítica (Aída Toledo 2004), “a poesia guatemalteca estremeceu até seus alicerces” (Liano 1997). A escrita de A. M. Rodas, crua e abrupta, sem rodeios nem eufemismos, quebrava com estrondo e violência inédita os moldes e limites definidos pelas leis socioculturais masculinas. Sua voz desatava a mordaça para dizer e cantar, clamando e bramindo, a verdade verdadeira da vivência feminina. Sua palavra derrubava as paredes da “prisão inventada”, avançando nua, abrindo caminho para suas seguidoras [1].

Fora dos rumos atribuídos à voz feminina, a poesia de A. M. Rodas é sobre o corpo em sua presença material. Corpo desejante e desejado, corpo aceito e rejeitado, o corpo está onipresente na poesia precursora de A. M. Rodas (Acevedo / Toledo 1998). 

No estudo a seguir, propõe-se, portanto, um percurso analítico das estratégias de “escrita do corpo” em Poemas da esquerda erótica. Após uma breve apresentação e contextualização da obra, nos questionaremos como e em que medida o corpo representado em sua poesia – feminino e masculino – é um lugar simbólico de destruição e reconstrução das identidades na violenta confrontação dos seres que habitam o universo da poeta.

A recente reedição de Poemas da esquerda erótica (Rodas 2004) reúne os três primeiros livros de poesia de A. M. Rodas: Poemas da esquerda erótica (1973), Quatro cantos do jogo de uma boneca (1975) e O fim dos mitos e dos sonhos (1984)[2], com a menção “trilogia”[3], o que evidencia uma das constantes em sua poesia: mostrar a evolução e as oscilações de um sujeito poético feminino confrontado com sua circunstância nacional [4] e sociocultural [5] que o título programático (poesia / Eros / circunstância sociopolítica) anuncia [6]. 

Na primeira e mais extensa coleção − 80 textos − partindo de uma afirmação de autonomia [7] que vai contra a Lei, A. M. Rodas, como sujeito poético autoconstruído [8], recupera a palavra, tirando dela os adornos impostos pelo falocentrismo.

Aumenta gradualmente a violência sarcástica nas peças diretamente dedicadas ao repúdio da Ordem. Rejeição dessa ordem perpetuada, de maneira absurda, tanto no nível pessoal quanto social, por aqueles que mais deveriam questioná-la: os companheiros militantes de uma ideologia de luta contra a opressão em todas as suas formas [9]. Com lucidez, prazer, mas também com dor e hesitações, a voz poética ocupa um território próprio, ao mesmo tempo exterior e interior, posicionando-se “à esquerda da esquerda”. Quatro cantos do jogo de uma boneca consiste em uma “carta aos pais que estão morrendo” − considerada o manifesto poético de Rodas − e 52 poemas.

O discurso continua se estruturando na afirmação do sujeito feminino e na amarga desesperança diante da incomunicabilidade com o homem, mas isso agora ocorre a partir da experiência do tempo como um “viver morrendo”. O fim dos mitos e dos sonhos é, para a poeta, “a testemunha [dos seus] anos vazios” (Rodas 1975: 157). Nele, domina a temática da solidão, com seu consequente mergulho no mais profundo da depressão, como preço a pagar por ter escolhido viver na verdade de seu ser.

Das 65 peças agrupadas em subseções temáticas, destacam-se “O mito de Ixquic”, que abre a coletânea, o “Homenagem à mãe”, como uma marcada transgressão da figura materna e, pela sua extensão (15 poemas), a subseção dedicada ao amor, intitulada “Sobre essa coisa transbordante”. Os três livros carregam o duplo selo poético de Rodas: o da ironia – sarcástica, amarga, violenta – e o da liberdade do verso e da palavra. 

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1. Méndez de Penedo 1999-2000: 43-80; Pailler 2001: 109-123.

2. As obras serão citadas usando as respectivas abreviações IE, 4E, FM ou *Poemas* para a trilogia.

3. Ana María Rodas afirma: “Na verdade, considero *Cuatro esquinas* e *El fin de los mitos* como parte de *La izquierda erótica*.” (Rosina Cazali 2002).

4. Entre 1960 e 1996, o “conflito interno” opôs movimentos guerrilheiros — nascidos sob a influência da ideologia revolucionária exportada por Cuba — a tropas governamentais de contrainsurgência com diferentes graus de intensidade. A repressão foi marcada por sua ferocidade implacável.

5. Dante Liano escreve: “Ana María Rodas nasceu nesta tradição [guatemalteca] que relega as mulheres a papéis subordinados na sociedade duas vezes. […] Assim como as heranças maia e europeia correm em suas veias como um único rio indistinguível, o machismo latino-americano também é um componente vital de sua cultura” (Liano 1997: 274).

6. Dez anos depois, Ana María Rodas publicou sua quarta coletânea de poesia, *La Insurrección de Mariana* (Guatemala, Ed. del Cadejo, 1993), que completa harmoniosamente o conjunto.

7. Veja o primeiro poema: “Me classificaram: menininha? Rosa. / Joguei fora o rosa há muito tempo / e escolhi a cor que mais gosto — / que são todas elas.” (Rodas 1973: 15).

8. Uma série de textos assume o caráter de uma metarreflexão sobre a poesia e o poder da palavra — ou melhor, da *sua* palavra (ver especialmente as páginas 52–70).

9. Aqui estão duas amostras dessas peças: “Grande criador, admiro você. / Parece impossível / que de tantos centenas de cadáveres / você tire o fio / para tecer o brilhante tecido da sua vida” (Rodas 1973: 71); “Você faz bem, grande mestre. / Eu sou a guerrilheira / no seu regime / o objeto / que se ergue com armas de amor / entre o seu exército de egoísmo gorila / e o poder que você imagina / ao fim do seu dia.” (Rodas 1973: 75). 

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A desconstrução do discurso falocêntrico por meio da ironia e do sarcasmo e o uso sistemático do coloquialismo é uma das características mais marcantes da produção literária “feminina”. Isso ocorre principalmente a partir de 1975 no primeiro mundo [10], o que permite medir o caráter pioneiro de *Poemas* e o impacto de sua publicação em 1973 em um país como Guatemala. Escolher o registro conversacional mais simples, quando não vulgar, é a mais evidente das múltiplas rupturas intrínsecas que definem a escrita de A. M. Rodas como subversiva. Essa poesia se diferencia do Modelo ao despedaçar os limites e normas da expressão literária dominante.

Rompe com a concepção da literatura como produto da esfera econômica e culturalmente dominante na Guatemala e em toda a América Latina – como expressão do culto e do refinado – e rompe com a rígida lei da decência e do decoro que a sociedade impõe às mulheres. A precisão exacerbada até a aparente banalidade de uma língua “antipoética” é a arma da poeta para declarar nulo o discurso da mulher que escreve com expressão sentimental-romântica requintada e piegas, e para acabar com o Modelo do sujeito feminino emocional, cultural e socialmente subalterno [11]. O sujeito poético, autodefinido como “rebelde”, denuncia a violência simbólica existente [12].

A gramática mente

(como toda invenção masculina).

Feminino não é gênero, é um adjetivo

que significa inferior,

inconsciente, utilizável,

acessível, fácil de manejar,

descartável. E acima de tudo

violável. Isso primeiro, antes de qualquer

outra significação preconcebida. (Rodas 1975: 128)

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10. Sobre a história dessa corrente, veja o compêndio analítico em Delphine Naudier 2001/4.

11. “Se a ideia de subalternidade na crítica pós-colonial significa algo, é uma posição sociocultural (de classe, etnia, casta, gênero, profissão, idade, preferência sexual, etc.) desautorizada por uma cultura dominante ou hegemônica.” (Beverley 2002: 10).

12. Bourdieu descreve os mecanismos da violência simbólica assim: “A violência simbólica se estabelece por meio da adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante (portanto à dominação) quando ele não dispõe, para pensar nisso e para se pensar ou, melhor, para pensar sua relação com ele, de nenhum instrumento de conhecimento além daqueles que tem em comum com ele e que, sendo apenas a forma incorporada da relação de dominação, fazem essa relação parecer natural” (Bourdieu 1998: 41).

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Recusando o discurso dos “pais”[13], o sujeito poético, como voz individualizada a partir de sua experiência central como mulher, vai elaborando seu próprio discurso, apropriando-se do sistema simbólico falocêntrico para melhor pervertê-lo. E isso faz ao dar a ler uma “tomada de consciência da corporalidade” (Toledo 2004: 131-144) por meio de uma focalização emblemática sobre o corpo, esse lugar simbólico por e com o qual se forjam as relações fundamentais entre natureza e cultura, indivíduo e sociedade, poder e subalternidade, etc.

Assim, o texto de A. M. Rodas destrói o Modelo corpóreo predominante para elaborar outra representação, a de um corpo que se define como mediador, não apenas primeiro, mas imprescindível, entre o mundo e o ser que o "conforma", vinculando, até fundi-los, o ESTAR e o SER. O corpo, comumente concebido principalmente como um ESTAR por ser percebido em sua circunstância espaço-temporal e definido por ela [14], nesta poesia passa a ser o lugar da existência efetiva e da essência. O ESTAR se torna SER. O texto realiza a reunião do corpo e do espírito que o discurso normativo separa: “as fibras mais internas [do] corpo” substituem a “alma”, como nestes versos –“com ossos com músculos / com desejos com dores”– onde, reunidos pela proximidade no espaço textual (v. 16-17) e pela semelhança da construção sintática, o corporal e o anímico se confundem [15].

Nos Poemas, o corpo-signo se manifesta antes de tudo como materialidade sólida. Seja o corpo masculino visto de fora ou o corpo feminino apreendido desde sua interioridade mais fisiológica e sensual, ou ainda a oposição de duas representações do corpo feminino, a tradicional e a eroticamente rebelde. Através disso, realiza-se um programa de reconhecimento do corpo feminino que permite à enunciadora “pertencer a si mesma”, em total e completa individuação. Leia-se o último poema da Izquierda erótica:

Mulher, o sonho já está chegando

aproveite este tempo

e esqueça aqueles que agora

se agitam, bebem,

amam, fornicam.


O sonho já chegou, amiga.

Acalme seu sangue

e agarre-se ao momento

em que finalmente começa um caminho.


Sem braços amantes, sem muletas

receba-o, não é nada além do sonho

e já é suficiente. (Rodas 1973: 95)

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13 “Carta aos pais que estão morrendo” (Rodas 1975: 99-100), os “cadáveres insossos” (Rodas 1975: 101) aos quais se contrapõem afirmações como “eu já não morro a morte decretada por vocês [...] / viverei minha vida simples fora do Seu Universo” (Rodas 1975: 102), “De muito dar as costas às regras / dos homens é feito meu tempo” (Rodas 1975: 103). 

14. As duas primeiras acepções da palavra no Dicionário da Real Academia remetem aos quadros espacial e temporal: “1- aquilo que tem extensão limitada, perceptível pelos sentidos; 2- Conjunto dos sistemas orgânicos que constituem um ser vivo”.

15. Eis mais alguns exemplos desse processo de assimilação da experiência sensorial, sensual e intelectual — sejadiretamente, como em “minha pele me diz, o desejo me consome” ou “porque minha pele me diz que é bom”; ou indiretamente, como na frase “gosto de roer minhas entranhas e meu cérebro”, em que a equivalênciacorpo/espírito se efetiva por meio de uma sintaxe que coloca o físico e o espiritual na mesma função deverbo-complemento, sem que o valor metafórico subjacente ascenda ao primeiro plano semântico em umcontexto discursivo saturado pela presença material do corpo. Da mesma forma, a memória de um amor, a dor de sua perda e o ato de expurgá-lo são expressos por meio do registro semântico do corpo: “Hoje um chamado solitário / fez o passado rolar de volta para o meu colo” (Rodas 1973: 53); “Joguei fora tanto lixo / que abri espaço / no meu corpo / para começar, neste mesmo dia, outra história.” (Rodas 1973: 46).

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Como este texto exemplifica, a estrutura discursiva dominante em *Poemas* é de natureza dicotômica, baseada em duas articulações semânticas fundamentais: a contradição — que implica exclusão mútua — e a contrariedade — que estabelece uma dialética de coexistência. A contradição serve de base para a desconstrução do *modo de ser* sociocultural que aliena o sujeito ao impor uma imagem repulsiva de um *ser* feminino que, na verdade, é um *não-ser*. Isso possibilita a aniquilação dessa referência identitária imposta em uma verdadeira guerra — composta por uma sucessão de batalhas árduas, ganhas e perdidas — contra o Outro, mas também, não obstante as afirmações feitas no poema de abertura (ver nota 11 e seguintes), contra si mesmo [16]. Contudo, na representação discursiva dessa epopeia do *ser*, a articulação semântica da contrariedade também exerce um poder operacional significativo.

Tal articulação, em sua função dialética, inscreve no texto a interioridade da percepção e a concepção do Eu e do mundo. Ela o faz em meio à tensão entre os polos subcontrários positivos — amor *versus* ódio e prazer *versus* dor — que moldam a articulação abrangente de vida *versus* morte, tudo subsumido pelo princípio fundamental da VIDA que define o Ser e a Existência em sua complementaridade dialética. A presença concomitante e quase constante de articulações semânticas de contradição e contrariedade confere, assim, um caráter distintivo ao território poético de A. M. Rodas.

O desejo fervoroso de afastar-se do polo do NÃO SER concretiza-se na celebração do corpo feminino em sua materialidade vital — a começar pelo poema de abertura, que estabelece o tom:

Tenho fígado, estômago, dois ovários,

útero, coração e cérebro, além de acessórios.

Tudo funciona em ordem; por isso,

rio, grito, xingo, choro e faço amor.

E depois, conto tudo (Rodas 1973: 15)

Dessa forma, contrapõe-se e invalida tanto a ausência quanto a negação das mulheres. Essa invisibilidade imposta pela Lei reaparece — servindo como um contraponto irônico — em poemas que afirmam a tangibilidade do corpo feminino. O terceiro texto de *Poemas* — um verdadeiro manifesto de resistência feminina coletiva (note-se o uso de imperativos na primeira pessoa do plural) — exemplifica essa estratégia por meio de uma estrutura que contrasta aquilo que é exposto ao olhar segundo o que “eles querem” (estrofes 1–3) com não apenas o que é simplesmente vivido, mas também o que é vitalmente essencial (estrofes 2–4):

Adotemos a atitude das virgens.

É assim

que eles nos querem.

Vamos fornicar em nossas mentes,

suavemente, tão suavemente,

com a pele de algum fantasma.

Vamos sorrir.

femininas

inocentes.


E à noite, vamos cravar a adaga

e saltar para o jardim

vamos abandonar

este lugar que cheira a morte [17]. (Rodas 1973: 18)

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16. Bourdieu afirma: “A dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos — cujo ser (*esse*) é um ser-percebido (*percipi*) —, tem o efeito de colocá-las em um estado permanente de insegurança corporal ou, melhor dizendo, de dependência simbólica: elas existem primordialmente através e para o olhar dos outros — isto é, como objetos acolhedores, atraentes e disponíveis. Espera-se que sejam ‘femininas’ — isto é, sorridentes, agradáveis, atenciosas, submissas, discretas, reservadas ou até mesmo que se mantenham em segundo plano. E essa chamada ‘feminilidade’ muitas vezes não passa de uma forma de conformidade com as expectativas masculinas — sejam elas reais ou imaginadas —, particularmente no que diz respeito ao reforço do ego masculino. Consequentemente, essa relação de dependência em relação aos outros (e não apenas aos homens) tende a tornar-se constitutiva do seu próprio ser” (Bourdieu 1998: 73).

17. A veemente persistência de tal autoafirmação contra o modelo imposto reaparece em *La insurrección de Mariana*: “Não me vejo em collants pretos / pernas de cor artificial / movendo-me ao ritmo de um piano absurdo. / Eu não sou uma boneca de porcelana antiga / com uma chave de corda eterna e um sorriso eterno. // Amo minha pele escura, meu cabelo solto / a densidade com que derramo amor / e o gelo suave do meu silêncio / não. Felizmente, não sou uma figura frágil / de porcelana”, em *Recuento*. Rodas 1998: 37. 

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O poema seguinte completa o programa como mais uma etapa na afirmação do Eu: já não se trata de ocultar o próprio SER para preservá-lo, mas de revelá-lo em sua materialidade:

Lavemos os cabelos

E exponhamos nossos corpos.


Eu tenho e você também,

irmã 

dois seios

e duas pernas e uma vulva.


Não somos criaturas

que sobrevivem de suspiros.


Não sorriamos mais;

chega de falsas virgens.


Nem de mártires à espera, na cama,

da cusparada ocasional do macho. (Rodas 1973: 19)


"Proyecto de monumento" oferece outro exemplo da estratégia de desconstrução em ação nas três coletâneas de poesia:

O Túmulo da Mulher Desconhecida. 

/a mulher-como-objeto, a única concebível/ 

é encimado por uma estátua de um homem 

que pousa o pé delicadamente  

sobre  

uma forma  

feminina 

envolta em um manto de silêncio.  

Dentro do túmulo /naturalmente/ não há nada [18]. (Rodas 1984: 217).


Assim, o sujeito poético contrapõe-se à atitude de desdém do sexismo com uma estratégia discursiva de saturação semântica, acumulando referências ao corpo para propor — a partir de uma perspectiva estritamente feminina — uma geografia parcial e fragmentada do corpo humano, conforme evidencia um breve exame da isotopia /corpo/. O termo abrangente "corpo" — que, na maioria das vezes, refere-se ao corpo do sujeito feminino — surge com relativa frequência. No entanto, prevalece uma visão fragmentada, uma vez que a representação concentra-se em zonas corporais específicas, tanto feminino quanto masculino. No que diz respeito ao corpo feminino onipresente, a ênfase recai sobre zonas específicas: /Cabeça/ (*“cérebro” 19, “cabelo”, *“olhos”, *“boca”, *“lábios”, *“língua”, *“saliva/babado”, *“voz”); /peito/ (**“peito/seios”, “mamilo”); /quadris/ (*“quadris”, “ancas”); /perna/ (“pernas”, “saia”); /ventre/ (**“ventre/barriga”, “entranhas”, “vísceras”, “ovários”, “útero”; “sexo”, “vulva”, “o caminho mais largo”, “entre as minhas pernas”, “a zona aberta”; **“sangue”, “fluxo”, “virgem”, “dar à luz”, “emergir do meu ventre”, **“filhos”, **“mãe”...), às quais se somam termos mais amplos como “carne” e, sobretudo, “pele”. 

As referências à pele — especialmente à pele feminina — como limite e limiar, e como instrumento de contato erótico, manifestam-se não apenas pela notável recorrência da palavra, mas também pelo tratamento enfático e lírico dispensado a essa parte do corpo, culminando em um poema dedicado que assume a forma de um hino (ver abaixo). Enquanto o corpo feminino é percebido sob uma ótica dual, porém desigual, a representação do corpo masculino ocorre sem projetar o imaginário feminino sobre o eu *sensível* masculino; em vez disso, as descrições concentram-se nas zonas do /olho/, da /boca/ e do /braço/ e — de forma espetacular — na zona do /sexo/ (*“sexo”, “testículos”, **“sêmen” ou equivalentes como “leite”, “fluidos”, “cuspe”). Em vários poemas, isso efetivamente reduz o homem a um objeto de desejo.

A inversão da relação masculino/feminino, codificada por uma sociedade sexista, concretiza-se, assim, pela justaposição de opostos: o corpo da mulher — objetificado pelo olhar masculino — contra um corpo habitado por um "Eu" que exterioriza sua experiência vivida ("rio, grito, xingo, choro e faço amor. // E depois, conto a história"), muitas vezes ao reivindicar os "atributos" semióticos da masculinidade. É dessa forma que se subvertem, tipicamente, as articulações semióticas predominantes no código sociocultural naturalizado [20] do feminino e do masculino — tais como /dentro vs. fora/ ("vamos saltar para o jardim", "quando eu /finalmente/ emerjo de você", "possuir um homem", "coberta de homens", etc.) e /passividade vs. atividade/ (ou seu corolário, /brandura vs. violência/) — ("passar as mãos", "despir-se", "lamber", "aprisionar seu sexo", "masturbar-se", "fornicar", "vamos cravar o punhal"). A emancipação por meio da inversão conduz o sujeito poético a uma celebração erótica do corpo — que deseja e é desejado [21] —, estendendo-se até mesmo à sua necessidade fisiológica mais simples:

Um corpo é apenas isso. Não guarda memória de outro corpo,

nenhum peso na consciência,

nenhuma culpa cristã.

Um corpo é uma máquina que precisa ser acelerada,

usada com frequência —

se

não

constantemente —

para que não se deteriore. (Rodas 1984: 184)


O ato de escrever é uma consciência do *ser-em-processo-de-vir-a-ser* enquanto sujeito da escrita e — em *Poemas* — a escrita é, simultaneamente, a apresentação e a representação dessa dependência, bem como a sua objetivação e o estabelecimento de um distanciamento reflexivo em relação a ela. A palavra cumpre o seu papel catártico e gerador. No entanto, se o *texte/sexte* — para usar a expressão cunhada pelo escritora e crítica francesa H. Cixous constrói simbolicamente a emancipação do sujeito feminino e proclama sua plena individuação por meio da encenação contínua de uma estrutura de exclusão mútua e dual; isso se concretiza, como já observado, ao incorporar as dúvidas e o sofrimento inerentes a essa verdadeira guerra pela sobrevivência do EU. A escrita que mapeia as oscilações do sujeito entre os polos da euforia e da disforia — realização/desespero, autonomia/dependência, rebeldia/submissão, amor/ódio, desejo/aversão, aceitação da velhice/medo da morte [22] — inscreve-se no eixo semântico da contrariedade. Sua coexistência dialética serve para ponderar os perigos de qualquer princípio elevado ao status de sistema. O texto de A. M. Rodas, ancorado na experiência direta e profundamente enraizado na autobiografia, não pode ser reduzido nem a um tratado feminista nem a um manifesto literário vazio. É o registro de uma luta vital entre a ruptura necessária para alcançar a individuação e a atração por uma união utópica com o Outro e com as suas próprias circunstâncias espaço-temporais. O já mencionado poema/hino à pele oferece um compêndio desse universo poético:

Como amo  

esta pele que vai a toda parte comigo!  

Eu a visto  

há alguns anos.  

Ela tem resistido.  

É boa.  

Uma mistura perfeita de indígena e europeu,  

com cheiro de pão escuro.  

Sei que não deveria falar dela,  

mas o fato é que é a única que tenho.  

Ela me mantém inteiro,  

me limita e me une ao universo;  

é úmida e escura,  

coberta de pelos finos.  

Um dia — prematuramente —  

estará coberta de rugas,  

com manchas e áreas de perda de pigmentação.  

E cada marca será uma lembrança destes dias  

passados ​​sob o sol, sob beijos.  

Mutável e livre,  

o estandarte deste povo autônomo  

que vive e se move dentro de mim. (Rodas 1973: 49)

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18. Anos depois, na coletânea de poesia disfórica *Fin de los mitos y de los sueños*, lemos: “Mausoléu silencioso / que se ergue sobre / duas pernas / veste biquíni / óculos escuros de praia. / Caixão imenso / às vezes para o carro e chora.” (Rodas 1984: 221).

19. O asterisco indica a maior ou menor frequência de ocorrência do termo.

20. “As aparências biológicas e os efeitos muito reais produzidos nos corpos e cérebros por um longo processo coletivo de socialização do biológico e biologização do social combinam-se para inverter a relação entre causas e efeitos e revelar uma construção social naturalizada (os “gêneros” como habitus sexuado) como o fundamento natural da divisão arbitrária que subjaz tanto à realidade quanto à representação da realidade […]” (Bourdieu 1998: 9).

21. Desta conta a amplitude do espectro léxico-retórico e dos registros linguísticos dedicados à finalidade e ao ato açúcar: “cálido”, “calor”, “fiebre”, “jungla tropical”, “sudor”, “erizamiento”, “estar hambrienta/o”, “comer”, “chupar dulces”, “cópula”, “apareo”, “combate en la almohada”, “sábana tibia”, “suave almohada”, “deshacer camas”, “navegar vem”, “hundirse”, “Crecer dentro de mim”, “ráfagas de balas indoloras”...

22 Véanse estos dos fragmentos como una ilustración de esta tensión de la percepción del tiempo en el eje semántico /vida vs muerte/: “El tiempo está en mí aportando / las calidades que busco diariamente” (Rodas 1975: 103) vs “Soy niña de repente / y me doy la mano a mí misma y me consuelo / explicándome / que no es cierto / que uno pueda vivir muriendo [...]” (Rodas 1975: 109). 


Bibliografía 

-ACEVEDO, Anabella / TOLEDO, Aída (ed.) (1998): Para conjurar el sueño, Poetas  guatemaltecas de la siglo XX, Antología. Guatemala: Universidad Rafael Landívar. 

-BEVERLEY, John (2002): Prólogo, en ACHÚGAR, Hugo / BEVERLEY, John, La voz del otro. Guatemala: Universidad R. Landívar. 

-BOURDIEU, Pierre (1998): La domination masculine. Paris: Seuil. 

-CAZALI, Rosina (2002): “Poemas de la izquierda erótica, 30 años después”, en la Cuerda, Año 5, núm. 44.  -LIANO, Dante (1997): Visión crítica de la literatura guatemalteca. Guatemala: Ed. U. San Carlos de Guatemala. 

-MÉNDEZ DE PENEDO, Lucrecia (1999-2000): Estrategias de la subversión: poesía femenista guatemalteca contemporánea. Istmica. 

-NAUDIER, Delphine (2001/4): “L’écriture-femme, une innovation esthétique emblématique, en Littératures et identités”, en Sociétés contemporaines, núm. 44, 2001/4, pp. 57-73. 

-PAILLER, Claire (2001): “La reivindicación del sexo en la poesía de mujeres de Centroamérica”, en RENAUD, Maryse (coord.), La mujer en la república de las letras. Poitiers: CRLA/Archivos, pp. 109-123.

-RODAS, Ana María (1993): La Insurrección de Mariana. Guatemala: Ed. del Cadejo. 

-RODAS, Ana María (1998): Recuento. Guatemala: La Ermita / Óscar de León Palacios (eds.). 

-RODAS, Ana María (2002): “La izquierda erótica”, en CAZALI, Rosina (ed.), Poemas de la izquierda erótica, 30 años después, en la Cuerda, Año 5, núm. 44.  

-RODAS, Ana María (2004): Poemas de la izquierda erótica (trilogía). Guatemala: Piedra Santa Editorial. 

-TOLEDO, Aída (ed.) (2004): “Feminismo y subversión en los setenta en Guatemala: Poemas de la izquierda erótica, historia de un libro”, en Desde la zona abierta. Guatemala: Palo de Hormigo, pp. 131-144. 

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Texto original

LA POESÍA DE A. M. RODAS O SER EN SU ESTAR, ESTAR EN SU SER 

Según palabras de D. Liano, cuando A. M. Rodas  publicó en 1973 Poemas de la izquierda erótica, libro fundacional de la poesía de mujeres centroamericanas según la crítica (Aída Toledo 2004), “la poesía guatemalteca se estremeció hasta sus cimientos” (Liano 1997). La escritura de A. M. Rodas, cruda y abrupta, sin rodeos ni eufemismos, rompía con estrépito e inaudita violencia los moldes y límites definidos por las masculinas leyes socioculturales. Su voz desataba la mordaza para decir y cantar, clamando y bramando, la verdad verdadera de la vivencia femenina. Su palabra derrumbaba las paredes de la “cárcel inventada” avanzando desnuda, abriendo camino a sus seguidoras [1].  

Fuera de los rumbos asignados a la voz femenina, la poesía de A. M. Rodas es la del cuerpo en su presencia material. Cuerpo deseante y deseado, cuerpo aceptado y rechazado, el cuerpo está omnipresente en la poesía precursora de A. M. Rodas (Acevedo / Toledo 1998). 

En el siguiente estudio se propondrá pues un recorrido analítico de las estrategias de “escritura del cuerpo” en Poemas de la izquierda erótica. Después de una breve presentación y contextualización de la obra, nos preguntaremos cómo y en qué medida el cuerpo representado en su poesía –femenino y masculino – es lugar simbólico de destrucción y reconstrucción de las identidades en la violenta confrontación de los seres que habitan el universo de la poeta 

La reciente reedición de Poemas de la izquierda erótica (Rodas 2004) reúne los tres primeros poemarios de A. M. Rodas: Poemas de la izquierda erótica (1973), Cuatro esquinas del juego de una muñeca (1975) y El fin de los mitos y los sueños (1984)[2] con la mención “trilogía”[3], lo cual evidencia una de las constantes en su poesía: dar a ver la evolución y las oscilaciones de un sujeto poético femenino confrontado a su circunstancia nacional [4] y sociocultural [5] que el título programático (poesía / Eros / circunstancia sociopolítica) enuncia [6]. 

En la primera y más extensa colección − 80 piezas − partiendo de una afirmación de autonomía [7] que va en contra de la Ley, A. M. Rodas, como sujeto poético autoconstruido [8], recupera la palabra quitándole las galas impuestas por el falocentrismo. Se alcanza in crescendo la mayor violencia sarcástica en las piezas directamente dedicadas al rechazo del Orden. Rechazo de ese orden perpetuado, de manera absurda tanto a nivel de lo personal como de lo social, por quienes más hubieran tenido que cuestionarlo: los compañeros militantes de una ideología de lucha contra la opresión bajo todas sus formas [9].

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1. Méndez de Penedo 1999-2000: 43-80; Pailler 2001: 109-123. 

2. Las citas de las obras se harán con las respectivas abreviaturas IE, 4E, FM o Poemas para la trilogía. 

3. Ana María Rodas declara: “De hecho yo considero que las Cuatro esquinas y El fin de los mitos son parte de La izquierda erótica.” (Rosina Cazali 2002).  

4. Entre 1960 y 1996, el “conflicto interno” opuso con variable intensidad los movimientos de la guerrilla, nacidos al amparo de la ideología revolucionaria exportada por Cuba, a las tropas gubernamentales de contrainsurgencia. La represión se singularizó por su despiadada ferocidad. 

5. Escribe Dante Liano: “Dentro de esta tradición [guatemalteca] que relega dos veces a la mujeres a papeles subordinados en la sociedad, nació Ana María Rodas. […] Así como en su sangre discurren las herencias mayas y europeas como un río indistinto, así el machismo latinoamericano es un componente vital de su cultura” (Liano 1997: 274).  

6. Diez años más tarde, Ana María Rodas publica su cuarto poemario, La Insurrección de Mariana (Guatemala, Ed. del Cadejo, 1993) que viene a completar armónicamente el conjunto. 

7. Véase en el primer poema: “Me clasificaron: ¿nena? rosadito. / Boté el rosa hace mucho tiempo / y escogí el color que más me gusta, / que son todos.”, (Rodas 1973:  15). 

8. Una serie de piezas adquieren valor de metareflexión sobre la poesía y el poder de la palabra, o mejor dicho, de su palabra (véase en especial las páginas 52-70).

9. He aquí dos muestras de estas piezas : “Gran hacedor, te admiro. / me parece imposible / que de tantos cientos de cadáveres / saques el hilo / para tejer la brillante trama de tu vida” (Rodas 1973: 71); “Haces bien, gran maestro. / Yo soy la guerrillera en tu régimen / el objeto / que se alza con armas de amor / entre tu ejército de gorila egoísmo / y el poder que imaginas / al fin de tu jornada.” (Rodas 1973: 75). 

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Con lucidez, con fruición pero también con dolor y con vacilaciones, la voz poética toma posesión de un territorio propio, a la vez exterior e interior, situándose “a la izquierda de la izquierda”. 

Cuatro esquinas del juego de una muñeca consta de una “carta a los padres que están muriendo” −considerada como el manifiesto poético de Rodas)− y de 52 poemas. El discurso se sigue estructurando en la afirmación del sujeto femenino y en la amarga desesperanza frente a la incomunicación con el hombre pero eso se da ahora a partir de la experiencia del tiempo como un “vivir muriendo”. El fin de los mitos y de los sueños, es para la poeta “el testigo de [sus] años vacíos” (Rodas 1975: 157). En él domina la temática de la soledad con su consecuente descenso a lo más profundo de la depresión como precio que ha de pagar por haber elegido vivir en la verdad de su ser. De las 65 piezas agrupadas en subsecciones temáticas sobresalen “El mito de Ixquic” que abre el poemario, el “Homenaje a la madre” como marcada transgresión de la figura materna y, por su extensión (15 poemas), la subsección dedicada al amor, titulada “Sobre esa cosa rebosada”. Los tres poemarios llevan el doble sello poético de Rodas: el de la ironía –sarcástica, amarga, violenta– y el de la libertad del verso y de la palabra. 

La deconstrucción del discurso falocéntrico mediante la ironía y el sarcasmo y el uso sistemático del coloquialismo es una de las características más sobresalientes de la producción literaria “de mujer”. Se da sobre todo a partir del 75 en el primer mundo [10], lo cual permite medir el carácter precursor de Poemas y el impacto de su publicación en 1973 en un país como Guatemala. Elegir el registro conversacional más llano, cuando no vulgar, es la más vistosa de las múltiples rupturas consubstanciales que definen la escritura de A. M. Rodas como subversiva. Esta poesía se diferencia del Modelo haciendo trizas los marcos y las normas de la expresión literaria dominante. Rompe con la concepción de la literatura producto de la esfera económica y culturalmente dominante en Guatemala como en toda América Latina– como expresión de lo culto y refinado y rompe con la férrea ley de la decencia, del decoro impuesta por la sociedad a la mujer. La precisión exacerbada hasta la aparente banalidad de una lengua “antipoética” son las armas de la poeta para declarar nulo el discurso de la mujer que escribe con exquisita y cursi expresión sentimental-romántica y para acabar con el Modelo del sujeto femenino emotiva, cultural y socialmente subalterno [11]. El sujeto poético autodefinido como “rebelde” denuncia la violencia simbólica imperante[12]: 

La gramática miente 

(como todo invento masculino). 

Femenino no es género, es un adjetivo 

que significa inferior,  

inconsciente, utilizable,  

accesible, fácil de manejar,  

desechable. Y sobre todo  

violable. Eso primero, antes que cualquier  

otra significación preconcebida. (Rodas 1975: 128). 

fin de tu jornada.” (Rodas 1973: 75). 

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10. Sobre la historia de esta corriente, véase el compendio analítico en Delphine Naudier 2001/4. 

11. “Si la idea de subalternidad en la crítica postcolonial designa algo, es una posición sociocultural (de clase, etnia, casta, género, oficio, edad, preferencia sexual, etc.) desautorizada por una cultura dominante o hegemónica.” (Beverley  2002: 10). 

12. Bourdieu describe los mecanismos de la violencia simbólica así: “La violence symbolique s’institue par l’intermédiaire de l’adhésion que le dominé ne peut pas ne pas accorder au dominant (donc à la domination) lorsqu’il ne dispose, pour le penser et pour se penser ou, mieux, pour penser sa relation avec lui, que d’instruments de connaissance qu’il a en commun avec lui et qui, n’étant que la forme incorporée de la relation de domination, font apparaître cette relation comme naturelle” (Bourdieu,1998: 41).

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Rehusando el discurso de los “padres”[13], el sujeto poético, como voz individualizada desde su céntrica vivencia de mujer, va elaborando su propio discurso, apropiándose del sistema simbólico falocéntrico para pervertirlo mejor. Y lo hace dando a leer una “toma de conciencia de la corporalidad” (Toledo 2004: 131-144) mediante una focalización emblemática sobre el cuerpo, ese lugar simbólico por y con el que se forjan las relaciones fundamentales entre naturaleza y cultura, individuo y sociedad, poder y subalternidad, etc. Así el Texto de A. M. Rodas destruye el Modelo corpóreo imperante para elaborar otra representación, la de un cuerpo que se define como mediador, no sólo primero sino imprescindible, entre el mundo y el ser que lo “con-forma”, vinculando, hasta fundirlos el ESTAR y el SER. El cuerpo, comúnmente concebido ante todo como un ESTAR por ser percibido en su circunstancia espacio-temporal y definido por ella [14], en esta poesía pasa a ser pues el lugar de la existencia efectiva y de la esencia. El ESTAR se hace SER. El texto opera la reunión del cuerpo y del espíritu que el discurso normativo escinde: “las fibras más internas [del] cuerpo” se sustituyen al “alma” como en estos versos –“con huesos con músculos / con deseos con penas”– en donde, reunidos por la proximidad en el espacio textual (v. 16-17) y por la similitud de la construcción sintáctica, lo corporal y lo anímico se confunden [15]. 

En Poemas, el cuerpo-signo se manifiesta ante todo como materialidad sólida. Trátese del cuerpo masculino visto desde fuera o del cuerpo femenino aprehendido desde suinterioridad más fisiológica y sensual o de la oposición de dos representaciones del cuerpo femenino, la tradicional y la eróticamente rebelde. Mediante lo cual se lleva a cabo un programa de reconocimiento del cuerpo femenino que permite a la enunciadora “pertenecerse a sí misma”, en total y completa individuación. Léase el último poema de la Izquierda erótica:  

Mujer, ya viene el sueño 

aprovecha este tiempo 

y olvida a los que ahora 

se agitan, beben,  

aman, fornican. 


Ya llegó el sueño, amiga. 

Calma tu sangre 

y aférrate al momento 

en que por fin comienzas un camino. 


Sin brazos amantes, sin muletas 

recíbelo, no es más que el sueño 

y ya es bastante. (Rodas 1973:  95)

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13. “Carta a los padres que se están muriendo” (Rodas 1975: 99-100), los “cadáveres insulsos” (Rodas 1975: 101) a lo que se 

contraponen afirmaciones tales como “yo ya no muero la muerte decretada por ustedes [...] / iviré mi sencilla vida fuera de Su Universo” (Rodas 1975: 102), “De un mucho dar la espalda a las reglas / de los hombres está hecho mi tiempo” (Rodas 1975: 103). 

14. Las dos primeras acepciones de la palabra en el Diccionario de la Real Academia remiten a los marcos espacial y temporal: “1- aquello que tiene extensión limitada, perceptible por los sentidos; 2- Conjunto de los sistemas orgánicos que constituyen un ser vivo”. 

15. He aquí unas cuantas ocurrencias más de este proceso de asimilación de la experiencia sensitiva, sensual e intelectual, sea de manera directa: “mi piel me dice, el deseo me acapara” o “porque mi piel me dice que es bueno”; sea indirectamente como en la ocurrencia “me gusta carcomerme las entrañas y el cerebro” en la que la equivalencia cuerpo/espíritu la opera la sintaxis que equipara en una misma función de complemento del verbo lo físico y lo espiritual, sin que, en un conjunto discursivo saturado por la presencia material del cuerpo, pase al primer plano semántico el valor metafórico existente. Del mismo modo el recuerdo de un amor, el dolor por su pérdida y su evacuación se dan mediante el registro semántico del cuerpo: “Hoy una llamada solitaria / hizo rodar de nuevo el pasado a mi falda” (Rodas 1973: 53); “tiré tanta basura / que hice espacio / en mi cuerpo / para empezar, hoy mismo, otra historia.” (Rodas 1973: 46).

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Como lo ejemplifica esta pieza, en Poemas, la estructura discursiva dominante es la de la dicotomía a partir de las dos articulaciones semánticas fundamentales: la de la contradicción –que implica una exclusión mutua– y la de la contrariedad – que instaura una dialéctica de co-existencia. La contradicción es base de la deconstrucción del ESTAR sociocultural que aliena al sujeto imponiéndole la imagen revulsiva de un SER femenino que es un NO SER. Esto permite aniquilar esta referencia impuesta como identitaria en una verdadera guerra de duras batallas sucesivamente ganadas y perdidas contra el Otro pero también, a pesar de lo afirmado desde el poema inicial (véase nota 11 y siguientes), contra sí mismo [16] . Sin embargo, en la representación discursiva de esa epopeya del SER, la articulación semántica de la contrariedad tiene también un gran poder operativo. Tal articulación, en su función dialéctica, inscribe en el texto lo interno de la percepción y de la concepción del Yo y del mundo. Y lo hace en la tensión entre los polos subcontrarios positivos /amor vs odio/ y /placer vs dolor/ que configuran la genérica articulación /vida vs muerte/ subsumidos por el principio fundamental de VIDA que define el SER y el ESTAR en su dialéctica complementariedad. La concomitante y casi permanente presencia de las articulaciones semánticas de la contradicción y de la contrariedad dan pues su especificidad al territorio poético de A. M. Rodas. 

La vehemente voluntad de evacuación del polo del NO SER pasa por la celebración del cuerpo femenino en su vital materialidad, desde el poema apertural, a modo de clave tonal: 

Tengo hígado, estómago, dos ovarios

una matriz, corazón y cerebro, más acesorios. 

Todo funciona en orden, por lo tanto, 

Río, grito, insulto, lloro y hago el amor. 

Y después lo cuento (Rodas 1973: 15)

Así contrarresta e invalida tanto la ausencia como la negación de la mujer. Esta invisibilidad que la Ley impone se da de manera recurrente, a modo de contrapunto irónico, en poemas donde se afirma el cuerpo femenino como tangible. El tercer texto de Poemas, verdadero programa de resistencia colectiva de la mujer (véanse los imperativos en primera persona del plural) ejemplifica esta estrategia por su estructura que opone a lo dado a ver conforme con lo que “quieren ellos” (estrofas 1-3) no sólo lo sencillamente vivido sino también lo imprescindiblemente vital (estrofas 2-4):

Asumamos la actitud de vírgenes.  

Así 

nos quieren ellos. 


Forniquemos mentalmente, 

suave muy suave,  

con la piel de algún fantasma. 


Sonriamos

femeninas 

inocentes. 


Y a la noche, clavemos el puñal 

y brinquemos al jardín 

abandonemos 

esto que apesta a muerte [17]. (Rodas 1973: 18)

____________________

16. Bourdieu dice: “La domination masculine, qui constitue les femmes en objets symboliques, dont l’être (esse) est un être perçu (percipi), a pour effet de les placer dans un état permament d’insécurité corporelle ou, mieux, de dépendance symbolique: elle existent d’abord par et pour le regard des autres, c’est-à-dire en tant qu’objets accueillants, attrayants, disponibles. On attend d’elles qu’elles soient “féminines”, c’est-à-dire souriantes, sympathiques, attentionnées, soumises, discrètes, retenues, voire effacées. Et la prétendue “féminité” n’est souvent pas autre chose qu’une forme de complaisance à l’égard des attentes masculines, réelles ou supposées, notamment en matière d’agrandissement de l’ego. En conséquence, le rapport de dépendance à l’égard des autres (et pas seulement des hommes) tend à devenir constitutif de leur être” (Bourdieu 1998: 73).  

17. La permanencia vehemente de tal afirmación de sí en contra del modelo impuesto reaparece en La insurección de Mariana: “No me veo a mí misma con leotardos negros / piernas de color artificial / moviéndome al compás de un piano absurdo. / No soy muñeca de porcelana antigua / con cuerda eterna y eterna sonrisa. // Amo mi carne morena, mi pelo suelto / la pesadez con que derramo amor / y el hielo suave de mi silencio / no. Afortunadamente no soy una figura frágil / de porcelana”, en Recuento.  Rodas1998: 37. 

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El poema posterior completa el programa como una etapa más en la afirmación del Yo: ya no se trata de ocultar su SER para salvaguardarlo sino de darlo a ver en su materialidad: 

Lavémonos el pelo 

Y desnudemos el cuerpo. 


Yo tengo y tú también 

hermana 

dos pechos 

y dos piernas y una vulva. 


No somos criaturas 

que subsisten con suspiros. 


Ya no sonriamos 

ya no más falsas vírgenes. 


Ni mártires que esperan en la cama 

el salivazo ocasional del macho. (Rodas 1973: 19)


Otro ejemplo de la estrategia de deconstrucción del Modelo operante en los tres poemarios lo brinda “Proyecto de monumento”: 

La Tumba de la Mujer Desconocida. 

/la mujer cosa, la única pensable/ 

se remata con una estatua de hombre 

apoyando su pie delicadamente  

sobre  

una forma  

fenenina 

envuelta en un sudario de silencio.  

Adentro de la tumba /por supuesto/ no hay nada [18]. (Rodas 1984:  217).


Así pues, el sujeto poético opone al ninguneo machista la estrategia discursiva de la saturación semántica acumulando las referencias corpóreas para proponer desde un punto de vista estrictamente femenino una geografía parcial y fragmentada del cuerpo humano, como lo prueba una rápida incursión en la isotopía /cuerpo/. El vocablo globalizador “cuerpo” –es las más de las veces, el cuerpo del sujeto femenino– se da con relativa frecuencia. Pero domina la visión fragmentada ya que la representación se focaliza en ciertas zonas corporales tanto femeninas como masculinas. Para el omnipresente cuerpo femenino se insiste en las zonas: /Cabeza/ (*“cerebro” 19, “pelo”, *“ojos”, *“boca”, *“labios”, *“lengua”, *“babas”, *“voz”,); /pecho/ (**“pecho(s)”,“pezón”); /caderas/ (*“caderas”, “ancas”), /pierna/ (“piernas”, “falda”); /vientre/ (**“vientre”, “entraña(s)”, “vísceras”, “ovarios”, “matriz”; “sexo”, “vulva”, “la vía más ancha”, “entre mis piernas”, “la zona abierta”; **“sangre”, “flujo”,“virgen”, “parir”, “salir de mi vientre”, **“hijos”, **“madre”...), a lo cual se añaden términos extensivos como “carne(s)” y sobre todo “piel”. 

La referencia a la piel, en especial la femenina, como límite y umbral, como instrumento del contacto erótico, se declina no sólo mediante la notable recurrencia del vocablo sino también por el tratamiento enfático y lírico que se reserva a esta parte del cuerpo hasta dedicarle un poema-himno (cf. infra). Ofreciendo una percepción en dúo desigual con el cuerpo femenino, la representación del cuerpo masculino se hace sin ningún tipo de proyección del imaginario femenino en el SENTIR masculino, con una concentración de las notaciones en las zonas /ojo/ /boca/ /brazo/ y, de manera espectacular, /sexo/ (*“sexo”, “testículos”, **“semen” o los equivalentes “leche”, “líquidos fluyendo”, “salivazo”). Lo cual, en varios poemas, reduce al hombre a un objeto deseable.  

La inversión de la relación hombre/mujer codificada por la sociedad machista se hace pues contraponiendo los contrarios: el cuerpo cosificado de la mujer en la visión masculina y el cuerpo habitado por un Yo que externaliza su vivencia (“Río, grito, insulto, lloro y hago el amor. // Y después lo cuento”) pasando a menudo por la recuperación de los “atributos” sémicos de la masculinidad. Así es como se suelen pervertir, por ejemplo, las articulaciones sémicas vigentes en el código sociocultural naturalizado20 de lo femenino y lo masculino tales como /dentro vs fuera/ (“brinquemos al jardín”, “cuando salgo /finalmente/ de ti”, “poseer a un hombre”, “cubierta de hombres”, etc.) y /pasividad vs actividad/ –o su corolario /dulzura vs violencia/– (“pasar mis manos”, “desnudar”, “lamer”, “atrapar tu sexo”, “masturbarse”, “fornicar”, “clavemos el puñal”). La emancipación por la inversión lleva al sujeto poético a una celebración erótica del cuerpo deseante y deseado21, hasta su más sencilla necesidad fisiológica: 

Un cuerpo es sólo eso. No tiene memoria de otro cuerpo 

ni mala conciencia

ni culpa cristiana. 

Un cuerpo es una máquina que necesita ser acelerada 

utilizada a menudo 

si 

no 

constantemente 

so peligro de que sobrevenga el deterioro. (Rodas 1984: 184)  


El acto de escribir es conciencia de ESTAR SIENDO como sujeto escribidor y la escritura es, en Poemas, presentación y representación de la dependencia a la par que objetivación y puesta a distancia reflexiva de tal dependencia. La palabra cumple su papel catártico y genésico. Sin embargo, si el texte/sexte, según la expresión de la escritora y crítica francesa H. Cixous, construye simbólicamente la emancipación del sujeto femenino y proclama su plena individuación mediante la escenificación continua de la estructura de doble y mutua exclusión, esto se hace también, como ya se dijo, integrando las dudas y los sufrimientos de esa verdadera guerra de supervivencia para el SER. La escritura de las oscilaciones del sujeto entre polo de la euforia y polo de la disforia –plenitud/desesperanza, autonomía/dependencia, rebeldía/sumisión, amar/odiar, deseo/asco, vejez aceptada/miedo a la muerte [22] –, se inscribe en el eje semántico de la contrariedad. Su coexistencia dialéctica viene a ponderar el peligro del principio erigido en sistema. El texto de A. M. Rodas, anclado en la vivencia directa, de fuerte arraigo autobiográfico, no se puede reducir ni a un panfleto feminista ni a un hueco manifiesto literario. Es la escritura de un combate vital entre la necesaria escisión que implica la conquista de la individuación y la tensión hacia una utópica unión con el Otro y con su propia circunstancia espaciotemporal. El poema/himno a la piel ya aludido ofrece un compendio de este universo poético: 

¡Cómo me gusta  

esta piel que me acompaña a todas partes! 

Hace ya algunos años 

que la llevo  


Me ha durado.  

Es buena. 

Mezcla perfecta de indio y europeo 

olorosa a pan moreno. 


Ya sé que no debiera hablar de ella 

Pero sucede que es la única que tengo. 

Me encierra toda 

Me limita y me une al universo 

Es húmeda y oscura 

Recubierta de vello. 


Algún día –estalla prematura–  

estará cubierta de arrugas 

con manchas, con despigmentaciones. 


Y cada huella será el recuerdo de estos días 

Bajo el sol, bajo los besos. 

Movediza y libre 

Bandera de este pueblo autónomo 

Que me funciona adentro. (Rodas 1973: 49) 

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18. Años más tarde en el disfórico poemario Fin de los mitos y de los sueños, leemos: “Mausoleo silencioso / que se para en dos piernas / usa bikini / anteojos oscuros de playa. / Ataúd inmenso / a veces detiene su automóvil y llora.” (Rodas 1984: 221).

19. El asterisco indicará la frecuencia más o menos alta de aparición del término. 

20 “Les apparences biologiques et les effets bien réels qu’a produits, dans les corps et les cerveaux, un long travail collectif de socialisation du biologique et de biologisation du social se conjuguent pour renverser la relation entre les causes et les effets et faire apparaître une construction sociale naturalisée (les « genres » en tant qu’habitus sexués) comme le fondement en nature de la division arbitraire qui est au principe et de la réalité et de la représentation de la réalité […]” (Bourdieu 1998: 9). 

21. De eso da cuenta la amplitud del espectro léxico-retórico y de los registros lingüísticos dedicados al deseo y al acto amoroso: “cálido”, “calor”, “fiebre”, “jungla tropical”, “sudor”, “erizamiento”, “estar hambrienta/o”, “comer”, “chupar dulces”, “cópula”, “apareo”, “combate en la almohada”, “sábana tibia”, “suave almohada”, “deshacer camas”, “navegar vientres”, “hundirse”, “Crecer dentro de mí”, “ráfagas de balas indoloras”... 

22. Véanse estos dos fragmentos como una ilustración de esta tensión de la percepción del tiempo en el eje semántico /vida vs muerte/: “El tiempo está en mí aportando / las calidades que busco diariamente” (Rodas 1975: 103) vs “Soy niña de repente / y me doy la mano a mí misma y me consuelo / explicándome / que no es cierto / que uno pueda vivir muriendo [...]” (Rodas 1975: 109). 


Bibliografía 

-ACEVEDO, Anabella / TOLEDO, Aída (ed.) (1998): Para conjurar el sueño, Poetas guatemaltecas de la siglo XX, Antología. Guatemala: Universidad Rafael Landívar. 

-BEVERLEY, John (2002): Prólogo, en ACHÚGAR, Hugo / BEVERLEY, John, La voz del otro. Guatemala: Universidad R. Landívar. 

-BOURDIEU, Pierre (1998): La domination masculine. Paris: Seuil. 

-CAZALI, Rosina (2002): “Poemas de la izquierda erótica, 30 años después”, en la Cuerda, Año 5, núm. 44.  

-LIANO, Dante (1997): Visión crítica de la literatura guatemalteca. Guatemala: Ed. U. San Carlos de Guatemala. 

-MÉNDEZ DE PENEDO, Lucrecia (1999-2000): Estrategias de la subversión: poesía femenista guatemalteca contemporánea. Istmica. 

-NAUDIER, Delphine (2001/4): “L’écriture-femme, une innovation esthétique emblématique, 

en Littératures et identités”, en Sociétés contemporaines, núm. 44, 2001/4, pp. 57-73. 

-PAILLER, Claire (2001): “La reivindicación del sexo en la poesía de mujeres de 

Centroamérica”, en RENAUD, Maryse (coord.), La mujer en la república de las 

letras. Poitiers: CRLA/Archivos, pp. 109-123. 

-RODAS, Ana María (1993): La Insurrección de Mariana. Guatemala: Ed. del Cadejo. 

-RODAS, Ana María (1998): Recuento. Guatemala: La Ermita / Óscar de León Palacios (eds.). 

-RODAS, Ana María (2002): “La izquierda erótica”, en CAZALI, Rosina (ed.), Poemas de la izquierda erótica, 30 años después, en la Cuerda, Año 5, núm. 44.  

-RODAS, Ana María (2004): Poemas de la izquierda erótica (trilogía). Guatemala: Piedra Santa Editorial. 

-TOLEDO, Aída (ed.) (2004): “Feminismo y subversión en los setenta en Guatemala: Poemas de la izquierda erótica, historia de un libro”, en Desde la zona abierta. Guatemala: Palo de Hormigo, pp. 131-144.

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ALGO ASÍ COMO A LA IZQUIERDA ERÓTICA: LEITURAS DA POESIA E DO 

FEMINISMO EM ANA MARÍA RODAS A PARTIR DO BRASIL 

Bruna Paiva da Costa, Tese de mestrado, Rio de Janeiro 

Maio de 2023 - UFRJ 



segunda-feira, 20 de julho de 2026

Copa 2026 de futebol masculino na TV, no YouTube e streaming

Final da Copa do Mundo eleva audiência de Globo e SBT; CazéTV consegue 20,9 milhões

. Espanha e Argentina jogaram neste domingo (19) e finalizaram Mundial de seleções

. Everaldo Marques, Galvão Bueno e Luis Felipe Freitas narraram a partida em seus canais

Lamine Yamal na final da Copa do Mundo 2026 - Hannah McKay/Reuters

Gabriel Vaquer, fsp, 19.06.2026

Aracaju - A final da Copa do Mundo entre Espanha e Argentina elevou os índices de audiência da Globo e do SBT neste domingo (19.7.2026). A última partida do torneio também deu um bom resultado para a CazéTV, que voltou a ficar acima dos 20 milhões de acessos.

Segundo dados prévios obtidos pela coluna, a Globo alcançou 27 pontos (5,373 milhões) de média na Grande São Paulo, chegando a picos de 30 (5,970 mi) pontos. Enquanto isso, o SBT registrou 7 pontos (1,393 mi), com picos de 9 (1,791 mi). Cada ponto equivale a 199 mil telespectadores na capital paulista.

Confira imagens dos shows de encerramento da Copa do Mundo 2026

Como informou a coluna, a competição registrou um aumento tímido, porém relevante, de público na TV aberta em comparação ao Mundial de 2022. Somando-se as médias de 17 pontos da Globo e de 6 do SBT, o torneio chegou 23 pontos.

O número representa um crescimento de 5% em relação à média de 22 pontos de 2022, quando foi exibido com exclusividade pela Globo em 2022. Contudo, ao isolar o desempenho da Globo nas duas edições, houve uma queda de 22% na audiência média da emissora.

Com o encerramento do Mundial, a Globo e a CazéTV já negociam com a Fifa a compra dos direitos de transmissão da Copa de 2030, com expectativa de conclusão ainda neste semestre.

Apesar de não ser o recorde do torneio, os números ficaram bem acima da audiência habitual dos dois canais na TV aberta. A Globo costuma dar 16 pontos no horário, enquanto o SBT geralmente fica com 5 pontos. É possível que os números subam quando o Ibope divulgar o consolidado.

Na CazéTV, a partida atraiu 20,9 milhões de aparelhos simultâneos. A partida entrou no pódio de mais assistidas da Copa 2026 no canal. Só perde para a semifinal entre França x Espanha, que bateu o recorde de maior transmissão ao vivo do YouTube, com 24,2 milhões de acessos, e para a quarta de final entre Noruega x Inglaterra, com 21,1 milhões.

A narração da final ficou a cargo de Everaldo Marques na Globo, de Galvão Bueno no SBT e de Luís Felipe Freitas na CazéTV.

Como informou a coluna, a competição registrou um aumento tímido, porém relevante, de público na TV aberta em comparação ao Mundial de 2022. Somando-se as médias de 17 pontos da Globo e de 6 do SBT, o torneio chegou 23 pontos (4,577 mi).

O número representa um crescimento de 5% em relação à média de 22 pontos de 2022, quando foi exibido com exclusividade pela Globo em 2022. Contudo, ao isolar o desempenho da Globo nas duas edições, houve uma queda de 22% na audiência média da emissora.

Com o encerramento do Mundial, a Globo e a CazéTV já negociam com a Fifa a compra dos direitos de transmissão da Copa de 2030, com expectativa de conclusão ainda neste semestre.

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“Globo” e “SBT” concentram 90% do público da Copa, diz Ibope 

A TV aberta é responsável por 122,7 milhões de espectadores dos 136,6 milhões que assistiram ao torneio.

PODER360 26.06.2026 (sexta-feira) 

A rede Globo (TV Globo, sportv, Ge TV) e o SBT concentraram 90% dos telespectadores que assistiram à Copa do Mundo de 2026, segundo dados do Ibope, obtidos pela Lance! e pelo F5. Somadas, as duas redes de televisão aberta obtiveram 122,7 milhões de espectadores, dos 136,6 milhões.

Só a Globo, com todos os seus canais, concentrou 85% do público, com 116,2 milhões de pessoas. Desses, 41,3 milhões acompanharam exclusivamente pela rede de televisão. O SBT obteve 7% do total, enquanto a CazéTV conseguiu 8%. O levantamento indica, no entanto, que o sistema do Ibope não mede dispositivos móveis, como smartphones.

Em comparação com a Copa do Mundo de 2022, o Ibope diz que houve uma retração de 13% no total de espectadores, por causa da difusão das transmissões dos jogos entre a Globo, o SBT e a CazéTV. No mesmo período da Copa no Catar, houve um total de 141 milhões de telespectadores.

A Globo obteve a maior audiência nos 20 jogos com maior número de pessoas assistindo. A rede marcou 34 pontos no jogo da seleção brasileira contra a do Haiti, em 19 de junho.

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July 8 at 6:01 PM 

A audiência da Globo na Copa do Mundo caiu 2% 3em relação a 2022. Ainda assim, o Mundial de 2026 registrou o maior alcance da história entre os brasileiros.

A explicação está na mudança dos hábitos de consumo. Enquanto a TV aberta perdeu espaço, o streaming bateu recordes de audiência. A CazéTV mais que triplicou o número de dispositivos conectados em relação à última Copa, e os jogos do Brasil alcançaram um público total superior ao do Mundial do Catar quando somados TV e plataformas digitais.

O que esses números revelam sobre o futuro das transmissões esportivas e do mercado publicitário? Entenda na análise completa.

Acompanhe a Copa do Mundo na #EXAME! Produção e roteiro: Ale Salvador e Laura Pancini Edição: Guilherme Rizzatto Captação: Grazi Garcia

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A VITÓRIA É DO BRASIL. E O PÚBLICO É DA GLOBO! 

Enquanto a Seleção deu um show em campo, as plataformas Globo deram um show de alcance: os dados auditáveis do IBOPE mostram que 56 MILHÕES de pessoas acompanharam o jogo do Brasil nas plataformas Globo, superando em +229% a emissora aberta B e em +240% o streaming C.

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Audiência da Globo, SBT e CazéTV com o jogo do Brasil

A vitória do Brasil sobre o Haiti rendeu os maiores índices da Copa do Mundo de 2026 até agora na Grande São Paulo.

A Globo liderou com 32,16 pontos de média e pico de 34 pontos, com 49,05% dos televisores ligados. O SBT registrou 7,96 pontos de média na prévia, com projeção de consolidação acima de 11 pontos.

Já a CazéTV e plataformas de streaming somaram 12,80 pontos e bateram recorde histórico, com 16 milhões de dispositivos conectados simultaneamente.

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Classificação final da Copa do Mundo de 2026  

1º Espanha

2º Argentina

3º Inglaterra

4º França

5º Noruega

6º Bélgica

7º Marrocos

8º Suíça

9º México

10º Colômbia

11º Brasil

12º Estados Unidos

13º Portugal

14º Canadá

15º Egito

16º Paraguai

17º Holanda

18º Alemanha

19º Costa do Marfim

20º Croácia

21º Japão

22º Austrália

23º RD Congo

24º Gana

25º Equador

26º África do Sul

27º Suécia

28º Áustria

29º Bósnia

30º Argélia

31º Senegal

32º Cabo Verde

33º Irã

34º Coreia do Sul

35º Turquia

36º Escócia

37º Uruguai

38º Arábia Saudita

39º Tchéquia

40º Nova Zelândia

41º Catar

42º Curaçao

43º Panamá

44º Jordânia

45º Haiti

46º Uzbequistão

47º Tunísia

48º Iraque


sábado, 18 de julho de 2026

Freud no futebol

Nelson Rodrigues

Um amigo meu que foi aos Estados Unidos informa que, lá, todo mundo tem o seu psicanalista. O psicanalista tornou-se tão necessário e tão cotidiano como uma namorada. E o sujeito que, por qualquer razão eventual, deixa de vê-lo, de ouvi-lo, de farejá-lo, fica incapacitado para os amores, os negócios e as bandalheiras. Em suma: — antes de um desses atos gravíssimos, como seja o adultério, o desfalque, o homicídio ou o simples e cordial conto-do vigário, a mulher e o homem praticam a sua psicanálise. 

O exemplo dos Estados Unidos leva-me a pensar no Brasil ou, mais exatamente, no futebol brasileiro. De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: — já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável. 

A torcida, a imprensa e o rádio dão importância a pequeninos e miseráveis acidentes. Por exemplo: — uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocuparia de uma dor-de-cotovelo que viesse acometer um jogador e incapacitá-lo para tirar um vago arremesso lateral. Vejam vocês: há uma briosa e diligente equipe médica, que abrange desde uma coriza ordinaríssima até uma tuberculose bilateral. Só não existe um especialista para resguardar a lancinante fragilidade psíquica dos times. Em conseqüência, o jogador brasileiro é sempre um pobre ser em crise. 

Para nós, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais. Basta lembrar o que foi o jogo Brasil x Hungria*, que perdemos no Mundial da Suíça. Eu disse “perdemos” e por quê? Pela superioridade técnica dos adversários? Absolutamente. Creio mesmo que, em técnica, brilho, agilidade mental, somos imbatíveis. Eis a verdade: — antes do jogo com os húngaros, estávamos derrotados emocionalmente. Repito: — fomos derrotados por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. Por que esse medo de bicho, esse pânico selvagem, por quê? Ninguém saberia dizê-lo. 

E não era uma pane individual: — era um afogamento coletivo. Naufragaram, ali, os jogadores, os torcedores, o chefe da delegação, a delegação, o técnico, o massagista. Nessas ocasiões, falta o principal. Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha e perde as partidas é a alma. Foi a nossa alma que ruiu face à Hungria, foi a nossa alma que ruiu face ao Uruguai. 

E aqui pergunto: — que entende de alma um técnico de futebol? Não é um psicólogo, não é um psicanalista, não é nem mesmo um padre. Por exemplo: — no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que um Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Nos Estados Unidos, não há uma Bovary, uma Karenina que não passe, antes do adultério, no psicanalista. Pois bem: — teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse frequentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista. 

Sim, amigos: — havia um comissário de polícia, que lia muito X-9, muito Gibi. Para tudo o homem fazia o comentário erudito: — “Freud explicaria isso!”. Se um cachorro era atropelado, se uma gata gemia mais alto no telhado, se uma galinha pulava a cerca do vizinho, ele dizia: — “Freud explicaria isso!”. Faço minhas as palavras da autoridade: — só um Freud explicaria a derrota do Brasil frente à Hungria, do Brasil frente ao Uruguai e, em suma, qualquer derrota do homem brasileiro no futebol ou fora dele. 

________________

*Hungria 4 x 2 Brasil, 27/6/1954, em Berna. Uruguai 2 x 1 Brasil, 16/7/1950, no 

Maracanã. 

[Manchete Esportiva, 7/4/1956] 


À SOMBRA DAS  CHUTEIRAS IMORTAIS 

Crônicas de futebol 

Seleção e notas:  RUY CASTRO 

3ª reimpressão 






FOTONelson

terça-feira, 14 de julho de 2026

Aaron Swartz e o acesso aberto ao conhecimento

O legado de Aaron Swartz: uma cronologia de suas contribuições à Ciência da Informação para o Acesso Aberto 

Fabiano Couto Corrêa da Silva¹

RDBCI| Campinas, SP | v.21| e023028 | 2023 

Artigo submetido ao sistema de similaridade  Submetido em: 18/04/2023 – Aceito em: 02/08/2023 – Publicado em: 19/12/2023

RESUMO 

Introdução: Este artigo celebra o legado de Aaron Swartz na luta pela  ciência aberta e revisa sua influência como ativista na revolução do acesso aberto na publicação acadêmica no ano em que completa 10 anos desde sua morte (1986-2013). Objetivo: O objetivo é analisar como as iniciativas lideradas por Swartz ainda impulsionam a revolução do acesso aberto na publicação acadêmica. Metodologia: A metodologia empregada consistiu em revisar a literatura de estudos e textos publicados por Aaron Swartz, bem como de autores que mencionavam seus projetos. Essa análise abrangeu o período em que ele atuava no desenvolvimento de iniciativas e soluções voltadas para o acesso aberto à comunicação científica. Resultados: Os resultados mostram que o seu legado inspirou a criação de infraestruturas e políticas que impulsionam o acesso gratuito a uma significativa parte da literatura científica mundial. 

Conclusão: A conclusão ressalta a relevância da perspectiva inovadora de Swartz no combate pela ciência aberta e a urgência de um modelo mais justo e duradouro para a publicação acadêmica. O texto analisa as principais ações originadas do ativismo de Swartz, que estão possibilitando progressos consideráveis na batalha pela ciência aberta e o acesso irrestrito ao conhecimento científico.

1. INTRODUÇÃO 

Aaron Swartz (1986-2013) foi um programador, ativista e defensor da ciência aberta deixou um legado na forma como lidamos com a informação e com o conhecimento. Neste , apresentamos uma cronologia das suas contribuições, destacando os períodos e realizações que exercem influência no campo da ciência da informação em decorrência das suas iniciativas na promoção do acesso aberto. Swartz desempenhou um papel importante na conscientização sobre os desafios enfrentados pelos profissionais da informação na era digital. Ao mesmo tempo, incentivou a comunidade acadêmica e científica a repensar os modelos tradicionais de publicação e compartilhamento de conhecimento (Bohannon, 2016). 

Como resultado, sua visão e esforços inspiraram uma geração de bibliotecários, cientistas da informação e ativistas a implantar soluções para a gestão e disseminação do conhecimento em acesso aberto. Ele compreendia que o problema com as editoras e a utilização de paywalls - sistemas que restringem o acesso a conteúdos online, como artigos científicos e notícias, exigindo pagamento ou assinatura para visualizá-los - é multifacetado e possui consequências amplas e profundas. Ele percebia que as restrições financeiras limitam o avanço científico, já que pesquisadores e estudantes sem recursos suficientes ficam impossibilitados de acessar trabalhos fundamentais em suas áreas de estudo. Isso resulta na exclusão de talentos promissores e prejudica a colaboração entre cientistas, reduzindo a eficiência na resolução de problemas globais complexos (Davis, 2016). 

Além disso, o modelo de paywalls perpetua desigualdades no campo acadêmico, favorecendo as instituições e pesquisadores mais ricos, enquanto limita o progresso dos menos favorecidos. Isso cria um ciclo vicioso, em que as instituições com maior acesso ao conhecimento continuam a prosperar, enquanto aquelas com acesso limitado ficam cada vez mais para trás (Björk, 2017). 

O sistema de paywalls também dificulta o acesso do público em geral ao conhecimento científico, o que pode gerar desconfiança em relação à ciência e impedir a conscientização e a educação sobre questões importantes. Essa falta de acesso também pode afetar políticas públicas, já que tomadores de decisão podem não ter acesso às informações científicas mais atualizadas e relevantes (Davis, 2016). 

Ao confrontar essas barreiras e lutar pela democratização do conhecimento, Swartz deixou um legado de combate às práticas abusivas das editoras e de transformação do sistema de publicações acadêmicas. Swartz até mesmo arriscou seu futuro e sua liberdade pessoal na luta pelo acesso aberto. Suas tentativas para disponibilizar artigos do JSTOR, um repositório digital que armazena milhões de artigos acadêmicos, levaram à sua prisão e, posteriormente, ao seu suicídio em 2013. 

Ele enfrentou ações legais iniciadas pelo próprio JSTOR e pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) por violação de direitos autorais e acesso não autorizado aos sistemas de computadores. No entanto, o JSTOR acabou retirando as acusações, enquanto o MIT e a procuradoria federal dos EUA continuaram o processo. Embora ele não tenha atingido seus objetivos específicos, seus esforços funcionaram como um catalisador para o movimento de acesso aberto, incentivando outros a prosseguir com a causa (Peters, 2016). 

Um exemplo dessa inspiração é sua influência em bibliotecas que se tornaram mais conscientes da necessidade de democratizar o acesso ao conhecimento, abraçando iniciativas digitais e desafiando modelos tradicionais de propriedade intelectual por meio de plataformas online que disponibilizam gratuitamente uma significativa parte da literatura científica mundial, permitindo que pesquisadores e interessados tenham acesso irrestrito a artigos e publicações acadêmicas.  

À medida que os cancelamentos de assinaturas por universidades e instituições de pesquisa aumentam, os editores enfrentam um dilema: adaptar-se ou desaparecer. Modelos alternativos incluem financiamento de acesso aberto por financiadores ou instituições de, ou um modelo cooperativo em que universidades e instituições gerenciam o processo de publicação como organizações sem fins lucrativos. 

O legado deixado por Swartz e a sua influência impulsionam a revolução do acesso aberto, levando-nos a um futuro mais justo e sustentável nas publicações acadêmicas. A contribuição de Swartz neste empreendimento foi fundamental e neste artigo, queremos recordar sua dedicação como defensor do acesso aberto e visão transformadora que mudou o rumo das publicações acadêmicas. Além disso, exploraremos como estamos avançando em direção a um mundo em que o conhecimento científico esteja livremente disponível. 

Ao discutir a ciência aberta neste estudo, é fundamental esclarecer o conceito que está sendo utilizado. O termo ciência aberta possui uma abrangência maior comparado ao de acesso aberto, pois não se restringe apenas à publicação de trabalhos acadêmicos. Trata-se de um conjunto diversificado de práticas e estratégias que buscam democratizar e trazer transparência ao processo científico. Isto engloba a participação da sociedade na ciência, a disponibilização de dados, a estrutura de software e infraestrutura de acesso público, a transparência em cadernos de laboratório, a avaliação aberta de pesquisas e o compartilhamento de recursos educacionais, outros aspectos.  

A concepção de ciência aberta que adotamos aqui está fortemente atrelada à Recomendação da UNESCO sobre Ciência Aberta de 2021, um documento que surgiu de uma extensa consulta pública e discussão internacional, com o intuito de estabelecer uma visão unificada do que é a ciência aberta. É importante destacar que, apesar da atuação de Swartz estar mais explicitamente ligada ao acesso aberto, seu ativismo gerou reverberações mais amplas, impactando diversas áreas do movimento da ciência aberta. 

É essencial enfatizar que o impacto significativo de Swartz no progresso do acesso aberto e da ciência aberta não ocorreu no vácuo. Seu ativismo, embora influente, foi apenas uma parte de uma rede mais ampla de atores e fatores inter-relacionados. Pesquisadores, bibliotecários, instituições acadêmicas, agências financiadoras, legisladores, e outros grupos de interesse tiveram e continuam a ter papéis fundamentais no avanço e consolidação do acesso aberto e da ciência aberta. O trabalho de Swartz foi inserido dentro de um contexto maior de esforços coletivos e iniciativas interligadas. 

Dessa forma, ao considerarmos a contribuição de Swartz, precisamos também reconhecer e valorizar a complexa teia de interações que compõem o movimento de acesso aberto. Isso implica não apenas identificar ações individuais, mas também compreender as dinâmicas estruturais e contextuais que facilitaram e permitiram o impacto dessas ações. É nesse cenário complexo e multifacetado que a influência de Swartz deve ser enquadrada e é nele que futuras pesquisas podem buscar novas perspectivas para entender melhor o progresso do acesso aberto e da ciência aberta.

1.1 Percurso metodológico 

A metodologia adotada nesta pesquisa consiste em um levantamento bibliográfico-documental fundamentado em revisão de literatura, abrangendo estudos sobre a biografia de Swartz, assim como pesquisas relevantes realizadas em universidades e instituições de pesquisa globais.  Para a análise dos dados coletados, foi empregada uma abordagem qualitativa, organizando-os em categorias temáticas que destacam as contribuições mais significativas e desafios enfrentados por Swartz no campo do acesso aberto à pesquisa acadêmica. Isso inclui considerações sobre aspectos inerentes à disseminação livre de conhecimento científico e acadêmico. A revisão de literatura foi conduzida na base Web of Science em 20 de fevereiro de 2023, utilizando a busca pelo nome de Aaron Swartz. 

Após a revisão da literatura, é apresentado um quadro que sintetiza os principais projetos relacionados à aplicação de recursos para promover o acesso aberto em que Swartz participou. 

Essa metodologia é orientada por trabalhos acadêmicos, como os de Gil (2010) e Silva e Menezes (2005), com o objetivo de revelar o legado de Swartz na promoção do acesso aberto e situar suas contribuições dentro do contexto mais amplo do movimento de acesso aberto na pesquisa acadêmica atual.

2. REPENSANDO AS PUBLICAÇÕES ACADÊMICAS 

A publicação acadêmica é um sistema intrigante no qual pesquisas financiadas pelo público frequentemente são restringidas, com direitos autorais transferidos para corporações como Elsevier e Springer (Larivière; Haustein; Mongeon, 2015). Elas lucram enormemente com esse modelo, enquanto o acesso ao público, que essencialmente financia a pesquisa, é negado (Fuchs; Sandoval, 2013). Muitos pesquisadores reconhecem essa injustiça, mas continuam a publicar em prestigiosas revistas pagas para promover suas carreiras (Esteves, 2020), perpetuando o sistema. 

No atual sistema de publicação acadêmica, os pesquisadores, as instituições e os financiadores desempenham papéis cruciais e estão interconectados (Larivière; Haustein; Mongeon, 2015). Para buscar alternativas mais justas e sustentáveis, é necessário abordar o papel de cada um desses atores nesta dinâmica. 

Os pesquisadores muitas vezes se veem pressionados a publicar em revistas de prestígio para avançar em suas carreiras acadêmicas e garantir financiamento para suas pesquisas. Essa pressão para publicar pode perpetuar o sistema atual de acesso restrito. Pesquisadores podem buscar alternativas mais justas, considerando a publicação em revistas de acesso aberto , divulgando pré-prints e utilizando repositórios institucionais (Abadal, 2012). Além disso, os podem se envolver em discussões sobre políticas de acesso aberto e direitos autorais, defendendo mudanças no sistema. 

As instituições acadêmicas são frequentemente medidas pelo impacto das pesquisas produzidas por seus membros (Abadal, 2012). Isso cria um incentivo para que os pesquisadores publiquem em revistas de alto prestígio, mesmo que não sejam de acesso aberto. As instituições podem adotar políticas de acesso aberto, incentivando seus membros a publicarem em revistas com essa filosofia e disponibilizar suas pesquisas em repositórios institucionais (Cafe, et al. 2022). Além disso, podem revisar seus critérios de avaliação de pesquisadores e departamentos, levando em consideração não apenas o prestígio das revistas, mas também o compromisso com a disseminação do conhecimento de forma aberta e acessível. 

Os financiadores de pesquisa, como agências governamentais e fundações privadas, têm um papel crucial na promoção do acesso aberto. Eles podem exigir que os resultados das pesquisas financiadas sejam publicados em revistas de acesso aberto ou disponibilizados em repositórios públicos. Desse modo, os financiadores podem apoiar iniciativas de acesso aberto fornecendo recursos para o desenvolvimento e a manutenção de repositórios, plataformas e infraestruturas de acesso aberto (Nazim et al. 2022). 

Ao abordar o papel de cada um desses atores e promover a colaboração entre eles, é possível buscar alternativas mais justas e sustentáveis no âmbito das publicações acadêmicas. O objetivo final é garantir que o conhecimento científico seja amplamente acessível e que os benefícios das pesquisas financiadas pelo público sejam compartilhados com a sociedade como um todo. 

Além disso, a promoção de um sistema de acesso aberto demanda uma transformação cultural expressiva no meio acadêmico. De acordo com Radicchi, et al (2013), a cultura de publicar em periódicos de grande impacto está profundamente arraigada, e os cientistas frequentemente se preocupam mais com sua reputação do que com a disseminação do saber para a sociedade como um todo. Essa perspectiva é corroborada por outros estudiosos, que argumentam que os pesquisadores são prisioneiros de sua própria vaidade acadêmica, optando por publicar em revistas prestigiosas para conquistar mais reconhecimento em vez de contribuir para a democratização do conhecimento (Manan, 2023 et. al.). 

Por outro lado, instituições de pesquisa e financiadores também têm um papel importante a desempenhar nessa dinâmica. Segundo Ross-Hellauer, et al. (2022), a política de acesso aberto deve ser considerada uma política pública, o que implica em um compromisso dos governos e agências de fomento, que são os principais financiadores da pesquisa científica, em garantir o acesso gratuito e irrestrito aos resultados da pesquisa. Dessa forma, é importante que essas instituições adotem políticas claras e atuem como líderes na promoção do acesso aberto.

3. A LUTA PELO ACESSO ABERTO  

Dentro da esfera da publicação acadêmica, Swartz defendia ardorosamente que o conhecimento científico deveria ser de fácil acesso e compartilhado com a sociedade em geral. No entanto, ele criticava a existência de paywalls e do sistema de acesso restrito, que aprisionam pesquisas financiadas pelo público atrás de direitos autorais transferidos para grandes corporações. Para Swartz, este sistema era profundamente injusto, pois o público financia a pesquisa, mas lhe é negado o acesso (Swartz, 2008). 

Além disso, Swartz também enfatizava o papel crucial dos pesquisadores em promover uma mudança no sistema de publicação acadêmica. Ele instigava os pesquisadores a disponibilizar suas pesquisas gratuitamente e a adotar a filosofia de acesso aberto. Segundo Peters (2016, p. 38) em seu livro "The Idealist: Aaron Swartz and the Rise of Free Culture on the Internet", Swartz afirmava: "Se você tem uma opinião sobre como o mundo deveria ser, você tem que fazer o que puder para mudá-lo". Esse esforço implicava em publicar em revistas de acesso aberto e defender políticas de acesso aberto (Peters, 2016). 

Por outro lado, Swartz tinha plena consciência do potencial das instituições em catalisar mudanças. Em uma palestra em 2008, ele afirmou que "as universidades poderiam mudar tudo simplesmente se recusando a assinar contratos de licença de acesso exclusivo" (Swartz, 2008). Ele defendia que as instituições deveriam adotar políticas de acesso aberto e incentivar seus pesquisadores a publicar em revistas de acesso aberto. 

Swartz, por fim, também reconhecia a influência dos financiadores de pesquisa na promoção do acesso aberto. No seu artigo "Who Writes Wikipedia?", ele escreveu que "os governos poderiam economizar bilhões de dólares se exigissem que a pesquisa que financiam seja disponibilizada abertamente na internet" (Swartz, 2006). Defendia, assim, que os financiadores deveriam exigir o acesso aberto às pesquisas financiadas e apoiar iniciativas de acesso aberto. 

Aaron Swartz era, sem dúvida, um pioneiro e visionário, símbolo de uma luta global pela liberdade de informação. Seus valores e trabalho foram moldados através de diálogos intensos com uma variedade de intelectuais e ativistas em todo o mundo. Essas interações não apenas elucidam as demandas de sua época, mas também continuam a lançar luz sobre a influência duradoura de suas ideias nas agendas atuais de ciência aberta e acesso aberto. 

Uma dessas personalidades influentes foi Lawrence Lessig, jurista, professor em Harvard e fundador da Creative Commons. Lessig e Swartz compartilhavam a crença de que a informação deveria ser livre e acessível. Swartz ajudou Lessig a criar a Creative Commons, uma organização que desenvolveu licenças permitindo aos criadores compartilhar suas obras de maneira mais livre. As interações de Swartz com Lessig fornecem uma visão mais profunda de suas fortes convicções sobre a liberdade de informação e como essas convicções foram aplicadas na prática (Lessig, 2013). 

Ademais, outro personagem importante foi Tim Berners-Lee, o inventor da World Wide Web. Berners-Lee era um defensor da Internet como uma plataforma aberta e gratuita. O alinhamento das visões de Swartz e Berners-Lee nos dá uma perspectiva sobre o potencial disruptivo da Internet e seu papel na democratização do acesso à informação (Berners-lee, 1999; Doctorow, 2013). 

O ativista e escritor John Perry Barlow também teve papel influente. Barlow é conhecido por seu papel como co-fundador da Electronic Frontier Foundation (EFF, 2023), uma organização líder na defesa dos direitos civis na era digital, e por seu ensaio "A Declaration of the Independence of Cyberspace" (Barlow, 1996), um texto seminal no campo dos direitos digitais. 

Embora não haja evidências públicas de uma interação direta entre Barlow e Aaron Swartz, as convicções firmes de Barlow sobre a liberdade de expressão e informação ressoam com as crenças e ações de Swartz. Ele era um defensor proeminente do acesso aberto à informação e acreditava na necessidade de resistir ao controle excessivo e ao monopólio da informação. 

Outra personalidade importante foi Cory Doctorow, co-fundador do site Boing Boing e defensor da liberdade na web. Juntos, Doctorow e Swartz desafiaram controles restritivos e monopólios de informação, promovendo o acesso aberto e a liberdade de informação (Doctorow, 2013). 

Peter Suber e Brewster Kahle são duas figuras notáveis que desempenharam um papel importante no movimento de acesso aberto, alinhando-se com muitos dos ideais e esforços de Aaron Swartz. Suber é conhecido como um dos principais defensores do acesso aberto, a ideologia que defende a acessibilidade livre e irrestrita à pesquisa acadêmica e outros materiais educacionais (Suber, 2012). 

Brewster Kahle, por sua vez, é o fundador do Internet Archive, uma organização sem fins lucrativos que oferece acesso gratuito a uma grande coleção digital de sites, livros, software, música, entre outros. Ambos, Suber e Kahle, têm se dedicado a continuar e expandir o trabalho iniciado por Swartz, ajudando a preservar e promover o legado de Swartz no movimento de acesso aberto. 

Finalmente, é importante ressaltar que os ideais e o ativismo de Aaron Swartz não estavam isolados, mas em forte sintonia com os princípios defendidos por outras figuras importantes do movimento pelo acesso aberto e pela liberdade de informação na Internet. Nesse sentido, suas interações e trocas de ideias com essas personalidades foram fundamentais para consolidar e expandir seus esforços, deixando uma marca indelével no campo da informação aberta e da cultura livre. 

4. DESAFIANDO BARREIRAS E TRANSFORMANDO A PUBLICAÇÃO ACADÊMICA 

Swartz teve um papel importante no desenvolvimento do RSS (Really Simple Syndication), um formato de feed de notícias amplamente utilizado na web, que permite que os usuários recebam atualizações de conteúdo de um site de maneira automatizada. Em 2001, quando ainda era adolescente, começou a trabalhar em um projeto de software chamado Infogami, que tinha como objetivo permitir que as pessoas criassem e editassem páginas da web de maneira colaborativa. Foi durante esse período que ele se envolveu com o RSS (Peters, 2016).

Em seu blog, denominado Raw Thought, Swartz (2002), onde discutia uma variedade de tópicos, incluindo tecnologia e acesso aberto, escreveu sobre suas ideias para melhorar o RSS, que na época era um formato relativamente novo e ainda não havia sido adotado em larga escala. Em 2002, ele lançou um projeto chamado RSS 1.0+, que tinha como objetivo adicionar recursos ao formato RSS existente, como suporte para imagens e outros tipos de mídia. Esse projeto não foi adotado em larga escala, mas Swartz continuou trabalhando no desenvolvimento do RSS. 

Em 2003, Swartz trabalhou com outros desenvolvedores para criar o RSS 2.0, que se tornou o padrão de fato para o formato RSS. Ele escreveu a documentação para o RSS 2.0 e foi responsável por muitas das características do formato, incluindo a capacidade de incluir informações de autoria e data de publicação em um feed RSS (Airwa, 2013). 

O trabalho de Swartz no desenvolvimento do RSS ajudou a popularizar o formato e torná-lo uma parte fundamental da web moderna. Como ele escreveu em um post no seu blog em 2006: "O RSS é a espinha dorsal da web. Ele permite que as pessoas se conectem, compartilhem informações e ideias, e construam comunidades online." 

Swartz também exerceu um papel fundamental no desenvolvimento do Creative Commons, uma organização sem fins lucrativos dedicada a fornecer licenças de direitos autorais flexíveis para obras criativas (Airwa, 2013). 

Começou a trabalhar no Creative Commons em 2004, desempenhando um papel fundamental na elaboração das licenças que proporcionam aos autores uma maneira revolucionária de compartilhar suas obras de forma mais aberta e acessível, preservando, no entanto, alguns direitos autorais. Ele trabalhou no código e na infraestrutura do site, e também foi responsável por criar uma ferramenta chamada CC Publisher, que permitia que as pessoas adicionassem facilmente licenças Creative Commons a suas obras (Lamothe, 2013). 

Também foi um defensor ativo do Creative Commons e de sua missão de promover a cultura livre e a criatividade aberta. Ele acreditava que o sistema de direitos autorais tradicional estava inibindo a inovação e a criatividade, e que o Creative Commons poderia ajudar a mudar isso. Em um post no seu blog em 2004, ele escreveu: "O Creative Commons é uma ideia poderosa, uma ferramenta para democratizar a cultura e a informação" (Swartz, 2016). 

Além de ser conhecido por sua luta pelo acesso aberto ao conhecimento, também teve um papel importante como co-fundador do Reddit, uma das maiores plataformas de compartilhamento de conteúdo e discussões na Internet (Lamothe, 2013). O Reddit, fundado em 2005, incorporou o projeto de Swartz chamado Infogami, uma plataforma de criação de sites wiki, resultando na fusão de suas ideias e esforços (Huffman; Ohanian, 2014). 

Enquanto trabalhava no Reddit, teve um papel significativo no desenvolvimento da plataforma e contribuiu para sua expansão e popularidade (Lamothe, 2013). Sua visão de compartilhamento de informações e criação de comunidades online alinhava-se perfeitamente com os objetivos do Reddit, que se tornou um espaço onde as pessoas podem compartilhar e discutir ideias, notícias e informações de uma ampla variedade de tópicos. 

Apesar de sua breve passagem pelo Reddit, seu papel como co-fundador da plataforma é um testemunho de seu compromisso com a disseminação do conhecimento e a criação de espaços abertos para discussões e aprendizado (Huffman; Ohanian, 2014). Seu legado continua a ser lembrado e celebrado, tanto no contexto do acesso aberto à pesquisa acadêmica quanto no desenvolvimento de plataformas online que promovem a troca de informações e a construção de comunidades. 

Swartz deseempenhou um papel importante no desenvolvimento da Open Library e na Internet Archive, contribuindo para a infraestrutura, interface do usuário, algoritmos de busca e visão geral do projeto. Seu trabalho envolveu o aprimoramento dessas plataformas, otimizando seu funcionamento e desempenho (Doctorow, 2013). Além disso, dedicou-se à melhoria da interface do usuário, buscando facilitar a navegação e a interação dos visitantes com os recursos disponíveis (Doctorow, 2013). Swartz também colaborou no desenvolvimento de algoritmos de busca eficientes, proporcionando uma experiência de pesquisa mais rápida e precisa para os usuários (Doctorow, 2013). Sua contribuição na definição da visão geral do projeto, que visava democratizar o acesso ao conhecimento e à informação, foi fundamental para o sucesso das iniciativas (Kahle, 2007). Ademais, trabalhou na melhoria e na expansão do acervo digitalizado da Internet Archive, garantindo que mais materiais estivessem disponíveis para um público mais amplo e diversificado (Doctorow, 2013). 

O Guerilla Open Access Manifesto foi escrito por Swartz em 2008, onde defendia a livre circulação de informações e o acesso livre e irrestrito ao conhecimento e à cultura. O manifesto foi publicado no site do grupo de ativistas de informação Demand Progress, que Swartz fundou. Ambas as iniciativas desafiaram o sistema de paywalls (Davis, 2016). O manifesto começa com a afirmação de que "a informação é poder" e que, portanto, "é hora de lutar para restaurar o equilíbrio - para lutar contra a busca egoísta do lucro das editoras, que têm privado o mundo do acesso ao conhecimento". O manifesto continua argumentando que a informação deve ser livre e acessível a todos, independentemente de sua situação financeira, e que as leis que restringem o acesso à informação devem ser desafiadas e derrubadas. Em seu manifesto, Swartz escreveu: “Não há justiça em seguir leis injustas. É hora de vir à luz e, na grande tradição da desobediência civil, declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública". Disse ainda que, assim como foi errado forçar 'acadêmicos a pagar dinheiro para ler o trabalho de seus colegas', também foi antiético disponibilizar artigos científicos para estudantes e professores 'em universidades de elite no Primeiro Mundo, mas não para crianças no Sul Global' (Swartz, 2008). 

Sua atuação como um dos fundadores da Demand Progress esteve direcionada como um projeto de ativismo digital em resposta à tentativa do Congresso dos Estados Unidos de aprovar o SOPA (Stop Online Piracy Act), um projeto de lei que teria restringido significativamente o acesso à informação na internet. Swartz, juntamente com outros ativistas da internet, lançou a campanha "Stop SOPA" em 2011, que mobilizou milhões de pessoas em todo o mundo e ajudou a impedir a aprovação da legislação (Lamothe, 2013). 

Além disso, a Demand Progress tem defendido a proteção da privacidade online e a liberdade de expressão, lutando contra as medidas governamentais que ameaçam esses direitos. A organização também promove iniciativas de reforma de políticas públicas relacionadas à tecnologia e à internet, como a luta pela neutralidade da rede e a defesa da privacidade dos usuários (Lamothe, 2013). 

Desde a morte de Swartz em 2013, a Demand Progress continua a promover sua missão e a trabalhar em defesa dos direitos na internet, inspirando outros ativistas a se unirem à luta pela liberdade e privacidade online. Seu compromisso com o acesso aberto deixou uma marca indelével no cenário acadêmico (Peters, 2013). Seus esforços abriram caminho para o surgimento de plataformas como o Sci-Hub e inspiraram uma nova geração de ativistas dedicados a derrubar as barreiras que restringem o livre fluxo do conhecimento. A plataforma influenciou o ecossistema de comunicação científica, apresentando-se como uma alternativa viável àqueles que não têm acesso a artigos (Silva apud Andrade, 2021).

Swartz declarou que 'precisamos levar as informações, onde quer que estejam armazenadas, fazer nossas cópias e compartilhá-las com o mundo'. Precisamos pegar as coisas que estão fora dos direitos autorais e adicioná-las ao arquivo". Precisamos comprar bancos de dados secretos e colocá-los na Web. Precisamos baixar periódicos científicos e carregá-los para as redes de compartilhamento de arquivos. Precisamos lutar pelo Guerilla Open Access (Swartz, 2008). 

Ainda em 2008 Swartz teve um papel importante no desenvolvimento da extensão RECAP, colaborando com outros ativistas de acesso aberto e a equipe do Centro de Informação de Rede Pública da Universidade de Princeton. O projeto RECAP teve início em 2008 e tinha como objetivo permitir que os usuários do sistema PACER (Public Access to Court Electronic Records) compartilhassem e acessassem gratuitamente documentos judiciais federais dos Estados Unidos, contribuindo assim para o acesso aberto e a democratização da informação jurídica (Tsukayama, 2021). 

Swartz auxiliou no desenvolvimento da extensão do navegador e na definição da estratégia para tornar os documentos judiciais mais acessíveis ao público. Ao utilizar a extensão RECAP, os usuários que baixam documentos do PACER contribuem automaticamente com uma cópia desses documentos para o Internet Archive, onde são disponibilizados gratuitamente para outros usuários, reduzindo custos e aumentando a disponibilidade de informações jurídicas importantes (Tsukayama, 2021). 

Swartz acreditava que a informação deveria ser livre e acessível a todos, e suas ações serviram de inspiração para Alexandra Elbakyan, a fundadora do Sci-Hub. Ela desenvolveu o Sci-Hub como uma resposta direta às limitações impostas pelo atual sistema de publicação acadêmica e paywalls, permitindo o acesso gratuito a milhões de artigos científicos.

O Sci-Hub não apenas oferece acesso livre ao conhecimento científico mundial, mas o faz com uma interface superior em comparação com os portais universitários (Heathers, 2017). A abordagem de Elbakyan pode ser considerada uma evolução das ações de Swartz, pois o SciHub distribui o acesso por vários portais, tornando praticamente impossível cortar seu acesso. Através de uma abordagem descentralizada e alavancando credenciais de diversas universidades, o Sci-Hub rompeu as barreiras impostas por periódicos pagos, tornando as assinaturas universitárias praticamente obsoletas. No entanto, o Sci-Hub não é a solução definitiva para o acesso aberto, e o ideal seria uma revisão completa do modelo de publicação acadêmica, com pesquisas disponíveis abertamente desde o início.  

Ao fornecer uma alternativa ao modelo tradicional de assinatura, o Sci-Hub deu às universidades e aos países periféricos e menos desenvolvidos economicamente a alavancagem de que necessitam para pressionar por modelos mais equitativos e sustentáveis de acesso aberto (Schimmer et al., 2018). Porém, embora o Sci-Hub tenha dado passos significativos para o acesso aberto à pesquisa acadêmica, ele não é a solução definitiva. O cenário ideal envolve a revisão completa do modelo de publicação acadêmica, tornando a pesquisa disponível abertamente desde o início. Os atuais modelos de acesso aberto, financiados pelos autores, têm seu próprio conjunto de questões, incluindo custos proibitivos para pesquisadores em países em desenvolvimento e a prática de duplo mergulho por grandes editoras científicas (Björk, 2017). 

É importante considerar que a maioria dos sistemas de bancos de dados e bibliotecas digitais possui mecanismos para impedir a cópia exagerada dos materiais disponíveis, com o objetivo de proteger os direitos autorais dos detentores de conteúdos e garantir que a propriedade intelectual seja respeitada. 

Um desses mecanismos é o Digital Rights Management (DRM). O DRM é um conjunto de tecnologias e processos que controlam o acesso e uso de conteúdos digitais protegidos por direitos autorais, especialmente quando o usuário final obtém acesso aos sistemas de bibliotecas digitais e bancos de dados através de contratos ou autorizações legais que envolvem o pagamento pelo acesso à informação.

A função básica do DRM é monitorar o acesso aos conteúdos digitais e, ao mesmo tempo, garantir e gerenciar os direitos autorais desses conteúdos do ponto de vista do detentor desses direitos, incluindo limitar o número de cópias, restringir a distribuição ou compartilhamento, e determinar por quanto tempo um usuário pode acessar o conteúdo. 

No entanto, a aplicação dessas restrições também levanta questões sobre o acesso aberto à informação e o direito ao conhecimento. Em última análise, o legado do Sci-Hub pode não ser o site em si, mas a transformação que ele tem impulsionado na publicação acadêmica, inspirado nos ideais de Swartz. Em um mundo onde o conhecimento científico é livremente acessível a todos, todos nós podemos ser beneficiários de novas descobertas e inovações (Priego et al., 2017). 

Conforme verificado nas ações desenvolvidas, seu ativismo e trabalho levaram a mudanças significativas no movimento de acesso aberto. A tabela a seguir elenca iniciativas de Swartz que geraram reflexos nas bibliotecas: 

Quadro 1. Principais iniciativas desenvolvidas por Aaron Swartz 

Fonte: Autor, pesquisa bibliográfica e adição de exemplos 

5. O legado de Swartz 

 É possível apontar algumas evidências de que o legado de Aaron Swartz ajudou a mudar o rumo das publicações acadêmicas, principalmente no que diz respeito ao acesso aberto e à democratização do conhecimento. Aqui estão alguns exemplos: 

1. Crescimento do movimento de acesso aberto: O ativismo de Swartz ajudou a chamar a atenção para a importância do acesso aberto à pesquisa acadêmica e incentivou o crescimento de repositórios, como arXiv, bioRxiv e PubMed Central, que permitem aos pesquisadores a possibilidade de compartilhar seus trabalhos gratuitamente. Além disso, uma quantidade crescente de universidades e instituições de pesquisa têm reconhecido o valor deste tipo de acesso e, por conseguinte, começaram a implementar políticas de acesso aberto. Muitas delas também criaram seus próprios repositórios institucionais, oferecendo assim um local seguro e acessível para armazenar e compartilhar o trabalho de seus pesquisadores (Björk, 2012; Davis, 2016). 

2. Aumento do número de revistas de acesso aberto: O impacto do ativismo de Aaron Swartz e do movimento de acesso aberto se estendeu também ao universo das revistas acadêmicas. Foi observado um aumento significativo no número de revistas que adotaram o modelo de acesso aberto, permitindo a livre leitura de seus artigos publicados. Este avanço tem sido facilitado por plataformas como o Open Journal Systems (OJS), que fornecem a infraestrutura necessária para a publicação em acesso aberto. Ademais, editoras como a Public Library of Science (PLOS) e a Frontiers têm ganhado destaque e se expandido. Elas representam alternativas concretas aos modelos de publicação tradicionais, que muitas vezes restringem o acesso a pesquisas importantes por trás de paywalls. Estas evoluções indicam uma mudança progressiva em direção a um cenário acadêmico mais inclusivo e acessível (Piwowar, et al. 2017). 

3. Políticas governamentais de acesso aberto: A conscientização sobre o acesso aberto levou a mudanças em políticas governamentais em diversos países. No Brasil, por exemplo, as agências de financiamento à pesquisa estão começando a exigir que os dados das pesquisas financiadas com recursos públicos sejam disponibilizados em acesso aberto (Monteiro; Lucas, 2019). Um exemplo disso é a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Esta agência de fomento à pesquisa, uma das maiores do Brasil, tem investido fortemente na promoção do acesso aberto. A FAPESP entende que o acesso aberto aos resultados da pesquisa é fundamental para o avanço da ciência e para garantir o melhor retorno do investimento público em pesquisa. Para tal, a Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP), e mais recentemente o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) instituiram políticas de acesso aberto que exigem que os beneficiários de seus financiamentos apresentem Planos de Gestão de Dados para as pesquisas contempladas com financiamento pela Fundação em repositórios de acesso aberto. Além disso, a FAPESP também promove a criação e manutenção de repositórios de dados, a fim de garantir que os dados de pesquisa sejam devidamente preservados e disponíveis para a comunidade científica (Ziegler, 2019; FAPESP, 2023). Tais políticas não apenas alinham a FAPESP com as tendências globais em relação ao acesso aberto, mas também fortalecem a pesquisa científica no Brasil, ao tornar os resultados mais acessíveis e promover uma maior transparência e reprodutibilidade na ciência.

4. Mudança de atitude das editoras tradicionais: Em resposta à crescente demanda por acesso aberto, editoras tradicionais começaram a modificar suas políticas e oferecer opções de acesso aberto para os autores, como o modelo híbrido, que permite que os autores paguem uma taxa para tornar seus artigos de acesso aberto mesmo em revistas por assinatura. Um exemplo específico de uma editora tradicional que adotou o modelo de acesso aberto híbrido é a Elsevier. Ela oferece aos autores a opção de tornar seus artigos de acesso aberto em muitas de suas revistas por assinatura, mediante o pagamento de uma taxa de publicação em acesso aberto (Elsevier, 2023). Nesta discussão, torna-se essencial abordar que a compreensão da ciência aberta e do acesso aberto ainda é um campo com muitas divergências e debates. Vale frisar que certas editoras de grande porte têm adotado uma postura no que se refere ao acesso aberto que pode ser tida como polêmica. Estas editoras têm incorporado o acesso aberto e o converteram em um modelo de negócios que engloba a cobrança de taxas para publicação, também conhecidas como APC (article processing charge). Essa abordagem levanta preocupações sobre a comercialização do acesso aberto e a manutenção de barreiras financeiras para os autores, que podem limitar a disseminação ampla e inclusiva do conhecimento científico. Essas práticas controversas destacam a importância contínua de refletir e discutir os princípios e diretrizes que sustentam a ciência aberta e o acesso aberto, para garantir que essas iniciativas promovam a democratização do conhecimento e sejam verdadeiramente acessíveis a todos os envolvidos no processo de pesquisa e disseminação. 

5. Iniciativas como o Plan S: O Plan S é uma iniciativa lançada em 2018 por um grupo de financiadores de pesquisa nacionais e internacionais, com o objetivo de acelerar a transição para o acesso aberto completo e imediato às publicações científicas. Swartz e o Plano S representam esforços para democratizar o conhecimento de maneiras distintas, mas complementares, que visam tornar a informação científica e acadêmica acessível a todos, rompendo as barreiras impostas pelos sistemas tradicionais de publicação (Schiltz, 2018). Desse modo, Plan S exige que as pesquisas financiadas por seus membros sejam publicadas em revistas de acesso aberto. A ideia é que todos possam ler, baixar, compartilhar e reutilizar livremente essas publicações científicas sem restrições financeiras. 

A contribuição de Aaron Swartz ao movimento de acesso aberto foi multifacetada e impactante, embora não possamos atribuir todas as mudanças subsequentes exclusivamente ao seu legado. Sua campanha e sacrifício pessoal desencadearam uma onda de conscientização sobre a necessidade de democratização do conhecimento e de práticas de acesso aberto na academia. 

Sua atividade mais notável, o caso envolvendo a JSTOR, lançou luz sobre a questão do acesso restrito a pesquisas acadêmicas e gerou um debate significativo sobre as práticas de publicação acadêmica. Isso estimulou discussões mais amplas sobre a necessidade de melhorar a acessibilidade à pesquisa e buscar métodos alternativos para compartilhar conhecimento. 

Consequentemente, o ativismo de Swartz ajudou a impulsionar o interesse e o apoio a repositórios de acesso aberto. Ao chamar a atenção para as barreiras que muitos pesquisadores e membros do público encontram ao tentar acessar informações científicas, ele indiretamente incentivou o crescimento e a expansão de repositórios de acesso aberto e da publicação de artigos em revistas de acesso aberto. 

6. CONCLUSÃO 

A relevância das iniciativas de Aaron Swartz para os dias atuais é incontestável, principalmente em um contexto em que a liberdade de expressão, o acesso à informação e a privacidade online estão sob crescente ameaça. Ao analisarmos seu trabalho e legado na Open Library e na Internet Archive, a importância de Swartz para as bibliotecas contemporâneas se torna patente. Suas ações refletem um compromisso firme com a democratização do conhecimento e a promoção do livre acesso à informação. 

As contribuições de Swartz desempenharam um papel crucial na modelagem do panorama das bibliotecas digitais, expandindo seu alcance e tornando-as mais acessíveis a um público diverso globalmente. A visão e dedicação de Swartz catalisaram a evolução das bibliotecas para plataformas mais eficientes e amigáveis ao usuário, facilitando a busca e acesso aos recursos desejados. 

Adicionalmente, Swartz impulsionou a expansão do acervo digitalizado, permitindo o acesso a um conjunto mais amplo de materiais, democratizando assim o conhecimento e possibilitando que pessoas de diferentes contextos e localizações geográficas se beneficiassem desses recursos. 

A luta de Swartz pela democratização do conhecimento e pelo acesso aberto é perpetuada por profissionais da informação, incluindo bibliotecários que desenvolvem e aplicam soluções para superar barreiras de acesso. Além disso, ativistas e defensores da liberdade na internet também desempenham um papel fundamental ao defender esses direitos e impulsionar políticas públicas mais justas e equitativas. 

A crescente conscientização sobre a importância do acesso aberto e da democratização do conhecimento, especialmente na pesquisa científica e na educação, pode funcionar como um motor para impulsionar a luta por esses direitos. A influência de Swartz no campo do acesso aberto e da liberdade na internet é inegável, e seu legado continua a inspirarmuitos ativistas e defensores dessas causas. 

O impacto dessas iniciativas é direto no campo da Ciência da Informação, que se dedica à gestão e disseminação de informação em diversas áreas do conhecimento. Ferramentas desenvolvidas como o RSS e licenças como o Creative Commons facilitam a disseminação e compartilhamento de informações, democratizando o acesso ao conhecimento. 

Na luta pela liberdade de expressão e direitos digitais, que é um aspecto central na gestão da informação, políticas públicas mais justas e equitativas na internet são promovidas. Isso incentiva a luta contra o monopólio da informação e a disseminação de informações confiáveis e relevantes. As iniciativas de Swartz têm um impacto significativo nesse combate, promovendo o acesso aberto à informação, a disseminação do conhecimento e a defesa dos direitos digitais e da liberdade de expressão.

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Correspondência do autor 

¹ Universidade Federal do Rio Grande do Sul 

Porto Alegre, RS - Brasil fabianocc@gmail.com