Lúcio Flávio - O insubmisso
O caminho difícil do jornalista Lúcio Flávio Pinto
João Moreira Salles, piaui, edição 234, Março 2026
PARTE I - TRABALHANDO NO JORNAL DOS OUTROS
Era a primeira metade dos anos 1970. O rapaz percorria a América Central de ônibus com o objetivo de convidar outros como ele a participar de um encontro internacional no México, organizado por uma comunidade ecumênica francesa voltada para a promoção da fraternidade e da reconciliação.
Foi na Cidade do México que o jovem conheceu a freira. Ela chorava muito – chorava inconsolavelmente – e ele não compreendia a razão. “Era a freira Maurina Borges”, relembra Ricardo Rezende, o rapaz que, aos 22 anos, se viu diante da religiosa.
Em 1969, madre Maurina Borges era diretora de um abrigo de crianças órfãs em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Quando lhe disseram que uma das salas de aula do estabelecimento estava sendo usada por um grupo de “comunistas”, ela, assustada, recolheu o material que encontrou ali e jogou tudo no fogo.
Pouco depois, a Operação Bandeirante, braço da repressão, invadiu o abrigo. Acharam produtos químicos compatíveis com os utilizados na fabricação de bombas e levaram irmã Maurina para a prisão. “Um policial amarrou-lhe fios nos dedos das mãos e rodou o magneto”, escreveu Elio Gaspari na sua história do período. Ela foi torturada seguidas vezes durante a detenção – a única freira a sofrer tortura durante a ditadura militar.
Passados cinco meses, seu nome foi incluído na lista de prisioneiros políticos a serem libertados em troca de um diplomata japonês sequestrado por um grupo da resistência. Forçada ao exílio, irmã Maurina terminou no México.
“Quando um exilado sabe a razão do seu exílio, sofre, mas pode se sentir orgulhoso”, explica Rezende, no seu apartamento no Rio de Janeiro. “Mas ela não sabia por que tinha sido presa e por que tinha ido parar no México. E por isso chorava na minha frente.”
O encontro determinou a vida do rapaz. “O sofrimento dela me tocou. Me convenci de que precisava ajudar a mudar esse país.” Irmã Maurina tinha um irmão religioso que trabalhava no Pará. Ricardo Rezende decidiu se juntar a ele.
“Cheguei em Conceição do Araguaia em 1977 e me vi no epicentro do conflito fundiário brasileiro. Era um barril de pólvora. Em dezembro de 1978 ou 1979 – lembro que era a época da minha segunda ameaça de morte –, havia oitenta conflitos coletivos pela terra. Sei disso porque preparamos um documento para o nosso bispo apresentar na CNBB”, recorda.
Uma coletiva foi convocada em Belém para que Rezende lesse o relatório e fornecesse um panorama da situação. O salão estava lotado e, a cada denúncia, os repórteres pediam nomes: quem eram os fazendeiros? quem fazia as ameaças?
As perguntas pegaram o jovem – a um ano de se ordenar padre – despreparado. “Eu só sabia o nome das fazendas. Respondia: ‘Ah, é a fazenda São Geraldo.’”
Foi quando algo surpreendente aconteceu. A cada resposta capenga, lá do meio da sala vinha uma voz: “A fazenda São Geraldo é de fulano de tal.” A São Miguel? “De beltrano.” A São João? “De sicrano.”
“E quantos hectares tem a São Geraldo?” Rezende não sabia. E, novamente, do bolo de jornalistas ouvia-se: “A São Geraldo tem tantos mil hectares.”
“Eu fiquei muito impressionado”, relembra o padre. “Ele tinha todas as respostas de cabeça.”
Ele era o jornalista Lúcio Flávio Pinto. Jovem, mal tinha chegado aos 30 anos.
No dia 8 de julho de 2023, Lúcio Flávio Pinto escreveu no blog que mantinha havia quase dez anos: “Acordei assustado na madrugada de hoje. Saí do sonho com uma cobrança: eu tinha errado, de forma crassa, uma nota que postei ontem no blog.”
Na nota, ele criticara “e ironizara” uma instituição pública, a Fundação Cultural do Pará, por comprar livros de uma empresa de construção. Na verdade, o contrato dizia respeito à aquisição de estantes modulares, o que não configurava malversação de dinheiro público, tema frequente de seus artigos.
O post seguia:
“Eram duas horas da madrugada. Aturdido e insone, vim a este computador e escrevi esta retificação:
Peço desculpas à Fundação Cultural do Pará, à empresa construtora e ao leitor pelo involuntário erro cometido na nota sobre os livros. […]
“Depois de refletir mais um pouco, chocado pela situação, acrescentei este post:
Fui alertado pelos médicos: na sua progressão, o Parkinson poderia começar a atingir a minha cognição; e eu seria abalado. Esse dia chegou. […]
Só cancelar a nota, como fiz, não é o suficiente. Depois de anos de convivência com a doença mental, que é degenerativa e não tem cura, este foi o primeiro erro desse tipo que cometi. […]
Sob o choque da percepção, decidi encerrar a minha atividade jornalística pública diária. Não quero cometer um novo erro desse tipo, por redução ou, em algum momento, perda da capacidade cognitiva.”
O título do post era “Perdão, leitores”.
Dois anos depois, em agosto de 2025, Lúcio Flávio Pinto, então com 75 anos, abriu a porta de seu apartamento em Belém. Afastou-se e, estendendo o braço para acolher o irmão, Elias, disse: “Estou com uma enciclopédia de doenças.”
A sala é modesta – um sofá e duas pequenas mesas, numa das quais há um livro de mais de mil páginas de autoria do jornalista e correspondente de guerra inglês Robert Fisk.
Lúcio Flávio, como é conhecido, é um homem pequeno, de corpo frágil. Quando começa a falar, contudo, toda impressão nesse sentido se desfaz. A memória prodigiosa, a rapidez com que convoca o vasto repertório que tem na ponta da língua sobre a Amazônia, as palavras precisas que lhe saem ligeiras da boca, a convicção moral diante das escolhas difíceis que fez ao longo da carreira e esse quase orgulho de uma vida que termina mal em razão dos sacrifícios necessários – tudo isso é o oposto da fragilidade.
A sua herança familiar se espalha por toda a Amazônia. Nesse percurso que vai de uma ponta à outra do bioma, que passa pela floresta, pelo rio e pela cidade, por pobres e ricos, conta-se boa parte da epopeia amazônica. Lúcio Flávio observa que, nos muitos pontos dessa vasta geografia, o que mais se fala é de “grilagem de terras, desmatamento ilegal, trabalho escravo, crimes de encomenda, violência, brutalidade” – temas que ele acabaria por tornar seus.
Seus avós vieram de várias partes do Brasil e ocuparam várias partes da Amazônia. O avô materno era guarda-livros num seringal no extremo Sul do Amazonas, quase fronteira com o Acre. Sua esposa morreu cedo e a filha mais nova, mãe de Lúcio Flávio, foi mandada para uma comunidade ribeirinha perto de Santarém. Lá, “a cabocla aculturada, caiada de branco pela miscigenação”, descobriu a floresta.
Os avós paternos vieram do sertão cearense. Fixaram-se em Santarém, onde abriram um comércio na Aldeia, o bairro pobre da cidade. O pai foi jornalista, dono de jornal e político cassado pelo regime – prefeito de Santarém, acabou afastado com violência pelo governador do Pará, um militar ligado à ditadura.
A mãe deixou a beira do rio e seguiu para um internato de freiras em Santarém, um colégio “que abrigava a elite pagadora e guardava também espaço para as caridades”. Pelas mãos da irmã mais velha, que se casara com um homem rico, ela se integrava a uma das famílias mais influentes do município, da qual faziam parte barões do Império.
Lúcio Flávio experimentou desde muito cedo as perplexidades da vida amazônica. Num episódio que pode ou não ser verdadeiro – a história era contada por sua mãe –, ele, com 2 ou 3 anos, todo arrumadinho na janela, assistia à vida passar. Um mascate que vinha em seu cavalo trazendo mercadorias do interior para vendê-las na cidade parou diante da janela e, gostando do menininho perfumado, perguntou o preço. Que preço? “O seu preço.” Queria comprá-lo.
Como seu tio por parte de mãe era um dos homens mais ricos de Santarém, o menino morava no bairro central. O outro lado da família integrava a sociedade portuguesa; tinha posição social, mas não dinheiro. Era o povo da Aldeia. Aos 7 anos, Lúcio Flávio já ia a pé de um lugar a outro, sem se sentir estranho em nenhum dos dois.
Essa transição suave entre duas culturas, dois modos de se relacionar com as estruturas de poder, seria “uma capacidade que me acompanharia por toda a vida e seria fundamental para o exercício do jornalismo profissional”, registrou ele num relato autobiográfico.
Em 1965, aos 15 anos, começou a apresentar um programa de rádio. O chefe da Região Militar local considerou o conteúdo subversivo e retirou o adolescente do ar. Foi sua primeira censura.
No ano seguinte, já morando em Belém, entrou no prédio da Província do Pará, jornal dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Era um edifício imponente, erguido com o dinheiro do ciclo da borracha. Subiu as escadarias, chegou à redação, identificou aquele que parecia mandar ali e se apresentou. O homem achou o menino divertido e o despachou para cobrir uma coletiva que acontecia lá perto.
Lúcio Flávio foi, entendeu pouco do que viu e, desanimado, voltou com anotações que de nada valiam. Estava se explicando ao homem que mandava quando surgiu alguém que mandava ainda mais. Era o diretor de redação, que perguntou: “O que esse menino quer?”
“Quer ser jornalista”, respondeu o subordinado.
Cláudio Augusto de Sá Leal, o diretor de redação, pôs a mão no ombro do menino e pediu que o acompanhasse até sua sala. Uma carreira pode começar de muitas maneiras. A de Lúcio Flávio começou com essa mão no ombro.
– Do que você gosta? – perguntou Leal.
– De história – respondeu o menino.
Saiu dali com a incumbência de escrever um artigo sobre os 21 anos da rendição do Terceiro Reich aos Aliados, data que seria celebrada dali a dois dias.
No dia seguinte, 6 de maio, A Província do Pará publicava na primeira página um texto que começava assim:
Às 2h41 da madrugada de 7 de maio de 1945, numa escola de Reims, na França, representantes do comando supremo alemão assinavam a capitulação incondicional do Terceiro Reich.
Dois parágrafos abaixo, lia-se:
Naquele dia 7, o homem, após tanto tempo disfarçado em verdadeira besta humana, voltava a ser realmente humano. Deixava, naquele instante, de ser seu próprio carrasco, aquele que matava sorrindo e destruía gritando: arrancava de seu coração o ódio e as maldades acumuladas durante todos aqueles anos de horror. O homem, enfim, podia agir racionalmente.
Não era um artigo neutro. Vinha recheado das convicções de um jovem de 16 anos enamorado da indignação e da retórica. Como se comprovaria nas décadas seguintes, indignação sincera e amor genuíno pelos modos de expressá-la.
Que seu primeiro texto publicado tenha sido sobre a guerra é um desses acasos que soa a destino.
O Museu Paraense Emílio Goeldi é a mais antiga instituição científica da Região Norte. Em junho de 1966, cientistas de todo o mundo se reuniram em Belém para comemorar o seu centenário. Chamado de Simpósio sobre a Biota Amazônica, o evento durou seis dias e ganhou extensa cobertura da imprensa local.
Um mês depois de entrar pela primeira vez numa redação de jornal, Lúcio Flávio foi escalado para cobrir o simpósio. Circulou entre os cientistas e tomou notas de suas conferências. A cada novo contato, ia se dando conta de que seria impossível compreender o que acontecia na Amazônia sem se afastar momentaneamente dela, absorvendo os conhecimentos gerados em outros países.
Sentado em seu apartamento em Belém, o volume de Fisk equilibrado no braço da poltrona, ele conta o que percebeu naqueles poucos dias: “Os estrangeiros sabiam mais sobre a Amazônia do que os brasileiros. Os brasileiros iam para o campo com leite condensado e leite em pó. Acabava o leite, voltavam. Já os estrangeiros iam com o mínimo.”
Ele lembra um episódio envolvendo Margaret Mee, a artista botânica inglesa. “Ela foi para o mato e o mateiro levou alguns dias para aparecer. Ela já não tinha comida, mas decidiu não voltar. Todo dia ela desenhava, todo dia”, diz, sem esconder a admiração. A história o levou a reconhecer os aspectos de dedicação, disciplina e resistência “dos grandes intelectuais do imperialismo britânico”.
A desconfiança acerca do que os brasileiros sabem a respeito da Amazônia – sobretudo os brasileiros não amazônidas – seria uma marca perene da sua obra.
O biólogo José Maria Cardoso da Silva, professor titular da Universidade de Miami e amigo de Lúcio Flávio, considera decisivo esse encontro do jovem repórter com os pesquisadores reunidos no Goeldi. “Se você prestar atenção nas reportagens dele, todas têm uma base científica muito sólida. Ele fazia perguntas e ia atrás das evidências que sustentavam ou rejeitavam a hipótese. Para a minha geração” – Cardoso entrou para a faculdade no início da década de 1980 – “isso era novo. Era o método científico aplicado à apuração. Ele viu todos aqueles cientistas discutindo hipóteses e pensou: ‘Quero usar esse modelo de pensamento no meu processo de investigação.’ O Simpósio da Biota basicamente determinou a carreira dele.”
Outras razões fariam de 1966 o ano que determinaria para sempre o seu jornalismo. Na esfera do poder, estavam sendo tomadas decisões que mudariam a face da Região Norte. “Foi em 1966 que acabou a crença de que o extrativismo tinha condição de sobreviver na Amazônia”, diz Lúcio Flávio, sentado em sua poltrona. “Porque foi nesse ano que criaram a Operação Amazônia”, um conjunto de projetos do governo militar para ocupar, desenvolver e controlar a Amazônia, colonizando-a com pessoas vindas de fora do bioma.
A única obrigação era desmatar. “Quem deixasse sua terra coberta de floresta não tinha direito à regularização fundiária, não era reconhecido como proprietário legítimo e definitivo daquele chão.” A paisagem precisava ser modificada. “Floresta não era benfeitoria. Era estorvo.”
Ali se encerrava a possibilidade de uma civilização florestal. Em outras palavras, um repórter que iniciasse a carreira em 1966 e se dedicasse a cobrir a Amazônia não podia ser senão o cronista da sua destruição. “Ter começado em 1966 foi um acaso fatal”, escreveu Lúcio Flávio.
Ele abre o livro de Robert Fisk. “Estou lendo pela segunda vez.” Fisk passou boa parte da vida profissional cobrindo os conflitos do Oriente Médio. Lúcio Flávio folheia o volume em busca de uma passagem e a lê em voz alta: “Essa noite temos como convidado um soldado da imprensa […], um soldado do pequeno exército de historiadores que escrevem a história ao pé do canhão.”
Ele fecha o livro: “É isso. Enquanto eu pude, escrevi a história ao pé do canhão.”
Em 1969, Lúcio Flávio trocou o Pará por São Paulo, onde trabalharia no Diário de São Paulo e no Diário da Noite, além de colaborar nas revistas Realidade e Veja. O que o levou para o Sul, contudo, não foi o emprego, mas a formação acadêmica. Tinha resolvido fazer carreira na sociologia.
Ainda muito jovem, percebera que o jornalismo, sozinho, não bastava para destrinchar a complexidade da Amazônia. Ele se juntava a uma geração de jornalistas que, tendo entrado nas redações entre o golpe e o AI-5, decidira ir para a universidade em busca de método e disciplina.
“Acho que esta foi a novidade em relação à geração anterior, que sobreviveu ao Estado Novo ou se revelou com a democratização seguinte. Os jornalistas desse período foram até mais brilhantes do que nós, mais amplamente talentosos, com maior diversidade de recursos pessoais. Mas confiaram exageradamente em seus talentos, em sua intuição, em seu brilho excepcional. Estudavam pouco, apuravam insuficientemente, não davam aos fatos a importância que eles intrinsecamente têm (e precisam sempre ter) no trabalho do jornalista”, escreveu ele em Como me tornei um amazônida, livro que reúne artigos autobiográficos.
O repertório dessa nova lavra de profissionais era amplo. Alguns exerceriam forte influência sobre o jovem jornalista. Raimundo Rodrigues Pereira, por exemplo, vinha da física. Diretor do semanário Opinião e editor da edição especial da revista Realidade sobre a Amazônia, com ele Lúcio Flávio aprendeu como se faz jornalismo de rigor. “Raimundo só aceitava colocar em letra de fôrma o que pudesse ser exemplificado, demonstrado, reconstituído.”
Em São Paulo, Lúcio Flávio entrou para a Escola de Sociologia da USP. Lá conviveu com o etnólogo Herbert Baldus, um dos primeiros e mais conceituados pesquisadores estrangeiros a sistematizar estudos sobre povos indígenas no Brasil. É com gratidão que o repórter fala do antigo mentor: “Aprendi com ele a relatividade do conhecimento”, diz, o semblante luminoso. Aprendeu também a distinguir categorias sociais. “As pessoas escrevem ‘o camponês da Amazônia’. Você não tem um camponês na Amazônia. O camponês está no mercado, ele não é autossuficiente. Essa expressão cheia de viés metodológico não existe aqui.”
Durante os estudos, entraria em contato com os dois pensadores que estão na base de sua formação intelectual. O primeiro deles, Sartre – menos pelo sistema de ideias do que pela parte metodológica. “Método significa: como começa o texto, como termina. É pensar em estrutura, forma. Você precisa saber aonde vai, como vai. Escrevo sabendo como vou abrir e como vou fechar. Admiro Sartre, mas não sou marxista.”
Repete a negação ao falar do segundo nome: “Marx foi a maior influência na minha vida e eu não sou marxista.” O Marx de Lúcio Flávio é, acima de tudo, o pesquisador rigoroso, capaz de selecionar suas fontes, e o jornalista que descreve fatos sociais complexos a partir da observação de detalhes aparentemente laterais, narrando a história pelas beiradas. Por exemplo, compreender a condição dos pobres pelos gravetos que recolhiam no chão das florestas para se aquecer, como fez Marx em texto publicado na Gazeta Renana, e que o jornalista menciona com admiração palpável.
Sobretudo, Marx indicou a Lúcio Flávio o caminho dos documentos. Lendo atentamente relatórios parlamentares britânicos, estatísticas oficiais acerca de salários, acidentes e mortalidade, e inquéritos relacionados a trabalho infantil, Marx pôde enxergar a realidade social da classe operária inglesa.
Sentado em sua poltrona, as doenças temporariamente vencidas pelo entusiasmo, ele se empolga: “Ninguém lia os relatórios de inspetores de fábrica, só o Marx!” Fala cada vez mais rápido: “Ele não precisou entrar na fábrica” – não realizou observação participante, não conduziu pesquisa empírica, não entrevistou operário. “Deixou isso para o Engels.”
A capacidade de extrair informações preciosas de balanços, atas, inquéritos e documentos oficiais – entre eles o Diário Oficial – viria a ser um dos talentos superiores de Lúcio Flávio. “Talvez eu seja o jornalista que mais leu diários oficiais no mundo”, diz ele. Com base nessas leituras, denunciou o desvio de dinheiro público e uma série de crimes praticados pelo aparato estatal.
Otávio Mendonça, advogado de grandes grupos econômicos do Pará, disse certa vez num encontro de colegas: “Eu queria que vocês lessem o Diário Oficial como faz o Lúcio. Parece que ele está lendo a Comédia humana do Balzac.”
“Ele era um rato de ler o Diário Oficial, traduzia aquilo para os leitores”, conta Mauro O’ de Almeida, ex-secretário de Meio Ambiente do Pará. “Era um expert em ler balanços financeiros. Ele lia o balanço todinho da Vale pra dizer como a empresa estava. No caso do Liberal, lia o balanço, deduzia que o jornal estava quebrado e explicava que essa era a razão pela qual o Liberal se juntava a grupos políticos – era a necessidade de extrair favores do governo.”
Balanços, para Lúcio Flávio, são documentos honestos. “É uma informação da empresa que escapa à censura”, explica, razão suficiente para estudá-los com afinco.
Depois de dedicar dias à leitura minuciosa do balanço da Albras, maior produtora de alumínio primário do Brasil, ele identificou o que descreveu como “autêntico crime de lesa-pátria”: a siderúrgica, que construíra uma fábrica em Barcarena, Pará, para se beneficiar da energia produzida por Tucuruí, recebera da Eletronorte, operadora estatal da hidrelétrica, uma tarifa tão subsidiada que, em vinte anos, seu valor correspondia ao tamanho do próprio investimento na fábrica – 1,8 bilhão de dólares. “Não saindo dos cofres da indústria de alumínio, foi bancado pelo erário, à base do dinheiro do contribuinte”, publicou.
Certo dia, convidado pela revista Realidade a colaborar em um número especial sobre a Amazônia, Lúcio Flávio foi entrevistar o presidente da Associação dos Empresários da Amazônia, cuja sede não ficava nem em Belém nem em Manaus, mas na capital paulista.
Além de presidir a entidade, Eduardo Celestino Ribeiro era dono de uma construtora, membro da Fiesp e proprietário de duas fazendas no Pará. Nessa última condição, sentia-se autorizado a discorrer sobre o futuro da Amazônia, cuja sina, explicou na ocasião, era trocar a floresta pelo pasto.
O jovem repórter deixou o encontro decidido a largar a universidade e voltar para a sua terra. Ninguém lá tinha noção de como a roda do poder girava. Os personagens que apareciam diariamente nas colunas sociais de Belém – políticos e empresários locais – eram irrelevantes para o destino da região. O colunista social nem sequer sabia quem era Eduardo Celestino Ribeiro. “E era gente como ele que mandava”, relembra Lúcio Flávio, cinquenta anos depois. “O empresário paraense era apenas um abridor de portas.”
Para construir a Amazônia colonial, feita de pastos, gado, estradas, hidrelétricas e mineração, “esses bandeirantes modernos iriam destruir a minha Amazônia, centrada no equilíbrio ecológico em torno da floresta nativa”, escreveria mais tarde. A região estava prestes a mudar drasticamente e era preciso ver de perto.
Era 1971 e o momento não poderia ter sido mais propício. Raul Martins Bastos, chefe das sucursais do Estado de S. Paulo, vinha ampliando sua rede de correspondentes e buscava jornalistas jovens, de espírito independente e, sobretudo, sem conexões políticas locais. Alguém lhe falou do repórter paraense que fazia seus estudos em São Paulo e colaborava na Realidade.
Lúcio Flávio foi contratado, passando a integrar o grupo de correspondentes na Amazônia – sete repórteres, um em cada capital da região e dois em Belém, que funcionava como base. Todos recebiam salário maior que o da praça e tinham vínculo empregatício, o que significava respaldo institucional num território perigoso.
O Brasil atravessava mudanças estruturais que punham em contato regiões antes isoladas umas das outras. A abertura do sistema de comunicação nacional – essencialmente, a Embratel – promoveu essa conexão, conta Bastos. “Antes, era quase impossível ligar para Belém; depois, não mais. Telex, telefone – tudo isso tornou possível a integração. O doutor Júlio de Mesquita Neto” – membro da família proprietária do Estadão e seu publisher – “compreendeu e permitiu que o jornal formasse uma rede de jovens correspondentes” pelo país afora.
Como era comum então, Lúcio Flávio poderia se dividir entre o jornal paulista e a imprensa local. Em 1972, colaboraria na Província do Pará e, a partir de 1973, passaria a integrar os quadros do Liberal. Parte do que produzisse para o Estado de S. Paulo, contudo, seria exclusivo da publicação, já que o diário paulista arcava com a fatia principal das despesas com hospedagem e deslocamentos, muitas vezes em aviões fretados.
Bastos entendia as necessidades dos seus repórteres. Lúcio Flávio escreve que, durante boa parcela dos seus anos no jornal, “nenhuma proposta minha de viagem foi recusada ou sequer posta em questão pela sede paulistana. Fui aonde quis, pelos dias que quis”.
Quando os repórteres eram submetidos a pressão econômica ou política, Bastos intercedia para defendê-los. “Eu podia estar no fim do mundo, eu ligava e ele me apoiava. Foi o maior jornalista de retaguarda do Brasil”, diz. O repórter, distante de tudo, ouvia de Bastos que não estava só. Quase sempre, era exatamente o que precisava ouvir.
Raul Martins Bastos é um senhor de modos gentis e fala baixa. No seu apartamento em São Paulo, conversa sobre jornalismo com firmeza e integridade. É fácil imaginá-lo como um chefe ideal, com quem se aprende ao receber tanto um elogio quanto uma crítica.
A admiração entre os dois é mútua. Para Bastos, ele foi “o melhor e principal repórter da Amazônia no Estadão”. Lúcio Flávio trabalhou no Estado de São Paulo de 1971 a 1989, e durante os primeiros tempos Bastos foi o seu chefe.
O jornalista Ricardo Kotscho, um dos grandes nomes da sua geração, conheceu Lúcio Flávio naqueles anos iniciais. “Comecei no Estadão, com 18 anos. O Raul já era o chefe e quem mandava na reportagem era o Clóvis Rossi. Nós éramos jovens, esporrentos, ganhávamos bem. A gente saía toda noite do jornal e ia pro bar, ficava até de madrugada. O Lúcio, não. Ele era diferente da turma, reservado, estudioso. Não participava da farra.”
O Estadão percebeu que uma epopeia estava em curso na Amazônia. O jornal e o jornalista paraense se beneficiaram mutuamente dessa circunstância. Martins Bastos explica: “Estava em marcha uma nova ocupação da Amazônia promovida pela ditadura. Era uma tragédia. O Estadão queria falar disso e foi buscar o Lúcio. O Lúcio nos revelou o tamanho dessa história. Nós não fazíamos ideia. Ele pegava a comunicação oficial do regime, saía para checar se era isso mesmo e descobria os desvios, as irregularidades.”
Iniciava-se uma etapa de ouro do jornalismo na região. Décadas depois, Lúcio Flávio escreveria: “Digo sem receio de errar que foi o período de melhor cobertura da Amazônia na imprensa brasileira. Ninguém, a sério, pode escrever sobre esse período na região sem ir às páginas do Estadão. Nem os jornais locais nem o governo militar sabia mais sobre a Amazônia do que o jornal paulista conservador.”
Era abril de 1984. Lúcio Flávio trabalhava no Estadão e também tinha uma coluna diária no Liberal. Retornara de uma viagem de estudos aos Estados Unidos, na qual, além de alinhavar o primeiro rascunho de um livro sobre o Jari, a fracassada empreitada amazônica do empresário americano Daniel Keith Ludwig, visitara as barragens daquele país para compreender os seus impactos sobre a vida dos rios e das populações ribeirinhas.
De volta a Belém, decidira acompanhar a construção da hidrelétrica de Tucuruí, no Sul do Pará – até então, a maior obra pública da história da Amazônia. Tucuruí passou a ser o tema quase único da sua coluna, a mais prestigiosa do diário paraense.
Não demorou para que a Eletronorte, responsável pela obra, pressionasse Romulo Maiorana, dono do jornal. “A diretoria tomou um avião em Brasília e foi ao gabinete do Romulo para dizer que, se eu continuasse, eles não dariam mais nenhum anúncio para o Liberal”, conta Lúcio Flávio, que estava presente no encontro. Maiorana respondeu que não impediria seu jornalista de escrever o que quisesse. Qualquer entendimento teria que ser feito entre a Eletronorte e o titular da coluna.
A saída foi dada pelo assessor de imprensa da operadora estatal. “Lúcio, vamos fazer um acordo? Porra, tu escreves duas vezes por semana, três vezes, vá lá, mas todo dia eu não aguento mais.” O jornalista respondeu que concordava, contanto que a empresa assumisse o compromisso de avisá-lo quando a barragem estivesse prestes a encher.
Desconfiado de que o compromisso não seria honrado, pediu a um amigo radialista da região que o avisasse quando a última adufa – comporta que faz a água correr enquanto a barragem é construída – fosse fechada. Meses depois, veio o telefonema do colega: “Tá fechando.”
Lúcio Flávio fretou um avião – era a época em que repórteres especiais podiam fazer isso – e pousou no aeroporto operado pela Eletronorte. Um engenheiro da empresa o esperava na pista. Os dois se conheciam e se respeitavam. Talvez antecipando o que o outro veria dali a minutos, o engenheiro o abraçou.
“Eu quero ver a hidrelétrica já”, ordenou o jornalista. Ao chegar ao local, não resistiu. “Quando eu vi a barragem fechada, o rio preso, eu chorei. Não aguentei, chorei.” Tucuruí interrompia o curso do Tocantins, um dos rios majestosos da Amazônia.
Desconcertado, o engenheiro lhe perguntou por que chorava. “Porque vocês são uns merdas. Divinos e merdas. Divinos, porque conseguiram interromper o curso de um rio de 2,5 mil km de extensão. E merdas, porque vocês vão destruir parte desse rio.”
Tratava-se de um processo cuja dinâmica essencial – a prerrogativa concedida aos de fora da Amazônia de decidir como melhor ocupá-la – já se tornara um dos eixos centrais da reflexão de Lúcio Flávio. A energia de Tucuruí não beneficiaria primordialmente os amazônidas, mas as metalúrgicas do alumínio exportadoras da região, além das cidades e indústrias do Sul do país*. Que modos de vida enraizados na região fossem sacrificados em nome desse ganho era a moeda a ser paga para que outras partes do Brasil seguissem o seu caminho. O que se fazia na Amazônia não era para a Amazônia.
Tucuruí era um exemplo da desconexão radical entre os grandes empreendimentos e o lugar onde se instalavam. Nas reportagens que escreveu sobre o projeto, Lúcio Flávio mostrava como se vivia na segunda metade do século XX nas vilas residenciais da Camargo Corrêa, empreiteira responsável pela obra, e da Eletronorte, operadora da usina. Já do lado de fora, era “a Amazônia medieval”: “Entre as famílias ligadas à obra, a mortalidade infantil era, em 1985, de 7 por mil. Na sede municipal, as estatísticas oficiais (de 1983) indicavam 51 por mil (sete vezes maior).”
O salário de um único professor da Camargo Corrêa era maior do que toda a folha de pagamento do ginásio municipal, “com suas dezessete turmas funcionando nos três turnos”.
Ao longo de sua carreira, Lúcio Flávio descreveria distorções semelhantes em praticamente todos os quadrantes do estado.
Em 1989, na cidade de Oriximiná, no Norte do Pará, um surto de gastroenterite – doença de tratamento fácil, causada pela falta de saneamento – matou doze pessoas. A apenas 70 km dali funcionava (e ainda funciona) a Mineração Rio do Norte (MRN), exploradora de uma das maiores minas de bauxita do país: “Com mais de 50 mil habitantes, população que incha todos os finais de semana, com a chegada de empregados da mineradora, [a cidade de] Oriximiná não dispõe de água tratada, nem de esgotos. Esses serviços só existem em Porto Trombetas, o núcleo residencial da Rio do Norte.”
No ano de 2009, chuvas torrenciais atingiram o Maranhão. A ferrovia da Vale, um traçado de 892 km que liga as minas de Carajás ao porto da Ponta da Madeira, em São Luís, atravessando uma das regiões mais pobres do Brasil, ficou temporariamente interditada.
Para restabelecer o tráfego dos comboios, a ação foi rápida: a empresa “utilizou criatividade, tecnologia e abundância de mão de obra (quinhentos homens foram mobilizados na operação) para levantar diques” e retirar a “água acumulada através de bombas de sucção”. Ao lado da ferrovia, porém, nas comunidades miseráveis e agora também isoladas do mundo, aumentava a carência de quase tudo. Donativos precisaram ser levados a essas populações em helicópteros do governo.
Num artigo publicado naqueles dias, Lúcio Flávio escreveu: “Enquanto nas desoladas vilas e cidades das proximidades as câmeras de televisão registravam precariedade, improvisação e pobreza […] na ferrovia agia o século XXI metropolitano. Um contraste chocante para quem tivesse olhos para ver.”
Quando foi fechada por oito dias em razão das chuvas, a ferrovia da Vale já operava havia 24 anos. Nesse intervalo, a mineradora tornara-se a maior exportadora de minério de ferro do mundo e passara a explorar – como faz até hoje – uma das minas mais rentáveis do planeta. Ao longo dos trilhos, no entanto, pouca coisa, ou nada, havia mudado. A riqueza da Vale não se espalhava pela região.
“Cada novo imponente edifício que sobe em Xangai tem como contrapartida o rebaixamento da serra ricamente mineralizada no coração do Pará”, escreveu Lúcio Flávio. A ferrovia precisava ser rapidamente restabelecida para abastecer o mercado. “A escala do gigante exigia que o fluxo fosse intensificado para recuperar o atraso, numa velocidade para a qual o que existe em volta – isto é, o Pará e o Maranhão – é apenas detalhe, ou circunstância.”
Em 1967, tendo obtido do governo federal uma série de concessões legais, fiscais, financeiras e trabalhistas, o empresário americano Daniel Ludwig adquiriu uma propriedade que julgava equivalente à da Bélgica (descobriria, anos depois, que a barafunda fundiária da região reduziria suas terras à metade disso). O objetivo era implantar, na região do Rio Jari – um imenso enclave repartido entre o Pará e o Amapá –, a maior companhia florestal do mundo.
Sete anos depois, Lúcio Flávio seguia para Manaus, onde faria uma reportagem sobre a Zona Franca para o Estadão. Na escala em Santarém, um médico – amigo de infância – entrou no avião. Durante a viagem, contou-lhe que havia uma rebelião de trabalhadores no Jari, provocada por um surto de meningite. Ao aterrissar em Manaus, o repórter ligou para seu editor em São Paulo e avisou que alugaria um teco-teco para voar até as terras de Ludwig.
Lúcio Flávio apurou, escreveu, mas não parece ter publicado: o artigo não consta dos arquivos do Estadão. Tanto ele quanto Martins Bastos acreditam que tenha havido censura. De fato, o governo passara a impedir a divulgação de notícias sobre a crise sanitária. Anos mais tarde, o repórter dedicaria ao episódio um capítulo do livro sobre o Jari:
José Gomes da Silva compareceu ao escritório de recrutamento de mão de obra em Santarém, fez uma rápida entrevista, foi aprovado no dia 3 de julho de 1974 e viajou para Monte Alegre como candidato a um emprego na Jari. Mas o exame médico constatou que, além de ter uma pequena infecção, estava gripado.
O próprio José, sentindo-se pior da gripe, pediu para ser internado no hospital, no dia 10. Três dias depois, considerando-se melhor pediu alta e saiu. Mas começou a sentir-se mal novamente: uma ambulância teve que ir buscá-lo. Novamente internado, às onze da noite morreu. De meningite.
Lúcio Flávio relata que o surto começou em janeiro daquele ano, mas a empresa tentou ocultá-lo. Os primeiros peões infectados morreram rapidamente: dos 22 casos iniciais, 16 resultaram em óbito.
Em quatro meses houve duzentos casos de meningite, mas nunca foi divulgado o número total de mortos. Enquanto a doença grassava nos acampamentos, a Jari contemporizou. Quando surgiram casos em Monte Dourado – a vila ordeira dos empregados da companhia –, porém, o pânico rompeu a cortina de silêncio.
A empresa então iniciou uma campanha de vacinação em massa, chegando a trazer vacinas de Nova York.
O surto foi contido.
Dois anos depois, o supervisor de restaurantes da empresa, que tentara alertar seus chefes para as condições insalubres nas cantinas – “os esgotos continuam a aflorar à superfície do interior da cozinha, exatamente no local onde são preparadas as refeições” –, registrou por escrito o que ocorrera na época. Segundo relatou, e Lúcio Flávio reproduziu, caminhões transportavam cadáveres durante a noite. Houve um esforço deliberado “para evitar que alguns portadores desta moléstia pudessem chegar até nós (em Monte Dourado) a fim de buscar cuidados médicos”.
Diante dessa sucessão de desmandos, seria razoável concluir que Lúcio Flávio condenasse de forma categórica o Projeto Jari. Não é o caso. Sua visão da Amazônia é mais complexa e tende a escapar às categorias previsíveis.
Sim, o projeto estava impregnado da arrogância de quem se julga capaz de impor à floresta esquemas concebidos fora dela. Lúcio Flávio descreve como tratores imensos, projetados para outras latitudes e paisagens, inutilizaram 4 mil hectares de solo “quando as suas lâminas rasparam a fina camada de húmus” durante a derrubada das árvores. Técnicos ignoravam o mecanismo delicado da floresta equatorial; não sabiam que o que funciona no Meio-Oeste americano, ou mesmo no mundo tropical africano, aqui fracassa.
E então ele ensina:
Sim, bwana, mas em cima dessa terra de baixa fertilidade (ou, dizendo melhor, com fina camada de húmus) havia árvores portentosas. Magníficos vegetais que tiram de si o alimento de que necessitam, sendo o solo apenas suporte e acumulador de nutrientes […] árvores de 40/50 metros que se alimentam superficialmente de suas partes, que caem de seus galhos e troncos.
No Jari, equipamentos que apresentavam problemas eram simplesmente abandonados à margem das estradas. Lúcio Flávio escreveu que uma máquina de desmatamento no valor de meio milhão de dólares foi enterrada “porque ninguém sabia manejá-la”, e o local foi coberto por uma lona preta “para que Ludwig não a visse”. Numa visita ao projeto, o repórter avistou o capô do veículo ainda soterrado: alguém raspou a terra, e ele apareceu – “metálico, maravilhoso”.
Havia, no entanto, um outro lado do Jari que o seduzia: a ambição de não substituir a floresta por coisas medíocres. Ludwig mandou construir no Japão duas gigantescas instalações fabris, rebocou-as pelo mar e providenciou para que avançassem pelas águas dos rios até o destino final, no interior da mata. A primeira era uma fábrica de celulose; a segunda, uma usina elétrica.
Um menino que pescava viu uma das embarcações surgir na dobra do rio e gritou: “Tem uma cidade subindo o rio!”
“Acompanhei de um teco-teco a chegada das fábricas”, conta Lúcio Flávio, os olhos cintilando de entusiasmo. “Quando vi aquelas duas estruturas entrando no Rio Amazonas e depois sendo assentadas em 3,5 mil peças de maçaranduba, fiquei empolgado. Quase caí do avião. Ludwig já tinha chegado aos 80 anos e queria deixar uma marca no mundo.”
O Projeto Jari chegou a empregar 1,4 mil engenheiros. No momento da instalação das fábricas, mais de quarenta idiomas eram falados na empresa. Tratava-se de um sonho diferente para a Amazônia. Se não mais adequado, pelo menos não tão pobre de imaginação. Diante do que acontecia (e continua a acontecer) – a transformação da floresta em pasto ou em monocultura –, o Jari parecia inaugurar outra escala de ambição.
“Prefiro os estrangeiros aos paulistas”, diz Lúcio Flávio. “Ao menos os estrangeiros trazem tecnologia de ponta. Os paulistas têm uma Amazônia na cabeça que não é a minha. É o oposto: é a plantação. Os estrangeiros têm a Amazônia florestal como modelo mental. Não querem transformá-la no Texas, como os paulistas, que trazem a própria paisagem para cá e querem impô-la a nós.”
Não é difícil encontrar contraexemplos que desafiam essa afirmação. Foi em Fordlândia, a empreitada malsucedida de Henry Ford às margens do mesmo Tapajós da infância do jornalista, que se promoveu a primeira grande queimada da Amazônia.
Ocorre que o alvo central de Lúcio Flávio não é o estrangeiro, mas nós – aqueles que, falando português, ocuparam a floresta. O “paulista” da frase é um genérico que abarca todos os que vieram de fora. Esse é um dos temas mais recorrentes de seus escritos e no qual se encontram alguns dos melhores exemplos de sua verve.
Tudo começa com o mito da cobiça internacional. Uma vertente do pensamento nacional passou a sustentar a ideia de que a Amazônia, por ser considerada vazia de gente, estaria sujeita à pilhagem por potências estrangeiras. Tais pressupostos penetraram o pensamento militar e deles nasceu a chamada Doutrina de Segurança Nacional.
A doutrina é “a madrasta intelectual da Amazônia”, afirma Lúcio Flávio. “A razão é que ela não aceita dialogar com o mundo. A Amazônia só terá saída em conversa com o mundo. O medo dos estrangeiros é uma falácia.”
Surda para fora, a doutrina é cega para dentro. “Histórias de pé-quebrado sobre a ‘cobiça internacional’ da literatura geopolítica têm servido de habeas corpus ao saque dos recursos amazônicos, inclusive humanos, praticado pelos nacionais […]. Integrada, para não ser entregue aos piratas estrangeiros (ou aos ‘marines’ americanos), a Amazônia paga aos seus protetores um preço. O de deixar de ser Amazônia. É assim, pagando taxa extorsiva pela proteção, como a dos milicianos nas grandes cidades, que se torna, finalmente, Brasil.”
Até o início do século passado, a floresta ainda tinha alguma chance. A natureza “não só continuava a estabelecer seu império, como tinha condições de lamber, até sarar, as poucas feridas que já então haviam sido abertas em seu corpo”.
A tragédia daria as caras no começo dos anos 1970, quando os militares puseram em marcha seu modelo de ocupação. A abertura da fronteira, escreve Lúcio Flávio, “não foi feita para realizar um projeto de descoberta do novo e sua incorporação na devida medida e capacidade dos seus recursos. Era um projeto negativo, contra algo”.
No caso, contra a paisagem, contra a mata e contra aqueles que se sentiam em casa ali. Numa decisão de política de Estado, a Amazônia era entregue a quem não estava disposto a entendê-la. Como Lúcio Flávio conta, os que vinham de fora, atraídos pelos subsídios federais, encontravam uma realidade incompreensível:
O colono, nordestino ou sulista, levado no início da década de 1970 pelo governo militar para colonizar as grandes estradas de penetração às terras altas amazônicas […] era esmagado e atemorizado pela paisagem. Na escuridão, as enormes árvores assustavam. Delas, vinha um som desconhecido e animais agressivos. Não os gigantes das pradarias e savanas africanas, mas insetos. Quanto menores, mais agressivos. […]
Era melhor colocar logo tudo aquilo abaixo, fazendo a paisagem nativa assemelhar-se aos prados de origem do colono.
Segundo Lúcio Flávio, é próprio do colonizador refazer a colônia à sua imagem e semelhança. Se a realidade não corresponde à vontade do colonizador, muda-se a realidade. Milhares de árvores foram derrubadas e queimadas “para, no lugar, ser plantado capim, alimento para um incerto boi depois, de uma incerta atividade no futuro”.
Numa formulação luminosa, ele explica a lógica que presidiu a ocupação brasileira da maior floresta tropical do mundo: ali, não foi o homem que se adaptou ao meio ambiente, mas o meio ambiente que se adaptou ao homem.
“Formamos um mesmo país. Mas não somos iguais. Primeiro, porque somos o Brasil tardio, a última região que se tornou brasileira no Império […]. Segundo, porque somos uma região dominada pela floresta num país de bandeirantes, quase sinônimo de predador de gente e predador de mata.”
Testemunha singular da transformação da Amazônia desde a década de 1960, o jornalista não tem dúvida de que os brasileiros são mais perigosos que os estrangeiros. “Os estrangeiros, com seus ciclos de produção de conhecimento mais adiantados […] posicionam-se tentando extrair – legal ou clandestinamente, não importa muito – as informações, sobretudo genéticas, contidas no ecossistema amazônico.” O colono brasileiro, não: destrói antes de conhecer.
Um descompasso tão grande entre as frentes econômica e científica – entre quem quer lucrar e quem quer compreender – foi fatal para a floresta. “Veja o que seria a Amazônia se o primeiro homem na mata fosse o cientista, não o fazendeiro”, lamenta Lúcio Flávio, pouco antes de encerrar a conversa. Estava cansado e precisava se medicar.
Estar lá. Esse é o maior privilégio do jornalista. Quando, em 1976, Lúcio Flávio alugou um teco-teco para acompanhar do alto a chegada das usinas flutuantes de Daniel Ludwig, foi o primeiro jornalista a fazê-lo. Quando, em 1984, um garimpeiro de Serra Pelada gritou “Soldado filha da puta, sai da frente!”, e um policial militar, postado ao lado da tropa diante de 5 mil garimpeiros, murmurou entre dentes “Essa porra de capitão só atrapalha. Se fosse um sargento, a gente já tinha queimado esses desgraçados”, quem tomava nota era Lúcio Flávio – o único repórter presente.
“Deixa ao menos a gente destruir o aeroporto”, propôs um garimpeiro ao comandante.
Pelo menos até 1992, Lúcio Flávio foi o grande repórter de linha de frente na Região Norte, em especial no Pará. “Nos momentos mais tensos do conflito na Amazônia, nós éramos correspondentes de guerra”, lembra ele. “No primeiro tiro, você é testemunha auditiva; no segundo tiro, você é testemunha em trânsito; no terceiro tiro, você é testemunha ao pé do telefone.”
É uma boa imagem do tempo – o dele – em que o repórter não carregava o telefone no bolso. “No primeiro tiro você precisa estar lá. É o Robert Fisk.”
Na definição de Lúcio Flávio, o jornalista é, essencialmente, um homem de rua. Os intérpretes do mundo que ele admira são gente que não se fechou em gabinetes. Padre Antônio Vieira é um caso exemplar. “Tenho uma admiração profunda por ele. Vieira pegava a canoa à noite e se afastava de Belém. Ele ia lá. Remava sozinho para o meio da mata.”
Acadêmicos que passam algum tempo na região e, de volta à metrópole, publicam teses sobre a Amazônia não contam com a sua complacência. Num artigo de 2001, ele observou, justa ou injustamente, que o jargão usado para explicar a expansão do capitalismo nas novas fronteiras tinha sido “enriquecido por um livro do então sociólogo, hoje presidente da República, o paulista Fernando Henrique Cardoso, cuja condição de neófito em Amazônia não o impediu de assinar um livro dedicado exatamente à ‘expansão do capitalismo’ na região – até hoje citado por outros ‘amazonólogos’ como ele, com mais tempo em avião do que na mata”.
A Amazônia, diz, é pródiga em “criar fantasias em intérpretes de primeira viagem (e geralmente última, ainda mais em se tratando de acadêmicos)”.
Apesar da bronca com os intelectuais paulistas, em 1973 Lúcio Flávio formou-se em sociologia pela USP. Chegou a começar o mestrado e já tinha a tese na cabeça: queria mostrar como “os homens de direita da década de 1930 conheciam mais o Brasil do que os de esquerda”.
Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Octávio de Faria, Azevedo Amaral eram pesquisadores que haviam ido ao Brasil profundo. “A esquerda, em geral, ia pro manual, pro livro que inovava.” Para ela, o posseiro e o indígena não constituíam prioridades; era preciso deixar o capitalismo chegar para produzir a contradição, gerar o inimigo. “Eu não acreditava nisso. Andava pela Amazônia, ouvia as pessoas.”
Para ele, a Amazônia não é território para desavisados. Conforme alerta, serve para a região o dito de Guimarães Rosa sobre o sertão: “Ah, o sertão… Deus mesmo, quando vier, que venha armado.”
Lúcio Flávio escreveu sobre fazendeiros e seus pistoleiros. Sobre a União Democrática Ruralista, UDR, a organização dos grandes proprietários de terra, cujos associados “têm aparecido tangencialmente nesses crimes de encomenda” – no caso, o do assassinato de Chico Mendes – “nos quais só se envolvem para saber que serão praticados”. Sobre um lavrador que recebeu 200 cruzeiros de um pistoleiro para abrir sua própria cova. Sobre um matador conhecido como Zezinho das Reunidas, acusado de matar por prazer e curiosidade – queria “ver como os corpos boiavam no rio” –, e sobre um lavrador, João Barbosa, que se enforcou à beira de um córrego para não ser mais torturado pela polícia.
Os títulos de alguns dos seus mais de vinte livros dão a medida das histórias que contou: A agressão: imprensa e violência na Amazônia; O jornalismo na linha de tiro (de grileiros, madeireiros, políticos, empresários, intelectuais e poderosos em geral); Carajás: o ataque ao coração da Amazônia; Amazônia sangrada: de FHC a Lula; Amazônia: no rastro do saque.
Como observa Raul Martins Bastos, é um conjunto que faz contraponto à história oficial propagada pelas Forças Armadas durante o regime militar e, depois, pelos poderes públicos e privados que impuseram à floresta o modelo de ocupação com o qual convivemos até hoje.
A ditadura não fez bem à Amazônia. A democracia tampouco, acha Lúcio Flávio. Vêm daí as duas “grandes hostilidades dele”, segundo o geólogo Breno Augusto dos Santos, seu amigo. A primeira, dirigida à Vale, empresa privatizada durante o governo FHC; a segunda, ao PT e a Lula.
“Acertaremos as contas quando vier a democracia”, Lúcio Flávio pensou, referindo-se à pilhagem de sua terra promovida pela ditadura. “A democracia veio e, sob o governo do PT, que ocupou o poder em nome do povo marginalizado, o enredo não destoou da marca que lhe foi dada no governo militar. As indústrias de alumínio, controladas por multinacionais, continuaram a desfrutar de vantagens apreciáveis, a serem pagas pelo mesmo povo que elegera o operário Lula da Silva.”
As coisas pequenas o indignam tanto quanto as grandes. É como se, ao olhar para as primeiras, compreendesse melhor as últimas. Em 2019, numa conversa sobre a Vale, não falou de injustiça tributária nem de barragens inseguras, mas do hospital construído pela mineradora para atender à população local. “Se chamava Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do estado. Mudaram para Hospital Yutaka Takeda, presidente à época da Mitsui, maior compradora da empresa. Isso é o modelo colonial.”
Enquanto a saúde e as condições materiais permitiram, ele foi o repórter de bater sapato e ver de perto. Seu chefe Martins Bastos o descreve como um andarilho – tudo o que fazia na cidade era a pé. Vestia sempre paletó, apesar do clima quente e úmido. “Era a norma. E era boa”, defende Lúcio Flávio. “Você tá pronto pra qualquer situação, de um assassinato, uma apuração na periferia à chegada do ministro.”
Nos ambientes oficiais, o repórter de paletó e gravata não se sente deslocado; nas ruas e nos lugares pobres, o uso do terno funciona como gesto de deferência, uma forma de demonstrar respeito pelas pessoas abordadas. Mesmo depois de os tempos decretarem o fim do “passeio completo”, ele continuou a se vestir com discrição.
A regra era nunca ficar parado. “Você vai para uma coletiva, o governador transfere, atrasa. Você não fica sentado – um bando de gente sentado numa sala esperando. Eu ia conversar com o cara da portaria, com quem tá servindo o café. Por quê? Porque eles têm informação, e também porque um dia você não vai conseguir entrar no palácio. Vai precisar ter fontes alternativas.”
Ao longo da carreira, cultivou uma grande rede de fontes. Durante a ditadura, tinha informantes dentro dos próprios círculos militares. Martins Bastos conta que, às vezes, Lúcio Flávio chegava a receber telefonemas de alguns deles – “um coronel que estava lá não sei onde” – querendo se inteirar do que estava acontecendo.
Passavam-lhe informação porque o respeitavam. Sabiam que, apesar das pressões de um regime de exceção, ele não revelaria suas identidades. Guardou documentos por anos antes de publicá-los.
Seu livro sobre o Jari é um exemplo disso. Por volta de 1983, alguém da cúpula militar lhe forneceu a correspondência confidencial entre o general Ernesto Geisel e Daniel Ludwig, com uma condição: nada poderia ser publicado antes de dez anos, prazo considerado seguro para que o círculo do ex-presidente não identificasse a fonte. “Topa?”
Topou. Passados uns anos, conseguiu uma bolsa e foi para os Estados Unidos escrever o livro. O material era precioso: o registro do vínculo entre o ditador de um país periférico e um representante do capitalismo avançado. Nessa correlação de forças, quem abaixava a cabeça era o ditador.
“O poderoso Geisel, o prussiano Geisel, sendo tratado feito moleque…”, escarnece Lúcio Flávio.
Breno Augusto dos Santos conheceu Lúcio Flávio em circunstâncias parecidas com as descritas pelo padre Ricardo Rezende. “Foi em 1972, em Belém, durante o Congresso Brasileiro de Geologia. O Lúcio apareceu e todo mundo ficou apavorado. Os geólogos vinham até mim e perguntavam: ‘Quem é esse garoto que não para de fazer pergunta pra gente?’” O jornalista tinha 23 anos.
Cinco anos antes, num dos episódios definidores da história econômica do Pará, Santos, então com 27 anos, descobrira a província minerária de Carajás. Sobrevoando de helicóptero a região do Araguaia/Tocantins-Xingu, no sudeste do estado, avistou imensas clareiras na serra ainda coberta de florestas. Achou estranho, embora tivesse ouvido de seu chefe, um norte-americano, que provavelmente se tratava de vestígios de séculos de ocupação indígena. Pensou: “Talvez, mas minha hipótese é outra” – a de que a explicação estivesse na natureza do solo, formado, segundo conjecturou, por matéria hostil à vegetação.
No dia 31 de julho de 1967, Breno dos Santos pediu ao piloto que pousasse numa daquelas clareiras. Com o motor ligado e as hélices girando, ele desceu, foi até uma pedra – uma canga –, ergueu o martelo de geólogo e golpeou. Tudo ficou vermelho. “Era o pó, a hematita, chamada assim porque parece hemácia, sangue.”
Aquilo tudo era ferro. Para onde se olhasse, a perder de vista, só havia ferro: a maior mina do mundo.
A partir dali, Santos estava fadado a se transformar numa estrela, o que tornava quase inevitável que Lúcio Flávio e ele se cruzassem. Na sua casa em Niterói, repleta de objetos reunidos ao longo de uma vida bem vivida – o tal martelo de geólogo, uma canga de puro ferro, fotografias, documentos –, onde filhos e netos entram e saem a toda hora, ele tira de um envelope um recorte de jornal e, sorrindo, diz: “Me tornei próximo do Lúcio por causa disso.”
É a primeira página do Liberal de 25 de setembro de 1977. Uma única manchete ocupa a primeira página: “Otimismo cerca reservas de ouro no Pará.”
Na junção de duas estradas que estavam sendo abertas no Sul do estado, surgiu um povoado chamado Entroncamento, “um lugar de nada”, conta Santos. Em 1976, houve eleição municipal, e os políticos passaram a oferecer lotes. “O povo veio, atraído pela promessa, e os que não conseguiram terra avançaram pelos igarapés atrás de algum minério.”
Em 1977, os desgarrados de Entroncamento encontraram ouro na Serra das Andorinhas, não muito longe das minas de ferro de Carajás. “Se era pouco ou muito, a gente não sabia. Aquilo era uma novidade.”
Santos, que descobrira Carajás como funcionário de uma subsidiária da U.S. Steel – então a maior siderúrgica dos Estados Unidos –, trabalhava desde 1971 na Vale do Rio Doce. Era gerente da Docegeo, a empresa de geologia da companhia. Estatal na época, a mineradora comunicou a descoberta a Brasília. Oficiais do Exército vieram, subiram no helicóptero com o geólogo, e ele, do alto, apontou: “A partir daqui é área primária da empresa. Não pode entrar.”
“Isso foi em agosto”, relembra Santos. “Daí em setembro, compro o Liberal e dou com essa notícia. Sabe o que ela dizia? Que no Maria” – rio que nasce nas encostas da Serra das Andorinhas – “tinha 19 mil toneladas de ouro.” Ele ri. “Era um absurdo. Incluindo o ouro da era colonial, até hoje o Brasil não produziu isso tudo. Uma jazida enorme tem 500 toneladas.”
O artigo saiu no domingo, tanto no Liberal, como principal manchete, quanto no Estado de S. Paulo, perdido numa página interna. Era praticamente o mesmo texto, mas com uma diferença crucial: no jornal paraense, estava sem assinatura; no diário paulista, vinha assinado. Na segunda-feira, Lúcio Flávio foi procurar Santos, que conta: “Foi meu primeiro contato pra valer com ele. Chegou dizendo: ‘Me mandaram publicar isso’ – o artigo era dele. ‘O que tem de verdade nisso?’”
Segundo Santos, o jovem repórter recebera uma ordem de Júlio de Mesquita Neto para publicar a notícia e queria saber se tinha sido enganado. O jovem geólogo, sua fonte, não podia dizer a verdade. Naquela mesma manhã, recebera ordens da empresa para não desmentir a notícia.
“Então fiquei em cima do muro. Até hoje não sei o que aconteceu. O que correu como fofoca na época é que foi uma jogada de Bolsa. O fato é que a ação da Vale subiu 40%.”
“Faz muito tempo, mas aos poucos a cena vai me voltando à memória”, diz Lúcio Flávio, por telefone, fazendo uma pausa para não errar. “Sim, foi o doutor Júlio que me passou a notícia.” Ele a teria recebido de um alto personagem do governo. Não havia uma ordem expressa para publicar, apenas uma recomendação. “Doutor Júlio achava que era verdade.”
Ao ver do que se tratava, o jornalista considerou estapafúrdio o dado sobre as reservas: “É absurdo. Escrevo, mas não assino” – pelo menos, não no jornal da sua cidade.
Era um cálculo: reuniria as informações, publicaria o artigo sem se expor em seu estado e, em seguida, iria sondar o que estava por trás do caso. Contudo, os acontecimentos se precipitaram.
Logo Santos recebeu autorização para desmentir a notícia. Mas era tarde. “A jogada já tinha sido feita, quem tinha que ganhar dinheiro já tinha ganhado. A corrida garimpeira pra região já tinha começado. Poucos anos depois, daria em Serra Pelada. Tudo começou com essa notícia na primeira página do Liberal. O Lúcio fica chateado quando eu digo isso. Ele foi usado – como eu também fui.”
A leitura atenta do artigo não revela um repórter afoito, que, para não perder o furo, manda às favas o método e a prudência. Lúcio Flávio é cauteloso. Já no primeiro parágrafo, escreve que “nenhum técnico envolvido no Projeto Andorinhas […] admite essa previsão” – no caso, a de que as reservas poderiam chegar a 90 bilhões de dólares, “três vezes a dívida externa brasileira atual”, “quantia absolutamente fantástica, se verdadeira”.
Se a estimativa dos 90 bilhões de dólares procedesse, “precisariam existir pelo menos 19 mil toneladas de ouro”, uma reserva que “significaria quinze vezes a produção mundial de ouro e seria assombrosa em termos nacionais”.
Só no último parágrafo o artigo declara que, “no íntimo de todos”, de Brasília a Belém, existe a convicção “de que se tem uma das mais promissoras ocorrências de ouro no mundo”.
“Posso dizer que errei. Não devia ter publicado”, afirma Lúcio Flávio, sem hesitar.
Dois dias depois, ele publicou outro artigo no Liberal – dessa vez assinado –, ainda mais sóbrio. “Os técnicos acham que, antes de dois anos, toda estimativa sobre a quantidade e a qualidade do ouro existente nessa área será temerária, por falta de base científica suficiente.” Sem trazer novidades em relação ao texto anterior, o artigo parece ter como único objetivo esvaziar ainda mais o balão das expectativas.
Não deixa de ser irônico que Breno dos Santos tenha se tornado amigo de Lúcio Flávio, a quem considera o maior jornalista da Amazônia, por causa de um artigo repleto de meias-verdades. Os dois se mantêm próximos até hoje.
A cautela dos artigos se mostraria sábia. A Serra das Andorinhas não se confirmou como grande jazida aurífera. Embora o jornalista entenda que seu amigo atribui importância excessiva ao episódio, é correta – e está bem documentada – a afirmação de que a notícia do ouro na Serra das Andorinhas foi o gatilho social e simbólico que disparou a corrida garimpeira no sudeste do Pará. Ali se criou o ambiente humano que levou a Serra Pelada, descoberta dois anos depois.
Breno Augusto dos Santos estava certo: de fato, era tarde. O sinal havia sido dado para que um vasto e complexo mecanismo social começasse a se mover. Seria um drama que, nos anos subsequentes, Lúcio Flávio cobriria com empatia e rigor.
É nessa cobertura que se encontram alguns dos melhores exemplos da sua produção jornalística. Não necessariamente investigações profundas, mas retratos fugazes da gente explorada da Amazônia – como na descrição, de 1980, dos “formigas”, os trabalhadores mais subalternos de Serra Pelada:
Vestindo calções surrados, descalços e sem camisa sob um Sol abrasador, eles percorrem 200, 300 ou até 500 metros com um saco de terra nos ombros, repetindo a operação de 30 a 50 vezes por dia. A cabeça baixa, aspiram permanentemente o pó pesado e grosso que eles próprios levantam com seu caminhar.
Homens e mulheres que se dedicaram a defender a floresta também renderam retratos memoráveis de sua autoria. É o caso dos sertanistas, servidores apanhados na contradição de proteger o que o próprio Estado que os remunerava pretendia eliminar:
Depois de algum tempo, porém, ficava difícil não chegar à conclusão de que foram amansar a destruição, amaciar o golpe, dourar a pílula fatal.
Mas já não conseguiam viver de outra maneira, numa relação pendular entre o bom e o mau, o certo e o errado, o claro e o escuro, a mata e a cidade, uma mulher urbanizada e intelectualizada esperando-os em casa e a selvageria do sertão, os índios e os brancos. Aguentavam a barra, pesadíssima, através de derivativos. O álcool tem sido o mais comum.
Já bebi com vários deles no meio da mata, entre suruí ou gavião, kayapó ou xavante. Quando o álcool libera a voz, sua fala é de amargura, tristeza, frustração. De dia costumam recuperar o élan, o viço, a confiança. Trabalham como animais. Depois anoitece e volta o ciclo.
Ao longo dos anos 1970 e 1980, as pautas de Lúcio Flávio abarcaram praticamente todos os assuntos relevantes para a região.
“Cobriu tudo”, diz Raul Martins Bastos, não apenas com a autoridade de quem seguiu cada passo de muito perto, mas também com a de quem aprovava as despesas da apuração. “Os conflitos de terra; a atuação militar, com um viés cada vez mais crítico; a saga da chegada do minério da Vale, uma empresa que ele acompanha e passa a criticar – era o cidadão paraense falando – porque a riqueza saía e não ficava nada para o Pará. Foi crítico da política indigenista, que passou a desconsiderar direitos e a ocupar terras indígenas. Deu voz a essa gente, né? A chegada da Albras. A grande cobertura de Serra Pelada, sempre com o viés de quem olha e diz: ‘Não vai dar certo.’ Idem em relação ao Jari, do Ludwig.”
Seria o suficiente para consagrar a carreira de qualquer jornalista. Lúcio Flávio, contudo, ainda estava por tomar a decisão que definiria de vez o seu percurso profissional – e também sua saúde, suas finanças, suas amizades, sua reputação, sua vida e, provavelmente, seu legado. Ele a tomaria em 1987, ainda jovem, aos 38 anos.
O artigo sobre a Serra das Andorinhas ajuda a entender não as razões específicas dessa guinada – que só ocorreria uma década depois –, mas a dinâmica que o levaria a mudar radicalmente de rumo e deixar para trás toda a segurança conquistada. O problema era a correlação de forças entre jornalista e veículo. Jornal tem dono; dono tem interesses. A partir de certo momento, isso se tornaria insuportável para ele.
Dali em diante, Lúcio Flávio acrescentaria um novo tema à sua pauta: a própria imprensa.
A segunda parte deste perfil será publicada na próxima edição da revista.
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*Neste trecho, na versão original da reportagem, citava-se “siderúrgicas”, onde o correto são “metalúrgicas do alumínio”.
João Moreira Salles: Documentarista, é fundador da piauí. Dirigiu No Intenso Agora, Santiago, Entreatos, Notícias de uma Guerra Particular e Nelson Freire. É autor de Arrabalde: Em Busca da Amazônia (Companhia das Letras)
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Lúcio Flavio Pinto - A agenda amazônica de um jornalismo de combate - textos
5. JORNAL PESSOAL: A AGENDA ALTERNATIVA DE LÚCIO FLÁVIO PINTO
https://librinas.blogspot.com/2026/03/lucio-flavio-pinto-o-amazonida.html






