1. Ex-tados Unidos
2. Agualusa: a) Oficina de silêncios e b) A lâmpada centenária
3. À procura do Proust perdido
4. La Petite Fille au Ruban Bleu, de Natalie David-Weill, revela o que aconteceu com as meninas de 'Rosa e Azul', de Renoir
5. O cavalo de Troia sionista
6. O que falta para entender a diferença entre antissemitismo e antissionismo?
7. Resposta: Questionar legitimidade de Israel como Estado é antissemitismo
8. Vencedor do Nobel de Física diz que humanidade não deve durar nem 50 anos
9. Alice Carvalho: Cangaço Novo - 2ª temporada
10. Hungria encerra era Orbán entre desafio da mudança e risco de revanche
11. IA une Elis Regina e Paulinho da Costa pela primeira vez em música restaurada para novo álbum
12. ‘Mestre Zu’: documentário dirigido por Zelito Viana revisita trajetória de Zuenir Ventura
13. A realidade do mal
14. Filme com Bella Campos e Xamã é daqueles que o Brasil deveria produzir mais
15. Rio de lama e seus afluentes - Muniz Sodré
16. Perguntas sobre Marilyn
17. Passado indígena de Itacoatiara é investigado em filme que participa de mostra de cinema ambiental na Espanha
18. Três razões para Lula ter jogado Moraes aos leões
19. Mulher pobre e periférica morreu de São Paulo, Brasil
20. PAULINHO DA COSTA + JOÃO MARCELLO BÔSCOLI - Flow #575 - vídeo
21. Rafael Rabello - vídeo
22. Nelson Gonçalves valente - vídeo
23. Carta aberta a um jovem que teve a redação zerada na Fuvest
1. Ex-tados Unidos
Meu visto para os Estados Unidos expirou, e perdi a vontade de renová-lo. A relação com o país, que visitei pela primeira vez aos 31 anos.
Martha Medeiros, O Globo, 26.04.2026
Aos 15 anos, surgiu uma oportunidade de eu conhecer a Disney, e me preparei para explorar o mundo das montanhas-russas e jantares com o Mickey. Deu tudo errado. Dias antes de embarcar, a missão naufragou. Fui para a Bahia e nunca mais pensei no assunto. Só viria a conhecer os Estados Unidos já adulta, aos 31 anos, quando pisei pela primeira vez em Nova York.
Era novembro, fazia frio e na segunda noite já estava diante de Woody Allen, que tocava clarinete no Michael’s Pub enquanto fugia dos tabloides famintos pelos detalhes de seu divórcio com Mia Farrow. A música era boa, a comida intragável, e a Manhattan de seus filmes continuava confinada em meu imaginário. Peguei sarna no hotel. Eu tentava, mas os Estados Unidos não estavam sendo cinematográficos para mim.
Talvez eu precisasse percorrer a rota 66 de carro, polir a ponta de um taco de sinuca, dormir em um motel de estrada. Talvez devesse ir até Seatlle, berço do grunge, já que o Nirvana quase me fez esquecer os Beatles e os Stones. Talvez eu devesse trocar os restaurantes moderninhos do Soho por um cachorro-quente com Coca-Cola, mergulhar na poesia de Walt Whitman e na cultura beatnik (essa “viagem” deu mesmo para fazer, só que na sala do meu apartamento em Porto Alegre).
Cheguei a ir até a California, subi e desci as ladeiras de San Francisco, visitei a Universal Studios em Los Angeles e até um terremoto peguei por lá, de madrugada, com lustre do quarto balançando e tudo. Em Honolulu, me senti no “Show de Truman”, parecia que havia um diretor de cena por trás dos dias perfeitamente ensolarados e da música de Elvis Presley tocando em alto-falantes de rua. Subverti Miami: me dediquei aos grafites de Wynwood Walls e voltei para casa sem pagar excesso de bagagem, a arte substituiu o shopping. Estive mais três vezes em Nova York, e só me rendi a ela por completo na última vez, porque insistências costumam ser recompensadas.
Agora meu visto para os Estados Unidos expirou e perdi a vontade de renová-lo. Gostaria de seguir insistindo, pois ainda não conheço New Orleans e adoro jazz.
Tampouco conheço Chicago e seus bares com blues ao vivo. E planejo visitar uma grande amiga que vive em Greenville, em uma linda casa no meio de um bosque. Mas os Estados Unidos estão sob direção de um desatinado que instituiu a arrogância como carimbo de soberania. Com a China em seus calcanhares, está fazendo dos EUA um país rasteiro, delirante, que quanto mais esperneia, mais inferior se torna. God bless? Duvido. Mas, depois de encerrado esse vexame público, Deus, que a tudo perdoa, certamente voltará a abençoar a América. Até lá, continuarei a insistir em Londres e Paris. E sempre teremos a Bahia.
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2. Agualusa: a) Oficina de silêncios e b) A lâmpada centenária
Oficina de silêncios
Daniel falava fluentemente cinco idiomas. Um dia passou a auxiliar casais em crise, ensinando-os a escutar os gestos, os olhares e as expressões
José Eduardo Agualusa, O Globo, 25/04/2026
Quase tudo começa por um equívoco; ou por um acaso, que é a maneira elegante como Deus escolhe os seus erros. Foi assim com o universo, com a vida na terra, e continua sendo assim, por exemplo, com as mais belas estórias de amor.
Foi também devido a um equívoco que o intérprete de silêncios iniciou a sua singular carreira. Daniel falava fluentemente cinco idiomas. Trabalhava como intérprete. Era um profissional respeitado. Certa tarde, durante um encontro entre duas delegações de países em guerra, sofreu um breve instante de alheamento — hesitou. Os seus interlocutores inclinaram-se na direção dele. O mais velho sorriu, triunfante. Dessa forma, o acordo, que parecia impossível de alcançar, avançou.
Para Daniel, foi uma epifania. Abandonou a tradução convencional, dedicando-se a estudar suspiros, pausas e hesitações. Gravava conversas e depois escutava-as, uma e outra vez, como um músico analisando as suas próprias composições. Onde os outros ouviam apenas longos discursos, ele escutava intervalos. Descobriu que o essencial raramente está nas palavras ditas, e sim nos espaços vazios.
Teve êxito. Começaram a chamá-lo para as negociações mais difíceis. Daniel sentava-se atrás dos intérpretes tradicionais, feito a sombra de uma sombra, e só intervinha quando alguém emudecia: “Este silêncio é uma rendição”, traduzia. Ou então: “Esta hesitação esconde uma armadilha. Tenha cuidado.”
Pouco a pouco, o intérprete de silêncios foi expandindo o seu espaço de intervenção. Era muito apreciado nos tribunais, quer por advogados de defesa, quer de acusação, para traduzir os suspiros dos acusados e das testemunhas. Tornou-se perito em distinguir o silêncio dos inocentes, do tenso mutismo dos culpados.
Mais tarde, passou a auxiliar casais em crise. Obtinha melhores resultados do que os terapeutas familiares porque, com ele, os casais nem sequer precisavam falar. Daniel poupava-lhes o constrangimento da troca de amarguras. Sentavam-se diante dele e ficavam assim, os três, olhando uns para os outros. Finalmente, Daniel sentenciava:
— Ainda existe amor entre vocês, apenas precisam reaprender a expressá-lo.
Ou:
— Já não existe nada nesta relação, nem sequer um pingo de rancor, apenas tédio.
O sucesso da experiência levou Daniel a criar oficinas de silêncio, ensinando os casais a escutarem os gestos, os olhares e as expressões.
Foi então que adoeceu. Não conseguia desligar-se do trabalho. Passeando no parque, permanecia atento à súbita quietude dos pássaros, ao serenar da brisa. Cada hesitação expunha a ameaça de um desastre. Começou a desconfiar das palavras. Muitas frases pareciam-lhe apenas nevoeiro. Ouvia as pessoas falar e não as compreendia. Passou a evitar conversas. Fechou-se em casa. Uma noite alguém bateu à porta. Entreabriu-a, renitente. Do outro lado estava uma mulher alta, elegante, que o olhou num vasto silêncio. Daniel sustentou o olhar, esforçando-se por decifrar a tessitura daquele mutismo. Por fim, a mulher falou:
— Só queria saber se ainda é capaz de ouvir sem traduzir.
Daniel não respondeu. Pela primeira vez em muito tempo, não tentou interpretar o silêncio que se seguiu. E talvez tenha sido esse o momento mais próximo de verdade que alguma vez experimentou.
......
A lâmpada centenária
Ela foi criada antes de o sistema capitalista descobrir a obsolescência programada. Antes de, a cada dia que passa, tudo parecer mais efêmero
José Eduardo Agualusa, O Globo, 18/04/2026
A cada dia que passa tudo me parece mais efêmero, vago, provisório, dos empregos às relações, passando pelos ideais e pela tecnologia. A vida se transformou numa espécie de acampamento apressado. Um lugar onde passamos a noite. Suspeito que o futuro está sendo programado para não perdurar.
É isso, ou sou eu que estou envelhecendo muito mal.
Existe uma lâmpada, num quartel de bombeiros, em Livermore, na Califórnia, acesa desde 1901. Pode ser observada em direto, a qualquer hora, através de uma câmara fixa. Foi criada antes de descobrirmos como lucrar mais, produzindo lâmpadas que acabam queimando em poucos meses. Ou seja, antes de o sistema capitalista descobrir as delícias da obsolescência.
Outrora, as ideias, os empregos, ou as relações, aspiravam a durar — como a lâmpada centenária. Conseguiam? Raramente. Contudo, havia a convicção generalizada de que a longevidade, a persistência, a solidez, era algo positivo. Isso mudou.
Os ideólogos, os filósofos, os pensadores — todos eles — deram lugar a uma entidade ruidosa e arrogante: os influencers (detestável anglicismo). Os ideais transformaram-se em conteúdos. Não se debatem mais ideias — excitam-se paixões.
Há poucos dias, em Portugal, uma respeitada figura da direita democrática, José Pacheco Pereira, desafiou o trumpista local, André Ventura, para um debate sobre ditadura e democracia. Pereira foi, durante muitos anos, um importante dirigente do Partido Social Democrático (PSD), antes de decidir dedicar a maior parte do tempo à sua prodigiosa biblioteca, que ocupa quase uma vila inteira — entre casas, antigas adegas e capelas e até uma cadeia desativada — e conta com mais de 200 mil títulos.
Ventura, que lidera o segundo partido com maior representação parlamentar, o Chega, tem tentado desvirtuar o regime democrático, enquanto defende os supostos méritos da ditadura salazarista, derrubada em abril de 1974. Irritado com as diatribes do líder do Chega, Pacheco Pereira ofereceu-se para conversar com ele, esgrimindo ideias, números e fatos. Pretendia, nas suas palavras, um debate honesto e civilizado.
Não foi o que ocorreu. Seguindo o roteiro habitual, André Ventura respondeu aos estudados argumentos do adversário com gritos, insultos e o delirante vazio das suas “verdades alternativas”.
Muitos comentadores criticaram José Pacheco Pereira pela ingenuidade. A mim pareceu um ato heroico. Homem inteligente, de grande erudição, com uma carreira política longa e intensa, Pacheco Pereira sabia que André Ventura não conseguiria cumprir o acordo de cavalheiros anteriormente estabelecido. Ainda assim, foi para o debate com a lâmpada centenária acesa dentro de si. Não para iluminar o adversário — que há muito tempo fez da cegueira um projeto político —, mas como uma forma de resistência diante da escuridão.
Resta-nos imitá-lo, mantendo acesa uma pequena luz, na esperança de despertar algumas consciências. Uma luz débil, porém insistente, num mundo em que todo o resto foi concebido para falhar.
É isso — ou então sou eu que estou envelhecendo muito mal.
NB:
O enigma da lâmpada que funciona desde 1901 - texto
José Eduardo Agualusa - crônicas
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3. À procura do Proust perdido
'Pastiches e Misturas' prova que o cinema pode ser arte, desde que subjetivo e radical. Filme de Carlos Adriano não se mete a transpor para a tela a obra do escritor francês.
Mario Sergio Conti, fsp, 17.04.2026
A banalização de "À Procura do Tempo Perdido" é uma praga. O romance de Proust é longo e árduo —e os banais acertam ao dizer que tempo é dinheiro e que de dura chega a vida. Dá trabalho desenrolar suas frases enroscadas. Escoltar duquesas meses a fio requer curiosidade malsã. A escrita crítica atropela o pocotó da literatura pangaré.
Não se trata só de forma: no peito do romance desencantado bate um coração de pedra. Afora o amor neurótico do Narrador pela mãe, tudo o mais é negativo. A paixão não leva à felicidade a dois, e sim à angústia a um. A amizade é tola quimera. Não amamos mais ninguém quando amamos.
A mercantilização de tudo e todos, todavia, fez com que a melancolia do romance desse lugar a livros ligeirinhos sobre roupas e viagens de seu autor. Que ele virasse o escritor francês mais traduzido, o tema do maior número de teses universitárias da Europa. O Proust prêt-à-porter diz algo sobre a sociedade de consumo hoje, mas nada fala do seu vazio.
E olha que em "À Procura do Tempo Perdido" só a arte escapa do vazio. É por isso que o livro relata a gênese de uma obra única que termina assim que o Narrador começa a escrever o livro que o leitor vem de ler.
Na concepção de Proust, quanto mais abstrata a arte, maior a sua promessa de felicidade. A música, escreve, é o "exemplo único do que poderia ter sido –se não se houvesse inventado a linguagem, a formação de palavras, a análise de ideias– a comunicação entre as almas".
Para ele, arte e cinema são antagônicos. "Alguns gostariam que o romance fosse uma espécie de desfile cinematográfico das coisas", escreveu. "Essa concepção seria absurda. Nada se afasta mais daquilo que percebemos na realidade do que uma visão cinematográfica."
Proust disse isso pouco antes de morrer, em 1922. O cinema ainda usava chupeta, mas sua restrição a ele não era de ordem tecnológica, e sim filosófica. No nitty-gritty, sustenta, o cinema capta aparências, não revolve o que a realidade deposita nas profundezas dos seres e da sociedade.
Embora o cinema tenha virado de ponta-cabeça desde então, a reflexão segue pertinente, ao menos no que tange a "À Procura do Tempo Perdido". Passaram-se cem anos e não se fez um filme que, nem de longe, esteja à altura, espessura e fundura do livro, que seja arte à farta.
Homem com bigode e cabelo escuro usa terno preto, gravata borboleta vermelha e calça xadrez, sentado em degrau de escada em frente a porta com veneziana.
Na concepção de Proust, quanto mais abstrata a arte, maior a sua promessa de felicidade. A música, escreve, é o "exemplo único do que poderia ter sido –se não se houvesse inventado a linguagem, a formação de palavras, a análise de ideias – a comunicação entre as almas".
Para ele, arte e cinema são antagônicos. "Alguns gostariam que o romance fosse uma espécie de desfile cinematográfico das coisas", escreveu. "Essa concepção seria absurda. Nada se afasta mais daquilo que percebemos na realidade do que uma visão cinematográfica."
Proust disse isso pouco antes de morrer, em 1922. O cinema ainda usava chupeta, mas sua restrição a ele não era de ordem tecnológica, e sim filosófica. No nitty-gritty, sustenta, o cinema capta aparências, não revolve o que a realidade deposita nas profundezas dos seres e da sociedade.
Embora o cinema tenha virado de ponta-cabeça desde então, a reflexão segue pertinente, ao menos no que tange a "À Procura do Tempo Perdido". Passaram-se cem anos e não se fez um filme que, nem de longe, esteja à altura, espessura e fundura do livro, que seja arte à farta.
Homem com bigode e cabelo escuro usa terno preto, gravata borboleta vermelha e calça xadrez, sentado em degrau de escada em frente a porta com veneziana.
O italiano Luchino Visconti e o americano Joseph Losey tentaram filmá-lo e desistiram. O alemão Volker Schlöndorff, a belga Chantal Akerman, a francesa Nina Companeez e o chileno Raúl Ruiz adaptaram alguns trechos. Ativeram-se ao enredo –à aparência da realidade, apud Proust–, não às digressões, análises, invenções, o que faz do romance O romance.
Pois bem, chegou a hora de um paulista lançar-se à aventura. O resultado é "Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas", obra do improvável Carlos Adriano. Com dois pós-doutorados, ele dirigiu 30 filmes em 35 anos, dos quais só um de ficção e dois longas-metragens. Os outros são cinepoemas, miniensaios, sondagens, experiências, tateios, curtas-metragens a contrapelo.
Destaque do Festival É Tudo Verdade, "Proust Palimpsesto" não se mete a transpor para a tela "Tempo Perdido" tal e qual. Almeja a alma livre da arte e amaldiçoa a letra morta do comércio. É radicalmente subjetivo, junta alhos e bugalhos, as barbaridades mesopotâmicas de Griffith em "Intolerância" com as bestialidades israelenses de Netanyahu em Gaza .
Como a sensatez é predicado dos fracos, e o proustiano é antes de tudo um forte, não tendo o raquitismo exaustivo dos euclidianos neurastênicos do litoral, o filme é ininteligível aos pobres de espírito. Ou se entra no clima ou os 103 minutos de "Palimpsesto" não terão fim. Adriano não veio ao mundo para facilitar a vida de ninguém. Pelo contrário.
Veja imagens de Illiers-Combray, vilarejo francês que inspirou Marcel Proust
A energia do filme brota da ideia de que o real e o irreal se amalgamam. Exemplo disso é o filminho de Proust no casamento da filha da condessa Greffulhe, modelo da duquesa de Guermantes. Sua descoberta, em 2017, foi festejada por ser o único registro de Proust em movimento.
Aí entrou em cena a aguerrida tribo dos proustianos em flor. Provaram por a+b que o moçoilo de bigodinho e chapéu coco não era Proust nem que a vaca tussisse. Ele tinha 33 anos na época, era um senhor macilento, de bigodaço à la Ruy Barbosa.
Em "Palimpsesto", é mostrado em câmera lenta, fragmentado, de trás para a frente. Por ser fidedigno ou fictício? Carlos Adriano pode responder, porque só ele sabe o que é "palimpsesto". Minto: Proust também sabia.
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4. La Petite Fille au Ruban Bleu, de Natalie David-Weill, revela o que aconteceu com as meninas de 'Rosa e Azul', de Renoir
'Pinturas como essa nos ajudam a acreditar em sonhos. Biografias como essa nos devolvem à realidade.'
Bruno Astuto, O Gobo, 26.04.2026
Pierre-Auguste Renoir em 1881, costuma ser visto como um retrato exemplar da infância burguesa do fim do século XIX. As meninas Elisabeth e Alice, filhas do banqueiro Louis Raphael Cahen d’Anvers, aparecem imóveis, de vestido branco rendado, uma com laços cor-de-rosa, outra com acessórios azuis. O artista francês constrói uma cena precisa, em que tudo parece organizado para permanecer, um começo puro e inocente de uma infância ao abrigo de preocupações e que prenuncia um futuro esplendoroso. Ele recebeu 1.500 francos pelo trabalho; a família, uma pintura para a eternidade. Só que a eternidade, como sabemos, tem prazo de validade.
Um livro magnífico, recém-publicado na França, tenta desvendar o destino dessas meninas a partir de outro ponto. “La Petite Fille au ruban bleu” (A garota de laço azul, ainda sem tradução no Brasil), parte do retrato da irmã mais velha, Irène, pintada um ano antes, também por Renoir. Aos oito anos, cabelos cor de cobre caindo sobre os ombros, olhar meio distraído, meio entediado, ela posa para o artista como se soubesse que o mundo que a cerca está prestes a mudar — embora não possa saber quanto, nem como. A escritora Natalie David-Weill mergulhou em arquivos, cartas e registros dispersos, tentando restituir densidade a figuras que, durante décadas, foram reduzidas à condição de modelo privilegiado de infância.
Os Cahen d’Anvers pertenciam à elite judaica de Paris, inseridos num circuito que reunia colecionadores, mecenas e artistas. Foi nesse ambiente que Renoir passou a circular, chamado para pintar retratos que tinham função social de exaltar os patrocinadores ricos. Em 1880, Irène posa para o artista. No ano seguinte, as irmãs menores ocupam a tela que hoje está em São Paulo. As sessões eram longas e, como Alice lembraria mais tarde, pouco interessantes — compensadas apenas pelo uso de um vestido novo.
O percurso de Irène, reconstruído por David-Weill, escapa dessa superfície e tenta olhar para além do laço azul que prende seus cabelos. Dá visibilidade à mulher que cresceu, amou, divorciou-se duas vezes, perdeu um filho na guerra, viu sua filha Béatrice morrer em Auschwitz, e ainda assim sobreviveu a tudo isso para se tornar, no fim, herdeira do próprio retrato ‘(detalhe: a pintura de Irène foi roubada pelos nazistas em 1941, mas a do MASP não constava das espoliações). Quando a guerra atinge a Europa, o cenário se transforma de maneira radical. O mesmo grupo que sustentava coleções, financiava instituições e frequentava os grandes salões passa a depender de circunstâncias horrendas e a ser tragado pela sociedade que cultivou. Obras são confiscadas, famílias se dispersam, parentes são assassinados, nomes desaparecem. “É sempre interessante estudar uma época, porque nunca é tal qual se crê”, diz a autora.
É nesse ponto que “Rosa e Azul” ganha outra leitura. Elisabeth, a de azul, teve um destino que só veio à tona em meados de 1987, quando obras do acervo paulistano foram expostas na Fundação Pierre Gianadda, em Martigny, na Suíça. Seu sobrinho escreveu ao museu para revelar o que a tela não dizia: ela morreu a caminho de Auschwitz, em 1944, num trem gelado, aos 69 anos. Alice, a menina de rosa, viveu até os 89 anos e morreu em Nice, em 1965. A autora não tenta corrigir a obra de Renoir, mas ampliar o seu alcance, lembrando que a pintura fixa uma ordem que a História rapidamente desfaz.
O artista registrou, com precisão, um momento e um meio social, mas não poderia prever a fratura entre a imagem imóvel e o destino turbulento. Pinturas como essa nos ajudam a acreditar em sonhos. Biografias como essa nos devolvem à realidade. É por isso que a arte dura — pelas mesmas razões que livros precisam ser escritos.
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5. O cavalo de Troia sionista
Sob o pretexto de combater o antissemitismo, o que seria admirável, projeto de lei escamoteia cláusulas que criminalizam críticas legítimas a Israel
Cláudia Assaf Bastos & Tiago Guilherme Faria, fsp, 12.06.2025
Está em curso no Brasil projeto temerário de silenciamento político travestido de defesa de liberdades e direitos humanos. Trata-se do projeto de lei 472/2025, do deputado Eduardo Pazuello (PL-RJ), que pretende incorporar à legislação brasileira a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).
O texto prevê que a definição seja adotada como "recurso educacional" e veda qualquer forma de "negação, distorção ou relativização do Holocausto". À primeira vista, parece medida de proteção contra o preconceito, mas, na prática, trata-se de um cavalo de Troia sionista.
O cavalo de Troia remete à estratégia mitológica dos gregos para conseguirem entrar pelos intransponíveis portões do reduto dos troianos, seus inimigos: dentro do belo e bem-intencionado "presente", os gregos esconderam soldados para atacar os troianos. O PL 472 assemelha-se ao "presente de grego": sob o belo pretexto de combater o antissemitismo no Brasil, o que seria admirável, o texto escamoteia cláusulas que criminalizam críticas legítimas a Israel. Isso fragilizará a democracia brasileira e colaborará para Israel continuar seus crimes livre de críticas.
A definição da IHRA, base do projeto, apresenta 11 exemplos de antissemitismo —7 dos quais mencionam Israel —, confundindo o enfrentamento ao ódio com a censura política. Essa confusão explica-se na mistura de elementos legítimos de combate ao antissemitismo com exemplos equivocados, que associam antissionismo a preconceito.
Para a IHRA, seria antissemita comportamentos tais como "comparar Israel aos nazistas" ou "chamar Israel de empreendimento racista". O próprio PL explicita isso ao prever punições para quem "de forma direta ou velada, questione a legitimidade do Estado de Israel". Equivale a censurar toda crítica séria à política colonial e de apartheid de Israel contra o povo palestino.
Um ano de guerra no Oriente Médio em imagens
Preservar a memória do Holocausto é imperativo ético, mas instrumentalizar o trauma histórico para blindar um Estado contemporâneo da crítica pública é grave desvio. O Brasil, na qualidade de membro observador da Aliança, não tem qualquer obrigação jurídica de internalizar suas diretrizes. Transformar essa definição em norma legal afrontaria a liberdade de expressão e o princípio da legalidade. O Brasil tem sólida tradição de liberdade acadêmica e crítica política, até mesmo contra Estados estrangeiros.
O PL 472 insere-se no processo internacional de lawfare ideológico, que persegue vozes críticas ao sionismo. É assim que entidades como a Conib (Confederação Israelita do Brasil) e a StandWithUs atuam para calar defensores da causa palestina, rotulando como antissemitismo denúncias de ocupação, apartheid ou crimes de guerra cometidos por Israel.
Intelectuais judeus, como Judith Butler, Noam Chomsky e Norman Finkelstein, já denunciaram o uso indevido da definição da IHRA. O próprio redator original da definição, Kenneth Stern, declarou publicamente que "nem todo antissionista é antissemita".
Veja imagens do Museu Nacional do Holocausto, em Amsterdã
Confundir antissionismo com antissemitismo é distorção perigosa, haja vista ser a primeira crítica legítima a uma ideologia de caráter colonial, que sustentou a criação do Estado de Israel em detrimento da população nativa palestina. Stern também advertiu contra a instrumentalização política da definição por grupos de extrema direita para silenciar dissidentes.
Aprovar o PL 472 seria escancarar os portões da democracia brasileira para a entrada do aparentemente bem-intencionado cavalo de Troia sionista —que, no entanto, carrega dentro de si o objetivo tácito de blindar Israel de críticas.
Genuíno combate ao antissemitismo exige educação, memória histórica, respeito à diversidade e compromisso com os direitos humanos, não a criminalização de quem denuncia injustiças. Exige, sobretudo, liberdade de expressão, inclusive a liberdade de criticar a legitimidade de Israel. É dever de todos resistirmos a esse retrocesso. A defesa da memória do Holocausto não pode ser instrumentalizada como estratégia de silenciamento.
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6. O que falta para entender a diferença entre antissemitismo e antissionismo?
Em conferência de 2001, Edward Said revisitou obra de Freud que põe em questão a própria origem do judaísmo. Último grande texto do psicanalista reflete sobre o recalque promovido pelo Estado de Israel na criação da sua identidade
Bernardo Carvalho, fsp, 17.04.2026
Quando estive no Japão, lá se vão quase 20 anos, uma amiga me contou, rindo, a malograda decisão das autoridades de desencavar a origem da família real por meio do DNA dos restos mortais dos ancestrais mantidos nos porões do Palácio Imperial em Tóquio. Bastou abrir a primeira tumba e descobrir que a matriarca era coreana para fecharem tudo e nunca mais falarem no assunto.
Lembrei da anedota ao ler "Freud e os Não Europeus", conferência de Edward Said, de 2001, publicada no Brasil pela Boitempo e agora reeditada, em inglês, pela Verso. Said revisita o polêmico "Moisés e o Monoteísmo", último grande texto de Freud, que põe em questão a própria origem do judaísmo, para pensar numa ideia mais híbrida, mais justa e mais inclusiva de Israel. Vem a calhar no momento em que o Parlamento israelense aprova uma lei que condena palestinos à pena capital por ataques homicidas, mas não judeus acusados do mesmo crime.
Said, um dos principais pensadores da diáspora palestina, tinha um interesse especial pelo que chamou "estilo tardio" em obras radicais que resultam da urgência de dizer e criar quando já não se atenta para o risco das dificuldades, das desarmonias e das contradições. São obras cuja imperfeição é também a sua qualidade; nas quais a dúvida é um elemento central. "Moisés e o Monoteísmo" é o estilo tardio em Freud.
Freud começa se desculpando pelo potencial devastador de sua tese: que Moisés, por diversos indícios históricos, não podia ser judeu. "Privar um povo do homem celebrado como o maior dos seus filhos não é algo que se faça com prazer ou de forma leviana, ainda mais quando quem o faz pertence a esse povo."
E segue fazendo uma analogia entre neurose e religião: assim como no indivíduo para o qual o trauma, recalcado na infância, volta a se manifestar como neurose na idade adulta, também os fenômenos religiosos seriam manifestações diferidas e deslocadas do trauma social convertido em dogma, depois de um longo período de latência do que foi historicamente recalcado. O judaísmo, para Freud, nasce do recalque do assassinato de Moisés por seu próprio povo.
"Freud quer nos fazer entender que há aqui outras questões em jogo — outros problemas a expor, mais urgentes do que aqueles cuja solução seria confortável", Said escreve.
O que lhe interessa na leitura de "Moisés e o Monoteísmo" —e na tese "deliberadamente provocativa" de que o judaísmo teve início no âmbito do monoteísmo egípcio— é na verdade o recalque promovido pelo Estado de Israel na criação de sua identidade.
"Ao escavar a arqueologia da identidade judaica, Freud insistia que ela não começava em si mesma, mas antes com outras identidades — egípcia e árabe [...]. Essa história não judaica, não europeia, foi apagada para sempre no que se refere a uma identidade judaica oficial."
Ataques de Israel ao Líbano - galeria
Freud não viveu para ver o Holocausto e a criação do Estado de Israel. A ideia psicanalítica de identidade, porém, não lhe permitia crer na ficção simplista e consoladora dos nacionalismos. A complexidade e o cosmopolitismo da tradição judaica à qual ele se sentia profundamente identificado eram também fatores de sua perseguição. Mas era esse risco, paradoxalmente, que a tornava única e especial.
Ao sequestrar essa identidade para o contexto da nação, o sionismo precisa ao mesmo tempo recalcá-la e subvertê-la, convertendo o judeu, de "outro", suposto estrangeiro, "não europeu" do antissemitismo, no equivalente ao europeu fora da Europa, colonizador contraposto aos habitantes locais convertidos em outro.
Ao atribuir a origem do judaísmo a um estrangeiro e insistir no não europeu a partir de uma perspectiva judaica, Freud faz um "esboço admirável do que isso implica, recusando-se a reduzir a identidade a grupos nacionalistas ou religiosos aos quais tantas pessoas desejam desesperadamente pertencer".
Que mais é preciso para entender a diferença entre antissemitismo e antissionismo?
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7. Resposta: Questionar legitimidade de Israel como Estado é antissemitismo
Distinção de antissemitismo e antissionismo pode fazer sentido, mas depende de critérios efetivamente adotados. Colunista argumentou que o sionismo construiu a identidade judaica sobre o apagamento de suas origens.
Daniel Gleizer, fsp, 24.04.2026
[RESUMO] Autor defende que coluna de Bernardo Carvalho falha ao tratar a construção histórica da identidade judaica como um processo excepcional, que não teria produzido uma base coletiva suficiente para sustentar um Estado-nação, e que críticas a Israel que adotam padrões de julgamento não aplicados a outros países devem ser entendidas como discriminação contra judeus.
Na semana passada, nesta Folha, Bernardo Carvalho voltou a uma pergunta que se tornou recorrente: o que distingue antissemitismo de antissionismo? Para respondê-la, o texto recorre à leitura do texto de Freud "Moisés e o Monoteísmo" feita pelo crítico literário palestino Edward Said, para argumentar que o sionismo teria construído a identidade judaica sobre o apagamento de suas próprias origens. O ponto problemático não é Freud. É o que Carvalho faz com Said.
O próprio Freud, ao falar de si e não de Moisés, descreve em carta a uma associação judaica de Viena seu vínculo com o judaísmo como feito de "grandiosas e obscuras potências emocionais" e de "uma clara consciência de uma identidade íntima" e considera indigno e absurdo negá-lo. Não é a imagem de uma identidade fictícia. É a de alguém que não é religioso nem nacionalista e, ainda assim, reconhece um vínculo que não consegue expressar em palavras, mas que não hesita em afirmar.
Mesmo quando formula uma hipótese reconhecidamente (por ele!) especulativa sobre a origem do judaísmo, não a apresenta como um fato histórico estabelecido. Carvalho convoca Freud como testemunha. Freud recusa-se a depor.
A falha central do texto reside em tratar esse processo como excepcional no caso judeu. O processo de formação histórica do judaísmo, como em tantos outros casos marcado por misturas, deslocamentos e recomposições, é utilizado para sugerir que não haveria uma base coletiva suficientemente consistente para sustentar um Estado-nação.
É um argumento que toma um traço comum à formação da grande maioria dos Estados nacionais e o converte em instrumento de deslegitimação: o que é reconhecido como parte integral do processo histórico de surgimento dos Estados-nação em geral é tratado aqui, seletivamente, como algo que desqualifica o próprio processo de constituição da nação judaica e do Estado de Israel.
Na sequência, o texto introduz um segundo argumento, o de que o sionismo seria um projeto colonial. Essa caracterização não se sustenta diante da realidade histórica: o sionismo carece da característica definidora do colonialismo, que é a existência de uma metrópole colonizadora voltada à exploração econômica de um território conquistado. Diferentemente das expansões imperiais, os judeus não constituíam nem representavam uma potência externa em nome da qual agiam. Não tinham para onde retornar: estavam se movendo em direção ao seu próprio centro político e histórico.
A dicotomia entre europeu e não europeu que sustenta esse argumento tampouco resiste ao exame histórico: comunidades judaicas viveram em Israel, no Iraque, na Síria, no Egito e em Marrocos por milênios, algumas desde o exílio babilônico, séculos antes de qualquer presença judaica significativa na Europa.
Não são detalhes técnicos. São a diferença entre analogia e distorção. O judaísmo não é um fenômeno europeu transplantado para o Oriente Médio. É o contrário.
Fotografias mostram Palestina antes de Israel - galeria
Além disso, a tese de uma identidade homogênea imposta sobre uma diversidade apagada ignora um dado mais profundo. Embora dispersas por séculos em regiões distantes, comunidades judaicas preservaram um núcleo comum de práticas e tradições que nunca as deixou desligar-se umas das outras nem, principalmente, da terra de Israel.
A formação social do Estado de Israel não rompe com esse padrão; ao contrário, o torna visível. Um país onde mais da metade da população judaica é descendente de comunidades do Oriente Médio e do Norte da África não corresponde à imagem do europeu colonizador, na composição da sua população nem no funcionamento das suas instituições. A narrativa não descreve Israel. Descreve o país que o argumento precisaria que fosse.
Questionar políticas de governo é um exercício legítimo e necessário; outra coisa é a deslegitimação do próprio Estado. A distinção entre antissemitismo e antissionismo pode fazer sentido em tese. Na prática, porém, o que importa não são as intenções declaradas, mas as ações e os critérios efetivamente adotados.
Uma crítica à ideia de Estados nacionais só se sustenta como posição coerente quando aplicada de forma geral, e não dirigida a um único caso. Quando a crítica a Israel adota, de forma recorrente e deliberada, padrões de julgamento que não se aplicam a nenhum outro Estado e põe em questão a sua própria legitimidade, a crítica deixa de ser apenas política e se converte em discriminação. Essa discriminação tem nome: antissemitismo.
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8. Vencedor do Nobel de Física diz que humanidade não deve durar nem 50 anos
UOL, 24/04/2026
David Gross, vencedor do Prêmio Nobel de Física de 2004, fez um alerta sobre o futuro da humanidade: ela corre sérios riscos de não durar nem mesmo mais 50 anos.
O que aconteceu
David Gross afirmou que a humanidade poderá enfrentar uma catástrofe existencial em aproximadamente 35 anos. A previsão do físico foi feita durante uma entrevista ao Live Science no último domingo (19) e se baseia, especialmente, na possibilidade de uma guerra nuclear.
"Atualmente, eu passo parte do meu tempo tentando dizer às pessoas que as chances de vocês viverem mais 50 anos são muito pequenas. Devido ao perigo de uma guerra nuclear, vocês têm cerca de 35 anos." David Gross ao Live Science.
O vencedor do Nobel levantou a questão ao ser questionado se a física chegaria a uma teoria unificada das forças fundamentais em 50 anos. Após refletir, ele foi além e questionou: será que a humanidade ainda estará viva para ver isso?
"É uma estimativa bruta. Mesmo depois do fim da Guerra Fria, quando tínhamos tratados de controle de armas estratégicas — todos os quais desapareceram —, havia estimativas de 1% de chance de guerra nuclear por ano. As coisas pioraram muito nos últimos 30 anos, como você pode ver toda vez que lê o jornal."
"Não acho que seja uma estimativa rigorosa. Acho que as chances estão mais próximas de 2%. Isso significa uma chance de 1 em 50 a cada ano. A expectativa de vida, no caso de 2% ao ano, é de cerca de 35 anos."
O que é a Teoria Unificada das Forças?
A Teoria Unificada das Forças é uma tentativa de integrar as quatro forças fundamentais da natureza — gravitacional, eletromagnética, nuclear forte e nuclear fraca — em uma única estrutura teórica. De acordo com o Cern (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), o Modelo Padrão da física de partículas unifica as forças eletromagnética, forte e fraca, mas não inclui a gravidade, que continua sendo o grande desafio para uma teoria unificada completa.
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9. Alice Carvalho: Cangaço Novo - 2ª temporada
Alice Carvalho: reviver Dinorah em 'Cangaço Novo' mostra o meu lado bonito e o feio. Atriz comenta segunda temporada da série que alavancou sua carreira, com estreia em 24/4. Após sucesso da produção, ela fez 'O Agente Secreto' e viverá a jogadora Marta nos cinemas
Teté Ribeiro, fsp, 15.04.2026
[RESUMO] A atriz Alice Carvalho, que viu sua carreira explodir e todas as portas se escancararem para ela com a série "Cangaço Novo", de 2023, comenta a volta à bandidagem no sertão, que encobre a revolta pelas injustiças da vida, com a estreia da segunda temporada, agora com seu nome, sua cara, sua voz e seu carisma devidamente reconhecidos. Ela também relembra a participação no filme "O Agente Secreto", em que vive a mulher do personagem de Wagner Moura, e o desafio atual, interpretar a jogadora de futebol Marta no cinema.
Dinorah Vaqueiro é um nome muito bom. Bom de dizer, fácil na língua, uma combinação de nome e sobrenome que viram quase uma coisa só, "dinorahvaqueiro". Como se fosse um estado de espírito, nomenclatura de quem não tem nada a perder e vai arriscar tudo com força, maldade e energia. Armas também, porque, né, ela é assaltante de banco, afinal. Anti-heroína do sertão, combatendo o patriarcado e firmando seu papel de vice-líder do bando a tiro.
Dinorah, papel de Alice Carvalho, é a personagem mais marcante de uma das séries brasileiras mais importantes desde que esse negócio de série de TV virou o que todo mundo vê, todo mundo gosta, recomenda e fala sobre quando encontra os amigos.
A série é "Cangaço Novo", https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2023/09/quem-sao-os-autores-de-cangaco-novo-melhor-serie-brasileira.shtml produção brasileira do canal de streaming Prime Vídeo, que não divulga números de audiência, mas que, só pelo que aconteceu com a carreira desta atriz de 29 anos, já valeu ter sido feita. Isso do lado de quem está na frente da TV.
Do lado de quem fica por trás, basta ver o que vai acontecer na semana que vem. Não só estreia uma nova temporada desta série de ação, suspense e cuidado extremo com todos os detalhes, de figurino a trilha, de direção de arte a preparação de atores, como desta vez, à la Netflix, concorrente direta da Prime Vídeo, todos os sete episódios vão ao ar ao mesmo tempo, em 24/4.
A primeira temporada fez muito adulto sofrer com a espera de uma semana entre episódios, que terminavam sempre num momento impossível de não querer saber o que vem depois.
Na cena final da temporada, épica, Ubaldo Vaqueiro, personagem de Allan Souza Lima, o bom moço da cidade que volta à terra natal e se reinventa como líder de um bando de assaltantes de banco ao lado da irmã, Dinorah, entra em uma igreja pegando fogo, onde estava guardado todo o dinheiro acumulado e resgata o corpo de seu pai adotivo.
Ao redor deles, sem mais nenhum outro recurso, o bando e o resto da família, em desespero, começam a rezar um Pai Nosso espontâneo. Não há nada mais a ser feito, o fogo é mais forte. A câmera se afasta e entra a voz límpida de Milton Nascimento cantando "Tudo que Você Podia Ser", gravada no álbum "Clube da Esquina", de 1972:
"Queria ser melhor depois/ Você queria ser o grande herói das estradas/ Tudo que você queria ser/ [...]
Mas não importa, não faz mal/ Você ainda pensa e é melhor do que nada/ Tudo que você consegue ser / Ou nada".
"Eu não estava preparada para aquele final. A gente gravou a cena, mas não sabia da trilha até ver no ar, virou uma tragédia grega quando entrou o Milton", lembra Alice, numa conversa sem pressa, sem hora para terminar, cavada em um intervalo entre as filmagens da cinebiografia da Marta, nossa deusa do futebol. Mais sobre isso daqui a pouco.
"A gente retoma a história algumas horas depois daquela igreja pegar fogo. Mas entre gravar aquela cena e o que vem depois se passaram três anos em que muita coisa aconteceu na minha vida. Então ao mesmo tempo em que foi como voltar para casa, por um lado, por outro eu tive que fazer um trabalho de esquecer tudo. Esquecer com quem filmei, ignorar o que as pessoas disseram, postaram, escreveram, tem que esquecer as entrevistas, sabe?"
"Dinorah é uma personagem que desde o primeiro encontro foi um convite ao risco, né? Porque foi um processo em que me permiti, pela primeira vez, como atriz, entrar em totalidade mesmo", ela reflete. "Quando fui ao reencontro com Dinorah, não podia ficar refém de uma caretice minha de querer repetir aplauso, não podia ficar num lugar conhecido porque é gostoso, até aqui gostaram, não vou me arriscar. Não. Dinorah exige que eu tire a máscara da frente e mostre meu feio e meu bonito."
E olha que tinha muita coisa para esquecer. Alice emendou as filmagens de "Cangaço Novo" com uma mudança do Rio Grande do Norte para o Rio de Janeiro, para onde foi, em princípio, provisoriamente, enquanto gravava as cenas feitas em estúdio da novela "Guerreiros do Sol" (Globoplay), curiosamente outra história de cangaço, mas essa do cangaço mesmo, aquele do início do século passado, que tinha Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá.
Ou Josué e Rosa, os nomes dos protagonistas da série baseada na história real. Alice interpretou a irmã de Rosa, Otília, uma menina tímida, que entra no cangaço para proteger Rosa, personagem de Isadora Cruz. No seu caminho, Otília vive um romance apaixonado e proibido com Jânia, mulher da sociedade interpretada pela atriz Alinne Moraes. E encanta o cangaceiro Fabiano, o sanfoneiro do bando de Josué, que ensina Otília a tocar o instrumento. "Lá fui eu fazer aula de acordeão", diz a atriz.
Quem é quem na novela 'Guerreiros do Sol' - galeria
Já tinha pegado pesado na musculação e separado um professor de muay thai para trabalhar só com ela durante a preparação para "Cangaço Novo", ainda durante a pandemia, quando outros humanos eram nosso maior inimigo. "Tive orientação nutricional também, porque precisava ganhar muita massa muscular, mas isso consegui fazer à distância."
Alice é dos encontros, gosta de gente por perto. Casa cheia é o que ela conhece como lar, tendo sido criada entre 10 crianças, irmãos e primos, todos cuidados pelos avós na cidade de Parnamirim, região metropolitana de Natal, capital do Rio Grande do Norte.
Além do trabalho como atriz, ela tem uma história longa e cheia de frutos com o grupo BaianaSystem, com quem colabora há oito anos. Atua como multiartista, dirige videoclipes, faz concepção visual de shows, participa de apresentações e até compõe junto com a turma de Russo Passapusso. Uma dessas colaborações, chamada "Línguas e Léguas", foi parar na trilha da segunda temporada de "Cangaço Novo".
"Depois do cangaço novo e do cangaço velho fiz ‘Renascer’", conta a atriz, e confesso que levei uns segundos até me tocar de que era o nome de um remake de novela a que ela se referia, que foi ao ar na TV Globo em 2024, e não um modo de dizer que foi como se ela tivesse nascido de novo.
Joaninha, sua personagem na novela, era uma mocinha humilde, religiosa, uma boa esposa para Tião Galinha, vivido por Irandhir Santos. Ela enfrentava o assédio do patrão, o fazendeiro Egídio, personagem de Vladimir Brichta. No terço final da trama, Joaninha aprendeu a tocar rabeca. "E lá fui eu fazer aula de rabeca", conta Alice.
No meio das filmagens da novela, surgiu uma daquelas missões de vida que você meio que vai sem pensar muito e só depois entende se era pra ir mesmo ou não. "Foi para fazer ‘O Agente Secreto’. A produção teve uns contratempos nas filmagens e precisavam escalar uma atriz rápido para fazer aquela cena com aquele grau de indignação, mas com alguma elegância, aquele fogo novo. E aí o Wagner falou: "Pô, vamos chamar Alicinha". Deu certo."
Wagner Moura, o protagonista do filme, assim como o diretor, Kleber Mendonça Filho, conheciam a atriz por causa de Dinorah. No lançamento de "O Agente Secreto", aqui em São Paulo, Alice estava na comissão de apresentação e defesa do filme, que percorreu diversos festivais nacionais e internacionais, ganhou vários prêmios, alcançou ótima bilheteria —ainda está em cartaz nos cinemas, apesar de já ter chegado ao streaming, coisa rara— e chegou ao Oscar com quatro indicações, incluindo melhor filme e ator.
Alice, assim como quando assistiu à cena final do último episódio da primeira temporada de "Cangaço Novo", levou um lindo e imenso susto quando viu "O Agente Secreto" pela primeira vez, na estreia mundial do longa-metragem, no Festival de Cannes de maio de 2025.
E, agora, enquanto uma multidão de gente se prepara para maratonar as quase seis horas das novas aventuras de Dinorah Vaqueiro, Alice Carvalho só tem olhos para o futebol.
Ela foi coroada com mais uma missão —i nterpretar Marta, a jogadora de futebol que impulsionou a maior mudança recente no esporte. Marta fez tanto pelo futebol feminino brasileiro quanto para o público de esporte em geral, que abriu a cabeça para aceitar, depois torcer e por fim idolatrar uma jogadora mulher. Até as transmissões das partidas na TV são reflexo das barreiras derrubadas por essa atleta fenomenal, que continua na ativa aos 40 anos.
"Eu sempre soube que meu destino estava no contato. Ou eu ia ser esportista, num esporte de contato, ou ia fazer teatro de contato", diz Alice. "Joguei futsal, handebol, era muito do esporte. Mas uma hora tive que optar, e o teatro falou mais alto. Viver esse reencontro com as quadras está sendo lindo."
Alice Carvalho volta com fúria ao 'Cangaço Novo' - galeria
E lá foi Alice ter aulas de futebol? "Fui, fui, tô tendo ainda. E vida regrada, de atleta. Oito horas de sono, não pode sair à noite na sexta-feira, tem que comer direito, na hora certa", conta. "Mas é muita sorte poder fazer uma personagem tão iluminada como ela enquanto ela está na ativa. A Marta está muito presente no processo, a gente conversa muito, ela me ensina toda hora. Não só como jogar, mas é uma mentora mesmo, uma orientadora ética e moral."
O maior orgulho da intérprete foi ter conquistado um lugar num grupo muito seleto de WhatsApp formado pela atleta, em que Marta transmite uma oração todas as manhãs.
Pergunto se vamos ver Marta na seleção brasileira na Copa do Mundo de 2027, no Brasil, e Alice me diz que deseja que sim. "O que essa mulher tá jogando bola, minha filha, não é fácil descrever. Rapaz, quando ela entra em campo, o peso da camisa parece mudar, muda o ambiente, as pessoas param para ver essa mulher. Ela é uma rainha. Só que recusa a coroa."
Sei bem como é. Como quando Dinorah Vaqueiro entra na trama. Sem artigo antes do nome, para honrar o jeito de falar de sua intérprete.
Cangaço Novo - 2ª temporada
Quando estreia em 24 de abril. Onde no Prime Video
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10. Hungria encerra era Orbán entre desafio da mudança e risco de revanche
Vitória do Tisza de Péter Magyar rompe ciclo de concentração de poder do premiê, mas herda máquina ainda ativa. Com maioria ampla, novo governo deve enfrentar dilema entre reformar sistema cooptado e punir adversários.
Renáta Uitz & Thiago Amparo, fsp, 12.04.2026
Na noite deste domingo (12), a era Viktor Orbán chegou ao fim. Após 16 anos no poder, o premiê reconheceu a derrota de seu partido, o Fidesz, nas eleições da Hungria. Não se trata de um feito menor: ao longo de quatro mandatos parlamentares, o sistema eleitoral foi inteiramente remodelado para favorecê-lo.
Depois da vitória esmagadora de 2010, que deu ao Fidesz uma maioria de dois terços no Parlamento, Orbán anunciou a construção de uma democracia iliberal, com o desmonte sistemático das instituições encarregadas de limitar o poder. O que se seguiu foi uma profunda transformação política, social e cultural, cuidadosamente inscrita no texto constitucional de uma nova Constituição, promulgada em 2012.
O regime de Orbán sempre foi pragmático na maximização do poder e jamais escondeu suas inspirações. Seu projeto constitucional se inspirou em exemplos russos e foi moldado em meio a relações tensas com as instituições europeias, ao mesmo tempo em que mantinha o premiê como aliado próximo da Rússia.
Ao longo desses anos, a Hungria também conseguiu exportar para outros aliados europeus esse repertório constitucional altamente adaptável. O fato de muitas dessas medidas violarem abertamente padrões europeus de direitos humanos parece tê-las tornado ainda mais atraentes.
Em 16 anos, Orbán deixou de ser o expoente excêntrico da democracia iliberal em um pequeno país pós-comunista para se tornar um ícone global da autocratização revestida de valores nacionalistas-cristãos — admirado por figuras como Donald Trump, J. D. Vance, os Bolsonaros e Vladimir Putin.
A receita de Orbán foi construída com cuidado, por meio da formação de redes transnacionais de atores políticos conservadores e cristãos, intelectuais e influenciadores. O calendário político incluía conferências internacionais sobre demografia, festivais culturais voltados à mobilização da juventude, cafés da manhã de oração, reuniões ministeriais na Casa Branca e, claro, a grande vitrine da política conservadora internacional: a CPAC, nos Estados Unidos, com seus desdobramentos na Hungria e na Polônia.
Esta eleição transformou-se em um carnaval de primeira linha do conservadorismo nacional, enquanto o governo Orbán trabalhava incansavelmente para ajudar a erguer uma nova ordem mundial. O espetáculo incluiu uma edição da CPAC Hungria, encabeçada por Javier Milei. Em um dos painéis, Eduardo Bolsonaro vociferou contra a condenação judicial de seu pai por tentar um golpe de Estado
Hungria decide destino da era Viktor Orbán, ícone da ultradireita global - galeria
Dias depois, Vance apareceu em Budapeste para reafirmar aos eleitores húngaros o apoio e a admiração de Trump pelo projeto orbanista. Ao mesmo tempo, os esforços de campanha do Fidesz contaram não apenas com desinformação russa, mas também com uma equipe especializada de consultores eleitorais operando a partir da embaixada russa em Budapeste.
O vencedor do domingo, o partido Tisza, liderado por Péter Magyar, é um recém-chegado à cena política. O próprio Magyar vem dos círculos sociais do Fidesz, e a plataforma do Tisza é pró-europeia, embora socialmente conservadora. De modo algum Magyar é um progressista, e o Parlamento húngaro permanece dividido entre oposição de direita, de um lado, e o campo da ultradireita, de outro.
Por ora, o Tisza funciona mais como um movimento político do que como um partido moderno e disciplinado. Sua vitória se deve, em grande medida, à atuação incansável de seu principal líder e de dezenas de milhares de ativistas que mobilizaram eleitores no interior do país —nreduto tradicional de apoio ao Fidesz.
A campanha de Magyar prometeu uma mudança de regime, uma postura firme contra a corrupção e em favor da transparência das contas públicas; serviços públicos que funcionem e uma redistribuição mais equitativa de recursos; e um retorno à Europa.
Se quiser de fato restaurar a democracia constitucional, o Tisza terá de reverter a hipertrofia dos poderes do Executivo, inclusive os poderes de emergência; enfrentar a tarefa de desarmar um Tribunal Constitucional capturado; revogar leis que demonizam organizações da sociedade civil e pessoas LGBTQIA+; e revisitar a concentração da propriedade dos meios de comunicação e do controle editorial nas mãos de aliados de Orbán, as restrições à liberdade de reunião e as reformas eleitorais que redesenharam distritos para favorecer seu campo político.
Orbán e a máquina política do Fidesz serão um legado difícil de suceder. A situação econômica é dramática: os recursos estão nas mãos de empresários e oligarcas alinhados ao Fidesz, em algo frequentemente descrito, sem muito rodeio, como um Estado mafioso, enquanto os serviços públicos se deterioram.
Os fundos da União Europeia, se vierem a ser liberados, poderão dar algum fôlego, mas não resolverão os problemas de caixa do novo governo, agravados pela dependência da Hungria do petróleo russo. Integrar a União Europeia não significa apenas ter acesso a recursos, mas também voltar a operar sob regras e restrições que a equipe húngara em Bruxelas precisará reaprender.
A maioria projetada de dois terços do Tisza no Parlamento facilitará a aprovação de reformas legais e constitucionais. Mas a tentação de um poder quase ilimitado é difícil de resistir, e a política da transparência pode facilmente se transformar em política de vingança, sobretudo quando os ânimos estão exaltados.
Quando Viktor Orbán reconheceu publicamente, no domingo, a derrota do Fidesz, o campo do Tisza reagiu, a princípio, com um silêncio quase desconcertante. A celebração levou alguns instantes para ganhar corpo. Nas ruas de Budapeste, o conhecido grito de "Fidesz sujo!" foi substituído por "Europa! Europa!", a trilha sonora de uma mudança de regime, exatamente 23 anos depois do referendo que selou a entrada da Hungria na União Europeia.
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11. IA une Elis Regina e Paulinho da Costa pela primeira vez em música restaurada para novo álbum
Percussionista brasileiro que gravou com Michael Jackson e Madonna se emocionou ao tocar em faixa derivada de uma gravação feita em 1976. Ao ‘Estadão’, João Marcello Bôscoli, filho de Elis, que produziu o material, comenta polêmicas recentes causadas por iniciativas como essa. ‘Não vou deixar a Elis em uma jaula tecnológica’
Danilo Casaletti, O Estado, 11/04/2026
As imagens do clipe que vai revelar a nova versão da canção Corsário na voz de Elis Regina (1945-1982) a partir de 10 de maio (Dia das Mães) trazem algo absolutamente genuíno, incapaz de ser reproduzido por qualquer inteligência artificial até o momento: a emoção expressa em lágrimas pelo percussionista brasileiro Paulinho da Costa, 77 anos, ao gravar pela primeira vez em uma faixa da cantora.
O que a IA pôde, sim, fazer foi propiciar esse encontro, 44 anos após a morte de Elis, em um take gravado por ela há exatos 50 anos. A voz de Elis em Corsário, composição de João Bosco e Aldir Blanc, dois de seus compositores prediletos, soa agora mais límpida, atualizada para 2026, por nove ou mais softwares utilizados em cadeia pelo engenheiro de som Ricardo Camera, sem desvirtuar o canto da artista. Não foram usados afinadores vocais e o andamento escolhido por Elis na época foi preservado.
Feito isso, e com um novo acompanhamento gravado por um quarteto [leia mais abaixo sobre o conceito do projeto], Costa foi ao estúdio Trama NaCena, em São Paulo, em um domingo de manhã, a convite do filho mais velho de Elis, João Marcello Bôscoli, produtor da faixa, para gravar sua participação. Pedro Mariano, filho do meio da cantora, fez a supervisão vocal. Processo parecido com o feito para o lançamento da faixa Now and Then, dos Beatles, em 2023.
Radicado nos Estados Unidos desde 1972, o músico carioca é considerado um dos maiores percussionistas do mundo - já tocou em faixas de artistas como Michael Jackson, Quincy Jones, Herbie Hancock, Madonna, Diana Ross, Whitney Houston e Celine Dion. Desde março, a história de Costa pode ser vista no documentário The Groove Under The Groove: os sons de Paulinho da Costa, disponível na Netflix.
“Ele me disse: ‘Isso não é nem um sonho realizado, pois eu nem sonhava que isso aconteceria. É um milagre’”, conta Bôscoli, reproduzindo a reação de Costa. “O músico que está no estúdio, ouvindo a voz restaurada da Elis no fone para tocar, tem a sensação de que ela está na cabine ao lado”, completa, sobre como a gravação mexeu com os envolvidos no projeto.
Bôscoli lembra que teve uma breve conversa sobre Costa com Elis quando era criança — ele tinha 11 anos quando a cantora morreu. Ao ler o nome dele na ficha técnica do disco do grupo americano Earth, Wind & Fire, perguntou à mãe se o músico era brasileiro. “É sim. Ele é o melhor percussionista do mundo”, respondeu Elis.
Costa recebeu a gravação de Corsário já com acompanhamento da banda. Ouviu e ficou pensando no que gostaria de fazer. Listou os equipamentos: bongô, congas, carrilhão, pratos, agogô e cowbell. “Ele criou tudo amarrado com a letra, mas sem ser óbvio. Gravou em um único take, não precisou repetir”, conta Bôscoli. “Uma característica de um gigante da música: fazer algo que toca a todos, mas muito pessoal também”.
Corsário é o segundo single de um álbum de 10 faixas de Elis que tem previsão para ser lançado pela Trama em novembro deste ano — a primeira delas, Para Lennon e McCartney, chegou às plataformas digitais em 2025. Todas passaram pelo mesmo processo de restauração com auxílio da IA.
Bôscoli revela uma preocupação e um pedido de Costa. O músico quis saber se as demais faixas teriam também percussão. A intenção dele era dosar aquilo que faria em Corsário para que não soasse muito desequilibrada no conjunto das demais. Quanto à “exigência”, algo tão justo quanto modesto: pediu para que o nome dele aparecesse na ficha técnica.
O compositor João Bosco será o próximo convidado do projeto. Ele grava, na próxima semana, sua participação no samba O Mestre- Sala dos Mares, dele e Aldir Blanc. O pianista americano Herbie Hancock, fã declarado de Elis, também está na lista de desejos de Bôscoli.
O que a IA pode fazer atualmente
Corsário foi registrada originalmente por Elis para um especial gravado pela TV Bandeirantes em 1976, junto com outras seis faixas. Mais duas que estarão no álbum que será lançado em novembro, Velho Arvoredo e A Banca do Distinto, foram gravadas em outros momentos.
Em 1984, dois anos após a morte da cantora, essas gravações integraram o projeto Luz das Estrelas, da Som Livre, produzido por Max Pierre. Na ocasião, os instrumentos originais utilizados em 1976 foram apagados e as faixas ganharam novos arranjos feitos por Wagner Tiso, Lincoln Olivetti, Dori Caymmi, entre outros. A intenção era que Elis soasse como uma artista daquele tempo. O resultado até hoje divide a opinião dos fãs por parecer deslocado do restante da obra da cantora.
Sem o acompanhamento original dos músicos de 1976 e sem acesso às fitas originais, apenas com a voz de Elis disponível em uma digitalização feita pela Som Livre, Bôscoli, agora, refez tudo.
O produtor estabeleceu um conceito para que o álbum-homenagem fosse coerente e tentasse evitar o incômodo causado por Luz das Estrelas: como a voz foi gravada em 1976, foram escolhidos instrumentos e equipamentos anteriores a esse período: uma bateria Ludwig 1970, piano Fender Rhodes 1974, sintetizador 1973 e o contrabaixo que era de Luizão Maia (1949-2005), músico que tocou por quase 10 anos com Elis.
A banda que gravou em Corsário, além de Paulinho da Costa, é formada por Marcelo Maita (piano elétrico e sintetizador), Conrado Goys (guitarra), Robinho Tavares (baixo) e Daniel de Paula (bateria).
O aparato da tecnologia atual ajudou a resolver questões relativas à voz da cantora. A mais crítica delas era o vazamento dos instrumentos no microfone de mão (SM-58/Shure) utilizado por ela no registro para a televisão.
“Se você tem Elis fazendo um ‘ch’ ou um ‘s’ e, na mesma hora tem um prato [da bateria], há entrelaçamentos de harmônicos muito complexos que são impossíveis de serem retirados se você não vir o som [na tela do computador] para eliminá-los manualmente”, exemplifica.
O processo precisa ser acompanhado por um humano, em tempo real. O trabalho pode durar meses, com espera para que o software atualize para, quem sabe, ser capaz de resolver determinado problema que ficou pendente.
“Não se trata apenas de um prompt [instrução dada à inteligência artificial]. Os softwares que cuidam da mixagem de uma faixa, ou seja, da equalização de grave, médio e agudo, não são do mesmo tipo que fazem um beat se você der um comando. É uma ferramenta”, exemplifica Bôscoli.
Bôscoli explica que é fundamental que uma faixa de Elis soe atual, mesmo ela já sendo uma cantora moderna e ter atuado nos anos 1970, período referência até hoje para produtores e artistas. “Faltava, então, o áudio com parâmetros da nossa época. Se não fizermos isso, um jovem que gosta de Olivia Jean, Laufey ou Rosalía, e coloca Elis em uma playlist, vai querer tirar. Porque, na sequência, a Elis vai soar com um som de filme antigo em meio a outras faixas”.
Ele acredita que, dentre cinco a sete anos, a IA vai avançar para transformar os processos mais curtos e permitir ajustes de microdetalhes. Um agudo emitido de forma mais rascante, por exemplo, poderá ser alterado para uma região mais confortável. Outra funcionalidade aguardada por Bôscoli é que vai permitir o restauro de gravações caseiras, como as feitas nas antigas fitas cassete.
“A melhor música do futuro já foi gravada. E será lançada graças à inteligência artificial e à criatividade do ser humano. É a tecnologia e a música dissolvendo o tempo”, opina Bôscoli.
Para além da tecnologia, a nova versão de Corsário enriquece o tema da canção: a luta de uma personagem contra a solidão ao se lançar em novas navegações da alma. Com a voz de Elis mais nítida, a palavra ‘mar’ — pilar da letra — que, em sua primeira aparição na gravação soava involuntariamente quase como ‘má’, com um ‘r’ bem curtinho, agora não deixa dúvida. É um mergulho certeiro, com um empurrãozinho da IA.
Recuperação recente de álbum de Elis gerou protesto
Corsário chegará ao meio digital antecedida por uma polêmica causada pela remasterização e nova mixagem de um dos álbuns mais emblemáticos e conceituais da cantora, Elis, lançado em 1973, o que tem faixas como Folhas Secas, É Com Esse Que Eu Vou e Ladeira da Preguiça. O caso mostrou que há, além da empolgação com o que a IA é capaz de realizar, uma questão legal e ética colocada em discussão.
Realizada também por João Marcello Bôscoli e Ricardo Camera e lançada em 17 de março, dia do aniversário de Elis, a releitura do disco, trabalhada com os mesmos softwares de recuperação de áudio, desagradou o ex-marido de Elis, o maestro Cesar Camargo Mariano. O músico, pai de Pedro e Maria Rita, foi responsável pelos arranjos de algumas das faixas e tocou em todas elas.
Em uma postagem em seu perfil no Instagram logo após o lançamento, Mariano afirmou que ouviu a nova versão de Elis com “tristeza” e alegou que todo o trabalho realizado em 1973 foi “jogado no lixo”. Ele apontou alterações em compassos e sincronização em É Com Esse Que Eu Vou, além da inclusão de instrumentos nas faixas O Caçador de Esmeralda e Doente Morena. Mariano recebeu apoio de artistas como Fafá de Belém, Elba Ramalho, Hamilton de Holanda, Paulo Miklos e Frejat.
Nesta semana, por meio de sua advogada, Deborah Sztajnberg, Mariano notificou a Universal Music, gravadora que detém a master original do álbum e que lançou a nova versão autorizada pelos três filhos e herdeiros de Elis, Bôscoli, Pedro Mariano e Maria Rita.
Ao Estadão, Sztajnberg disse que o músico tinha que ter sido consultado sobre o lançamento. “Como detentor de direitos conexos, patrimonais, e por ter participado ativamente do álbum como músico e arranjador, ele deveria ter sido ouvido. A gravadora sabe muito bem qual é o procedimento necessário”.
No passado, Mariano foi contratado pela Trama para trabalhar na remasterização do álbum Elis & Tom, que passou por processo de remasterização e nova mixagem em 2004, também com produção de Bôscoli. Entre o Elis & Tom e Elis 73, foram lançadas novas versões do Elis 80 e de Falso Brilhante. Mariano não se opôs publicamente a nenhuma delas.
Sztajnberg, que já atuou em casos complexos, como o de João Gilberto, que impediu a gravadora EMI de relançar três de seus fundamentais discos remasterizados, afirma que escutou a antiga e a nova versão de Elis 73 por duas semanas seguidas, para fins de comparação. Ela, que é pianista, afirma que o álbum foi “mutilado”. Por ora, a advogada diz que vai buscar um acordo com a Universal — para ela, a maior culpada na história — além de solicitar que o vinil, programado para sair até o final do ano, seja suspenso. Sztajnberg não demonstra a intenção de pedir a retirada da nova edição das plataformas digitais.
A Universal Music não respondeu ao contato do Estadão. O espaço segue aberto para a manifestação da gravadora.
Para Bôscoli, não cabe a Mariano avalizar a nova versão de Elis 73. “Ele pode emitir a opinião dele, mas não tem uma causa. É só um barulho. Ele é um músico entre cinco no álbum. Ele não é produtor. Não fez todos os arranjos. Não é herdeiro da Elis. Não há pleito, portanto”, diz.
O produtor afirma que o pedido de Mariano não é “justo” e o classifica como “irresponsável”. “Se for assim, ninguém vai remasterizar mais nenhum álbum. O Paulinho [da Costa] poderia travar faixas como Billie Jean [de Michael Jacskon] ou La Isla Bonita [de Madonna], por exemplo, que ele participou”. Ele aponta a bateria mono, distorções de voz e instrumentos como os principais problemas do disco de 1973, o que, segundo ele, justificam a nova versão — a antiga segue nas plataformas digitais.
Bôscoli esclarece que ele e os irmãos, Pedro e Maria Rita, decidem em conjunto as iniciativas sobre a obra da Elis. Pedro se manifestou indiretamente nas redes sociais, compartilhando uma frase dita pela mãe em 1981, na qual a cantora expressa que sua família é composta por quatro pessoas: ela e os três filhos. Maria Rita, até o momento, preferiu o silêncio.
“Tenho 55 anos. Dirijo restaurações há mais de 30 anos. Não vou deixar a Elis em uma jaula tecnológica de 1973 porque algum purista decidiu que deva ser assim. Não posso mantê-la fora dos parâmetros atuais. Se eu fizer isso, estarei banindo a Elis do mercado”, finaliza Bôscoli.
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12. ‘Mestre Zu’: documentário dirigido por Zelito Viana revisita trajetória de Zuenir Ventura
Filme, que será exibido no Festival É Tudo Verdade, reúne depoimentos que revelam, além de histórias curiosas, a importância do jornalista para o país: ‘Novas gerações precisam conhecê-lo’, diz diretor
Por Bolívar Torres, O Globo, 12/04/2026
Zuenir Ventura https://pt.wikipedia.org/wiki/Zuenir_Ventura cobriu alguns dos mais importantes eventos do país dos últimos 60 anos. Da ditadura militar à contracultura nos anos 1960 e 1970, passando pela redemocratização, por chacinas que marcaram o Rio nos anos 1990 e pelo assassinato de Chico Mendes em 1998. Faltava ao jornalista ser tema de filme. O documentário “Mestre Zu”, que será exibido neste sábado (11) às 18h30, no Estação Net Rio, no festival É Tudo Verdade, preenche essa lacuna.
No filme, o diretor Zelito Viana reuniu em sua casa amigos e parentes de Zuenir para lembrar histórias e reconstruir a trajetória do repórter, editor, cronista e escritor de 94 anos. O documentário alterna uma roda de conversa informal com imagens e entrevistas de arquivo, além de depoimentos de Flávio Pinheiro, Arthur Dapieve, Guguta Brandão, Paulinho da Viola, Tina Correia, os filhos do homenageado, Mauro e Elisa Ventura, e os colunistas do GLOBO Ancelmo Gois, Joaquim Ferreira dos Santos e Míriam Leitão. Zuenir, também entrevistado, aparece em diferentes momentos da vida.
— Cheguei numa época da vida em que me dedico a filmes que só eu posso fazer — diz Zelito, de 87 anos e amigo de longa data do tema do doc. — Qualquer um poderia fazer um filme sobre Zuenir, mas só eu poderia fazer este filme, que passa pela minha amizade com ele.
O projeto não partiu do biografado. A semente foi plantada pela filha Elisa Ventura, e inicialmente conduzida pelo cineasta Marcos Vinicius, que morreu durante a pandemia. O bastão foi passado a Zelito após uma conversa casual de Elisa com sua esposa, a produtora Vera de Paula.
— A ideia era mostrar a onipresença de Zuenir nas últimas décadas — conta Elisa. — Ao pesquisar mais percebi como ele estava em todos os acontecimentos importantes, sempre de forma muito atuante, extrapolando o papel de observador. A sensibilidade de Zelito foi essencial para unir esse peso histórico com os relatos hilários que os dois compartilham.
Obstáculos no início
O doc revisita as dificuldades econômicas da família em Nova Friburgo, na Região Serrana. Estudioso desde sempre, o menino Zuenir cresceu sem livros nem jornais em casa. Só conseguiu fazer o primário numa escola de padres porque a mãe lavava batinas em troca de uma bolsa. Enquanto pensava em ser padre, começou a trabalhar com o pai, pintor de paredes, aos 11 anos.
Zuenir foi contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista. Na faculdade, trabalhou como arquivista noturno na Tribuna de Imprensa, jornal de Carlos Lacerda. Em 1956, o futuro governador da Guanabara procurou alguém para escrever um artigo sobre o escritor francês Albert Camus. Como o autor era seu ídolo, Zuenir se candidatou. Com o sucesso do artigo, surgiu a lenda de que o contínuo do arquivo era um gênio.
“Não era verdade: eu não era nem contínuo, nem gênio”, relembra Zuenir numa entrevista dos anos 1980 resgatada pelo documentário. O convite para trabalhar na redação da Tribuna veio em seguida. Vieram depois passagens por veículos como o Correio da Manhã e as revistas Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão (onde trabalhou com Vladimir Herzog, torturado e morto pela ditadura em 1975) e IstoÉ.
Em 1985, Zuenir foi convidado para reformular o caderno de cultura do Jornal do Brasil e, de quebra, ajudou a criar o caderno literário Ideias. Como lembra Heloísa Teixeira (1939-2025) no filme, ele se tornou o grande jornalista cultural do Rio. Uma de suas revoluções foi publicar, todo ano, balanços da cena cultural. A produtora Guguta Brandão conta que no Jornal do Brasil ele foi responsável por falar de nomes que até então ninguém conhecia no país, como a ensaísta Susan Sontag e o filósofo Edgard Morin.
Culto e irreverente
Reinventando a pauta de comportamento, o jornalista lançou termos que se popularizaram, como “vazio cultural”, para definir o ataque à expressão artística após o AI-5, e “amizade colorida”, para relações amorosas sem compromisso afetivo.
— Zuenir é um raro mestre capaz da arte de equilibrar o homem culto e sofisticado com um eterno jovem de muito humor e irreverência — diz Joaquim Ferreira dos Santos, com quem trabalhou na Veja e no Jornal do Brasil. — Aprendi e me diverti muito com ele. Profissionalmente, mesmo sendo um dos medalhões do jornalismo, ele sempre preferiu as áreas de cultura e comportamento às editorias de mais status, como política. A capacidade de criar pautas, de encontrar assuntos nas miudezas da cidade, me marcou muito. Além da enorme dedicação ao ofício, sempre generoso, querendo se renovar e incentivando quem estivesse com ele.
O documentário mostra como Zuenir identificou fraturas sociais e políticas do país. No livro “1968: o ano que não terminou”, ele documenta o auge da repressão da ditadura militar, assim como os movimentos de resistência e rebeldia que moldaram uma geração. Em “Cidade partida”, analisa a violência na favela de Vigário Geral após a chacina de 21 pessoas, assim como a consolidação do funk carioca como expressão cultural e os movimentos pela paz como o Viva Rio.
Zelito Viana cita o comentário final do jornalista Gerson Camarotti, que aponta o trabalho de Zuenir como uma inspiração de coragem para momentos atuais, em que a democracia segue sob ataque.
— As novas gerações precisam conhecer o trabalho de Zuenir, entender tudo que o jornalismo pode ser — diz Zelito.
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13. A realidade do mal
Único jornalista brasileiro a cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, há 65 anos, relembra postura do nazista no tribunal em Jerusalém e contesta tese de Hannah Arendt de que um dos responsáveis pelo holocausto encarnou a ‘banalidade do mal’. Zevi Ghivelder contesta tese de Hannah Arendt de que um dos responsáveis pelo holocausto encarnou a ‘banalidade do mal’
Por Zevi Ghivelder, O Globo, 12/04/2026
Na data de 11 de abril, 65 anos atrás completados ontem, um generoso sol de primavera iluminava os tons dourados da cidade de Jerusalém. Naquele dia, às nove horas da manhã, haveria ali um evento histórico: o início do julgamento do criminoso de guerra Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela execução da chamada Solução Final, o extermínio dos judeus na Europa ocupada pela Alemanha nazista.
Para quem não sabe, ou não se lembra, Eichmann vivia com identidade falsa em Buenos Aires, onde se havia refugiado depois da guerra. Foi capturado em maio de 1960 pelo serviço secreto de Israel e levado para julgamento em Jerusalém.
O austero auditório de um centro cultural da cidade foi transformado em tribunal, no qual durante seis semanas ocupei o assento número 18, na fila H, designado para a cobertura do julgamento pela revista semanal Manchete. Eu era o único brasileiro, ao lado de umas duas centenas de correspondentes internacionais. Meu lugar ficava a pouca distância de uma jaula feita com vidros à prova de bala, o banco dos réus. Ao fundo, uma portinhola foi aberta no horário exato para dar passagem ao acusado.
Atento e alheio
Adolf Eichmann entrou em sua jaula com o olhar fixo em algum ponto distante. Não chegou a se sentar porque todos os presentes, na plateia e no balcão lotados, se levantaram à entrada dos três juízes israelenses que o julgariam. Quando Eichmann ficou de pé, percebi que seu terno azul-marinho e a camisa branca pareciam ser de um número acima do seu tamanho. Não aparentava inquietação, mas não conseguia controlar a mão direita com um leve tremor, pouco perceptível, porém resistente. Conservou uma postura firme e ereta naquele momento, que decerto era o mais crucial de sua existência. Seria lugar-comum apontá-lo, naquela circunstância, como um homem frio e intrinsecamente perverso. Era surpreendente sua reação: parecia estar ao mesmo tempo tão atento como alheio àquele acontecimento em que era o foco central. Foi como um autômato que se sentou em frente a uma estreita mesa sobre a qual depositou uma pilha de papéis, que viria a consultar com frequência e sobre os quais fez anotações no decorrer do processo. Em seguida, ajeitou os óculos, colocou fones nos ouvidos para tradução simultânea e fixou o olhar na direção de seu advogado. Durante todo tempo observei que, se ele não fosse quem era, poderia ser tomado por um réu de colarinho branco ou um diligente funcionário de repartição municipal, examinando relatórios e anotando pareceres. Ele só demonstrou algum desconforto durante os impressionantes depoimentos de testemunhas do Holocausto. Os relatos dos sobreviventes eram inimagináveis. Enquanto os horrores e as atrocidades nazistas eram descritos, ele torcia o nariz para um lado ou para o outro. Somente uma vez o vi tirar um lenço do bolso e passá-lo sobre o rosto.
O libelo do promotor israelense Hausner começou com um gesto teatral e impactante: ele apontou o braço para a jaula de vidro e exclamou: “Aqui estão ao meu lado seis milhões de inocentes assassinados.”
O advogado alemão de Eichmann levantou uma objeção que parecia pertinente. Como seu cliente tinha sido sequestrado, e sendo o sequestro um ato ilegal, o julgamento deveria ser anulado. A promotoria estava preparada para essa argumentação. Hausner desfilou uma série de julgamentos em diferentes épocas e localidades, nos quais os réus tinham sido sequestrados e seus procedimentos penais haviam sido validados.
A defesa tinha outra objeção: era inadmissível Eichmann ser julgado em Israel, onde ele não havia cometido nenhum crime e, portanto, a jurisdição era ilegal. O promotor rebateu: Eichmann era responsável por atos criminosos na Alemanha, na Polônia e na Hungria. Qual a jurisdição pertinente? Se fosse a Alemanha, o centro do nazismo, qual Alemanha, a Ocidental ou a Oriental? Como não havia uma jurisdição precisa para o réu, arguiu que esta deveria ser a da vítima. Quem era a vítima? O povo judeu. Quem representava o povo judeu? O Estado de Israel. Foi a tese que prevaleceu e, ao cabo do julgamento, Eichmann foi condenado à morte, consumada em julho do ano seguinte.
As pessoas invariavelmente me perguntam se conheci em Jerusalém a pensadora judia-alemã Hannah Arendt, que cobriu o julgamento para a revista The New Yorker. Na verdade, àquela altura, eu não estava familiarizado com sua obra, nem com sua fisionomia. Mas conheci o pensamento de Arendt quando, um ano mais tarde, li seu livro “Eichmann em Jerusalém”, no qual elaborou uma tese que até hoje viraliza: Adolf Eichmann era a síntese da banalidade do mal. Com tal afirmação, expôs que Eichmann, assim como centenas ou milhares de seus similares, tinha sido tão somente um fiel cumpridor de suas obrigações como oficial nazista, não podendo ser diretamente responsabilizado pelos atos malignos que eventualmente tenha cometido. O mal se configurava como uma banalidade interposta em sua trajetória de obediência aos propósitos do Terceiro Reich.
Hannah Arendt incorreu na negligência de omitir que Eichmann fora designado para chefiar a seção judaica do partido nazista em 1937. Além disso, naquele ano foi enviado para a Palestina para avaliar se os judeus alemães poderiam ser deportados em massa para o território sob administração britânica. Também não registrou que coube a Eichmann redigir a ata da Conferência de Wansee, em 1942, na qual foi definida a logística da Solução Final, que ele mesmo implementaria.
Em seu livro, Hannah Arendt escreve que a Solução Final só pôde ser executada porque contou com a colaboração do establishment judaico. É uma afirmação insidiosa baseada em seu repúdio ideológico a qualquer establishment. Ela classifica como establishment os comitês judaicos que foram formados em guetos com a finalidade de dialogar com os alemães e na medida do possível retardar as deportações para os campos de extermínio. Os próprios membros desses comitês também foram executados.
A tese da banalidade do mal, que a rigor deve dar lugar à tese da realidade do mal, acabou sendo demolida há dois anos, por conta da descoberta da gravação de uma entrevista que Eichmann concedeu a um jornalista holandês, em Buenos Aires, antes de seu sequestro. A certa altura, ele diz: “Apontam seis milhões de judeus mortos. Acho que poderíamos ter chegado a dez.”
‘Um momentito, señor’
Poucos anos depois do julgamento, fiz grande amizade com Zvi Malkin, conhecido como Zvika, o agente do Mossad que foi incumbido de interceptar Adolf Eichmann na Rua Garibaldi, localizada num subúrbio de Buenos Aires. Zvika me contou muitos pormenores da captura de Eichmann, que nunca foram divulgados. O maior cuidado da equipe de agentes israelenses era se certificar se aquele homem que vinham monitorando à distância era realmente o coronel nazista. Depois, coube a Zvika aprender a dizer em espanhol: “Un momentito, señor.”
O criminoso nazista desceu de um ônibus e seguiu caminhando, quando foi abordado por Zvika, que lhe disse a frase decorada e deu mais um passo para capturar Eichmann. No entanto, foi ele quem segurou Zvika, e os dois caíram numa vala aberta junto à rua sem calçamento. Outro agente veio em socorro, e conseguiram arremeter Eichmann abaixo do banco traseiro de um automóvel. O carro partiu em velocidade e, minutos depois, já com o rosto encapuzado, ele murmurou: “Já sei que vocês são de Israel.”
Zvika foi o primeiro a se comunicar com Eichmann, que lhe falou sobre a viagem à Palestina. Relatou ter admirado as conquistas dos judeus na agricultura, a modernidade que começava a chegar a Tel Aviv e até aprendeu o verso inicial do “Shemah”, a mais tradicional oração judaica, que recitou em hebraico. Zvika me revelou que quando ouviu aquele texto sagrado dito por Eichmann, soube se conter para não agredi-lo. Em outra ocasião, Zvika lhe falou que sua irmã e dois sobrinhos tinham sido mortos numa câmara de gás. Adolf Eichmann respondeu: “Sinto muito. Mas eles eram judeus, não eram?”
O julgamento de Adolf Eichmann deixou o importante legado de estimular pesquisas e estudos sobre o Holocausto, que hoje se contam aos milhares. Além disso, reafirmou um princípio transcendental: cumprir ordens não exime de culpa.
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14. Filme com Bella Campos e Xamã é daqueles que o Brasil deveria produzir mais
F5, UOL, 11.04.2026
'Cinco Tipos de Medo' marca a estreia no cinema de estrelas das novelas 'Vale Tudo' e 'Três Graças'
Com roteiro bem construído e sem saídas fáceis, história busca comunicação com o grande público
O cinema brasileiro costuma produzir dois tipos de filme: os autorais, feitos de acordo com o desejo e a criatividade do seu diretor, pouco preocupados com a bilheteria; e os comerciais, feitos de olho no maior público possível, mas de roteiros rasos e saídas fáceis. É raro encontrar aquele filme que comunica bem com um público amplo sem abrir mão de algum tipo de originalidade.
"Cinco Tipos de Medo", com Bella Campos e Xamã, que estreou na última quinta (9), tem um roteiro hábil e bem construído que o público está mais acostumado a ver em Hollywood. Merece encontrar um bom público nas 300 salas e 100 cidades em que foi lançado.
Imagens do filme Cinco Tipos de Medo
Com direção de Bruno Bini e rodada em Cuiabá (MT), o longa traz a história de cinco personagens que se cruzam entre o amor e a violência. O cinéfilo de mais memória certamente vai se lembrar de "Crash - No Limite", que venceu o Oscar de melhor filme nos tempos remotos de 2005. Na época, o resultado foi bastante contestado, já que o concorrente favorito da maioria era o drama gay "O Segredo de Brokeback Mountain".
Vamos à história. Quando está no hospital, o músico Murilo (João Vitor Silva) conhece a enfermeira Marlene (Bella Campos) e se envolve com ela. Mas Marlene ainda não se livrou de um relacionamento abusivo com Sapinho (Xamã), o traficante de uma favela local.
Quem tem contas a acertar com Sapinho é a policial Luciana (Bárbara Colen), por conta de uma tragédia pessoal do passado. Numa troca de tiros, também é atingida a mulher do advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz). O caminho dos cinco vai se cruzar várias vezes ao longo do filme, de formas inesperadas.
"Cinco Tipos de Medo" saiu vencedor do último Festival de Gramado, em agosto do ano passado. O júri parece ter concordado que um filme que se comunica bem com o público não precisa sempre rimar com filme raso –é o que nos mostrou o sucesso de "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto", filmes que infelizmente não aparecem todo dia.
Parte da crítica contestou o resultado, e preferia que o vencedor fosse o brasiliense "A Natureza das Coisas Invisíveis", de Rafaela Camelo (outro filme excelente, que merece ser visto), ou o carioca "Papagaios", de Douglas Soares. Mas me parece que a decisão do júri não foi nada descabida.
Passados mais de 30 anos da retomada do cinema brasileiro, ainda dá pra dizer que o roteiro dos filmes segue sendo o nosso calcanhar de Aquiles. É comum encontrar histórias que falham naquilo que os manuais clássicos de roteiro ensinam que é fundamental: construir a identificação do público com o protagonista, não ter medo de revelar seus pontos fracos, levar os eventos para um caminho surpreendente, construir um final memorável que traga algum significado à história contada até ali. Sem ser nenhuma obra-prima, mas atingindo seus objetivos, o filme de Bruno Bini consegue tudo isso.
Mas claro que um roteiro sozinho não faz um bom filme. Os cinco atores principais dão bem conta do recado. Isso inclui Bella Campos e Xamã em seus primeiros filmes –o rapper ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante no festival gaúcho.
Sem passagens pelo Oscar, Globo de Ouro ou Festival de Cannes, e sem um grande orçamento de divulgação, "Cinco Tipos de Medo" pode penar para conseguir alcançar a marca dos 100 mil espectadores. Isso ainda seria bem longe dos 6 milhões de "Ainda Estou Aqui" e dos 2,4 milhões de "O Agente Secreto". Mas ele pode certamente contar com o boca-a-boca positivo de quem for aos cinemas assisti-lo.
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15. Rio de lama e seus afluentes - Muniz Sodré
Palavra-chave no dia a dia da cidade é caos urbano. Massas eleitorais cariocas são regidas pela lógica do pior
Muniz Sodré, fsp, 11.04.2026
Logo no início da peça "Júlio César", de Shakespeare, um vidente adverte o imperador: "Cuidado com os idos de março", 15 de março no calendário romano. Sem dar atenção à profecia, César é assassinado nesse mesmo dia. Mas não foi preciso áugure nenhum para se prever que março seria um mês ominoso no Rio de Janeiro, tendo em vista os prazos eleitorais de desincompatibilização para a alternância dos titulares no poder. Uma semana depois dos idos, o Rio ficou ao mesmo tempo sem governador, prefeito, chefe de polícia e secretariado. É a cidade do "perdeu!", uma metrópole à matroca.
Em "Águas de Março", obra-prima da canção popular, depois de avaliar pau, pedra e o fim do caminho, Tom Jobim conclui que "é a lama / é a lama". Metáfora adequada ao Rio de agora, um vórtice perigoso, com seus afluentes. No "Aleph", Borges fala de homens que parecem estar cansados da indignidade de um mundo sem perigos. Traduza-se para entre nós: um mundo que troque ousadas políticas estruturantes pela calmaria gestionária que rebaixa a representação popular ao centro e à corrupção. Não por acaso as lideranças fluminenses dos últimos anos tiveram a indigna experiência do encarceramento por peculato.
A percepção nacional que sempre se teve do Rio de Janeiro era de ordem política e cultural, não econômica. Com a transferência da Capital Federal para Brasília, a vida política provincianizou-se e, aos poucos, submergiu nas coalizões eleitorais dos caciques interioranos. Com isso não se corrompeu apenas o acesso ao erário público, mas também sobreveio aberta promiscuidade entre crime e Estado.
Fragmentadas em zonas de tráfico e milícias, sujeitas à lavagem de cérebros pela máquina pentecostal, as massas eleitorais passaram a ser regidas pela lógica do pior. O senso comum carioca anestesiou-se na sensação praieira de que, se o indivíduo tem um tumor, não falar dele melhora. Não causou escândalo público a condecoração de matadores do "escritório do crime" pelo parlamentar Flávio Bolsonaro em plena penitenciária. O estado virou refém de quadrilhas e clãs criminosos.
Em princípio, cultura e turismo, que sempre responderam pelo brilho internacional do Rio, não foram afetados pela necropolítica das ruas nem pelo fascismo moral das massas, adeptas do combate ao terror pelo terror. Festeja-se a matança simultânea de 120 pessoas, com sugestões de moderação no extermínio e promessas de um megaevento, que incrementaria turismo e "cultura", definidos numa mesma chave produtiva. Mas, quando a cidade volta ser ela mesma, a palavra-chave é caos urbano.
Fotógrafo da Folha vence prêmio internacional de fotojornalismo - galeria
Esse é o ciclo vicioso do Rio de sangue, em que navega o senador Flávio Bolsonaro com a fantasia de que os EUA bombardeiem a Guanabara para acabar com o crime. Assumindo o golpismo como partido, ele faz campanha em inglês ("dog English", na verdade), pregando o "delivery" da soberania brasileira ao governo norte-americano.
Isso agora, pós-idos do março ominoso. Tom Jobim está coberto de poesia e razão: "É a lama / é a lama". Nos palanques, nos palácios, em pororoca.
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16. Perguntas sobre Marilyn
Ruy Castro, fsp, 11.04.2026
Os cem anos que ela faria em junho serão reduzidos às mesmas questões de sempre
Não, Hollywood não destruiu Marilyn, Kennedy não mandou matá-la, e ela não se suicidou
No próximo 1º de junho, Marilyn Monroe faria cem anos. Talvez mais do que aconteceria com qualquer outra celebridade, seremos avassalados por material a seu respeito — pena que concentrado nas perguntas que sua morte, em 1962, aos 36 anos, deixou em aberto. Hollywood a destruiu? Foi assassinada pela CIA a mando do presidente John Kennedy, com quem tivera um caso? Teria cometido suicídio? Cada livro dos mais de 1.500 sobre ela até agora explora uma das opções. Na dupla qualidade de viúvo e estudioso de Marilyn, também cheguei a algumas conclusões.
Hollywood não matou Marilyn. Nenhum estúdio, muito menos a 20th Century-Fox, mataria sua maior estrela. Ao contrário, a Fox levou anos tolerando seus atrasos e faltas ao trabalho e scripts mal decorados, provocados por sua dieta do sedativo Nembutal e do estimulante Benzedrine, engolidos com champanha Taittinger, hábitos já consolidados desde meados dos anos 50. E não era o estúdio que lhe fornecia —ela comprava na farmácia. Com todos os prejuízos que isso lhe causava, a Fox sabia que o que MM lhe rendia diante das câmeras valia a pena. Até que ficou impraticável e, meses antes de Marilyn morrer, demitiram-na.
A história da CIA é pura ficção. Se não, Kennedy também teria mandado matar Frank Sinatra, cujos comprometedores amigos italianos tinham-lhe sido muito úteis na sua eleição em 1960. Quando começou a incomodá-lo, Kennedy apenas virou as costas a Sinatra, como faria com Marilyn.
E a tese do suicídio é primária. A não ser que se dê esse nome ao massacre do organismo por aquelas e outras substâncias lícitas, o dia todo, todos os dias e durante anos, sob cruel dependência. Um dia, o organismo se cansa de lutar e pede demissão. Aconteceu com Carmen Miranda (aos 46 anos), Judy Garland (47), Elvis Presley (42), Michael Jackson (50), Amy Winehouse (27), Prince (57) e continuará acontecendo.
Não foi também amor que faltou a Marilyn. Além de casos com dezenas, teve a seus pés, apaixonado, um considerável aglomerado chamado o mundo.
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17. Passado indígena de Itacoatiara é investigado em filme que participa de mostra de cinema ambiental na Espanha
Documentário, que será exibido no começo da semana, ressalta a ancestralidade do lugar que tem origem tupi-guarani e o processo de apagamento dessa história ao longo dos tempos
Por Geraldo Ribeiro , O Globo, 11/04/2026
Muitas das pessoas que vão a Itacoatiara, uma das praias mais atraentes de Niterói, localizada no bairro de mesmo nome na Região Oceânica da cidade, não fazem ideia do passado indígena do lugar, cuja denominação vem do tupi-guarani e significa "pedra pintada, esculpida ou riscada". Este e outros aspectos da história local — assim como as afinidades com uma cidade de mesmo nome na região metropolitana de Manaus — são explorados no documentário "Itacoatiaras", dirigido pelo cineasta amazonense Sérgio Andrade e pela artista e pesquisadora fluminense Patricia Goùvea. Nas próximas segunda e terça-feira, o filme participa na Espanha da mostra competitiva de longas-metragens do Ecozine, prestigiado festival internacional de cinema ambiental que acontece em Zaragoza.
O longa busca investigar os dois espaços com nome em comum —a Itacoatiara fluminense e a amazonense — estudando suas realidades e desafios locais distintos, mas ao mesmo tempo ligados por histórias de ancestralidade indígena em diáspora, apagadas por séculos de colonização. Além disso, a produção aponta a fragilidade ambiental dos dois lugares.
— O filme mostra como os territórios são importantes para a gente, como precisamos defender os sítios arqueológicos, a nossa natureza, ou tudo vai acabar. Se a gente deixar à mercê da especulação imobiliária tudo vai ser destruído. A história do Rio de Janeiro é de sucessivo apagamento — aponta Patrícia Goùvea, que tem uma forte ligação com a Itacoatiara fluminense, que frequenta desde a infância e para onde se mudou há três anos.
A diretora diz que só depois fazer o filme conseguiu entender porque sempre sentiu que Itacoatiara transmitia para ela e outros frequentadores da praia um sentimento de conexão espiritual bastante forte. O documentário mostra, segundo ela, o que faz dali um local especial.
— O documentário mostra que foi um lugar de passagem dos ancestrais. As pedras de Itacoatiara são lugares de conexão com o sagrado, através dos povos originários — afirmou.
O escritor e jornalista Rafael Freitas da Silva, autor do livro "O Rio antes do Rio", que serviu de base para as pesquisas para o filme, reafirma essa ligação com a ancestralidade e diz que não só Itacoatiara, mais várias outras localidades de Niterói têm ligação com o passado indígena, assim como a própria cidade.
— Há fontes históricas que apontam Niterói como uma antiga comunidade tupinambá. A costa da cidade, interiores, lagoas e toda a área que vai até a Região dos Lagos esteve sob domínio total dos tupinambás durante pelo menos 2 mil anos. Ali eles criaram o que podemos chamar de civilização tupinambá, com as aldeias e as estradas que as ligavam. Se for olhar no mapa, todos os nomes (dos bairros) são indígenas porque, mesmo após a conquista do Rio de Janeiro pelos portugueses, a população continuou sendo indígena por pelos mais mais duzentos anos — explicou Rafael, citando Pendotiba, Itaipuaçu, Piratininga, Jurujuba e Icaraí como exemplos de localizadas no município com nomes de origem indígena.
Rafael, que também participa do filme, acha que muita gente já naturalizou os nomes desses lugares e não questiona mais sua origem. Sobre Itacoatiara, ele considera que essa denominação vai além da simples referência à natureza do lugar.
— Ita é "pedra" e coatiara seria "riscada". Mas essa segunda palavra tem muitos outros significados. Pode ser atribuída também a coisas feitas a mão ou certas marcas. Minha hipótese é que Itacoatiara era um lugar de culto dos caraíbas tupinambás, que tinham marcas específicas nas pedras, que eles mostravam para os jesuítas, as marcas dos deuses que estavam à beira-mar.
O filme começou a ser feito em 2021, ainda durante pandemia, teve uma interrupção de três anos, por falta de recursos, foi retomado em 2024 e concluído no primeiro semestre de 2025. Lançado no segundo semestre do ano passado, teve sua première mundial na Suécia, no Festival de Cinema Latino-americano de Estocolmo, e participou de importantes mostras e competições nacionais e internacionais, incluindo o Festival do Rio do ano passado, na Mostra COP 30.
Na Ecozine, na Espanha — onde a diretora chegou na manhã desta sexta-feira —, o filme brasileiro compete com outros sete longa-metragens do mundo inteiro que têm como foco a discussão sobre emergência climática, meio ambiente e futuros possíveis. Patrícia diz que para este semestre a ideia é levar o filme para outros festivais de cinema ambiental.
— Esse (Ecozine) é o primeiro e eu estou viajando graças a todo um esforço da embaixada do Brasil na Espanha e ao apoio do Instituto Guimarães Rosa — conta a diretora.
Na mostra espanhola, serão duas sessões na cidade de Zaragoza, com a presença de Patricia Goùvea, seguidas de bate-papo com o público: segunda-feira, às 10h30, na Aula Magna da Faculdade de Filosofia e Letras; e terça-feira, às 20h, na Filmoteca de Zaragoza.
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18. Três razões para Lula ter jogado Moraes aos leões
Presidente tem vários motivos para largar a mão daquele a quem, por mais de uma ocasião, chamou de salvador da democracia.
Thaís Oyama, O Globo, 11/04/2026
O presidente Lula, em entrevista ao ICL Notícias, referiu-se ao ministro do STF Alexandre de Moraes como “companheiro Alexandre” para três frases depois, jogar o companheiro Alexandre aos leões. Dois dias após a CPI do Banco Master revelar que o patrimônio do magistrado triplicou desde a sua chegada ao STF — e que só os 17 imóveis que possui com a mulher estão avaliados em R$ 31,5 milhões —, Lula afirmou que quem quer “ficar milionário não pode ser ministro da Suprema Corte”. Disse ainda que “salário de deputado, governador, presidente da República não permite que ninguém seja rico”. E acrescentou: se alguém enriquece durante o mandato, é “porque teve outras coisas para ficar rico”. Um pouco mais e Moraes ficaria tentado a enquadrar Lula num de seus inquéritos imorríveis.
O presidente tem vários motivos — até onde a vista alcança, todos de natureza eleitoral — para largar a mão daquele a quem, por mais de uma ocasião, chamou de salvador da democracia — uma das togas mais poderosas do tribunal que foi o parceiro institucional e instância de sustentação de seu governo nos choques com o Congresso.
A primeira razão para Lula descartar o até aqui aliado Moraes é que a sucessão de revelações sobre as ligações cada vez mais escancaradas entre o Banco Master e os cada vez menos egrégios ministros do Supremo tornou improvável a contenção do escândalo — e ele não pode se dar ao luxo de ficar na contramão da opinião pública. Segundo a última pesquisa Quaest, mais brasileiros não confiam no STF (49%) do que confiam (43%); e 66% querem votar em candidatos ao Senado que apoiem o impeachment de ministros. O pior dado para Lula: 59% veem a Corte como aliada do governo.
Há uma segunda razão para ele abandonar Moraes — cuja biografia disse ter tentado salvar sugerindo ao ministro uma declaração de impedimento e um truque retórico (“Diga textualmente: ‘Minha mulher estava advogando, minha mulher não tem que pedir licença pra mim, ela faz as coisas…’.”). Essa razão passa pelo fato de, assim como Lula, Flávio Bolsonaro dar um braço para não ter de subir num palanque e falar sobre o envolvimento de ministros do STF no caso Master.
O filho de Jair Bolsonaro segue com o freio de mão puxado no assunto não apenas por ter pai presidiário e à mercê da Corte, mas por temer pela própria sorte. Assombra-o a hipótese — até agora nem cogitada, nem fundamentada — de integrantes da Corte produzirem um fato jurídico que leve o TSE a indeferir o registro de sua candidatura. Por isso, até aqui, o bolsonarista vem tratando com ponderada distância os passivos de Moraes e Dias Toffoli — o combinado é que, provocado, ele jogue para os candidatos ao Congresso a resposta sobre eventuais impeachments. Próceres do PL receiam ainda pelo destino de cinco pré-candidatos do partido ao Senado que respondem a ações no Supremo, entre eles Carlos Bolsonaro.
Por motivos distintos, tanto Lula quanto Flávio pretendiam manter a maior distância possível do inconveniente assunto dos magistrados radioativos. A entrada de Caiado na eleição, porém, tende a obrigar os dois a mudar o jogo. Na segunda-feira, o candidato do PSD declarou que, antes mesmo de um eventual impeachment de ministros, o STF deveria “cortar na própria carne” e afastar os nomes envolvidos no escândalo. Ao arrastar o tema para a arena presidencial, Caiado obriga Flávio a segui-lo, ao mesmo tempo que força Lula a se mexer para não ficar com o mico na mão.
A terceira razão para o petista buscar distanciamento sanitário do ex-aliado Moraes nasce do solo fértil da especulação: é que um passarinho, altamente informado sobre o andamento das investigações policiais do Master, contou ao presidente que mais coisa pesada vem por aí — e que não há salvação para a biografia do companheiro Alexandre.
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19. Mulher pobre e periférica morreu de São Paulo, Brasil
Violência policial ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos
Flávia Oliveira, O Globo, 11/04/2026l
Múltiplas mazelas brasileiras confluíram para a morte de Thawanna da Silva Salmázio, às vésperas de completar 32 anos, na madrugada da Sexta-Feira Santa, feriado sagrado para os cristãos. Aconteceu em Cidade Tiradentes, Zona Leste da capital paulista. Poderia ter ocorrido em qualquer comunidade, favela, quebrada, invasão, periferia de metrópoles brasileiras. A violência policial praticada pela soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, há três meses em estágio supervisionado na PM-SP, foi a face mais visível da tragédia que, por uma banalidade, ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos.
O Brasil tem produzido órfãos em escala inaceitável. A situação é grave a ponto de o presidente da República ter sancionado a Lei 14.717/2023, que instituiu pensão de um salário mínimo para filhos e dependentes menores de 18 anos de vítimas de feminicídio. O Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (UEL) contou 683 meninos e meninas que perderam suas mães, apenas no primeiro semestre do ano passado. Nesta semana, a filha de Gisele Alves Santana, também policial militar em São Paulo, começou a receber a pensão a que terá direito até os 18 anos, pela perda da mãe. O valor corresponde a cerca de um terço da aposentadoria rapidamente concedida ao tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso por suspeita de assassinar a então mulher.
Thawanna deixou cinco crianças. Sua vida não foi abreviada por marido, companheiro, namorado ou ex, infortúnio de 1.568 brasileiras no ano passado. Morreu em decorrência de outra anomalia nacional, a brutalidade de agentes do Estado. Foi atingida pelo disparo único de uma policial dez anos mais nova. Como assinalou a Anistia Internacional Brasil em nota sobre o crime, a novata não usava câmera corporal, mas portava a arma de fogo que não hesitou em sacar. O caso foi registrado inicialmente na delegacia como resistência.
O episódio que pôs fim à vida da trabalhadora autônoma foi registrado pela câmera corporal do PM Weden Silva Soares, parceiro da soldado Yasmin. O equipamento não inibiu a abordagem indevida nem impediu o assassinato, mas foi essencial para esclarecer o episódio e enlutar o país. A perseguição a uma motocicleta levou o par de policiais à Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes. O retrovisor da viatura tocou no braço de Luciano Gonçalvez dos Santos, que caminhava com a mulher pelo asfalto.
Thawanna estaria viva se vivesse num país menos desigual, num estado que não abandonasse áreas periféricas à própria sorte, numa cidade com urbanização bem feita. Morreu porque, diferentemente dos bairros ricos, seu CEP não dá direito a calçadas amplas, em que moradores não disputam espaço com carros e motos. Perdeu a vida porque era pobre e se arriscou à dupla violência: do trânsito e da polícia. Tivesse outro endereço, viveria.
Aqui não se trata de especulação. Em entrevista ao portal UOL, em agosto de 2017, o tenente-coronel Mello Araújo, então comandante da Rota, tropa de elite da PM-SP, hoje vice-prefeito da capital, declarou que a forma de abordagem dos agentes nos Jardins, área abastada da cidade, é diferente da periferia:
— É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia] da mesma forma que uma pessoa aqui nos Jardins, vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado. Da mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma linguagem de uma pessoa da periferia aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro. O policial tem que se adaptar àquele meio em que está naquele momento.
Em quase nove anos, o livro-texto não parece ter sido atualizado. Depois de esbarrar no marido de Thawanne, o soldado Weden deu marcha a ré na viatura e abordou o casal com rispidez e um palavrão, conforme os registros da câmera corporal obtidos pelo repórter Lucas Jozino, da TV Globo e do g1 SP:
— A rua é lugar para você tá andando, c***lho?
A ocorrência, que inexistia, começou ali, com a abordagem indevida de um policial, a atitude intempestiva da colega, que saiu da viatura, discutiu com Thawanna e, minutos depois, a matou. A vítima, filha, esposa e mãe de cinco filhos menores de 16 anos, ainda esperou meia hora por socorro. Reportagem de Gustavo Honório, do g1 SP, mostrou que o resgate foi solicitado 40 segundos após o tiro, mas o Corpo de Bombeiros só chegou 30 minutos depois, ainda que houvesse bases da corporação a seis e a 13 minutos do local. Na PM-SP, a meta para atendimentos de emergência é de até 20 minutos.
A existência de uma jovem mãe foi abreviada por morar onde morava, caminhar onde caminhava. Por motivo banal, sofrer abordagem policial indevida, levar um tiro de uma agente da lei e, baleada, permanecer desassistida. Morreu de São Paulo. Morreu de Brasil.
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20. PAULINHO DA COSTA + JOÃO MARCELLO BÔSCOLI - Flow #575 - vídeo
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21. Rafael Rabello - vídeo
Poucos músicos conseguem atravessar o tempo com a força de um instrumento. Raphael Rabello foi um desses raros casos. Neste trecho de telejornal, não se trata apenas de um livro de biografias — revela um legado. Uma obra que mergulha na vida intensa e breve de um gênio do violão brasileiro, cuja técnica impecável e sensibilidade profunda colocaram seu nome ao lado dos maiores da nossa música. Mais do que páginas, esse livro é um encontro com a alma de Raphael: sua disciplina quase obsessiva, sua paixão pelo choro e sua capacidade única de transformar cordas em emoção pura. Para quem vive a música — ou quer entender o que é, de fato, dedicação à arte — essa história não é só para ser lida… é para ser sentida. Porque alguns músicos não passam pelo mundo. Eles deixam marcas que continuam ecoando em cada nota.
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22. Nelson Gonçalves valente - vídeo
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23. Carta aberta a um jovem que teve a redação zerada na Fuvest
Marcelo Soares, especial para a piauí, 31 mar 2026
Prezado Luis Henrique,
Ainda não nos conhecemos, mas já lemos textos um do outro. Eu li sua redação da Fuvest, que chegou a mim pelas redes sociais com críticas ao seu vocabulário. Você deve ter lido ao menos um trecho do meu artigo Como eu, você e todos nós estamos nos transformando em uma nuvem de dados – e isto não é nada bom, usado na questão 2 da prova de língua portuguesa, no mesmo dia em que você escreveu as linhas que devem ter tirado sua paz nos últimos dias.
“Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito”, começa seu texto. Li assim que chegou a mim: como um meme e parte de uma notícia, acompanhado de muitos comentários engraçadinhos feitos a respeito. Eu mesmo, inicialmente, fiz graça. Ao longo do sábado, porém, pensei melhor sobre o assunto. A gente raramente para e pensa quando as coisas chegam como meme, né? Lembrei dos meus 18 anos, no século passado, cometendo textos muito parecidos com aquele seu, com vocabulário semelhante. Já quebrei a cara por isso. Então, resolvi lhe escrever.
Para começar, acho importante separar quem é o Luis Henrique, um jovem que ainda tem muito a viver e a aprender, do que é a redação dele, provavelmente o maior e talvez único fracasso experimentado em sua juventude. Em rede social, eu sei, essa separação de autor e obra não costuma acontecer, mas é absolutamente necessária. O texto é o que está naquela página que foi entregue, e nunca mudará; você está no começo da sua formação. Seria triste se o que fôssemos aos 18 anos fosse tudo o que seremos pelo resto da vida.
Todas as críticas pertinentes ao seu texto já foram feitas por professores entrevistados. A sua redação pouco tratou diretamente do tema proposto e ignorou os textos motivadores – uma bela coleção, com Juliana de Albuquerque, Carla Madeira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Arlindo Cruz e Machado de Assis, além de uma foto de Abdel Kareem Hana, da Associated Press (AP), sobre a fila após o cessar-fogo em Gaza. O vocabulário que você empregou ajudou a distrair a atenção dos avaliadores, e os autores que você preferiu citar até poderiam se tornar relevantes ao tema se você deixasse a conexão mais clara. Dá pra dizer que houve fuga do assunto, o que zera uma redação do Enem; na Fuvest, não sei qual é a regra.
Ao reler seu texto, suponho que você tentou demonstrar o que considera ter de melhor, numa linguagem que busca espelhar um estilo comum na profissão que pretende seguir. Você demonstrou ter um vocabulário rico do que Ernest Hemingway chamava de “palavras de dez dólares”; dá pra dizer muito mais gastando menos. Ouça as observações feitas por profissionais a esse seu texto sem levá-las para o lado pessoal. Divorcie-se do que você escreveu: você está em formação, e aquela redação é só um pedaço de papel que você compôs em relativamente pouco tempo e já entregou. Só assim poderá aprender com as observações textuais como as várias feitas por professores. (O que desconhecidos tiverem dito sobre sua personalidade, desconsidere. A vida alheia não pode ser entretenimento.)
Digo isso porque, em escala muito menor, já estive no seu lugar.
Vou te contar uma história que só quem me conhece bem sabe. Antes de ser um jornalista com mais de 25 anos de experiência e um texto usado em questão da Fuvest, eu também já tive 18 anos. Foi no século passado, quando não havia redes sociais para transformar em chacota qualquer momento ruim da vida de alguém. Sou muito grato por ter sido adolescente nos anos 1990, e isso também faz parte.
Olha, Luis: hoje, eu sei que escrevia mal pra dedéu; aos 18 anos, eu julgava concatenar vocábulos com a pena de Hermes, deus grego da oratória e patrono da comunicação, esbanjando os dólares do Hemingway como se estivessem sobrando. Calhei de trombar, no primeiro semestre da faculdade, com um professor que resolveu me humilhar para mostrar à turma como não se devia escrever. As primeiras críticas ácidas vieram em caneta azul. Tentei chamá-lo para um café para pedir conselhos; ele nunca podia. Depois de pedir ajuda, as críticas foram públicas. “Escrever como o Marcelo é patifaria”, disse o professor, num dia em que faltei, a uns trinta colegas. Por anos, tive vergonha de falar com aqueles colegas. Recentemente, já aposentado, o professor disse em entrevista que gostava de fustigar algum aluno para sinalizar o mau exemplo. Eu só tinha 18 anos e muito a aprender.
De tanta raiva que tive desse professor, acabei aprendendo a escrever de maneira clara e informal. O último texto que entreguei na disciplina é o primeiro que eu reconheço como tendo a minha voz. Escrevi naquele trabalho um xingamento tão pesado ao professor que ele me reprovou; eu sabia desse risco e avaliei que seria uma forma de me livrar dele. Consegui, mas não recomendo a ninguém que faça o mesmo. Foi um inferno organizar disciplinas nos semestres seguintes, mas a outra professora era razoável e gentil. Hoje, acredito que o professor que xinguei não estava errado no mérito, pois eu escrevia de fato muito mal, mas errou rude na abordagem. Hoje, quando posso orientar algum jovem, gosto de canetear na sua frente, sem colegas em volta, apontando problemas e sugerindo soluções. O importante não é o primeiro texto, é o último.
O que aconteceu com você, porém, foi bem diferente; a avaliação do seu texto pela banca, por tudo o que se sabe, foi técnica e impessoal, por mais que você tenha perdido o vestibular por isso. Aquele texto de fato tem problemas que você pode aprender a resolver. Assim como jogar videogame ou tocar violão, escrever tem técnica, e técnica se aprende.
Triste é ter virado assunto público. O processo movido contra a universidade pôs seu texto na boca de muita gente que não lhe conhece e que, no entanto, expressa opiniões sobre você, suas intenções e seu futuro, porque é disso que vivem as redes sociais. Muito disso é ocioso: quando entrar na faculdade, você terá anos para aprender as melhores técnicas de redação jurídica, se aproveitar bem as aulas e os estágios. O que importa é o que você ainda escreverá. Ser “verde” é o melhor defeito possível: é o único que passa com o tempo.
A contribuição que tenho neste momento é sugerir que releia a questão https://www.fuvest.br/wp-content/uploads/fuvest2026-fase2-dia1-respostas-esperadas.pdf que utilizou o meu texto na prova de língua portuguesa da Fuvest. Não é nem por ser o texto de um sobrevivente à execração em sala de aula, e sim pelo que quem elaborou a questão viu nele. Eu não fazia ideia de que um dia teria essa honra e fui pego de surpresa. O enunciado pedia que os estudantes discutissem duas estratégias que usei para tornar o texto mais acessível. Na resolução proposta pela Fuvest, eles apontam o uso de analogias, diálogo direto com o leitor, uso de registro de linguagem cotidiana, evitando termos muito especializados, e um título chamativo para chamar a atenção do leitor. Eu nunca tinha pensado exatamente dessa forma, mas de fato os elementos estão lá. Essas ideias são um bom começo para você treinar para sua próxima tentativa. Se você resolveu bem essa questão, pode resolver bem sua próxima redação.
Um truque que sempre funciona é ter em mente quem é o seu leitor. O que determina o sucesso de um texto não é o que a gente escreve, e sim o que o leitor entende; quanto melhor imaginarmos quem vai ler, mais fácil fica achar o tom. Numa redação de vestibular, você será lido por um grupo de professores que precisam ler e avaliar em muito pouco tempo, cada um, centenas de dissertações escritas com pressa e esperança. Quanto menos o autor puder dificultar o trabalho do leitor, mais fácil é o texto ter boa aceitação.
A leitora que eu sempre tenho em mente é minha mãe, que não chegou a completar o ensino médio, mas gostava de estar bem informada. Se ela entendesse, muita gente entenderia. Ela morreu de câncer de mama, há mais de dez anos, e eu fiquei furioso pela falta de informação dela. “As notícias sempre falam que morrem X%, e eu achei que estava nas Y%”, ela falou. Por isso, escrevi uma reportagem sobre a doença para o jornal onde eu trabalhava na época. Não tendo podido salvar minha mãe, quis alertar outras mães. Escrevi de maneira que ela fosse fisgada até o final do texto, com a história de uma personagem. No dia seguinte, uma colega contou que, após ler o texto, sua mãe revelou que tinha um nódulo no peito e marcou exames. Era câncer de mama, foi tratado imediatamente e, até onde eu saiba, ela ainda está por aí (pergunto sempre que tenho chance). O abraço que ganhei da colega valeu muito mais do que qualquer prêmio que eu tenha na estante.
Clareza na escrita é uma virtude fundamental. No direito, carreira que você busca, ser entendido sem equívoco faz diferença, por mais que muitos advogados ainda não acreditem nisso. Na medicina, o dr. Drauzio Varella é um dos melhores exemplos de como a clareza pode fazer bem à saúde de um país inteiro. Poucas coisas são mais chatas do que relatórios de gestão municipal; quando Graciliano Ramos foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL), porém, ele redigiu relatórios https://cfa.org.br/wp-content/uploads/2018/08/Cartilha_graciliano_web18.pdf considerados exemplares até hoje por sua simplicidade na escrita. A clareza das linhas começa com a clareza das ideias. Profissionais de todas as áreas se beneficiariam ao serem compreendidos, e isso melhoraria a sociedade para todos.
Luis, eu entendo perfeitamente sua frustração em não passar no vestibular. Por tudo o que se disse sobre você, e eu lamento demais que sua vida tenha virado objeto de escrutínio, você parece ter excelentes chances de ser aprovado numa próxima tentativa. Espero voltar a ouvir falar sobre você no futuro, em muitas situações agradáveis.
Enquanto isso, treine mais escrita. Caso queira tomar um café e me mostrar algo que tenha escrito, estamos na mesma cidade. Estou torcendo por você.
Abraço,
Marcelo Soares: Jornalista especializado em análise de dados, é fundador do estúdio de inteligência de dados Lagom Data
































