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Textos impertinentes
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Classe e racismo na formação social brasileira
Prelúdio
Num post recente deste blog três artigos analisam a identidade parda, pensada como o espectro racial que sintetiza a experiência da miscigenação que atravessa a história do Brasil (No Brasil, não é a extrema direita que rejeita mestiçagem. Ver aqui). Nos três textos, classe social, capitalismo e racismo não aparecem na mesma frase.
O Brasil contemporâneo tem uma das pirâmides salariais mais desiguais do planeta Terra. 83% da classe trabalhadora brasileira ganha até 3 salários mínimos (ver detalhes no final deste post). O salário mínimo, em 2026, é de R$1.621,00 ou 310,5 dólares. (O salário mínimo ideal calculado pelo DIEESE para 2025 era de R$ 7.067,68, enquanto o salário mínimo federal era de R$ 1.518,00.)
No artigo abaixo classe social, capitalismo e racismo aparecem na mesma frase.
Classe e racismo na formação social brasileira
LARA, Ricardo; BARCELOS, Jonaz Gil. Classe e racismo na formação social brasileira. Revista Linhas. Disponível aqui. Ou aqui.
Revista Linhas. Florianópolis, v. 21, n. 46, p. 204-223, maio/ago. 2020.
Resumo
O objetivo deste artigo é discutir introdutoriamente a intrínseca relação entre classe e raça na formação do povo trabalhador brasileiro. Para isso, abordaremos aspectos concernentes à figura do negro como escravo e, posteriormente, como trabalhador assalariado. Destacaremos questões que consideramos fundamentais para o entendimento do conceito de classe, entendendo que para essa discussão, na especificidade brasileira, a análise do racismo torna-se imprescindível para não cometermos equívocos no estudo da sociedade de classes.
Introdução
Analisar as classes sociais no Brasil exige discussão sobre o racismo [1] e, por conseguinte, o regime escravocrata de exploração que durou mais de trezentos anos e deixou marcas indeléveis, forjando um preconceito racial tenazmente vigoroso em nossa sociedade. Utilizando-se tanto de argumentos de base religiosa, como a “maldição de Cam” [2] – que para muitos trazia na cor da pele negra a marca que justificava a escravização dos povos oriundos da África –, quanto de argumentos de cunho pseudocientífico – que afirmavam ser o negro um indivíduo biologicamente inferior –, os negros se viram relegados a uma posição de subalternidade, foram escravizados num primeiro momento e, posteriormente, sujeitos de discriminações em território nacional [3].
O certo é que por razões econômicas, os povos originários da América e da África foram escravizados, fazendo dessas pessoas bens lucrativos e rentáveis para a acumulação originária de capital. Em algumas interpretações apressadas é corrente identificar a escravidão ao negro, o que temos nas Américas é uma situação específica de escravização que em princípio escravizou os povos autóctones e, por conseguinte, os povos africanos.
Portanto, neste artigo [4] pretendemos apresentar de maneira introdutória a relação entre classe e raça na formação do povo trabalhador brasileiro. Para desenvolver a análise, destacaremos aspectos socioeconômicos que consideramos basilares para o entendimento da especificidade brasileira, em especial no que se refere aos estudos sobre a classe trabalhadora.
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[1] Concordamos com as análises de Clóvis Moura (2019, p. 4-5) de que: “Ao longo da história, o racismo foi a justificação dos privilégios das elites e dos infortúnios das classes subalternas. Somente admitindo o papel social, ideológico e político do racismo poderemos compreender sua força permanente e seu significado polimórfico e ambivalente. O racismo é um multiplicador ideológico que se nutre das ambições políticas e expansionistas das nações dominadoras e serve-lhe como arma de combate e de justificativa para os crimes cometidos em nome do direito biológico, psicológico e cultural de ‘raças eleitas’. Ordenado o colonialismo através do racismo, as nações dominantes sentiram-se à vontade para o saque às colônias e para as razias mais odiosas nas regiões da Ásia, América Latina, África e Oceania e para agir contra todos os que compunham as multidões de desamparados e anônimos da história. Não só roubaram-lhes as riquezas, mas suas culturas, crenças, costumes, língua, religião, sistemas de parentesco e tudo o que durante milênios esses povos constituíram, estruturaram e dinamizaram. Há também o racismo interno em várias nações, especialmente nas que fizeram parte do sistema colonial, através do qual suas classes dominantes mantêm o sistema de exploração das camadas trabalhadoras negras e mestiças.”
[2] Para melhor esclarecimento, ver: PÉTRÉ-GRENOUILLEAU (2009).
[3] Para um debate aprofundado, ver: MOURA (2014).
[4] Artigo resultado do projeto de pesquisa e extensão Formação e desenvolvimento da sociedade brasileira: especificidades do trabalho, do Núcleo de Estudos e Pesquisas: trabalho, questão social e América Latina (NEPTQSAL/DSS/UFSC).
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Trabalho e escravidão
A escravidão não nasceu do racismo, pelo contrário, o racismo foi consequência da escravidão, pois o trabalho forçado no Novo Mundo foi vermelho, branco, preto e amarelo. O primeiro caso de tráfico de escravos que se desenvolveu no Novo Mundo, em termos raciais, foi de índios e não de negros africanos. Primeiramente, os indígenas sucumbiram às condições de trabalho, cativeiro e doenças, o que resultou na posterior escravização do africano. Mesmo antes da escravização dos negros africanos, tentou-se substituir o índio pelo branco pobre. Destaca-se também que o estoque indígena de força de trabalho era limitado pela empreitada econômica levada a cabo pelas potências marítimas europeias, sendo que o contingente de africanos era inesgotável. Os negros foram capturados e traficados da África para trabalhar nas terras roubadas aos índios na América. As viagens do Infante Dom Henrique, o navegador, complementaram as de Cristóvão Colombo, portanto, a história da África Ocidental completou a das Índias Ocidentais [5] (WILLIAMS, 2012).
As grandes navegações, a “colonização”/invasão do Novo Mundo que geraram o colonialismo não criaram apenas a escravidão, mas, em especial, o complexo colonial [6] que se consolidou com a escravidão africana. O tráfico negreiro, ao transformar a captura em empreendimento altamente lucrativo, tornou-se poderoso fator da acumulação originária, o que gerou vultosos excedentes por meio da comercialização do escravo e viabilizou a reprodução do estoque de cativos nas colônias (KOWARICK, 2019, p. 28).
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[5] De acordo com Alencastro (2000, p. 09): “Nossa história colonial não se confunde com a continuidade de nosso território colonial. Sempre se pensou o Brasil fora do Brasil, mas de maneira incompleta: o país aparece no prolongamento da Europa”. Para o autor sua compreensão é diferente: “[...] a colonização portuguesa, fundada no escravismo, deu lugar a um espaço econômico e social bipolar, englobando uma zona de produção escravista situada no litoral da América do Sul e uma zona de reprodução de escravos centrada em Angola. Desde o final do século XVI, surge um espaço aterritorial, um arquipélago lusófono composto dos enclaves da América portuguesa e das feitorias de Angola. É daí que emerge o Brasil no século XVIII [...] essas duas partes unidas pelo oceano se completam num só sistema de exploração colonial cuja singularidade ainda marca profundamente o Brasil contemporâneo.”
[6] Tomamos como recursos metodológicos as indicações lukacsianas que partem do pressuposto de que a história e a práxis social, enquanto processos sociais, só são compreensíveis como complexos de complexos, ou seja, para “toda questão ontológica, a gênese deve constituir o ponto de partida” (LUKÁCS, 2013, p. 539). Na investigação dos fenômenos histórico-sociais (no caso: a colonização, o trabalho cativo, o tráfico negreiro, a escravização, a imigração e o racismo), devemos “considerar a sociedade, desde o princípio, como um complexo composto por complexos. O problema decisivo está em como são constituídos estes complexos e como podemos chegar à essência real da sua natureza e da sua função” (LUKÁCS, 2013, p. 539). Os complexos se inter-relacionam e, simultaneamente, garantem a lógica de cada complexo particular em sua coexistência dialética na vida real. A partir da compreensão dos complexos de complexos, temos a possibilidade de fugir do economicismo, das filosofias da história de caráter idealista, da interpretação dos conceitos fechados em si mesmos e das análises sobre a vida social de modo fragmentado e pragmático, que sempre buscam o fator determinante sem estabelecer conexões histórico causais-casuais com a realidade (LARA, 2017, p. 89-90).
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O tráfico de escravos foi um ramo do comércio de extrema importância para consolidação de algumas das principais cidades europeias e, por conseguinte, para a materialização do sistema colonial nas Américas. Williams descreve atentamente esse processo:
A história do crescimento do tráfico escravo é basicamente a história do desenvolvimento de Liverpool. O primeiro navio negreiro da cidade, uma modesta embarcação de trinta toneladas zarpou para África em 1709. Era o primeiro passo numa rota que, no final do século, valeria a Liverpool a distinção de ser o maior porto negreiro do Velho Mundo [...]. Em 1730, ela tinha quinze navios no tráfico de escravos; em 1771, o séptuplo disso. A proporção de navios negreiros no movimento total do porto ficava ligeiramente acima de 1% em 1709; em 1730, era de 9%; em 1763, de 25%; em 1771, correspondiam a um terço da frota total. Em 1795, Liverpool respondia por cinco oitavos do comércio escravo britânico e por três sétimos de todo o comércio escravo europeu. (WILLIAMS, 2012, p. 68)
Na Europa, a acumulação originária se fazia pela expropriação que retirava a terra dos camponeses e os instrumentos de trabalho dos artesões, transformando o trabalho em força de trabalho – mercadoria –, enquanto na colônia é o escravo que passa a impulsionar o processo produtivo. De acordo com Kowarick (2019, p. 29), o escravismo nas Américas é expressão colonial do capitalismo europeu em expansão. A modalidade de exploração do trabalho engendrada ao processo de acumulação originária, nesse caso, o trabalho cativo, torna-se essencial para alavancar e consolidar o capitalismo europeu.
O tráfico negreiro e o modo de produção escravista colonial (GORENDER, 2016) aqui imposto se tornaram, em pouco tempo, uma grande empreitada para os comerciantes internos de escravos e para os detentores de terras que se dedicavam ao processo de produção nas colônias. Isso fez com que no Brasil, por exemplo, a presença dos negros nas fazendas, cidades e casas fosse uma constante, já que inúmeras tarefas e atividades produtivas foram delegadas a eles como algo “natural” a ser feito.
Assim, a naturalização das desigualdades entre sujeitos brancos – que mandam – e sujeitos negros – que obedecem e trabalham – foi se enraizando e se espraiando de tal forma que a imagem do negro associada ao trabalho se tornou tão forte que, mesmo quando um branco pobre se via compelido a trabalhar, a impressão que se tinha era a de que ele havia se rebaixado em sua condição de ser humano. Isso, pelo menos, até meados do século XIX, quando ainda não havia ocorrido o interdito do tráfico dos africanos escravizados.
As relações de produção constituídas no modo de produção escravista colonial traziam consigo a ideia de que para ser senhor era necessário ser proprietário de escravos, já que era função destes trabalhar para aqueles. Daí um dos contrapontos que existia entre ser cativo e ser livre naquela época. Algo que era tão forte e marcante que até mesmo ex-escravos libertos poderiam se tornar – como de fato se tornavam – proprietários de escravos. Pois, naquela sociedade, ser livre era ser livre até das amarras do trabalho [7].
Posterior a 1850, com a cessação formal do comércio negreiro no Atlântico Sul, a dinâmica e o quadro social começam a se alterar, o que implica numa mudança no trato com os trabalhadores escravizados, que passam a ser mais valorizados no mercado interno como e enquanto mercadorias, e na conduta de seus senhores com relação a sua exploração. Isso porque, cessada a vinda de novas forças de trabalho do continente africano, a sua reposição passou a ser uma função que deveria ocorrer internamente, seja pela dinâmica do mercado interno ou pela adoção de práticas que favorecessem a reprodução social dos cativos. Em meio a essa dinâmica, a imagem que se tinha do trabalho – enquanto atividade braçal de caráter depreciativo – passa a sofrer uma espécie de reconfiguração, deixando para trás a sua negatividade para assumir então uma posição de positividade, ainda que aparente e parcial.
Daí a importância de se elaborar uma visão do trabalho como sendo algo dignificante e de grande estima para a formação do indivíduo, numa tentativa de se superar aquele estigma de ser algo vinculado ao sujeito que se encontrava escravizado. Isso porque, com as mudanças que ocorreram mediante a supressão do comércio externo de escravos, a entrada de imigrantes oriundos dos países europeus e asiáticos passou a ser alternativa para o remanejamento e para a reposição da força de trabalho empregada, tanto no campo quanto na cidade. E sendo uma força de trabalho branca, de traços étnicos e culturais semelhantes aos dos colonizadores/proprietários dos meios de produção, a imagem que se busca construir social e idealmente. O que levou à necessidade de se restabelecer uma discussão em torno do caráter da escravidão, dos impactos da miscigenação e da construção de uma suposta “democracia racial”.
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[7] É importante ressaltar que a construção de uma ética do trabalho que buscasse suplantar o caráter depreciativo das atividades manuais se deu com maior intensidade após a abolição da escravatura, quando o fluxo de emprego da força de trabalho na produção passou a ser mediado pelas relações contratuais de assalariamento. Para um melhor entendimento, ver: CHALHOUB (2012).
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Joaquim Nabuco (2000, p. 156), no ano de 1883, enquanto representante do movimento abolicionista, argumenta em favor da nova concepção de trabalho que se pretende para a nação brasileira: “Não há dúvidas de que o trabalho livre é mais econômico, mais inteligente, mais útil a terra, benéfico ao distrito onde ele será encravado, mais próprio para gerar indústrias, civilizar o país, e elevar o nível de todo o povo.” Como também idealiza o imigrante que irá substituir o escravo: “O trabalho livre, dissipando os últimos vestígios da escravidão, abrirá o nosso país à imigração europeia.” (NABUCO, 2000, p. 160).
Neste quesito, a importação das instituições e dos valores morais concernentes ao mundo ocidental, ou melhor, pertencentes aos países capitalistas hegemônicos e imperialistas, é um dos elementos desse momento histórico em que começa a se constituir um Estado nacional. Todavia, partindo de uma ordem social baseada na espoliação e na exploração de nativos e de africanos escravizados, a ideia de que no Brasil se forjavam relações democráticas entre os seus habitantes tornava-se insustentável.
Ainda mais quando se tem um processo de independência nacional em que as estruturas e as relações sociais herdadas do período colonial permaneceram praticamente intactas, cobrindo um período que vai pelo menos desde 1822 até 1888, principalmente, no que diz respeito à manutenção e reprodução das formas de exploração do trabalho [8]. A própria configuração da população nacional com a inserção de negros oriundos dos países do continente africano não ocorreu de livre e espontânea vontade, assim como, a sua permanência e reprodução social não se deram sem violência, exploração, opressão e traumas de todos os tipos para essa parte significativa da sociedade.
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[8] Sobre as permanências no período que se abre com a emancipação política do Brasil, diria Florestan Fernandes: “O regime capitalista lança, aqui, suas raízes no passado colonial, na produção escravista e no apogeu que esta alcançou depois da Independência. A escravidão atingiu o seu ponto alto, como fator de acumulação interna de capital, não antes, mas depois que se constituiu um Estado nacional. Isso pode parecer um paradoxo. Mas não é. As estruturas coloniais de organização da economia, da sociedade e do poder só conheceram sua plenitude quando os senhores de escravo organizaram sua própria forma de hegemonia. O trabalho escravo passou a gerar um excedente econômico que não ia mais para fora na mesma proporção que anteriormente e sobre ele se alicerçou a primeira expansão do capital comercial dentro do país.” (FERNANDES, 2017, p. 37-38).
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É importante assinalar que também houve resistência por parte do negro escravizado, que por meio de sua rebeldia colocou-se como um sujeito na luta, seja através das fugas, das formações de quilombos, dos assassinatos, dos suicídios, dos infanticídios, e de tantas outras formas de insubordinação que tanto traziam prejuízos aos seus proprietários quanto alentavam os negros em sua busca pela libertação.
No Brasil, as instituições que se formaram como “cópia” de uma república democrática – o que de fato não existia nem na Europa e tampouco na América Latina – se apresentavam mais como uma espécie de embuste do que como algo real e efetivamente existente no país. Até porque a prática do arbítrio, da exploração extremada e da violação sistemática da dignidade humana eram uma constante no mundo das classes dominantes, o que invalidava a priori os próprios ideais inerentes ao modelo clássico da revolução burguesa que se almejava transplantar e/ou recriar por aqui.
Daí a impossibilidade de se constituir um Estado em que conseguisse incluir o negro como sujeito portador de direitos, fazendo dele cidadão inserido nos trâmites legais e institucionais pertencentes à sociedade civil. Assim, o negro passa a participar das incipientes relações de classes em descompasso com as já seculares relações raciais. Ou seja, para que a sua inserção no mercado de trabalho assalariado ocorresse de forma regular, seria necessário que houvesse, antes de tudo, a supressão das discriminações e opressões sócio-raciais das quais ele é vítima permanente.
Darcy Ribeiro apresenta singular e preciso diagnóstico dessa herança escravista:
As atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos dos antigos senhores de escravos, guardam, diante do negro a mesma atitude de desprezo vil. Para seus pais, o negro escravo, o forro, bem como o mulato, eram mera força energética, como um saco de carvão, que desgastado era substituído facilmente por outro que se comprava. Para seus descendentes, o negro livre, o mulato e o branco pobre são também o que há de mais reles, pela preguiça, pela ignorância, pela criminalidade inatas e inelutáveis. Todos eles são tidos consensualmente como culpados de suas próprias desgraças, explicadas como características da raça e não como resultado da escravidão e da opressão. Essa visão deformada é assimilada também pelos mulatos e até pelos negros que conseguem ascender socialmente, os quais se somam ao contingente branco para discriminar o negro‐massa. (RIBEIRO, 2015, p. 167)
Como o processo de descravização no Brasil não fora até o fim e até o fundo [9] – possibilitando assim a reciclagem das relações de espoliação e de exploração que se fundaram na apropriação da pessoa e do produto de seu trabalho –, as classes dominantes que aqui se forjaram lograram manter o caráter desumano no seu trato com as classes subalternas, fazendo do Estado um instrumento privilegiado para a manutenção de suas prerrogativas e para a reprodução ampliada de suas riquezas.
O prestígio social, político, econômico e cultural que as classes dominantes alcançam internamente na constituição da sociedade civil brasileira são diametralmente opostos ao desprestígio, vilipêndio e aviltamento aos quais estão submetidos a maioria dos indivíduos que integram as classes trabalhadoras. Como diria Octavio Ianni:
À medida que se formava e desenvolvia o Estado nacional, organizava-se o aparelho estatal de modo a garantir o regime de trabalho escravo. Depois, à medida que o regime de trabalho escravo foi sendo substituído pelo trabalho livre, os grupos e as camadas dominantes reorganizaram o aparelho estatal de modo a garantir o predomínio dos seus interesses, em detrimento de trabalhadores rurais e urbanos, negros, índios, imigrantes. Os governantes reagiam negativamente às reivindicações populares. Na lei e no debate parlamentar sempre se distinguiu revolução, feita por gente igual, e rebeldia, sedição e insurreição, feitas por gente menor socialmente ou por escravos. Daí a brutalidade da repressão. (IANNI, 1984, p. 13)
Assim, vão se moldando as práticas coercitivas e repressivas de cima para baixo, visando perpetuar as desigualdades sociais e raciais. Tanto que no processo de assalariamento da força de trabalho, pós-abolição, a inserção do negro no mercado formal de trabalho foi seriamente dificultada pelos mecanismos excludentes que já operavam por intermédio da discriminação racial. Afinal, como explicar num contexto de expansão da produção rural a exclusão da força de trabalho negra, ou melhor, a sua substituição pelos imigrantes de origem europeia, quando eram eles, os negros, que exerciam essas atividades de forma secular e, portanto, já traziam consigo um vasto acúmulo de conhecimentos e de práticas laborais.
Ou então, como explicar o fato de que nas cidades os negros raramente eram aceitos nas fábricas e manufaturas, quando a industrialização ainda era incipiente e o processo de trabalho apresentava uma baixa complexidade laboral, possibilitando, inclusive, o emprego de crianças na produção, senão pela existência de práticas segregacionistas que colocavam o negro no patamar mais baixo da escala social, fazendo deles uma força de trabalho reserva da reserva, pois a ordem de preferência dos empregadores pós-abolição era: primeiro os imigrantes, segundo os nacionais brancos e, por fim, o negro.
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[9] Para um melhor entendimento sobre o problema da descolonização, ver: FERNANDES (1981), em especial o texto “Reflexões sobre as ‘Revoluções Interrompidas’ (uma rota de perspectiva)”.
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O racismo apresenta importante chave analítica para entender o mercado de trabalho no Brasil. Os capitalistas agrários e industriais criaram o exército de reserva à custa da imigração europeia e asiática nas regiões de forte dinamismo econômico e fizeram dos negros uma reserva da reserva. “Classificar as pessoas segundo cor tem sido vantajoso ao funcionamento do capitalismo, pois mantém a reserva de segunda linha dos discriminados, sempre disponível para o trabalho em troca de salários rebaixados.” (GORENDER, 2016, p. 223).
Além dos determinantes econômicos, há outros elementos do espectro cultural que também se vinculam a essa realidade segregacionista e que merecem ser destacados.
A ideia, por exemplo, de se construir a imagem de uma nação, pós-abolição, passa-se por criar uma narrativa histórica em que os negros são apresentados como indivíduos passíveis e indolentes, e, portanto, responsáveis pela sua própria condição de pobreza e de exclusão do mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que se pretende fazer acreditar que a escravidão brasileira não fora tão cruel para com os negros, uma vez que a índole cristã e o processo de miscigenação teriam contribuído para a confecção de uma realidade social “mais democrática”. Todavia, o que se tem em termos de realidade é justamente o contrário. A própria submissão do negro, que foi retirado de seu território, traficado e escravizado compulsoriamente num ambiente que lhe era hostil, já denota um ato de violência brutal contra a sua pessoa. Ademais, passados séculos de escravidão, a imagem que se projetou do negro como um indivíduo pertencente a uma raça inferior e de compor um segmento social de gente degenerada fora tão forte e tão marcante que até hoje ela segue pululando no ideário reacionário e preconceituoso das classes dominantes. De acordo com Moura:
Após o 13 de Maio, outros mecanismos de barragem e hierarquização étnica foram acionados e dinamizados [...]. Isto levou a que o cidadão negro – o ex-escravo – não encontrasse oportunidade no mercado de trabalho, na interação social global, tendo um espaço social no qual lhe permitiam uma circulação restrita de tal forma que sua personalidade, sem conseguir criar mecanismos de defesa contra tal situação, se deformou pela ansiedade cotidiana que dele se apoderou desde quando saiu da casa e especialmente quando reivindicou cargos ou funções que a ele, por práticas sub-reptícias e não mais visíveis, não foram permitidos socialmente. Com o princípio de que todos são iguais perante a Lei, os mecanismos de barragem étnica se refinaram, sofisticaram-se e ficaram invisíveis, tem-se a impressão de que o seu achatamento social, econômico e cultural é uma decorrência das suas próprias insuficiências individuais ou grupais. (MOURA, 2014, p. 210-211)
Lúcio Kowarick, ao analisar as consequências da abolição para o ex-escravo na produção cafeeira, afirma que a partir de 1888 estruturou-se uma nova inserção regional de trabalhadores no plantio e cultivo do café no sudeste do país. Os imigrantes dirigiramse para as principais regiões produtoras e aos ex-escravos restavam as regiões mais decadentes economicamente.
Ao elemento negro restou a zonas mais decadentes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Sem dúvida, “os homens de cor”’, depois de 1888, permaneceram nos estratos mais baixos da aguda pirâmide social brasileira. Muitos voltaram para as fazendas onde, antes de 1888, trabalhavam na condição de escravos, locais onde ainda imperava a dureza do trabalho nas lavouras, mesmo que sem os horrores inerentes ao cativeiro. (KOWARICK, 2019, p. 140)
O mito da “democracia racial”, que tenta encobrir a história de como se formaram e se consolidaram as práticas e as ideias que deram sustentação ao racismo, não consegue esconder a realidade de um país que tem no patrimonialismo, no mandonismo, na intolerância e na desigualdade social elementos concretos que se evidenciam no cotidiano da classe trabalhadora e da população periférica, sobretudo do povo negro [10].
Assim, num país em que a coisa pública se confunde com os interesses privados de quem detém o poder econômico, social e político; num país no qual o conceito de cidadania que se aplica não é efetivo para todos; num país em que o sentimento de pertencimento a uma nação não consegue se equiparar à promoção de condições e oportunidades iguais para todos; num país em que os índices de criminalidade, violência e mortalidade apontam para uma avassaladora disparidade social e racial; não há como acreditar que o Brasil conseguiu suplantar o seu legado colonial e escravista eliminando o racismo que se apresenta de forma estrutural em nossa nação [11]. Como afirma Lilia Schwarcz, “essas são histórias ‘persistentes’, que não terminam com a mera troca de regimes; elas ficam encravadas nas práticas, costumes e crenças sociais, produzindo novas formas de racismo e de estratificação” (SCHWARCZ, 2019, p. 32).
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[10] De acordo com Ribeiro (2015, p. 166), o Brasil, “no seu fazimento, gastou cerca de 12 milhões de negros, desgastados como a principal força de trabalho de tudo o que se produziu aqui e de tudo que aqui se edificou. Ao fim do período colonial, constituía uma das maiores massas negras do mundo moderno. Sua abolição, a mais tardia da história, foi a causa principal da queda do Império e da proclamação da República. Mas as classes dominantes reestruturaram eficazmente seu sistema de recrutamento da força de trabalho, substituindo a mão‐de‐obra escrava por imigrantes importados da Europa, cuja população se tornara excedente e exportável a baixo preço.”
[11] Para melhores esclarecimentos, ver: SCHWARCZ (2019).
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O racismo na formação da classe trabalhadora
Considerando o processo de composição histórica do racismo exposto acima, passaremos a tratar de como os trabalhadores foram se constituindo como polo dinâmico das lutas de classes dentro de um contexto em que as especificidades históricoculturais têm peso fundamental, tanto no que diz respeito a sua conformação política quanto a sua movimentação como e enquanto classe social.
Entretanto, é preciso destacar que a relevância de alguns aspectos inerentes às diferenças étnico-raciais, de nacionalidades e de inserção na organização socioeconômica entre os trabalhadores são fundamentais para abordagens e interpretações de suas realidades, quando não se quer tratar das classes sociais em termos meramente abstratos.
Por isso, torna-se impossível tratarmos da conformação dos trabalhadores como sujeitos pertencentes a uma classe sem mencionar as clivagens que existem e são constantemente fomentadas em seu seio, seja como forma de fragmentação ou como recurso para a desorientação política dos mesmos. Exemplo disso é o histórico racismo que persiste no conjunto daqueles que precisam vender a sua força de trabalho para sobreviver no Brasil [12].
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[12] Um estudo interessante que aponta para a existência de diferenças e de conflitos entre os trabalhadores, no momento em que se consolidava o regime de trabalho livre assalariado no Brasil, pode ser encontrado na obra supracitada de Sidney Chalhoub (2012).
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É evidente que tais fissuras na classe trabalhadora não a impedem de se apresentar em cena quando movida pelos seus anseios e interesses. O que significa dizer que mesmo que haja diferenças, divergências e conflitos entre os seus segmentos e grupos sociais, os trabalhadores em seu conjunto formam uma coletividade, que amparada em suas necessidades e comprimida pelas condições em que se encontram, tendem a se mobilizar e atuar de forma organizada. Isso porque a fragmentação da classe em indivíduos é tão real quanto o compartilhamento de situações e experiências entre eles, o que faz com que cada um se reconheça no outro, seja como um trabalhador explorado ou como um sujeito submetido a determinadas formas de opressão.
A forma como os indivíduos se inserem no mercado de trabalho e, portanto, na estrutura organizacional da produção faz com que vivenciem e compartilhem situações que lhes são comuns, na condição de vendedores da força de trabalho a ser comprada por uma classe que ocupa uma posição antagônica na sociedade. Assim, objetivamente falando, os trabalhadores formam uma classe social. A maneira como eles vão apreender, sistematizar e interpretar essas experiências, isto é, a maneira como será processada e compartilhada entre eles, no campo das ideias, já é uma questão essencialmente subjetiva. Por isso, o fato de indivíduos vivenciarem a exploração ou de sentirem na pele a opressão não faz deles – por si só – uma classe social, no sentido de ser um sujeito coletivo portador de projeto que visa promover alterações em suas condições materiais e espirituais. É necessário mais do que isso para que a classe se faça como classe.
Thompson chama a atenção para esse fenômeno ao afirmar o seguinte:
Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. Não vejo a classe como uma “estrutura”, nem mesmo como uma “categoria”, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas. A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus. A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, ideias e formas institucionais. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe. A consciência de classe surge da mesma forma em tempos e lugares diferentes, mas nunca exatamente da mesma forma. (THOMPSON, 2011, p. 09-10)
Nesse sentido, a concepção marxista [13] sobre o processo de constituição da classe enquanto tal é extremamente válida para o entendimento da fluidez do pensamento e do movimento objetivo da realidade, que operam ao mesmo tempo, mas nem sempre na mesma sintonia. Isso quer dizer que a consciência de classe necessária e sua atuação política contra as classes dominantes são constructo social, e não mero epifenômeno de suas condições objetivas enquanto indivíduos subjugados e explorados pelo capital. Daí a demanda pela compreensão histórica da nossa formação social, que traz consigo um legado de autoritarismo e de brutalidade nas suas formas de dominação estamental e de classe.
Realidade que condicionou de maneira correlata uma formação truncada da classe trabalhadora, que teve desde muito cedo de lidar com a existência de um tratamento desigual – entre brancos e negros – que se consolidou por meio da escravidão.
No Brasil, a ordem escravocrata contaminou as relações de trabalho desde os primórdios da colonização, produzindo uma situação histórica que atravessou séculos. Mesmo após a abolição, os livres e pobres (sempre recaindo o maior fardo aos negros) eram encarados pelos senhores como segmentos que poderiam ser tratados de forma semelhante às relações da época da escravidão. Os parâmetros que os senhores tinham das relações de trabalho eram pautados na escravidão, enquanto os marginalizados – livres e libertos – tendiam a negar o trabalho e suas relações disciplinares, pois o trabalho tinha sua herança cativa. O trabalho manual, herdeiro dessa ordem escravocrata, passa a ser considerado como atividade de escravo e, portanto, aviltante e repugnante. Kowarick argumenta que não poderia ser diferente numa ordem social em que o elemento vivo que levava adiante as tarefas produtivas era tratado como coisa, desprovido de vontade, que não tinha escolha de onde morar ou quando e quanto deveria trabalhar, e que, brutalizado por toda sorte de violências, o mais das vezes morria no cativeiro (KOWARICK, 2019, p. 51-53).
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[13] Entendendo a concepção de Marx sobre classe como algo essencialmente dinâmico e relacional, vale destacar algumas citações sobre o assunto: “[...] os indivíduos singulares formam uma classe somente na medida em que têm de promover uma luta comum contra uma outra classe; de resto, eles mesmos se posicionam uns contra os outros, como inimigos, na concorrência. Por outro lado, a classe se autonomiza, por sua vez, em face dos indivíduos, de modo que estes encontram suas condições de vida predestinadas e recebem já pronta da classe a sua posição na vida e, com isso, seu desenvolvimento pessoal; são subsumidos a ela.” (MARX; ENGELS, 2007, p. 63); “Milhões de famílias existindo sob as mesmas condições econômicas que separam o seu modo de vida, os seus interesses e a sua cultura do modo de vida, dos interesses e da cultura das demais classes, contrapondo-se a elas como inimigas, formam uma classe. Mas, na medida em que existe um vínculo apenas local entre os parceleiros, na medida em que a identidade dos seus interesses não gera entre eles nenhum fator comum, nenhuma união nacional e nenhuma organização política, eles não constituem classe nenhuma.” (MARX, 2011, p. 142-143); “As condições econômicas primeiro transformaram a massa do país em trabalhadores. A dominação do capital criou para essa massa uma situação comum, interesses comuns. Assim, essa massa já é uma classe em relação ao capital, mas não o é ainda para si mesma. Na luta, da qual assinalamos apenas algumas fases, essa massa se reúne, se constitui em classe para si mesma. Os interesses que defende se tornam interesses de classe. Mas a luta entre classes é uma luta política.” (MARX, 2017, 145).
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Após a abolição formal da escravidão, o negro, condicionado culturalmente e historicamente a poupar sua força de trabalho para não ser levado à morte pelo chicote do capataz, contrastava vivamente como força de trabalho com o colono vindo da Europa, este já adaptado ao regime salarial e predisposto a esforçar‐se ao máximo para conquistar, ele próprio, um palmo de terra em que pudesse prosperar, livre da exploração dos fazendeiros (RIBEIRO, 2015, p. 167).
Na pesquisa desenvolvida por Kowarick (2019, p. 142) sobre a origem do trabalho livre no Brasil, as ocupações que restaram aos ex-escravos na cidade eram de: lavar casas, carregar lenha e outras cargas, puxar carrocinhas, engraxar sapatos, limpar quintais e automóveis. Às mulheres negras, concentravam-se os empregos domésticos com jornadas de trabalho quase integrais. Aos imigrantes que aqui aportaram com o sonho de fare l´ América e que não tiveram condições de comprar um lote de terra a fim de tentar um processo de ascensão social, restaram as fábricas de São Paulo com suas jornadas de trabalho extenuantes e sob o jugo do burguês que carrega em sua formação social a herança da ideologia escravocrata. Em 1907, nas fábricas de tecidos de São Paulo, os teares e máquinas quase nunca paravam. Os homens trabalhavam 16 horas por dia, as mulheres 14 horas. As crianças de ambos os sexos, de 8 a 12 anos, trabalhavam das 5 da tarde às 6 da manhã. Os regulamentos fabris que regulavam as relações entre o capital e o trabalho eram frequentemente alterados a partir do desígnio e arbítrio dos proprietários (KOWARICK, 2019, p. 148).
A classe trabalhadora no Brasil foi formada por um conjunto de determinações que congregam a colonização, o trabalho cativo, o tráfico negreiro, a escravização e a imigração. Esses complexos de complexos se inter-relacionam e compõem o racismo como resultado da formação socioeconômica e cultural brasileira, que tem na ordem senhorial a principal herança ideológica da classe dominante nacional e as causas das consequentes manifestações de racismo e preconceitos sociais.
A herança de mais de três séculos de trabalho escravo no Brasil gerou uma sociedade com intensas e explosivas contradições históricas. Gorender (2016, p. 221) afirma com precisão que o “racismo antinegro” no Brasil tem suas raízes fincadas na exploração dos escravos na era colonial. Para ele, o racismo é um marco histórico que domina o Brasil.
Fernandes (2008, p. 369) também considera que a revolução burguesa no Brasil não apresentou as rupturas necessárias com a velha ordem escravista, pois a antiga classe dominante sobreviveu com sua ideologia aristocrática de senhorio rural. O empresário industrial também absorveu essa ideologia, mesmo quando nascido em família de origem imigrante. O racismo é um dos valores do passado escravista e colonial que se conserva no país. No Brasil, a relação conflituosa entre capital e trabalho, a “questão social”, é alimentada pela herança colonial e escravista, o que gera a classificação e o preconceito racial.
A raiz da “questão social”, sem dúvida, está no capitalismo, mas, como bem alerta Gorender (2016, p. 223), a discriminação racista impõe ao segmento negro o fardo mais pesado. A classificação racial não é um epifenômeno, é um procedimento perverso integrado na dinâmica do capitalismo brasileiro que precisa ser denunciado e combatido de maneira específica (LARA; MARANHÃO, 2019, p. 50-51).
Portanto, as especificidades da formação do proletariado brasileiro, o que inclui o racismo que se faz perene, é um objeto que precisa ser estudado e debatido constantemente. Até porque, no processo de construção de identidades próprias, seja através do movimento operário, popular ou negro, os elementos objetivos que incidirão sobre a elaboração de seus pensamentos serão praticamente comuns a todos eles, tendo em vista a sua condição histórico-social como classe. A absorção e decodificação dessa realidade, mediante suas experiências de lutas históricas, poderão apresentar significativas diferenças. O que, bem entendido, poderá resultar tanto numa dramática fratura, quanto num importante processo de enriquecimento político-cultural da classe.
Considerações finais
Para se discutir a questão racial no Brasil é necessário recuperarmos o processo histórico de inserção do negro como força de trabalho cativa e explorada, bem como a sua discriminação como pessoa humana, num primeiro momento, e como cidadão no período que se inaugura com a abolição. Tanto que, ao se forjar as relações de produção especificamente capitalistas no território nacional, o negro se viu de imediato excluído dos espaços típicos das esferas de produção e de circulação inerentes ao processo de acumulação de capital. O que, por consequência política, fez dele um sujeito preterido pelo Estado justamente no momento em que este começava a tratar institucionalmente das relações entre capital e trabalho a partir da Primeira República.
Mesmo que o tratamento despendido para com a força de trabalho negra não tenha sido fundamentalmente igual ao procedido com a força de trabalho branca nas relações de mercado e institucionais, é certo que ambas eram exploradas pelo capital.
Assim, a submissão dos trabalhadores em seu conjunto à lógica de acumulação do capital fez deles membros de uma mesma classe, a despeito do fato de que a opressão da qual são vítimas seja sensivelmente distinta. Entretanto, ao nos debruçarmos sobre as condições de vida e de trabalho do proletariado brasileiro, pelo menos no que se refere à formação social capitalista em seu início, não é possível que deixemos de lado as especificidades que estão relacionadas ao papel do negro neste cenário histórico.
Contextualizar, ainda que minimamente, o racismo que se inicia no período colonial e se metamorfoseia por dentro do capitalismo é algo extremamente importante, porque possibilita a desmistificação da realidade ao passo que aponta para a necessidade de se conceber essa questão como elemento intrínseco às formas de exploração de classe que aqui se consolidaram. Pois, se de fato não houve nenhuma espécie de “democracia racial” [14] no Brasil, tampouco houve um entendimento por parte das classes dominantes de que o negro não fosse um trabalhador, ainda que a depreciação de sua força de trabalho fizesse parte da ideologia dominante. Com isso, é preciso ter ciência de
que, toda e qualquer formulação político-estratégica oriunda da classe trabalhadora, seja para orientar a sua ação visando minorar a sua situação de exploração, ou para impulsionar uma atuação subversiva ou revolucionária, a especificidade do negro como força de trabalho subalternizada e depreciada pelo capital é uma realidade visível e persistente no Brasil.
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[14] “As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de mortalidade dos negros são, por isso, as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade brasileira em cumprir, na prática, seu ideal professado de uma democracia racial que integrasse o negro na condição de cidadão indiferenciado dos demais. Florestan Fernandes assinala que ‘enquanto não alcançarmos esse objetivo, não teremos uma democracia racial e tampouco uma democracia. Por um paradoxo da história, o negro converteu‐se, em nossa era, na pedra de toque da nossa capacidade de forjar nos trópicos esse suporte da civilização moderna’”. (FERNANDES, 2008 apud RIBEIRO, 2015, p. 177).
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Por fim, cabe enfatizar que numa sociedade dividida por classes, cujos interesses são antagônicos, a luta pela superação do racismo passa pela supressão das classes e das relações que lhes dão sustentação. É necessário que haja uma fusão de raça e classe na construção de projetos societários alternativos à ordem do capital15. O que não significa dizer que o racismo irá desaparecer tão logo seja realizada uma transformação social, e sim que: nenhuma luta que almeja promover mudanças substanciais nas relações sociais possa prescindir dessa complexa junção. A luta contra a ordem do capital tem múltiplas funções: eliminar a exploração, a opressão e o preconceito de classe, gênero, raça e sexo.
Referências
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CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012.
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2005.
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes no limiar de uma nova era. São Paulo: Globo, 2008.
FERNANDES, Florestan. Poder e contrapoder na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.
FERNANDES, Florestan. Significado do protesto negro. São Paulo: Expressão Popular: Fundação Perseu Abramo, 2017.
GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Expressão Popular: Fundação Perseu Abramo, 2016.
IANNI, Octávio. O ciclo da revolução burguesa. Petrópolis: Editora Vozes, 1984.
KOWARICK, Lúcio. Trabalho e vadiagem: a origem do trabalho livre no Brasil. São Paulo: Editora 34, 2019.
LARA, Ricardo. História e práxis social: introdução aos complexos categoriais do ser social. Bauru: Canal 6, 2017. (Projeto Editorial Práxis).
LARA, Ricardo; MARANHÃO, Cézar. Fundamentos do trabalho, “questão social” e serviço social. In: SOUZA, Edvânia. ; SILVA, Maria. Liduína. O. Trabalho, questão social e serviço social: a autofagia do capital. São Paulo: Cortez, 2019.
LUKÁCS, György. Conversando com Lukács. São Paulo: Instituto Lukács, 2014.
LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social II. São Paulo: Boitempo, 2013.
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NABUCO, Joaquim. O abolicionista. São Paulo: Nova Fronteira, 2000.
PÉTRÉ-GRENOUILLEAU, Olivier. A história da escravidão. São Paulo: Boitempo, 2009.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Global, 2015.
SCHWARCZ, Lilia. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
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WILLIAMS, Eric. Capitalismo e escravidão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Recebido em: 14/11/2019 . Aprovado em: 25/02/2020
Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC . Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGE
Revista Linhas Volume 21 - Número 46 - Ano 2020 . revistalinhas@gmail.com
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Cenário da pirâmide salarial brasileira
O Brasil tem uma das pirâmides salariais mais desiguais do mundo. De acordo com dados do IBGE-2025, ela possui a seguinte distribuição em
termos populacionais:
Mais de 20 salários mínimos: 0,6%
Entre 10 e 20 salários mínimos: 1,97%
Entre 5 e 10 salários mínimos: 5,65%
Entre 3 e 5 salários mínimos: 8,69%
Entre 2 e 3 salários mínimos: 12,36%
Entre 1 e 2 salários mínimos: 34,85%
Entre 1/2 e 1 salário mínimo: 16,95%
Até 1/2 salário mínimo: 6,95%
Entre 2 e 1/2 sm = 58,75% (1 sm em 2026 é R$1.621)
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
O banco Master e as coisas esquisitas da República
A contaminação
O Banco Master e a desmoralização da República
Consuelo Dieguez, piaui - Edição 233, Fevereiro 2026
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, estava envolvido em atividades frenéticas na segunda-feira, 17 de novembro. Depois de reunir-se com seus advogados pela manhã, marcou uma videoconferência urgente com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, e dois superintendentes da instituição. Na conversa, que começou às 13h30 e durou quarenta minutos, Vorcaro fez uma comunicação surpreendente: o seu quebrado Master, que o BC proibira de ser vendido ao BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, havia encontrado um novo comprador. O interessado era a Fictor, uma holding de investimentos de pouca tradição no mercado que, segundo o banqueiro, se juntara a um fundo de investidores árabes dispostos a participar do negócio. Era a salvação de seu banco.
Havia apenas um senão. Para que a transação se realizasse, Vorcaro disse que precisava viajar ainda naquela noite para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para assinar o contrato. Era uma notável coincidência. No dia anterior, véspera da videoconferência, o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, tomara uma decisão sigilosa no âmbito das investigações que vinham revelando uma montanha de irregularidades no Master: autorizara prender Vorcaro e três diretores do banco, confiscar seus passaportes e fazer uma operação de busca e apreensão em seus endereços. Com a decisão do juiz, a Polícia Federal começou a montar a logística da operação, que seria deflagrada na manhã de terça-feira, dia 18, tão logo fossem expedidos os mandados de prisão preventiva dos investigados.
Mas coisas esquisitas começaram a acontecer na segunda-feira. No fim da manhã, enquanto a logística da ação policial era organizada, o site O Bastidor noticiou que um inquérito sigiloso sobre o caso estava em curso na 10ª Vara Federal. De imediato, de posse dessa informação, os advogados de Vorcaro – entre eles, Walfrido Warde, Pierpaolo Bottini e Roberto Podval – pediram acesso ao inquérito*. A Polícia Federal então entrou em alerta. Com a intenção de Vorcaro de viajar às pressas para o exterior, aliada à decretação de sua prisão na véspera, os agentes federais não tiveram dúvida: a operação policial preparada para terça-feira havia vazado e a viagem do banqueiro era, na verdade, uma tentativa de fuga.
O juiz Ricardo Leite foi informado sobre a movimentação e não perdeu tempo. Uma hora depois da videoconferência entre o banqueiro e o BC, o magistrado antecipou a emissão dos mandados de prisão e determinou que Vorcaro fosse preso naquela mesma segunda-feira, dia 17. Enquanto ocorria essa mobilização em Brasília, de São Paulo veio uma encenação. Por volta das cinco da tarde, a Fictor distribuiu um comunicado à imprensa anunciando que havia formado um consórcio com investidores árabes para colocar 3 bilhões de reais e salvar o Master. Diante do rombo espetacular do banco, da ordem de 80 bilhões, o valor anunciado foi recebido como piada.
A Polícia Federal, que monitorava os movimentos de Vorcaro, já havia rastreado o seu plano de voo, também traçado às pressas. A bordo do seu jato, Vorcaro partiria do Aeroporto de Guarulhos em direção a Dubai, com escala na Ilha de Malta. Às dez da noite, quando se preparava para embarcar, o banqueiro foi preso e levado à carceragem da Polícia Federal. No dia seguinte, às seis da manhã, a PF prendeu mais seis pessoas, entre elas três diretores do Master – Luiz Antonio Bull, Angelo Antonio Ribeiro e Alberto Felix de Oliveira Neto – e um nome central no esquema: o fundador e ex-sócio do banco, o baiano Augusto Ferreira Lima. Quase no mesmo instante, o Banco Central decretou a liquidação do Master.
Em 14 de janeiro passado, a Polícia Federal deflagrou uma segunda rodada de operações e apreendeu celulares, joias, dinheiro e bens de outros envolvidos. Entre eles:
. O empresário baiano Nelson Tanure, outra figura-chave na estrutura do Master. Desde os anos 1980, Tanure vem aumentando seu patrimônio por meio da compra e desmonte do caixa de empresas em dificuldades – sempre com auxílio da Justiça carioca.
. Fabiano Zettel, dono de uma biografia extensa: é gestor de fundos, é casado com a irmã de Vorcaro, foi pastor da Igreja Batista da Lagoinha até o mês passado e grande financiador de campanhas. Em 2022, deu 3 milhões para Jair Bolsonaro e 2 milhões para Tarcísio de Freitas.
. João Carlos Mansur, fundador da Reag, administradora responsável por quase todas as operações fraudulentas do Master e que acaba de ser liquidada pelo Banco Central por fraudes e crimes contra o sistema financeiro. A situação é ainda pior: a Reag é suspeita de fazer investimentos para o PCC, a maior organização criminosa do país.
. Fechando a lista dos suspeitos, a investigação chegou em um primo, na irmã e no pai do banqueiro.
Com a prisão da cúpula do Master e outros envolvidos, começou a autópsia pública do que talvez seja, nas palavras do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, “a maior fraude bancária da história do país”. Não é uma hipérbole. O Master já garantiu destaque na galeria dos grandes escândalos nacionais, não apenas pelo volume bilionário das fraudes, mas, sobretudo, pela extraordinária amplitude de sua rede de influência, cujos tentáculos se infiltraram em todos os poderes da República, capturaram políticos sobretudo de partidos da direita e da extrema direita, desmoralizaram instituições de fiscalização e lesaram mais de 1 milhão de investidores.
O Banco Master nasceu, cresceu, pintou e bordou debaixo do nariz do economista Roberto Campos Neto, que presidiu o BC de fevereiro de 2019 a dezembro de 2024. O Master pedia autorização para atuar no mercado desde 2017, mas, durante a presidência de Ilan Goldfajn, nunca conseguiu o sinal verde. Em 2019, sob a administração de Campos Neto, Vorcaro chegou lá. A licença causou alguma surpresa, já que, entre os critérios para autorizar um banqueiro no mercado, está a exigência de “reputação ilibada”.
Vorcaro tinha um passado complicado. Quando atuava no mercado imobiliário em Minas Gerais, deu um cano milionário na Prefeitura de Belo Horizonte na construção de um hotel de 37 andares. Entre 2010 e 2017, participou de um esquema que aplicou um golpe em institutos de pensão públicos – um esquema que contou também com a atuação de João Carlos Mansur, da Reag. (Em 2020, quando a Polícia Federal investigou a falcatrua, Vorcaro chegou a receber ordem de prisão.) Por alguma razão, o Banco Central não viu problema em nada disso.
O Master entrou no mercado como um foguete. Em 2019, seu primeiro ano de atividade, já tinha 2,5 bilhões de reais em Certificados de Depósito Bancário (CDBs). Em 2022, eram 17, 4 bilhões. Em 2024, o volume saltara para 40 bilhões – soma fabulosa para um banco de pequeno porte. O Master operava com ousadia. Captava dinheiro dos investidores oferecendo até 140% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), quando o mercado não pagava mais que 100%. Para tanto, divulgava que seus investimentos estavam assegurados pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que, em caso de quebra ou liquidação de um banco, ressarce os investidores em até 250 mil reais. Era uma estratégia capciosa. O FGC, mantido com dinheiro dos próprios bancos, foi criado para proteger os investidores em caso de colapso, não para servir de alavanca para um banco lançar operações de risco.
Como fiscal do mercado, o Banco Central acompanhou o Master e constatou que havia um descompasso nas suas provisões e que suas práticas de gestão eram uma ameaça. No entanto, o BC se limitou a mandar um ofício de alerta. Mandou um segundo. Depois um terceiro. Depois mais um, outro e outro. Na gestão de Campos Neto, o BC mandou nada menos que dezoito ofícios ao Master pedindo um ajuste nas contas e a adoção de boas práticas de gestão.
“A pergunta é: um banco que não se enquadra depois de dezoito ofícios do BC ainda tinha chances de se corrigir?”, me disse, em tom irônico, um ex-funcionário do FGC. Afora isso, Vorcaro teve 38 conversas com diretores do BC – uma delas, com Campos Neto, na qual trataram de pleitos do Master e operações de precatórios, com os quais o banqueiro havia entupido o balanço do seu banco.
Enquanto ignorava as sucessivas advertências, o Master realizou grandes proezas com ajuda do próprio Banco Central. Conseguiu, por exemplo, até adquirir outros bancos. Em 2024, comprou o Voiter e o Letsbank, além do Will Bank, que, apesar do nome, não é um banco. Mas todos os três, assim que ficaram debaixo do guarda-chuva do Master, se puseram a emitir CDBs, sempre alardeando a garantia do FGC. O então diretor de Fiscalização do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza, não ligava para os alertas do mercado, que já eram constantes. Dizia que os grandes bancos tinham “inveja do crescimento do Master”. E garantia que o banco de Vorcaro ainda iria “colocar o ovo em pé”.
Então, em março de 2024 a crise de liquidez do Master levou o BC a cogitar alguma medida mais severa. Na prática, tudo continuou como antes. Em novembro, faltando pouco mais de um mês para Campos Neto deixar a presidência do BC, a situação se agravara. Conforme documento do próprio Banco Central, já havia sido detectada “a existência de irregularidades” cometidas pelo banco, incluindo o descumprimento de normas e fornecimento de “informações incorretas”. Então, Campos Neto convocou Vorcaro para uma reunião de emergência em Brasília. No encontro, deu-lhe mais uma chance: um prazo de quatro meses para ajustar o ativo e o passivo do Master, sob pena de ser liquidado.
Naquele ponto, o banco não tinha saldo para honrar quase 50 bilhões de reais em dois tipos de títulos. Eram 30 bilhões de CDBs e quase 20 bilhões de reais em CDIs, dos quais 12 bilhões venceriam ao longo de 2025. Depois de dar o prazo de quatro meses, Campos Neto deixou o cargo. Meses depois, virou executivo do Nubank, a maior fintech da América Latina, que está respondendo a uma ação judicial sob acusação de vender os CDBs do Master omitindo os riscos e apoiando-se em publicidade enganosa.
Em conversas com colegas de mercado, Campos Neto tem dito que só soube do caos promovido pelo Master em 2024, quando foi alertado por banqueiros. A análise da situação de bancos pequenos, que não têm dimensão para causar uma crise sistêmica, raramente chega à presidência do BC. Mas, quando tomou conhecimento do que estava ocorrendo, Campos Neto tomou duas medidas. Primeiro, reduziu o limite de CDBs emitidos pelos bancos pequenos com garantia do FGC. (Na época, o Master tinha 30 bilhões de CDBs nessa condição, mas o total de emissões dos bancos pequenos e médios chegava a 850 bilhões de reais.)
Em segundo lugar, limitou o uso de precatórios no balanço dos bancos pequenos. “O BC mandou o Master contratar uma consultoria para avaliar se os precatórios estavam precificados corretamente no balanço”, me disse um diretor do BC. “A KPMG, a auditoria contratada, disse que os preços estavam dentro da realidade.” Ainda assim, o BC preferiu restringir o limite de precatórios nos balanços. “O Banco Central procura minimizar os efeitos de uma quebra de banco sobre o sistema. Tudo era discutido com a diretoria. Gabriel Galípolo fazia parte. As votações são unânimes”, me disse o diretor.
O problema da gestão de Campos Neto é que, desde 2023, o FGC vinha alertando a ele próprio e aos diretores da área de fiscalização e supervisão sobre os riscos do Master. A diretoria do FGC chegou a fazer três reuniões com Campos Neto para pedir que a sangria fosse contida. Nada aconteceu. Até meados de 2024, todas as conversas com Campos Neto e diretores e superintendentes giravam em torno do risco que o Master representava. “Nós estamos vendo uma bomba, e vocês?”, diziam os técnicos do FGC. O pessoal do BC respondia: “Achamos que está tudo sob controle.”
E assim, em janeiro de 2025, Campos Neto encerrou seu mandato no comando do BC e deixou o pepino na mesa de Gabriel Galípolo, seu sucessor.
Com o cerco se fechando, Vorcaro abriu negociações com o BRB. Era uma opção natural. O BRB era um amigo do Master. O governador do DF, Ibaneis Rocha, um bolsonarista filiado ao MDB, tinha relações com Vorcaro. Além disso, havia meses que o BRB comprava lotes de créditos consignados (que são descontados na folha de pagamento do tomador) para ajudar o Master. Em dezembro passado, ao depor na PF, Vorcaro admitiu que tratou da negociação Master-BRB com o governador. Ibaneis negou. Disse que esteve com Vorcaro quatro vezes, mas nunca tocaram no assunto. (A oposição na Câmara Legislativa do DF já apresentou dois pedidos de impeachment do governador.)
A pressão política para empurrar o Master pela garganta do BRB não se limitou ao governador. Filiado ao PP, o senador Ciro Nogueira, cujo nome aparece com inquietante assiduidade nos escândalos nacionais, é outro que transita bem entre os bancos. Está nas duas pontas. Do lado do BRB, apadrinhou a indicação de Paulo Henrique Costa para o comando do banco. Do lado do Master, propôs no Congresso um projeto para aumentar a cobertura do FGC de 250 mil para 1 milhão de reais. O endereço de sua proposta era tão evidente que ganhou o apelido de “emenda Master”.
O deputado Arthur Lira, ex-presidente da Câmara e igualmente filiado ao PP, também fez parte do pelotão para salvar o Master. Em vez de recorrer ao BRB, os dois, o senador e o deputado, poderiam ter optado pela Caixa Econômica Federal, outro banco no qual têm influência. O presidente da CEF, Carlos Antônio Vieira Fernandes, foi indicado por Lira. O vice-presidente de Negócios de Atacado, Tarso Duarte de Tassis, ex-assessor de Vorcaro, foi indicado por Ciro. O Master tinha a simpatia da cúpula da Caixa Asset – no caso, o presidente Pablo Sarmento e o diretor Igor Marcelo Laino. Coube aos dois tentar aprovar a compra de 500 milhões de papeis do Master – e, depois, demitir os três gerentes que se recusaram a avalizar a operação. (Em retrospecto, não se deram bem. Quando o escândalo veio à tona, em 2024, Sarmento perdeu o cargo. Quando o TCU investigou o caso, Igor Laino teve que arcar com o pagamento de multa.) ***.
Cercado por essa teia de influência de políticos, o BRB mergulhou de cabeça no desastroso projeto de salvar o Master. Em março do ano passado, então, o negócio foi oficialmente anunciado. O BRB se dispusera a pagar 2 bilhões de reais para comprar 58% das ações do Master. O banco estatal de Brasília ficaria com a parte saudável do Master, do qual Vorcaro se manteria sócio, e o pedaço podre permaneceria com o Master falido, que, por sua vez, trataria de arrumar uma saída. De imediato, houve uma grita no mercado e de alguns políticos do Distrito Federal, alarmados com a negociação.
Afinal, o Master era um banco quebrado, que certamente contaminaria o balanço do BRB. Coube então ao diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC**, Renato Gomes, analisar os detalhes do negócio. Como é praxe nessas transações, Gomes pediu ao presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que comprovasse a viabilidade financeira da operação.
Quando Costa apareceu no BC com seu plano de compra, os técnicos da instituição se assustaram. “Tudo era muito amador. O balanço do BRB era uma bagunça”, me disse um analista do BC, que pediu para não ser identificado porque não tem autorização para falar do assunto. “O Paulo Henrique fazia o que queria. Apenas ele e o diretor financeiro, o Dario Oswaldo Garcia Junior, participavam das reuniões. O Conselho de Administração do BRB nunca apareceu para opinar. Os conselheiros não tinham a menor ideia do que estava acontecendo”, continuou. “O BRB, claramente, era uma instituição sem governança.”
Nas reuniões com o BC, Costa não conseguia justificar nem aspectos básicos da operação. Não sabia informar com que ativos do Master o BRB pretendia ficar. Não sabia detalhar as operações que interessavam ao BRB. O mais grave: não tinha noção do passivo do Master. Ou seja: estava se comprometendo a pagar todas as dívidas do Master, como manda a lei de aquisição bancária, sem, no entanto, ter ideia do tamanho do buraco. “O risco a que o Paulo Henrique estava expondo o BRB era imenso. Aquilo não era sério”, me disse outro analista do BC que participou das reuniões.
Além de desconhecer informações banais, Costa tentou vender gato por lebre. Um dos ativos que ficariam com o BRB eram cártulas do finado Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), que foi comprado pelo Banco do Brasil em 2008. As cártulas eram ações do antigo Besc que não haviam sido trocadas pelas ações do BB no momento de sua aquisição – e, esquecidas na gaveta, haviam perdido a validade. Costa e Vorcaro diziam que as tais cártulas valiam 13 bilhões de reais porque seriam cobradas judicialmente do BB.
“Era tudo na base do chute”, me disse esse técnico do BC. “Eram tantos erros grosseiros que parecia coisa de estagiário.” Houve, inclusive, operações claramente fajutas. Numa delas, o BRB apontou como ativo uma carteira de 3 bilhões de CDBs do Master que, naquela altura, já tinha virado pó. Costa chegou a dizer que algumas operações que garantiam a viabilidade do negócio dependiam do resultado do Will Bank, que pertencia ao próprio Master. Era uma afronta. O Will Bank nunca deu resultado positivo. Pelo contrário.
Em meio à barafunda, o BC encontrou a mais tenebrosa de todas as transações entre as duas instituições. Em janeiro de 2025, Master e BRB fizeram um negócio no valor de 12,2 bilhões de reais. O BRB pagou essa quantia pelas carteiras de créditos do Master – no caso, empréstimos consignados que o banco dizia ter a receber. O BC pediu que as duas instituições comprovassem os recursos das carteiras de crédito. O que recebeu de volta foi uma carrada de mentiras.
Primeiro, disseram que se tratava de uma carteira de empréstimos consignados de servidores do estado da Bahia. Ao checar os números com o estado, o BC descobriu que era mentira. “Durante todo o processo de levantamento das fraudes, o Vorcaro e o Paulo Henrique mantinham a calma e diziam não haver nada de errado naquelas operações grosseiras. Mas, quando foram pegos nessa mentira, foi a primeira vez que eles saíram da reunião conosco com as mãos suadas”, disse o analista do BC.
Mesmo ao se deparar com o embuste, o BC resolveu dar uma nova chance para que as duas instituições se explicassem. Veio outra impostura. A justificativa, agora, era de que os créditos pertenciam a uma empresa chamada Tirreno Consultoria, Promotoria de Crédito e Participações S.A., que era representada por um ex-funcionário do Master chamado André Felipe de Oliveira Seixas Maia. Falso. Nem a Tirreno e nem os créditos existiam. Estava claro que o BRB desembolsara 12,2 bilhões de reais em troca de vento.
Diante da evidência de que fora lesado, seria razoável imaginar que o BRB exigiria devolução imediata dos 12,2 bilhões. No entanto, o banco propôs ao Master que lhe pagasse em várias prestações. Coisa de pai para filho. Ainda assim, o Master não topou. Sua contraproposta foi ressarcir o BRB com cotas de seus fundos no exterior. O BRB, sempre generoso com o Master, aceitou. Quando saiu em busca dos fundos, descobriu que, mais uma vez, era tudo cascata. Os fundos tinham sido fechados e o dinheiro, evaporado.
Apesar do cardápio de fraudes a que estava sendo apresentado, o Banco Central não desistiu de dar oxigênio ao Master. E, então, encontrou uma alternativa que chocou o mercado.
No dia 18 de abril, o Banco Central de Gabriel Galípolo, por meio do Departamento de Resolução e de Ação Sancionadora, enviou um ofício ao FGC, no qual pedia que o fundo prestasse “assistência financeira” ao banco de Vorcaro. A solicitação vinha assinada por três funcionários: André Maurício Trindade da Rocha, de Monitoramento do Sistema Financeiro; Belline Santana, de Supervisão Bancária; e Climerio Leite Pereira, de Ação Sancionadora.
O ofício explicava que o BC estava empenhado em viabilizar a venda do Master ao BRB e, para que a negociação saísse, o Master precisava de um empréstimo de 11 bilhões de reais. Assim, o banco poderia deixar o mercado sem causar traumas ao sistema.
Em tom sutilmente ameaçador, o BC alertava que, caso o dinheiro não fosse liberado, o Master poderia se inviabilizar a ponto de ser liquidado, o que resultaria em custos muito maiores para o FGC. Nos cálculos do BC, a bancarrota do Master custaria 54,3 bilhões de reais ao fundo. O ofício pintava um quadro tenebroso. Se a liquidação ocorresse em função da negativa do empréstimo, outras instituições que operavam da mesma forma que o Master – ou seja, pagando altas comissões para usar plataformas de investimento para distribuir seus CDBs ao mercado – também poderiam quebrar.
Como que para comprovar que não era alarmismo, o documento informava que, em dezembro de 2024, mais de 40% das captações de 25 bancos e 28 financeiras de pequeno porte, além do Master, eram feitas através de plataformas de investimento. Em conjunto, estas instituições tinham 119 bilhões em captações cobertas pelo FGC. Não que houvesse indícios de que estivessem sofrendo uma crise de credibilidade, dizia o ofício do BC, mas “as incertezas envolvendo a solução do Master estavam gerando rumores que poderiam influenciar negativamente as percepções de mercado e impactar a solidez de instituições com as mesmas características do Master”.
Três dias antes de receber o ofício, que praticamente jogava a responsabilidade por uma crise sistêmica no colo do FGC, os técnicos do fundo haviam recebido outra carta – que consideraram abertamente ameaçadora.**** Vinha assinada por Walfrido Warde, o advogado de Vorcaro. Warde se valia de argumentos idênticos aos que o BC usaria em carta posterior, só que os expunha com mais ênfase. Mesmo assim, as cartas eram tão semelhantes que pareciam redigidas pela mesma pessoa. Em seu ofício, Warde afirmava que o FGC tinha o dever de apoiar as soluções privadas, como era o caso da venda do Master ao BRB, e solicitava que o fundo desse máxima celeridade à solicitação.
Com receio de vir a ser acusado de gerar uma crise bancária, o FGC aquiesceu, mas reduziu o valor do empréstimo. Em vez de 11 bilhões, liberou 5,7 bilhões. Além da pressão e da ameaça, o FGC levou em conta a garantia que recebera do BC segundo a qual, com seu empréstimo, a crise estaria resolvida. O BRB compraria o Master, e o FGC estaria livre de um impacto maior em suas contas. E, afinal, quando se trata de ajudar a debelar uma crise para evitar uma crise ainda maior, o FGC tem autorização estatutária para entrar no jogo.
Ocorre que, cinco meses depois de ter dado essa garantia por escrito e obtido os 5,7 bilhões de reais, o Banco Central rejeitou a venda do Master ao BRB, porque se tratava de uma operação inviável. Sentindo-se ludibriado, o FGC enviou uma carta ao BC lembrando que, no curso da operação de empréstimo, o fundo insistira reiteradamente na necessidade de receber informações e documentos do Master, bem como de se manter atualizado sobre o andamento das tratativas. Reclamava que todos os seus pedidos haviam sido negados pelo BC. O BC não respondeu.
“É vergonhoso o que o Banco Central fez”, me disse um irado representante do mercado financeiro cujo banco faz pesados aportes ao FGC. “Em abril do ano passado, quando mandaram aquele ofício ao FGC, eles já sabiam da fraude e nem sequer chamaram os técnicos do fundo para buscarem uma saída conjunta. O empréstimo, como está no estatuto do fundo, só se justificaria se houvesse chance de recuperação do banco. E o Banco Central já sabia que essa chance não existia.” E concluiu: “O FGC existe para proteger os investidores e não para salvar criminosos.”
O comportamento errático do Banco Central se repetiu, pouco depois, em outra situação também mal digerida pelo mercado. Em julho, o Banco Central autorizou a criação de uma nova instituição – o Banco Pleno, que pertence a ninguém menos que o baiano Augusto Lima, o fundador e ex-sócio do Master. (Quando comprou o Voiter, que pertencia ao Master, Lima trocou seu nome para Pleno.) Naquele mesmo mês de julho, o Banco Central denunciou ao Ministério Público as fraudes que descobrira no Master.
“Como é possível isso? O Banco Central autoriza o funcionamento do Pleno logo depois de ter denunciado um de seus donos ao Ministério Público?”, disse o diretor de um banco em tom de perplexidade. Preso pela Polícia Federal na operação de 18 de novembro, a exemplo dos demais executivos do Master, Lima foi solto e hoje usa tornozeleira eletrônica. Mas é dono do Banco Pleno. (Normalmente, o BC leva, pelo menos, um ano para aprovar o funcionamento de uma nova instituição. No caso do Pleno, a autorização saiu em 45 dias.)
O argumento do Banco Central para ter aprovado o Banco Pleno é controverso. O primeiro é de que Lima tem um patrimônio de 1 bilhão de reais, que irá colocar no banco. Esses recursos, portanto, voltariam ao “perímetro do caso”, se Lima vier a ser condenado pelas fraudes. O segundo argumento, menos plausível ainda, é de que Lima obedeceu a todos os requisitos do BC para abrir um banco, incluindo a “reputação ilibada”. “Como ele ainda não foi condenado, não tinha como negar a operação”, me disse um técnico do BC.
O raciocínio não leva em conta que, ainda que Lima não tenha sido condenado, o próprio Banco Central já havia levantado provas das irregularidades dele. Para completar, antes de dar a autorização em tempo recorde, o Banco Central chegou a perguntar para Lima por que ele queria se meter num negócio tão arriscado. Revela que o próprio BC tinha suas desconfianças, mas a pergunta deveria ser inversa. Por que o BC autorizaria uma pessoa que sabidamente fazia negócios suspeitos a entrar no mercado?
A autorização para o funcionamento do Pleno promete causar mais dores de cabeça ao Banco Central. Por duas razões. Quando desfez a sociedade com Vorcaro em 2024 para ficar com o Pleno, Lima levou consigo os ativos mais lucrativos do Master. Com isso, os credores do Master não terão acesso à parte que poderia lhes garantir algum ressarcimento. Segundo: o Pleno, sem dinheiro para operar, já está pedindo um socorro. Para quem? Para o FGC. Em uma carta enviada ao fundo no dia 23 de janeiro passado, o Pleno afirma que o FGC “também tem por finalidade a contribuição para a preservação da estabilidade do sistema financeiro nacional e a mitigação de riscos de natureza sistêmica”. E apresenta seu pleito: uma assistência financeira no valor de 800 milhões de reais.
“Esse não foi o maior golpe contra o sistema financeiro”, me disse Antônio Marques de Oliveira Neto, da 369 Capital, empresa que intermedeia compra e venda de instituições financeiras e opera na recuperação de empresas quebradas para oferecê-las de volta ao mercado. “Esse foi o maior golpe contra os credores na história do Brasil.”
Com tantas controvérsias, o próprio BC resolveu abrir uma investigação interna para apurar eventuais falhas em relação ao Master, focando principalmente no período de Campos Neto. No âmbito da sindicância, que corre em sigilo, dois diretores entregaram seus cargos. Um é Belline Santana, que assinou o ofício pedindo ao FGC para socorrer o Master com 11 bilhões de reais. O outro é Paulo Sérgio de Souza, que apostava que o Master acabaria colocando o “ovo em pé”.
O baiano Augusto Ferreira Lima está na origem do Master. Coube a ele levar para o banco, quando se associou a Vorcaro, em 2019, o Credcesta – um cartão de crédito consignado que opera com servidores públicos e aposentados pelos estados e também pelo INSS. A ideia surgiu na Bahia, em 2018, durante o governo de Rui Costa (PT), atual ministro da Casa Civil. Naquela época, Costa estava tentando privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da rede de supermercados Cesta do Povo, que vendia produtos subsidiados aos funcionários do estado – e só dava prejuízo. O problema é que o estado já havia feito dois leilões e os compradores não apareciam.
Augusto Lima, que ainda não operava com o mercado financeiro, fez então uma reunião com Jaques Wagner, na época secretário de Desenvolvimento Econômico do governo da Bahia e hoje líder do governo no Senado. Conseguiu convencê-lo a tornar o leilão mais atraente. Sua ideia: o governo baiano incluiria no edital uma cláusula permitindo que o comprador da Ebal operasse um cartão de crédito consignado para ser oferecido aos 400 mil servidores, pensionistas e aposentados da Bahia. Além de comprometer 30% de sua renda com empréstimos consignados comuns, como prevê a lei, o servidor baiano passaria a poder comprometer mais 10% de sua renda com o tal cartão de crédito, que foi batizado de Credcesta.
A proposta vingou. No terceiro leilão, a Ebal foi arrematada por 15 milhões de reais. O comprador? Augusto Lima. O cartão de crédito, por si só, já era um negócio para lá de vantajoso, pois cobrava mais de 5% de juros ao mês. Além disso, operaria sem risco de calote, porque era consignado, e tinha uma clientela garantida, os 400 mil servidores. Dezesseis dias depois, contudo, Lima recebeu mais um presentaço do governador Rui Costa: o Credcesta seria o único a operar naquele mercado durante quinze anos.
A exclusividade transformou o Credcesta numa mina de ouro ainda mais apetitosa. Para operá-lo, porém, Lima precisava de um banco. Em São Paulo, procurou o BMG, cuja sede funcionava no Pátio Victor Malzoni, o prédio mais badalado da Avenida Faria Lima. O BMG recusou a proposta. Por sugestão de um investidor que o acompanhava, Lima desceu até o segundo andar do edifício, onde funcionava um banco novo e desconhecido: o Master, que gostou da proposta. Por 25 milhões de reais, Vorcaro tornou-se dono de 50% do Credcesta, que virou um ativo altamente lucrativo para o seu banco. Depois da Bahia, o Rio de Janeiro foi o primeiro estado a aderir ao Credcesta, após uma negociação entre correligionários: Antonio Rueda, o presidente do União Brasil, intermediou o negócio com o governador Cláudio Castro (PL). Com um detalhe: o Credcesta, no Rio, também teve a exclusividade garantida.
O Master chegou a operar com o Credcesta em 24 estados. O sucesso do produto atraiu pequenos bancos, que passaram a reclamar o direito de também entrar no mercado. No governo de Jair Bolsonaro, com apoio de Ciro Nogueira e Arthur Lira, o Congresso fez duas mudanças. Numa, permitiu que os empréstimos consignados, antes limitados a 30% da renda do tomador, subissem para 35%. Na outra, abriu o mercado para os bancos pequenos operarem com o cartão consignado, no qual o tomador do dinheiro podia comprometer mais 10% de sua renda, além do limite de 35% do empréstimo consignado. A farra estava cada vez maior. Quando assumiu a Presidência da República, Lula reclamou com o ministro Fernando Haddad que os servidores estavam sendo empurrados a pagar juros extorsivos. Podiam comprometer 35% de sua renda com empréstimo consignado, em que os juros ficam na faixa de 2%, e mais 10% com o cartão consignado, entre eles o pioneiro Credcesta, em que os juros passam de 5%. Por que não dar aos servidores o direito de usar 45% de sua renda com os empréstimos mais baratos?
Haddad fez um estudo sobre o assunto. Sua proposta não proibia o cartão de crédito consignado, mas dava ao servidor a opção de usar os 45% de sua renda com os empréstimos de juros de 2%, sem ter que recorrer ao cartão com taxa de 5% – uma vantagem evidente. Assim que concluiu o estudo, a equipe da Fazenda recebeu um recado claro de membros do Congresso: se o governo mexesse no cartão de crédito consignado, não conseguiria aprovar mais nada no Legislativo. A proposta foi engavetada e Lula nunca pediu para ver o estudo. No Ministério da Fazenda, pouca gente tem dúvidas de que Augusto Lima estava por trás da pressão vinda do Congresso. Afinal, depois de sair do Master no ano retrasado, Lima levou consigo o ativo mais valioso do banco, o Credcesta, e passou a operá-lo com outro banco. Qual? O Banco Pleno, o mesmo que está pedindo uma ajuda de 800 milhões de reais ao FGC.
Como Vorcaro, Augusto Lima também é um sujeito muito bem relacionado. Além da amizade com Rui Costa e Jaques Wagner, ele tem boas relações com a dupla Ciro Nogueira e Arthur Lira. Sua mulher, Flávia Peres, é outra que circula bem nas altas esferas. Foi ministra-chefe da Secretaria de Governo da Presidência na gestão de Jair Bolsonaro. No Palácio do Planalto, seu gabinete era vizinho do gabinete de Ciro Nogueira, então ministro da Casa Civil. Flávia Peres, fechando o círculo das relações que explicam o negócio Master-BRB, também é próxima do governador Ibaneis Rocha, do DF.
As digitais de Augusto Lima no rolo Master-BRB estão por toda parte. A Polícia Federal descobriu que o baiano controlava duas associações de servidores na Bahia. Eram justamente aquelas duas entidades cujos nomes foram invocados para dar suporte à venda fraudulenta, por 12,2 bilhões, da carteira de crédito consignado. Descobriu também que a Tirreno, a empresa-fantasma, era uma ficção criada por Henrique Peretto. E quem é Henrique Peretto? Ex-parceiro de Lima em vários negócios – entre eles, o consórcio que comprou a Ebal e o Credcesta. Os dois chegaram a dividir um coworking no oitavo andar do edifício Pátio Victor Manzoni.
Em que pese a relevância de Augusto Lima, é impossível contar a história do Master sem iluminar o papel de outro baiano: o empresário Nelson Tanure, cuja presença no noticiário dos negócios obscuros é uma constante. Suas ligações com o Master são tantas que o mercado especula se o empresário não era sócio oculto do banco. Com a atuação de Tanure desde os primórdios, o Master prosperou – pelo menos no papel. Seu patrimônio líquido saltou de 219 milhões em 2019 para 4,7 bilhões em 2024.
Numa ponta, o Master captava dinheiro com as ousadas operações com CDBs, escorando-se nas garantias do FGC. Na outra, investia o dinheiro captado em fundos atulhados de ativos podres: Light, CVC, Ambipar, Oi, Gafisa, Alliança Saúde, Oncoclínicas, Ligga Telecom, Westwing. Todas empresas em recuperação judicial ou com sérios problemas de caixa. Eram, portanto, ativos baratos – e com uma vantagem adicional: os seus valores eram inflados artificialmente, o que também inflava o balanço do Master, dando ao banco a aparência de uma instituição robusta.
Entre essas empresas, havia um ponto em comum: Nelson Tanure era o principal sócio de todas elas. Em 2024, o empresário, através de um dos seus fundos, o Phoenix, fez uma jogada ainda mais ousada, radicalizando seu modo de operar. Mas deu errado. Por 1 bilhão de reais, com financiamento da XP Investimentos, comprou o controle da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), sucessora da Eletropaulo, vendida pelo governador Tarcísio de Freitas. Sua aposta era receber a dívida de cerca de 40 bilhões do estado de São Paulo com a Emae e, com esse dinheiro, pagar o financiamento. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu o pagamento do estado e, sem o dinheiro, Tanure não pagou nem a primeira parcela à XP – que executou a dívida e lhe tirou a Emae.
O elo que desperta a suspeita de uma sociedade oculta entre Tanure e Master chama-se Banvox Holding Financeira. A Banvox está no nome de Maurício Quadrado, mas, na verdade, pertence a um fundo chamado Estocolmo – que, por sua vez, pertence a Tanure. É seu modo de atuar. Tanure não costuma colocar seus negócios em seu nome, mas sempre em nome de fundos que ele próprio cria. Não é uma prática rara no mercado. Ao contrário. A maioria dos detentores de fundos usa essa tática: ou para pagar menos impostos, ou para esconder a origem do dinheiro – ou ambos.
No caso de Tanure, boa parte de seus investimentos é feita por meio da Aventti Strategic Partners, sua empresa registrada no Reino Unido. É ali que estão abrigados os fundos e empresas que escondem a sua pessoa física. Os nomes vieram a público porque os órgãos britânicos de fiscalização, mais ativos que os brasileiros, exigiram que Tanure prestasse contas, sob pena de perder os investimentos. Graças a isso, agora se sabe que Tanure opera com Modal, Trustee, Banvox, Ilha de Patmos, Estocolmo, Phoenix, Planner… Todos operam com o Master daquele modo: têm ativos podres e precificação artificial, que engordam, na aparência, o balanço do banco.
Por meio de seus fundos, Tanure também costuma comprar ações de empresas até se tornar o controlador, o que é perfeitamente legal. Mas, quando isso acontece, a lei manda que o controlador compre, pelo mesmo preço, as ações dos sócios minoritários que quiserem vendê-las. A maior queixa dos minoritários era que Tanure sugava o caixa das empresas e largava o esqueleto sem qualquer valor. Vladimir Timerman, gestor do fundo Esh Theta, de São Paulo, sócio minoritário em uma empresa adquirida por Tanure, a Gafisa, já colocou a boca no trombone para denunciar as práticas predatórias e ilegais.
Timerman fez várias denúncias à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que fiscaliza o mercado de valores. Nunca foi ouvido. Chegou a brigar com o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, que foi indicado ao cargo por Flávio Bolsonaro. Nascimento, amigo bastante próximo de um braço direito de Tanure, Pedro Borba, chegou à chefia da CVM sob a desconfiança de que sua proximidade com Borba contaminaria sua atuação. Borba era tão íntimo de Nascimento que, dentro das empresas de Tanure, ganhou o apelido de “Mister CVM”.
Em suas investidas, Timerman acusava Nascimento de ignorar deliberadamente as falcatruas de Tanure. Mas, agora, com o escândalo do Master sangrando em público, sente-se aliviado e recompensado por seus anos de denúncias. “Eu fiquei muito tempo brigando sozinho para provar as irregularidades nas empresas de Tanure que lesavam os minoritários. Agora tudo está sendo comprovado.” O escândalo mostrou que uma batelada de operações irregulares do Master e seus parceiros passou pelo meio das pernas da CVM. A lista de irregularidades é longa: desvio de recursos dos fundos, gestão temerária, riscos excessivos, fraudes no mercado de capitais, manipulação de preços.
Mas Timerman não se limitou a acionar a CVM. Também recorreu ao Banco Central para denunciar o Master pela quantidade assombrosa de CDBs que o banco mantinha na praça. Depois de um ano de espera, Timerman recebeu um ofício do BC desconsiderando suas denúncias. O BC também não reagia bem quando os agentes do mercado diziam que a maior parte dos ativos do Master não representavam operações bancárias e sim participações em um monte de empresas com dificuldades financeiras. Diante dos questionamentos, o chefe da Supervisão Bancária, Belline Santana, que agora está afastado no âmbito das investigações internas, respondeu, certa vez, candidamente: “Essas empresas existem, nós estivemos lá.”
Até que chegou a hora.
Quando já não era mais possível conter o naufrágio do Master, Gabriel Galípolo, comandante do BC, reuniu a diretoria. Queria que todos os diretores votassem em conjunto pela recusa da operação Master-BRB. Temia que qualquer divergência fosse usada por grupos de pressão política para forçar o BC a recuar. Na reunião, o diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Gomes, que investigou a transação com o BRB, avisou que, se a operação fosse aprovada, não teria seu aval. Pediu que, se quisessem levar a operação adiante, que aguardassem o fim do seu mandato, em janeiro.
No dia 3 de setembro de 2025, a operação foi rejeitada por unanimidade. Mas o banco só seria liquidado dois meses depois. Enquanto isso, o Master sangrou em praça pública. Até o normalmente discreto advogado Marcelo Trindade, ex-presidente da CVM, abriu o verbo em um artigo no blog Valor Invest, do jornal Valor Econômico. “A demora na solução da situação do Banco Master faz surgir no Brasil um tipo inédito de instituição financeira. Trata-se do ‘banco zumbi’ incapaz de captar recursos de investidores sérios, que sobrevive diariamente à expectativa de sua iminente liquidação pelo Banco Central, mas segue perambulando pelo mercado.”
No período em que vagava feito morto-vivo, o Master promoveu o lance mais cênico. Bateu na porta da Fictor e dos investidores árabes, que nunca foram identificados, e anunciou que estava prestes a ser vendido. Um integrante do BC, que esteve envolvido no caso, me disse que a Fictor tampouco apresentou a documentação necessária para fazer o negócio. Especulando sobre a identidade dos árabes, esse funcionário me disse com sarcasmo: “Só se forem árabes de Carnaval.”
Enquanto isso, o Banco Central, que temia uma reação contrária à liquidação, andava acuado. Segundo me disse um gestor do mercado financeiro, o BC só teve coragem de liquidar o Master depois de ter a Polícia Federal ao seu lado. “É um Banco Central totalmente de joelhos, acovardado, sem coragem de usar a caneta. Precisa da ajuda da Polícia Federal.” E fez uma analogia médica. “A demora do Banco Central em agir é como um médico que se recusa a aceitar que o paciente está morto. O Banco Central precisou esperar que o cadáver estivesse cheirando mal para aí falar ‘é, realmente acho que agora parece que está morto’”, disse ele. “Foi preciso chegar a ponto de não ter 1 real no caixa do Master para a autoridade monetária decretar a quebra.”
O coro que se levantou em favor do Master não justifica a reticência do BC, mas ajuda a explicar o cenário. A pressão chegou às ruas, inclusive. Durante a análise do processo pelo diretor Renato Gomes, o portal de notícias brasiliense Metrópoles, que pertence ao empresário Luiz Estevão, espalhou pelos pontos de ônibus da cidade cartazes divulgando uma reportagem. Tinha a foto de Gomes ampliada e uma pergunta: “Técnico ou político? Renato Gomes decide futuro do Master.”
Das ruas, a pressão pulou para os gabinetes dos tribunais. No Tribunal de Contas da União (TCU), Vorcaro encontrou um empenhado defensor de seus interesses. Desde a liquidação do banco, o ministro Jhonatan de Jesus, um ex-deputado pelo Republicanos de Roraima que ganhou a cadeira por indicação do deputado Arthur Lira, entrou numa cruzada em favor de Vorcaro.
Querendo reverter o desmonte do banco, Jesus partiu para cima do Banco Central, afirmando que a autoridade monetária deveria ser fiscalizada por ter se “precipitado” na liquidação do Master. Exigiu que fosse feita uma investigação do próprio BC. Por pressão das instituições financeiras, que viam nessa ingerência política o risco de enfraquecer a regulação do sistema bancário, Jesus voltou atrás na decisão e recolheu-se. Antes disso, ministros do TCU já haviam me alertado de que a proposta de investigar o BC não iria para a frente. “Nós não somos o STF. Aqui, não existe decisão monocrática. Tudo é decidido pelo colegiado, e o Jhonatan, apesar de ter o apoio de Aroldo Cedraz e de João Augusto Nardes [ministros do TCU], todos os dois próximos de Arthur Lira, seria derrotado pela outra ala que não é ligada ao ex-presidente da Câmara”, me disse um dos ministros. “Isso foi uma audácia do Jhonatan, que beira a ingenuidade.”
Quem mais se enredou na teia do escândalo foi o Supremo Tribunal Federal (STF), onde a estrutura tentacular do Master chegou a dois ministros, Alexandre de Moraes e José Dias Toffoli, e um ex-ministro, Ricardo Lewandowski. O jornal O Globo revelou o contrato que o escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, mantinha com o Master. Qualquer escritório tem o direito de representar quem quiser, mas havia um problema e tanto: o valor extraordinário do contrato. Eram 129 milhões de reais em três anos – 3,6 milhões por mês – para defender o Master de Vorcaro junto a uma penca de órgãos dos três poderes da República.
“Escuta”, me explicou um advogado. “Isso não existe. Quando você pega um caso, você precisa calcular os seus custos, quantos advogados vai precisar, quantas viagens terão que ser feitas, quanto tempo vai durar a causa, coisas assim. Dessa forma, você apresenta para o cliente seus honorários e suas despesas. Como é que você faz um contrato às cegas, pagando 129 milhões de reais?”
Para piorar, o mesmo jornal O Globo noticiou que Alexandre de Moraes havia pressionado Gabriel Galípolo para que resolvesse o caso do Master. Moraes admitiu ter tido conversas com o presidente do BC, mas disse que trataram de assuntos relacionados à Lei Magnitsky, com a qual o presidente Donald Trump queria punir o magistrado por seu papel decisivo na condenação de Jair Bolsonaro e demais golpistas. Galípolo confirmou a versão de Moraes. Os dois casos – o inexplicável contrato milionário e o conteúdo da conversa – ficaram por isso mesmo, mas o stf não conseguiu sair da berlinda. Ao contrário.
Assim que a liquidação do Master foi decretada, o ministro José Dias Toffoli começou a adotar uma sucessão de medidas estapafúrdias que jogavam dúvidas sobre a legitimidade da ação do BC. De início, aceitou um pedido da defesa do Master para tirar o caso da 10ª Vara Federal de Brasília e levá-lo para o stf. Para tanto, Toffoli concordou com a alegação da defesa de que, na papelada apreendida do Master, havia um contrato assinado por um deputado, que, como todo parlamentar, tem direito a ser julgado diretamente no stf. Era um pretexto. O contrato versa sobre a compra de um terreno que nada tem a ver com a história do Master.
Além disso, Toffoli decidiu, sozinho, que ele é o único supervisor do caso. Convocou uma esdrúxula acareação entre Vorcaro e o diretor de Fiscalização do BC, Aílton Aquino, antes mesmo que os dois tivessem prestado seus respectivos depoimentos. Decretou segredo de Justiça sobre o processo – e depois voltou atrás. Impediu que a PF fizesse perícia em parte do material apreendido pela própria polícia – e depois, criticado em público, recuou em privado, autorizando a perícia por meio de um telefonema à PF. Deu prazo de 24 horas para os policiais cumprirem mais de quarenta mandados de busca e apreensão – e depois acusou os agentes de má vontade por não terem cumprido prazo tão exíguo.
“O que Toffoli está fazendo é totalmente fora dos padrões, e ninguém o para”, me disse um jurista que acompanha o comportamento da Corte. Como se não bastasse o tumulto que provocou no processo, Toffoli tem relações com Vorcaro, o investigado. O ministro era frequentador das festas do banqueiro e vice-versa. Toffoli ainda viajou no jatinho de um amigo, o empresário Luiz Osvaldo Pastore, onde estava também Augusto Botelho, o advogado de um dos diretores do Master, Luiz Antonio Bull, que foi preso preventivamente pela PF. O objetivo da viagem era assistir à final da Libertadores, no Peru. O advogado Augusto Botelho disse que nada tinha a ver com o ministro. Que, durante a viagem, ficou sentado no banco de trás do avião com seu filho. Que o preço da passagem era caro. Que não havia nada de mais pegar carona no jatinho do amigo. Que, se não puderem estar com os amigos, os advogados não podem ter “vida social”.
A situação de Toffoli tornou-se ainda mais embaraçosa depois que o jornal O Estado de S. Paulo revelou que um primo e dois irmãos do ministro – o engenheiro José Eugênio e o padre José Carlos Dias Toffoli – compraram parte do resort Tayayá, no Paraná, com financiamento do fundo Arleen. O principal cotista do Arleen vem a ser Fabiano Zettel, o cunhado de Vorcaro. (Para manter a praxe do esconde-esconde, Zettel, na verdade, não era dono do Arleen diretamente, mas através de outro fundo, o Leal, de modo a dificultar sua identificação como dono real do investimento.)
Quando a sociedade foi montada, em 2021, os irmãos de Toffoli não tinham recursos para participar do negócio. Então, receberam um aporte de 20 milhões de reais do Arleen, numa operação triangulada pela Reag, aquela mesma administradora acusada de fazer investimentos para o PCC. Em 2024, o Arleen chegou a fazer um novo aporte no resort. Depois da abertura da investigação pela Polícia Federal, Zettel informou que havia fechado o fundo em 2025. Justamente após a primeira operação da PF.
Os rolos de Toffoli pareciam não ter como piorar, mas pioram. O Metrópoles noticiou que, entre 2022 e 2025, o STF pagou mais de uma centena de diárias para seguranças que viajaram para a região do resort Tayayá em feriados, fins de semana e dias de recesso. Como os ministros do STF costumam usar seguranças em seus deslocamentos, ficou evidente que Toffoli fez as viagens. Mas a confirmação de que Toffoli é frequentador do resort não custou a vir a público. O Metrópoles divulgou um vídeo em que o ministro aparece à beira de um gramado no Tayayá, onde pousa um helicóptero trazendo o banqueiro André Esteves, do BTG, e o empresário Luiz Osvaldo Pastore, o dono do jatinho que deu carona para Toffoli até o Peru. Quando o helicóptero aterrissa, o ministro, que carregava dois drinques de boas-vindas, caminha na direção dos visitantes para saudá-los.
Com seu envolvimento com os personagens do escândalo, seria de supor que Toffoli se sentisse impedido de julgar o assunto. Até o fechamento desta edição, a despeito das pressões para que abandonasse o caso ou devolvesse os autos para a 10ª Vara, Toffoli continuava no jogo. O ministro rejeitou até apelos dos colegas Gilmar Mendes e Flávio Dino. (Quem desistiu foi o advogado Walfrido Warde, que deixou a defesa de Vorcaro no dia 21 de janeiro, sem dar explicações. Sua saída tem sido atribuída a um de seus principais clientes, o Bradesco, que, ao contrário de Vorcaro, não tem nenhum motivo para brigar com o BC.)
E então surgiu a conexão Ricardo Lewandowski. Quatro meses depois de deixar o STF em abril de 2023, o escritório de advocacia do ex-ministro foi contratado pelo Master por sugestão do senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado. Os termos do contrato não são propriamente esclarecedores. Dizem que, em troca de 250 mil reais mensais, o escritório deveria prestar “consultoria jurídica e institucional de caráter estratégico”. Em janeiro de 2024, ao assumir o Ministério da Justiça, Lewandowski deixou o escritório e suspendeu sua carteira da OAB, que lhe dava direito a advogar.
O portal Metrópoles, porém, mostrou que os vínculos não foram cortados. Enquanto Lewandowski exercia o cargo de ministro da Justiça, seu escritório, que havia passado para o comando de sua mulher Yara e seu filho Enrique, continuou cumprindo o contrato, cujos termos foram alterados para focar mais em questões tributárias. A cronologia significa que, durante quase todo o tempo em que Lewandowski esteve no Ministério da Justiça, o escritório de sua família trabalhava para Vorcaro e, mais do que isso, com um contrato cujo valor não foi alterado. É curioso. Uma coisa é apostar no Santos com Pelé, outra coisa é apostar o mesmo valor sem Pelé. A conexão Lewandowski fez a crise colocar um pé na rampa do Planalto.
Já se sabia que, em dezembro de 2024, o presidente Lula recebera Vorcaro e Augusto Lima. Noticiado originalmente por O Globo ainda no ano passado, o encontro não causou alarme. Afinal, é comum que um presidente da República, ao ser informado de que um conhecido está no palácio, aceite recebê-lo em seu gabinete. Vorcaro e Lima tinham reunião com o chefe de gabinete de Lula e, a certa altura, pediram para ser recebidos por ele. O presidente aceitou e pediu a presença do ministro Rui Costa, aquele que deu a Augusto Lima o presentaço do Credcesta, e de Gabriel Galípolo, que estava a um mês de tomar posse na presidência do BC. Por isso, o encontro ocorreu sem agenda prévia.
Agora, porém, examinado à luz dos novos fatos, o encontro ganha outros contornos. Conectando as pontas: enquanto Lula recebia Vorcaro e Lima em seu gabinete, o escritório de advocacia da família de um ministro prestava “consultoria” de “caráter estratégico” ao Master. Naquela altura, dezembro de 2024, já era público e notório que o Master era um banco singularmente enrolado. Uma reportagem da piauí, publicada em outubro daquele ano, já mostrara em detalhes as arriscadíssimas operações do Master, seus problemas de liquidez e seus parceiros explosivos. Não se tem notícia de que essas conexões palacianas tenham enveredado para o pântano, mas mostram que a influência do Master, que tropeçava em dívidas e fraudes grosseiras, chegou ao nível da metástase.
Um indignado gestor de um fundo de investimento de São Paulo fez um diagnóstico: “Nunca se viu no país uma rede tão poderosa de proteção a um pequeno banco.” E continuou: “Sabe o que me assusta? É que o Banco Central pegou coisas muito mais difíceis de pegar sem nenhum tipo de demora. Cansou de liquidar, fechar e investigar. Eu nunca vi esse tipo de complacência e de amor à legalidade que o Banco Central teve que demonstrar no caso do Master.” Ele prosseguiu: “O Cruzeiro do Sul foi liquidado num piscar de olhos. O Prosper foi liquidado. O Banco Santos, com toda a confusão que deu, foi liquidado. E alguns tinham muito mais ativos do que o Master.” O pior, diz ele, é que as áreas de fiscalização e de supervisão bancária do Banco Central podiam ter percebido o caso do Master com extrema facilidade. “Era uma história relativamente trivial, até tosca, executada de um jeito totalmente não trivial, numa escala nada trivial.”
Em meio a toda confusão, quando se esperava que as pressões políticas sobre o mercado arrefecessem, Lula nomeou o advogado Otto Lobo para comandar a CVM. Lobo chegou à diretoria da autarquia por indicação do ministro Luiz Fux, do STF. Quando João Pedro Nascimento deixou a CVM, Lobo assumiu a presidência interinamente, enquanto se buscava um substituto. Não era o nome do Ministério da Fazenda, que tinha sugestões mais técnicas. Lobo é conhecido por decisões controversas, como a de ter absolvido a JBS num caso de informação privilegiada em operações com derivativos, em 2017, logo depois de ter se reunido com o dono da empresa, Joesley Batista. Com isso, o empresário se livrou de uma multa de 150 milhões de reais. (O mercado especula que a confirmação de Lobo na presidência veio por sugestão de Joesley Batista. Ele nega. Mas Lobo também contava com outro padrinho: Davi Alcolumbre, o presidente do Senado, que, sem nenhuma surpresa, pertence ao União Brasil.)
Lobo também é acusado de beneficiar outro barão dos negócios, que violou a lei ao não comprar ações dos minoritários da Ambipar, uma empresa que atua na área de “transformação ecológica”. O beneficiado é ele mesmo: Nelson Tanure, além de seu sócio na empresa, Tércio Borlenghi Junior. A maioria da CVM decidiu que Tanure tinha que comprar as ações dos minoritários, como manda a lei. Na época, João Pedro Nascimento ainda presidia o órgão e também votou contra Tanure e o sócio. Lobo foi voto vencido. Porém, quando assumiu a presidência interina da CVM, Lobo inventou uma jabuticaba: chamou nova votação para que, desta vez, ele se manifestasse “na condição de presidente” – e derrubou o pagamento de 1 bilhão de reais.
Essas ingerências políticas na CVM enfraquecem a entidade. Um advogado me fez a seguinte avaliação. “Isso tudo é muito ruim para o mercado brasileiro de fundos, que é o terceiro do mundo”, disse. “Politizar dessa forma a CVM só vai causar desconfiança dos investidores internacionais em relação ao Brasil.”
O caso do Master, porém, mostrou que a politização – no seu pior sentido – está em toda a parte. O banco deveria ter sido liquidado de uma penada só pelo Banco Central assim que ficou evidente a sua inviabilidade, mas as pressões se fizeram sentir. “Instituições que não deveriam se envolver na liquidação de um banco interferiram demais. E a instituição que deveria ter atuado com mais agilidade, o Banco Central, se recolheu”, avalia Armínio Fraga, presidente do BC no governo Fernando Henrique Cardoso.
Uma das razões para a paralisia é o fato de que o BC deixou de acompanhar, por falta de recursos e de técnicos, os avanços tecnológicos das instituições financeiras. “Acho que o Banco Central é uma instituição que merece proteção. É uma instituição que precisa ser modernizada para poder atuar melhor”, me disse Armínio Fraga. “Mas essas intervenções do STF, do TCU e da classe política fragilizam ainda mais o banco. E isso não é bom para o mercado. Não é bom para o Brasil.”
O escândalo do Master já deixou um rastro de destruição considerável, sobretudo quando se leva em conta que era uma instituição classificada como S3, de pequeno porte – um tamborete, como o mercado jocosamente chama as instituições menores. Até agora, estima-se que quase metade do patrimônio do FGC, de 123 bilhões de reais, vai evaporar com os ressarcimentos obrigatórios. Os cálculos atualizados indicam que o fundo poderá perder até 60 bilhões de reais.
Em apenas seis anos atuando no mercado, o Master lesou 1,6 milhão de investidores, arrastou para o buraco mais dois bancos, o BRB entre eles, e ainda sugou o caixa de dezoito fundos de previdência de estados, municípios e empresas privadas – com destaque para o Rioprevidência do governador Cláudio Castro, que torrou quase 1 bilhão de seu patrimônio aplicando no Master. “Muitos fizeram negócios em dezembro de 2024 com o Master porque não foram alertados nem pelo Banco Central nem pelo Ministério da Previdência Social, de que o Master era um banco de risco”, afirma Antônio Marques de Oliveira Neto, da 369 Capital, que foi chamado para ajudar os dezoito fundos lesados. Além disso, lembra Oliveira Neto, o Master tinha auditoria da KPMG, além de excelente classificação pela Fitch Ratings.
O estranho é que a cegueira dos fundos parece ter ideologia. Dos dezoito fundos que aplicaram no Master, dezessete são geridos por governos ou prefeituras de partidos de direita. É evidente que os fundos estão longe de ser inocentes, considerando que o mercado inteiro conhecia a situação do Master, que, aliás, já tinha chegado às páginas da imprensa. Além disso, a Superintendência Nacional de Previdência Complementar recomenda que os fundos façam investimentos seguros e, claramente, esse não era o caso do Master que se encheu de CDBs a taxas altíssimas. No caso do Rioprevidência, os gestores chegaram a ser alertados, inclusive pelo Tribunal de Contas do Estado, mas preferiram insistir no negócio arriscado – sabe-se lá por quê.
“Nós vamos na Justiça buscar esse prejuízo que terá que ser coberto pelos Tesouros Federal e Estadual”, me disse Oliveira Neto. Além do Rioprevidência, outras duas entidades já entraram com ações judiciais para serem dispensadas de repassar ao Master os créditos consignados devidos pelos servidores e aposentados. Uma é a Amprev, do Amapá, que aplicou 400 milhões no Master. Um dos conselheiros da Amprev é Alberto Alcolumbre, irmão do presidente do Senado. A outra entidade a recorrer à Justiça é o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (MS). A prefeita da cidade é Adriane Lopes, do PP.
São remotas as chances de sucesso dessas ações judiciais – se é que existem. Os créditos consignados não podem deixar de ser pagos pelo tomador do empréstimo, sob o risco de ser judicialmente penalizado. “Isso é tudo absurdo”, me disse um agente do mercado. “Esses fundos puseram o dinheiro dos aposentados nos CDBs do Master, e, agora, para continuar a confundir e ludibriar os aposentados propõem essas ações judiciais como se fosse possível suspender o repasse dos créditos consignados.”
Antônio Oliveira Neto, defensor dos fundos, joga toda a culpa no BC. Sua maior crítica é a forma como a instituição esvaziou o caixa do Master, vendendo seus ativos para outras instituições, quando já sabia que o Master não escaparia da liquidação. Assim, queimou a possibilidade de usar o caixa do banco para pagar os credores. “O André Esteves, desse abutre que é o BTG, pagou 1,5 bilhão de reais por ativos do Master que valem mais de 5 bilhões”, me disse Oliveira Neto. “Esteves comprou a participação do Master na Light, no Fasano, na Veste e outras empresas a preço de banana, enquanto os credores não têm agora ativos do banco para ressarci-los.”
Para Oliveira Neto, é incompreensível que o Banco Central, em vez de tomar o patrimônio pessoal dos donos do Master, tenha optado justamente por sacar o dinheiro do caixa do banco. “É sabido que Vorcaro tem três jatos no Brasil, um outro lá fora, iates, casas de praia de 280 milhões de reais e mais uma batelada de imóveis”, diz ele. “Só aí o Banco Central arrecadaria 1 bilhão de reais para ajudar a cobrir o rombo.”
O Banco Central ainda terá pela frente situações complicadas que envolvem bancos e relações políticas em Brasília. É o caso do Banco Digimais, instituição da Igreja Universal, que opera como o Master: vende CDBs por meio de plataformas, escora-se na garantia do FGC e aplica seus recursos em empresas enredadas, além de estar entupido com ativos podres do próprio Master. Quem levou esses ativos para o banco do bispo Edir Macedo foi um dos fundadores do Master, Maurício Quadrado, aquele mesmo que é sócio de Tanure na Banvox. Quadrado fez parte da gestão do Digimais e planejava fundi-lo com o Letsbank, que pertencia ao Master. O BC proibiu o negócio.
Como as contas do Digimais não estão fechando, o Banco Central terá, neste caso, uma nova chance de provar a sua força – ou atestar sua submissão. O outro caso enrolado à frente é o próprio BRB, alvejado pelo rombo de 12,2 bilhões de reais. O ministro Fernando Haddad já deixou claro que o Tesouro não vai socorrer o banco. Já o FGC recebeu recentemente a visita de uma comitiva do BRB para uma consulta. Qual? Queriam saber as chances de descolar uma ajuda financeira.
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*Neste trecho, a reportagem original foi alterada para refletir uma correção. Os advogados de Vorcaro só entraram com pedido de acesso ao inquérito sigiloso depois que saiu a notícia informando em qual Vara Federal o assunto tramitava. Não procede, portanto, a suspeita de que poderiam ter recebido algum tipo de informação privilegiada sobre a tramitação judicial do caso.
**Na versão original desta reportagem, o cargo de Renato Gomes estava incorreto. Ele é diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central.
***O trecho foi alterado para refletir a correção segundo a qual não foi Tarso Duarte de Tassis quem demitiu os três gerentes da Caixa que se recusaram a avalizar a compra de 500 milhões dos papeis do Master.
****Este trecho foi alterado para ajustar corretamente a cronologia dos eventos.
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Após a publicação da reportagem, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, enviou a seguinte nota por meio de seu advogado:
“A defesa de Paulo Henrique Costa esclarece que a matéria publicada pela revista piauí, de fevereiro de 2026, apresenta interpretações equivocadas sobre a condução, a governança e o desenho da operação de compra do Banco Master analisada pelo Banco de Brasília (BRB).
O processo foi estruturado dentro dos ritos formais de governança do BRB, com atuação de instâncias colegiadas, áreas técnicas, controles internos e assessoramento independente, desde a fase preliminar até a definição do desenho final da operação.
A promessa de compra e venda estava sujeita a cláusulas precedentes e a reorganização societária prévia, com a exclusão de aproximadamente R$ 51,2 bilhões em ativos e passivos, assegurando a delimitação do perímetro da operação e a proteção integral do BRB.
A operação permaneceu, em todo o tempo, submetida a salvaguardas técnicas, contratuais e aprovações regulatórias. Alegações de ausência de governança ou de improvisação decisória não encontram respaldo nos fatos nem na documentação formal do processo.
As aquisições de carteiras realizadas em 2025 seguiram padrões de mercado. Ao identificar padrão documental distinto, o BRB comunicou formalmente o Banco Central em maio de 2025 e iniciou processo de substituição de ativos, que se encontrava em fase avançada quando da liquidação do Banco Master. A identificação da situação envolvendo as cotas de fundos no exterior decorreu de diligências do próprio BRB, no exercício regular de seus controles internos.
Durante as tratativas, cártulas do BESC foram ofertadas ao BRB e prontamente recusadas, por desalinhamento com a estratégia, o perfil de risco e as diretrizes de alocação de ativos da instituição.
Paulo Henrique Costa confia que a análise técnica e institucional dos fatos, à luz do devido processo legal, demonstrará a correção dos procedimentos adotados e a improcedência das narrativas veiculadas.”
Consuelo Dieguez
Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)

