sexta-feira, 31 de julho de 2026

"A Odisseia" de Nolan por Emily Wilson


O texto traduzido e o original a seguir 

Um Homem Simples

A Odisseia dirigido por Christopher Nolan

Emily Wilson 

London Rewiew of Book, Vol. 48 Nº 14 · 13 de agosto de 2026

A versão cinematográfica de US$ 250 milhões de Christopher Nolan da antiga poesia grega de Homero é uma maneira divertida de se esconder do calor por algumas horas. Os saltos e reviravoltas característicos de Nolan na estrutura narrativa são relativamente fáceis de acompanhar e apropriados para A Odisseia, uma narrativa de contos dentro de contos. Meus adolescentes se divertiram bastante. Ao contrário de alguns outros filmes de Nolan, A Odisseia não é entediante, graças ao material de origem, que é impossível estragar completamente. É um espetáculo audiovisual para toda a família, como um elaborado show de fogos de artifício no Dia da Independência – e com mais ou menos o mesmo nível de profundidade narrativa e emocional.


Como em seus filmes anteriores, Nolan se interessa pelas descontinuidades do espaço e do tempo, por magia, truques, ofício, tecnologia, rivalidade, substituição, máscaras, mal-entendidos, o que lembramos e o que escolhemos esquecer. Mais uma vez, a sobrevivência é retratada como uma espécie de triunfo. Mais uma vez, há longas e claustrofóbicas cenas de afogamento e quase afogamento, além de episódios tecnicamente impressionantes em que prédios são tomados por chamas e veículos explodem. Mais uma vez, acompanhamos a busca desesperada de um personagem masculino para recuperar e/ou vingar um objeto de amor feminino. Eu esperava que a afinidade de Nolan com esses temas homéricos pudesse levá-lo a novos patamares criativos e permitir que ele criasse personagens mais críveis. Mas A Odisseia apresenta sua habitual combinação de grandiosidade e superficialidade. Sem um pote de cera para meus ouvidos – que o sempre ansioso Euríloquio de Himesh Patel, o braço direito condenado de Odisseu, usa para navegar em segurança pelas Sereias – fui exposto ao barulho total de gravetos batendo, cajados, espadas e armaduras se chocando, raios, ondas quebrando, grunhidos, gritos, palácios derrubando e templos em chamas. Mas, ao contrário de Matt Damon, o Odisseu sem cera, que é amarrado ao mastro enquanto é levado pelas Sereias (mulheres nuas reclinadas em algumas pedras desconfortáveis), eu olhei para os naufrágios e banhos de sangue sem nenhuma agonia ou emoção. Meus olhos permaneceram secos, até mesmo para o Argos, o cachorro – cuja adorabilidade como filhote é, como era de esperar, amplificada para se adequar aos nossos tempos de amor por animais. Se ao menos os personagens humanos tivessem sido tratados com tanta atenção séria.


O épico homérico já era uma adaptação. O poema utilizou uma tecnologia relativamente nova – o alfabeto escrito – para reformular tradições míticas existentes, remodelando a história do retorno de um veterano para ressoar com as complexas preocupações dos falantes de grego no período arcaico, uma era de migração, colonização e urbanização. Algumas comunidades gregas do século VII a.C. eram governadas por uma oligarquia, outras por um único homem. O poema traça a tensão entre as necessidades e desejos de grupos de homens – companheiros de Odisseu ou pretendentes de sua esposa, Penélope – e aqueles de um único homem poderoso e astuto, que deseja governá-los todos e conquistar fama eterna para si. Em um período de mudanças culturais e tecnológicas, explora a fantasia de voltar no tempo e no espaço, ao mesmo tempo em que mostra seus perigos e custos. O poema enfrenta os desafios de encontrar estranhos, de entrar em suas casas e acolhê-los ou rejeitá-los das próprias. As ressonâncias contemporâneas são óbvias e o filme de Nolan sugere algumas delas, de maneiras interessantes, ainda que dispersas. Mas a visão do filme é muito confusa, seus personagens pouco desenvolvidos, para entregar o que ele promete em termos de grandes ideias – embora seja muito bom em transmitir grandes explosões e grandes gigantes.


Adaptações não precisam nem devem seguir o original com a precisão de uma tradução. Alguns dos melhores transformam radicalmente ou resistem ao material original, fornecendo o que Harold Bloom chamou de 'fortes leituras erradas' de seus ancestrais. As respostas criativas mais memoráveis à Odisseia – como Helena de Eurípides, Eneida de Virgílio, Paraíso Perdido de Milton, Ulisses de Joyce, Omeros de Walcott, Penelopiade de Atwood, Circe de Madeline Miller ou a peça de Lisa Peterson ambientada em um campo de migrantes moderno – reconsideram a estrutura, narrativa e valores do poema. Em teoria, Nolan parece entender a tarefa e seus riscos. Seu primeiro longa-metragem, Following (1998), foi um poderoso thriller em preto e branco sobre a fascinação e os perigos de rastrear estranhos pelo espaço e pelo tempo. O caçador tem mais chances de se tornar o caçado, sugere Following, se o perseguidor não tiver uma identidade clara além de uma crença equivocada em sua própria engenhosidade. Mas saber quais tentações devem ser evitadas não é o mesmo que evitá-las – como os homens de Odisseu aprendem às custas deles ao matar o sagrado Gado do Sol. O Odisseu de Homero volta para casa porque consegue, temporariamente, suprimir seus próprios desejos – por carne e vinho, por sua esposa, pelo controle de sua casa e terra, Pelo massacre, pela vitória sobre o tempo e a ameaça de ser esquecido, por um nome eterno e glorioso. Mas não há contenção na versão de Nolan de A Odisseia: cada segundo está repleto de incidentes, luzes e barulho, e nada está em escala humana.


O espetáculo de Nolan ameaça abafar sua história assim como as ondas imponentes do mar escuro como vinho – mais cinza que roxo – ameaçam dominar o navio de seu herói. Em aparência, esta Odisseia frequentemente lembra outros 'épicos' cinematográficos do século XXI, especialmente a trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson. A visita à Terra dos Mortos me lembrou das excursões além do Muro em Game of Thrones. No final do filme, um personagem parte para 'navegar além do pôr do sol' e eu quase esperava que todos começassem a falar élfico. O filme não tem nada da escassência estilística de O Retorno (2024), de Uberto Pasolini, estrelado por um Ralph Fiennes marcado, desesperado e quase nu, dividido sobre seu retorno para casa com uma Juliet Binoche, convincentemente infeliz. Sem orçamento para deuses ou efeitos especiais, aquele filme nos convidou a imaginar o que resta de A Odisseia e seu herói quando reduzido aos tendões e ao coração faminto. Nolan nos oferece um buffet completo.


O elenco neutro em relação à raça de Odyssey, de Nolan, foi inevitavelmente deplorado em alguns setores. Mas não há nada de progressista nisso. A maioria dos atores não brancos – Zendaya, Lupita Nyong'o, Himesh Patel, Corey Antonio Hawkins, Travis Scott – interpreta versões do melhor amigo negro, cujo único papel no drama é ajudar o protagonista branco. Scott, como o bardo itaquiano, Fémio, grita algumas palavras e bate um bastão, mas não consegue cantar, contar uma história ou tocar lira: a nota mais melódica da trilha percussiva vem do dedilhar do arco de Odisseu (uma bela imagem sonora do arqueiro como músico, emprestada do poema). O papel duplo de Nyong'o como Helena e Clitemnestra é muito pouco desenvolvido; Ela tem apenas alguns minutos de tela para apresentar uma série de breves quadros de vítimas femininas (a mãe enlutada indignada, a esposa abusada, a adúltera arrependida).


Há mais personagens femininas do que na maioria dos filmes de Nolan, graças ao material original. Mas nenhum deles tem muito a dizer, em contraste com as caracterizações do poema. O Calipso de Homero faz um discurso maravilhosamente indignado e operístico sobre padrões duplos divinos: deuses homens podem sequestrar e estuprar qualquer mulher mortal que desejarem, mas quando uma deusa tenta, Zeus e seus comparsas acabam com suas chances. É uma distorção inteligente e cômica dos 'fatos' mitológicos: os ouvintes do poema sabem que é principalmente Atena (uma divindade feminina) quem está levando a vítima mortal de Calipso para longe dela (Hermes, a quem ela reclama, é apenas o mensageiro) – e Eos, deusa da aurora, como fomos lembrados apenas alguns versos antes, não foi proibida pelo patriarcado divino de manter Titônio. A Calipso de Charlize Theron está deslumbrante, mas ela nunca fica com raiva, nunca engraçada, não é habilidosa em retórica e nunca se deixa consumir pelo desejo por sua vítima mortal desgrenhada. Ela é uma terapeuta não remunerada, acalmando a alma do desgrenhado e cheio de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) Odisseu com drogas, e ouvindo graciosamente sua história desconexa de sofrimento.


Da mesma forma, a Penélope de Homero dá ao disfarçado Odisseu um relato maravilhosamente vívido de um sonho que ela teve sobre alguns gansos em seu quintal sendo mortos por uma águia; A águia explicou que os gansos eram seus pretendentes, logo a serem abatidos por seu marido que retornava. Mas no sonho, Penelope chorava – sugerindo uma resposta fascinantemente ambivalente ao retorno de Odisseu e ao fim iminente de seu longo período de espera, como uma noiva, por um marido. A Penelope de Nolan não tem sonhos. O rosto de Anne Hathaway continua tão expressivo quanto sempre, e ela parece bela e misteriosa, vislumbrada principalmente pelo véu de um cenário inteligente que separa os aposentos femininos do salão principal. Mas o roteiro não lhe dá nada para fazer além de sentir saudade de Matt Damon, por razões desconhecidas. O casal não tem química e nada em comum. Durante suas andanças, o uxorioso Odisseu se agarra a uma pequena figura de boneca, destinada a representar sua esposa (como o pião apertado por Leonardo di Caprio em A Origem); A mulher real é pouco mais interessante.


É um desafio representar divindades no cinema sem cair na bobagem de Clash of the Titans, então talvez Nolan tenha feito sentido deixá-las de fora. Até mesmo a Atena pouco desenvolvida de Zendaya se revela uma vítima vulnerável da guerra, ou talvez uma projeção da consciência de Odisseu – não uma deusa guerreira ardilosa e sanguinária. Outras deusas aparecem em uma participação especial – Calipso, a senhora-foca Sereia, Circe, Cila e Caríbdis – mas não há sinal de que devamos perceber que elas são deusas. Poseidon, Hermes e Helius não aparecem pessoalmente, embora haja algumas tempestades assustadoras e naufrágios. Um dos meus momentos favoritos foi quando Zendaya assegura a Damon que deuses não são difíceis de entender para mortais: 'Quem não entende o trovão? Fogo?' Mas o filme quer ter as duas coisas. Não existem deuses, e ainda assim naufrágios e morte são apresentados como a consequência inevitável de cegar o filho de Poseidon e devorar o Gado do Sol. A lei de Zeus é retratada como crucialmente importante, e ainda assim não existe Zeus. A visão de mundo de Nolan não é grande o suficiente para incluir deuses reais ou pessoas reais que possam ser diferentes de nós.


Há gigantes, incluindo Polifemo (aqui, um ciclope solitário) e alguns Laestrigonianos vestidos demais. Circe, interpretada com vigor terroso por Samantha Morton, é Baba Yaga em uma casa de campo de Hansel e Gretel; ela usa uma forma laboriosa de cirurgia plástica para transformar os homens gananciosos de Odisseu nos porcos que já são. Há apenas um comedor de lótus, embora o tema da amnésia ganhe um novo significado, como era de se esperar. Cenas famosas passam rapidamente: Scila e Caríbdis ameaçam o barco, Euricleia reconhece a cicatriz na perna de Odisseu, Antínoo joga um banquinho disfarçado em nosso herói. Algumas sequências notáveis do épico estão ausentes: o filme pula a ilha de Estéria, lar da princesa prestativa Nàusicaa, onde o Odisseu de Homero conta a história exagerada de suas aventuras aos hospitaleiros feácios. Não há espaço neste filme maximalista para algo tão encantadoramente mundano e pequeno quanto a roupa de Nausicaa e suas fantasias infantis sobre um marido. O endurecido Odisseu de Damon não é nem um mestre contador de histórias nem um flertador. Mais substancialmente, a inclusão de um lugar estrangeiro amigável, rico e rico em cultura teria adicionado ainda mais confusão à já confusa premissa do filme: que essa versão hollywoodiana da Grécia micênica é a única 'civilização' do mundo – o único lugar que ainda lembra que estranhos e mendigos devem ser bem-vindos, segundo a lei de Zeus.


Os figurinos, armaduras, barcos e arquitetura são uma mistura confusa, o que está de acordo com o poema de Homero – ele próprio extraído de muitas gerações de narrativas e incorporando fragmentos de diferentes eras, dialetos e tradições. Linguisticamente, também, o grego homérico é um composto – embora seja sempre poesia métrica, não uma língua que ninguém realmente falou. Apesar da indignação artificial online, não há nada inerentemente errado na tentativa do filme de se aproximar da fala americana contemporânea. Se você não vai compor um script em grego homérico, ou mesmo em verso métrico em inglês, pode muito bem usar algo como inglês americano conversacional. Mas escrever diálogos não é um dos talentos de Nolan. A linguagem é implacavelmente expositiva, sem humor e sem graça. Tentativas de discurso vigoroso – 'Meu pai está voltando para casa' ou 'Vamos sair dessa maldita praia' – ficam desconfortavelmente ao lado de meditações grandiosas: 'Sim, minha rainha. A quebra da lei de Zeus, se espalhando como uma praga. Nossa era do bronze está desmoronando, e talvez ele não suportasse ver as ruínas do que fez. Em qualquer lugar. Muito menos que tudo, sua casa.'


Como dizem nas premiações, fiquei humilde ao saber que Nolan leu pelo menos a primeira linha da minha tradução da Odisseia para pentâmetro iâmbico. Em pelo menos uma entrevista, ele citou minha versão da primeira linha do poema: 'Conte-me sobre um homem complicado.' Mas eu teria vergonha de ter escrito qualquer parte desse roteiro. Infelizmente, o Odisseu de Damon não é complicado, astuto ou artístico. Um dos truques mais engraçados (e famosos) de Odisseu em Homero é dizer a Polifemo que seu nome é 'Ninguém Ninguém'. Quando o gigante cego grita por ajuda dos vizinhos, os outros ciclopes ficam tranquilizados ao saber que 'Ninguém Ninguém' está machucando ele. No filme, Odisseu não precisa enganar Polifemo porque o Ciclope é um fantoche sem inteligência. O gigante de um olho só de Nolan é chamado de 'ele', mal fala, não fica bêbado e não tem vizinhos nem uma ovelha favorita.


Talvez mais surpreendente vindo do diretor de Oppenheimer, o Odisseu de Damon também parece carecer de inteligência tecnológica (polymēchania). Ele não constrói uma cama de casamento com uma árvore que cresce em sua casa (seria um desperdício de esforço, já que ele raramente parece dormir ou fazer sexo). A jangada em que ele foge de Calipso é montada de paralelepípedos com alguns pedaços de madeira à deriva (em contraste com o elaborado corte de madeira e construção naval em Homero). Não vemos o design ou a construção do Cavalo de Troia; Em vez disso, um cavalo kitsch e mal projetado (sem rodas) aparece na praia ventosa, como se tivesse sido deixado ali por drones. As dificuldades de transportar objetos grandes e difíceis de manusear por terrenos difíceis devem ter estado na mente do diretor enquanto ele carregava suas câmeras IMAX pelos muitos locais desafiadores do filme.


A novidade mais óbvia que Nolan traz para o material original é um subenredo baseado em uma história da Eneida, descrevendo como os troianos foram enganados a levar o Cavalo de Troia (uma invenção do 'cruel Ulisses') para a cidade, graças às maquinações de um agente duplo grego chamado Sinon (seu nome significa 'prejudicial'). Em contraste com a representação relativamente positiva da inteligência astuta na Odisseia de Homero, Virgílio torna Ulisses cruel e predatório; Sinon é seu cúmplice enganoso.


No filme de Nolan, Sinon é interpretado por Elliot Page e, longe de ser um vilão, ele é o centro moral do filme. Ele é recrutado para a Guerra de Troia como um jovem corajoso, graças às maquinações malignas de um adolescente fugitivo do alistamento, Antínoo (interpretado na vida adulta por um carismático e viscosa Robert Pattinson). O principal arco emocional do filme diz respeito à tardia percepção de Odisseu de que ele é cúmplice da exploração de Sinon porque ele não contou a verdade sobre o plano do Cavalo de Troia. Quando recupera a memória, Odisseu é consumido pela culpa. O filme não aborda os dilemas morais levantados por sua própria invenção narrativa, como por que importa tanto se Batman contou toda a verdade para o valente Robin, já que ele seria morto instantaneamente de qualquer forma – ou por que a Sinon sem pecado quer participar do plano, se o saque de Troia foi tão ruim quanto o filme quer sugerir. A mentira de Odisseu para Sinon não inicia a Guerra de Troia, e os troianos provavelmente teriam levado o cavalo para a cidade de qualquer forma – como fazem na Odisseia de Homero. Esse subenredo confuso é imposto ao filme para reforçar o ponto implacavelmente didático de Nolan sobre o mundo anglófono contemporâneo: que as mentiras e a xenofobia da guerra ao terror e do Brexit iniciaram um declínio cultural que agora está destruindo os valores que 'nós' mais prezamos.


Outra grande adição de Nolan à narrativa de Homero é a repetida referência a ameaças à 'nossa civilização' vindas dos 'povos do mar' – uma teoria agora desmentida do século XIX sobre tribos marítimas que se acreditava terem atacado o Egito por volta de 1200 a.C. e também teriam sido responsáveis pelo colapso aproximadamente coetâneo da cultura grega micênica. 'Nossa civilização está sob ataque', lamenta Penelope. Odisseu a conforta dizendo que a 'civilização da Idade do Bronze', incluindo a alfabetização, renascerá das cinzas. O consenso atual, como Nolan claramente sabe, é que não existia tal coisa como 'os povos do mar', e que a mudança do mundo de língua grega para longe da cultura palaciana mais centralizada e alfabetizada dos micênicosno século XI a.C em direção às formações sociais fragmentadas da Idade do Ferro grega inicial, foi causada por uma série de fatores, incluindo mudanças climáticas, terremotos e agitação interna. Nolan usa essas teorias históricas concorrentes para criar uma reviravolta narrativa característica sobre a identidade dos 'povos do mar', que não vou revelar, embora você provavelmente possa imaginar.


A lei de Zeus é uma versão da antiga xênia grega arcaica: as relações idealizadas entre estranhos, anfitriões e convidados, que devem tratar-se com respeito mútuo, formando assim laços multigeracionais entre famílias não relacionadas. No filme, a xênia é filtrada por ideias americanas contemporâneas sobre a importância da caridade filantrópica: pessoas ricas devem ser generosas com os pobres e famintos em seu meio (sem necessariamente fazer nada para mitigar sua pobreza). Muitos dos valores implícitos do filme contradizem diretamente os do poema de Homero. Engano, belicismo, sexo extraconjugal, crueldade contra animais, abuso de mulheres e desejo por honra – tudo perfeitamente aceitável no mundo de Homero – são, nesta versão, muito ruins. Isso não é um problema em si, mas é um problema se os próprios valores e visão do filme não se encaixarem, e se as motivações dos personagens não fizerem sentido em seus próprios termos.


Na Odisseia de Nolan, massacrar pessoas com a ajuda de truques, tecnologia e armas é apresentado como ruim quando os gregos matam os troianos, que violaram a xênia, mas bom quando Odisseu está matando os pretendentes, que violaram a xênia. Tomar algo aparentemente abandonado por Odisseu e seus companheiros é natural e perdoável quando os troianos reivindicam o cavalo, mas antinatural e imperdoável quando os pretendentes reivindicam o palácio, a comida, o vinho e a esposa de Odisseu. Os estrangeiros em Ítaca devem ser tratados com bondade graciosa, como possíveis deuses disfarçados; Mas estrangeiros em terras estrangeiras geralmente são monstruosos, para serem cegos, roubados e massacrados. Desafiar os deuses é nobre e corajoso quando Odisseu cega Polifemo, filho de Poseidon; é estúpido e ganancioso quando Euríloco come o Gado do Sol. Enganar é ruim quando Odisseu engana Sinon ou os pretendentes enganam Telémaco, mas bom quando Telêmaco e Odisseu enganam os pretendentes. Compartilhar é bom, e Odisseu é visto tomando seu lugar a um remo ao lado de seus homens; mas o governo de um homem só também é inequívocamente bom, e aqueles que desafiam a monarquia ou a autocracia, ou tentam comer mais do que a porção permitida, são ou maus (os pretendentes) ou tolos (Euríloco). De qualquer forma, eles têm que morrer. É ruim lutar e matar para acumular riqueza, como faz Agamenon; É bom lutar e matar para preservar a riqueza que você já adquiriu (mesmo que seja por guerra). Qualquer uma dessas contradições morais poderia criar um tema interessante e gerador em um filme, mas Nolan deixa os fragmentos de um conjunto incompleto de grandes ideias girarem no redemoinho épico, sem nenhuma tábua de experiência humana sólida e específica à qual possamos nos apegar.


A Odisseia de Homero oferece um relato claro e comovente dos sentimentos, histórias e perspectivas de vários camaradas e subordinados de Odisseu, incluindo Euríloco e o porquinho escravizado, Eumeuu. Sequestrado, traficado e vendido como escravo ainda criança, Eumeu fantasia que seu antigo escravizador, Odisseu, um dia retornará e lhe dará um lar próprio. No filme, nenhum desses personagens subordinados tem personalidade própria. Mentor (Ryan Hurst), que ajuda Telêmaco (Tom Holland), não é uma deusa disfarçada, mas um cara prestativo com barba; Euríloco não é um rival amargurado de Odisseu, mas outro cara prestativo com barba. John Leguizamo faz o melhor que pode no papel de Eumaeus, agora amaldiçoado com cataratas para garantir que ele não reconsiga reconhecer Odisseu até o momento certo, mas o roteiro de Nolan não lhe dá nada com que trabalhar; o único desejo desse 'servo' (o termo preferido do filme para 'escravo') é tornar a vida de Odisseu mais confortável. Mas o Odisseu de Damon permanece miserável enquanto caminha teimosamente em direção à câmera por mais uma paisagem linda.


A Guerra de Troia é uma aberração, culpa do monstruoso e sem rosto de Agamenon (aquele com a estranha roupa de Darth Vader), que fracassou como homem de família americano ao matar sua filha. Odisseu é um líder idealizado que jamais colocaria seu povo em perigo voluntariamente: seus homens tolos insistem em ir verificar a cabana de Circe por si mesmos, e ele gentilmente os recupera (sem parar para fazer sexo com a deusa nem por uma hora, quanto mais um ano mágico inteiro). O Odisseu de Damon é motivado principalmente pela ansiedade e culpa, embora ele também esteja ansioso para proteger seu filho (Holland é bom em interpretar um jovem bobo de vinte anos quase doze).


Mas a representação de Odisseu como um senhor da guerra relutante torna o mundo imaginado do filme um absurdo. Não nos mostra que guerra ou matar são ruins, apenas que homens bons às vezes se sentem mal por isso – um ponto muito diferente. Qualquer representação séria da violência, antiga ou moderna, deve mostrar as perspectivas das vítimas e dos perpetradores, e os poemas homéricos passam facilmente do padrão – mas Nolan não o faz. Os troianos são desumanizados por suas máscaras; Não conhecemos nenhum deles pelo nome ou rosto. As mãos de Odisseu e Telêmaco são ensanguentadas apenas pelos modos de assassinato mais justos, dignos de jogos de computador, e não sentimos pena ou horror pela morte de suas vítimas, sejam troianos, gigantes, pretendentes ou escravos. Durante o saque de Troia – que supostamente ele organizou – Odisseu observa ao redor, confuso e horrorizado, como se nunca tivesse presenciado um massacre antes.


Ainda assim, também somos convidados a desprezar o principal pretendente de Penelope, Antínoo ('mente oposta'), por ser covarde, mentiroso e conspirador. O filme nos pede tanto para ficar horrorizados com a guerra quanto para celebrar as sequências de filme de ação em que o guerreiro relutante finalmente coloca as mãos em seu arco e o sangue começa a correr. O massacre dos pretendentes é provavelmente a sequência mais divertida do filme. O exuberantemente vilanesco Antínoo – Pattinson é a única pessoa no set que parece estar se divertindo – claramente merece ser esfaqueado até a morte com a adaga de Sinon, mas também merece um dos Oscars que vão cair sobre este filme como a chuva dourada de Zeus.


A Odisseia de Nolan carece de muitos dos elementos que tornam o poema grandioso. Não tem nada convincente a dizer sobre tempo, memória, história, guerra ou sobre a relação entre o glorioso retorno de um guerreiro e a vida de sua família, adversários, camaradas, amigos e vizinhos. Carece de profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua estrutura narrativa é cheia de artifícios. A escrita é péssima. Nenhum dos personagens tem motivação convincente para suas ações ou palavras. Não há cenas de sexo, e toda a comida está horrível.


O problema ético mais preocupante de Nolan's Odyssey diz respeito à decisão de filmar parte do filme no território ocupado do Saara Ocidental, normalizando assim a violência contínua contra o povo saharaui indígena. É particularmente irritante que Nolan tenha usado essa terra simplesmente como um cenário visualmente marcante para um filme que centra, engrandece e redime o herói de uma guerra territorial por causa de seu reconhecimento tardio e parcial de sua própria culpa.


Apesar de tudo isso, o lançamento de The Odyssey ainda é um evento para celebrar. Na que nos dizem ser a era do streaming, esse épico está trazendo o público de volta aos cinemas. No que nos dizem ser um tempo de declínio da alfabetização e da 'morte das humanidades', as traduções da Odisseia, incluindo a minha, estão voando para as prateleiras. Alguns dos que compram o livro ou aparecem no cinema para assistir Tom Holland podem seguir estudando grego antigo. Talvez o filme convença alguns administradores universitários a não cortar seus departamentos de literatura, língua e história. Nolan, que estudou inglês no University College London – onde os estudantes ainda estudam A Odisseia como um 'texto fundamental' do primeiro ano – está fazendo o possível para fazer o público em geral voltar a ler, e sou grato.


Emily Wilson

As traduções de Emily Wilson para A Odisseia e a Ilíada são publicadas pela Norton. Professora de estudos clássicos na Universidade da Pensilvânia, ela é autora de Mocked with Death: Tragic Overliving from Sophocles to Milton, The Death of Socrates e uma biografia de Sêneca, além de ter traduzido Sêneca e Eurípides, além de Homero. Wilson escreve para a London Review desde 2004 – seu primeiro texto foi sobre Safo – e esses ensaios, junto com alguns outros, foram reunidos em um livro, Crossing the Wine Dark Sea, publicado pela LRB e Profile. Ela também é uma das apresentadoras de duas séries de podcasts LRB Close Readings sobre literatura grega antiga e latina.

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Texto original

An Uncomplicated Man

Emily Wilson -

The Odyssey directed by Christopher Nolan.

London Rewiew of Book, Vol. 48 No. 14 · 13 August 2026

Christopher Nolan’s $250 million action movie version of Homer’s ancient Greek poem is an entertaining way to hide from the high temperatures for a few hours. Nolan’s trademark jumps and twists in the narrative structure are relatively easy to follow, and appropriate for The Odyssey, a narrative of tales nested in tales. My teenagers had a good time. Unlike some of Nolan’s other films, The Odyssey is not boring, thanks to the source material, which is impossible to mess up entirely. It’s a family-friendly audiovisual spectacle, like an elaborate Fourth of July fireworks display – and with about the same level of narrative and emotional depth.


As in his previous films, Nolan is interested in the discontinuities of space and time, in magic, tricks, craft, technology, rivalry, substitution, masks, miscommunication, what we remember and what we choose to forget. Yet again, survival is portrayed as a kind of triumph. Yet again, there are long, claustrophobic scenes of drowning and near-drowning, and technically impressive episodes in which buildings are engulfed in flames and vehicles explode. Yet again, we watch a male character’s desperate quest to recover and/or avenge a female love object. I had hoped that Nolan’s affinity with these Homeric themes might push him to new creative heights, and enable him to conjure more believable characters. But The Odyssey features his usual combination of grandiosity and superficiality. Without a tub of wax for my ears – which Himesh Patel’s ever anxious Eurylochus, Odysseus’s doomed right-hand man, uses to sail safely past the Sirens – I was exposed to the full din of thumping sticks, staffs, swords and clashing armour, thunderbolts, crashing waves, grunts, screams, toppling palaces and burning temples. But unlike Matt Damon, the wax-free Odysseus who is tied to the mast as he is conveyed past the Sirens (naked ladies reclining on some uncomfortable-looking rocks), I gazed at the shipwrecks and bloodbaths without any agony of emotion. My eyes stayed dry, even for Argos the dog – whose adorableness as a puppy is predictably amped up to suit our animal-loving times. If only the human characters had been treated with such serious attention.


The Homeric epic was already an adaptation. The poem used a relatively new technology – the written alphabet – to rework existing mythical traditions, reshaping the story of a veteran’s homecoming to resonate with the complex concerns of Greek-speakers in the archaic period, an era of migration, colonisation and urbanisation. Some seventh-century BCE Greek communities were ruled by an oligarchy, some by a single man. The poem traces the tension between the needs and desires of groups of men – Odysseus’ comrades or the suitors of his wife, Penelope – and those of a single powerful and cunning man, who wants to rule them all and win eternal fame for himself. In a period of cultural and technological change, it explores a fantasy of going back in time as well as space, while also showing its dangers and costs. The poem wrestles with the challenges of encountering strangers, of entering their homes and welcoming or rejecting them from one’s own. The contemporary resonances are obvious and Nolan’s movie hints at some of them, in interesting if scattered ways. But the film’s vision is too confused, its characters too underdeveloped, to deliver what it half-promises in terms of big ideas – although it is very good at conveying big bangs and big giants.


Adaptations needn’t and shouldn’t follow the original with anything like the exactitude of a translation. Some of the best radically transform or resist the source material, providing what Harold Bloom called ‘strong misreadings’ of their ancestors. The most memorable creative responses to The Odyssey – such as Euripides’ Helen, Virgil’s Aeneid, Milton’s Paradise Lost, Joyce’s Ulysses, Walcott’s Omeros, Atwood’s Penelopiad, Madeline Miller’s Circe or Lisa Peterson’s play set in a modern migrant camp – reconsider the poem’s structure, narrative and values. In theory, Nolan seems to understand the assignment and its hazards. His first feature film, Following (1998), was a powerful black and white thriller about the fascination and dangers of tracking strangers through space and time. The hunter is more likely to become the hunted, Following suggests, if the would-be stalker lacks a clear identity beyond a misplaced belief in his own ingenuity. But knowing what temptations should be avoided isn’t the same as avoiding them – as Odysseus’ men learn to their cost when they kill the sacred Cattle of the Sun. Homer’s Odysseus makes it home because he is able, temporarily, to suppress his own desires – for meat and wine, for his wife, for control of his household and land, for slaughter, for victory over time and the threat of being forgotten, for a glorious eternal name. But there is no restraint in Nolan’s version of The Odyssey: every second is jam-packed with incident, lights and noise, and nothing is ever at a human scale.


Nolan’s spectacle threatens to drown out his story just as the towering waves of the wine-dark sea – more grey than purple – threaten to overwhelm his hero’s ship. In looks, this Odyssey is often reminiscent of other 21st-century screen ‘epics’, not least Peter Jackson’s Lord of the Rings trilogy. The visit to the Land of the Dead reminded me of the excursions beyond the Wall in Game of Thrones. At the end of the film, a character sets out to ‘sail beyond the sunset’ and I almost expected everyone to break into Elvish. The film has none of the stylish sparseness of Uberto Pasolini’s The Return (2024), starring a scarred, desperate, mostly naked Ralph Fiennes, conflicted about his homecoming to a convincingly unhappy Juliet Binoche. Lacking the budget for gods or special effects, that film invited us to wonder what remains of The Odyssey and its hero when stripped down to the sinews and the hungry heart. Nolan gives us an all-inclusive buffet.


The race-neutral casting of Nolan’s Odyssey was inevitably deplored in some quarters. But there is nothing progressive about it. Most of the non-white actors – Zendaya, Lupita Nyong’o, Himesh Patel, Corey Antonio Hawkins, Travis Scott – play versions of the Black best friend, whose only role in the drama is to provide aid to the white protagonist. Scott, as the Ithacan bard, Phemius, yells a few words and pounds a stick, but does not get to sing, tell a story or play the lyre: the most melodic note in the percussive soundtrack comes from the plucking of Odysseus’ bow (a beautiful sonic image of the archer as musician, borrowed from the poem). Nyong’o’s double part as Helen and Clytemnestra is hugely underwritten; she is given only a few minutes of screen time to perform a set of brief tableaux of female victims (the outraged bereaved mother, the abused wife, the repentant adulteress).


There are more female characters than in most Nolan movies, thanks to the source material. But none of them has much to say, in contrast to the characterisations in the poem. Homer’s Calypso has a wonderfully outraged, operatic speech about divine double standards: male gods can kidnap and rape any mortal woman they desire, but when a goddess tries it, Zeus and his cronies scupper her chances. It’s a clever and comical distortion of the mythological ‘facts’: the poem’s listeners know that it is primarily Athena (a female deity) who is taking Calypso’s mortal victim away from her (Hermes, whom she’s complaining to, is merely the messenger) – and Eos, goddess of the dawn, as we’ve been reminded only a few lines earlier, has not been prohibited by the divine patriarchy from holding on to Tithonus. Charlize Theron’s Calypso looks gorgeous, but she is never angry, never funny, not skilled in rhetoric, and never consumed by lust for her scraggly mortal victim. She’s an unpaid therapist, soothing the soul of the bedraggled, PTSD-ridden Odysseus with drugs, and graciously listening to his disjointed tale of woe.


Similarly, Homer’s Penelope gives the disguised Odysseus a wonderfully vivid account of a dream she has had about some geese in her yard being killed by an eagle; the eagle explained that the geese were her suitors, soon to be slaughtered by her returning husband. But in the dream, Penelope wept – suggesting a fascinatingly ambivalent response to the return of Odysseus and the imminent end to her long period of waiting, like a bride, for a husband. Nolan’s Penelope has no dreams. Anne Hathaway’s face is as expressive as ever, and she looks beautiful and mysterious, glimpsed mostly through the veil of a clever set design that separates the women’s quarters from the main hall. But the script gives her nothing to do except yearn for Matt Damon, for reasons unknown. The couple have no chemistry and nothing in common. Throughout his wanderings, the uxorious Odysseus clings to a little doll figure, intended to represent his wife (like the spinning top clutched by Leonardo di Caprio in Inception); the real woman is barely more interesting.


It’s a challenge to represent deities on film without veering into Clash of the Titans silliness, so Nolan may have been sensible to leave them out. Even Zendaya’s underwritten Athena turns out to be a vulnerable victim of war, or perhaps a projection of Odysseus’ conscience – not a scheming and bloodthirsty war goddess. Other goddesses appear in cameo – Calypso, the seal-lady Sirens, Circe, Scylla and Charybdis – but there is no sign that we are supposed to realise they are goddesses. Poseidon, Hermes and Helius do not appear in person, although there are some scary storms and shipwrecks. One of my favourite moments was when Zendaya assures Damon that gods are not hard for mortals to understand: ‘Who doesn’t understand thunder? Fire?’ But the film wants to have it both ways. There are no gods, and yet shipwrecks and death are presented as the inevitable consequence of blinding the son of Poseidon and devouring the Cattle of the Sun. Zeus’ law is portrayed as being crucially important, and yet there is no Zeus. Nolan’s vision of the world is not quite big enough to include either real gods or real people who might be different from us.


There are giants, including Polyphemus (here, a lone Cyclops) and some overdressed Laestrygonians. Circe, played with earthy vigour by Samantha Morton, is Baba Yaga in a Hansel and Gretel cottage; she uses a labour-intensive form of plastic surgery to turn Odysseus’ greedy men into the pigs they already are. There is only one lotus eater, though the theme of amnesia takes on new significance, as you might expect. Famous scenes flash by: Scylla and Charybdis threaten the boat, Eurycleia recognises the scar on Odysseus’ leg, Antinous hurls a footstool at our hero in disguise. A few notable sequences from the epic are missing: the film skips the island of Scheria, home of the helpful princess Nausicaa, where Homer’s Odysseus tells the tall tale of his adventures to the hospitable Phaeacians. There is no room in this maximalist film for anything as charmingly mundane and small-scale as Nausicaa’s laundry and her girlish fantasies about a husband. Damon’s grizzled Odysseus is neither a master storyteller nor a flirt. More substantially, the inclusion of a friendly, wealthy, culture-rich foreign place would have added more confusion to the film’s already muddled premise: that this Hollywood version of Mycenaean Greece is the only ‘civilisation’ in the world – the only place that still just about remembers that strangers and beggars must be welcomed, according to Zeus’ law.


The costumes, armour, boats and architecture are a mishmash, which is in keeping with Homer’s poem – itself drawn from many generations of storytelling and incorporating bits and pieces from different eras, dialects and traditions. Linguistically, too, Homeric Greek is a composite – although it is always metrical poetry, not language anyone ever actually spoke. Despite the manufactured online outrage, there is nothing inherently wrong with the movie’s attempt to approximate contemporary American speech. If you’re not going to compose a script in Homeric Greek, or even in metrical English verse, you might as well use something like conversational American English. But writing dialogue is not one of Nolan’s talents. The language is relentlessly expository, humourless and flat. Attempts at vigorous speech – ‘My dad’s coming home’ or ‘Let’s get off this fucking beach’ – sit uncomfortably next to grandiose meditations: ‘Yes, my queen. The breaking of Zeus’ law, spreading like plague. Our age of bronze is collapsing, and maybe he couldn’t bear to see the ruins of what he’d done. Anywhere. Least of all, his home.’


As they say at the awards shows, I was humbled to learn that Nolan has read at least the first line of my translation of The Odyssey into iambic pentameter. In at least one interview, he cited my version of the first line of the poem: ‘Tell me about a complicated man.’ But I would be ashamed to have written any part of this script. Sadly, Damon’s Odysseus isn’t complicated or wily or artful. One of Odysseus’ funniest (and most famous) tricks in Homer is to tell Polyphemus that his name is ‘No Man’. When the blinded giant screams for help from his neighbours, the other Cyclopes are reassured to learn that ‘No Man’ is hurting him. In the movie Odysseus doesn’t have to outwit Polyphemus because the Cyclops is a puppet who has no wits. Nolan’s grunting one-eyed giant is referred to as ‘it’, barely speaks, doesn’t get drunk and has neither neighbours nor a favourite sheep.


Perhaps more surprising from the director of Oppenheimer, Damon’s lummoxy Odysseus also seems to lack technological intelligence (polymēchania). He does not build a marriage bed out of a tree growing in his house (it would be a waste of effort, since he so rarely seems to sleep or have sex). The raft on which he escapes from Calypso is cobbled together from a few bits of driftwood (in contrast to the elaborate wood-chopping and shipbuilding in Homer). We don’t see the design or construction of the Trojan Horse; instead, a kitsch, poorly designed horse (with no wheels) appears on the windswept beach as if dumped there by drone. The difficulties of transporting large, unwieldy objects over difficult terrain must have been on the director’s mind as he lugged his IMAX cameras through the film’s many challenging locations.


The most obvious new spin that Nolan brings to the source material is a subplot based on a story from the Aeneid, describing the way the Trojans were tricked into taking the Trojan Horse (an invention of ‘cruel Ulysses’) into the city, thanks to the machinations of a Greek double agent called Sinon (his name means ‘harmful’). In contrast to the relatively positive representation of cunning intelligence in Homer’s Odyssey, Virgil makes Ulysses cruel and predatory; Sinon is his deceitful accomplice.


In Nolan’s movie, Sinon is played by Elliot Page, and far from being a bad guy he’s the film’s moral centre. He is recruited to the Trojan War as a plucky youngster, thanks to the evil machinations of a teenage draft-dodger, Antinous (played in adulthood by a charismatically slimy Robert Pattinson). The main emotional arc of the film concerns Odysseus’ belated realisation that he is complicit in Sinon’s exploitation because he failed to tell him the truth about the Trojan Horse plot. Once he recovers his memory, Odysseus is racked by guilt. The film doesn’t address the moral dilemmas raised by its own narrative invention, such as why it matters so much whether Batman told the whole truth to valiant Robin, given that he would be killed instantly either way – or why the sinless Sinon wants in on the scheme, if the sack of Troy was as bad as the movie wants to suggest. Odysseus’ lie to Sinon doesn’t start the Trojan War, and the Trojans would presumably have taken the horse into the city anyway – as they do in Homer’s Odyssey. This muddled subplot is foisted on the film in order to make Nolan’s relentlessly didactic point about the contemporary Anglophone world: that the lies and xenophobia of the war on terror and Brexit began a cultural decline that is now destroying the values ‘we’ hold most dear.


Nolan’s other major addition to Homer’s narrative is the repeated reference to threats to ‘our civilisation’ from ‘the sea peoples’ – a now debunked 19th-century theory about maritime tribes who were thought to have attacked Egypt around 1200 BCE and to have also been responsible for the roughly coeval collapse of Mycenaean Greek culture. ‘Our civilisation is under attack,’ Penelope wails. Odysseus comforts her by saying that ‘Bronze Age civilisation’, including literacy, will rise again from the ashes. The current consensus, as Nolan clearly knows, is that there was no such thing as ‘the sea peoples’, and that the Greek-speaking world’s shift away from the more centralised, literate palace culture of the Mycenaeans in the 11th century BCE towards the fragmented social formations of the early Greek Iron Age was caused by a range of factors, including climate change, earthquakes and internal unrest. Nolan uses these competing historical theories to create a characteristic narrative twist about the identity of ‘the sea peoples’, which I will not spoil, though you can probably guess it.


Zeus’ law is a version of archaic Greek xenia: the idealised relationships between strangers, hosts and guests, who must treat one another with mutual respect, thereby forming multi-generational bonds between unrelated families. In the film, xenia is filtered through contemporary American ideas about the importance of philanthropic charity: wealthy people should be gracious towards the poor and hungry in their midst (without necessarily doing anything to mitigate their poverty). Many of the film’s implicit values directly contradict those of Homer’s poem. Deception, warmongering, extramarital sex, cruelty to animals, abusing women and yearning for honour – all perfectly fine in the world of Homer – are, in this version, very bad. This is not in itself a problem, but it is a problem if the film’s own values and vision don’t hang together, and if the characters’ motivations don’t make sense on their own terms.


In Nolan’s Odyssey, slaughtering people with the help of trickery, technology and weapons is presented as bad when the Greeks are killing the Trojans, who have violated xenia, but good when Odysseus is killing the suitors, who have violated xenia. Taking something ostensibly abandoned by Odysseus and his comrades is natural and forgivable when the Trojans lay claim to the horse, but unnatural and unforgivable when the suitors lay claim to Odysseus’ palace, food, wine and wife. Strangers in Ithaca are to be treated with gracious kindness, as possible gods in disguise; but strangers in foreign lands are usually monstrous, to be blinded, robbed and slaughtered. Defying the gods is noble and brave when Odysseus blinds Polyphemus, son of Poseidon; it’s stupid and greedy when Eurylochus eats the Cattle of the Sun. Deception is bad when Odysseus tricks Sinon or the suitors trick Telemachus, but good when Telemachus and Odysseus trick the suitors. Sharing is good, and Odysseus is seen taking his place at an oar alongside his men; but one-man rule is also unambiguously good, and those who challenge monarchy or autocracy, or try to eat more than their allotted portion, are either evil (the suitors) or foolish (Eurylochus). Either way, they have to die. It is bad to fight and kill to accumulate wealth, as Agamemnon does; it is good to fight and kill to preserve the wealth that you have already acquired (even if by war). Any one of these moral contradictions could make for an interesting and generative theme in a movie, but Nolan lets the fragments of an incomplete set of big ideas spin around in the epic whirlpool, with no plank of solid, specific human experience to which we might cling.


Homer’s Odyssey gives a clear, moving account of the feelings, histories and perspectives of several of Odysseus’ comrades and subordinates, including Eurylochus and the enslaved swineherd, Eumaeus. Kidnapped, trafficked and sold into slavery as a child, Eumaeus fantasises that his long-lost enslaver, Odysseus, will one day return and give him a home of his own. In the film, none of these subordinate characters has a personality of their own. Mentor (Ryan Hurst), who helps Telemachus (Tom Holland), is not a disguised goddess but a helpful guy with a beard; Eurylochus is not an embittered rival to Odysseus but another helpful guy with a beard. John Leguizamo does his best with the part of Eumaeus, now cursed with cataracts to ensure that he is unable to recognise Odysseus until the right moment, but Nolan’s script gives him nothing to work with; the only wish of this ‘servant’ (the film’s preferred term for ‘slave’) is to make Odysseus’ life more comfortable. But Damon’s Odysseus remains miserable as he hikes doggedly towards the camera across yet another beautiful landscape.


The Trojan War is an aberration, the fault of faceless, monstrous Agamemnon (the one in the weird Darth Vader outfit), who has failed as an American family man by killing his daughter. Odysseus is an idealised leader who would never willingly put his people in danger: his foolish men insist on going to check out Circe’s hut for themselves, and he kindly retrieves them (without pausing to have sex with the goddess even for an hour, let alone a whole magical year). Damon’s Odysseus is motivated mostly by anxiety and guilt, though he is also eager to protect his boy (Holland is good at playing a gormless young man of twenty going on twelve).


But the representation of Odysseus as a reluctant warlord makes a nonsense of the movie’s imagined world. We are not shown that war or killing are bad, only that good men sometimes feel bad about it – a very different point. Any serious depiction of violence, ancient or modern, must show the perspectives of the victims as well as the perpetrators, and the Homeric poems easily clear the bar – but Nolan doesn’t. The Trojans are dehumanised by their masks; we know none of them by name or face. The hands of Odysseus and Telemachus are bloodied only by the most righteous, computer-game modes of killing, and we feel no pity or horror at the deaths of their victims, whether Trojans, giants, suitors or slaves. During the sack of Troy – which he supposedly organised – Odysseus gazes around in bewilderment and horror, as if he has never seen a massacre before.


Yet we are also invited to despise Penelope’s chief suitor, Antinous (‘opposite mind’), for being a coward, a liar and a schemer. The film asks us both to be horrified at war and to celebrate the action-movie sequences in which the reluctant warrior finally gets his hands on his bow and the blood starts flowing. The massacre of the suitors is probably the most enjoyable sequence in the film. The exuberantly villainous Antinous – Pattinson is the only person on set who seems to be having any fun – clearly deserves to be stabbed to death with the dagger of Sinon, but he also deserves one of the Oscars that will shower down on this movie like the golden rain of Zeus.


Nolan’s Odyssey lacks many of the elements that make the poem great. It has nothing convincing to say about time, memory, history, war, or about the relationship between one warrior’s glorious return and the lives of his family, adversaries, comrades, friends and neighbours. It lacks psychological, emotional, political and ethical depth. Its narrative structure is gimmicky. The writing is abysmal. None of the characters has convincing motivation for their actions or words. There are no sex scenes, and all the food looks horrible.


The most troubling ethical problem with Nolan’s Odyssey concerns the decision to film part of the movie in the occupied territory of Western Sahara, thus normalising the ongoing violence against the indigenous Sahrawi people. It is particularly galling that Nolan used this land simply as a visually striking backdrop for a film that centres, aggrandises and redeems the hero of a territorial war on account of his belated and partial acknowledgment of his own guilt.


Despite all this, the release of The Odyssey is still an event to celebrate. In what we are told is the streaming era, this epic is bringing audiences back to cinemas. In what we are told is a time of declining literacy and the ‘death of the humanities’, translations of The Odyssey, including mine, are flying off the shelves. Some of those who buy the book or show up in cinemas to watch Tom Holland may go on to study ancient Greek. Perhaps the film will persuade a few college administrators not to cut their literature, language and history departments. Nolan, who studied English at University College London – where students still study The Odyssey as a first year ‘foundational text’ – is doing his best to get the general public reading again, and I am grateful.


Emily Wilson

Emily Wilson’s translations of The Odyssey and The Iliad are published by Norton. A professor of classical studies at the University of Pennsylvania, she is the author of Mocked with Death: Tragic Overliving from Sophocles to Milton, The Death of Socrates and a biography of Seneca, and has translated Seneca and Euripides as well as Homer. Wilson has been writing for the London Review since 2004 – her first piece was on Sappho – and those essays, along with a few others, have been collected in a book, Crossing the Wine Dark Sea, published by the LRB and Profile. She is also one of the hosts of two LRB Close Readings podcast series on ancient Greek and Latin literature.




Pílulas 46


1. Ana Maria Machado e João Bosco merecem o nosso respeito 

2. Cada hora conta: terremotos na Venezuela

3. A Odisseia de Nolan

4. Brasil assina aliança de IA da China 

5. Tristão e Isolda: névoas, lábia, ápices e orgasmos

6. A grande trapaça digital

7. Artista plástica Lena Bergstein lança livro sobre a Palestina 

8. Como era gostoso o meu comentaristês! 

9. Neymar e os monstros que criamos

10. Riobaldo: conto mal? Reconto

11. Luiz Carlos Barreto (1928-2026) 

12. Messi, petulante e vergonhoso

13. O cheiro da fumaça vai se dissipar: Ucrânia

14. Cogumelos mágicos: venda suspensa

15. Casa Urich segue inabalável 

16. Um show coletivo da Espanha - Copa 2026

17. Christopher Nolan e sua versão de 'Odisseia¹

18. O Legado de Aaron Swartz 

19. A direita se comunica melhor que a esquerda? 

20. O racismp na agertina 

21. Quem foi Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah morto por Israel?

22. O martírio de Hussein em Karbala e a Ashura

23. À Procura de Haaland

24. Um passeio com Eliane Brum em Altamira 

25. O futebol é complexo, mais ainda no Brasil - Tostão

26. A gente riu na cara do câncer 

27. A cartola da Noruega que peita a Fifa 


1. Ana Maria Machado e João Bosco merecem o nosso respeito 

Enquanto progressistas abandonam seus artistas, a direita transforma a defesa deles em capital político. Vigilância, denúncia e punição alimentam tanto a exibição de virtude quanto o mercado digital da indignação

Wilson Gomes, fsp, 28.7.2026

João Bosco em sua casa, no Rio - Isabella Moriconi / Folhapress

Ana Maria Machado e João Bosco, duas figuras históricas da cultura brasileira, ligadas à resistência à ditadura e à defesa de valores progressistas, foram levados ao tribunal moral das redes, não porque tenham passado a defender o racismo ou a violência contra a mulher, mas porque cruzaram o caminho das expedições sazonais de caça da política identitária e recusaram o papel de culpados que lhes reservaram.

Ela rejeitou a revisão retrospectiva de "Menina Bonita do Laço de Fita", livro pioneiro no esforço de elevar a autoestima de crianças negras, segundo o catecismo do presente. Ele se recusou a retirar do repertório "Gol Anulado", parceria com Aldir Blanc, uma crônica sobre uma conduta condenável —que nem de longe o cantor recomenda. Nada disso, porém, importava muito: a acusação dependia menos do sentido das obras do que da necessidade social que certos grupos têm de exibir o próprio fervor moral por contraste com o pecado dos outros.

Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 29 de julho de 2026 - Ariel Severino/Folhapress

As patrulhas respondem a uma necessidade interna. Se o mundo é interpretado como guerra permanente entre identidades opressoras e oprimidas, é preciso produzir sem cessar novas provas de que a opressão continua ativa e de que o combate exige vigilância. Uma semana sem denúncia de pecados é uma semana perdida na luta política, que agora é entendida basicamente como um conflito moral.

Por isso, o vigilantismo identifica o erro, o denuncismo expõe o pecador e o punitivismo convoca a alcateia, oferecendo a quem participa superioridade moral e a sensação de estar criando um mundo melhor. As arenas digitais converteram esse ritual numa atividade rentável, por meio das quais perfis disputam plateias em um ambiente em que nada atrai mais público que o ultraje moral.

João Bosco e Ana Maria Machado são troféus valiosos. Acusar um desconhecido produz pouca repercussão, enquanto mostrar os pés de barro de uma celebridade permite capturar parte de sua visibilidade. Nenhuma biografia põe alguém acima da jurisdição do novo tribunal. Quanto maior a presa, maior o prestígio do caçador.

O que os tiranos da virtude suportam ainda menos, contudo, é que o acusado não dobre a espinha. Esperam dele a liturgia da capitulação, com confissão de culpa, aceitação da sentença, ato de contrição e promessa de reparação. Corrijam meu livro. Não cantarei mais a música. A retratação importa menos pelo que corrige do que pelo que confirma, pois reconhece a autoridade da nova doutrina para definir o pecado e impor a penitência.

Bosco e Machado fizeram o contrário, pois contestaram a acusação e denunciaram o autoritarismo, o fanatismo e a obtusidade interpretativa de seus críticos. A espiral punitiva então subiu, porque, para a inquisição moral, o delito mais grave não é a suposta infração inicial, mas a recusa do pecador em reconhecer a soberania do tribunal. Como ousa o réu dizer que são os inquisidores que estão pecando?

Enquanto isso, a esquerda institucional, intelectual, acadêmica e cultural, salvo raras exceções, se cala. Não aparece para refutar a interpretação maliciosa, repreender a intolerância ou dizer que dois artistas com esse legado merecem respeito. Só desperta quando alguém denuncia a caçada e aí corre para negar a intolerância ou justificá-la, reduzir tudo a um caso isolado ou acusar os críticos de "deslegitimar a luta dos historicamente subjugados".

Não veem o óbvio: não é a crítica ao identitarismo que desmoraliza reivindicações legítimas de direitos, respeito e estima social para minorias ou grupos estigmatizados, mas a adoção de vigilantismo, censura, humilhação pública e cancelamento como método. Ao oferecer excludentes morais ao autoritarismo do próprio campo, a esquerda desmoraliza a própria denúncia da intolerância e da paixão censuradora da extrema direita.

Se você é uma personalidade cultural de esquerda e foi cancelada, saiba que a esquerda cult, nos últimos dias reunida em Paraty, não virá em seu socorro. Curiosamente, como em política não há lugar vazio, esse papel de defesa é hoje ocupado por perfis de direita que ganham audiência ao coletar casos, ridicularizar os inquisidores, desmascarar o autoritarismo e converter a prova de intolerância da esquerda em capital político.

Parece um contrassenso, mas é isso mesmo. Em 1968, diante de vaias no Maracanãzinho, Geraldo Vandré pediu respeito aos vencedores que o público hostilizava, afirmando que Tom Jobim e Chico Buarque mereciam respeito. Falta hoje uma esquerda que, diante de outro equívoco cultural, repita com convicção: João Bosco e Ana Maria Machado merecem todo o nosso respeito.

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2. Cada hora conta: terremotos na Venezuela

Venezuelanos criticam falta de ação do governo enquanto tentam encontrar sobreviventes dos terremotos em meio aos escombros

Pedro Pannunzio, de La Guaira 28 Jul 2026, piaui

Escombros do La Gabarra após os dois terremotos que atingiram La Guaira - Reprodução/Instagram 

Um odor forte emanava da pilha de concreto que se acumulava na Avenida José Maria España, na cidade de Caraballeda. Nem mesmo a proximidade com a praia de Los Corales, que margeia a pista, conseguia dissipar o cheiro vindo do terreno onde antes existia o edifício La Gabarra. A torre com 12 andares, 36 apartamentos e centenas de moradores não resistiu aos dois terremotos que atingiram a Venezuela no dia 24 de junho. Os abalos praticamente simultâneos com magnitudes 7,2 e 7,5 levaram ao solo diversas edificações no estado de La Guaira, onde fica Caraballeda. Segundo um levantamento da Assembleia Nacional da Venezuela divulgado dois dias depois da catástrofe, dos 189 edifícios colapsados no país, 158 eram de La Guaira.


Cheguei ao La Gabarra em 1º de julho. O acesso ao que restou do prédio ocorria por uma rampa feita de entulhos, que dava na área da piscina. Esvaziada, ela servia agora de depósito para os destroços que as equipes de resgate iam despejando ao escavar a montanha de concreto e vergalhões. Assim como em outras partes do país, os esforços para tentar encontrar sobreviventes não era empreendido somente por funcionários do governo venezuelano, mas também por cidadãos desesperados à procura de amigos e familiares. Além deles, socorristas estrangeiros – profissionais de mais de trinta países, alguns deles hostis ao chavismo, como Estados Unidos e Israel – se somaram às buscas.


Um desses grupos de socorristas era brasileiro e estava na Venezuela desde a noite de 26 de junho. Eram 79 profissionais ao todo (70 bombeiros de São Paulo, Minas Gerais e Paraná; 6 técnicos da Anatel; e 3 agentes Defesa Civil Nacional). A organização para o envio da equipe teve a participação de nove ministérios e da Caixa Econômica Federal, e foi coordenada pelo Itamaraty e pelo Ministério da Casa Civil. Militares da Marinha ficaram baseados no hospital de campanha montado na cidade de Macuto, em La Guaira, enquanto os socorristas se estabeleceram no Complexo Esportivo Camurí Chico, distante pouco mais de 1 km do La Gabarra, onde montaram um acampamento num campo de futebol.


Os socorristas se deslocaram para o La Gabarra na manhã do dia 27 e tinham como mantra uma frase conhecida em operações de busca e resgate: “cada hora conta.” Até o dia 10 de julho, quando deixaram o país, haviam trabalhado em outras 89 operações de resgate. Encontraram 23 pessoas, todas mortas. 


Em missões de ajuda após terremotos, inundações e grandes tragédias, o ideal é começar ações de resgate imediatamente – a janela ideal para achar sobreviventes se fecha após as primeiras 72 horas. Cidadãos de La Guaira relataram à piauí que o governo venezuelano demorou a agir depois dos abalos, expondo ainda mais as limitações econômicas e estruturais do país, que há pelo menos uma década vive uma crise social motivada por anos de sanções econômicas promovidas pelos Estados Unidos, casos de corrupção e má administração dos recursos públicos. 


“Foi no terceiro ou quarto dia que algumas equipes internacionais chegaram aqui para fazer as buscas, mas, depois de uma semana, a ajuda parou. Agora não tem ninguém”, disse Scarly Rojas, de 32 anos, que após duas semanas dos desabamentos ainda não tinha conseguido encontrar o corpo da mãe, soterrado sob os escombros de um edifício de cinco andares em Catia La Mar, município de La Guaira.


Perto dali, o pescador Pedro Alzolar olhava desolado para o edifício onde morava com sua família. “Aqui viviam meus dois netos, meu filho mais velho, sua esposa. Cacete… meu neto se foi”, lamentou. Ao seu lado, uma dúzia de corpos estavam estirados no asfalto, cobertos por lençóis e cal – colocados ali para retardar o processo de decomposição –, à espera da identificação ou da chegada das equipes responsáveis pela remoção dos corpos. Era sábado de manhã, dia 27 de junho, e pouco mais de 60 horas haviam se passado desde os terremotos. Naquele momento, o Estado venezuelano se fazia presente apenas por meio dos militares das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, que tentavam organizar o tráfego de veículos.


“Quando há uma crise dessa magnitude e você tem um Estado que está desarticulado, enfraquecido, sem recursos, sem pessoal preparado, tudo se torna muito mais caótico e muito mais difícil”, afirmou Benigno Alarcon, professor e fundador do Centro de Estudos Políticos da Universidade Católica Andrés Bello.


O governo venezuelano nega que tenha demorado a agir. “Nossas autoridades foram mobilizadas imediatamente. Não podemos permitir que campanhas de difamação e narrativas midiáticas, fabricadas para semear o caos e prejudicar os esforços de busca e resgate, ganhem força”, declarou a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, durante uma coletiva de imprensa a veículos internacionais realizada no dia 2 de julho. 


Poucas horas depois dos tremores, Delcy decretou estado de emergência e a militarização de La Guaira. Militares e policiais passaram a ocupar as ruas, mas, entre os escombros, ainda faltam equipes especializadas e maquinário pesado para auxiliar nas buscas. Inicialmente, a presidente interina informou ter mobilizado um efetivo de 4 mil agentes, entre policiais e militares, mas pouca ajuda oficial se viu nas ruas logo após a tragédia, segundo residentes de La Guaira. 


O governo também não sabe ao certo quantas pessoas estão desaparecidas após os terremotos. Sites independentes, como “Red Ayuda Venezuela” e “Venezuela Reporta”, estimam que o número ultrapasse 30 mil. Como o registro nesses sistemas é aberto e não passa por verificação, os dados não podem ser considerados confiáveis. O governo não divulga números oficiais sobre o total de desaparecidos, apenas o de mortes em todo o país – até o momento, foram 5398. 


Parte dos sobreviventes agora se amontoa em barracas espalhadas por acampamentos improvisados – alguns, mais estruturados, montados em ginásios e campos de futebol, outros, no que eram estacionamentos, em calçadas ou até mesmo à beira-mar. Oficialmente, o governo diz que há quase 24 mil pessoas vivendo nos 107 “acampamentos transitórios” em todo país, montados por prazo indeterminado. 


Acompanhar as buscas por sobreviventes entre os escombros é conviver a todo momento com o pessimismo e a esperança. No La Gabarra, o grupo de socorristas brasileiro dividia o trabalho com profissionais equatorianos. Eles utilizavam ferramentas elétricas e equipamentos hidráulicos para mover os escombros. Também dispunham de seis cães farejadores e um aparelho que detecta a frequência cardíaca a uma distância de 25 metros. Amigos, familiares e curiosos acompanhavam o trabalho em busca de informação. Eram pessoas que esperavam encontrar um parente ou amigo desaparecido, vivo ou morto, para pôr fim à dúvida que as angustiava.


No dia 1º de julho, uma quarta-feira, por volta das 17 horas, a equipe mantinha a esperança de encontrar alguém com vida. "Estamos perto. Faltam 15 cm até o possível sobrevivente", reportou um dos bombeiros brasileiros à comandante Daniela Oliveira, depois de aproximadamente 10 horas de trabalho. Com apoio de socorristas equatorianos, as duas equipes cavavam em pontos diferentes dos escombros, buscando abrir o caminho mais rápido até a vítima. O resgate parecia iminente. O sol já tinha se posto quando, do lado de fora do La Gabarra, uma ambulância foi posicionada para levar a vítima ao hospital o mais rapidamente possível. 


No entorno da piscina que servia de depósito para o entulho, pelo menos uma dezena de parentes à espera de notícias observavam os trabalhos dos bombeiros. De acordo com os relatos, treze pessoas poderiam estar nos escombros. De tempos em tempos, os socorristas ordenavam silêncio absoluto para que pudessem buscar sinais de vida. Eram prontamente atendidos. 


De capacete azul com a bandeira do Brasil colada numa fita de velcro e uma máscara de proteção contra a poeira pendurada no pescoço, Hernán Sandoval, um jovem venezuelano de 26 anos, tentava, como podia, auxiliar as equipes internacionais. O rapaz, que trabalha como marinheiro em La Guaira, havia formado um mapa mental do lugar e orientava os socorristas sobre a disposição do terreno, os acessos e os caminhos já percorridos por ele e seus colegas desde a tragédia. “Nos primeiros dias, ajudei a tirar um menino e duas meninas daqui”, contou, para em seguida dizer que os três morreram na ambulância a caminho do hospital.


Naquele momento, seus esforços eram para encontrar seu próprio filho, Ronald Sandoval, de 8 anos. O garoto magricela, que tinha puxado do pai o sorriso largo e os dentes da frente grandes, era uma das treze pessoas que estavam soterradas no que restou do edifício. Ele estava na casa do primo, que vivia no La Gabarra, assistindo ao jogo entre Brasil e Escócia, pela fase de grupos da Copa do Mundo. “Eu tinha falado que ia passar para buscá-lo, para que a gente assistisse o jogo juntos. Queria ter visto o jogo com ele, mas ele preferiu assistir com o primo. São inseparáveis”, disse o pai com os olhos marejados.


Ele conta que chegou ao La Gabarra cerca de uma hora depois dos tremores que destruíram o estado litorâneo. “Não via nada, estava tudo destruído. Parecia que minhas pernas não iriam aguentar meu corpo. Mas desde esse momento entrei para tentar encontrá-lo.” Mantinha o otimismo depois de 7 dias de busca. “Ele está cada vez mais perto.” 


Às 21 horas, com o punho cerrado no ar, um dos socorristas gritou “silêncio!” em meio à multidão. Todos se calaram, enquanto o cão farejador tentava encontrar algum sinal de vida. O cão entrou no local indicado pelos socorristas, enquanto era observado por mais de uma centena de pessoas – entre familiares, socorristas e profissionais da imprensa – apreensivas. Depois de alguns minutos, não se ouviu latido, indício de que nenhum sinal fora encontrado. 


Apesar do silêncio do cão, o equipamento que detecta frequência cardíaca apontava a existência de vida, mas, naquele momento, os socorristas já tratavam de reduzir as expectativas. “Pode ser batimento cardíaco de qualquer ser vivo. Um cão ou gato, por exemplo”, explicou um dos bombeiros. Ainda assim, pessoas como Hernán Sandoval mantinham esperança de encontrar o ente desaparecido. 


No dia seguinte, 2 de julho, a equipe de socorristas brasileiros e equatorianos deixou as buscas no La Gabarra e a tarefa seguiu com os próprios venezuelanos – entre voluntários e integrantes da Defesa Civil. O sol estava a pino quando Hernán Sandoval utilizava uma corda com outros seis homens para mover blocos de concreto em meio aos escombros. Seus músculos se contraíam a cada novo puxão, enquanto os impiedosos raios de luz do meio-dia faziam brilhar sua pele negra coberta por poeira. Em seu peito havia uma tatuagem com o nome do filho. “Ainda tenho fé de que vou conseguir encontrá-lo. Consigo sentir.” Sem sucesso na empreitada, ele decidiu utilizar um martelo para, aos poucos, quebrar as ruínas do edifício e estabelecer algum tipo de acesso ao local onde imaginava estar o filho. 


Durante uma breve pausa nos trabalhos, ele mostrou, com um sorriso no rosto, um recado recebido naquela manhã – descrito por ele como um sinal de que ainda havia esperança. “Você vai se levantar”, dizia a mensagem escrita em um post-it amarelo, colado em uma embalagem de isopor de uma marmita que havia recebido como doação.


Enquanto isso, alguns voluntários trabalhavam na parte de trás do que restou do prédio, no lado oposto ao das buscas realizadas nos dias anteriores pelas equipes especializadas. A poucos metros dali, a mãe de Hernán Sandoval permanecia em silêncio, sentada em uma cadeira de plástico debaixo de uma barraca, com o olhar fixo no trabalho dos voluntários que procuravam desaparecidos – entre eles, o seu neto. 


“Estou aqui desde às 21 horas de quarta-feira, dia 24. Não dormi nada”, disse Olívia Sandoval, sem conseguir conter o choro. Enquanto assistia de longe à tentativa do filho de quebrar concreto com as próprias mãos, pensava na última conversa que teve com seu neto. “Ele me disse ‘vó, te amo’, quando esteve na minha casa pela última vez.” 


Por mais treze dias após a saída das equipes internacionais, Hernán Sandoval trabalhou com outros voluntários em busca de algum sinal que o levasse ao corpo do filho. Ronald foi localizado na manhã do dia 15 de junho. “O encontrei em direção à saída do prédio, onde ficavam as escadas. Estava abraçado com seu primo.”

Pedro Pannunzio é jornalista baseado em Caracas

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3. A Odisseia de Nolan

Visão idealizada de heróis homéricos explica raiva da 'Odisseia'. Memória afetiva sobre personagens do épico ignora que reinterpretações foram a regra por séculos. 

Novo filme pode dominar imaginação das massas, mas provavelmente vai atrair muitos novos leitores

Reinaldo José Lopes, fsp, 25.7.2026

Volto a falar de "A Odisseia" por aqui depois de ler, nesta Folha, o texto de Martim Vasques da Cunha desancando a releitura cinematográfica do poema feita pelo diretor Christopher Nolan. O escritor investe de lança em riste contra o filme, dá razão a Elon Musk, dizendo que Nolan "se vendeu" e diz que a obra favorece "a extinção da memória" da obra de Homero.

Será mesmo? Algo me diz que Cunha está reagindo ao filme com base numa memória afetiva e idealizada do que seriam os épicos homéricos, e não com base no que de fato há neles. Além disso, seu raciocínio sobre o efeito de uma adaptação no legado da obra original tem premissas que me parecem falsas.

Começo pelos detalhes mais palpáveis. O autor lamenta que Nolan tenha retratado Penélope, mulher de Odisseu/Ulisses, "a mais fiel das esposas", cogitando reinar em Ítaca sem o esposo. Diz que o único rebento do casal, Telêmaco, "o mais leal dos filhos, perdeu toda a nobreza da juventude.

Penélope (Anne Hathaway) com o arco de seu marido, Odisseu, em cena de 'A Odisseia' - Divulgação

O escritor se esquece que, como bem aponta a helenista Natalie Haynes, Telêmaco, embora deva ter no mínimo uns 20 anos quando o poema começa, comporta-se, de início, como se fosse um adolescente de 14: é inseguro, grosseiro com a mãe e só consegue tomar a iniciativa de procurar notícias de Odisseu com a ajuda da deusa Atena. Mesmo após sua jornada de amadurecimento, ainda é incapaz de vergar o arco de Odisseu nas primeiras tentativas.

Quanto a Penélope, a fidelidade da personagem não é simplesmente canina. Tal como o marido, muito do que faz está temperado com certo ceticismo sardônico e impreciso. Não sabemos, por exemplo, até que ponto sua "dificuldade" em reconhecer Odisseu disfarçado é real ou fingida. E, inspirada por Atena, ela chega a se mostrar de forma provocante aos mais de cem pretendentes que querem desposá-la (no canto 18 do poema).

Aprendi com o saudoso classicista Junito de Souza Brandão (1924-1995) que a variante é o pulmão do mito. Ou seja, o brilhantismo literário de Homero nunca fez com que suas versões da mitologia grega fossem "canônicas" ou congeladas no tempo mesmo no mundo antigo.

'A Odisseia' é adaptação épica para texto de Homero - fotos

Em outras variantes, Penélope é infiel, sendo expulsa de Ítaca quando o marido volta; há até uma na qual ela cede a todos os pretendentes e dá à luz o deus Pan (cujo nome pode ser interpretado como "todos/tudo" em grego).

Senti que, em seu texto, Cunha ficou dançando em torno de um fato cujo nome ele não ousou dizer: o Odisseu de Homero é, por falta de palavra melhor, um tanto sociopata. E mais sociopata se torna conforme a tradição clássica evolui depois de Homero: maquiavélico até a medula na peça "Filoctetes", de Sófocles (século 5º a.C.), seus epítetos viram "cruel Ulisses" ou "falso Ulisses" na "Eneida" (século 1º a.C.).

E, por falar em sociopatas, não deveria surpreender que Musk, o sujeito que acha que o Ocidente sofre de "empatia suicida", esteja tão fulo com a versão de Nolan. Afinal, o filme enfatiza outro aspecto do texto homérico: a "xenia" (lê-se "ksenía"), o dever sagrado da hospitalidade para com o estrangeiro.

A visão do diretor será influente, ao que parece. Mas é descabido achar que ela vai apagar os poemas homéricos –os quais, lamento informar, só são lidos por meia dúzia de pessoas neste século. É bem mais provável que ao menos alguns fãs do filme resolvam conhecer Homero e seu Odisseu muito mais complicado. Saldo positivo.

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4. Brasil assina aliança de IA da China 

Brasil assina aliança de IA da China enquanto Congresso adia marco legal 

Pequim lançou na semana passada organização sobre o tema com 29 países, incluindo o Brasil. Xi Jinping defende que 'nenhum país deve dominar' a tecnologia e aposta em modelo de código aberto

Igor Patrick, fsp, 24.7.2026

A China lançou na semana passada uma organização para governar a inteligência artificial, com 29 países fundadores. A Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial tem sede em Xangai e vai reunir países que incluem Indonésia, Malásia, África do Sul, Senegal, Rússia e o próprio Brasil.

Xi Jinping vendeu a ideia em um discurso defendendo que "nenhum país deve dominar" a tecnologia e que o modelo de código aberto impulsionado por big techs chinesas é uma "oportunidade histórica" de cooperação com a África, a América Latina e a Ásia.

O chanceler da China, Wang Yi, durante cerimônia que estabeleceu a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, em Xangai - Wang Ye - 16.jul.26/Xinhua

A carta de fundação promete coordenar a regulação de IA entre os membros, mas não traz fundo de computação nem transferência de chips.

Arindrajit Basu, do Centro para Internet e Sociedade da Índia, descreveu a estratégia como o momento em que a diplomacia chinesa deixa de exportar apenas infraestrutura e padrões técnicos e passa a disputar as regras e instituições que governam a IA. Basu descreve um cenário em que Washington recuou das normas cibernéticas e cortou o financiamento da diplomacia digital. Pequim buscou a adesão do chamado Sul Global a uma governança centrada no Estado, criando uma coalizão que servirá para ampliar sua rede de centros de cooperação em IA e pautar discussões na ONU.

O método tem precedente na trajetória chinesa, que passou duas décadas se blindando de uma internet nascida nos Estados Unidos. Com a IA, a ordem se inverte, e as regras chegam antes da adoção global.

Distribuir pesos de modelos não exige transferir fábrica, chip ou energia, o que torna barata a oferta chinesa. Um país que rodar serviços públicos em modelos baixados de graça não terá contrato nem foro para reclamar.

A sequência que os chineses aplicaram a si mesmos serve de espelho para quem assinou a carta. A China fechou suas normas internas antes de abrir os modelos ao mundo e chegou à mesa internacional com posição pronta. Na outra ponta, o Brasil percorre o caminho inverso e aderiu a um foro de normas globais antes de concluir as próprias.

O PL 2338/23 cria o marco legal da IA no país, define obrigações para desenvolvedores e classifica usos de alto risco. Aprovado no Senado em dezembro de 2024, o texto chegou à Câmara em março de 2025 e continua sem parecer do relator. Hugo Motta prometeu o relatório para 9 de junho, mas o Congresso entrou em recesso em 18 de julho sem que ele fosse apresentado.

O impasse vai além do calendário, já que o texto do Senado cria autoridades e despesas de iniciativa reservada ao Executivo. Sem ajuste, o marco ficaria exposto a cair no Supremo por vício de iniciativa. O governo enviou em dezembro um projeto criando o Conselho Brasileiro de Inteligência Artificial para sanar a falha, mas o Congresso permanece silente.

A mesma defasagem aparece no lado físico, no qual o que o Brasil tem a oferecer não cabe em texto de norma. Data centers precisam de energia barata e previsível, e o país tem matriz renovável ociosa e terra disponível. O Brasil também abriga o projeto Serra Verde e discute o marco de terras raras no PL 2780/24. Nenhum desses ativos é contrapartida negociada no momento da adesão, que ficou no plano declaratório.

O teste de verdade ocorrerá quando uma empresa chinesa pedir licença ambiental e energia para um data center no Nordeste. Nesse momento, o Brasil vai descobrir se assinou uma carta de princípios ou se negociou preço, prazo e contrapartida tecnológica sem bases claras.

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5. Tristão e Isolda: névoas, lábia, ápices e orgasmos

Em 'Tristão e Isolda', de Wagner, estrídulos, névoas, lábia, ápices e orgasmos 

Vista a montagem no Municipal de São Paulo, sou o que Nietzsche disse do compositor: um diletante. Além de libertino, o alemão era um Mandrake

Mario Sergio Conti, fsp, 24.7.2026

Foi dias depois de Odin, o chefão da mitologia nórdica, ter criado o mundo, que a Ópera da Bastilha encenou, em 1998, "Tristão e Isolda", após décadas sem que a dupla dinâmica passasse por Paris. Críticos e jornais fizeram picadinho da encenação.

Ilustração de Bruna Barros para coluna de Mario Sergio Conti - 25 de julho de 2026 - Bruna Barros/Folhapress / Ao lado esquerdo o rosto de Wagner mira para o lado enquanto observa uma cena da ópera Tristão e Isolda no teatro municipal. 

O Libération disse que a montagem era inepta e a música deveria "ser escutada de olhos fechados". Talvez seja por isso que gostei. Estava empoleirado na galeria e, embotado pelas brumas de Valhalla, pouco vi do palco. Sou o que Nietzsche disse de Wagner: um diletante.

"‘Tristão e Isolda’ é o Everest dos maestros", disse Roberto Minczuk, acrescentando que dois deles infartaram ao reger a ópera de Wagner, ora sob sua batuta no Theatro Municipal. Ele não só escapou do colapso cardíaco, como, proclama o diletante — agora sentado na sétima fileira — arrancou da orquestra um som superior ao da execução na Bastilha.

Há duas passagens no segundo ato em que a montagem paulistana se excede em excelência. Tristão e Isolda estão entregues aos prazeres do "coitus ininterruptus" e, fora de cena, Brangäne, a serva de madame, adverte: "cuidado!" Aflita pelo perigo de um flagra, mas com uma ponta de inveja do prazer dos patrões, a voz límpida —de Luisa Francesconi— augura: vai dar merda!

Merda dá. Mas antes os funestos amantes se entregaram à sequência plutônica da noite de estreia no Municipal. Isolda —a soprano Anne Marie Kremer— e Tristão —o tenor Simon O'Neill — representaram com indústria e estrídulo aquele que é considerado um clímax do sexo cantado.

A cena em que o casal se assanha mexe com os brios dos operários da baixaria operística. É dar uma passeada na internet e descobrir que se conta, a sério, quantas vezes Isolda e Tristão gozaram na noite em que o rei Marke, o corno da Cornualha, caçava. Foram três, dizem uns; outros falam em sete; e há os que chamam o deleitoso embate de "orgasmão".

Está certo que os assanhados tomaram um drinque suspeito antes, mas naqueles tempos heroicos não havia Viagra nem incremento hormonal.

'Tristão e Isolda', emblema da paixão impossível, volta ao Municipal após 48 anos - fotos

Wagner sabia bem o que fazia. Depois de compor o segundo ato, escreveu: "‘Tristão está ficando terrível! Receio que a ópera seja proibida, a menos que, com uma encenação ruim, a coisa vire mera paródia. As boas encenações vão deixar as pessoas malucas."

Wagner estava apaixonado por Mathilde Wesendonck, casada com um milionário que o patrocinava. Leu o libreto recém-terminado para a esposa, Mathilde e o marido, o maestro Hans Von Bullow e a mulher. Nos termos de Victor Borge, um regente ferino, "leu-o para a esposa, sua amante, o marido da amante, sua futura amante e o marido da futura amante. Todos gostaram". Além de libertino, um Mandrake.

A pianista Clara Schumann não se deixou levar pela lábia. Ao ver a ópera, disse: "Ver e ouvir um amor tão doido, numa noite em que todo senso de decência é violado, e pelo qual não só o público, mas até os músicos parecem encantados: eis a coisa mais triste que já experimentei na minha vida artística."

Para Theodor Adorno, o ápice de "Tristão e Isolda" está no terceiro ato, quando a trompa sobe "acima da fronteira que separa o nada de alguma coisa, e capta o eco da melancólica canção do pastor enquanto Tristão se agita — essa passagem perdurará enquanto as experiências fundamentais da era burguesa ainda puderem ser sentidas pelos seres humanos".

"Tristão e Isolda" está cheio de leitmotiv, os motivos-condutores associados a personagens ou sentimentos. Para Adorno, os leitmotiv anteciparam fórmulas da indústria cultural: dão uma cutucada no público que não gosta de música e o orientam ao que deve sentir. Seriam como jingles publicitários, conduzem quem os ouve a determinadas mercadorias.

No Municipal, Isolda deu duas vezes leves cotoveladas em Brangäne, para chamar-lhe atenção do que estava dizendo. Seria um leitmotiv visual?

A prefeitura mudou há pouco a gerência do Municipal porque quer encenações estética e politicamente conservadoras. Importou-se então uma montagem espanhola, e o palco foi invadido por névoas de gelo seco e videografismos que remetem a imagens passadas e estereotipadas.

E lá está, ocupando dois terços do palco, subindo e descendo, uma colossal coroa do rei Marke — personagem menor que, como o franzino prefeito paulistano, reinará por um tempo no Municipal.

Apesar de tantas interpretações de "Tristão e Isolda", dá sempre para acrescentar outra. Fica aqui uma contribuição.

RB: Ópera Tristan und Isolde de Richard Wagner com legendas em portugues  

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6. A grande trapaça digital

"A Grande Trapaça Digital" conta como a s Big Techs destruíram a música! - vídeo 

O MITO DO ARTISTA GENIAL - vídeo

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7. Artista plástica Lena Bergstein lança livro sobre a Palestina 

Artista plástica Lena Bergstein lança livro sobre a Palestina após várias viagens frustradas 

Ela tentou ir a Jerusalém estudar manuscritos, mas não conseguiu. 'Um Diário em Aberto' mescla autobiografia, literatura e experimentos visuais

Diogo Bercito, fsp, 23.7.2026

Um Diário em Aberto: Palestina, Preço R$ 86 (160 págs.); Autoria: Lena Bergstein, Editora Cosac

A artista plástica carioca Lena Bergstein, 80, queria muito conhecer Jerusalém. Três vezes tentou realizar essa longa e custosa viagem, sem sucesso. Por fim, decidiu visitar a cidade na sua imaginação. O resultado é o livro "Um Diário em Aberto: Palestina", lançado há pouco.

Embora divulgado pela Cosac como o retorno da editora à ficção brasileira contemporânea após um longo hiato, o livro de Bergstein se aproxima mais de um ensaio híbrido do que de um romance. O texto mescla autobiografia intelectual, crítica literária e experimentos visuais.

A artista plástica e escritora Lena Bergstein, autora de 'Um Diário Em Aberto: Palestina' - Carolina Bergstein/Divulgação

O interesse pela região é antigo, conta à Folha. Nasceu como uma curiosidade quase arqueológica. "O que eu mais queria era ver os manuscritos do mar Morto", diz.

Em sua carreira como artista, explorou por décadas as relações entre a palavra e seu suporte material. Tinha vontade de ver, por exemplo, como aqueles textos tinham sido gravados não só em papiros e pergaminhos, mas também em folhas de cobre.

Nessa trajetória de investigação artística sobre texto e material, travou uma parceria com o filósofo francês Jacques Derrida nos anos 1990. Em 1998, Bergstein ilustrou o texto "Enlouquecer o Subjétil" — premiado com um Jabuti na categoria de produção editorial.

Depois de três tentativas frustradas de viajar a Jerusalém e ver os manuscritos do mar Morto, assistiu a um documentário sobre o intelectual palestino Edward Said. "Fiquei comovida", ela conta. Saiu da sessão e comprou livros.

Said é conhecido, em especial, por seu livro "Orientalismo". O texto de 1978 critica a produção de conhecimento sobre o dito Oriente, usada historicamente para projetos coloniais. Abriu caminho para todo um novo jeito de pensar a história da região, ainda respeitado na academia.

Bergstein assistiu ao filme e fez as leituras durante a pandemia. Além de não poder viajar, mal podia sair de casa. Aproveitou para estudar. Passava os dedos pelas notas de rodapé e ia anotando todas as referências. "Eu queria saber o que precisava ler."

Foi assim que travou contato com acadêmicos como o israelense Avi Shlaim e o palestino Nur Masalha. Mas foi a literatura que a cativou mais, em especial os palestinos Mahmud Darwich e Emile Habibi. Bergstein costura trechos de poemas e romances dos dois no seu ensaio.

Após 6 meses de cessar-fogo, guerra em Gaza ainda perdura com crise humanitária e ataques - galeria

Bergstein reflete de maneira explícita sobre sua posição em relação ao tema tratado. Judia, conta que outrora tinha uma opinião mais positiva sobre Israel. "Quando comecei a estudar, me deu vergonha, desgosto", diz sobre a criação do país em 1948, que levou à expulsão de mais de 700 mil palestinos e à destruição de centenas de vilarejos. "Como puderam fazer isso? Trataram os habitantes da terra com perversidade."

"Chega uma hora em que um artista se depara com algo moral, com algo político, uma questão que sente necessidade de abraçar e que o faz se envolver", ela escreve em um dos últimos trechos.

Capa de 'Um Diário Em Aberto: Palestina', livro de Lena Bergstein, da editora Cosac - Divulgação

Embora predominantemente escrito, o livro traz intervenções visuais. Entre os capítulos, há gravuras inspiradas em poemas de Darwich, com versos manuscritos como rascunhos provisórios. Em outro trecho, as páginas ganham um tom acinzentado para acompanhar a discussão mais histórica, ao lado de mapas da região.

É como se a artista fizesse um trabalho de colagem, misturando técnicas. O livro é incomum e de difícil classificação — e, com isso, talvez também peça leitores incomuns, dispostos a transitar por formatos inesperados.

Bergstein não oferece respostas. É a ideia do "em aberto" do título. "Tem essa possibilidade de ir e vir, de subir e mergulhar", diz.

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8. Como era gostoso o meu comentaristês! 

Sérgio Rodrigues, fsp, 22.7.2026

Quebrando linhas e pisando na área, jargão teve auge na Copa. Antigamente, entregar gols não era nada de que se orgulhar

Quebra linhas, entrega gols, gera jogo, quebra pro ataque, ataca os espaços, ataca a profundidade, acha o passe, tem muita qualidade, jogador diferente, consegue machucar o adversário, faz bloco baixo, alarga o campo, joga entre linhas, faz o facão, dá uma fatiada, gesto técnico perfeito, desmonta a defesa, pisa na área, chapa no canto.

Há uma linguagem codificada dos comentaristas de futebol — em parte criada por jogadores e nem tão nova, mas de todo modo recente no tempo histórico — que teve sua apoteose na Copa do Mundo de 2026: o comentaristês.

Antigamente —tempo vago que a maioria de nós situa no século passado, o velho vintão—, se uma pessoa dizia que fulano entregava gols, ninguém que a ouvisse teria dúvida: estava falando de um goleiro inclinado a engolir frangos ou, no máximo, de um zagueiro trapalhão. Entregar gols era concedê-los.

Transmissão do jogo entre Brasil e Haiti na Casa CazéTV, em São Paulo, pela Copa do Mundo - Allison Sales - 19.jun.26/Folhapress

O uso do verbo "entregar" no sentido daquilo que um goleador faz ao marcar gols, ou um time ao obter vitórias, é uma contaminação do inglês "deliver", com seus ares corporativos de triunfo profissional, de tarefa bem-cumprida.

Naquele tempo, vale notar ainda, machucar o adversário era assunto para o juiz — às vezes convocado a punir o agressor com o cartão vermelho, dependendo do caso — e, claro, para o departamento médico.

Alguns torcedores também machucavam e eram machucados na saída dos estádios, em escaramuças de hostes rivais. O sentido de agredir, mas esportivamente, é extensão figurada de um verbo antes associado apenas a danos infligidos por violência física.

Acredito que a ideia tivesse sua beleza quando começou a circular. A repetição a tornou cansativa: metáfora velha se cristaliza, vira chavão. E só algumas vezes se sedimenta em linguagem comum, como em asa de xícara, dente de alho e pé de mesa.

Esses são eventos raros. Com a possível exceção da chapada no canto, a maioria dos tiques, expressões, imagens, bordões — numa palavra, jargão — dos comentaristas de futebol de hoje vai morrer, virar pó, sumir, quando o seu tempo passar e outra geração vier, com novas palavras e sentidos.

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9. Neymar e os monstros que criamos

“NÓIS”, NEYMAR E OS MONSTROS QUE CRIAMOS

A ambiguidade do nosso camisa 10 é um produto da história recente do Brasil

Evandro Cruz Silva, piaui,  22 Jul 2026

A incapacidade de superar Neymar é tanto a nossa tentativa de voltar a um tempo que já não existe quanto a prova de que rebaixamos, sem perceber, as nossas próprias expectativas - Crédito: Kleber Sales

Antes de cobrar o pênalti, Neymar já discutia com o goleiro norueguês. Eu estava na terceira cerveja e assistia ao jogo num bar berlinense com uma quantidade espantosa de noruegueses escandinavamente felizes: loiros, altos e apaixonados por Erling Haaland, eles festejavam sem hostilidade, o que só aumentava o constrangimento do circo na tela.

Ørjan Nyland respondia às provocações com um sorriso que não se desfez nem depois de a bola cruzar a linha de seu gol. O camisa 10 brasileiro havia acabado de receber cartão amarelo por uma entrada dura em Ødegaard, o Brasil perdia por dois a zero e faltava pouco para o apito final decretar mais uma eliminação precoce e medíocre em Copa do Mundo.

Desde a tragédia do 7 a 1, o time brasileiro parece ter trocado o risco pelo rebaixamento de expectativas, jogando pouco e perdendo sem estardalhaço para seleções que o cidadão comum só lembra que existem a cada quatro anos. Foi assim para a Bélgica em 2018, para a Croácia em 2022, e a banalidade da derrota estava a caminho em 2026. Estava, porque, de maneira quase inacreditável, o conjunto de problemas do escrete comandado por Ancelotti — a falta de vontade de ter a bola, a incapacidade de decidir jogos, a defesa frágil, o elenco fraco — tudo isso fora rapidamente ofuscado naquele fim de tarde de domingo por um nome: Neymar Júnior.

Convertido o pênalti, o ex-craque não recolheu a bola para acelerar o reinício e tentar, nos instantes finais, um milagre em forma de empate. Preferiu correr até Nyland, apontar o dedo na cara dele e dizer “comigo, não, otário”. Eu assistia atônito: em julho de 2026, minha única chance de felicidade numa noite seria, de novo, torcer pelo último craque brasileiro. Pedi a quarta cerveja, ignorei o circo e fixei os olhos na tela, à espera de um empate espetacular. 

O empate não veio, paguei a conta e fui embora pegar o metrô. No caminho, dois jovens bêbados gritavam “Neymar! Neymar!” enquanto riam de alguma coisa que passava na tela do celular de um deles.


Na manhã seguinte, durante o programa Posse de Bola, no Canal Uol, Juca Kfouri — decano do jornalismo esportivo brasileiro — perdeu a compostura: “Criamos um monstro, e ele representa o que há de pior na sociedade brasileira. A gente tem que dizer isso com todas as letras, chega! [...] Este menino é um pequeno cafajeste!”

Kfouri não é um influenciador brigando por atenção nos microssegundos das redes. Em sua fala, fez referência ao alerta do técnico Renê Simões, dado ainda em 2010, depois de um atrito entre o garoto Neymar e o então treinador do Santos, Dorival Júnior. “Estamos criando um monstro”, disse Simões. Dezesseis anos depois, Kfouri quer mostrar que ele estava certo e escolhemos não escutá-lo. 

A proposição de que Neymar “representa o que há de pior” no Brasil é também uma tese sobre o nosso tempo, e sobre o tempo que vem antes dele. Mas Kfouri conta só metade da história. A pergunta que me interessa não é se ele está certo — está —, mas o que fazer com a outra metade. O mesmo Neymar que nos envergonhou na Copa tinha sido abraçado um ano antes por Mano Brown, ídolo de uma periferia inteira, ao som de “nóis te ama”, no gramado da Vila Belmiro. Sendo a “sociedade brasileira” o conjunto de todos que têm ligação de nascimento, de sangue ou de fraternidade com o país, devemos tentar entender o que Neymar revela sobre esse todo — esse “nóis” que o ama e o reprova ao mesmo tempo, sem conseguir escolher entre as duas coisas.

Essa dupla natureza tem uma cronologia, que espelha a cronologia do país. Neymar, afinal, traduz as últimas duas décadas do Brasil: uma ascensão otimista entre 2002 e 2013, o estilhaçamento desse otimismo entre 2013 e 2021 e, agora, a tentativa esquisita de voltar a um tempo que já não existe — enquanto aprendemos, sem alarde, a esperar cada vez menos.


Estou longe de casa. Nasci em maio de 1992 num bairro pobre de São Vicente, no litoral paulista. Não fugi à regra e passei parte da minha infância alimentando a esperança de um dia ser jogador de futebol. Foi uma esperança curta: atuei como goleiro de uma escolinha de futsal do bairro e fui reserva na mesma posição no time da minha escola, a Escola Estadual Armando Victório Bei.

O auge da minha carreira no ludopédio aconteceu quando fui campeão do torneio de futebol de salão do bairro. A competição reunia escolinhas como a minha. O cenário é bem conhecido: o suor carregado dos corpos miúdos e hiperativos dos miniatletas, os pais orgulhosos, ansiosos e amedrontados pela capacidade física de sua prole, os coletes de poliéster insuficientes, trocados de rodada em rodada entre nós.

Não sei que milagre aconteceu para alcançarmos aquela vitória, mas eu fui um goleiro bom por algumas horas e o troféu era grande, dourado, bonito. Ao final da comemoração coletiva, combinamos que a taça ficaria na casa de cada um por uma semana, começando comigo. Para sair do Ginásio Poliesportivo Dondinho — Dondinho, pai de Pelé, também foi uma lenda do futebol de Três Corações (MG) nos anos 1930 — e chegar à Avenida Galeão Coutinho, onde morávamos, o mapa oficial da cidade sugere percorrer as vias principais do bairro. Mas se você conhece a região, sabe que o mais fácil é subir a rua do Dondinho, pegar o primeiro beco logo após o Canto do Rio FC, costear a rua do canal, tomar cuidado com os cavalos — sim, os cavalos — e, depois dessa travessia de pequenas favelas, chegar ao meu bairro. Foi o que fiz, depois de implorar à minha mãe que me deixasse ir a pé, com a taça na mão, a medalha no pescoço e o sorriso rasgado. A curiosidade, os aplausos e as piadas dos moradores eram provocados por aquela estranha cena de uma criança orelhuda e um troféu competindo para saber quem era mais alto. Poucas vezes fui tão feliz.

Antes de concluir que, se fosse para jogar com as mãos, o melhor mesmo era jogar basquete, disputei a edição de 2004 da Copa TV Tribuna, um prestigioso campeonato de futsal escolar da região. Competições desse tipo não são conhecidas por seus grandes públicos ou infraestrutura, mas dessa vez recebemos atenção. Naquele quarto ano do século XXI já era ostensiva a cobertura midiática sobre um garoto magricela da Baixada Santista, de olhos grandes, que disputaria o seu primeiro torneio escolar vestindo a camisa do Liceu São Paulo, tradicional colégio particular de Santos.

Os vídeos de um Neymar minúsculo, com 12 anos, driblando times adversários inteiros, estão disponíveis na internet e às vezes se confundem com a minha lembrança desse tempo. O fato de termos a mesma idade, fisionomia parecida e estarmos na mesma quadra não alterava a minha sensação de que éramos de espécies diferentes, que eu e os outros garotos jogávamos bola enquanto ele fazia algo de outra natureza, superior.

Mas não é exatamente isso que salta à memória. Neymar sempre foi um talento excepcional, mas não é exagero dizer que a Baixada Santista produz, a cada ano, várias crianças com habilidades fora do comum, derivadas da intimidade precoce com a bola. Foi o seu sucesso meteórico, e a capacidade de fazer gravitar ao seu redor a atenção de milhões de pessoas, que o distinguiu dos demais. Do meu canto, vi aquele garoto falar com repórteres. Quando cheguei em casa, era a sua imagem que ocupava o horário nobre do telejornal da região.

Com o passar dos anos, a cena se repetia e aumentava em escala. Neymar se tornou onipresente na Baixada Santista. Em 2009, quando estreou aos 17 anos no time profissional do Santos, o “Menino da Vila” era uma novidade para boa parte do país, mas não para nós. Ele já havia se tornado um astro e, como é comum às estrelas, polarizava opiniões pelo dom de manter todos olhando para ele, alçado ao palco pela bola e pelo campo. 

Mesmo longe de seu auge, Neymar é uma das coisas brasileiras que mais me alcançam aqui, nesta estadia distante do cotidiano do país. É a sua camisa do Santos que vejo passear no corpo de crianças berlinenses e isso me presenteia com uma dupla saudade, a saudade do Brasil como lugar de futebol bonito e a saudade de casa. Quando a ocasião convém, conto a algum menino que sou de Santos e que, aos 12 anos, disputei o mesmo campeonato que Neymar e o vi jogar de perto, o que sempre gera encantamento e sorrisos — e ajuda bastante nesta terra em que a gentileza não é propriamente uma marca registrada.


“Nóis te ama, nóis te ama.” Era uma típica sexta-feira chuvosa no verão da Baixada Santista, em janeiro de 2025, quando Neymar e Mano Brown, líder dos Racionais MC's e notório torcedor do Santos, se abraçaram na Vila Belmiro. Brown parecia incrédulo enquanto repetia o seu amor pelo ídolo, usando o léxico do homem do povo, que prefere declarar seus sentimentos na primeira pessoa do plural – um plural específico, que coletiviza o sujeito e singulariza o verbo: “Nóis te ama, nóis te ama.”

Eu morava no Boqueirão, bairro vizinho à Vila Belmiro, e assistia pela tevê ao show que meu grupo musical predileto fazia no gramado do estádio. Os Racionais cantaram Umbabarauma, de Jorge Ben, e alguns hits de sua trajetória: Capítulo 4, Versículo 3, Jesus Chorou, A Vida É Desafio e, com carga emocional elevadíssima, Negro Drama.

O rap e o futebol carregam possibilidades quase idênticas de transcendência para homens comuns. Ambos são capazes de fazer com que a gente mais sofrida, inteiramente preocupada com a sobrevivência, possa refletir e delirar sobre assuntos como beleza, esperança, drama e amor. A imagem dos Racionais cantando aquela música em homenagem a Neymar juntava essas duas transcendências: elas formavam um “nóis”, um “nóis” que ama Neymar, que ama os Racionais MC's e que ama, provavelmente, esses dois exemplos tão díspares de dramas negros de ascensão social.

Certamente não era essa figura transcendental que Juca Kfouri mirava quando disse que Neymar representa o que há de pior na sociedade brasileira. Kfouri e Mano Brown, apesar de suas muitas diferenças, têm posicionamentos políticos semelhantes, ambos à esquerda, como se pôde ver na entrevista que o primeiro concedeu ao segundo no programa Mano a Mano, publicada em agosto de 2025.

Mas, afinal, quem é esse “nóis” que se divide entre amar o último Menino da Vila e considerá-lo representação do “que há de pior na sociedade brasileira”?


O Neymar que Mano Brown ama, que “nóis” ama e que me fascina é o mesmo homem que, em 2022, às vésperas de uma eleição decidida por poucos pontos percentuais, dançou o jingle de campanha de Jair Bolsonaro num vídeo compartilhado com milhões de seguidores, emprestando a um projeto de extrema direita o capital simbólico acumulado por uma vida inteira de dribles. É o homem investigado, ao lado da família, por sonegação fiscal relacionada à sua transferência para o Barcelona, e multado inicialmente em mais de 188 milhões de reais pela Receita Federal brasileira. É o homem que, em pleno isolamento da pandemia, organizou uma festa de cinco dias em Mangaratiba com centenas de convidados, enquanto o resto do país enterrava seus mortos. É o homem acusado de apoiar de forma velada uma Proposta de Emenda à Constituição — de relatoria do senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — que abre caminho para a privatização das praias brasileiras.

Tudo isso enquanto é insistentemente chamado de “menino” e seguido por uma horda incapaz de perceber a óbvia manipulação promovida por ele, um atleta que, mesmo sem decidir uma partida relevante há quatro anos, sem jamais ter sido eleito o melhor do mundo, sem nunca ter chegado a uma final de Copa, continua sendo reverenciado, patrocinado e badalado como se nada daquilo tivesse consequência — porque descobriu que o próprio escândalo, bem administrado, também rende.

Seus defeitos são tão reconhecíveis na atual corrente da extrema direita brasileira que quase dispensam elaborações: a toxicidade masculina, a tentativa de transformar o bem público em propriedade privada, a personalidade mimada e as escolhas políticas dos últimos anos tornam a associação entre Neymar e o bolsonarismo uma tarefa fácil. Eu também faço parte do grupo de pessoas que acham que ela representa “o pior” da sociedade brasileira. Ainda assim, é impossível dissociar seus problemas daquilo que ocupa minha cabeça quando ouço seu nome.


Tenho uma gaveta de memórias com o nome de Neymar escrito nela. A admiração por um goleiro artilheiro me fez são-paulino apesar da criação praiana, o que tornou Neymar um adversário constante nos clássicos entre São Paulo e Santos de 2009 a 2013, antes de ele voar para a Europa. Lembro do dia 29 de abril de 2012, semifinal do Campeonato Paulista, o Santos trajando um estranho uniforme azul no Morumbi.

Eu tinha 21 anos, cursava ciências sociais em São Carlos e assisti ao jogo num boteco de garagem perto da rodoviária. Neymar fez três gols — um de pênalti, um na cara do gol, um de fora da área — e ainda me reservou outra humilhação: logo depois do segundo gol, levou a bola ao canto esquerdo do campo e encarou o lateral Piris, que dissera à imprensa ser capaz de pará-lo. Cinco dribles depois, eu já tinha derrubado meu litrão de cerveja barata. Nino, o dono do bar, não me deixou pagar. A raiva era sincera, mas dúbia: é impossível não se encantar pela capacidade de um jogador tourear um adversário usando apenas a leveza do corpo e a habilidade de mostrar e esconder a bola, levando o toureado e seus apoiadores a uma fúria que só aumenta a própria humilhação — como a minha, passando rodo e pano no chão do bar, assistido por um pequeno grupo de santistas que agora tinha dois espetáculos para acompanhar.

Além de me livrar da conta, Nino me presenteou com uma reflexão. Ao ver o jogador santista rolando no gramado, disse: “Esse neguinho é um folgado, tem que apanhar mesmo.” Começou ali uma pequena discussão em torno do uso do termo. Eu não era o único negro do salão, e era evidente a surpresa dos frequentadores mais antigos com a minha objeção a uma expressão tão comum no léxico do interior paulista, em que “nego” e “neguinho” são ouvidos nas mais diversas histórias.

Eram os primeiros anos da implementação das cotas raciais na Universidade Federal de São Carlos, e eu fazia parte de uma geração de negros e pobres que acessava um lugar novo, a universidade pública. Lembro da confiança daqueles tempos, da sensação de que o futuro estava aberto para nós e nossos projetos de ascensão, o que se traduzia numa segurança inédita para muitos de nós. Não era a primeira vez que escutava uma expressão discriminatória, e tenho a nítida impressão de que só reagi porque me senti menos sozinho: pude projetar nos meus colegas e, de maneira insólita, no próprio Neymar um “nóis” que não aceitaria ser chamado de “neguinho”.


Entre 2002 e 2013, esse otimismo teve nome e trilha sonora — e não era só para os pobres e negros das cotas universitárias que o começo da década de 2010 no Brasil era palco de uma euforia efêmera. Em outra versão da fusão entre futebol e música, Neymar estrelou dois videoclipes de gêneros que refletiam o otimismo da época: os primeiros raps de Emicida e o funk ostentação. O rapper paulistano usou por muito tempo a expressão “a rua é nóis” como um slogan de sua carreira.

O craque santista aparece nos videoclipes de Zica, Vai Lá!, algo como um rap-autoajuda presente no álbum Doozicabraba e a Revolução Silenciosa, de 2011, e de País do Futebol, composição em parceria com o funkeiro MC Guimê, lançada na esteira da Copa de 2014. Ambas as músicas narram a ascensão social sem abrir brechas para maiores reflexões: são versos que contam o sucesso como consequência natural do esforço, da esperteza e da leveza de um povo que passou os primeiros anos da década de 2010 entre as sete maiores economias do mundo e atraiu as atenções do planeta sediando uma série de megaeventos internacionais.

A forma como Neymar aparece nesses videoclipes diz muito: em Zica, Vai Lá!, o craque interpreta um mestre de artes marciais que treina Emicida e o orienta a vencer a luta contra um vilão impassível que acabara de derrotar seu irmão, Evandro Fióti. A letra guarda uma referência direta ao atleta e a suas capacidades excepcionais: “Ousar, Neymar, vou pra reinar / Contar glória sem par.” Em País do Futebol, enquanto MC Guimê rima sobre a vida de quem “venceu a desnutrição e hoje vai dominar o mundo”, meninos pobres de periferias brasileiras aparecem jogando futebol com o Menino da Vila numa mansão. Todos sorriem e, a certa altura, Neymar dá seu depoimento, falando sobre a importância de acreditar em si mesmo e superar as críticas rumo ao sucesso.

Em 2014, a série de protestos herdeira das Jornadas de Junho do ano anterior disputava espaço com a empolgação que se espalhava pelo “país do futebol” prestes a sediar a Copa. O “Não vai ter Copa” e os questionamentos sobre o real benefício em sediar algo tão megalomaníaco num Brasil com tantas deficiências mediam forças, palmo a palmo, com a esperança depositada numa seleção que acabara de ser campeã da Copa das Confederações com um acachapante 3 a 0 contra a Espanha, a então campeã do mundo. Tudo isso coroado pela primeira Copa de Neymar, que já brilhava em nível internacional com a camisa do Barcelona.

Numa turma meio intelectual, meio de esquerda, como eram muitos colegas no meu curso de ciências sociais, o assunto criou divisões fortes. Um lado acusava os manifestantes de não entender a importância do futebol entre jovens negros e periféricos; o outro dizia que não compreendíamos as manipulações geopolíticas historicamente perpetradas pela Fifa. Eu gostaria de poder me colocar no segundo grupo, que tinha toda a razão de ir às ruas protestar contra os descalabros cometidos em nome daquele torneio, mas a sinceridade é um compromisso inegociável: eu gosto muito de futebol e nunca tive coragem de jogar fora a camisa 10 do Brasil daquele ano.

Que todo esse otimismo de 2002 a 2013 tenha culminado numa derrota por 7 a 1 para a Alemanha, e que os oito anos seguintes — de 2013 a 2021 — tenham sido de crises sociais e econômicas e de ascensão e amadurecimento de uma extrema direita hoje amplamente popular só mostra a fragilidade dos nossos ciclos. Não só os dos indivíduos: o país como um todo parece sempre andar “entre o sucesso e a lama”, para voltar a citar os Racionais.


A imagem que se refletia na tela do bar evidenciava as marcas do tempo em Neymar, em mim e no Brasil do século XXI. A linha do cabelo apontando uma calvície, a cara um pouco inchada, os movimentos pesados e mancos mal lembravam a agilidade quase sobrenatural que o consagrou. O estranhamento era recíproco: ali, semibêbado, cercado de noruegueses e já antecipando a angústia que é atravessar uma ressaca num país de língua estrangeira, me parecia impossível acreditar que “nóis” um dia tivéssemos sido crianças despreocupadas das periferias da Baixada Santista.

O clima de fim de festa se instala num meio do caminho esquisito: certamente o pior já passou, não vamos perder por 7 a 1, e há algo de promissor num futuro que parece pertencer a alguém mais estável, organizado e capaz de lidar com a idolatria, como Vinícius Júnior. Em contrapartida, por obra do destino, foi o atacante santista o autor dos dois gols da Seleção Brasileira em suas mais recentes eliminações em Copas do Mundo: ele converteu o pênalti que Guimarães desperdiçara contra a Noruega e, em 2022, contra a Croácia, foi dos pés dele que saiu nossa última chance de chegar a uma semifinal, num golaço em meio a uma prorrogação que parecia ganha. Há um tempo que passa e não passa, e que se configura na dúvida sobre o que aconteceu com as promessas de ascensão social para pobres e negros brasileiros — evidentes nos anos 2010, desmanteladas na virada dos anos 2020 e agora habitando um não lugar.

A incapacidade de superar Neymar é tanto a nossa tentativa de voltar a um tempo que já não existe quanto a prova de que rebaixamos, sem perceber, as nossas próprias expectativas — sobre ele e sobre nós mesmos. Trata-se de uma encarnação perfeita desse “nóis” que é, ao mesmo tempo, expressão da beleza e dos monstros que criamos neste primeiro quarto de século da vida nacional.


Os 6 minutos e 52 segundos de Negro Drama, composição de Edi Rock e Mano Brown, constituem uma grande reflexão em forma de rap sobre o que significa a ascensão social de negros pobres. A um só tempo melancólica e violenta, a letra tenta responder às múltiplas faces do “trauma que carrego pra não ser mais um preto fodido” — o mesmo trauma, talvez, que me deixou sem resposta diante do comentário de Nino, no bar.

Quinta música do terceiro álbum de estúdio dos Racionais, Negro Drama se estrutura em contraposições existenciais dos que vivem na corda bamba da ascensão social negra. Sob esse aspecto, estar “entre o sucesso e a lama” é também um comentário sobre o sucesso do próprio grupo, que, em sua trajetória ascendente, não escapou de acusações e polêmicas. Quem ouve a letra de Estilo Cachorro hoje, ou esteve na Praça da Sé durante a Virada Cultural de 2007, ou relembra a prisão por “incitação ao crime” em 1994 no Vale do Anhangabaú , consegue ter uma boa ideia da capacidade do quarteto de criar situações problemáticas, envolver-se nelas e ser vítima delas.

O que os diferencia, evidentemente, é que, além do talento excepcional, o grupo de Mano Brown foi capaz de conquistar outra vitória quase milagrosa: proteger a própria imagem e tornar-se uma referência moral. Aqui, a diferença em relação a Neymar é gritante. Essa proteção de si contra armadilhas do mundo transparece nas letras. Concebido na virada do século, Nada Como Um Dia Após o Outro Dia — lançado, não por acaso, em 2002, ano em que essa cronologia começa — é um disco otimista, mas desconfiado, cheio de ressalvas feitas por um grupo que via diante de si um tempo mais promissor, sem esquecer a fragilidade das promessas que o país faz pra quem vem de onde eles vieram.

É uma desconfiança ausente no otimismo de Neymar, do Brasil, nos primeiros anos da música de ostentação da década de 2010. Olhar para esse tempo depois de mais uma eliminação realça a sabedoria das letras dos Racionais e a inocência do nosso otimismo. Fui parte dessa onda, não posso negar.


Os dois rapazes entraram no mesmo vagão que eu no caminho de volta para casa. Ainda gritavam “Neymar! Neymar!”, continuavam vidrados na tela. Não perguntei o que era. Não precisava: já sabia que seria o dedo em riste na cara do goleiro, editado em loop, talvez com uma legenda em inglês zombando do “menino mimado” que, mesmo assim, tinha acabado de marcar o único gol do Brasil. É difícil conceber uma imagem mais exata do que o “monstro” citado por Kfouri — e mais difícil ainda negar que é o mesmo corpo cujo retorno ao Santos Mano Brown comparou à “volta de Jesus”.

Talvez seja isso que “nóis” sempre quis dizer: não uma torcida, nem um consenso, mas a disposição de carregar as duas imagens ao mesmo tempo, sem escolher qual delas é a verdadeira. Kfouri está certo. Mano Brown também está. E o otimismo da ostentação (do rap, do funk, do futebol do país) era só uma inocência nascida de uma histórica privação de quase tudo.

Não sei se um dia vou parar de contar a mesma história de bar sobre Neymar. Não sei se o Brasil vai parar de esperar que ele resolva, sozinho, o que duas décadas de promessas não resolveram. O que sei é que, naquela noite berlinense, entre a cerveja e os loiros, minha reação ao gol foi involuntária, imediata, quase infantil: por um segundo, antes de lembrar de tudo o mais, torci. Fui parte dessa onda. Talvez ainda seja.


Evandro Cruz Silva

Sociólogo e escritor, publicou o livro de contos Praia artificial e o romance O embranquecimento (ambos pela Patuá)

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10. Riobaldo: conto mal? Reconto.

(...) "Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dôr. E a vida do homem está presa encantoada - erra rumo, dá em aleijões com esses, dos meninos sem pernas e braços. Dôr não dói até em criancinhas e bichos, e nos dôidos - não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? Ah, medo tenho não é de ver a morte, mas de ver o nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é a sua instrução do senhor..."

João Guimarães Rosa, Grande sertão - veredas, pp. 49-50, Companhia das Letras, 2026.

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11. Luiz Carlos Barreto (1928-2026) 

Morre Luiz Carlos Barreto, um dos maiores produtores de cinema do Brasil, aos 98 

Ele foi um dos nomes responsáveis por sucessos como 'Dona Flor e seus Dois Maridos' e 'Vidas Secas'. Atravessou diferentes períodos do audiovisual brasileiro, do cinema novo à retomada

O produtor de cinema Luiz Carlos Barreto em seu escritório, no Rio de Janeiro, em 2019 - Ricardo Borges - 14.dez.19 / Folhapress

Inácio Araujo, fsp, 22.7.2026

Quando Luiz Carlos Barreto nasceu, em Sobral, no Ceará, em 1928, apenas 3 em cada 10 crianças chegavam a completar um ano de vida. Ele dizia que tinha sido um desses três. E a persistência parece lhe ter feito bem. Não apenas se tornou um produtor de cinema, como persistiu, desde os anos 1960, como o mais longevo e um dos mais importantes produtores de cinema no Brasil.

Barreto, ou Barretão, como era chamado por amigos e adversários, morreu na madrugada desta quarta-feira (22), no Rio de Janeiro, aos 98 anos. Ele deixa uma obra monumental, em títulos como "Vidas Secas", "Terra em Transe", "Dona Flor e seus Dois Maridos", entre tantos outros. Foi ainda colunista deste jornal durante a Copa do Mundo de 2002.

Veja imagens de Luiz Carlos Barreto

A informação foi confirmada por sua filha, Paula Barreto. Barretão havia sofrido um acidente há dois anos e quatro meses e estava paraplégico desde então. Ele estava internado desde segunda-feira no Hospital Copa Star. Detalhes sobre o que motivou a internação não foram divulgados.

Ele deixa a mulher, a também produtora Lucy Barreto, e os filhos Paula, produtora, e Bruno, cineasta, além de netos.

Ainda adolescente, iniciou-se no jornalismo em O Democrata, jornal do Partido Comunista cearense que fechou as portas em 1947, quando a legenda foi extinta para efeitos legais. Não se abateu. Foi para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego na revista O Cruzeiro, o veículo de circulação nacional mais célebre e influente daquela época, onde se tornaria repórter e fotojornalista.

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Fazia parte de uma equipe notável, em que se destacavam nomes como José Medeiros e Indalécio Vanderley. Barreto tomou Medeiros por mestre, na ocasião. Nele elogiava a simplicidade e o apego ao real, ao contrário de Jean Manzon, que elaborava suas fotos e lhes conferia uma qualidade artística. Não é por acaso que Medeiros se tornaria um importante fotógrafo de cinema.

O trabalho na revista o levou a ser correspondente na França, como repórter e fotógrafo. Chegou a ingressar no Idhec, a escola francesa de cinema, mas saiu de lá poucos dias depois, pois não suportava a importância que era dada à teoria. Preferia frequentar os estúdios franceses e acompanhar as filmagens, o que lhe era facilitado pela carta de correspondente.

Veja filmes produzidos por Luiz Carlos Barreto - fotos

A ligação com o cinema surgiu depois que voltou ao Brasil e conheceu Glauber Rocha  ao acompanhar as filmagens de "Barravento". Por coincidência, Glauber montou o filme numa moviola que ficava na casa de Barreto. E quem montava o filme era ninguém menos que Nelson Pereira dos Santos. A ligação com o cinema estava feita para sempre.

Primeiro, Glauber o sugeriu como corroterista de "Assalto ao Trem Pagador", que Roberto Farias começava a preparar. Depois, quase obrigou Barreto a fotografar "Vidas Secas",do próprio Nelson Pereira. Barreto ainda tentou convencer Glauber de que não era fotógrafo de filmes, mas de fotos — e que as duas coisas eram muito diferentes.

Glauber obviamente não aceitou a explicação. Para ele, era a chance de "desencaretar" a fotografia de cinema, além da possibilidade de um nordestino finalmente mostrar a luz do Nordeste. Barreto topou, arrancou todos os filtros que costumavam suavizar a forte luz da região, criou uma imagem de contrastes fortes e, com efeito, revolucionou a fotografia de cinema no Brasil.

Nesse momento, já estava inteiramente dedicado ao cinema, tanto que fundou em 1963 a L.C Barreto, com a mulher, Lucy Barreto, que seria a sua produtora por toda a vida. Mas "Vidas Secas" não seria seu último prodígio fotográfico. Voltaria a trabalhar com Glauber em "Terra em Transe". 

Novamente, a opção era não usar luz artificial e, de quebra, tomar enorme cuidado com o fundo das imagens para não deixar claro que o país imaginário do filme, Eldorado, não era o Brasil. O resultado é magnífico, embora fosse óbvio desde sempre que Eldorado era o Brasil.

Sua estreia como produtor integral de um filme aconteceria em 1965, com "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", de Roberto Santos. Ali se fechava um círculo, pois Roberto era próximo de Nelson, de quem fotografara "Vidas Secas" por insistência de Glauber. [A hora e a vez de Augusto Matraga ver filme aqui e Vida secas aqui ou aqui ]

Veja cenas do filme 'Vidas Secas'

O círculo se expandiria com a volta de Joaquim Pedro de Andrade de Paris. Por essa época, o banqueiro José Luiz de Magalhães Lins, do Banco Nacional de Minas Gerais, buscava projetos para investir em cinema.

Joaquim era filho de Rodrigo de Melo Franco — importante intelectual e fundador do Iphan —, e tratava de adaptar "O Padre e a Moça", poema de Carlos Drummond de Andrade. Tudo levava à parceria, na qual Barreto seria peça-chave. E Joaquim também estivera no início de Barreto no cinema, como diretor de "Garrincha, Alegria do Povo".

Naquele momento, já era claro que Barreto se impunha como um dos produtores de primeira linha no cinema brasileiro, apesar dos percalços políticos da época. Ligado ao grupo do cinema novo, viu Glauber ser exilado após fazer "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", em que foi coprodutor — como em "Terra em Transe", aliás. Mas seu trabalho não tinha ainda a importância da Mapa, de Zelito Viana, outro produtor desse período.

É ao longo dos anos 1970 que Barreto se estabelece como o principal produtor de cinema do país. Já era conhecido como Barretão, apelido que, segundo ele, não veio do meio cinematográfico, mas de Nelson Rodrigues, com quem costumava acompanhar os jogos de futebol do Maracanã.

Terra em Transe - galeria

É depois do fim do Instituto Nacional de Cinema e da consolidação da Embrafilme como principal distribuidora e órgão de fomento do cinema brasileiro que a L.C. Barreto se consolida também.

Barretão costumava creditar esse sucesso à mulher, Lucy, que esteve à frente de inúmeros projetos, enquanto ele próprio usava sua influência junto a políticos em defesa do cinema brasileiro e da própria Embrafilme. E também, segundo adversários, em proveito próprio.

O certo é que a partir de então Barretão enfileira uma sequência de trabalhos que, à parte serem bem-sucedidos, afirmaram seu modo de ver o cinema como uma arte em que a busca de qualidade não a deve impedir de atingir grande número de espectadores. Ele pensava que o cinema não deveria ceder à TV, ao monopólio da comunicação de massa, e que, em definitivo, não era uma arte para ser apreciada em pequenos grupos.

Os exemplos não faltam em sua galeria. Chamam-se "Bye Bye Brasil" (1979), de Carlos Diegues, "Inocência" (1983) e "Ele o Boto" (1986), de Walter Lima Jr., "Como Era Gostoso o Meu Francês" (1971) e "Memórias do Cárcere" (1984), de Nelson Pereira dos Santos, "Menino do Rio" (1982), de Antônio Calmon.

Nenhum deles, entretanto, sintetizou tanto seu pensamento quanto "Dona Flor e Seus Dois Maridos", dirigido por seu filho Bruno Barreto em 1976. Partiu-se ali da adaptação de um clássico da literatura brasileira, por Jorge Amado, para um sucesso com quase 11 milhões de espectadores no Brasil, que seria indicado aos prêmios Bafta, no Reino Unido, e ao Globo de Ouro, e consolidaria Sonia Braga como estrela internacional.

Após o fim da Embrafilme, Barreto driblaria as dificuldades da era da retomada, nos anos 1990, emplacando dois títulos como candidatos ao Oscar de filme internacional —"O Quatrilho" (1995), de Fábio Barreto —morto em 2019—, e "O Que É Isso, Companheiro?", de Bruno Barreto.

Se o século 21 viu decair a importância de Barretão, sua ligação com a política levaria à produção de "Lula, o Filho do Brasil", de 2009, dirigido por Fábio. É verdade que uma parte do relativo fracasso pode ser atribuída à antipatia de parte dos espectadores pelo protagonista, em parte ao fato de a direção não ser memorável.

Veja imagens de Fábio Barreto - galeria

Mais do que isso, no entanto, pesou contra o filme a aparência de chapa branca, isto é, obra disfarçadamente oficial. Para que não houvesse sombra de influência política, Barreto evitou qualquer patrocínio do governo. Isso não resolveu o problema, pois veio a acusação de o título ter sido financiado por empreiteiras associadas a grandes obras públicas. Com tudo isso, o filme, que custou mais de R$ 17 milhões na época, não conseguiu mais do que 850 mil espectadores no país, o que configura um fracasso mais que considerável.

No entanto, isso não encerra toda a verdade do filme. Se é fato que Barreto havia se aproximado de Lula havia décadas, inclusive politicamente, também é verdade que o centro da narrativa está menos no exercício da política do que na formação de seu protagonista.

O centro da trama recai sobre a importância de dona Lindu — Gloria Pires, na tela — e sobre o homem que supera as limitações impostas por sua origem para se tornar, aos olhos do filme, um exemplo de brasileiro que não aceita o destino que lhe confere o nascimento.Ou seja, não é pequena a proximidade  ali com a história pessoal do próprio Barreto, também ele um nordestino, também ele um sobrevivente — um dos três em cada dez —, e também alguém que se dedicou a enfrentar as adversidades e a rejeição de que o filme brasileiro tem sido alvo ao longo de sua história.

Entre fracassos e sucessos, Barretão marcou como poucos, com seus mais de 70 filmes produzidos, mas também com sua presença, a história do cinema brasileiro ao longo das sete décadas em que se dedicou a ele.

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12. Messi, petulante e vergonhoso

Jornal detona comportamento de Messi na final da Copa: "Petulante e vergonhoso"

The Mirror afirma que argentino "envergonhou o próprio legado" após confusão na decisão contra a Espanha

Por Redação do Ge — Londres 21/07/2026 

A derrota da Argentina para a Espanha na final da Copa do Mundo rendeu duras críticas de Jeremy Cross, colunista do jornal inglês The Mirror. Em uma crônica publicada após a decisão, o jornalista classificou a postura de Lionel Messi nos minutos finais como "petulante e vergonhosa" e afirmou que o craque "despejou um pouco de vergonha sobre seu legado extraordinário".

Denilson comenta a atitude dos jogadores argentinos após a vitória da Espanha - vídeo

A reação de Messi quando a Espanha ergue a taça da Copa - vídeo

Ao longo do texto, Cross faz questão de separar o desempenho técnico do comportamento do camisa 10. O jornalista reconhece que Messi fez uma grande Copa do Mundo, bateu recordes e conduziu a Argentina até mais uma final.

Em seguida, porém, endurece o tom ao analisar a reação do astro após a expulsão de Enzo Fernández e a confusão envolvendo Marc Cucurella.

— Há uma forma de perder, e Messi ainda não é velho demais para aprendê-la. O que ele mostrou ao mundo no apito final não era algo esperado dele.

O episódio que mais incomodou o colunista foi o momento em que Messi chamou a atenção do árbitro Slavko Vinčić para uma ação de Cucurella, lateral da Espanha, que tapou a boca com a mão numa discussão com o astro da Argentina. Messi então tentou acionar a Lei Vini Jr, que determina o cartão vermelho para o atleta que cobrir a boca em situação de confronto - mas que foi criada principalmente para coibir crimes de ódio como racismo e homofobia.

Na avaliação de Cross, o argentino tentou se beneficiar de uma regra da Fifa de maneira inadequada.

— Ver alguém da estatura de Messi tentando usar isso a seu favor é vergonhoso, constrangedor e humilhante.

O jornalista ainda comparou o atacante a "uma criança mimada correndo para reclamar com o professor" e afirmou que, naquele instante, "ele diminuiu seu próprio respeito e dignidade".

Veja a briga depois da vitória da Espanha sobre a Argentina na final da Copa do Mundo - vídeo

A crônica termina com uma reflexão sobre o impacto do episódio na imagem do camisa 10. Embora destaque que Messi "fez coisas extraordinárias pelo futebol e pelo esporte em geral", Cross afirma que, caso esta tenha sido sua última Copa do Mundo, um de seus atos finais será lembrado "com enorme tristeza". O colunista conclui dizendo que o craque mostrou ser "falível, vulnerável e humano", mas também que "não consegue aceitar a derrota".

O placar final do jogo que garantiu o título

A Espanha faturou o bicampeonato mundial ao vencer a Argentina por 1 a 0, marcando apenas na prorrogação. Ferran Torres foi o autor do gol do título.

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13. O cheiro da fumaça vai se dissipar: Ucrânia

A vida na Ucrânia ficou mais cara e mais perigosa neste ano, mas não parou

Andrei Kurkov  10 Jul 2026, piaui, carta de kyiv

Em meio à guerra, cenas prosaicas como pessoas sentadas em uma estação de metrô de Kyiv - Crédito: Danylo Antoniuk/Anadolu via AFP

Estamos em meados de 2026, e a guerra total entre Rússia e Ucrânia já completou quatro anos. O tempo não para. A linha de frente parece estagnada, mas, se é verdade que em algumas áreas o Exército russo avança lentamente, em outras, sobretudo no Sul, os militares ucranianos estão libertando territórios antes ocupados. Nas últimas semanas, a Ucrânia libertou mais territórios do que perdeu.

Desde o início do ano, drones e mísseis russos mataram muito mais civis ucranianos do que no semestre anterior. Nesse mesmo período, drones ucranianos passaram a alcançar com regularidade locais mais distantes, como São Petersburgo e os Montes Urais. Foram seis meses de investidas aéreas ucranianas que reduziram a cinzas dezenas de refinarias, fábricas de armamentos, depósitos de munição e centros de logística militar na Rússia. A vida na Ucrânia ficou mais cara e mais perigosa neste ano. Mas não parou. Continua.

O cheiro de fumaça – da guerra – marca as manhãs em Kyiv. Bombeiros são acionados quase diariamente para apagar incêndios causados por bombardeios russos. Moradores da capital ucraniana, a caminho do trabalho, conferem em seus celulares quais ruas estão fechadas e quais ônibus foram temporariamente desviados em razão das investidas russas. Serviços públicos de limpeza removem carros queimados e escombros de prédios desabados.

O Museu Nacional de Arte voltou a fechar – perdeu janelas e portas depois de mais um ataque às regiões centrais da capital. O edifício histórico da Biblioteca Parlamentar, ali nas proximidades, também foi danificado. Mas o Festival do Livro do Arsenal não foi cancelado. O evento internacional manteve a agenda e, de modo surpreendente, atraiu muitos escritores estrangeiros, que compareceram para lançar livros traduzidos para o ucraniano.

Um passatempo cada vez mais popular entre os moradores de Kyiv é nadar no Hydropark – uma ilha fincada entre as margens do Rio Dnipro, repleta de vegetação, e que oferece quilômetros de praia bem no centro da cidade. Conhecido ponto de lazer, o Hydropark está conectado às margens do Dnipro por duas pontes que podem ser cruzadas por carro ou metrô – na verdade, as únicas maneiras de acessar o lugar. Quando soa o alarme de ameaça de bombardeio iminente em Kyiv, o trecho subterrâneo do metrô segue rodando, enquanto a parte que trafega em via elevada interrompe o funcionamento, deixando presas na ilha as pessoas que estavam ali aproveitando um momento de descanso. Mas elas não entram em pânico. Continuam a nadar ou a tomar sol. De fato, nenhum míssil ou drone atingiu a ilha durante o conflito.

Por outro lado, mísseis e drones caem com frequência em outro destino de férias muito procurado pelos ucranianos – na costa do Mar Negro, em Odessa, e naquela região como um todo. Mas isso não afasta os ucranianos que gostam de nadar no mar.

Assim como, há um ano, Volodymyr Zelensky fala em acabar com a guerra e iniciar negociações de paz “até o fim do ano”, os ucranianos não acreditam muito nessas promessas. Nós, ucranianos, conhecemos bem Vladimir Putin e a Rússia. Sabemos que, enquanto a Rússia puder lutar, não abandonará seus planos de ocupar nosso país. Mas nós também não temos a menor intenção de abrir mão da nossa independência, da nossa soberania, do nosso desejo de tirar férias de verão mesmo durante uma guerra. Não desistiremos dos nossos projetos pessoais de futuro.

Sim, a agressão russa obriga muitos ucranianos a mudar de planos o tempo todo, mas não tolhe nossa força de vontade e autoconfiança. A agressão russa não paralisou a história ucraniana nem a história da Ucrânia independente. Apenas nos lembrou que nossa liberdade e nossas crenças têm um preço. Às vezes muito alto, às vezes alto demais.

Há poucos dias, caminhei até o Mercado Lukyanivskyi, recém-destruído por mísseis russos. Fica a 20 minutos a pé do nosso apartamento. Produtores ucranianos de morango vendiam suas frutas, vermelhas e bonitas, no chão, em meio aos destroços das barracas destruídas e aos trabalhadores que recolhiam cacos de vidro e restos carbonizados.

Sei que em um mês ou dois o mercado estará aberto novamente. O cheiro de fumaça vai se dissipar. Os agricultores voltarão a vender damascos e ameixas atrás de longas fileiras de barracas reformadas com urgência. As mães comprarão frutas e pensarão no futuro da família, pensarão na guerra. Porque o futuro da Ucrânia e de suas crianças depende dessa guerra, de quando e de como ela vai terminar.

...

O texto acima, traduzido por Jayme da Costa Pinto, foi escrito em junho deste ano, especialmente para a reedição do livro Ucrânia: diário de uma guerra, pela Editora Carambaia, a ser lançada neste mês de julho (em tradução de Marcia Vinha e Renato Marques).

O escritor Andrei Kurkov é um dos autores convidados da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participa no dia 23/7/2026, quinta-feira, às 12 horas, da Mesa 3: Não vim. Não vi. Não havia guerra alguma, junto da escritora canadense Maria Reva e da jornalista brasileira Laura Capelhuchnik. No dia 27/7, às 19 horas, ele conversa com a jornalista Patrícia Campos Mello, no auditório da Folha de S.Paulo, na Alameda Barão de Limeira, 425, Campos Elíseos.

Andrei Kurkov

É escritor, autor de Abelhas cinzentas (Porto Editora), A morte de um estranho (A Girafa) e Ucrânia: diário de uma guerra (Editora Carambaia), entre outros

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14. Cogumelos mágicos: venda suspensa

Investigação de tráfico leva site Natureza Divina a suspender venda de 'cogumelos mágicos' 

OUTRO LADO: empresa nega qualquer prática criminosa e diz que caso é 'controvérsia jurídica relevante'. Embora o cogumelo não seja proibido, suas substâncias psicoativas são vetadas pela Anvisa

André Fleury Moraes & Leandro Machado, fsp, 15.7.2026

Uma investigação de tráfico de drogas e uma decisão da Justiça de São Paulo levaram o site Natureza Divina, principal portal de comércio de cogumelos e botânica no Brasil, a suspender as vendas do Psilocybe cubensis, conhecido popularmente como cogumelos mágicos por suas propriedades psicodélicas.

Na semana passada, o site publicou uma nota anunciando a suspensão da venda de "amostras botânicas" do fungo natural após uma decisão judicial no curso de uma investigação em andamento.

O site nega qualquer prática criminosa e se defende sob o argumento de que a comercialização não configura crime porque o fungo não consta na lista de plantas e fungos proibidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Cogumelo Psilocybe cubensis é vendido em site do Natureza Divina; empresa está sob investigação por suspeita de tráfico de drogas - Reprodução Natureza Divina

A investigação por suspeita de tráfico de drogas contra o Natureza Divina e seu proprietário, Rogério Di Girolamo, começou em 28 de novembro de 2024 quando uma mulher tentou embarcar em um voo para o Rio de Janeiro no Aeroporto do Guararapes, no Recife. Segundo o inquérito policial ao qual a Folha teve acesso, ela foi flagrada com três gramas de cogumelo "escondidos nas partes íntimas". Embora a passageira tenha sido autuada por "posse de drogas para consumo pessoal", a ocorrência gerou uma investigação por suspeita de tráfico contra o site e Di Girolamo. Na abordagem, a mulher admitiu aos policiais ter comprado os cogumelos no Natureza Divina, cuja atuação começou em 2005.

Por se tratar de um aeroporto, inicialmente o caso foi encaminhado ao MPF (Ministério Público Federal) de Pernambuco.

Em 2025, no entanto, o MPF remeteu a investigação para a Polícia Civil de São Paulo, onde a empresa está registrada. Segundo o inquérito policial, o site estaria "vendendo cogumelos mágicos livremente pela internet". Psilocybe cubensis é um cogumelo alucinógeno mais conhecido e consumido do mundo. No Brasil, ele costuma ser vendido em sites especializados por R$ 60 o grama, em média.

No entanto, sua classificação ambígua pela Anvisa criou uma divergência sobre o comércio do produto.

Os princípios ativos dos fungos naturais, as substâncias psilocibina e psilocina, constam na Lista F2 do órgão, que relaciona as 182 substâncias psicotrópicas de uso proibido no Brasil.

Embora seja uma substância vetada desde 1998, nos últimos anos a psilocibina tem sido estudada no Brasil e no exterior em pesquisas sobre seu potencial terapêutico contra a depressão e a dependência de drogas, como álcool, cigarro e crack.

O Psilocybe cubensis em si, ou seja, o fungo biológico que cresce e pode ser cultivado na natureza, não consta na Lista E da Anvisa, que relaciona plantas e fungos proibidos.

No inquérito, os policiais afirmam a necessidade de "delimitar a real extensão da conduta" e determinar se o que é vendido pela empresa "são apenas amostras botânicas in natura ou se existe algum processo de extração, isolamento ou manipulação das substâncias proibidas para facilitar o consumo ou a difusão".

Em 2025, a defesa do empresário pediu o arquivamento da investigação. Em julho deste ano, o TJ-SP negou o pedido e autorizou a continuação da ação policial.

Em nota à Folha, o site Natureza Divina e seu proprietário, Rogério Di Girolamo, negam qualquer prática criminosa e classificam o caso como "notória e relevante divergência jurídica".

"A Natureza Divina observou de imediato os efeitos da decisão e segue colaborando com as autoridades, sem que a medida represente reconhecimento de ilicitude da atividade anteriormente desenvolvida", diz a defesa.

"A suspensão possui natureza cautelar e não antecipa conclusão definitiva acerca da controvérsia jurídica submetida à apreciação das autoridades competentes", completa.

Brecha

A ausência do fungo em uma lista da Anvisa e a presença de suas substâncias psicoativas em outra abriram uma brecha para que o "cogumelo mágico" seja comercializado no Brasil. Em sua maioria, eles são vendidos in natura, mas também há versões em cápsulas e chocolates.

Vendedores, consumidores e advogados argumentam que, a rigor, o cultivo e a venda dos cogumelos não seriam proibidas, mas, sim, a comercialização direta da psilocibina e da psilocina.

Segundo Konstantin Gerber, advogado da área de direito regulatório e doutor pela PUC-SP, a divergência tem motivado investigações por suspeita de tráfico de drogas em todo o país.

"Não é uma matéria pacificada nos tribunais. Ainda existe o entendimento de que o cultivo necessita de autorização da Anvisa, muito embora esta variedade de fungo não esteja na lista de cultivo proibido. Muitos processos criminais continuam envolvendo o comércio em grande escala", diz.

Em nota à reportagem, a Anvisa afirmou que a lei aprovada em 2016, e que instituiu o Sinad (Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas), "proíbe em território nacional as drogas, bem como o plantio, a cultura, a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas."

Já a SSP (Secretaria da Segurança Pública), da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirma que o caso é investigado em sigilo pelo Denarc (Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico). "A autoridade policial segue empenhada na realização de diligências para o esclarecimento dos fatos", diz a pasta, em nota.

O próprio site Natureza Divina já foi investigado sob suspeita de tráfico em outras ocasiões. Em geral, os procedimentos foram arquivados. No último deles, de maio de 2024, o MPF concluiu que a venda não envolvia a extração artificial de substâncias psicoativas e que, por isso, não se podia falar em crime.

Em outubro de 2024, no entanto, um caso parecido terminou em absolvição de dois vendedores de Minas Gerais. Os desembargadores do TJ-MG absolveram a dupla da acusação de tráfico de drogas, decisão depois ratificada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça). Segundo os magistrados, a venda do fungo integral é um "fato atípico e penalmente irrelevante devido à omissão do regulador sanitário (Anvisa) em não incluir a espécie na lista de organismos proibidos."

Principais terapias psicodélicas em estudo - galeria

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15. Casa Urich segue inabalável 

Entre novidades nem sempre certeiras, Casa Urich segue inabalável. Restaurante no Rio aposta na tradicional cozinha alemã, com croquetes de carne e salsichinhas mistas. Ao adentrar o belíssimo salão azulejado, dá para confiar que a refeição será sem sobressaltos

Cleo Guimarães, fsp, 14.jul.2026

CRÍTICA | RJ, Restaurante Casa Urich, R. São José, 50 A, região central, Rio de Janeiro. @casaurich, Cinco estrelas (Ótimo)

Novidades gastronômicas são sempre bem-vindas e, desde o fim da pandemia, o Rio passa por uma fase de abundância para todos os gostos. Algumas ótimas, outras decepcionantes. É aí que entra a segurança de voltar à Casa Urich, no centro da cidade.

Adentrar o belíssimo salão azulejado do restaurante de comida alemã e ser saudada pelos garçons de gravatinha borboleta é mais ou menos como pedir um Uber e ter a confirmação de que sua motorista será uma mulher. Nós, mulheres, sabemos. Bate um certo alívio e a sensação de que as chances de a jornada transcorrer sem sobressaltos aumentam exponencialmente.

Schnitzel com salada de batata e crisps de bacon do restaurante Casa Urich, no Rio de Janeiro - @casaurich no Instagram

Foi assim que me senti nas duas últimas visitas ao endereço, que desde 1913 serve generosos e honestos pratos típicos germânicos, como o schnitzel (carne de porco à milanesa), mais fininho que o habitual por ser feito com a carne moída, e não batida. Ele vem com salada de batata, ovo e pedaços de bacon (R$ 54). Tudo saboroso, nos conformes, sem deslizes.

O vasto menu traz, dos aperitivos às sobremesas, o receituário tradicional da cozinha alemã, com direito a croquete de carne de recheio cremoso (R$ 11,50), perfeito com a mostarda escura que o garçom traz sem que seja preciso pedir, assim como o azeite e o molho de pimenta (outro ponto para o pessoal do salão).

Conheça pratos do restaurante Casa Urich, no Rio de Janeiro - galeria

As salsichinhas mistas (R$ 47) são mais um petisco interessante —e, ao contrário dos croquetes, com poucos concorrentes no Rio. A porção, boa para compartilhar, é ladeada por uma cesta de pão e traz duas opções das versões vermelhas, e a weisswurst, branca. Elas se complementam em diferentes níveis de tempero e picância e, nessa hora, o chope escuro (R$ 12), que anda rareando nos bares da cidade, é tudo o que você deve pedir.

Nem só de comida alemã se faz o cardápio da Casa Urich. Entre pedidos como o gostoso kassler defumado com chucrute e salada de batata com aipo e roquefort (R$ 76) e o joelho de porco (eisben) com batata sauté e chucrute, que tem um vasto fã-clube, o restaurante também aposta em receitas brasileiras.

Há alternativas como o excelente bobó de camarão com arroz e farofa de dendê (R$ 69).

Ah, mas vai comer bobó no restaurante alemão? Sim. E recomendo com veemência. Estava melhor do que muitos que já provei até em casas de cozinha baiana.

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16. Um show coletivo da Espanha - Copa 2026

Tostão, fp, 14.7.2026

La Roja anulou o poderoso time francês com posse de bola e troca de passes. Franceses não tiveram uma única clara chance de gol

A Espanha está na final. A equipe anulou o poderoso time francês por meio da posse de bola e da troca de passes, como costuma fazer. Mais que isso. Quando não tinha a bola, se posicionava muito bem, alternando a pressão para recuperá-la rapidamente, com a marcação mais recuada para fechar os espaços.

A França não teve uma única clara chance de gol. A Espanha fez dois gols: um de pênalti, outro após uma bela troca de passes. E teve oportunidades para fazer o terceiro gol. Foi uma aula, um show coletivo, com ótimas atuações individuais, especialmente do meio-campista Rodri. A França decepcionou mais pela atuação coletiva da Espanha do que pela falta de inspiração de seus craques.

Veja lances da semifinal entre Espanha e França na Copa de 2026 - galeria

Rodri é o pêndulo, elo entre o meio-campo e o ataque. Ele se movimenta de um lado a outro da própria intermediária e inicia as jogadas com um ou dois toques na bola e passes precisos. Raramente erra um passe, pois não tenta o passe impossível. Quando é necessário, dá excelentes passes longos, de um lado para o outro ou para a frente. Craque não é só quem faz muitos gols.

Além de Rodri, a Espanha tem dois excepcionais meio-campistas: Fabián Ruiz, que iniciou o jogo, e Pedri, que entrou no segundo tempo. Isso é uma das principais deficiências da seleção brasileira, não ter um grande craque no meio-campo.

A derrota da França não diminui a qualidade de seus jogadores ou da equipe. A multicultural França passou a ter grandes jogadores por causa das escolinhas nas periferias, com a presença de um grande número de imigrantes e pela eficiência do projeto esportivo do Centro Nacional de Futebol, em Clairefontaine. O excepcional futebol francês não existe por acaso.

A Espanha vai enfrentar na final o vencedor entre Inglaterra e Argentina. As duas seleções não tiveram grandes atuações, mas, graças aos craques, à força coletiva, à capacidade de superar as dificuldades e ao acaso, são candidatas ao título. Não há favorito. São equipes diferentes no desenho tático e na estratégia.

A Inglaterra joga com quatro defensores, dois meio-campistas, um meia-atacante centralizado (Bellingham), dois pontas rápidos e dribladores e um centroavante (Kane), que se movimenta por todo o ataque. Já a Argentina atua com quatro defensores, quatro no meio-campo e dois atacantes pelo centro (Messi e Álvarez), sem pontas.

Enquanto a Argentina preenche mais o meio-campo para trocar passes e ficar com a bola, uma estratégia parecida com a da Espanha, até Messi recebê-la para acelerar em direção ao gol, a Inglaterra prioriza as transições rápidas e os lançamentos longos.

Por causa da enorme rivalidade, da Guerra das Malvinas e de jogos históricos —como no Mundial de 1986, quando Maradona fez dois gols inesquecíveis, um driblando vários adversários, até o goleiro, e outro com a malandragem de usar a mão—, os argentinos esperam uma grande vitória e uma excepcional atuação de Messi para homenagear Maradona. As comparações entre os dois fenômenos serão ainda mais frequentes.

Messi, por ter uma longa, espetacular e regular carreira, é mais craque. Mas os momentos deslumbrantes de Maradona são mais empolgantes e artísticos que os maiores de Messi. O craque atual representa a realidade, a razão, o máximo possível de ser feito, enquanto o grande Maradona simboliza a paixão, o tango, o trágico e o sonho impossível.

Muitos argentinos gostam mais de Maradona porque ele representaria a ambição, a inconsistência, a esperteza e a loucura humana.

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17. Christopher Nolan e sua versão de 'Odisseia¹

Christopher Nolan, com versão de 'Odisseia', renova as ambições de seu cinema 

Cineasta volta aos fantasmas da guerra após 'Oppenheimer'. Elenco tem Matt Damon, Anne Hathaway e Tom Holland

Matt Damon em cartaz do filme 'A Odisseia', de Christopher Nolan - Divulgação

Leonardo Sanchez, fsp, 15.7.2026

"Uma época de magia aparente." É assim, com essa frase na tela, que Christopher Nolan dá início à sua versão hiperbólica para "Odisseia", poema atribuído a Homero e tido como um dos textos basilares da cultura ocidental. Pela primeira vez, ele ganha as telas em formato de blockbuster, com todas as benesses que um cineasta recém-laureado com o Oscar poderia querer.

Numa Hollywood que cada vez mais aperta os cintos orçamentários, escolhendo onde filmar com uma frieza pragmática e substituindo cenários e adereços por telas verdes, o filme de Nolan parece mesmo fruto de magia.

Com seu orçamento avaliado em US$ 250 milhões, cerca de R$ 1,3 bilhão, "A Odisseia" teve cenas filmadas em seis países – Grécia, Marrocos, Itália, Islândia, Escócia e Estados Unidos–, viu seus prédios e objetos de cena serem construídos do zero e foi capturado por uma câmera desenvolvida especialmente para o projeto, o primeiro filmado inteiramente em Imax.

'A Odisseia' é adaptação épica para texto de Homero - galeria

Figurantes e criaturas da mitologia grega também estavam fisicamente presentes, em vez de terem sido geradas por computação gráfica, e o elenco protagonista reuniu alguns dos nomes mais bem pagos da indústria, como Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Zendaya, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o e Charlize Theron.

"Caminhar pelo set e ver milhares de pessoas fez eu me sentir como se eu estivesse filmado um longa há 80 anos", diz Damon, em sua terceira parceria com Nolan. Ele assume o papel de Odisseu — ou Ulisses, na versão em latim–, o trágico herói grego que demora 20 anos para voltar para casa, a ilha de Ítaca, após a Guerra de Troia.

Assim, "A Odisseia" é uma renovação das ambições do cinema de Nolan e da confiança que Hollywood deposita neste que é um dos cineastas mais celebrados de sua geração, dono de uma filmografia que inclui ainda três capítulos bem-sucedidos de "Batman", "Interestelar" e "A Origem".

"‘A Odisseia’ é uma história maravilhosa para o cinema, porque ela abraça os elementos mais fantásticos da mitologia grega, e poder levar isso para um filme grandioso e moderno realmente me animou", disse Nolan na semana passada, em meio à estreia mundial do filme em Londres e a ressalvas daqueles que, apenas pelo trailer, acharam sua versão contemporânea demais.

Cartaz do filme 'A Odisseia', de Christopher Nolan - Divulgação

"Sempre que você narra uma história, você o faz a partir da interpretação que tem dela. E, enquanto cineasta, eu sempre tento deixá-la atraente para o público. Por isso precisava de uma abordagem terrena. Tentei criar um mundo coerente, que o público pudesse compreender."

Há dois anos, o britânico enfim venceu um aguardado Oscar de direção e outro de melhor filme por "Oppenheimer", sucesso inesperado também de bilheteria, onde beirou o US$ 1 bilhão, ou R$ 5 bilhões, de arrecadação. Um feito que muitos analistas acreditavam ser improvável, dada a natureza densa, as cenas em preto e branco, a classificação indicativa para maiores e as três horas de duração do longa.

Nesse primeiro projeto após as sete estatuetas vencidas por "Oppenheimer", Nolan retorna aos temas já explorados na cinebiografia do inventor da bomba atômica. Como naquela história, "A Odisseia" fala dos fantasmas da guerra e tem um protagonista atormentado muito mais por suas escolhas e as repercussões delas do que por armas, no primeiro caso, ou monstros, no segundo.

"Eu cheguei ao fim de ‘A Odisseia’ percebendo que eu havia continuado a examinar coisas que achei interessantes e, francamente, perturbadoras em ‘Oppenheimer’", diz Nolan. "Quanto mais trabalhava nessa adaptação, mais eu percebia que os temas de Homero eram universais, mesmo que a sociedade tivesse mudado tanto. As pessoas ainda olham para essa história em busca de verdades e respostas para questões complexas."

Assim, Odisseu precisa enfrentar as mesmas sereias, feiticeiras e gigantes do poema de séculos atrás, mas por uma lente mais humana, seguindo uma bússola orientada pela moral de hoje. Para Nolan, ele é um homem atormentado, não um herói infalível.

Ele parte rumo a Ítaca, onde sua mulher, Penélope, vivida por Hathaway, o aguarda pacientemente. Ela é impelida a escolher um novo marido para governar a ilha, mas diz que só o fará quando finalizar a mortalha para o seu sogro. De dia, diante de todos no palácio, ela tece. À noite, escondida na penumbra, desmancha o trabalho.

Enquanto isso, o único herdeiro de Odisseu, Telêmaco, vivido por Holland, navega pelo rol de pretendentes que aguardam ansiosamente por uma oportunidade para matá-lo. Inseguro, ele também segue a ideia de desconstrução do herói grego sugerida por Nolan, ao clamar pela volta do pai e até chorar em cena. É como se houvesse uma inversão entre a mãe abandonada e o filho prodígio.

"Penélope é casada com o homem mais astuto que existe, mas eles se tratam como iguais, o que quer dizer que ela é igualmente capaz de entender sua situação e navegar por ela. Ela vê tudo o tempo inteiro, não está sendo manipulada, como alguns podem pensar", diz Hathaway.

"Nós tentamos mostrar quão jovem Telêmaco é; ele tem apenas 16 anos, então queríamos que o público se conectasse com ele, o visse como um irmão mais novo. Mostrá-lo como um homem vulnerável foi uma porta de entrada importante nesse sentido. Não acho que a história dele seja uma de bravura, mas sim de desespero", afirma Holland.

Ambos acreditam que o cinema passa por uma boa fase –de reconstrução, mas ainda assim positiva–, apesar da dificuldade de muitos exibidores em reconquistar o público perdido para o streaming. São filmes como "A Odisseia", épicos feitos à moda antiga, para telas gigantes, que ajudam a manter a experiência cinematográfica viva. "As pessoas estão se apaixonando pelo cinema novamente, e filmes como este são importantes", diz Holland.

É como se o cinema de Nolan tomasse para si o que ele acredita ser o maior ensinamento dos gregos, a xênia, lei sagrada de Zeus que prega que anfitriões recebam bem seus visitantes –ou que os cinemas que exibem seus filmes tratem bem o espectador, oferecendo uma experiência à altura do notório preciosismo técnico do britânico.

No filme, o conceito da gentileza para com o próximo guia tanto a jornada de Odisseu, quanto a espera de Penélope num palácio abarrotado de pretendentes desagradáveis. É uma discussão que também ajuda "A Odisseia" a se posicionar como um comentário contundente sobre os dias de hoje.

Espécie de guia espiritual de Odisseu nos 20 anos que ele passa longe de Ítaca, a deusa Atena, que assume a forma humana de Zendaya, é outra que reforça a lei sagrada ao lembrar dos horrores causados pelo Cavalo de Troia —uma ideia do protagonista— e pelos homens que se esconderam dentro dele para massacrar o inimigo estrangeiro.Espécie de guia espiritual de Odisseu nos 20 anos que ele passa longe de Ítaca, a deusa Atena, que assume a forma humana de Zendaya, é outra que reforça a lei sagrada ao lembrar dos horrores causados pelo Cavalo de Troia — uma ideia do protagonista — e pelos homens que se esconderam dentro dele para massacrar o inimigo estrangeiro.

Para a atriz, o filme é uma oportunidade de revisitar o passado para entender um presente de guerras e discursos de ódio. "Eu não quero desistir da humanidade, mesmo que esse sentimento seja justificável muitas vezes. Espero que a gente possa usar a lei de Zeus, que é algo muito simples, e lembrar que somos todos seres humanos. Os mesmos privilégios que queremos para nós, deveríamos querer para os outros."

O repórter viajou a convite da Universal PicturesEspécie de guia espiritual de Odisseu nos 20 anos que ele passa longe de Ítaca, a deusa Atena, que assume a forma humana de Zendaya, é outra que reforça a lei sagrada ao lembrar dos horrores causados pelo Cavalo de Troia —uma ideia do protagonista— e pelos homens que se esconderam dentro dele para massacrar o inimigo estrangeiro.

Para a atriz, o filme é uma oportunidade de revisitar o passado para entender um presente de guerras e discursos de ódio. "Eu não quero desistir da humanidade, mesmo que esse sentimento seja justificável muitas vezes. Espero que a gente possa usar a lei de Zeus, que é algo muito simples, e lembrar que somos todos seres humanos. Os mesmos privilégios que queremos para nós, deveríamos querer para os outros."

Para a atriz, o filme é uma oportunidade de revisitar o passado para entender um presente de guerras e discursos de ódio. "Eu não quero desistir da humanidade, mesmo que esse sentimento seja justificável muitas vezes. Espero que a gente possa usar a lei de Zeus, que é algo muito simples, e lembrar que somos todos seres humanos. Os mesmos privilégios que queremos para nós, deveríamos querer para os outros."

O repórter viajou a convite da Universal Pictures

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18. O Legado de Aaron Swartz 

Aaron Swartz e o acesso aberto ao conhecimento ler aqui 

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19. A direita se comunica melhor que a esquerda? - Bruno Torturra - programa 20 Minutos - vídeo

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20. O racismo na Argentina - vídeos

COMO A ARGENTINA SE TORNOU UM PAÍS TÃO RACISTA 

BRAUNE REVELA CONFUSÃO COM TORCIDA ARGENTINA NO JOGO CONTRA CABO VERDE 

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21. Quem foi Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah morto por Israel?

Kayvan Hosseini, BBC Persian, Published, 8 novembro 2023, Atualizado 28 setembro 2024

Hassan Nasrallah, líder do movimento militante islâmico xiita Hezbollah  do Líbano, foi uma das figuras mais conhecidas e influentes do Oriente Médio.

Ele não era visto em público há anos por medo de ser assassinado por Israel. E, neste sábado (28/9/2024), o Hezbollah confirmou sua morte após um ataque das forças israelenses a Beirute.

Os ataques aéreos israelenses contra alvos do Hezbollah no sul do Líbano e em Beirute começaram em 21 de setembro. Mas segundo as Forças de Defesa de Israel (IDF), um ataque na noite de sexta-feira (27) atingiu o quartel-general do grupo libanês em Beirute, onde, segundo as forças israelenses, Hassan Nasrallah estava.

Leia mais: Hezbollah confirma morte do líder Hassan Nasrallah após ataques de Israel 

Líder religioso xiita, Nasrallah esteve à frente do grupo Hezbollah no Líbano desde fevereiro de 1992. Esse grupo é atualmente considerado um dos partidos políticos mais influentes no Líbano, que possui suas próprias forças armadas, juntamente com o Exército Nacional Libanês.

Nasrallah, popular tanto no Líbano quanto em outros países árabes, era considerado o principal rosto do Hezbollah e desempenhou um papel fundamental na virada histórica desse grupo para entrar na arena política e ganhar poder na estrutura do governo libanês.

Ele mantinha uma relação especial tanto com a República Islâmica do Irã quanto com seu líder, o aiatolá Ali Khamenei. Apesar de o Hezbollah ter sido incluído na lista de organizações terroristas pelos Estados Unidos, nem os líderes do Irã nem Nasrallah jamais esconderam sua relação próxima.

Hassan Nasrallah tinha tantos fãs apaixonados quanto inimigos ferrenhos. Por esse motivo, ele não aparecia em público há anos. No entanto, sua reclusão não privou seus seguidores de seus discursos, que ocorrem quase toda semana.

Esses discursos eram vistos, na verdade, como uma ferramenta importante de Nasrallah para exercer poder, e por meio deles, ele comentava diversas questões no Líbano e no mundo, buscando exercer pressão sobre seus adversários.

Pouco depois do nascimento de Hassan Nasrallah, a guerra civil começou no Líbano

Infância e adolescência

Hassan Nasrallah nasceu em agosto de 1960 em um dos bairros pobres no leste de Beirute. Seu pai possuía uma pequena mercearia, e Hassan era o filho mais velho entre nove irmãos.

Ele tinha apenas cinco anos quando a guerra civil eclodiu no Líbano, um conflito devastador que mergulhou este pequeno país à beira do Mar Mediterrâneo em 15 anos de caos, durante os quais os cidadãos libaneses demarcaram fronteiras e lutaram uns contra os outros com base em sua religião e etnia.

O início da guerra levou o pai de Hassan Nasrallah a decidir deixar Beirute e retornar à sua aldeia ancestral no sul do Líbano: uma vila chamada "Al-Bazouriyeh", cujos habitantes eram xiitas, como muitas aldeias na cidade de "Tyre" (Sour) na província de "Al-Janub".

Ele passou anos importantes de sua educação primária e secundária no sul do Líbano, entre os xiitas. Esses xiitas acreditavam que, durante a era colonial das grandes potências como o Império Otomano e a França, enfrentaram discriminação e desigualdade. Esse sentimento persistiu durante o período de independência, quando as elites cristãs e sunitas ganharam poder.

Nesse período, os grupos militantes cristãos e sunitas foram acusados de receber ajuda de países estrangeiros para obter sucesso militar.

Ao mesmo tempo, a população xiita, que é a maioria no sul do Líbano, além do Vale de Beqaa no leste do Líbano, juntamente com um pequeno grupo de cristãos maronitas e ortodoxos, eram considerados a linha de frente das guerras de Israel nos longos anos de estabelecimento do domínio judeu na Palestina.

Nesse ambiente, Hassan Nasrallah não apenas se voltou para sua identidade xiita e raízes étnicas, mas, aos 15 anos, tornou-se membro do grupo político-militar xiita libanês mais importante da época: o Movimento Amal, um grupo influente e ativo fundado por um clérigo iraniano chamado Musa al-Sadr.

Hassan Nasrallah (centro) encontrou-se com Abbas Mousavi (à direita) durante sua estada em Najaf

Retornando ao Líbano e à luta armada

Hassan Nasrallah emigrou para Najaf, no Iraque, aos 16 anos.

O Iraque era, naquela época, um país instável que vivenciara duas décadas de revoluções consecutivas, golpes sangrentos e assassinatos políticos. Nesse período, embora Hasan al-Bakr ainda estivesse oficialmente no poder, Saddam Hussein, o vice-presidente do Iraque na época, havia ganhado influência significativa.

Apenas dois anos após a presença de Hassan Nasrallah em Najaf, os líderes do Partido Ba'ath e, em especial, Saddam, chegaram à conclusão de que deveriam tomar medidas para enfraquecer ainda mais os xiitas. Uma de suas decisões foi expulsar todos os estudantes xiitas libaneses dos seminários iraquianos.

Embora Hassan Nasrallah tenha estudado em Najaf por apenas dois anos e depois tenha tido que deixar o país, sua presença em Najaf teve um profundo impacto na vida desse jovem libanês: ele conheceu outro clérigo chamado Abbas Mousavi em Najaf.

Mousavi foi considerado um dos alunos de Musa al-Sadr no Líbano e, durante sua estadia em Najaf, foi fortemente influenciado pelas ideias políticas de Ruhollah Khomeini. Ele era oito anos mais velho que Nasrallah e assumiu rapidamente o papel de um professor rigoroso e mentor influente na vida de Hassan Nasrallah.

Após retornar ao Líbano, os dois se juntaram à luta na guerra civil. Desta vez, no entanto, Nasrallah foi para a cidade natal de Abbas Mousavi no Vale do Beqaa, onde estudou no seminário local.

Hassan Nasrallah foi nomeado representante de Khomeini para certos assuntos religiosos no Líbano

A revolução iraniana e a fundação do Hezbollah

Um ano depois de Hassan Nasrallah retornar ao Líbano, ocorreu uma revolução no Irã. Ruhollah Khomeini, que havia angariado a admiração de clérigos como Abbas Mousavi e Hassan Nasrallah, assumiu o poder. Esse evento mudou profundamente a relação entre os xiitas do Líbano e o Irã. Além disso, a vida política e a luta armada dos xiitas libaneses foram significativamente influenciadas pelos eventos no Irã e pela ideologia do islamismo xiita.

Para Hassan Nasrallah, essa transformação profunda se deveu em grande parte a uma decisão de Ruhollah Khomeini. Em 1981, Nasrallah se encontrou com o então líder da República Islâmica do Irã em Teerã. Khomeini o nomeou como seu representante no Líbano para "cuidar dos assuntos de Hisbah e obter fundos islâmicos".

Posteriormente, Nasrallah começou a fazer viagens ocasionais ao Irã, estabelecendo relações com os mais altos níveis de tomada de decisões e poder dentro do governo iraniano.

Os islamistas xiitas no Irã deram grande importância ao registro histórico e aos laços religiosos com os xiitas libaneses.

O sentimento antiocidente era uma pedra angular da versão iraniana do islamismo xiita, propagada por Ruhollah Khomeini. A política de moldar as notícias no Oriente Médio tomou a forma do antissionismo, dando manifestação objetiva a essa postura. Consequentemente, a "causa palestina" tornou-se uma das principais prioridades na política externa do Irã revolucionário.

Nesse período, o Líbano, já cercado pela guerra civil e instabilidade, havia se tornado uma base significativa para combatentes palestinos. Eles tinham uma forte presença no sul do Líbano, além de Beirute.

Com a crescente instabilidade no Líbano, Israel atacou o país em junho de 1982, ocupando rapidamente partes significativas. Israel alegou que o ataque foi em resposta à agressão palestina.

Pouco depois da incursão de Israel, os comandantes militares do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica no Irã (IRGC), experientes em guerra convencional devido ao ataque do Iraque ao Irã, decidiram estabelecer um grupo miliciano no Líbano totalmente afiliado ao Irã. Eles escolheram o apelido pelo qual eram conhecidos no Irã como nome desse grupo: 'Hezbollah', que significa ‘Partido de Deus’.

Em 1985, o Hezbollah anunciou oficialmente sua fundação. Hassan Nasrallah e Abbas Mousavi, juntamente com alguns outros membros do movimento Amal, se juntaram a esse grupo recém-criado. Ele foi liderado por outra figura chamada Subhi al-Tufayli. Este grupo rapidamente marcou sua presença na política regional realizando ações armadas contra as forças americanas no Líbano.

Nasrallah sempre tentou demonstrar sua lealdade ao Irã

Liderança

Quando Nasrallah se juntou ao grupo que viria a ser o Hezbollah, ele tinha apenas 22 anos e, segundo os padrões dos mulás xiitas, era considerado um novato. Na metade dos anos 80, à medida que a relação de Nasrallah com o Irã se aprofundava, ele decidiu se mudar para a cidade de Qom para continuar seus estudos religiosos.

Durante seu tempo no seminário de Qom, Nasrallah se tornou proficiente em persa e estabeleceu amizades próximas com muitos líderes político-militares no Irã. Quando ele retornou ao Líbano, logo surgiu uma significativa discordância entre ele e Abbas Mousavi. Na época, Mousavi apoiava o aumento da atividade e influência síria no Líbano sob a liderança de Hafez Assad. Por outro lado, Nasrallah insistia que o grupo se concentrasse em ataques contra soldados americanos e israelenses.

Nasrallah se viu em minoria dentro do Hezbollah, e pouco depois foi nomeado como "representante do Hezbollah no Irã". Essa posição o levou de volta ao Irã e, ao mesmo tempo, o distanciou do Líbano. Superficialmente, parecia que a influência do Irã sobre o Hezbollah estava diminuindo e, apesar do amplo apoio de Teerã, influenciar as decisões do Hezbollah se mostrava desafiador.

A tensão aumentou a ponto de, em 1991, Subhi al-Tufayli ser removido do cargo de Secretário-Geral do Hezbollah devido à sua oposição à afiliação do grupo com o Irã. Abbas Mousavi foi nomeado em seu lugar.

Após a remoção de Al-Tufayli, Hassan Nasrallah, cujas opiniões sobre o papel da Síria no Líbano aparentemente se ajustaram, voltou ao seu país e efetivamente se tornou o segundo no comando do grupo Hezbollah.

Aos 32 anos, Nasrallah foi eleito secretário-geral do Hezbollah

Comando do Hezbollah

Abbas Mousavi foi assassinado por agentes israelenses menos de um ano depois de ser eleito Secretário-Geral do Hezbollah. No mesmo ano, 1992, a liderança desse grupo caiu nas mãos de Hassan Nasrallah.

Na época, ele tinha 32 anos, e muitos consideraram sua escolha relacionada às suas conexões especiais com o Irã. Mesmo na perspectiva de muitos clérigos xiitas, ele carecia de educação religiosa suficiente, e por essa razão, ele retomou seus estudos simultaneamente.

Uma importante iniciativa de Hassan Nasrallah na época foi a nomeação de alguns filiados e membros do "Hezbollah" nas eleições libanesas. Um ano havia se passado desde que a Arábia Saudita mediou na guerra civil libanesa e em seu término. Nasrallah decidiu tornar o braço político do Hezbollah um ator sério no país, ao lado de seu braço militar.

Como resultado dessa estratégia, o Hezbollah conseguiu conquistar oito assentos no parlamento libanês. Ao mesmo tempo, o grupo "Hezbollah" ainda era acusado de planejar e executar operações terroristas. O bombardeio do Centro Judaico AMIA na Argentina e o ataque à embaixada israelense na Argentina ocorreram durante esse período.

Enquanto isso, com base no Acordo de Taif, que encerrou a guerra civil libanesa, o Hezbollah foi autorizado a manter suas armas. Naquela época, Israel havia ocupado o sul do Líbano, e o Hezbollah, como organização que lutava contra a força de ocupação, permaneceu armado. Na prática, essas armas se tornaram legítimas e legais.

O apoio financeiro do Irã ao grupo Hezbollah do Líbano também permitiu a Nasrallah oferecer bem-estar e serviços sociais a muitos xiitas libaneses, formando uma rede complexa de escolas, hospitais e associações de caridade. Essa política, que continua até os dias de hoje, se tornou um dos aspectos importantes do movimento político-social dos xiitas no Líbano.

O grupo Hezbollah cresceu significativamente durante a liderança de Nasrallah

A retirada de Israel e a popularidade de Nasrallah

Em 2000, Israel anunciou que se retiraria completamente do Líbano, encerrando sua ocupação nas regiões do sul do país.

O grupo Hezbollah celebrou esse evento como uma grande vitória, e o crédito por essa conquista foi atribuído a Nasrallah. Foi a primeira vez que Israel deixou unilateralmente o território de um país árabe sem um acordo de paz, e muitos cidadãos árabes da região consideraram isso uma conquista importante.

No entanto, desde então, a questão das armas do Líbano se tornou uma das questões importantes relacionadas à estabilidade e segurança do Líbano. A retirada de Israel do Líbano justificou a legitimidade do Hezbollah permanecer armado, levando tanto grupos políticos rivais quanto potências estrangeiras a pedir o desarmamento do grupo - um pedido ao qual Nasrallah nunca concordou.

Posteriormente, Nasrallah chegou a um acordo de troca de prisioneiros durante negociações com Israel, resultando na libertação de mais de 400 prisioneiros palestinos, libaneses e cidadãos de outros países árabes. Nesse momento, Nasrallah parecia mais poderoso e influente do que nunca, e seus rivais na política libanesa enfrentavam um sério desafio ao confrontá-lo e impedir a expansão de sua influência e poder.

Apesar de vários dias de manifestações de milhares de pessoas em Beirute contra Nasrallah e o seu grupo, ele rapidamente recuperou o poder perdido

O assassinato de Hariri e a retirada da Síria

Mas em 2005, após o assassinato de Rafic Hariri, o primeiro-ministro do Líbano na época, a opinião pública mudou. Hariri era considerado um dos políticos mais importantes próximos à Arábia Saudita, que havia feito extensos esforços para evitar o aumento do poder do Hezbollah.

A raiva pública foi direcionada ao grupo Hezbollah e seu principal apoiador militar dentro do Líbano, a Síria, que foram acusados de estar envolvidos no assassinato de Hariri. Como resultado de enormes manifestações da oposição em Beirute, a Síria anunciou que retiraria suas forças do país.

No entanto, quando as eleições parlamentares foram realizadas no mesmo ano, não apenas os votos do Hezbollah aumentaram, mas o grupo também conseguiu enviar dois de seus membros para o governo e assumir o controle de dois ministérios, aproveitando seus assentos parlamentares. A partir daí, Nasrallah posicionou seu grupo como entidade nacionalista leal ao Líbano, pronto para fornecer um "mártir" pelo país e contra se submeter à dominação de outras potências.

No verão de 2006, militantes do Hezbollah invadiram Israel, matando um soldado e fazendo reféns dois outros. A resposta de Israel foi um ataque feroz que durou 33 dias, durante os quais quase 1.200 libaneses foram mortos. O resultado dessa guerra foi o aumento da popularidade de Nasrallah, que foi retratado nos países árabes como a última pessoa resistindo a Israel.

Ao final da guerra, o Hezbollah ainda se recusou a se desarmar. Além disso, o grupo desempenhou um papel fundamental na reconstrução das ruínas deixadas pela guerra - um papel que, segundo os oponentes da República Islâmica no Irã, foi possibilitado pelo generoso apoio financeiro de Teerã.

Hassan Nasrallah é atualmente uma das figuras mais populares entre os xiitas libaneses

Aumento de poder e consolidação da posição de Nasrallah

Com o aumento do poder do Hezbollah, os rivais — especialmente políticos sunitas libaneses — insistiam que o grupo havia formado um governo dentro do governo, afirmando que suas atividades enfraqueceriam a segurança e a economia do país.

Em 2007, após meses de conflito político, o governo libanês decidiu que o sistema de telecomunicações controlado pelo Hezbollah deveria ser desmantelado e que os assuntos de telecomunicações deveriam estar sob controle exclusivo do governo. Nasrallah não apenas rejeitou essa decisão, mas em pouco tempo, suas milícias tomaram o controle total de Beirute.

Essa ação de Nasrallah foi amplamente criticada pelos países ocidentais. No entanto, após negociações políticas, ele conseguiu aumentar o poder de seu grupo no gabinete libanês e, o que é mais importante, garantir o direito de veto nas decisões do gabinete.

Em 2008, apesar da redução no número de assentos do Hezbollah no parlamento libanês, Nasrallah conseguiu manter o direito de veto.

No mesmo ano, o gabinete libanês aprovou que o Hezbollah poderia manter suas armas. A partir daí, Hassan Nasrallah se tornou uma figura que praticamente nenhum dos elites políticos libaneses conseguia remover do cenário ou diminuir seu poder.

Nem a renúncia dos primeiros-ministros que se opuseram a ele e nem mesmo a intervenção sem precedentes de Mohammed bin Salman, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, conseguiram enfraquecê-lo. Pelo contrário, ao longo desses anos, com o apoio da República Islâmica do Irã, Nasrallah conseguiu navegar por crises históricas como a Primavera Árabe, a guerra civil na Síria e a contínua crise econômica no Líbano.

Em 8 de outubro de 2023 - um dia após o ataque sem precedentes do Hamas a Israel, que desencadeou a guerra em Gaza - os combates anteriormente esporádicos entre o Hezbollah e as forças israelenses aumentaram.

O Hezbollah passou a disparar contra posições israelenses, em solidariedade aos palestinos.

Em um discurso em novembro, Nasrallah disse que o ataque do Hamas foi "100% palestino em termos de decisão e execução", mas que os disparos entre seu grupo e Israel eram "muito importantes e significativos".

O grupo lançou mais de 8.000 foguetes no norte de Israel e nas Colinas de Golã ocupadas por Israel. Também disparou mísseis antitanque contra veículos blindados e atacou alvos militares com drones explosivos.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) retaliaram com ataques aéreos e fogo de tanques e artilharia contra posições do Hezbollah no Líbano.

Em seu discurso mais recente, Nasrallah culpou Israel por detonar milhares de pagers e aparelhos de rádio usados ​​por membros do Hezbollah, um ataque que matou 39 pessoas e feriu milhares de outras, e disse que o país "cruzou todas as linhas vermelhas". Ele reconheceu que o grupo sofreu um "golpe sem precedentes".

Pouco depois, Israel intensificou dramaticamente os ataques ao Hezbollah, lançando ondas de bombardeios que mataram quase 800 pessoas.

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21. O martírio de Hussein em Karbala e a Ashura

O martírio de Hussein em Karbala e a Ashura

Inspiração divina, 17/06/2025. Por Vivian Lima

O martírio do Imam Hussein, neto do profeta Maomé, na Batalha de Karbala, é um dos eventos mais importantes e simbólicos para o islamismo xiita. Celebrado anualmente no dia de Ashura, esse episódio representa a luta contra a injustiça e a opressão. Neste artigo, exploramos a história, significado e práticas religiosas ligadas a essa data sagrada.

1. Contexto histórico da Batalha de Karbala

Em 680 d.C., durante o califado de Yazid I, neto do califa Muawiya, Hussein ibn Ali recusou-se a reconhecer a autoridade do governante por considerá-lo ilegítimo e corrupto. Hussein e seus seguidores foram cercados em Karbala, na atual região do Iraque, e foram mortos após dias de cerco e sede.

2. O martírio de Hussein

Hussein e cerca de 72 companheiros, incluindo membros de sua família, enfrentaram o exército de Yazid em condições extremamente adversas. A morte de Hussein é vista como um sacrifício supremo pela justiça e pela defesa dos valores islâmicos autênticos, tornando-o um mártir eterno para os xiitas.

3. Significado espiritual do martírio

O sacrifício de Hussein simboliza a resistência contra a tirania e a defesa da fé verdadeira. Para os xiitas, ele é o modelo máximo de coragem, sacrifício e devoção a Deus. Sua história reforça a importância de lutar pela justiça mesmo diante da adversidade e da morte.

4. A celebração da Ashura

Ashura, que significa “décimo” em árabe, ocorre no décimo dia do mês de Muharram do calendário islâmico. É o momento em que os xiitas lembram o martírio de Hussein com cerimônias religiosas, leituras de lamentações, encenações dramáticas (ta’ziyeh) e manifestações públicas de dor e fé.

5. Rituais e práticas durante a Ashura

Os fiéis participam de procissões, onde relembram a saga de Karbala por meio de cânticos, discursos e dramatizações. Muitos se ferem simbolicamente para compartilhar a dor do martírio. É um momento de reflexão sobre a injustiça e um chamado à renovação da fé e do compromisso espiritual.

6. A importância social e política da Ashura

Além da dimensão religiosa, Ashura é um símbolo poderoso de resistência contra a opressão. Ao longo da história, movimentos de libertação e protestos na comunidade xiita se inspiraram no legado de Hussein para reivindicar justiça social e direitos humanos.

7. O impacto da memória de Karbala no mundo islâmico

A memória do martírio de Hussein une milhões de xiitas em todo o mundo, especialmente no Irã, Iraque, Líbano e Paquistão. Os santuários em Karbala e Najaf atraem milhões de peregrinos anualmente, reforçando a importância espiritual dessa narrativa para a identidade xiita.

8. Conclusão: legado eterno de Hussein

O martírio de Hussein em Karbala e a celebração da Ashura são centrais para a fé e cultura xiita. Eles simbolizam a luta eterna entre o bem e o mal, a justiça e a tirania. Este legado continua a inspirar fé, coragem e resistência em milhões de crentes ao redor do mundo.

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22. À Procura de Haaland

Na Noruega, o ídolo do campo está apagado nas esquinas

Luiz Henrique Matos, piaui, 06 Julho 2026

A celebração do 2 a 1 sobre o Brasil durou menos de duas horas, e logo tudo voltou ao silêncio

Estou à procura de Haaland. Andando pelas ruas de Oslo há dois dias, não encontro vestígios do atacante ou de seus companheiros.

Na viagem de São Paulo para cá, na terça-feira, ainda na área de embarque do aeroporto, assisti ao final do jogo que garantiu a classificação dos noruegueses para as oitavas de final contra o Brasil. Só então me dei conta de que estaria em território inimigo quando a batalha acontecesse.

Ao desembarcar, assisti, nos monitores do lobby do aeroporto, ao noticiário da tevê local reportando que milhares de torcedores haviam tomado as ruas do Centro da cidade, nas proximidades do Palácio Real de Oslo, para festejar a vitória sobre a Costa do Marfim, com gols de Haaland e Nusa. Enfileirados, simulavam a cena coreografada de pessoas remando ao som da batida de tambores e bradando “Ro!”. O epicentro da celebração ficava a uma quadra do hotel onde eu estaria hospedado.

Tomei o trem do aeroporto para o hotel esperando testemunhar uma catarse nórdica. Mas nos arredores da estação Nationaltheatret só os pássaros cantavam. Nem sinal de festa, nem uma camisa ou bandeira hasteada, nem um vislumbre da imagem de Erling Haaland nas ruas. Não tem gente trocando figurinhas em bancas improvisadas na porta do comércio, não parece haver Copa do Mundo acontecendo por aqui fora da tela do televisor do quarto.

Saio à procura de Haaland. Entro em uma loja de conveniência e puxo assunto com o balconista, provoco o garçom do restaurante, ninguém manifesta entusiasmo pela disputa que se aproxima. Será que eles sabem o que está em jogo?

A Copa do Mundo em Oslo é um espasmo na rotina escandinava que gira em baixa rotação apenas nos dias de jogos da seleção local. Pequenos cartazes nas portas de alguns bares anunciam o jogo no próximo domingo: “Kom igjen! Teremos cervejas e snacks!” Não me sinto encorajado.

No parque Studenterlunden há tapumes, um telão instalado e meia dúzia de barracas que funcionam apenas durante os jogos da seleção. É ali o ponto de encontro nacional para que os moradores da capital, que tem pouco mais de 720 mil habitantes, se reúnam. Qualquer projetor instalado num estacionamento de shopping em Osasco reúne mais gente no meio da tarde para assistir Catar x Suíça do que esse espaço comporta. Fico em dúvida se um país que trata a Copa do Mundo sem o devido sofrimento é digno de ganhá-la.

A Noruega só chegou às oitavas de final de uma Copa uma vez, em 1998, última ocasião em que participou. Seu principal jogador hoje é um jovem de 25 anos nascido na Inglaterra, filho de um casal de atletas e artilheiro da Premier League em três das quatro temporadas que disputou. Na imprensa brasileira, ele ganhou o apelido de Cometa e, de fato, se destaca como um astro em torno do qual orbitam outros dez atletas do seu time. A seleção norueguesa está de volta ao mundial 28 anos depois, mas diferentemente do grupo que perdeu para a Itália em terras francesas, dessa vez os noruegueses entrarão em campo no jogo contra o Brasil com grandes chances de vencer.

Jogo? Quem falou em jogo? Isso é uma batalha, camaradas, uma questão de cunho existencial.

O pentacampeão Brasil sonha com mais um título, o sexto. O Brasil que mais ganhou jogos em mundiais, que nunca ficou fora de uma Copa do Mundo, onde nascem craques a granel, nosso Brasil nunca venceu a seleção da Noruega. A Noruega, aliás, é a única seleção, entre todas, que nunca vencemos.

Estou à paisana nessas terras hostis onde todos insistem em ser simpáticos. Falsos. Fazem de conta que futebol não existe e deve ser, claro que só pode ser, uma estratégia de cooptação adversária. Haaland não está nas ruas. Não há cartazes, outdoors ou fachadas de lojas com seu rosto. Não tem ruas pintadas, mural do Kobra, camisetas com seu rosto decalcado ou embalagens de Nescau com sua foto. Não se vende cerveja, conta em banco ou pacote de telefonia usando seu sorriso e um punho cerrado vencedor. Fosse no Brasil, seus cabelos loiros inspirariam embalagens de macarrão e seu apelido seria slogan de companhia aérea. Há uma civilidade fora de alcance em como essas coisas se dão por aqui.

As notícias a que assisti na tevê retratavam pessoas remando no meio das ruas de Oslo e de Nova York. Também falavam sobre nós, brasileiros. Não o time, mas a torcida, nossa paixão, a festa envolvida no desejo pelo título. Se eu não entendo o norueguês falado na reportagem, estou certo de que eles também não entendem o estado de suspensão da realidade que isso significa para nós. Especialmente agora que nos permitimos penetrar – ó céus! De novo deixamos isso acontecer – no perigoso terreno do deslumbre.

Encontrei Haaland em uma foto. Uma só. Na porta da loja da Nike, marca que o patrocina. E ele está ao lado de Vinicius Jr. O nosso Vinicius Jr. Sorrindo, gente boa, como todos os seus compatriotas com quem interagi. Ele não é a imagem do viking que eu tinha em mente como estereótipo desse povo. Erling é um gigante cabeludo com rosto de criança. Até o mês passado, minhas referências sobre a Noruega se limitavam ao A-ha, livros de Karl Ove Knausgård e Valor Sentimental (que levou o nosso Oscar e deu mais uma vitória para eles). Agora tem esse rapaz que comemora gols em posição de lótus. Ah, sim, tem Frozen também.

Véspera do jogo. Saio na rua com minha camiseta da Seleção. Faz 9°C e resisto ao frio para ostentar meu patriotismo. Se a Elsa consegue, eu também dou conta. Com meus óculos redondos, a barba alinhada (fui ao barbeiro antes das férias), tênis de corrida nos pés e jaqueta puffer, eu mais pareço um cosplay de candidato do Partido Novo do que o hooligan que habita minha mente. Sigo altivo, um contra todos, disposto a lutar por nossa campanha rumo ao hexa. Abro o Google Tradutor e procuro formas de decorar, em norueguês fluente, frases fundamentais para minha jornada: “Limpe essa boca antes de falar do Vini, rapaz!” («Skyll munnen din før du snakker om Vini, gutt!»). Mas os noruegueses não me ajudam a não gostar deles. São dóceis e prestativos em cada interação possível.

Os dias passam, viajamos por outras cidades e vai se tornando mais difícil não sentir uma simpatia por essa cordialidade escandinava. Tiro foto ao lado de um Troll chamado Olaf, troco algumas cortesias com o segurança do barco que nos leva em um passeio pelos fiordes. Tento manter alguma espécie de espírito competitivo em alerta, mas já quase me vejo no domingo à noite sentado no meio das ruas com sujeitos dois palmos mais altos do que eu e simulando vikings remando uma canoa aos berros de “Ro!”.

Estou com medo. Medo de perdermos o jogo e isso estourar, mais uma vez, essa bolha de ilusão que deixamos crescer desde a vitória milagrosa sobre o Japão na segunda-feira. Temos habitado em um estado de torpor desde aqueles 7 a 1 em pleno Mineirão em 2014 e ainda não despertamos. Minhas filhas nunca tiveram a alegria de ver a seleção brasileira campeã do mundo e festejar pelas ruas tomadas, pelo país em caos carnavalesco e ufânico. Mesmo nesse clima nórdico, eu queria que esse calor pudesse emanar.

Cruzamos o país usando a malha de trens que passa pelas montanhas e chegamos ao nosso destino. Bergen é uma cidade à beira-mar e porta de entrada para os fiordes, onde passaremos os próximos dias e veremos o jogo programado para este domingo às 22h do horário local. Há uma tenda montada no belo parque Festplassen em frente ao hotel, mas os bancos enfileirados ao estilo refeitório de colégio não pareceram convidativos. Talvez ali, finalmente, a população local se revele mais festiva para apoiar sua seleção.

Minha camisa amarela do Brasil não desperta comentários, provocações ou reações de qualquer natureza por parte dos noruegueses. Um sujeito britânico passa ao meu lado na viela Bredsgarden e balbucia: “Good luck tonight”.

Eu vi 16,5 pessoas com adereços em alusão à Noruega nas ruas. O total de fotos de Haaland nas vitrines e cartazes por aqui foi de três. A favor do Brasil, vi uma camiseta verde e amarela vindo em minha direção, sorri aberto à espera do primeiro compatriota nessa expedição, mas só até escutar o homem cantarolar “Brrazzill” com um sotaque indistinguível. Mais cedo, no ponto de ônibus, havia uma moça cujo gorro era dividido entre as cores da Noruega e do Brasil. Somos, portanto, 2,5 torcedores por essas terras. Contei mais pessoas usando burcas do que camisas de futebol.

Agora são 21h47 e estamos sentados em um restaurante com duas ou três dúzias de pessoas. Entre os presentes, poucos estão com camisas da Noruega, enfileirados no balcão, cervejas em punhos e, claro, civilizados em seu silêncio opressor. Duvido que alguém aqui já tenha xingado um juiz na vida. Lá fora, a torcida finalmente começa a aparecer na rua e fluir em direção à grande tenda. Uma fanfarra com oito integrantes passa pela calçada e na tevê, as cenas de um estádio apinhado de noruegueses dançando contrastam com tudo o que testemunhamos nesses dias.

Estou sentado com as meninas na entrada do salão, os olhos fixos no monitor onde se fala o idioma que não entendemos, mas se joga um que sempre falamos fluentemente e grita dentro de nós. O hino brasileiro toca no estádio e em nós ecoa o desejo de ganhar mais essa partida, de seguir vivendo iludidos com uma ideia prometida de país e de nos ver projetados em pernas bailando sobre gramas. O juiz apita.

Haaland aparece finalmente. Duas vezes. Mas de uma forma que eu preferia não ter visto.

Caminho no meio da festa norueguesa nas ruas de Bergen. Pessoas saem para celebrar. Batem palmas, cantam e sentam no chão para remar. Remam e remam por mais uma hora ou duas até que, como se amanhã fosse só uma segunda-feira, retornam para suas casas. Tudo volta ao silêncio de antes enquanto eu volto para meu hotel cantarolando o hino local: “Let it go… let it go…”.

Luiz Henrique Matos é escritor, colunista do UOL, colaborador no Estadão, autor no Substack, fundador e editor do @frasesdecriancas. Trabalhou em empresas como a Editora Abril e o Google


Erling Haaland leads the viking row for norway brazil vs norway world cup 2026 - vídeo

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23. Um passeio com Eliane Brum em Altamira 

Córtex - Vivendo o Fim no Centro do Mundo. Um passeio com Eliane Brum em Altamira - vídeo

Provocações | Eliane Brum | 2012 

COMTEXTO | ELIANE BRUM 

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24. O futebol é complexo, mais ainda no Brasil - Tostão

Ancelotti decidiu jogar no contra-ataque, como se a Noruega fosse a França. Independentemente de onde começa a marcação, é fundamental pressionar para recuperar a bola

Tostão, fsp, 7.7.2026

A Argentina perdia por 2 x 0. Não se afobou, continuou trocando passes no meio-campo e, no final, comandado por Messi, virou o jogo e ganhou do Egito por 3 x 2. Messi fez um gol e deu passe para outro. Enzo marcou o da vitória. Quando terminou a partida, Messi chorou copiosamente, como um garoto que estreava no Mundial.

Veja lances de Argentina x Egito na Copa de 2026

A decisão da Fifa, durante a Copa do Mundo, de mudar a regra, acabar com a suspensão automática no jogo seguinte após uma expulsão, foi absurda. Beneficiou os EUA, que escalaram seu melhor jogador contra a Bélgica. Trump pediu e o presidente da Fifa aceitou. A Bélgica protestou antes do jogo, ficou mais aguerrida e goleou os EUA por 4 x 1.

Após a eliminação do Brasil, escrevi uma coluna com o título: "A crônica de um fracasso inesperado".

Retiro a palavra inesperado. Não foi surpresa. O Brasil, mesmo contra seleções que não são candidatas ao título, como Noruega, Japão, Marrocos e outras, estará, com frequência, próximo da vitória e da derrota.

Veja lances de Brasil x Noruega na Copa de 2026

O Brasil foi derrotado por inúmeros fatores. Pelos detalhes, como no pênalti e em outros gols perdidos, pela qualidade individual e coletiva da Noruega, pela estratégia de Ancelotti de marcar mais atrás e contra-atacar, como se o Brasil enfrentasse a França, e pelas alterações equivocadas no segundo tempo, quando deslocou Endrick para a direita. Ele perdeu uma grande chance pelo centro, mas, provavelmente, teria outra clara oportunidade se continuasse na posição.

Ancelotti, na sua carreira de treinador, nunca se entusiasmou com a marcação por pressão no campo do adversário. Preferiu sempre iniciá-la no meio-campo ou na própria intermediária, para contra-atacar, ainda mais com atacantes hábeis e velozes como Vinicius Junior. Porém, independentemente de onde começa a marcação, é fundamental pressionar para recuperar a bola, o que não ocorreu contra a Noruega. O Brasil assistiu a Odegaard e Berg tomarem conta do jogo. O Brasil teve um terço de posse de bola na partida.

Se o Brasil tivesse feito o gol de pênalti e aproveitado outra clara chance no primeiro tempo, poderia golear e todos exaltariam a estratégia de Ancelotti. O futebol não tem "se", mas o "se" ajuda a entender o futebol.

O Brasil perdeu também por muitos outros fatores conhecidos e desconhecidos. No futebol moderno, não há mais motivo para dividir o meio-campo entre os volantes que marcam e o meia que avança (camisas 5, 8 e 10). Falta à seleção um craque no meio-campo, pois o Brasil só se preocupa em formar pontas e atacantes. A imprensa colabora ao exaltar somente os artilheiros.

No confronto entre os maiores meio-campistas do futebol mundial, que gostam de ficar com a bola, a Espanha, merecidamente, ganhou de Portugal por 1 x 0. Rodri é o elo, o pêndulo, o condutor do time espanhol, pois inicia as jogadas, de um lado e de outro, com precisos passes.

Veja lances de Portugal x Espanha pela Copa do Mundo de 2026

Outro motivo da sequência de eliminações do Brasil nos Mundiais é o crescimento do futebol em todo o mundo, devido à globalização, ao grande desenvolvimento científico e tecnológico e à evolução da qualidade individual e das estratégias de jogo.

Além disso, segundo as pesquisas, os profissionais de outros países, em quase todas as atividades, possuem, na média, produtividades superiores às do Brasil. O mesmo deve ocorrer no futebol.

Nas últimas décadas, o Brasil tem sido um fracasso, pela incapacidade de resolver ou mesmo diminuir bastante os graves problemas sociais, de criminalidade, de corrupção e de educação. O fracasso continua no futebol.

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25. A gente riu na cara do câncer 

Carta para Tiago Pitthan, o bom sujeito, que realizou velório em vida. Amiga do advogado cita provérbio ao tentar resumi-lo: 'Quando a morte me encontrar, que ela me encontre vivo'

Cynthia Araújo, fsp, 6.7.2026

"Sou paciente terminal." Foi esta a primeira mensagem que você me mandou, seis meses atrás.

"Eu sei que vou morrer de câncer." Faz 12 anos que converso com pessoas com cânceres avançados como o seu. Você foi a única que verbalizou. Talvez tenha sido a única que realmente aceitou. E isso mudou tudo, né? Você já vivia intensamente antes, mas planos ainda podiam ser feitos para os anos seguintes. De repente, tudo ficou muito urgente. Coisas que você sonhava em repetir, aventuras na natureza, projetos que podia realizar, mas você sempre adiou. Quando a limitação física começou a cobrar seu preço, você trocou a corrida pela guitarra. "Eu sou muito ruim, mas estou me divertindo."

Você quis fazer um velório em vida. "O velório vai ser dia 30 de maio", disse naquele 25 de março. Eu fiquei com medo. Medo de não dar tempo. Quando meu sogro adoeceu, no ano passado, a gente planejou uma última festa de aniversário, para o mês seguinte. "Por que vocês não antecipam?", o oncologista perguntou, delicadamente. Fizemos uma festa duas semanas depois, meio de celebração da vida, meio de despedida. Ele morreu um mês antes de fazer 75 anos.

Tiago Pitthan em seu velório em vida, em Campo Grande - Chico Ribeiro - 30.mai.26/Folhapress

Depois de muita conversa, contei sua história aqui na Folha, em 24 de abril. Você não estava bem naquele dia. "Desculpe a demora, fiquei acamado, olhar celular dava enjoo."

Finalmente tomei coragem pra perguntar sobre cuidados paliativos. No dia seguinte, você me disse que estava melhor. "Estou me organizando pra ir na rua pegar um sol, fazer alguma coisa, aproveitar meu final de semana." Aproveitar a vida possível. Você gostou dela até o fim. Tinha muito afeto, muitos amigos, a família. "Tenho muita sorte. O câncer não me tira isso."

Combinamos de você escrever uma carta para a gente publicar depois da festa do velório. Ou depois do depois. Mas você achou que tinha dito tudo que precisava ali. "Quando eu morrer de câncer, quero que entendam que eu venci o câncer. Eu venço todos os dias quando acordo e decido: hoje vai ser um dia bom." Houve dias ruins, mas você não mentiu sobre isso. Mas a vida continuava valendo a pena pelos bons.

Ao se despedir, ontem à noite, você falou que estava bem, em paz, feliz. "Valeu a pena. Tudo valeu a pena. Eu tive uma vida boa."

Nossas trocas foram muito alegres, sempre. Você foi muito generoso comigo. A gente riu bastante, riu na cara do câncer. No seu último áudio, você disse que as coisas estavam difíceis. Ao fundo, tocava Cartola, na voz de Ney. "Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida. Já anuncias a hora de partida. Sem saber mesmo o rumo que irás tomar."

Faltou tanta coisa para te dizer. Eu ficava esperando você estar um pouco melhor para a gente conseguir conversar com calma. Viver é sempre muito urgente, já perdi as contas de quantas vezes escrevi isso e ainda assim o cotidiano nos atropela. Eu já deveria ter aprendido que certas coisas são inadiáveis. Fiquei de te contar da Isis, sua amiga que se tornou minha amiga, e de como foi em Bonito (MS). Queria ter te falado que eu e Denise Fraga falamos sobre você. Ela gostou da ideia de um velório em vida, e eu a fiz prometer que não se esqueceria de mim se fizesse um.

Deu tempo de você contar a sua história, de ir à Câmara Municipal de Campo Grande falar sobre a importância de ter dignidade no fim da vida. Fim de vida ainda é vida e vai representar a principal parte da existência de um monte de gente. Acho que para você foi assim. Você transformou a sua, a minha e a vida de um monte de gente. A Isis disse que você é "irresumível", mas que é o provérbio africano "Quando a morte me encontrar, que ela me encontre vivo" o que melhor lembra você. Você, "que não se permitiu morrer antes da morte".

Tiago Pitthan com os amigos Genilson e Isis no seu velório em vida - Arquivo pessoal - 30.mai.26

No seu último vídeo para ela, você mostrou, orgulhoso, seu tubão de oxigênio. Queria levá-lo para a Flib, a feira literária de Bonito, que acontece na próxima semana, onde sua irmã lança "O garoto, o câncer e o caminho". Um livro sobre a sua história.

O tempo é sempre curto para quem está vivendo intensamente. Aos 47, 50 ou 90. Minhas últimas mensagens não foram respondidas. Eu sabia que você estava indo, mas a gente nunca sabe se vai acontecer em horas, dias, uma semana. Você esteve lúcido até o fim, bem-humorado até o fim. Meio xoxo, mas com excelente fundo musical e ainda aqui, eu te respondi. Sinto muito por tudo aquilo que não vai dar para você fazer. Eu sei que você ainda viveria muitas aventuras.

Foi porque era o fim que a gente se encontrou. Mas não é menos triste agora. Eu também queria ter tido mais tempo. Não tenho as suas palavras para este texto de despedida. Mas tenho as que teríamos construído juntos:

Pare. Pare agora. Pense no que realmente importa, não para daqui a um ano, para hoje. A vida está acontecendo enquanto você lê este texto, enquanto toma um café e decide se vai ou não dar uma volta do lado de fora. Muitos dias serão difíceis, mas a vida precisa encontrar uma forma de valer a pena.

Procure os amigos, diga que ama quem você ama, não economize generosidade e palavras gentis. Refaça os planos se eles não puderem mais acontecer da forma como você gostaria. Troque maratonas por guitarras que você toca mal. Isso não lhe impede de aproveitar o processo de aprender. Ninguém vai ter tempo de fazer tudo o que gostaria. Mas para manifestar afeto e sentimento toda hora é hora.

Obrigada, Tiago. Em meu nome e dos milhares de pessoas que você tocou.

PS: Não tenho como terminar este texto sem lembrar que Tiago só pôde fazer tudo o que fez porque conhecia seu prognóstico, porque não havia ilusão de cura, nem de sobrevida longa. Foi porque sabia da proximidade do fim da sua vida que ele pôde beber cada gota dela, até o final.

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26. A cartola da Noruega que peita a Fifa 

A cartola da Noruega que peita a Fifa e ousou criticar prêmio dado a Trump

Igor Siqueira, UOL, no Rio de Janeiro, 04/07/2026

Quando a câmera da transmissão focar no camarote dos dirigentes durante o Brasil x Noruega de domingo, não se surpreenda com a mulher que estará ali. Lise Klaveness é a presidente da Federação Norueguesa.

A presença dela no ambiente político do futebol já seria um recado por si só. Afinal, mulheres ainda são raridade nos assentos mais importantes do mundo da bola. Na Federação Norueguesa, ela foi a primeira, em 120 anos de história da entidade. Mas além da questão de representatividade, a dirigente de 45 anos, que é ex-jogadora e advogada, notabilizou-se por ser uma voz que toca em algumas feridas.

Klaveness tinha semanas no cargo, ao fim de março de 2022, quando tomou a palavra para um discurso no congresso da Fifa (Federação Internacional de Futebol), em Doha, no Qatar. Na ocasião, ela apontou alguns elefantes na sala do país que sediaria a Copa daquele ano: questões humanitárias relativas a trabalhadores imigrantes nas obras da Copa e defesa dos direitos e segurança da comunidade LGBTQIA+.

Recentemente, já em 2026, a Federação da Noruega destoou da complacência de outras associações nacionais em relação ao prêmio da paz dado pela Fifa ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

'Estreia' chamou atenção

Naquele Congresso de 2022, o ambiente para Klaveness era novo, apesar de ser ex-jogadora. Ela disse em entrevista ao Sports Management Podcast que agir de forma direta e transparente lhe pareceu natural.

A dirigente atribui essa disposição à cultura da própria federação. Segundo Klaveness, há na Noruega o entendimento de que as pessoas precisam se manifestar e contribuir para uma boa governança. "Eu não sou uma política. Não tenho ambições pessoais. Minhas ambições são mais relacionadas ao processo. A cultura nórdica é mais direta do que outras. Não temos que ofender pessoas deliberadamente. Eu tento ajustar. Não tem valor ofender as pessoas", afirmou Klaveness.

Ao ser questionada se estaria extrapolando um papel diplomático, Klaveness disse que os próprios estatutos da Fifa preveem regras de boa governança e transparência. E resguardar o princípio de que uma Copa do Mundo não deveria representar riscos de direitos humanos a ninguém.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, ao lado do presidente da Federação de Futebol da Costa do Marfim, Yacine Idriss Diallo, do presidente da CAF, Patrice Motsepe, e da presidente da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness Imagem: Hannah McKay

Raciocínio parecido guia a oposição ao processo de escolha da Arábia Saudita como sede da Copa de 2034. Para ela, o problema não é o país em si, mas a condução que neutralizou uma disputa real entre possíveis candidatos. De todo modo, Klaveness faz questão de separar essas críticas institucionais de hostilidade pessoal. Ela também não é tão radical e apolítica a ponto de não transitar nos corredores e no processo de decisão das entidades, tanto que foi eleita para o Comitê Executivo da Uefa neste ano.

"Sempre fui tratada com muito respeito quando viajei para países do Oriente Médio. (...) É importante que o futebol seja jogado em qualquer lugar, não só em países democráticos, onde a igualdade foi tão longe", afirmou.

O gesto de discursar em Doha tinha, ainda assim, um componente pessoal. Klaveness é casada com uma mulher e tem três filhos.

Oposição a prêmio para Trump

Klaveness também optou por ser uma voz contra o prêmio da Paz da Fifa, dado a Donald Trump. "Queremos que o Prêmio da Paz da Fifa seja abolido", disse.

A Federação Norueguesa apoiou formalmente uma queixa movida pela ONG FairSquare, que pede investigação no Comitê de Ética da Fifa sobre a origem do prêmio e possível violação das regras de neutralidade política da entidade. O caso nasceu depois de Trump receber o troféu em dezembro de 2025, durante o sorteio dos grupos da Copa.

A relação com o campo

Fora dos gramados políticos, a trajetória de Klaveness ajuda a explicar essa disposição para o confronto. Ela jogou 73 vezes pela seleção norueguesa entre 2002 e 2011. Isso envolveu a Copa do Mundo feminina de 2003 e a Eurocopa de 2005.

Enquanto jogadora, ela se formou como advogada. Em entrevista à Uefa, contou que a vocação vinha dos tempos de adolescente, quando assistia toda semana à série americana LA Law.

Antes de chegar à presidência, ela era diretora técnica da Federação Norueguesa, supervisionando o futebol masculino e feminino. Era ela quem contratava técnicos e vivia perto do gramado, de jogadores e treinadores. A chegada à presidência não fazia parte dos planos. "Nunca pensei nisso, era da administração. Não queria desafiar o chefe, o presidente na época. Eu tinha o trabalho dos sonhos, não me considerava uma política", disse.

Depois que o antecessor renunciou, perguntaram novamente se ela toparia disputar a vaga. Queriam que ela fosse a primeira mulher no posto, e assim aconteceu.

É com Klavennes na principal cadeira que a Noruega voltou a uma Copa do Mundo depois de 28 anos e chega às oitavas de final, embalada por uma geração que tem Erling Haaland e Martin Ødegaard como destaques. Klaveness tem como filosofia de gestão manter o futebol de base e o de elite "muito próximos". Segundo ela, jogadores como Haaland, Ødegaard, Ada Hegerberg e Caroline Graham Hansen treinam no mesmo centro que crianças e equipes de futebol para pessoas com deficiência.

Na captação, há um aplicativo próprio desenvolvido pela federação para ajudar técnicos a diversificar os treinos e formar jogadores em todo o país. É também uma resposta a um desafio geográfico e estrutural. A Noruega tem poucos campos de qualidade, o que torna os gramados sintéticos essenciais para ter futebol o ano todo.

A dirigente já assegurou mais um mandato de quatro anos — até 2030. É esse histórico que Klaveness carrega para o camarote do MetLife Stadium, em Nova Jersey, domingo, quando Brasil e Noruega se enfrentam pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.