quarta-feira, 20 de maio de 2026

Borges e o infinito

Fascinação pela matemática permeia a obra do escritor argentino. Há mais de 180 referências explícitas a ideias matemáticas na escrita do autor.

Marcelo Viana, fsp, 19.05.2026

Eu já estava fazendo o doutorado no Impa quando descobri o escritor argentino Jorge Luís Borges e a fascinação pela matemática que permeia a sua obra. São mais de 180 referências explícitas a ideias matemáticas, com proeminência para aquelas que lidam com o conceito de infinito. Não é o mero infinito dos matemáticos: em Borges ele adquire um caráter cosmológico. "Há um conceito que é o corruptor e enganador de todos os outros. Não me refiro ao mal, cujo limitado império é a ética: falo do infinito", escreveu em "Avatares da Tartaruga". Acrescentando: "Cinco, sete anos de aprendizagem metafísica, teológica, matemática me capacitariam (talvez) a planejar decentemente sua história. Não preciso dizer que a vida me proíbe essa esperança, e até esse advérbio".

Mais do que o conceito formal de infinito, o que interessa a Borges é a perplexidade da mente finita perante o que não pode apreender na íntegra. Em "O Aleph" (ver aqui) o narrador se depara com um ponto no espaço que contém todos os pontos. Observá-lo é ver a totalidade do universo, de todos os ângulos, ao mesmo tempo. Conta que vê o mar e a terra, a madrugada e o pôr do sol, as letras e os números, tudo. Mas ao fazê-lo está restrito a listar visões uma após a outra: o infinito atual, que coexiste no Aleph, só pode ser expresso por meio de um infinito potencial, construído gradualmente na narração.

Foto de 17 de janeiro de 1983 mostra o escritor argentino Jorge Luis Borges chegando à Academia de Ciências Políticas e Morais em Paris - STR/AFP

Também há a questão do todo e das partes. Aristóteles dizia que aquele é necessariamente maior do que qualquer destas. Mas Cantor postulou que dois conjuntos têm o mesmo número de elementos se existir alguma correspondência um-a-um entre eles. Para conferir que passageiros e poltronas estão em igual número a tripulação não precisa contar nem uns nem outras: basta que todo passageiro se sente e que toda poltrona fique ocupada. Mas, no domínio do infinito, o postulado de Cantor tem consequências contraintuitivas. A cada número inteiro podemos associar o seu dobro, um número par, e essa é uma correspondência um-a-um. Portanto, há tantos números inteiros quanto números pares, embora estes sejam apenas uma parte daqueles!

Em "Livro de Areia", Borges adensa o mistério. Em certo ponto o narrador explica que recebeu um desafio: "Ele me disse que se chama Livro de Areia porque, tal como a areia, não tem começo nem fim, e me incumbiu de abri-lo na primeira página. Peguei o livro na mão esquerda e o abri, meu polegar e indicador quase se tocando. Mas era impossível: por mais que me esforçasse, sempre existiam várias páginas entre a capa e a minha mão".

Não é só que as páginas do Livro de Areia são em número infinito: entre duas quaisquer sempre existem muitas outras! Borges se pergunta, perplexo, como numerar as páginas de um livro assim. Mas os matemáticos conhecem a resposta: frações. A capa corresponde ao zero, a contracapa ao um, e cada página do livro corresponde a uma fração entre esses dois números (2/9, 1/2, 3/5 etc). Afinal, entre duas frações quaisquer sempre existem muitas outras. E o desafio é impossível: o Livro de Areia não tem primeira página, assim como não existe primeira fração após o zero.

Mas isso ainda não é o fim da história. Pois Cantor também provou que existem tantas frações quanto números inteiros, embora estes sejam apenas uma parte daquelas. Isso quer dizer que, apesar de todas as suas particularidades, o Livro de Areia não tem nem mais nem menos páginas do que qualquer outro livro infinito!

O caro leitor talvez esteja se perguntando: ficou claro que Borges se interessava por matemática; mas porque os matemáticos se interessam por Borges? Eu desconfio que é porque, tal como nós, em sua escrita, mesmo quando o tema não é matemático, ele parte de exemplos concretos para buscar verdades gerais. Pois "o geral pode ser mais intenso do que o concreto", como escreveu em "Uma História da Eternidade".


O ALEPH, Jorge Luis Borges

Oh Deus, eu poderia estar confinado em uma casca de noz e me considerar um Rei do espaço infinito. (Hamlet, II, 2.)

Mas eles nos ensinarão que a Eternidade é a Parada do Tempo Presente, um Nunc-stans (como as Escolas o chamam); o qual nem eles, nem qualquer outro entendem, assim como não entenderiam um Hic-stans para uma grandeza infinita de Lugar. (Leviathan, IV, 46.)

Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de ferro da praça Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita. Mudará o universo mas eu não, pensei com melancólica vaidade; sei que, alguma vez, minha vã devoção a exasperara; morta, eu podia consagrar-me a sua memória, sem esperança mas também sem humilhação. Considerei que em 3O de abril era seu aniversário; visitar, nesse dia, a casa da rua Garay para saudar seu pai e Carlos Argentino Daneri, seu primo-irmão, era um ato cortês, irrepreensível, talvez iniludível. De novo aguardaria no crepúsculo da abarrotada salinha, de novo estudaria as circunstâncias de seus muitos retratos. Beatriz Viterbo, de perfil, em cores; Beatriz, com máscara, no carnaval de 1921; a primeira comunhão de Beatriz; Beatriz, no dia de seu casamento com Roberto Alessandra; Beatriz, pouco depois do divórcio, num almoço do Clube Hípico; Beatriz, em Quilmes, com Delia San Marco Porcel e Carlos Argentino; Beatriz, com o pequinês dado por Villegas Haedo; Beatriz, de frente e em três quartos de perfil, sorrindo, com a mão no queixo... Não estaria obrigado, como outras vezes, a justificar minha presença com módicas oferendas de livros: livros cujas páginas, finalmente, aprendi a cortar, para não comprovar, meses depois, que estavam intactos.

Beatriz Viterbo morreu em 1929; a partir dessa data não deixei passar um 3O de abril sem voltar a sua casa. Eu costumava chegar às sete e quinze e ficar uns vinte e cinco minutos; a cada ano, aparecia um pouco mais tarde e ficava um pouco mais; em 1933, uma chuva torrencial me favoreceu: tiveram de me convidar para jantar. Não desperdicei, como é natural, esse bom precedente; em 1934, apareci, já dadas as oito, com um alfajor santafecino; com toda a naturalidade, fiquei para jantar. Assim, em aniversários melancólicos e inutilmente eróticos, recebi as graduais confidências de Carlos Argentino Daneri.

Beatriz era alta, frágil, ligeiramente inclinada; havia em seu andar (se for tolerável o oxímoro) uma como que graciosa lentidão, um princípio de êxtase; Carlos Argentino é rosado, robusto, encanecido, de traços finos. Exerce não sei que cargo subalterno numa biblioteca ilegível dos subúrbios do Sul; é autoritário, mas também ineficiente; aproveitava, até há bem pouco, as noites e as festas para não sair de casa. A duas gerações de distância, o "esse" italiano e a abundante gesticulação italiana sobrevivem nele. Sua atividade mental é contínua, apaixonada, versátil e completamente insignificante. Excede em imprestáveis analogias e em ociosos escrúpulos. Tem (como Beatriz) grandes e afiladas mãos formosas. Durante alguns meses, sofreu a obsessão de Paul Fort, menos por suas baladas que pela idéia de uma glória irrepreensível. "É o Príncipe dos poetas da França", repetia com fatuidade. "Em vão te revoltarás contra ele; não o atingirá, nunca, a mais envenenada de tuas setas."

No dia 3O de abril de 1941, permiti-me juntar ao bolo de Santa Fé uma garrafa de conhaque nacional. Carlos Argentino provou-o, julgou-o interessante e empreendeu, depois de alguns tragos, uma defesa do homem moderno. 

– Eu o evoco – disse com animação um tanto inexplicável – em seu gabinete de estudo, como se disséssemos na torre albarrã de uma cidade, provido de telefones, de telégrafos, de fonógrafos, de aparelhos de radiotelefonia, de cinematógrafos, de lanternas mágicas, de glossários, de horários, de prontuários, de boletins... 

Observou que, para um homem assim dotado, o ato de viajar era inútil; nosso século XX tinha transformado a fábula de Maomé e da montanha; as montanhas, agora, convergiam para o moderno Maomé.

Tão ineptas me pareceram essas ideias, tão pomposa e tão extensa sua exposição, que logo as relacionei com a literatura; disse-lhe por que não as escrevia. Como era de prever, respondeu que já o fizera: esses conceitos, e outros não menos originais, figuravam no Canto Augurai, Canto Prologal ou simplesmente Canto-Prólogo de um poema em que trabalhava havia muitos anos, sem réclame, sem tumulto ensurdecedor, sempre apoiado nesses dois báculos que se chamam trabalho e solidão. Primeiro, abria as comportas à imaginação; depois, fazia uso da lima. O poema se intitulava A Terra; tratava-se de uma descrição do planeta, em que não faltavam, por certo, a pitoresca digressão e a galharda apóstrofe.

Roguei-lhe que me lesse uma passagem, mesmo que fosse breve. Abriu uma gaveta da escrivaninha, tirou um maço volumoso de folhas de bloco impressas com o timbre da Biblioteca Juan Crisóstomo Lafinur e leu com sonora satisfação: 

Vi, como o grego, as cidades dos homens, 

Os trabalhos, os dias de vária luz, a fome;  

Não corrijo os fatos, não falseio os nomes, 

Mas le voyage que narro é... autour de ma chambre. 

– Estrofe, sob qualquer ângulo, interessante – opinou. – O primeiro verso granjeia o aplauso do catedrático, do acadêmico, do helenista, quando não dos falsos eruditos, setor considerável da opinião; o segundo passa de Homero para Hesíodo (toda uma implícita homenagem, na fachada do flamante edifício, ao pai da poesia didática), não sem remoçar um procedimento cujo ancestral está na Escritura, a enumeração, congérie ou conglobação; o terceiro – barroquismo, decadentismo, culto depurado e fanático da forma? – consta de dois hemistíquios gêmeos; o quarto, francamente bilíngüe, assegura-me o apoio incondicional de todo espírito sensível aos desenfadados impulsos da facécia. Nada direi da rima rara nem da ilustração que me permite, sem pedantismo!, acumular em quatro versos três alusões eruditas que abarcam trinta séculos de densa literatura: a primeira à Odisséia, a segunda aos Trabalhos e Dias, a terceira à bagatela imortal que nos proporcionaram os ócios da pena do saboiano... Compreendo, uma vez mais, que a arte moderna exige o bálsamo do riso, o scherzo. Decididamente, tem a palavra Goldoni!

Leu-me muitas outras estrofes, que também obtiveram sua aprovação e seu comentário profuso. Nada de memorável havia nelas; nem sequer as julguei muito piores que a anterior. Em sua redação haviam colaborado a aplicação, a resignação e o acaso; as virtudes que Daneri lhes atribuía eram posteriores. Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável; naturalmente, esse ulterior trabalho modificava a obra para ele, mas não para outros. A dicção oral de Daneri era extravagante; sua inépcia métrica, salvo contadas vezes, impediu-o de transmitir essa extravagância ao poema.[1]

Uma única vez em minha vida tive ocasião de examinar os quinze mil dodecassílabos do Polyolbion, essa epopeia topográfica na qual Michael Drayton registrou a fauna, a flora, a hidrografia, a orografia, a história militar e monástica da Inglaterra; estou certo de que esse produto considerável mas limitado é menos tedioso que o vasto projeto congênere de Carlos Argentino. Este se propunha versificar toda a redondez do planeta; em 1941, já tinha dado conta de alguns hectares do estado de Queensland, mais de um quilômetro do curso do Ob, um gasômetro ao norte de Veracruz, as principais casas de comércio da paróquia de Concepción, a chácara de Mariana Cambaceres de Alvear na rua Once de Setiembre, em Belgrano, e um estabelecimento de banhos turcos não longe do renomado aquário de Brighton. Leu-me certas laboriosas passagens da zona australiana de seu poema; esses longos e disformes alexandrinos careciam da relativa agitação do prefácio. Copio uma estrofe:

Saibam. A mão direita do poste rotineiro 

(Vindo, claro está, do nor-noroeste) 

Se entedia uma carcaça – Cor? Branquiceleste –  

Que dá ao curral de ovelhas um aspecto de ossário. 

– Duas audácias – gritou com exultação – resgatadas, te ouço resmungar, para o sucesso! Admito, admito. Uma, o epíteto rotineiro, que certeiramente denuncia, en passant, o inevitável tédio inerente às fainas pastoris e agrícolas, tédio que nem as Geórgicas nem nosso já laureado Don Segundo se atreveram jamais a denunciar assim, com descaramento. Outra, o enérgico prosaísmo se entedia uma carcaça, que o melindroso quererá excomungar com horror, mas que apreciará mais que a própria vida o crítico de gosto viril. Todo o verso, de resto, é de muito alto quilate. O segundo hemistíquio trava animadíssima conversa com o leitor; antecipa-se a sua viva curiosidade, coloca-lhe uma pergunta na boca e a satisfaz... na hora. E que me dizes desse achado, branquiceleste? O pitoresco neologismo sugere o céu, que é fator importantíssimo da paisagem australiana. Sem essa evocação, resultariam demasiado sombrias as tintas do esboço e o leitor se veria compelido a fechar o volume, ferida no mais íntimo a aluna, de incurável e negra melancolia.  

Por volta da meia-noite me despedi. 

Dois domingos depois, Daneri me telefonou, penso que pela primeira vez na vida. Propôs que nos reuníssemos às quatro, "para tomar leite juntos, no contíguo salão-bar que o progressismo de Zunino e de Zungri – os proprietários de minha casa, estarás lembrado – inaugura na esquina; confeitaria que gostarás de conhecer". Aceitei, com mais resignação que entusiasmo. Foi-nos difícil encontrar mesa; o "salão-bar", inexoravelmente moderno, era apenas um pouco menos infame que minhas previsões; nas mesas vizinhas, o excitado público mencionava as somas investidas sem regatear por Zunino e por Zungri. Carlos Argentino fingiu assombrar-se com não sei que primores da instalação da luz (que, sem dúvida, já conhecia) e me disse com certa severidade: 

– Mesmo que não queiras, tens de reconhecer que este local não deve nada aos mais chiques de Flores.

Releu-me, depois, quatro ou cinco páginas do poema. Corrigira-as de acordo com um depravado princípio de ostentação verbal: onde antes escreveu azulado, agora abundava em azulino, azulego e até mesmo azulilho. A palavra leitoso não era bastante feia para ele; na impetuosa descrição de um lavadouro de lã, preferia lactário, lacticinoso, lactescente, leital... Insultou com amargura os críticos; depois, mais benigno, equiparou-os a essas pessoas "que não dispõem de metais preciosos nem tampouco de prensas a vapor, laminadores e ácidos sulfúricos para a cunhagem de tesouros, mas que podem indicar aos outros o lugar de um tesouro". Imediatamente, censurou a prologomania, "da qual já se fez mofa, no donairoso prefácio do Quixote, o Príncipe dos Engenhos". Admitiu, porém, que no frontispício da nova obra convinha o prólogo vistoso, o respaldo firmado pelo plumífero de forte prestígio. Acrescentou que pensava publicar os cantos iniciais de seu poema. Compreendi então o singular convite telefônico; o homem ia pedir-me que prefaciasse o seu pedante aranzel. Meu temor resultou infundado: Carlos Argentino observou, com admiração rancorosa, que não acreditava errar o epíteto ao qualificar de sólido o prestigio obtido em todos os círculos por Álvaro Melián Lafinur, homem de letras que, se eu me empenhasse, prefaciaria com prazer o poema. Para evitar o mais imperdoável dos fracassos, eu tinha de me fazer porta-voz de dois méritos incontestáveis: a perfeição formal e o rigor cientifico, "porque esse extenso jardim de tropos, de figuras, de elegâncias não tolera um único detalhe que não confirme a severa verdade". Acrescentou que Beatriz sempre se havia divertido com Álvaro.

Assenti, profusamente assenti. Esclareci, para maior verossimilhança, que não falaria com Álvaro na segunda-feira, mas na quinta: no pequeno jantar que costuma coroar toda reunião do Clube de Escritores. (Não existem tais jantares, mas é irrefutável que as reuniões têm lugar às quintas-feiras, fato que Carlos Argentino Daneri podia comprovar nos jornais e que dotava a frase de certa realidade.) Disse, entre divinatório e sagaz, que, antes de abordar o tema do prólogo, descreveria o curioso plano da obra. Despedimo-nos; ao dobrar a rua Bernardo de Irigoyen, encarei com toda imparcialidade os futuros que me restavam: a) falar com Álvaro e dizer-lhe que aquele primo-irmão de Beatriz (esse eufemismo explicativo me permitiria mencioná-la) elaborara um poema que parecia estender até o infinito as possibilidades da cacofonia e do caos; b) não falar com Álvaro. Previ, com lucidez, que minha desídia optaria por b.

A partir de sexta-feira, à primeira hora, começou a inquietar-me o telefone. Indignava-me que esse instrumento, que algum dia reproduziu a irrecuperável voz de Beatriz, pudesse rebaixar-se a receptáculo das inúteis e talvez coléricas queixas desse equivocado Carlos Argentino Daneri. Felizmente, nada ocorreu – salvo o rancor inevitável que me inspirou aquele homem que me havia imposto uma delicada missão e depois me esquecia. 

O telefone perdeu seus terrores, mas em fins de outubro Carlos Argentino falou comigo. Estava agitadíssimo; não identifiquei sua voz, no começo. Com tristeza e com raiva, balbuciou que esses já ilimitados Zunino e Zungri, a pretexto de ampliar a desmedida confeitaria, iam demolir sua casa.

– A casa de meus pais, minha casa, a velha casa enraizada da rua Garay! – repetiu, talvez esquecendo seu pesar na melodia da voz. 

Não me foi muito difícil compartilhar de sua aflição. Já completos os quarenta anos, qualquer mudança é um símbolo detestável da passagem do tempo; além disso, tratava-se de uma casa que, para mim, aludia infinitamente a Beatriz. Quis esclarecer esse delicadíssimo aspecto; meu interlocutor não me ouviu. Disse que se Zunino e Zungri persistissem nesse propósito absurdo, o doutor Zunni, seu advogado, os processaria ipso facto por danos e prejuízos e os obrigaria ao pagamento de cem mil nacionales.

O nome de Zunni me impressionou; sua banca, na Caseros com a Tacuarí, é de uma seriedade proverbial. Perguntei se ele já se havia encarregado do assunto. Daneri disse que iria falar-lhe nessa mesma tarde. Vacilou e com essa voz plana, impessoal, à qual costumamos recorrer para confiar algo muito íntimo, disse que para terminar o poema lhe era indispensável a casa, pois num ângulo do porão havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contém todos os pontos. 

– Está no porão da sala de jantar – explicou, com a dicção aligeirada pela angústia. – E meu, é meu; eu o descobri na infância, antes da idade escolar. A escada do porão é empinada, meus tios me haviam proibido de descer, mas alguém me disse que havia um mundo no porão. Referia-se, soube depois, a um baú, mas eu compreendi que havia um mundo. Desci secretamente, rolei pela escada proibida, caí. Ao abrir os olhos, vi o Aleph. 

– O Aleph? – repeti. 

– Sim, o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ângulos. A ninguém revelei minha descoberta, mas voltei. O menino não podia compreender que lhe fosse concedido esse privilégio para que o homem burilasse o poema! Zunino e Zungri não me despojarão, não e mil vezes não. De código na mão, o doutor Zunni provará que é inalienável o meu Aleph. 

Procurei raciocinar. 

– Mas não é muito escuro o porão? 

– A verdade não penetra num entendimento rebelde. Se todos os lugares da terra estão no Aleph, aí estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz. 

– Irei vê-lo imediatamente

Desliguei, antes que ele pudesse emitir uma proibição. Basta o conhecimento de um fato para se perceber no ato uma série de traços confirmatórios, antes insuspeitados; espantou-me não ter compreendido até esse momento que Carlos Argentino era louco. De resto, todos esses Viterbo... Beatriz (eu mesmo costumo repetir isso) era uma mulher, uma menina de uma clarividência quase implacável, mas havia nela negligências, distrações, desdéns, verdadeiras crueldades, que talvez reclamassem explicação patológica. A loucura de Carlos Argentino encheu-me de maligna felicidade; no fundo, sempre nos detestamos. 

Na rua Garay, a criada me disse que tivesse a bondade de esperar. O menino estava, como sempre, no porão, revelando fotografias. Junto ao vaso sem flor, no piano inútil, sorria (mais intemporal que anacrônico) o grande retrato de Beatriz, em pesadas cores. 

Ninguém nos podia ver; num desespero de ternura, aproximei-me do retrato e disse-lhe: 

– Beatriz, Beatriz Elena, Beatriz Elena Viterbo, Beatriz querida, Beatriz perdida para sempre, sou eu, sou Borges. 

Carlos entrou pouco depois. Falou com secura; compreendi que não era capaz de outro pensamento que o da perda do Aleph. 

– Um cálice do falso conhaque – ordenou – e mergulharás no porão. Já sabes, o decúbito dorsal é indispensável. Também o são a escuridão, a imobilidade, certa acomodação ocular. Tu te deitas no piso de tijolos e fixas o olhar no décimo nono degrau da pertinente escada. Saio, baixo o alçapão e ficas sozinho. Algum roedor te mete medo – não tem importância! Em poucos minutos vês o Aleph. O microcosmo de alquimistas e cabalistas, nosso concreto amigo proverbial, o multum in parvo! 

Já na sala de jantar, acrescentou: 

– É claro que, se não o vês, tua incapacidade não invalida meu testemunho... Desce; muito em breve poderás iniciar um diálogo com todas as imagens de Beatriz. 

Desci com rapidez, farto de suas palavras insubstanciais. O porão, pouca coisa mais largo que a escada, tinha muito de poço. Com uma olhada, procurei em vão o baú de que Carlos Argentino me falara. Alguns caixões com garrafas e algumas sacolas de lona escureciam um ângulo. Carlos pegou uma sacola, dobrou-a e acomodou-a num lugar preciso. 

– O travesseiro é humildoso – explicou –, mas, se o levanto um centímetro, não verás nada e ficas confundido e envergonhado. Refestela esse corpanzil no chão e conta dezenove degraus. 

Cumpri suas ridículas instruções; por fim, saiu. Fechou cautelosamente o alçapão; a escuridão, embora houvesse uma fresta que depois distingui, deu a impressão de ser total. Subitamente, compreendi meu perigo: deixara-me soterrar por um louco, depois de tomar um veneno. As bravatas de Carlos evidenciavam o íntimo terror de que eu não visse o prodígio; Carlos, para defender seu delírio, para não saber que estava louco, tinha de matar-me. Senti um confuso mal estar, que tentei atribuir à rigidez e não ao efeito de um narcótico. Fechei os olhos, abri-os. Então vi o Aleph. 

Chego, agora, ao inefável centro de meu relato; começa aqui meu desespero de escritor. Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca? Os místicos, em análogo transe, são pródigos em emblemas: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros; Alanus de Insulis, de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel, de um anjo de quatro faces que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul. (Não em vão rememoro essas inconcebíveis analogias; alguma relação têm com o Aleph.) É possível que os deuses não me negassem o achado de uma imagem equivalente, mas este relato ficaria contaminado de literatura, de falsidade. Mesmo porque o problema central é insolúvel: a enumeração, sequer parcial, de um conjunto infinito. Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos prazerosos ou atrozes; nenhum me assombrou tanto como o fato de que todos ocupassem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que viram meus olhos foi simultâneo; o que transcreverei, sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei.

Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cor, de quase intolerável fulgor. A princípio, julguei-a giratória; depois, compreendi que esse  movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando-me como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num pátio da rua Soler as mesmas lajotas que, há trinta anos, vi no vestíbulo de uma casa em Fray Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca numa calçada onde antes existira uma árvore, vi uma chácara de Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada página (em pequeno, eu costumava maravilhar-me com o fato de que as letras de um livro fechado não se misturassem e se perdessem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um poente em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas numa praia do mar Cáspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões-postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de algumas samambaias no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisões, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta  da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, inacreditáveis, precisas, que Beatriz dirigira a Carlos Argentino, vi um adorado monumento em La Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.

Senti infinita veneração, infinita lástima. 

– Tonto ficarás de tanto bisbilhotar onde não te chamam – disse uma voz enfadonha e alegre. – Mesmo que esquentes a cabeça, não me pagarás num século esta revelação. 

Que observatório formidável, che Borges! 

Os sapatos de Carlos Argentino ocupavam o degrau mais alto. Na brusca penumbra, consegui levantar-me e balbuciar:  

– Formidável. Sim, formidável. 

A indiferença de minha voz causou-me estranheza. Ansioso, Carlos Argentino insistia:  – Viste tudo bem, em cores? 

Nesse instante, concebi minha vingança. Benévolo, manifestamente apiedado, nervoso, evasivo, agradeci a Carlos Argentino a hospitalidade de seu porão e o instei a aproveitar a demolição da casa para afastar-se da perniciosa metrópole, que a ninguém – creia-me, a ninguém! – perdoa. Neguei-me, com suave energia, a discutir o Aleph; abracei-o, ao despedir-me, e repeti-lhe que o campo e a serenidade são dois grandes médicos.

Na rua, nas escadarias de Constitución, no metrô, pareceram-me familiares todos os rostos. Tive medo de que não restasse uma única coisa capaz de surpreender-me, tive medo de que não me abandonasse jamais a impressão de voltar. Felizmente, depois de algumas noites de insônia, agiu outra vez sobre mim o esquecimento. 


Pós-escrito de primeiro de março de 1943

Seis meses após a demolição do imóvel da rua Garay, a Editora Procusto não se deixou amedrontar pela extensão do considerável poemae lançou ao mercado uma seleção de "trechos argentinos". Vale a pena repetir o ocorrido; Carlos Argentino Daneri recebeu o Segundo Prêmio Nacional de Literatura.[2] O primeiro foi outorgado ao doutor Aita; o terceiro, ao doutor Mario Bonfanti; inacreditavelmente, minha obra Los Naipes del Tahur não conseguiu um único voto. Uma vez mais, triunfaram a incompreensão e a inveja! Já faz muito tempo que não consigo ver Daneri; os jornais dizem que em breve nos dará outro volume. Sua afortunada pena (não mais perturbada pelo Aleph) consagrou-se a versificar os epítomes do doutor Acevedo Díaz.

Duas observações quero acrescentar: uma, sobre a natureza do Aleph; outra, sobre seu nome. Este, como se sabe, é o da primeira letra do alfabeto da língua sagrada. Sua aplicação ao cerne de minha história não parece casual. Para a Cabala, essa letra significa o En Soph, a ilimitada e pura divindade; também se disse que tem a forma de um homem que assinala o céu e a terra, para indicar que o mundo inferior é o espelho e o mapa do superior; para a Mengenlehre, é o símbolo dos números transfinitos, nos quais o todo não é maior que qualquer das partes. Eu queria saber: Carlos Argentino escolheu esse nome, ou o leu, aplicado a outro ponto para onde convergem todos os pontos, em algum dos textos inumeráveis que o Aleph de sua casa lhe revelou? Por incrível que pareça, acredito que exista (ou que tenha existido) outro Aleph, acredito que o Aleph da rua Garay era um falso Aleph.

Dou minhas razões. Por volta de 1867, o capitão Burton exerceu o cargo de cônsul britânico no Brasil; em julho de 1942, Pedro Henríquez Ureña descobriu numa biblioteca de Santos um manuscrito seu que versava sobre o espelho que atribui o Oriente a Iskandar Zu al-Karnayn, ou Alexandre Bicorne da Macedônia. Em seu cristal refletia-se o universo inteiro. Burton menciona outros artifícios congêneres – o sétuplo cálice de Kai Josru, o espelho que Tarik Benzeyad encontrou numa torre (Mil e Uma Noites, 272), o espelho que Luciano de Samósata pôde examinar na lua (História Verdadeira, I, 26), a lança especular que o primeiro livro do Satyricon de Capella atribui a Júpiter, o espelho universal de Merlin, "redondo e oco e semelhante a um mundo de vidro" (The Faerie Queene, 111, 2,19) – e acrescenta estas curiosas palavras: "Mas os anteriores (além do defeito de não existirem) são meros instrumentos de ótica. Os fiéis que acorrem à mesquita de Amr, no Cairo, sabem muito bem que o universo está no interior de uma das colunas de pedra que rodeiam o pátio central... Ninguém, é claro, pode vê-lo, mas os que aproximam o ouvido da superfície declaram perceber, em pouco tempo, seu atarefado rumor... A mesquita data do século VII; as colunas procedem de outros templos de religiões anteislâmicas, pois como escreveu Abenjaldun: "Nas repúblicas fundadas por nômades, é indispensável o concurso de forasteiros para tudo o que seja alvenaria". Existe esse Aleph no íntimo de uma pedra? Vi-o quando vi todas as coisas e o esqueci? Nossa mente é porosa para o esquecimento; eu mesmo estou falseando e perdendo, sob a trágica erosão dos anos, os traços de Beatriz. 

Para Estela Canto 

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Notas: 

[1] Lembro-me, no entanto, destas linhas de uma sátira em que fustigou com rigor os maus poetas: 

Aqueste da al poema belicosa armadura 

De erudicción; estoiro le da pompas y galas. 

Ambos bateu en vano Ias ridículas alas... 

iOlvidaron, cuidados, el factor HORMOSURA! 

[Este dá ao poema belicosa armadura / De erudição; este outro lhe dá pompas e galas. / Ambos batem em vão as ridículas asas... / Esqueceram, coitados, o fator FORMOSURA!  (N. da T.)] 

Só o temor de se criar um exército de inimigos implacáveis e poderosos o dissuadiu (disse-me) de publicar sem medo o poema. 

[2] "Recebi tua aflita congratulação", escreveu-me. "Bufas, meu lamentável amigo, de inveja, mas confessarás – mesmo que isso te sufoque! – que desta vez pude coroar meu barrete com a mais vermelha das plumas, meu turbante com o mais califa dos rubis." 

...

O ALEPH – 1949 

El Aleph 

Tradução de Flávio José Cardozo 

Revisão de tradução: Maria Carolina de Araújo 

A Leonor Acevedo de Borges

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Tucídides e Xi Jinping & Trump

O livro citado por Xi Jinping como alerta para Trump tem mais de 2400 anos, mas contém lições que continuam atuais e que nenhum dos dois cumpre. Dirigente chinês referiu-se à questão de Taiwan e à possibilidade de as tensões gerarem uma guerra entre China e EUA.

Mafalda Anjos - Jornalista, comentarista de TV e radialista em Portugal, é formada em direito e autora de livros como 'Carta a um Jovem Decente'

fsp, 17.05.2026 

No encontro entre Trump e Xi Jinping, o dirigente chinês podia ter escolhido um dos muitos nomes da cultura milenar oriental para usar no seu discurso. Mas ele, com uma subtileza notável, optou por dar a Trump uma lição de geoestratégia através de um dos maiores pensadores clássicos ocidentais.

Mafalda Anjos: O que os políticos deviam aprender com Tucídides - vídeo 

É provável que a Trump – que, como se sabe, não é propriamente um estudioso da cultura clássica – o nome Tucídides  tenha soado apenas a remédio para a tosse, mas ele foi um grandioso historiador e general ateniense, que viveu no século 5 a.C.. E é o autor da História da Guerra do Peloponeso,  um livro que é considerado uma espécie de bíblia do pensamento estratégico e político.

Ao contar os contornos do conflito que opôs Atenas a Esparta, Tucídides falou das causas das guerras, da estratégia militar, mas também de filosofia, de moral e até da natureza humana.

Xi Jinping citou a famosa armadilha de Tucídides, a tese que conclui que a guerra é provável ou mesmo inevitável quando uma potência estabelecida se sente ameaçada por outra em grande ascensão. Referia-se à questão de Taiwan e à possibilidade de, mal geridas as tensões, poder abrir-se uma guerra entre China e EUA.

Mas a melhor parte deste livro de Tucídides é mesmo o famoso discurso de Péricles, aqui citado e que é, quanto a mim, a súmula a mais antiga e mais bem feita sobre as vantagens da democracia. Estava tudo – cidadania, liberdade, solidariedade –neste pequeno texto que foi uma oração fúnebre. E o que é mesmo incrível é que, 2455 anos depois, continua a manter a atualidade e relevância.

Explica, por exemplo, que o governo deve reger-se pela maioria do povo e não por uma restrita minoria. Diz que as leias conferem a todos justiça, respeitando as diferenças, e que a progressão na vida pública deve depender do mérito. Sublinha que a liberdade é um bem maior e que é de evitar ostentação de riqueza. E a melhor parte, nota que "a verdadeira desonra não está em não reconhecer a existência da pobreza, mas sim em nada fazer para a combater".

Isto é lindo! — e devia ser leitura obrigatória para todos os líderes políticos do mundo, a começar por aqueles dois. É que, na verdade, nenhum deles aplica na íntegra estes princípios...

Trump visita Xi Jinping na China - fotos



domingo, 10 de maio de 2026

O abismo entre o desempenho macroeconômico e a popularidade do governo Lula 3

Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade?

Governo tem resultados sólidos, mas não consegue repetir a experiência subjetiva de mobilidade social dos anos 2000. Lulismo enfrenta o desafio de transformar a sua fase madura em novo ciclo de expectativas positivas e confiança no futuro

Laura Carvalho & Guilherme Klein, fsp, 09.05.2026

Laura Carvalho: Professora da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP e diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundations. Autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico"

Guilherme Klein: Professor do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coordenador de pesquisa macroeconômica do Made (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP)

Manifestação pelo fim da escala 6x1 na praça Roosevelt, em São Paulo, no Dia do Trabalho - Eduardo Knapp - 1º.mai.26 / Folhapress

[RESUMO] O abismo entre o desempenho macroeconômico do terceiro governo Lula e a percepção da situação econômica do país, sustentam os autores, não se resume à inflação e ao endividamento das famílias. Outros fatores, como a comparação dos eleitores com o milagrinho dos dois primeiros mandatos do presidente e um novo padrão de aspiração de consumo, globalizado e moldado por redes sociais, devem ser incorporados à análise.

*

O terceiro mandato de Lula (PT) acumula um conjunto notável de conquistas. O desemprego caiu para os menores patamares da série histórica. O PIB cresceu 2,3% em 2025, 3,4% em 2024 e 3,2% em 2023, superando as projeções do mercado e a média do G20. Milhões de brasileiros saíram da extrema pobreza. Ainda assim, 42% dos entrevistados na pesquisa Ipsos-Ipec de março afirmaram que a situação econômica do país estava pior que seis meses antes, enquanto apenas 27% disseram que havia melhorado.

O que explica essa aparente desconexão entre o desempenho macroeconômico e a percepção dos brasileiros sobre a economia? Duas hipóteses têm circulado no debate público, e vale começar por elas antes de propor outras explicações.

A primeira é a inflação. Aqui, o Brasil não é uma exceção: é mais um caso de um fenômeno global. O aumento de preços gerado pela pandemia e pela Guerra da Ucrânia derrubou governos em todo o mundo.

O período 2022-2024 foi um cemitério de incumbentes: nos Estados Unidos, na França, no Japão e no Reino Unido, quem estava no poder pagou a conta de uma inflação que não criou, mas que os eleitores cobraram. A vitória de Donald Trump em 2024 é o exemplo mais gritante. A economia americana crescia e o desemprego estava baixo, mas o preço das compras do supermercado pesou mais na memória do eleitor que qualquer estatística de crescimento. O resultado foi uma derrota eleitoral que desconcertou economistas e analistas.

O padrão se repetiu em outros países: a percepção de piora sobreviveu à melhora dos números. Essa constatação abriu uma agenda política organizada em torno da acessibilidade ("affordability") com propostas que vão da regulação de preços à expansão de serviços públicos gratuitos. A vitória de Zohran Mamdani na eleição para a Prefeitura de Nova York em 2025 é uma expressão disso: o candidato socialista democrático fez da acessibilidade — ônibus gratuitos, congelamento de aluguéis, supermercados municipais — o centro da sua campanha e venceu com folga.

A segunda hipótese é mais específica ao Brasil e coloca o endividamento das famílias e o papel crescente das bets no centro do problema.

"Parcelados", livro recém-publicado de Kauê Lopes dos Santos, documenta com precisão como um dos créditos mais caros do mundo transformou o cotidiano das famílias brasileiras de renda média e baixa em uma corrida permanente contra os juros. Como se não bastassem os juros altos, as apostas online também têm corroído uma parcela significativa dos rendimentos das famílias mais pobres.

Este ensaio não descarta essas duas explicações, mas procura oferecer elementos adicionais. Para entender por que o atual governo não tem conseguido converter os seus ótimos resultados em aumento da popularidade, é preciso revisitar o modelo de crescimento que tornou os primeiros mandatos de Lula (2003-2010) em um momento marcante na história recente do país e compreender por que o governo atual, embora produzindo resultados sólidos em termos absolutos, opera em um contexto social, cultural e político radicalmente diferente.

Brasileiros renegociam dívidas no Feirão Limpa Nome da Serasa - galeria

Esta é a tese deste ensaio: o governo Lula 3 entrega uma macroeconomia de resultados respeitáveis, mas não a experiência subjetiva de mobilidade social que transformou o Brasil dos anos 2000.

Sugerimos cinco hipóteses explicativas para esse abismo entre o desempenho e a percepção: (1) a comparação implícita com os primeiros governos Lula; (2) o nível ainda deprimido da renda após uma década perdida; (3) uma inflação que cedeu, mas em um patamar de preços ainda muito acima do que o consumidor guarda na memória; (4) a transformação cultural produzida pelas redes sociais, que criou padrões elevados de aspiração de consumo; (5) a frustração de uma geração escolarizada que descobriu que o diploma não garante ascensão social.

Lula vs. Lula

Os primeiros dois mandatos de Lula produziram uma transformação econômica e social de magnitude histórica. O modelo de crescimento desse período se sustentou em três pilares que se reforçavam mutuamente: a valorização expressiva e contínua do salário mínimo —cerca de 53% em termos reais entre 2002 e 2010 —, a expansão maciça dos programas de transferência de renda e a criação em larga escala de empregos formais no setor de serviços, que absorveu trabalhadores de baixa qualificação em condições melhores que as do emprego informal.

O resultado foi um fenômeno raro na história econômica brasileira: um crescimento com redução da desigualdade por baixo, isto é, pelo estreitamento da distância entre a base e o meio da pirâmide de distribuição de renda. Ao longo do segundo governo Lula, a renda da metade mais pobre da população cresceu em média 5% ao ano em termos reais, enquanto a renda dos 10% mais ricos e dos 40% do meio da distribuição cresceu 2,3% e 2% ao ano, respectivamente.

Já nos dois primeiros anos de Lula 3, a renda dos 50% mais pobres cresceu 3,5% ao ano, um ritmo muito mais próximo aos 2,3% de crescimento real observados no meio e no topo da pirâmide. Na prática, isso significa que a desigualdade no terceiro governo Lula vem caindo, mas em velocidade mais lenta que a observada nos seus dois primeiros mandatos.

Quando o eleitor brasileiro avalia o governo atual, ele não o compara, conscientemente ou não, com o governo Bolsonaro (PL), um período de catástrofe social com desemprego elevado e devastação da renda dos mais pobres. Ele o compara ao que foi vivido nos anos 2000, quando milhões de brasileiros que nunca tinham tido conta bancária, voado de avião ou comprado um automóvel puderam fazê-lo pela primeira vez.

O presidente recorreu a esse imaginário na campanha eleitoral. Em agosto de 2022, Lula disse que o brasileiro "tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha". A frase não era só um bordão de campanha, mas uma promessa concreta de que a recuperação econômica seria sentida na mesa de domingo e no bolso de quem trabalha.

Alimentos com lacres antifurto em supermercados de São Paulo -  galeria

Inflação e acessibilidade

A inflação dos alimentos foi a cicatriz mais visível dos anos Bolsonaro. O terceiro mandato de Lula freou o problema, mas não o reverteu. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, a picanha acumulou alta de 12%. Cortes mais populares subiram mais: o contrafilé, 26%, o acém, 31,8%, e o músculo, 25,7%. Comprar o churrasco que Lula prometeu ficou, para muitos trabalhadores, mais caro que antes.

No entanto, é preciso resistir a uma leitura simplista. O problema não é de gestão da inflação, até porque a inflação acumulada em 12 meses caiu de 12,1% em abril de 2022 para 4,1% em março de 2026, e 2025 teve a menor taxa anual em sete anos.

Ao investigar o custo político do aumento do custo de vida no contexto norte-americano, as economistas Stephanie Stantcheva e Claudia Sahm mostraram que eleitores respondem ao nível de preços, não ao seu crescimento. Isto é, as pessoas pagam preços, não inflação.

Apesar da queda na taxa de inflação, os preços no Brasil não voltaram ao que eram em 2019. A memória do que os produtos custavam antes ainda é vívida, e a picanha prometida na campanha continua cara. A maior parte dos brasileiros sente que a promessa não foi cumprida: no fim do mês, não sobra dinheiro para as aspirações de consumo.

Indicadores macroeconômicos bons não geram, sozinhos, percepção de prosperidade. A experiência subjetiva do custo de vida é o termômetro efetivo e é moldada tanto pelos preços que o consumidor enfrenta quanto pelo padrão de vida que ele considera razoável.

Dito de outro modo, a questão da acessibilidade é também uma questão de aspiração. O trabalhador que ganhou mais em termos reais não se pergunta apenas se o seu salário superou a inflação. Ele se pergunta se, hoje, consegue viver o que imaginou quando a promessa de campanha foi feita. A resposta, para muitos, é não.

Campanha 'Bolsocaro' critica aumento de preços em 2021 - galeria

A renda perdida

Se o milagrinho dos anos 2000 foi o melhor período da economia brasileira em um século, o que veio depois foi um dos piores. Entre 2014 e 2022, a economia brasileira não apenas estagnou: o PIB per capita recuou, em um fenômeno semelhante ao da década de 1980, conhecida como década perdida.

Desde 2023, como os dados deixam claro, essa trajetória se reverteu. O mercado de trabalho bateu recordes de ocupação e de carteira assinada, e a renda média do trabalhador voltou a crescer. O problema é que esses avanços partem de uma base historicamente rebaixada.

Segundo o World Inequality Database, a renda anual a preços de 2024 da metade mais pobre da população subiu de R$ 10.766 no fim do governo Bolsonaro para R$ 11.536 no fim do segundo ano de Lula 3, uma recuperação expressiva em percentual, mas que apenas começa a desfazer um decênio de destruição. Em 2014, essa mesma parcela da população ganhava, a preços constantes, R$ 14.230 por ano. Em outras palavras, dez anos depois, a base da pirâmide consegue consumir apenas 80% do que consumia antes da crise.

O problema não se restringe aos mais pobres, ainda que seja mais severo nesse grupo. Os 40% do meio da distribuição viram sua renda encolher 7,7% em relação a 2014; os 10% do topo, 3,2%. Todos os estratos sociais vivem, hoje, com menos do que viviam há dez anos.

Depois de um decênio de estagnação e queda, uma expansão da renda a 3,5% ao ano, como ocorreu com os 50% mais pobres nos dois primeiros anos de Lula 3, não é sentida como prosperidade, mas como um alívio insuficiente.

A experiência psicológica é profundamente diferente da que marcou os anos 2000. A memória do eleitor brasileiro foi moldada por aquele período de mobilidade ascendente acelerada, e a realidade atual, por mais que os indicadores de hoje sejam os melhores em décadas, não alcança essa memória.

Brasileiros passam fome na pandemia - galeria

As redes sociais e a nova economia das aspirações

Lula, porém, não compete só com si mesmo. É preciso examinar também o que aconteceu com os padrões de aspiração de consumo no Brasil desde os anos 2000. Naquela época, o horizonte de referência parecia ser local, em grande medida, e a ascensão relevante —por meio, por exemplo, de um aparelho de televisão de tela plana, do primeiro celular com câmera e da faculdade para o filho— se dava no círculo social imediato.

O horizonte de referência mudou radicalmente. Na linguagem de Debraj Ray, professor da Universidade de Nova York, a "janela de aspiração" — o conjunto de vidas observáveis que um indivíduo toma como referência para formar os seus próprios desejos — foi globalizada. As redes sociais e as plataformas de comércio eletrônico com forte componente social, como Shein, Shopee e TikTok Shop, criaram uma vitrine permanente de consumo sofisticado operando 24 horas por dia no bolso de cada trabalhador: viagens internacionais, roupas de grife, restaurantes de alto padrão etc.

A janela de aspiração se globalizou, mas a janela de realização, para a maioria, não a acompanhou. A frustração emerge dessa assimetria.

Essa não é só uma hipótese intuitiva. Estudos têm documentado um efeito negativo das redes sociais sobre o bem-estar devido a "comparações sociais desfavoráveis". No terreno específico do consumo, o economista Christopher Roth realizou um experimento de campo na Indonésia e mostrou que o aumento da renda de vizinhos leva ao aumento do consumo dos chamados bens visíveis por famílias cuja renda não se alterou. Em um mundo em que o vizinho foi substituído pelo feed, essas comparações se amplificam sem limites claros.

A etnografia brasileira parece confirmar essa hipótese. Em um trabalho de longa duração em periferias de Porto Alegre, as antropólogas Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco documentaram como, nos anos Lula, o consumo se tornou o principal vetor de reconhecimento, visibilidade e cidadania para as camadas populares — e como a frustração dessa promessa, a partir da recessão de 2014, deslocou parte desse desejo de reconhecimento para outros registros, inclusive a adesão ao bolsonarismo.

As "redes sociais de comércio" chegam nesse terreno já arado: não são apenas lojas, mas canais pelos quais as classes de menor renda se apropriam, de forma acessível, do vocabulário visual do que imaginam ser a elite. Esses produtos, mais que mercadorias, são símbolos de pertencimento a um mundo que as redes sociais tornaram visível e, por isso mesmo, insuportavelmente próximo.

Veja fotos da loja física da Shein em São Paulo - galeria

A escala é expressiva. A Shein declara ter 50 milhões de usuários no Brasil e afirma, com base em uma pesquisa Ipsos, que 88% deles pertencem às classes C, D e E. A Shopee anunciou um aumento de 30% de novos usuários em 2024. Três quartos dos consumidores das classes populares compram regularmente em plataformas internacionais, segundo pesquisa da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas).

É nesse contexto que a "taxa das blusinhas" — o imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, criado em agosto de 2024, que se somou à elevação do ICMS estadual de 17% para 20% em abril de 2025 — adquire uma dimensão política singular. O então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, propôs a medida como um instrumento de isonomia tributária: as plataformas asiáticas competiam em condições desiguais com o varejo nacional porque os seus produtos não pagavam impostos de importação.

A lógica econômica era defensável, mas a medida abriu terreno para uma onda de ressentimento digital que, alimentada por influenciadores de extrema direita, acabou dando origem a memes ("Taxadd") e a fake news sobre uma suposta taxação do Pix, que, segundo a Receita Federal, prejudicou a fiscalização de fintechs e favoreceu o crime organizado.

O endividamento é consequência, não causa

Os fatores descritos até aqui levam a uma consequência lógica: o endividamento. O desejo de consumir além do que o salário corrente permite — alimentado pelas redes sociais, pela publicidade e pela memória dos anos 2000 — leva milhões de brasileiros a recorrer ao crédito.

O endividamento não é só resultado de renda insuficiente, mas também o outro lado da economia das aspirações: o aumento do consumo no topo desloca o quadro de referência em toda a distribuição, empurrando a classe média e as camadas populares ao crédito para recuperar a renda perdida e emular o padrão de consumo normalizado pelas redes sociais.

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), cerca de 77% das famílias brasileiras estavam endividadas em 2024. Entre aquelas com renda de até três salários mínimos, o índice chegou a 80,5%, com 18,7% sem condições de pagar o que deviam. Em média, as dívidas correspondiam a 30% da renda familiar, e um quinto das famílias endividadas tinha mais da metade da sua renda comprometida com pagamentos.

As dívidas em atraso cresceram 12,8% nas capitais entre 2022 e 2024, adicionando 1,45 milhão de lares a essa situação. Note-se que isso aconteceu em um período de crescimento econômico e queda do desemprego.

No caso das bets, há uma conjunção ainda mais perversa. Além do alto potencial viciante, que as torna uma evidente questão de saúde pública, há evidências de que elas atingem desproporcionalmente pessoas de menor renda e maior estresse financeiro. Para esse grupo, as apostas aparecem muitas vezes como tentativa de complementar o orçamento ou de alcançar padrões de consumo que os rendimentos do trabalho simplesmente não permitem.

O endividamento e as bets não são a causa da insatisfação, mas, ao menos em parte, consequências do descompasso entre renda e aspiração. Contudo, à medida que o pagamento das dívidas compromete uma parte cada vez maior do salário, o problema é agravado e se retroalimenta na esperança de renda com apostas. Isso cria um dilema para a política econômica: a taxa Selic elevada, que atua para preservar o poder de compra das famílias por meio do controle da inflação, contribui para corroer a renda dos endividados.

Viciados em bets buscam acolhimento em Jogadores Anônimos - galeria

O diploma sem futuro

O quinto fator do paradoxo é geracional. A massificação do ensino superior foi um dos legados mais duradouros dos governos do PT. O Prouni, lançado em 2005, concedeu bolsas em instituições privadas a estudantes de baixa renda, o Fies expandiu o crédito estudantil e as cotas raciais e sociais nas universidades federais transformaram o perfil dos campi. Em 2014, o Fies e o Prouni eram responsáveis por mais de 30% das matrículas do ensino superior privado.

Essa expansão produziu uma geração que foi a primeira das suas famílias a frequentar uma universidade. A promessa implícita era que estudar garantiria uma vida melhor que a dos pais. O diploma seria o passaporte para a classe média consolidada, para o emprego formal e para o salário que permitiria consumir o que as gerações anteriores não puderam.

Dados da OCDE parecem, à primeira vista, confirmar a promessa. Brasileiros com ensino superior completo ganham, em média, 148% a mais que quem tem apenas o ensino médio —a terceira maior vantagem salarial do mundo e quase três vezes a média da OCDE. Em princípio, o diploma ainda vale. O problema é que esse número médio esconde disparidades brutais de qualidade.

Do recorde de 10 milhões de matrículas do ensino superior em 2024, mais de três quartos eram em instituições privadas e mais da metade em cursos de educação a distância. No Enade 2023, as notas mais baixas se concentraram desproporcionalmente no setor privado —onde chegam a cerca de 40% dos cursos— e foram relativamente raras nas instituições públicas. Entre os cursos a distância, apenas 0,8% atingiram a nota máxima, quatro vezes abaixo da média de todos os cursos.

Está claro que o graduado de uma faculdade privada de ensino a distância de baixa qualidade não compete no mesmo mercado que o formado em uma universidade federal.

O resultado é uma geração politicamente volátil: jovens que fizeram o que lhes disseram —estudaram, se endividaram com mensalidades e seguiram as regras— e descobriram que as regras do jogo mudaram. São mais escolarizados que os seus pais, mas não necessariamente mais prósperos. Essa frustração de expectativas é um combustível poderoso para o ressentimento político e tende a se direcionar contra quem está no poder.

Saiba o que é e como funciona o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) - galeria

O PIB e além

Alguns analistas vêm partindo da aparente desconexão entre PIB e popularidade para questionar o próprio papel da macroeconomia na explicação do bem-estar da população. Frases como "ninguém come PIB" são utilizadas para reduzir a importância de se sustentar uma trajetória robusta de crescimento econômico.

No entanto, um crescimento robusto é uma condição incontornável para um projeto de desenvolvimento que reduza desigualdades e garanta autonomia, sobretudo para países de renda média. O PIB ainda precisa crescer para que a metade mais pobre dos brasileiros possa recuperar o seu nível de renda de 2014 e, mais ainda, para que consiga atingir o padrão de consumo que lhe dê algum nível de satisfação.

Não se trata de defender que todos os brasileiros tenham o padrão de vida ostentado pelos influenciadores digitais, mas que consigam chegar ao padrão de consumo e qualidade de vida de um trabalhador de classe média de um país desenvolvido, por exemplo.

Não se engane: se voltássemos a experimentar uma recessão econômica com elevação do desemprego como a de 2015-16 ou mesmo a estagnação dos governos Temer (MDB) e Bolsonaro, a população estaria ainda mais insatisfeita e todos voltariam a dar importância à macroeconomia, sobretudo os mais pobres e menos escolarizados, que são os primeiros a perder o emprego e o salário em momentos de crise

O trabalhador informal que faz entregas por aplicativo, por exemplo, depende mais, não menos, de uma economia que gira. Um PIB menor é sentido quase que instantaneamente por quem tem o rendimento determinado por um algoritmo de oferta e demanda.

Isso não quer dizer que mais crescimento econômico é suficiente para que a prosperidade macroeconômica se converta em bem-estar real para a maioria. O desafio agora é aprofundar um movimento de tradução dos bons resultados macroeconômicos em experiências cotidianas mais amplas de bem-estar e segurança econômica, o que demanda consolidar a recuperação da renda, reduzir o peso do crédito caro, avançar na progressividade tributária, expandir serviços públicos que ampliem o poder de compra real e acelerar a criação de empregos compatíveis com uma sociedade mais escolarizada.

Uma parte dessa agenda já está em curso: uma reforma do IR que, pela primeira vez neste século, reduzirá a desigualdade entre o topo e o meio da pirâmide; a reforma tributária do consumo e políticas industriais que podem gerar empregos para uma geração mais escolarizada; e a tramitação no Congresso do fim da escala 6x1 e da redução da jornada para 40 horas, que responde à aspiração dos trabalhadores por mais horas de vida fora do trabalho.

Se conseguir combinar crescimento, redistribuição e um novo padrão de prosperidade vivida — mais baseada em tempo e serviços públicos que apenas em consumo privado —, o lulismo poderá transformar a sua fase madura não em um momento de comparação com a própria história, mas em um novo ciclo de expectativas positivas e confiança no futuro.







sábado, 9 de maio de 2026

A universidade dos “perfeitos” e a pluralidade

 Amanhã não existe ainda

A universidade dos “perfeitos” e a pluralidade

A pluralidade necessária no ambiente universitário não significa rebaixamento de padrões, nem reduz seu compromisso social.

Luis Felipe Miguel*, maio 08, 2026

https://lfmiguel.substack.com/p/a-universidade-dos-perfeitos-e-a?utm_source=share&utm_medium=android&r=1ksy3i&triedRedirect=true

Um grupo de professores lançou recentemente um manifesto em defesa do pluralismo nas universidades brasileiras. O documento, assinado por muita gente cujo trabalho conheço, respeito e admiro, suscitou algumas reações exaltadas. A defesa do pluralismo, segundo essas reações, seria uma reação contra o avanço de grupos minoritários.

A situação é complexa, mas eu acredito que existem, sim, bons motivos para preocupação com o fechamento do espaço de discussão de determinados temas nas universidades do Brasil.

Já falei aqui de uma forma de macarthismo adotada por gente que, dentro dos campi, acredita que tem o monopólio, se não da verdade (quem se importa com ela, não é mesmo?), pelo menos das boas intenções. Campanhas de cancelamento, vetos à participação em eventos ou à publicação, boicote à citação de trabalhos ainda que eles sejam relevantes, processos judiciais, pressão para demissão... Ocorre de tudo. Eu já fui alvo: na lista negra de uma revista ou outra, o convite para publicação de um livro por editora importante desfeito sem qualquer motivo, um curso em uma plataforma “cult” cancelado sem sequer me avisarem, campanha intermitente de difamação por youtubers famosos ou semifamosos. Isso por gente que se diz de esquerda. Pela direita, censura, processos, incitação à violência contra mim, pedidos de demissão.

Cheguei a uma etapa da minha carreira em que posso me dar ao luxo de não ligar. Para muitos colegas, porém, é mais difícil.

Múltiplas pesquisas têm mostrado que, entre estudantes, há receio de se pronunciar em público, por medo de dissentir das opiniões hegemônicas – é a perfeita ilustração da espiral do silêncio, de que falava Elisabeth Noelle-Neuman. Com certa frequência, sou procurado por alunos que manifestam essa preocupação. Uma graduanda em Ciência Política me perguntou se ela deveria expor, em seu trabalho de conclusão de curso, sua concordância com algumas teses alinhadas àquilo que, nos debates das redes sociais, é estigmatizado como “radfem”. Eu tive que dizer a ela que, para o bem de seu futuro profissional, no mercado de trabalho ou na academia

Francisco de Goya, El Aquelarre (1798)

As principais reações contra o manifesto vieram exatamente daqueles que se esforçam para calar determinadas vozes dentro das universidades. Um professor da Universidade Federal da Bahia publicou nas suas redes sociais uma diatribe em regra contra os autores, a quem acusou de serem racistas, misóginos, homofóbicos, transfóbicos e mesmo necrófilos. Para ele, já existe pluralidade suficiente na universidade. Esse mesmo professor, porém, é um dos mais eloquentes propagadores da caça às bruxas nos campi. Publicou, faz poucos meses, um texto em que defende simplesmente que devem ser levados às ouvidorias das universidades, para sofrerem processos disciplinares, todos aqueles que criticam as fragilidades das teorias identitárias. Essa crítica, diz ele, consistiria em “assédio epistemológico”, um tipo penal que ele mesmo inventou.

Não acredito que seja má fé. É dissonância cognitiva mesmo. Nas seitas cristãs do início da Idade Moderna, era comum que os adeptos dessem a si mesmos o nome de “os perfeitos”. Sendo perfeitos, podiam fazer qualquer coisa, sem medo de errar. Os herdeiros destas seitas são hoje os arautos dos identitarismos. Eles creem sinceramente que são as vítimas do sistema (ou seria cistema?), o que justifica que exerçam de forma despreocupada seu poder intimidatório.

Está muito errado um ambiente universitário em que as pessoas tenham medo de se expressar. Aqueles que se sentem satisfeitos com isso encampam a violação de um princípio essencial da universidade, sem o qual ela perde sua razão de ser. Mas há dois pontos complementares à discussão, aliás estreitamente ligados entre si, que creio que devem ser acrescentados.

O primeiro é que a exigência de pluralismo não significa que qualquer discurso deve estar dentro da universidade. A defesa abstrata da pluralidade pode dar essa impressão, sobretudo nos tempos de “pós-verdade” que sofremos. Mas não é isso.

Quando o professor da UFBA inventa essa história de “assédio epistemológico”, o que ele está querendo é se blindar contra as críticas que são feitas às derivas identitárias – uma série de perspectivas que acabaram sendo acolhidas na universidade, que oscilam entre ingenuidade, misticismo e charlatanismo, e que não são sustentáveis diante dos parâmetros adequados de discussão acadêmica.

Contra estes parâmetros, fazem a crítica da universalidade. Seriam parâmetros eurocêntricos, masculinistas, heteronormativos. Como se indígenas ou negros, mulheres, gays ou lésbicas, fossem endogenamente incapazes de sustentar o discurso científico. Como se a ciência, produzida aliás também por muitos integrantes de todos esses grupos, não tivesse sido, ao longo da história, aliada de suas reivindicações emancipatórias.

E como se, pelo fato de que as pretensões à universalidade são muitas vezes desvirtuadas pelos grupos dominantes, nós tivéssemos que abandoná-la – em vez de lutar por uma universalidade genuína.

Tudo aquilo que a ciência construiu deve, sim, ser visto como parte do patrimônio comum de toda a humanidade. Fazer de Newton, de Darwin ou de Marx um totem tribal ajuda em que na tarefa de construir um mundo mais igualitário e mais solidário?

O que a denúncia desse patrimônio ajuda é outra coisa – é garantir o espaço do pesquisador incompetente, preguiçoso ou picareta, que embrulha seu material no papel reciclado da “epistemologia alternativa” e foge do debate sério apontando o dedo para os críticos, com gritos de “eurocêntrico” ou “heteronormativo”.

Por paradoxal que possa parecer à primeira vista, as campanhas de intimidação e silenciamento que ocorrem nas universidades, que reduzem a pluralidade interna e impedem o debate livre, estão ligadas à redução dos critérios de validade científica que nelas deveriam imperar.

Em suma: o pluralismo no ambiente universitário não significa que um departamento de astronomia deva receber quem acredita no terraplanismo ou que um departamento de biologia deva dar espaço para defensores do criacionismo. Embora a gente saiba que nenhum debate científico está encerrado de uma vez por todas, ainda assim a ciência garante seu progresso por meio de consensos bem fundados. É – em teoria – possível que alguém reabra o debate sobre a terra plana (improvável, mas vamos lá, pelo bem da discussão). Só que para isso não basta requentar tudo aquilo que a ciência já descartou; seria necessário encontrar novas evidências e/ou produzir uma nova síntese teórica, de forma suficientemente robusta para recolocar a discussão.

As ciências sociais são mais complexas, mas ainda assim existem procedimentos que são aceitos como válidos na construção de argumentos – posso discordar do que está sendo dito, mas reconhecendo que tem lugar no debate. Outros argumentos, porém, são desprovidos de qualquer sentido. Mas criou-se um discurso pretensamente radical que afirma que qualquer critério de validade científica deve ser rejeitado, porque seria uma demonstração de eurocentrismo ou algum outro tipo de preconceito. Daí, o mergulho na subjetividade, o apelo à “ancestralidade”, o solipsismo, o império da experiência incomunicável, a recusa das evidências, a negação dos encadeamentos lógicos, o triunfo da crença sobre a observação, tudo está liberado. É o negacionismo científico dos progressistas, tão nocivo quanto a cloroquina dos bolsonaristas. Ou mais.

E daí cada um inventa uma “epistemologia” para chamar de sua e, com base nela, vale tudo. Já falei disso muitas vezes. É uma completa desmoralização dos critérios do debate acadêmico, com base em pretensas visões que deveriam ser aceitas com condescendência porque são contrárias às opressões. No final do processo, chegamos a absurdos como a inclusão das “práticas integrativas complementares” no SUS, com o dinheiro público da saúde pagando por rezas e placebos, quando não um charlatanismo de inspiração nazista como a “constelação familiar”, tudo já descartado pela ciência, tudo saudado como vitória “contracolonial”.

E isso me leva à segunda questão, que, como disse, está intimamente ligada a esta primeira. A universidade que deve aceitar apenas discursos que sejam compatíveis com as regras elementares do fazer científico não é uma universidade despreocupada com a transformação social. Eu creio firmemente que a universidade, como instituição, precisa ter um compromisso com a produção de um mundo melhor – o que não significa alinhamento partidário. Mas esse compromisso só se realiza caso ela seja capaz de produzir conhecimento sólido sobre este mundo.

* Professor de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coodenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).

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Manifesto docente defende liberdade acadêmica e pluralismo em universidades públicas

Por Solon Saldanha*

Em resposta ao aumento de conflitos internos e ao desgaste da imagem institucional perante a sociedade, um grupo de professores e pesquisadores brasileiros lançou um manifesto que cobra medidas rigorosas para assegurar o contraditório e proteger o ambiente acadêmico de censuras ou intimidações

Um movimento articulado por docentes de renome nacional deu origem a um documento que alerta para a atual fragilidade da convivência democrática nas universidades públicas brasileiras. O manifesto surge em um contexto onde levantamentos recentes, como o realizado pela ONG More in Common e pela Quaest, apontam que a maioria da população desconfia das instituições de ensino superior. Segundo os signatários, esse cenário de crise é agravado por episódios onde a liberdade de cátedra é substituída por hostilidade e boicotes: “os episódios mais graves envolvem agressões físicas, necessidade de escolta e interrupção forçada de atividades acadêmicas”.

Entre os nomes que lideram a iniciativa estão o sociólogo Antonio Lavareda, a professora Maria Hermínia Tavares (Cebrap) e o professor Pablo Ortellado (USP). Eles argumentam que a incapacidade das instituições em mediar conflitos ideológicos tem servido de combustível para o descrédito social. De acordo com o grupo, “a percepção capturada na pesquisa reflete, porém, um problema real: a dificuldade que as universidades têm enfrentado em garantir o pluralismo e sustentar a convivência entre perspectivas divergentes”.

A crise de confiança e a percepção de militância

O documento detalha que a pesquisa Quaest indicou que 59% dos brasileiros nutrem pouca ou nenhuma confiança nas universidades públicas, enquanto 54% acreditam que o espaço acadêmico prioriza a ideologia em detrimento do ensino. O manifesto reforça que tal visão é distorcida, pois as universidades seguem produzindo ciência de excelência, mas pondera que a falta de pluralismo sustenta a ideia de que as instituições “se dedicam mais à militância política do que ao ensino e à pesquisa”.

O texto salienta que a universidade deve ser um espaço de convergência equilibrada entre diferentes correntes, como visões progressistas e conservadoras, ou liberais e socialistas. O grupo alerta que, sem o enfrentamento interno desse problema, as instituições ficam sujeitas a intervenções externas e tentativas de proibir disciplinas e cursos, como já observado em países como os Estados Unidos.

Riscos de intervenção e proteção ao contraditório

Para superar esses impasses, o manifesto aponta caminhos baseados na livre circulação de ideias e na proteção do docente. Os autores defendem que ninguém deve ser sancionado por suas opiniões e que “a função da universidade é garantir a livre circulação de ideias, não proteger membros da comunidade contra o desconforto intelectual provocado pelo contraditório”. A proposta é que se estabeleça uma distinção clara entre o direito legítimo ao protesto e a prática ilegítima de impedir a expressão alheia.

O documento encerra com um posicionamento firme contra o autoritarismo e a perseguição interna. Segundo o texto, “grupos organizados não podem deter poder de veto sobre quem tem permissão para ser ouvido. A universidade deve manter-se firme contra quaisquer formas de perseguição, assegurando que o ambiente acadêmico não imponha falsos consensos por meio da coerção”.

Leia a íntegra do Manifesto

Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica

Um grupo interdisciplinar de docentes e pesquisadores de diferentes partes do Brasil se reuniu no centro MariAntonia, na USP, no mês de abril, para discutir o ambiente de exigência de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso que prevalece hoje nas instituições públicas de ensino superior no Brasil. Esse grupo apresenta à comunidade acadêmica este manifesto pedindo iniciativas concretas de promoção do pluralismo e da liberdade acadêmica para enfrentar a crise de reputação que afeta nossas instituições.

As instituições públicas de ensino superior assistem a uma escalada de conflitos. Multiplicam-se abaixo-assinados, notas de repúdio e campanhas de denúncia em redes sociais dirigidas contra docentes, pesquisadores, técnicos e estudantes. Eventos são cancelados ou interrompidos, aulas são boicotadas, participantes são intimidados e expostos publicamente. Os episódios mais graves envolvem agressões físicas, necessidade de escolta e interrupção forçada de atividades acadêmicas.

Pesquisa realizada pela More in Common com a Quaest, em 2025, mostra a abrangência das repercussões desses conflitos na sociedade brasileira. Cresce a percepção de que as universidades públicas deixaram de ser espaços de produção de ciência e conhecimento e foram capturadas pela disputa ideológica: 59% dos brasileiros confiam pouco ou não confiam na universidade pública; 51% consideram que as universidades privadas são melhores do que as universidades públicas e 54% acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de qualidade. Essa percepção é distorcida. As universidades públicas seguem sendo responsáveis por

formação profissional e produção científica e tecnológica de excelência. A percepção capturada na pesquisa reflete, porém, um problema real: a dificuldade que as universidades têm enfrentado em garantir o pluralismo e sustentar a convivência entre perspectivas divergentes — o que alimenta o entendimento de que se dedicam mais à militância política do que ao ensino e à pesquisa.

Quando faltam mecanismos consistentes de proteção ao dissenso e de garantia do pluralismo e quando a resposta institucional oscila ao sabor de pressões conjunturais, acusações de parcialidade ganham força, comprometendo a legitimidade pública da universidade e as próprias condições de produção do conhecimento.

O progresso científico e intelectual depende de comunidades heterogêneas e livres de coerção, nas quais diferentes visões de mundo podem interagir e debater abertamente. Sem liberdade para o dissenso, o debate acadêmico entra em declínio e o horizonte científico e intelectual de toda a sociedade é empobrecido. Por isso, instituições universitárias devem ser espaços de convivência entre diferentes correntes teóricas e metodológicas, com ideias informadas por visões de mundo progressistas e conservadoras, liberais e socialistas, defensoras de reformas radicais e guardiãs da tradição.

Quando a falta de pluralismo não é enfrentada internamente, a universidade fica exposta a intervenções externas que tendem a agravar o desequilíbrio em vez de corrigi-lo. Nos Estados Unidos, essa omissão inspirou tentativas de restringir conteúdos curriculares, reconfigurar ou extinguir departamentos e interditar agendas de pesquisa. No Brasil, registram-se pressões na mesma direção: tentativas de proibir disciplinas e cursos, questionamentos legislativos sobre conteúdos ensinados, investigações por órgãos públicos e campanhas políticas e midiáticas voltadas a constranger docentes. Em todos esses casos, o pêndulo se desloca na direção oposta, trocando um tipo de desequilíbrio por outro.

Afirmamos, porém, que há um caminho alternativo, que passa necessariamente pela responsabilidade ativa das próprias administrações universitárias. Esse caminho se inscreve nos marcos do Estado Democrático de Direito: a defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica proposta aqui pressupõe o respeito às instituições democráticas e às garantias constitucionais.

Para que essas instituições recuperem a confiança da sociedade e cumpram plenamente sua missão, é preciso que se comprometam com três pilares fundamentais: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo.

Neutralidade institucional

As universidades devem ser fóruns plurais onde diferentes ideias entram em disputa. Para que isso aconteça, a instituição não deve confundir suas funções com o ativismo político. O princípio da neutralidade institucional estabelece que universidades devem evitar adotar posições oficiais sobre questões políticas ou ideológicas. Isso não restringe a liberdade individual de docentes e pesquisadores, que seguem livres para expressar suas convicções pessoais e defender posições públicas — em seu próprio nome, não em nome da instituição.

Quando a universidade adota oficialmente uma visão de mundo determinada, ela estabelece uma ortodoxia oficial, sinalizando para a sua comunidade que visões divergentes não são bem-vindas. Isso aliena quem discorda da posição oficial, leva à autocensura e desencoraja o debate livre de ideias.

Ao ceder à pressão para emitir declarações sobre eventos políticos ou sociais, as universidades também se tornam vulneráveis a grupos de pressão internos e externos. O resultado é que as instituições passam a ser vistas como entidades ideológicas e partidárias, em vez de centros plurais de produção intelectual e científica.

A neutralidade institucional comporta uma exceção: a universidade deve se posicionar quando a questão afeta diretamente a liberdade acadêmica, a autonomia universitária ou sua capacidade de cumprir sua atividade-fim — a exemplo de leis que restrinjam áreas de pesquisa ou comprometam seu financiamento.

O princípio da neutralidade institucional se aplica à gestão de convidados externos. Receber um político de esquerda ou um líder de direita não implica aderir às suas ideias, mas ceder espaço para que sejam debatidas. A universidade, portanto, não deve afirmar que convidados representam seus valores.

Para manter o pluralismo, as universidades devem operar sob regras isonômicas, mantendo suas portas abertas a todos. Se uma instituição recebe apenas representantes de um lado do espectro político, ela passa a ser percebida como um instrumento de ativismo, perdendo legitimidade pública. Essa postura exige firmeza e proatividade: a neutralidade institucional demanda que a universidade mantenha um evento com um convidado polêmico mesmo diante de protestos. Cancelar um evento devido ao posicionamento ideológico do palestrante é assumir uma posição política, sinalizando que apenas certas ideias têm permissão para circular no campus.

Liberdade acadêmica

A proteção à liberdade acadêmica exige o compromisso de que ninguém será sancionado por suas opiniões — seja por pressões externas, seja por grupos de pressão internos à própria instituição. A função da universidade é garantir a livre circulação de ideias, não proteger membros da comunidade contra o desconforto intelectual provocado pelo contraditório.

Pesquisa do Instituto Sivis, com amostra representativa dos estudantes brasileiros de ensino superior, mostrou que 48% deles afirmam ter se autocensurado, evitando debater assuntos controversos em sala de aula.

Para evitar que a instituição seja capturada por ortodoxias, é necessário criar uma cultura organizacional pró-dissenso. Isso implica regras e protocolos que diferenciem claramente odireito legítimo ao protesto da prática ilegítima de impedir a expressão alheia. Gruposorganizados não podem deter poder de veto sobre quem tem permissão para ser ouvido . A universidade deve manter-se firme contra quaisquer formas de perseguição, assegurando que o ambiente acadêmico não imponha falsos consensos por meio da coerção.

Condutas discriminatórias, tipificadas na legislação brasileira, devem ser apuradas e punidas pelos canais competentes. Isso, porém, não se confunde com a expressão de posições críticas sobre movimentos sociais e políticas públicas — inclusive aquelas voltadas à promoção da igualdade. Enquadrar argumentos acadêmicos como ofensas morais para silenciá-los é prática incompatível com a liberdade acadêmica.

Diante de conflitos ou disputas em torno da liberdade acadêmica, a instituição deve adotar procedimentos de arbitragem transparentes e previsíveis. É essencial que a universidade se abstenha de emitir posições públicas, notas de repúdio ou condenações sumárias antes que ocorra uma apuração rigorosa, técnica e isenta dos fatos, garantida a ampla defesa. Ao ceder à urgência de dar respostas imediatas às redes sociais ou a movimentos sociais, a administração corre o risco de violar o devido processo e sinalizar parcialidade. Por isso, a universidade não deve admitir julgamentos liminares e precipitados.

Além disso, a universidade deve tomar providências, de acordo com suas competências, para garantir a preservação dos direitos constitucionais dos acusados enquanto a apuração dos fatos não é concluída. Quaisquer medidas administrativas devem seguir os devidos trâmites de apuração e responsabilização. A imparcialidade e o silêncio estratégico antes da conclusão das apurações são salvaguardas necessárias para impedir que a pressão política subverta a justiça e a pluralidade intelectual no campus.

Pluralismo

A defesa do pluralismo deve se estender aos currículos, aos programas de ensino e à pesquisa. A universidade deve adotar um ethos institucional que incentive o ensino das posições em disputas nas controvérsias e a análise de perspectivas divergentes em temas sensíveis.

 Quando professores selecionam e apresentam uma única visão de mundo, eles privam os estudantes da oportunidade de desenvolver fluência nas ideias acadêmicas que efetivamente dividem a sociedade. O pluralismo não significa que qualquer afirmação é válida. O questionamento a consensos estabelecidos deve ser mediado pelo método científico e pela argumentação honesta.

Ensinar obras influentes sem apresentar seus críticos mais qualificados cria uma falsa impressão de consenso — onde ele, de fato, não existe. Uma universidade plural deve se esforçar para abarcar os dissensos nos seus currículos e programas de ensino. Isso permite que os alunos se familiarizem com as escolas de pensamento e se tornem capazes de analisar criticamente os seus méritos e as suas falhas.

O pluralismo exige o desenvolvimento de uma cultura de discordância construtiva: a capacidade de engajar o dissenso de forma rigorosa, respeitosa e produtiva. Isso não significa eliminar o conflito, mas qualificá-lo, reconhecendo-o como motor do avanço intelectual, desde que orientado por normas de argumentação, escuta e crítica mútua. 

Ao construir currículos que reflitam a diversidade real do pensamento humano, a universidade protege-se de acusações de viés e cumpre seu dever de formar cidadãos aptos a navegar em um mundo complexo. 

As recomendações aqui apresentadas inspiram-se em iniciativas de outros países que enfrentam desafios semelhantes e sugerem um caminho centrado na neutralidade institucional, na proteção ao dissenso e na valorização do pluralismo curricular.

A universidade pública é um patrimônio dos brasileiros, que a sustentam com seus impostos e depositam nela suas esperanças para o futuro. Quando se instala a percepção de que foi capturada por grupos ou ideologias, a universidade se distancia dos cidadãos e perde legitimidade.

Ao assegurar que visões divergentes tenham lugar no campus, as instituições públicas de ensino superior reafirmam seu compromisso com a ciência e o conhecimento — e resgatam a autoridade necessária para serem, novamente, espaços de confiança e liderança intelectual para todos os brasileiros.

Para assinar o manifesto aqui  

Assinam inicialmente:

Adriano Codato, UFPR

Afonso Albuquerque, UFF

Antonio Lavareda, UFPE

Attila Magno e Silva Barbosa, UFPel

Benedito Tadeu César, UFRGS

Bernardo Sorj, UFRJ

Bila Sorj, UFRJ

Bruno Bolognesi, UFPR

Bruno Speck, USP

Camilo Aggio, UFMG

Celi Scalon, UFRJ

Daniela Virgínia Vaz, UFMG

Denise Paiva, UFG

Eduardo Wolf, UnB

Emanuel Freitas, UECE

Elisa Pereira Reis, UFRJ

Ester Gammardella Rizzi, USP

Fernando de Figueiredo Balieiro, UFCat

Jairo Nicolau, FGV-CPDOC

Jakson Aquino, UFC

Jean Gabriel Castro da Costa, UFSC

Jorge Machado Villanueva, USP

Julian Borba, UFSC

Kelly Prudencio, UFPR

Leandro Piquet Carneiro, USP

Leopoldo Waizbort, USP

Luciana Santana, UFAL

Luís Felipe Guedes da Graça, UFSC

Mara Telles, UFMG

Marcia Ribeiro Dias, Unirio

Márcio Moretto Ribeiro, USP

Marcos Cesar Alvarez, USP

Maria Aparecida Moraes, UFSCar

Maria Herminia Tavares, CEBRAP/USP

Marta Arretche, USP

Miriam Adelman, UFPR

Pablo Ortellado, USP

Paulo Baía, UFRJ

Paulo Fábio Dantas, UFBA

Paulo Gracino Jr, UNB

Pedro Damazio Franco, Columbia University

Plínio Junqueira Smith, Unifesp

Renato Perissinotto, UFPR/UFSC

Richard Miskolci, UNIFESP

Roberto Ramos, UFRR

Rodrigo Perez, UFBA

Sérgio Adorno, USP

Silvana Krause, UFRGS

Valeska Zanello, UnB

Verônica Toste Daflon, UFF

Waldomiro José da Silva Filho, UFBA

Wilson Gomes, UFBA

Yan Carreirão, UFSC


* Solon Saldanha, jornalista e escritor


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Cota de tela

Cinemark reduz em 65% as sessões de 'Zuzubalândia' após caso com Cota de Tela

Rede exibia animação brasileira mais de cem vezes ao dia. 'Rio de Sangue', por sua vez, teve aumento incomum

Guilherme Luis, fsp, 7.5.2026

A Cinemark reduziu em cerca de 65% as sessões de "Zuzubalândia - o Filme" programadas para esta quinta-feira (7), no estado de São Paulo, em relação à semana cinematográfica encerrada nesta quarta.

A mudança acontece após a Folha mostrar que a rede vinha usando a animação brasileira como atalho para cumprir a Cota de Tela, mecanismo que obriga exibidoras a reservar parte de sua programação para produções nacionais

Nas últimas semanas, a quantidade de sessões do filme se mantinha acima da casa da centena, e só agora houve uma redução significativa.

Cena de 'Zuzubalândia - O Filme', da diretora Mariana Caltabiano - Divulgação

Como "Zuzubalândia" tem apenas 60 minutos, a Cinemark realizava dezenas de sessões simultâneas do filme, diariamente, em horários de pouco movimento, entre 11h e 14h, para acelerar o cumprimento da cota, em vigor desde junho de 2024.

Nesta quarta, havia 114 exibições de "Zuzubalândia" programadas em complexos paulistas da Cinemark. Já nesta quinta, o número de sessões em São Paulo caiu para 40. Quase todas ainda ocorrem de manhã, às 11h30 —há apenas uma exibição agendada para 14h15, no shopping Interlagos.

Já "Rio de Sangue", filme nacional com Giovanna Antonelli, ganhou sessões em vez de perder. O número foi de 22, nesta quarta-feira, para 24, nesta quinta, um aumento de 10%. Delas, apenas três ocorrem em horário nobre, às 17h, 19h40 e 22h10, em Mogi das Cruzes. O restante acontece às 11h30 ou ao meio-dia.

Os sete filmes brasileiros mais aguardados de 2026 - galeria

É raro um filme brasileiro ganhar mais salas, especialmente em sua quarta semana de exibição, como é o caso de "Rio de Sangue". Obras nacionais com pouca demanda de público tendem a sumir das grades das grandes exibidoras rapidamente.

O crescimento de "Rio de Sangue" na programação da Cinemark pode indicar uma estratégia da empresa para seguir cumprindo a meta da Cota de Tela sem ter de usar "Zuzubalândia", agora alvo de polêmica.

Outro caso é "Velhos Bandidos", comédia nacional estrelada por Fernanda Montenegro, que passou por uma redução mínima, de apenas 10%, indo de 44 sessões para 40. Em sua sétima semana em cartaz, a obra segue concentrada às 11h30, com apenas uma sessão às 13h40.

A praxe é que grandes exibidoras limem rapidamente obras brasileiras da programação para abrir espaço para títulos internacionais, de maior apelo comercial. Nesta semana, estreia "Mortal Kombat 2", enquanto "O Diabo Veste Prada 2" segue em dezenas de salas após bom desempenho na estreia.

Embora o caso de "Zuzubalândia" não viole as normas da Ancine, a Agência Nacional do Cinema, a Cinemark se aproveita de uma brecha no texto da Cota de Tela. Só este ano, a rede programou 17.237 sessões de "Zuzubalândia", que foram vistas por apenas 1.882 pessoas. Isso equivale a 0,1 espectador por sessão.

A Cinemark diz que vem lotando a sua programação com "Zuzubalândia" por causa do programa Projeto Escola, em que instituições de ensino reservam salas inteiras para seus estudantes. A rede não esclarece, porém, qual a relação entre a animação de 2024 e o projeto, dado que qualquer filme da programação pode ser solicitado pelas escolas.

Funcionários de uma unidade da Cinemark em São Paulo afirmaram à reportagem que, internamente, a ordem é exibir a animação em sessões simultâneas no começo do dia para bater a meta da Cota de Tela —no caso da empresa, 16% do número de sessões ao ano devem ser de filmes nacionais.

A Ancine afirma estar ciente da prática da Cinemark, mas não prevê punições à exibidora. O órgão quer criar mecanismos que incentivem a presença de filmes brasileiros na faixa nobre das exibidoras, e por isso agora dá bonificações para sessões exibidas após as 17h.

"Zuzubalândia - O Filme" estreou em setembro de 2024, ficou em cartaz até dezembro daquele ano e voltou à programação em outubro do ano passado. A produção é exibida somente na Cinemark, como parte de um acordo de exclusividade entre a rede e a diretora e roteirista Mariana Caltabiano.