domingo, 8 de fevereiro de 2026

No Brasil, não é a extrema direita que rejeita mestiçagem

Prólogo

O assunto (mestiçagem) ganhou novos contornos com a divulgação do Censo de 2022. Pela primeira vez na história, pardos se tornaram o maior grupo racial, com 45,3% da população. Já brancos eram 43,5% e pretos eram 10,2%. 

No Brasil, não é a extrema direita que rejeita mestiçagem 

Entre nós, são setores da esquerda que combatem a ideia de miscigenação e defendem identidades estanques. Expulsão de Beatriz Bueno de programa de pós-graduação da UFF ilustra particularidades brasileiras

Rodrigo Perez, fsp, 07.02.2026 Doutor em história social pela UFRJ, com pós-doutorado na Universidade Complutense de Madrid. Professor do departamento de história e do programa de pós-graduação em história da Universidade Federal da Bahia

[RESUMO] O debate sobre mestiçagem assume contornos peculiares no Brasil de hoje, analisa professor. Enquanto no cenário global a extrema direita busca uma pretensa pureza racial, que se manifesta politicamente no combate à imigração, por aqui ela se prende à tese de democracia racial para saudar uma suposta relação pacífica de diferentes grupos étnicos e negar a existência do racismo. Por outro lado, setores da esquerda contestam a miscigenação e acionam a narrativa da ancestralidade para ancorar identidades profundamente essencializadas.

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23 de julho de 2022. 31° Festival de Verão de Bálványos, Transilvânia, Romênia. O discurso mais esperado do evento seria feito pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, descrito pela literatura  um dos mais importantes líderes da direita radical europeia, como "autocrata eleitoral".

O convidado subiu ao púlpito aplaudido por cerca de 100 mil pessoas. Figura central na política húngara desde o final dos anos 1980, quando se destacou como líder da oposição à ocupação soviética, Orbán foi eleito pela primeira vez em 1998, governando até 2002. Retornou ao poder em 2010, permanecendo no posto até hoje. Desde então, foram quatro vitórias eleitorais consecutivas.

Orbán se apresenta como idealizador da "democracia iliberal", caracterizada pela preservação de eleições periódicas, em meio a um cenário de restrições das liberdades civis. A pesquisadora Kim Scheppele afirma que a modalidade de legalismo autoritário fundada por Orbán não pode ser definida como uma democracia alternativa ao modelo liberal, mas sim como um regime autocrático que manipula as leis para perpetuar no poder o Fidesz, partido político comandado pelo primeiro-ministro.

Orbán é reconhecido pela retórica violenta com a qual trata o tema da imigração, o que vem sendo um ativo político que ajuda a explicar seu sucesso político/eleitoral. Mas em nenhum discurso anterior ele havia sido tão agressivo como foi naquele pronunciado em 23 de julho de 2022. Disse Orbán:

"Há um mundo em que os povos europeus se misturam com povos não europeus. Esses países já não são nações. Eles não passam de conglomerados de povos. […] Nós estamos dispostos a nos misturar uns com os outros, mas não queremos nos tornar povos de raça mista. [...] A migração dividiu a Europa —ou melhor, dividiu o Ocidente— em duas partes. Uma parte é composta por países onde europeus e não europeus vivem juntos. A outra é composta por países que não querem se tornar sociedades pós-nacionais".

Orbán define a mestiçagem como ameaça à identidade nacional, reivindicando a pureza racial como virtude a ser preservada por meio de políticas de controle migratório. O discurso chocou a opinião pública ocidental, tendo sido amplamente criticado em editoriais publicados nos principais veículos da imprensa internacional.

O alarde poderia sugerir que Orbán é uma exceção na geopolítica global, uma experiência isolada de autoritarismo e racismo institucional. Definitivamente, não é. Como identificou o então deputado brasileiro Eduardo Bolsonaro durante visita à Hungria, Orbán "é o melhor exemplo de sucesso de um governo de direita".

A rejeição à mestiçagem e a reivindicação da pureza racial são signos estruturantes do discurso político da extrema direita contemporânea. Donald Trump mobiliza a metáfora do "sangue envenenado" para representar os imigrantes como risco àquilo que considera ser a cultura genuína dos EUA.

Diz Trump: "Eles estão envenenando o sangue do nosso país. É isso que eles fizeram. Eles envenenam instituições em todo o mundo, não apenas na América do Sul, mas em todo o mundo. Eles estão vindo para o nosso país, da África, da Ásia, de todo o mundo".

É impossível não identificar semelhanças com o vocabulário enunciado por Hitler, associação negada por Trump. Seja como for, se diretamente inspirado ou não no nazismo, o fato é que estamos diante de falas que inspiram violência política. O drama civilizatório não se restringe ao plano da linguagem, mas ganha forma jurídica e institucional.

Em janeiro de 2025, Trump anunciou um decreto que pretende negar a cidadania para filhos de imigrantes ilegais ou com visto temporário, mesmo que nascidos nos EUA. O ato foi alvo de inúmeras contestações na Justiça e ainda não entrou em vigor. Chama atenção como a iniciativa aciona certa concepção de "ancestralidade" baseada na premissa de que "ser americano" é mais do que nascer no território nacional. Seria necessário estar autorizado por uma linhagem considerada genuína.

Em diferentes latitudes, formulações semelhantes podem ser identificadas em outras manifestações da extrema direita global. Tanto em Portugal como na Espanha, o alvo da interdição são os imigrantes de origem muçulmana, enquanto latino-americanos costumam ser tratados com mais benevolência por supostamente pertencerem ao que líderes como Santiago Abascal chamam de "iberosfera".

O partido Alternativa para a Alemanha (AFD), liderado por Alice Weidel, é ainda mais restritivo ao defender a "remigração", ou seja, a deportação em massa não apenas de imigrantes ilegais, mas também de estrangeiros legalizados, mas considerados não assimilados pela cultura alemã.

Na França, o "reagrupamento nacional" liderado por Jordan Bardella e Marine Le Pen cria dificuldades para o casamento inter-racial, colocando essas uniões sob constante suspeita de serem forjadas por imigrantes criminosos visando a obtenção da cidadania francesa.

Na Índia, o Bharatiya Janata Party (BJP), partido político do primeiro-ministro Narendra Modi, criou uma ampla legislação que dificulta casamentos entre hindus e muçulmanos. Aqui, a premissa não é a defesa da pureza racial, mas sim da homogeneidade religiosa, definida como fundamental para o fortalecimento nacional.

É interessante como no Brasil essas disputas ganham contornos específicos. O tema da imigração ilegal não está no centro de nossas preocupações coletivas, o que não acontece com a mestiçagem, assunto já muito explorado ao longo da história do pensamento político brasileiro.

Dos letrados reunidos no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) ainda na primeira metade do século 19, chegando até aos cientistas sociais que no final do século 20 foram influenciados pelos estudos pós-coloniais e pelo movimento negro, passando por Nina Rodrigues, Silvio Romero, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes.

Para uns, a mestiçagem foi definida como estratégia de diluição das heranças raciais consideradas inferiores, um grande projeto de embranquecimento da nação. Para outros, foi tratada como vetor de decadência biológica e moral.

Em Gilberto Freyre, autor mais citado e difamado do que lido e compreendido, a mestiçagem foi positivada e alçada à condição de fundamento da identidade nacional. Florestan Fernandes denunciou a incapacidade dessa ideia em superar as hierarquias oriundas da escravidão.

Cientistas sociais como Antonio Sergio Guimarães, Thomas Skidmore e Abdias do Nascimento identificam a mestiçagem como formulação ideológica pertencente à tese da "democracia racial", cujo objetivo seria negar a existência de racismo no Brasil.

Depois de décadas de relativa hegemonia do enquadramento proposto pelos cientistas sociais pós-coloniais, o tema voltou a ser disputado. Por motivos óbvios, diferente de suas congêneres europeias, a extrema direita brasileira não poderia negar a mestiçagem e reivindicar a pureza racial como virtude.

Em diversas ocasiões, o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores a mencionaram para afirmar que o Brasil não possuía tensões raciais legítimas. Em 7 de setembro de 2020, Bolsonaro disse que:

"A identidade nacional começou a se formar com a miscigenação entre índios, brancos e negros. Posteriormente, ondas de imigrantes trouxeram esperanças que haviam perdido em suas terras. [...] O Brasil desenvolveu um senso de tolerância. Os diferentes tornaram-se iguais".

Cronologia da Lei de Cotas no Brasil - fotos

Recentemente, o assunto explodiu de vez na internet, na esteira da atuação da jovem intelectual pública Beatriz Bueno. Em síntese, ela critica a tese sustentada no Estatuto da Igualdade Racial, que coloca pardos e pretos no mesmo grupo/identidade racial: os negros.

Beatriz reivindica especificidade para a identidade parda, pensada como o espectro racial que sintetiza a experiência da miscigenação que atravessa a história do Brasil. O mote para a reflexão é a suposta desigualdade entre pretos retintos e pardos no acesso a direitos, sobretudo à política de cotas.

Baseada em casos de reprovações de pardos nas bancas de heteroidentificação de concursos públicos e vestibulares, Beatriz argumenta que o tratamento de pardos como negros é estratégico para reforçar a interpretação do Brasil formulada pelo movimento negro, segundo a qual a maior parte da população brasileira é formada por negros.

Negros o suficiente para inflar a estatística conveniente, mas não tão negros para passar nas cotas do vestibular e estudar medicina na universidade pública. Os argumentos de Beatriz foram apresentados no livro "Parditude: Um Guia para te Resgatar do Limbo Racial", recentemente publicado pela editora Planeta.

As reflexões de Beatriz vêm provocando desconforto em setores do ativismo racial influentes nos partidos políticos de esquerda e nas universidades. Os críticos parecem negar a mestiçagem como realidade social concreta, definindo-a como discurso racista, ao mesmo tempo em que costumam reivindicar uma "ancestralidade" africana que seria comum a todos os negros brasileiros.

A temperatura dos conflitos aumentou no final do ano passado, quando Beatriz foi expulsa do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (PPCUT/UFF), onde cursava o mestrado

Beatriz alega ter sido vítima de perseguição ideológica, enquanto os coordenadores do programa afirmam que ela não cumpriu requisitos regimentais mínimos e que o jubilamento teve motivação exclusivamente administrativa. Ao que parece, o conflito será levado à Justiça.

Este é Abdias Nascimento - galeria

Fato é que Beatriz tornou-se alvo de ataques orquestrados na internet que comemoram sua expulsão da universidade, questionam sua competência como pesquisadora e a acusam de atualizar a ideologia da democracia racial, sabotando a luta antirracista.

Essas polêmicas revelam algo interessante sobre a realidade política brasileira: entre nós, são setores da esquerda que negam a mestiçagem e acionam a narrativa da ancestralidade para ancorar identidades profundamente essencializadas. Desde que seja entendida como vínculo sexual e afetivo estabelecido consensualmente entre pessoas de diferentes grupos étnicos, a mestiçagem é indispensável para toda nação que se pretenda diversa, multicultural e inclusiva.

Negá-la só faz sentido na ficção autoritária que acredita na existência de raças puras e superiores. É algo que precisa ser vigorosamente combatido, em todos os lugares, venha de onde vier.

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Resposta: Parditude é conceito inovador, que busca equilíbrio e nada tem de retrocesso. Autores distorcem propostas, alegando que a noção fragmenta o campo negro e é funcional à branquitude

Beatriz Bueno, fsp, 30.08.2025 Mestranda em cultura e territorialidades pela UFF (Universidade Federal Fluminense)

[RESUMO] Em resposta a artigo de Érico Andrade e Lia Vainer Schucman, autora afirma que a noção de parditude não é um retrocesso, mas um passo para a construção de um debate racial mais inclusivo e representativo no Brasil e que, em vez de fragmentar o movimento negro, busca reconhecer a especificidade da experiência parda.

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Érico Andrade e Lia Vainer Schucman publicaram nesta Ilustríssima o texto "Noção de parditude é equivocada e representa regressão no debate racial do país". Fiquei lisonjeada com a atenção, afinal, já tive a oportunidade de conversar com os dois.

Érico me disse que, apesar das nossas divergências, era evidente que lutávamos juntos contra o racismo. Gentilmente, ele me enviou seu livro. Lia não foi diferente: ela reconheceu que o termo pardo está em disputa e que existem opiniões diversas e também me enviou seu trabalho. Curiosamente, longe dos olhos do público, ambos disseram que nós lutamos juntos.

Desfile do Filhos de Gandhy em Salvador; Bahia é o estado do país com a maior concentração de população preta (22,4%), segundo o Censo 2022 - Rafael Martins - 2.mar.25/AFP

Apesar do tom amigável das nossas conversas pessoais, em sua intervenção pública na Folha, eles adjetivaram meu trabalho como regressivo, perigoso, reacionário e até eugenista. Fui retratada como ressentida e não como alguém motivado por um interesse intelectual e político legítimo.

Esse tipo de retórica é estranha ao debate acadêmico e científico, que deve se manter no campo das ideias e dos argumentos, evitando desqualificações pessoais e suposições infundadas sobre as intenções ou estados mentais dos interlocutores. Acredito que o mais importante é discutir o mérito da questão e, nesse esforço, os adjetivos quase sempre atrapalham. Em resumo, os termos utilizados pelos autores violam os princípios de uma discussão construtiva e de um debate rigoroso e plural.

A redução da parditude a uma caricatura

Para um debate ser construtivo, é preciso compreender e apresentar os argumentos do outro com honestidade. Distorcer falas, criar versões simplificadas ou atribuir intenções inexistentes é uma tática que revela a recusa em dialogar genuinamente, buscando apenas a vitória fácil sobre uma versão distorcida do que foi dito. Infelizmente, é isso que tem acontecido no debate envolvendo a parditude.

Distorcem minhas propostas alegando que a noção de parditude não tem lastro no debate científico ou político, que ela fragmenta o campo negro e é funcional à branquitude, que presume a existência de raças puras, que é uma confusão ou que evoca discursos de pureza racial e, por fim, que visa retirar direitos de outros grupos — quando na verdade busca apenas assegurar direitos já designados por lei a pessoas pardas. Por isso, sou obrigada a mais uma vez defender meus argumentos de tantas distorções.

O debate acadêmico e científico sobre o pardo

Diferentemente do que alegam os autores, a mestiçagem e o debate sobre o pardo são temas clássicos das ciências humanas e do debate político brasileiro, não uma confusão. Um exemplo recente é o novo livro do pesquisador Alberto Carlos Almeida, "A Cabeça do Brasileiro, Vinte Anos Depois: O que Mudou", que dedica um capítulo inteiro à discussão sobre a questão do pardo.

A verdadeira confusão surge quando paradigmas antigos não conseguem explicar o mundo e seus defensores se recusam a aceitar esse fato. Nesse caso, preferem gastar suas energias omitindo ou minimizando as evidências de sua própria crise a se abrir à descoberta e aos debates controversos, que fazem a ciência avançar.

Veja a evolução das questões sobre cor ou raça no Censo no Brasil - galeria

Fragmentação da luta antirracista

Uma das críticas mais comuns e, a meu ver, mais falhas à noção de parditude é que ela fragmenta o campo negro e é funcional à branquitude. Isso não só inverte a lógica do problema como ignora as verdadeiras causas das fissuras na luta antirracista.

Na verdade, a fragmentação nasce da insistência em uma categorização binária que apaga nuances e exclui parcelas significativas da população. São as contínuas exclusões de pardos das políticas de ações afirmativas e do próprio debate público que enfraquecem a agenda antirracista. Como pode haver um "pacto coletivo" entre pardos e negros, como sugerem os autores, se os pardos são marginalizados dentro da própria luta?

Longe de ser uma ferramenta da branquitude, a parditude é um movimento de autoafirmação e busca por justiça. A negação da experiência mestiça não promove união, mas enfraquece a luta antirracista. Se o objetivo é fortalecer o combate ao racismo, é necessário abraçar todas as suas manifestações e identidades, incluindo a complexidade da parditude, em vez de exigir a adesão a um modelo único que não reflete a realidade social de tantos brasileiros.

Mestiçagem e 'raças puras'

Acusam-me de acreditar em raças puras. Ora, é uma obviedade que as raças humanas, no sentido biológico, não existem e que todos somos produto de misturas genéticas. Contudo, ao afirmar a existência do mestiço, refiro-me a um conceito social e culturalmente construído em cima de diferenças físicas observáveis.

O fato de as classificações raciais serem socialmente construídas não as torna menos reais em seus profundos efeitos materiais e simbólicos. É surpreendente que os detratores do debate sobre a parditude recorram à retórica do "somos todos mestiços".

Curiosamente, essa abordagem ecoa os mesmos argumentos daqueles que buscam esvaziar a discussão sobre o racismo, ignorando que, em um país com a história do Brasil, as pessoas são persistentemente lidas, classificadas e hierarquizadas de acordo com características físicas que remetem a origens geográficas distintas — apesar de serem todas biologicamente mestiças.

Quem trabalha no campo das relações étnico-raciais sabe, portanto, que o ser humano é um espectro de misturas. Porém, sabe também que as classificações históricas, enraizadas na colonização e no racismo, criaram hierarquias baseadas em características físicas percebidas, o fenótipo. Se é bem verdade que existem variações fenotípicas e corpos diversos, essas variações são visíveis e reais em seus efeitos.

Afinal, é justamente com base nessas variações que as comissões de heteroidentificação têm decidido quem incluir ou excluir, muitas vezes deixando as pessoas percebidas como mestiças em um limbo. Assim, a ambiguidade fenotípica dos pardos é frequentemente agenciada por grupos de interesse para seus próprios fins. Afinal, quem é aprovado nas bancas de heteroidentificação? Quem recebe olhares de desconfiança e reprovação? Quem é considerado branco demais para ser negro e negro demais para ser branco?

Cidades e estados com mais pretos, brancos, pardos, amarelos e indígenas no Brasil - fotos

O conceito de raças puras, embora cientificamente infundado, foi instrumentalizado por eugenistas como Madison Grant, que, em sua obra "The Passing of the Great Race" (1916), argumentava que a miscigenação entre brancos e outros grupos raciais resultava em uma descendência inferior. Essa ideologia da hipodescendência influenciou leis de segregação racial como a Regra de uma gota de sangue nos Estados Unidos, que buscava manter a "pureza" da raça branca, isolando-a de povos considerados subalternos.

No Brasil, nos anos 1970, conforme Kabengele Munanga em seu livro "Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil", os movimentos negros começaram a adotar o conceito de hipodescendência para redefinir a identidade negra do país, incluindo os mestiços com ascendência negra na categoria da negritude. Essa mudança gerou avanços importantes, como as cotas raciais, mas também trouxe uma série de problemas, com que lidamos até hoje.

A invenção das categorias raciais também levou ao apagamento do mestiço. Conceitos como negro e indígena foram criados durante a modernidade, no processo de colonização, desmantelando uma infinidade de etnias indígenas e africanas, reduzindo-as a rótulos homogêneos. Povos indígenas das Américas, como os tupis, guaranis, mapuches e navajos, foram forçosamente agrupados sob o termo índio. Da mesma forma, na África, sociedades ricas e diversas como os iorubás, bantos e mandingas foram simplificadas ao termo negro.

A pergunta é: por que não se esforçam em apagar os termos negro e índio das categorias como se esforçam em apagar o mestiço? A defesa da hipodescendência para gerar união ignora que a união e a solidariedade podem existir entre diferentes. Por que os mulatos não podem se unir aos negros sabendo que são mulatos? E os indígenas, por que continuam a ignorar que nessa soma os pardos indígenas são totalmente apagados?

A experiência concreta do mestiço e a rejeição nas bancas de heteroidentificação

A experiência de ser mestiço é concreta e não um mero sentimento a ser desconsiderado. A própria Lia Vainer, em seu livro "Famílias Inter-raciais", apresenta uma menina parda chamada Amanda, cujo pai branco diz que ela é branca enquanto sua mãe negra diz que ela é negra. Amanda, vinda de uma família abastada, não deseja cotas, mas quer entender seu lugar no mundo. Paradoxalmente, a mesma Vainer que relata o caso de Amanda em seu livro diz agora em seu novo texto que essa experiencia não é válida, é subjetiva, como se fosse algo pessoal e irrelevante.

No entanto, a realidade é que essa experiência se manifesta de forma contundente em políticas públicas. No concurso do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (DF e TO), 72% dos candidatos autodeclarados pardos foram reprovados pelas comissões de heteroidentificação. Dos 2.010 convocados, apenas 545 tiveram sua autodeclaração reconhecida como legítima. Seriam 72% de brancos fraudadores malignos?

Como justificar que mais de sete em cada dez pessoas pardas tenham sido consideradas fraudadoras ou achar que isso é algo subjetivo ou um erro pontual da política? Quero ajudar todas as Amandas que diariamente me mandam mensagens de socorro, pessoas que estão com pensamentos suicidas por receberem ataques ao serem chamadas de fraudadoras e acusadas de estarem invadindo espaços que não são seus.

Atlas da Violência 2025 mostra redução de homicídios mais lenta entre negros e aumento da violência contra a mulher - galeria

Racismo e a redução da diversidade racial: a experiência parda

Frequentemente, argumenta-se que indivíduos classificados como pardos devem ser considerados negros porque eles têm uma experiência compartilhada de racismo. Um argumento comum é que "a polícia sabe quem é negro," sugerindo que a violência policial contra uma pessoa parda a torna automaticamente negra.

Essa perspectiva é limitada e reforça a noção equivocada de que apenas indivíduos negros enfrentam racismo ou, pior ainda, que ser negro é ser definido exclusivamente pela experiência do racismo.

Parditude: um conceito inovador para pensar o Brasil

Parditude é um conceito inovador porque busca integrar todo aprendizado do movimento negro à perspectiva da mestiçagem. É diferente das propostas feitas no passado que romantizavam a mestiçagem e minimizavam o problema do racismo. É a busca por equilíbrio.

Se a centralidade da categoria pardo impõe a necessidade de mais conceituação e teorização, que isso seja feito dentro de um debate plural e científico, em que todos possam apresentar seus argumentos sem medo de retaliação e censura. A atualização sobre o debate da mestiçagem, junto com a renovação de uma identidade nacional que não apague os legados indígenas e negros, é uma aposta em um país em que direitos sejam universalizados e pessoas saiam da pobreza extrema e vivam livres da discriminação racial.

Em resumo, a parditude não é um retrocesso, mas um passo para a construção de um debate racial mais inclusivo e representativo. Em vez de fragmentar, ela busca reconhecer a especificidade da experiência parda, sem negar a solidariedade fundamental com a comunidade negra.

É tempo de abandonar as resistências e abraçar a complexidade da racialização brasileira, permitindo que a parditude emerja como uma categoria política legítima e necessária para aperfeiçoar as ações afirmativas e garantir que a justiça racial alcance a todos.

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Noção de parditude é equivocada e representa regressão no debate racial do país 

Pretos e pardos compartilham experiência de violência; instituir nova categoria é inflexão perigosa na luta antirracista

Érico Andrade Marques de Oliveira, fsp, 23.08.2025 Professor do Departamento de Filosofia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) & Lia Vainer Schucman, Professora do Departamento de Psicologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Autora de “Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo: Branquitude, Hierarquia e Poder na Cidade de São Paulo”

[RESUMO] A ideia de parditude não é lastreada conceitualmente no extenso debate sobre a questão racial brasileira e é politicamente regressiva, sustentam autores. A nova categoria proposta, ainda que apresentada sob o pretexto de dar visibilidade a experiências subjetivas de pessoas racializadas, fragmenta o campo negro do país e é funcional aos interesses da branquitude por enfraquecer o pacto coletivo que sustentou a construção das ações afirmativas e a denúncia do racismo institucional.

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Discutir a categoria pardo no Brasil se tornou inescapável. Ela está presente nos registros estatais, nas políticas públicas, nas dinâmicas institucionais e, sobretudo, nas disputas simbólicas e identitárias que estruturam as relações raciais no país.

Ignorá-la ou tratá-la como categoria residual nos distancia das tensões vividas cotidianamente por milhares de pessoas que se reconhecem ou são socialmente identificadas como pardas. Não há mais tempo para negligenciar esse debate. O Brasil já pagou caro quando nos furtamos a discutir com reacionários e nos refugiamos nos muros seguros da universidade.

Fiéis no Círio de Nazaré, em Belém; Pará é o estado do país com a maior concentração de população parda (69,9%), segundo o Censo 2022 - Oswaldo Forte - 13.out.24/Fotoarena/Folhapress

Um dos temas mais recorrentes e delicados nesse debate dizem respeito ao sentimento de não pertencimento vivenciado por sujeitos que, embora racializados, não se reconhecem plenamente como brancos, negros ou indígenas. Muitas dessas pessoas descrevem sua posição social como ambígua e marcada por exclusões simbólicas de ambas as margens do espectro racial, como se houvesse simetria entre o racismo das pessoas brancas que lhes é dirigido e um eventual comentário de uma pessoa negra que questiona o entendimento da pessoa parda a respeito de sua negritude.

Esse sentimento, real e legítimo, tem sido frequentemente mobilizado para tensionar critérios de pertencimento racial, especialmente em contextos como as bancas de heteroidentificação em processos seletivos vinculados às políticas de ação afirmativa.

Há, de fato, um crescente ressentimento de parte desses sujeitos quando são desclassificados por não se enquadrarem nos parâmetros fenotípicos exigidos, o que, em alguns casos, configura um equívoco de julgamento ao desconsiderar a racialização social a que estão submetidos. Com efeito, as políticas públicas têm erros na sua implementação e precisam ser aperfeiçoadas, mas não deslegitimadas.

No entanto, ao lado dessas situações concretas, se observa também o uso estratégico da ambiguidade identitária por indivíduos brancos que recorrem à autoidentificação como pardos para se desresponsabilizarem diante dos privilégios herdados da branquitude. A afirmação genérica de "ser misturado" opera, nesses casos, como um subterfúgio discursivo que busca dissolver os marcadores da branquitude na fluidez da mestiçagem, apagando a posição social de vantagem que a brancura historicamente confere no Brasil.

Em nenhum momento, a brancura no Brasil é pensada em uma dimensão sanguínea, mas ela está diretamente ligada aos marcadores de fenótipo e tem uma dimensão relacional e regional inegável. Isto é, não há um protótipo absoluto ou um modelo de ser negro ou branco —em um país mestiço como o Brasil, a minoria das pessoas são branquíssimas ou negras retintas—, mas essas categorias se relacionam em determinados contextos regionais nos quais uma pessoa é negra ou branca em relação às outras que pertencem a um mesmo contexto.

Pessoas que são socialmente lidas como brancas e que passam a se reconhecer como pardas fomentam uma forma de evasão da branquitude porque desconsideram o caráter contextual da raça no Brasil.

Essa postura, em geral, leva o debate das relações raciais apenas para o campo da subjetividade, como se o fato de uma pessoa branca ser mestiça, como todas as pessoas no Brasil são, a retirasse da sua responsabilidade social como pessoa branca. Isso dificulta a construção de diagnósticos objetivos e compromete o combate à desigualdade racial no Brasil, que, pelo menos hoje, não está dividido entre pessoas completamente brancas e pessoas completamente negras, mas sobre como a branquitude mobiliza os fenótipos brancos como marcas identitárias de poder.

Nesse cenário, se torna urgente retomar uma distinção fundamental: reconhecer experiências subjetivas não implica validar automaticamente categorias políticas ou epistemológicas derivadas dessas experiências. O primeiro argumento a ser enfrentado nesse debate é justamente a tendência de converter sentimentos reais de rejeição, que podem ocorrer nos mais variados e problemáticos contextos, em premissas políticas sem a mediação do caráter estrutural do racismo.

Sentir-se como mestiço ou vivenciar a não pertença não significa, necessariamente, que exista uma realidade objetiva da mestiçagem como categoria fixa. Isso pode falar muito mais do racismo, que dificulta as pessoas se tornarem negras, como uma vasta produção científica brasileira mostra, do que uma fixidez que poderia conferir uma identidade própria à categoria mestiça.

Afinal, as raças não existem como uma realidade fora dos contextos das relações sociais. A raça pura, nunca é demais lembrar, só existiu na mente de nazistas e fascistas. Toda a humanidade é resultado de contínuas misturas genéticas.

A própria ideia de um sujeito mestiço real, como defendida pela influenciadora e graduada em produção cultural pela UFF (Universidade Federal Fluminense) Beatriz Bueno, se revela conceitualmente equivocada, pois pressupõe a existência de raças puras como ponto de origem — algo refutado por décadas de pesquisa genética, antropológica e por inúmeros estudos em ciências sociais de modo geral, como os trabalhos de Guerreiro Ramos, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento etc.

O que existe, em termos concretos, são variações fenotípicas inscritas em corpos diversos, que são socialmente interpretadas e carregadas de significados discursivos, os quais são sempre situados em determinados contextos.

Essas marcas corporais — como cor da pele, traços faciais, textura do cabelo — não têm valor em si mesmas, mas são lidas dentro de um sistema racializado que as hierarquiza e as associa a determinados lugares sociais. É esse processo de significação que funda a experiência do racismo, não a suposta mistura genética que não apenas é redundante (afinal, qual povo no planeta não é misturado?) como informa muito pouco a respeito das questões sociais.

Portanto, embora seja fundamental escutar os afetos, as dores e os desconfortos que atravessam os sujeitos racializados de modo ambíguo e nunca de maneira uniforme, isso não pode se converter em critério absoluto para a definição das categorias analíticas.

A centralidade da categoria pardo nos debates atuais impõe a necessidade de elaboração conceitual rigorosa, capaz de dar conta da complexidade das experiências sem abrir mão da crítica à estrutura racial que organiza a sociedade brasileira. É preciso que esse debate recupere a extensa literatura produzida sobre o tema no Brasil porque, do contrário, estaremos reeditando mais um capítulo do que Sueli Carneiro denunciou como epistemicídio, outra linha de atuação do racismo.

É nesse contexto que se torna necessário lembrar por que, historicamente, pretos e pardos formaram juntos a categoria política de negro. Desde sua formulação nos movimentos negros do século 20, essa categoria nunca propôs o apagamento da identidade parda. Pelo contrário, sempre reconheceu a diversidade fenotípica e a especificidade das experiências de discriminação dentro do grupo racializado.

A força da categoria negro reside exatamente na solidariedade construída entre pretos e pardos, que, apesar das diferenças, compartilham a experiência histórica da subalternização e da violência racial. O racismo, sabemos, incide sobre esses corpos. A construção da identidade negra como categoria política foi e continua sendo uma estratégia de fortalecimento coletivo frente à supremacia branca e à fragmentação colonial.

Nesse ponto, é igualmente fundamental enfrentar com honestidade as hierarquizações que se expressam dentro do próprio grupo de pessoas negras. Embora seja legítima a crítica ao colorismo e à sobreposição histórica de corpos de pele mais clara em posições de visibilidade, essa crítica tem sido, por vezes, convertida em desqualificação generalizada de sujeitos negros de pele clara. Isso pode apontar para um compreensível desconforto diante de desigualdades internas reais, mas também o risco de reprodução de lógicas excludentes dentro de um campo político que deveria se basear na solidariedade radical.

O combate ao colorismo não pode ser transformado em uma nova forma de policiamento identitário. Quando o julgamento se volta contra aqueles que não têm a pele escura como forma de deslegitimar sua negritude, o que se faz, inadvertidamente, é alimentar a cisão que tanto se pretende evitar. É usar as armas do colonizador contra a própria população negra.

É precisamente por isso que a proposta de criação de uma nova categoria racial, como a chamada parditude, deve ser recusada com clareza e firmeza. A ideia de instituir uma categoria racial distinta da categoria negro representa uma inflexão profundamente perigosa no campo das lutas antirracistas. Ainda que apresentada sob o pretexto de dar visibilidade a uma experiência de ambiguidade, a parditude opera, na prática, uma cisão política artificial e funcional aos interesses da branquitude.

É notável a adesão de pessoas lidas socialmente como brancas ao que se chama parditude. Fragmentar o campo negro em categorias supostamente mais fiéis à experiência subjetiva é, neste momento histórico, uma estratégia conservadora que se reveste de reconhecimento. Isso porque as experiências subjetivas são infinitamente diferentes, pelo seu próprio caráter subjetivo, mas o que reúne as pessoas pretas e pardas na categoria de negras é o fato de que elas sofrem racismo pelo que guardam, com mais ou menos marcadores, de negro ou, em alguns casos, de indígenas.

A categoria parditude não é apenas algo que não encontra lastro conceitual no diálogo com o extenso debate racial consolidado no Brasil porque poderia ser uma categoria que ainda seria mais bem desenvolvida. Ela é politicamente regressiva. Aqui repousa a sua gravidade.

Ao propor um nome próprio para a ambiguidade, retoma e atualiza o velho projeto colonial e eugenista que buscava nomear e classificar os corpos misturados para mantê-los sob vigilância e fora do campo político da negritude. Ao separar pardos de pretos, se enfraquece o pacto coletivo que sustentou a construção das ações afirmativas, da denúncia do racismo institucional e da politização da identidade racial como instrumento de transformação social. A parditude oferece à branquitude uma alternativa confortável: desresponsabiliza, desvia o foco e aprofunda a confusão.

Não é de uma nova categoria que precisamos, mas da afirmação radical da solidariedade entre os que sofrem os efeitos do racismo. Reforçar a unidade política da negritude não significa dizer que exista uma essência de ser negro ou que todas as pessoas negras são iguais e contêm os mesmos marcadores fenotípicos.

Processos por injúria racial crescem 600% no Brasil - fotos

É importante não confundir a realidade com um filme como "Pantera Negra", que divide as pessoas entres pretas e brancas de forma binária. No Brasil, há um extenso matiz de pessoas negras com as suas diversidades, mas isso não as torna menos negras quando é a hegemonia branca que organiza socialmente a desigualdade racial do Brasil.

Acreditamos que é uma tarefa urgente diante das tentativas de esvaziamento e fragmentação da negritude que tenhamos consciência da complexidade da experiência da negritude no Brasil. Isso inclui, também, o enfrentamento honesto das hierarquizações internas, produzidas por algumas pessoas negras. O desafio que se impõe é o de construir uma abordagem que reconheça a legitimidade da singularidade das vivências, sem sacrificar as categorias políticas de enfrentamento ao racismo.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Duas estórias inseparavelmente juntas

A primeira, uma ficção (Puta que pariu, eu amo essa mulher) e a outra uma bio-doc (Eu sou a bicha medonha)

Puta que pariu, eu amo essa mulher 

Welcome to the jungle

Pergunta: Cadê a Rosa?

Resposta: Tá na 25 do 19.

Praia de Camburi, Vitória, ES. Lá pelos idos de 1990. 

Tradução de na 25 do 19: a barraca 25 do Chico, o 19. O apelido vem dos 19 dedos no corpo, não tinha um dedo do pé.

E quem fez a pergunta? Ana Júlia.

A praia de Camburi a noite, nesta época, era bem diferente de hoje.

Hoje é um cemitério. 

Quem viveu, viu. Era festa, feira, folia e território livre. E as vezes um rabo de arraia entre bêbados ou bêbadas.

Nesse ambiente conviviam todas as classes sociais. Pedreiro, médico, advogado, bancário, vendedor, traficante, estudante, professor e as minas da pista. Tudo misturado, juntos, curtindo a noite com cerveja, conhaque Dreher, caipirinha, peixe frito, camarão, peroá, frango a passarinho, aipim frito etc.

O Dezenove era o cara que sabia de tudo o que se passava. Contava algumas, outras não. E ele sabia porque não. Sobre a Rosa sabia... e me contou.

Rosa

Rosa, uma mulher da pista que era linda de morrer. Meio esquentada, mas sedutora. Seletiva em relação a clientes. Não ficava com qualquer um. Tinha requisitos. Conversava bastante, gostava de conhaque e às vezes cheirava uma coca da boa. Mas tudo sob controle já que tinha dois filhos ainda crianças e trabalhava durante o dia como auxiliar de limpeza num supermercado. Requisito 1: no geral saia da pista no máximo às três da madrugada porque tinha trampo às 8 da matina. Requisito 2: no fim de semana ficava por conta da família e dos filhos. Quando na pista os meninos ficavam com a irmã. Rosa era separada do pai dos filhos.

Na pista, Rosa, ganhava um extra e curtia a vida. Tinha um custo: sono curto de segunda a sexta, mas repunha nos finais de semana.

Dias normais até Rosa encontrar Claudio. Conheceram-se e rolou um quê entre os dois. Requisito 3: não se envolver com alguém.

Mas, no caso a razão e o controle foram para o espaço. 

Antes uma vez por semana, depois duas e logo, exclusividade. Rosa ficava apenas com Claudio a noite toda e ele a deixava em casa. Aí a mistura fatal. Claudio conheceu os filhos de Rosa e saiam juntos alguns fim de semana. 

Após seis meses desta mistura o ponto final.

Porque está falando isto, amor? Temos a maior tesão entre nós. Tenho prazer contigo na cama e fora dela. Meus filhos adoram você, disse Rosa depois que Claudio disparou a declaração final.

A carne não é fraca, Rosa, a carne é triste, infelizmente, disse Claudio.

Claudio era casado, com filhos e a situação ficara insuportável para ele.

Rosa nunca mais viu Claudio.

Ana Julia

Ana Julia, uma mulher da pista linda de viver. Juntas Rosa e Ana tinham perfis parecidos. Separadas dos pais dos filhos e eram mães. Ana tinha duas filhas, uma criança e outra adolescente. Mães que trabalhavam durante o dia e a noite caiam na pista.

Eram amigas e confidentes. Ana ajudou muito Rosa durante sua rebordosa pós separação. Fizeram loucuras na praia de Camburi.  Beberam, cheiraram, participaram de brigas, fizeram programas juntas e muito mais. Eram carne e osso, tampa e balaio.

O inevitável 

Um acontecimento clareou o que estava embaçado. Ana Julia foi divinamente cantada por outra mulher. Saíram para um motel e na volta encontraram uma Rosa possessa de raiva. Deu BO. Sim, com delegacia e tudo a que se tem direito. Tudo por conta de um ciúme ancestral que Rosa tinha de Ana.

O clarear: estavam apaixonadas e aí quando acontece dá-se um chute bem dado na razão.  

Depois de um tempo

Percebi que Rosa e Ana não estavam na praia. Perguntei ao 19 onde estavam. Saíram da pista casadas e viviam com filhos e filhas em Carapina, Serra, ES. Tinham um armazém / bar movimentado o suficiente para bem sobrevirem. Às vezes apareciam na 25, mas só para curtirem a madrugada. 

Puta que pariu, como sou apaixonada por Ana Julia.

Foi a declaração final que o 19 ouviu de Rosa na última visita à ainda viva praia de Camburi.

NB: o título destas mal traçadas linhas é uma homenagem à Rogéria

https://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2017/09/04/adeus-rogeria/

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“Eu sou a bicha medonha”

A humilhação pública e a volta por cima de um jovem estatístico capixaba

Tiago Coelho | 06 fev 2026

João Victor Uliana na boate ZigDuplex, em São Paulo, depois de um infeliz acontecimento Foto: Acervo pessoal

Eu sei que você, conhecendo ou não a história da “bicha medonha”, veio aqui atrás de uma fofoca. E vai tê-la, no tempo certo. O vídeo de sunga na Itália, o balde de vômito na boate ZigDuplex, a turba impiedosa do Twitter, hoje X. Você também deve ter achado a frase do título incomodamente autodepreciativa. Mas ela me foi dita pelo próprio. O nome dele é João Victor Uliana, um rapaz de 29 anos. Perguntei: “Posso colocar essa frase no título?” Ele respondeu sem titubear: “Pode sim. Estou num processo de ressignificação do apelido.”

Quando conversamos, já fazia alguns meses que João Victor vinha sendo alvo de chacota na internet e estava disposto a transformar a experiência em algo proveitoso. Ele me contou os detalhes do que viveu. Mas, antes de chegarmos a eles, é essencial que você saiba que a história de João Victor não se resume a constrangimentos online. E que há muito tempo ele encara os desafios de ser um garoto gay neste mundo. Então vamos começar pelo começo.

I – Uma criança viada em Cariacica

A infância de toda criança viada é marcada por traumas e rejeições que a acompanham desde cedo. João Victor nasceu em Cariacica (ES), município da Grande Vitória, no fim dos anos 1990. Família de classe média baixa: a mãe era atendente de uma pizzaria e o pai, cinegrafista. “Nunca passei dificuldades, mas também nunca tivemos luxo”, diz João Victor. Ele era um garoto magérrimo e comunicativo. Daquelas crianças que não passam despercebidas e cujo nome é decorado pelos professores no primeiro dia de aula. “A magreza é genética, tenho um metabolismo muito acelerado”, ele explica. “E nunca tive vergonha de nada. Meu sonho era ser ator, mas no Espírito Santo eu não teria muita oportunidade.”

Diferentemente das crianças que se encaixam nos padrões de gênero e sexualidade, uma criança queer pode passar a infância toda sendo incomodada, maltratada, rotulada, observada, reprimida e discriminada por ser quem é. Nunca lhe é permitido ser simplesmente uma criança. “Desde muito pequeno eu pensava: ‘Nossa, tem alguma coisa diferente em mim que incomoda as pessoas.’ Sabia que eu tinha algo diferente dos outros meninos, mas o quê?”

Não demorou para se dar conta. “Desde sempre eu fui uma criança viada”, ele diz. E uma criança viada incomoda muita gente…

II – Na escola

“Eu sofria muito bullying na escola. Tipo, muito mesmo. Me chamavam de viadinho ou de magricela. Ou as duas coisas ao mesmo tempo”, diz João Victor. Mas o que mais doía era ser desprezado por quem deveria protegê-lo. “Um professor de matemática era amigo dos meninos que faziam bullying comigo, e ele ria das piadas que faziam.” A crueldade ficou mais elaborada com o passar do tempo. Os garotos acharam divertido prender João Victor numa caixa de papelão enquanto chamavam-no de viadinho e palito de fósforo. Ele era afeminado e jamais deixou de sê-lo. Não por falta de esforço. “Eu juro que tentei, mas simplesmente não conseguia”, ele diz. “Se um dia eu realizar meu sonho de virar ator, não vou conseguir interpretar um hétero. Vou ter sempre que fazer o papel da bicha.”

Nos idos de 2010, Lady Gaga, Orkut, Glee, Gossip Girl, calça skinny, status no MSN: “ninguém me entende”, se apaixonar pelo melhor amigo hétero, sofrer em silêncio, postar foto triste do Tumblr, tudo isso compunha o mundinho de um garoto gay. João Victor estava entrando na adolescência e não aguentava mais tanta chacota. Precisava de uma saída. Decidiu se aproximar de alguns primos mais velhos que estudavam na sua escola e percebeu que, no grupinho de amigos deles, não enfrentava a mesma rejeição. Em parte, porque os garotos eram mais tolerantes com aquele menino pequeno e inofensivo. Mas também porque João Victor era carismático e engraçado. “Fiz amizade com uma galera mais velha e eles me defendiam.” A companhia dos adolescentes o protegia, mas João nunca deixou de ser insultado. “Tudo isso me chateava, mas eu erguia a cabeça e seguia. Até porque eu via que os adultos responsáveis da escola não faziam nada contra toda aquela perseguição.”

E foi assim que ele aprendeu, como um menino gay, a se levantar das quedas com mais brilho e purpurinas do que mágoas.

III – Na igreja

João Victor foi uma criança viada e católica. Assim como John D’Emilio, Gregory Maguire, Pedro Almodóvar, Andy Warhol, Rock Hudson, Ricky Martin, Pasolini, Sam Smith e Renato Russo. Por volta dos 11 anos, já tinha clareza de que era gay e se sentia mal pelo que ouvia na igreja. “Me lembro que eu rezava pedindo: ‘Deus, tem como você me curar? Tipo, eu não quero ser assim, eu quero ser igual aos meus primos que são héteros.’”

Na primeira eucaristia, ouviu das catequistas que beijar sem intenção de namorar era pecado. E essa foi uma das advertências mais leves. Com frequência os clérigos tocavam o terror citando trechos do Levítico, livro do Antigo Testamento. Passavam recados como “um homem não pode deitar-se com outro homem”. João Victor aprendeu essa regra também na missa e no Encontro de Jovens com Cristo, um programa para a evangelização de jovens. “Falavam muito em sodomia. Eu pesquisava no Google e pensava: ‘Vou pro inferno, acabou para mim.’” O garoto ficava apavorado e triste. Desejava ardentemente não ser o que era. 

Aos 14, João Victor foi fazer a crisma, um ritual de confirmação da fé. Catequistas instruíram-no a confessar ao padre todos os seus pecados. E sem mentir, porque Deus, segundo elas, não tolerava mentiras. O garoto se sentiu pressionado. Tinha aprendido que o seu desejo pelo sexo masculino era pecado. “Passei semanas em pânico pensando no que diria ao padre.” 

Mas, se era para encarar a cólera divina, achou melhor que fosse pela verdade do que pela mentira. Quando se sentou diante do padre, disparou: “Oi, padre, então, eu gosto de meninos.” Esperava uma bruta reprimenda que não veio. Dando de ombros, com enfado, o pároco respondeu: “Tá, né? Fazer o quê?” Em seguida orientou que João Victor fosse até o Santíssimo (o ostensório onde são consagradas as hóstias) e rezasse dez ave-marias e dez pai-nossos. “Pensei: ‘Então tá tudo certo, né?’ Achei que ele fosse me passar um sermão, fazer o maior drama, e ele nem tchum.”

Depois disso, João Victor se afastou da igreja. “Naquela época, me assumi, vi que não havia nada de errado e cheguei à conclusão: sou assim, não é pecado e não acredito no que a igreja diz.”

IV- Na família

De um jeito ou de outro, os pais sempre sabem ou desconfiam quando um filho é gay. Os pais de João Victor o matricularam no karatê, judô, handball… Ele sempre saía um mês depois, porque não se adequava. Nas artes marciais, apanhava. Nos esportes coletivos, ninguém passava a bola para ele. 

Há algumas perguntas insistentes que as famílias fazem aos adolescentes quando há uma mínima suspeita de que são gays. Parecem revestidas de inocência, mas não são. A pressão esconde um incômodo. “Cadê a namoradinha?”, “Quando vou conhecer a minha nora?”, “Qual o nome da garota que você gosta?”

“Minha família já sabia que eu era gay. Ainda assim minha mãe me perguntava: ‘Quando você vai trazer uma namoradinha aqui em casa?’ Aquilo ia me enchendo, me matando aos poucos por dentro”, diz João Victor. Aos 16, ele abriu mão de se esconder. Certo dia, confrontado com as cobranças da mãe, respondeu: “Eu não vou trazer namorada, não. Vou trazer um namorado.” A mãe reagiu: “Nossa, sério?” Ele retrucou: “Olha, não se faz de boba, não, porque você já sabia há muito tempo.” E foi assim que João Victor se revelou.

Ele diz que a mãe lhe fez um pedido: “Não fala isso para ninguém ainda, não. Deixa só entre a gente por enquanto.” Um pedido que ela mesmo não cumpriu. “No outro dia minha madrinha me ligou: ‘Fiquei sabendo de uma história aí…’ Família italiana bocuda. Minha própria mãe espalhou.” João Victor lembra do conselho que ouviu de um parente: “Você sabe que, sendo assim, vai ter que se esforçar três vezes mais do que os seus primos.” Ainda hoje João Victor acha que ele não disse por mal. Estava apenas lhe adiantando uma verdade cruel da vida.

Mesmo com os atritos, João Victor diz que nunca deixou de se sentir amado pelos pais. Depois da revelação, se sentiu apoiado. “Nunca cheguei a falar abertamente da minha sexualidade com meu pai. Mas ele sabe e não se incomodou.” Ninguém na família jamais levantou uma bandeira de arco-íris ao saber de sua orientação sexual. Mas pequenas coisas faziam-no se sentir amado. Quando era criança, brincava de boneca com as primas e ninguém o reprimia. “Apesar do jeito deles, a minha família me permitiu ser quem eu era. O bullying na escola me afetava, mas ao mesmo tempo eu sempre fui uma criança muito feliz em casa.”

Além da família, havia outra instância que reconfortava João Victor: a música pop. Ele é parte de uma geração que cresceu ouvindo Lady Gaga. “Foi escutando as palavras dela, nas músicas, que consegui me aceitar e dizer: ‘Eu nasci desse jeito, não é um problema, não é pecado e não acredito que Deus me veja como um pecador.’ Me aceitei e nunca mais tive conflitos com minha sexualidade.” João transformou os limões da vida numa pink lemonade.

V- O primeiro amor

Sim, você quer saber da treta da internet e do apelido “bicha medonha”. Segura, os refrescos já serão servidos. Mas não fique achando que a vida de João Victor Uliana se resume a bafões em redes sociais. Ele, como muitos garotos homossexuais no início da vida amorosa, desejou viver um bonito romance. Mas, entrando na adolescência, se ressentia por não gozar da mesma liberdade que suas amigas heterossexuais. Ter um namoradinho, tomar sorvetinho, andar de mãos dadas na praça, essas coisas de casal. “Eu sofria muito. Sentia inveja das meninas recebendo flores na escola, namorando no pátio, e eu não podia.”

João Victor era um aluno excelente, sobretudo em matemática. Logo percebeu, matematicamente, a impossibilidade de ter um namoradinho na escola. Porque: na escola X em que ele estudava, o conjunto (G) representava todos os alunos gays assumidos. João era o único elemento desse conjunto, ou seja, (G = {João}). 

Pergunta: João poderia formar um par apenas com elementos de (G)? 

A resposta: G={João}, G=1. Para formar um par seria necessário G ≥ 2. João estava lascado. O número um representa singularidade absoluta. Isolamento.

Quando João Victor era pequeno, um de seus primos foi atropelado. Sua mãe, por isso, tornou-se protetiva em excesso, temendo que algo parecido acontecesse com seu filho. João Victor só foi atravessar a rua sozinho pela primeira vez aos 12 anos. Mas, por volta dos 16, teve acesso à janela que todo adolescente recluso abre para respirar: a internet. Conheceu outros meninos em comunidades do Orkut e do MSN. Era assim que os adolescentes gays faziam nos anos 2000. Era onde se conhecia gente com as mesmas afinidades e os mesmos problemas. Assim João Victor se deparou com um menino chamado Gabriel e, conversa vai, conversa vem, marcou de conhecê-lo pessoalmente no cinema.

“Foi a primeira vez que beijei”, diz João. “Lembro que senti coisas que nunca tinha sentido. Aí eu cheguei inocente pro Gabriel e perguntei: ‘É assim mesmo? Tipo, você também tá sentindo isso?’ Eu não sabia o que era aquilo.”

Mas o que havia de tão estranho no que João estava sentindo?

“Eu posso falar com todas as letras na piauí?”, ele me perguntou.

“Claro”, respondi.

“Então, eu senti o meu $@& ficar #%&*, saca?”

“Tesão”, resumi.

“Isso.”

A excitação sexual é uma sinfonia cerebral. Tudo começa com um estímulo: um toque, um olhar, um cheiro, um som, uma fantasia. Posicionado no centro do cérebro, o sistema límbico rege a orquestra: a amígdala toca as notas do prazer e da atração (e também gera alguma ansiedade); o hipotálamo acende o fogo do desejo, regulando hormônios que fazem o corpo vibrar; o hipocampo resgata memórias de prazeres antigos, como ecos de melodias conhecidas; o núcleo accumbens libera dopamina, a pulsação da música; e o córtex cingulado anterior interpreta o compasso do parceiro, guiando cada gesto e cada escolha. É um concerto natural, intenso e delicado, pelo qual passam todos, heterossexuais e LGBTQIA+. Um balé de sensações que transforma estímulos em desejo. É muita coisa acontecendo. Era natural que João Victor ficasse confuso sendo tão inexperiente.

Naquela época, para passar por essa aventura, ele precisou dizer à mãe que estava indo ao cinema com “amigos”. Bem, João e Gabriel de fato ficaram amigos. Até hoje são. Mas não rolou nada mais do que o beijo cheio de tesão no cinema. E foi difícil para João Victor ter uma vida romântica com a marcação cerrada da mãe. Só voltou a beijar na faculdade.

VI – A desilusão

João Victor era um ano adiantado na escola, e por isso entrou na faculdade com 17. Passou para o curso de estatística na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que fica em Vitória, na capital. Ele sempre soube que era um curso difícil, que muita gente abandonava, mas que os profissionais da área, uma vez formados, recebiam salários relativamente bons. João levava mais ou menos uma hora de ônibus para percorrer o trajeto de sua casa, em Cariacica, até o campus. Acordava às cinco da manhã para a aula das sete.

Quando um adolescente entra para a universidade, por mais zelosos que sejam os seus pais, já não há muito o que controlar. É um momento de inevitável individuação. Durante o primeiro período, João, sempre comunicativo, quis participar de festas e chopadas das calouradas. Mas, por vezes, foi barrado por ser menor de idade. Passou então a usar a tática dos tempos de escola: fazia amizade com veteranos e assim era colocado para dentro. A voltagem homofóbica no ambiente universitário é mais baixa do que no ambiente escolar.

Ele sentia que não demoraria muito a ter sua primeira relação amorosa e sexual. “Naquela época, eu tinha na minha cabeça uma certa… sei lá, uma culpa cristã? Não, não. Uma idealização de que minha primeira vez tinha que ser com um namorado, alguém que eu amasse. Tinha que ser especial. E aí o tempo foi passando, tipo, 16, 17, 18, e essa pessoa não vinha nunca.” 

Foi com 19 anos que João Victor passou a ter um crush num carinha da faculdade. “Ele me deu uma moral um dia. Foi com ele a oportunidade de perder minha virgindade e perdi. Foi a minha primeira vez e foi horrível.” A decepção não parou ali. “Depois ele me largou e não quis nada comigo. Eu não significava mais nada para ele. Então toda a minha idealização romântica de um príncipe encantado caiu por terra.” A certa altura, enquanto relembra a história, o estatístico troca o tom sorumbático por um mais confiante: “Enfim, caí na real que as coisas eram assim, e isso me deu um pouco mais de maturidade para entender como funcionava a vida adulta e alguns relacionamentos em parte do mundo gay onde as relações são mais frívolas.”

Mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, é triste, mas todo mundo cai nas estatísticas da rejeição. 

VII – A depressão

O ano de 2016 foi difícil. Os pais de João Victor se separaram. Tudo aconteceu numa época próxima à da desilusão amorosa na faculdade. A rotina acadêmica, enquanto isso, ficava gradativamente exaustiva. João vivia suas primeiras experiências profissionais e logo teria que entregar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “Comecei a reprovar em algumas matérias por causa da rotina muito pesada. Desenvolvi um quadro de ansiedade e depressão.” Para lidar com a situação, passou a tomar remédios. “Descobri que minha depressão também passava pela genética. Minha avó e minha mãe também têm depressão. E um diagnóstico médico mostrou que eu tinha um tipo de depressão resistente a medicamentos.”

Perguntei se todo o histórico de rejeição, na escola, na igreja, contribuiu para o seu adoecimento. Ele respondeu que sim. “Ser um homem gay, afeminado, no mercado de trabalho, é muito desafiador. Ouvi de um amigo que, na empresa em que a irmã dele trabalhava, o pessoal colocava um carimbo com uma carinha feliz no currículo de candidatos gays que faziam entrevistas, para que eles não fossem chamados. Isso me preocupava.”

Prestes a se formar, João Victor conseguiu um estágio numa fintech em Vitória. Saía de casa às cinco da manhã e só voltava às onze da noite. Ralava muito para ganhar 1.600 reais trabalhando no setor de identificação de fraudes. Com o tempo, se valeu de seu carisma para ganhar a confiança dos veteranos.

Aproveitava cada chance que tinha no elevador ou no cafezinho da empresa para fazer networking. “Eu enchia o saco das pessoas da área de dados: ‘Vamos tomar um café?’, ‘Estou me formando, tem uma vaga para mim?’ Eu ia pedindo para todo mundo, até que o meu primeiro chefe gostou de mim e me contratou como analista de dados. Passei a ganhar 3.500, depois fui promovido e meu salário dobrou.” Ele tinha 23 anos. Consegui mudar completamente o meu padrão de vida e também o da minha mãe.”

Mas quando a pandemia chegou, em 2020, João Victor mergulhou de volta na tristeza. “Eu tinha muito medo de a minha mãe ou alguém da minha família morrer. Eu trabalhava de home office e passava o dia trancado em casa. Voltei aos tempos de reclusão e solidão da adolescência. Minha vida era jogar LoL [League of Legends] com meus amigos na internet. Fiquei ainda mais deprimido. Ao longo dos anos, cheguei a tomar mais de doze remédios e a depressão não passava. Eu continuava caindo num buraco cada vez mais fundo.”

VIII – Uma história de filme de terror e uma virada de sorte

Eu sei que você já veio longe demais para saber da fofoca. Mas, para sua informação, a vida do João Victor é cheia de outras boas fofocas. Quer saber do date assustador que ele teve num cenário de filme de terror?

Quando acabou a pandemia, João ganhou uma bolsa para fazer um curso de verão de três semanas em Ohio, nos Estados Unidos. O objetivo era estudar gerenciamento de projetos na Ohio University. “Fiz muito networking por lá, conheci gente de tudo quanto é lugar.” Bem longe de casa, ele podia experimentar uma liberdade que jamais tivera. A universidade fica numa cidade pequena e rural no interior do estado. João Victor baixou o Tinder e deu match com um rapaz local. “Super bonito! Era um típico american boy, loiro do olho azul.”

Os dois combinaram de se encontrar no cinema. Depois do filme, o american boy convidou João Victor para esticarem a noite. E mandou a famosa senha: “Meus pais não estão em casa.” João Victor aceitou: “Ok, let’s go!” Partiram no carro do bofe americano. Tudo em volta da pista era escuridão. Eles já estavam há mais de quarenta minutos na estrada e nada de chegar. Passavam por lugares rurais ermos, onde o farol do carro iluminava apenas trechos de plantações. Do lado de fora, o barulho dos animais noturnos. Uma hora depois, chegaram. Entraram por uma estradinha de terra ladeada por um milharal. Uma neblina espessa encobria a plantação. Os sons dos animais eram vívidos, pareciam próximos. João Victor, numa tensão crescente, olhou o celular. O sinal não pegava ali. O farol iluminou um corpo disforme no meio da plantação. João Victor sentiu um calafrio.

Lembra do sistema límbico que agiu no cérebro do João Victor quando ele estava com tesão? O mesmo sistema é acionado quando estamos com medo. Medo e excitação operam lado a lado. No cérebro do João, a amígdala disparou o alarme do medo. O hipotálamo acionou as reações fisiológicas: aumento da frequência cardíaca, arterial e respiratória, dilatação das pupilas e transpiração acima do normal. O córtex pré-frontal fica em alerta e decide se o alarme é real ou exagerado. Depois de todo o alarde, ele constatou que o corpo na escuridão era apenas um espantalho com roupas humanas largado na plantação para espantar aves intrusas. Alívio, mas não muito.

Mal deu para João se recuperar do susto com o espantalho. De dentro da casa, saiu um cão enorme, uma raça que ele nunca tinha visto. “Meu Deus, é agora que vou dessa pra uma melhor”, pensou. Ele já havia avisado a uma amiga sobre o date no cinema, mas ela não sabia do after. João Victor achou que, se desaparecesse naquele fim de mundo, ninguém jamais o encontraria. Os sons enigmáticos dos animais noturnos aumentavam a tensão.

Contíguo à casa, havia um enorme celeiro, bem típico dos filmes de Hollywood. Aquela construção de madeira tão familiar o assustou ainda mais que o cão. Ele sabia que, nas histórias de terror, ninguém que entrava naquele tipo de barracão saía vivo. Assim que viu uma barrinha de sinal na tela do celular, João Victor tirou discretamente uma foto do celeiro e mandou para a amiga, junto com sua localização em tempo real. O boy perguntou se João Victor queria entrar. “Bom, é agora que eu vou morrer”, ele pensou.

Medo e tesão operando o mesmo sistema. O segundo prevaleceu. Os dois entraram na casa, e a noite foi ótima. “Ele não era nenhum psicopata, era um cara muito legal. A gente ficou. Depois ele me levou até meu dormitório na cidade universitária, às quatro da manhã.” Ao descer do carro, ainda na penumbra, João Victor levou uma carreira de um veado (o cervídeo), que o fez correr em disparada. “Eu olhei para ele, ele olhou para mim e veio na minha direção. Saí correndo, subi uma escada, esperei ele sair, depois fui para o meu dormitório.”

Nem tudo foi perrengue, é claro. João Victor viajou pelos Estados Unidos. Em Nova York visitou o Joanne Trattoria, restaurante de comida italiana no Upper West Side que é comandado pelo pai da Gaga. “Ele estava lá. Contei para ele que eu sou o maior fã da Gaga no mundo. Mostrei a tatuagem que fiz do álbum Artpop. Contei que já tinha ido vê-la em Chicago e num deserto da Califórnia, e que mato e morro por ela. Ele perguntou se eu tinha gostado da comida, disse que era receita da família. Tiramos uma foto juntos.”

João Victor em Venice Beach, durante sua temporada americana (Crédito: Acervo pessoal)

IX- A solidão em São Paulo

João Victor, desde a escola, é um networkeiro de primeira. Fez bons contatos nos Estados Unidos e voltou de lá com um convite para uma entrevista numa multinacional com sede em São Paulo, capital. Passou para o cargo de analista de dados, com um belo salário. Mudou-se para a cidade no início de 2024.

Foi difícil. Nunca havia morado sozinho, e teve que aprender a fazer comida, lavar banheiro, roupa, cuidar de si. São Paulo se mostrava grande, indecifrável e taciturna mesmo para um garoto sociável como João. O bom salário vinha em troca de uma rotina maçante de trabalho. A afetação workaholic da cidade lhe sugava as energias.

Desde o fim da pandemia, a depressão estava relativamente sob controle. Mas o baque da mudança fez com que ela acenasse novamente para o garoto. “Eu não tinha vontade de sair. Dormia um fim de semana inteiro.” É difícil formar uma rede de amizades quando se chega, de uma hora para outra, num lugar com 11,9 milhões de habitantes. Mas João Victor continuou fazendo tratamento psicológico. Depois de alguns meses, a vida lhe sorriu de volta. “Comecei a fazer aula de teatro, que era meu sonho desde pequeno. Comecei a andar em parques, museus, sair, conhecer pessoas, lugares, restaurantes, bares, festas queer.” 

Uma festa LGBTQIA+ nunca é só um espaço de lazer e entretenimento. Ela tem uma função de acolhimento muito importante para um jovem gay solitário numa cidade como São Paulo. Essas festas reduzem a sensação de isolamento, o estresse do cotidiano, e são uma rede de apoio para um grupo que ao longo da vida precisa lidar com a rejeição. São, muitas vezes, espaços de cuidado emocional.

João Victor forjou na São Paulo cinza e introspectiva um El Dorado queer. Tudo ia bem, até que dois eventos o derrubaram. Chegou o momento que você estava esperando.

Fofoca #1: Um momento feliz é estragado

A rotina de trabalho era exaustiva, mas o salário de João Victor lhe permitia rodar o mundo. Em fevereiro de 2024, ele foi esquiar em Aspen, nos Estados Unidos. Se acidentou na neve e rompeu um ligamento no joelho. Pagou cerca de 2 mil dólares por um raio-x, que foi coberto pelo seguro-viagem. O exame apontou que ele precisaria se submeter a uma cirurgia, o que ele fez já de volta ao Brasil. Como precisaria andar de muletas por duas semanas, seu melhor amigo, Lucas, viajou de Vitória a São Paulo para acompanhá-lo.

“Só que eu tenho um fogo no cu muito grande”, explica João Victor. “Não consigo ficar parado. Eu tinha que permanecer de repouso, mas depois de uma semana ia ter uma festa muito legal no Ephigenia. E eu falei para o meu amigo que queria ir.” O Ephigenia é uma balada cool na cobertura de um prédio no centro histórico de São Paulo. Mesmo com o joelho mais esfarelado que o da Gaga, João foi.

“Arrumei um banquinho, na pista mesmo, e fiquei lá sentado, bebendo, curtindo. E nisso, a gente fez amizade com um grupo do Sul, não lembro de qual estado. Eles ficaram todos em volta de mim, dançando, me incluindo no rolé. E a gente batendo o maior papo.” Uma menina do grupo foi particularmente simpática com João. Eles conversaram e ela desabafou, dizendo que tinha uma empresa com o marido e que ele havia passado a perna nela. “Ela estava tendo que se reconstruir, quase chorou enquanto contava. Dei meu ombro para ela, ouvi com carinho”, lembra o rapaz. “A gente se seguiu no Instagram e ela me mandou uma mensagem: ‘Amei sair com você, já quero de novo.’ Ela sempre respondia meus stories dizendo ‘lindo’, ‘amei’… Então, na minha cabeça, ela era uma pessoal muito legal.”

Depois, com o joelho já recuperado, João Victor, o primo e a namorada do primo planejaram uma viagem pelo Sul da Itália. Era agosto de 2024, verão europeu. “Essas férias eram para me dar um refresh, para eu esquecer um pouco dos meus problemas, sabe? Eu estava realmente feliz. Muito feliz.”

João Victor, feliz, em suas férias na Itália (Crédito: Acervo pessoal)

João Victor postava fotos e vídeos da viagem nos stories do Instagram. Num desses vídeos, ele apareceu de sunga. Ao fundo, via-se uma vila italiana encarapitada num rochedo, um mar cristalino repleto de banhistas e muita luz natural. João Victor é um rapaz muito alto, de pernas compridas e magro. A gravação foi feita de um ângulo que realçou o seu contorno esguio e deixou braços e pernas alongados. Foi feita espontaneamente. Dá pra ver que ele foi pego de surpresa.

Algumas horas depois de postar o vídeo, João Victor estava no hotel se arrumando para voltar à praia, em Palermo, quando abriu uma notificação no celular. A tal garota do Sul que ele conheceu na boate e que considerava amiga havia feito dois comentários reagindo à postagem.

“Meu Deus que bicha medonha”

“Eu sigo seguindo ele só porque não posso deixar de acompanhar como ele é estranho”

João Victor leu e ficou chocado. “Meu olho encheu de água. Fiquei muito mal. Era como se alguém tivesse me apunhalado no coração. Aparentemente, ela tentou compartilhar o story com alguém, falando mal de mim, mas acidentalmente mandou para mim mesmo.”

A única reação de João Victor foi responder: “Acho que você esqueceu de compartilhar, amor.”

As palavras da falsa amiga fizeram-no lembrar dos tempos da escola. Das crianças zombando de sua aparência. Então ele ficou ali, com o celular na mão, chorando baixinho. “Acabou com o meu dia de viagem. Depois a gente foi turistar, mas eu não queria mais tirar ou postar fotos. Eu nem queria sair do hotel. Fiquei muito, muito mal mesmo.” Quando voltou para o quarto, João Victor releu as mensagens. Ainda esperava que a menina enviasse um pedido de desculpas, explicando que fora tudo um engano. Mesmo uma justificativa inventada amenizaria o seu mal-estar. “Mas ela não falou nada. Foi maléfica mesmo. Talvez ela tenha mandado para o meu direct de propósito, por ser uma pessoa má.” 

Como em tantos outros momentos de sua vida, João tentou dar a volta por cima e rir da situação. Tirou um print da conversa vexatória e postou no X dizendo apenas “Bom dia”. Depois foi passear. Quando pegou de novo no celular, viu que a postagem tinha mais de 40 mil curtidas, 7 milhões de visualizações e uma infinidade de comentários, risadas e memes.

“Aquilo me provocou um misto de sentimentos. De certa forma, me senti vingado porque teve gente que ficou do meu lado e foi lá tentar derrubar o perfil da falsa no Instagram. Fizeram um escarcéu, um balança-caixão. Por outro lado, muita gente fez body shaming, criticando meu corpo, dizendo que eu era medonho mesmo. Tinha gente que chamava a garota falsa de diva por ter debochado de mim. E aí fiquei muito mal. Virei chacota.”

João Victor relembra o momento em que o tal vídeo foi gravado. Por que causara tamanha reação? “Eu estava com meu primo e a namorada dele, e falei: ‘Me filma, que eu vou pular na água.’ E era um vídeo onde eu pulava na água. Só isso. Um vídeo inocente, para os meus amigos. Eu estava estranho, meio corcunda naquele frame que viralizou. E era essa a imagem que as pessoas tinham de mim. Foi assim que começou a história da bicha medonha.”

Na escola, João havia sido vítima de chacota de algumas crianças, dezenas talvez. Agora tinha virado motivo de piada de milhares. Parecia o Brasil todo. “Tudo o que eu tinha construído de autoestima foi por água abaixo. Voltou à estaca zero.” João Victor levou o episódio para a terapia. O analista perguntou: “Você se acha medonho?” João respondeu que não. “Então simplesmente não ligue para a opinião dos outros”. Mas não era simples. Um rapaz no Tinder o reconheceu e certo dia mandou mensagem perguntando: “Você é a bicha medonha?” 

Fofoca #2: Outro momento feliz é estragado

Não havia muito que João Victor pudesse fazer além de deixar o tempo passar e torcer para que as pessoas esquecessem o apelido. Aos poucos, teve a impressão de que elas estavam mesmo esquecendo. Até que numa noite de sábado, em junho do ano passado, as coisas mudaram de rumo. João Victor estava em casa jogando Fortnite com os amigos. Ele andava numa fase sossegada. Não saiu na sexta-feira e pretendia passar o sábado no aconchego doméstico. Mas se você é jovem, gay e extrovertido numa cidade como São Paulo, com um punhado de amigos, dificilmente passará o fim de semana sem que um convite lhe bata à porta. À uma da manhã, Madson, amigo de João Victor, mandou uma mensagem:

“Vamos pra Zig, tá tendo festa da Sophie.”

“Nossa, amigo, mas eu estou com sono, já é uma da manhã.”

“Vamos!”

“Me dá dez minutos para eu pensar e te respondo.”

Em três minutos João Victor já estava se aprontando.

A ZigDuplex é uma balada queer no centro de São Paulo. E Sophie é uma DJ escocesa que produziu Madonna e Charli XCX. Foi a primeira transgênero a ser indicada ao Grammy. A festa seria uma homenagem a ela, que havia morrido havia pouco tempo.

Algumas semanas antes, João Victor tinha ido a Londres para assistir à turnê Cowboy Carter, da Beyoncé. Ganhou, no show, uma amostra grátis da máscara capilar Cécred by Beyoncé, que no Brasil chega a custar mais de 500 reais. E comprou de presente para si uma camiseta listrada da Holland Esquire, marca britânica de luxo. Decidiu ir para a ZigDuplex com a camisa listrada, uma calça preta largona da Urban Outfitters e um tênis Converse com salto. Hidratou o cabelo com o produto da Beyoncé e passou uma base no rosto.

“Meu cabelo ficou perfeito. Fiquei com cheiro de rico, cheiro de Beyoncé, e muito bonito”, conta João. Ele finalizou a produção com algumas gotinhas de Gucci Flora Gorgeous Gardenia. Um perfume de cheiro doce e frutado. E partiu. Em meia hora estava na festa. Feliz, pegou uma Skol Beats, dançou, conversou. A ZigDuplex tem um mezanino cujo piso é vazado com grades e onde funciona um bar. Quem está embaixo, na pista, vê quem está em cima.

O garoto fervia na pista quando de repente… Lembra da cena do filme Carrie, a Estranha em que um balde de sangue de porco cai na cabeça da protagonista? Foi igualzinho. Talvez pior. Lá de cima, do mezanino, caiu o equivalente a um balde de vômito na cabeça do João Victor. A balada toda fez um círculo em volta dele, todo mundo olhando assustado o garoto encharcado no caldo quente.

“Era muito. Não consigo lembrar o cheiro porque entrei em pânico. Digo que era um balde porque era um volume tão grande que só podia ter sido armazenado num balde. Quando percebi que era vômito, olhei pro chão e fiquei imóvel. Minha máscara capilar, minha camiseta… Caiu vômito dentro da minha Skol Beats. O mundo parou, me desconectei do universo.”

O amigo de João Victor o pegou pela mão e o levou ao banheiro, onde limpou com papel toalha tudo o que pôde. João, ainda bastante sujo, estava catatônico. Até que se olhou no espelho. “Nesse momento voltei à vida e pensei: ‘Cara, eu tô muito feliz. Tipo, não vou deixar isso estragar minha noite. Se eu for para casa agora, vou ficar chorando as pitangas. Mas não vou, amor. Não vou. Nada vai estragar minha noite.’ Eu sou muito resiliente.”

João saiu do banheiro e avisou ao pessoal da portaria da boate: “Segura meu nome que daqui a pouco eu tô voltando.” Foi para casa, tirou a roupa, botou de molho as peças vomitadas, tomou banho, lavou o cabelo duas vezes e retornou para a ZigDuplex. De novo na pista, ganhou outra Skol Beats como cortesia da casa. As pessoas ficaram de queixo caído: “Você voltou?!” Ele havia triunfado mais uma vez. Mas não por muito tempo.

Quando chegou em casa, de madrugada, João Victor resolveu publicar um tuíte direcionado à ZigDuplex, pedindo esclarecimentos sobre o incidente. Escreveu no calor da emoção. E o calor da emoção que bate na madrugada não é um bom companheiro para quem tuíta. É nesse horário que as almas mais fofoqueiras da internet ficam de butuca, esperando o vacilo de algum emocionado. “Quando fui ver, já tinha cem curtidas. Me desesperei. Não queria viralizar de novo. Ainda estava traumatizado. Então apaguei o post.”

Tarde demais. Já tinham feito um print do tuíte, que começou a circular em diferentes postagens. No dia seguinte, uma delas já tinha mais de 20 mil curtidas. Vinha acompanhada de uma frase: “Nossa, estou em choque com a história da bicha que foi vomitada na Zig.”

João Victor tinha virado a bicha vomitada. Não demorou até que alguém ligasse os pontos. “E vocês não vão acreditar”, escreveu um usuário. “A bicha vomitada é a bicha medonha.” Quarenta mil likes no post do querido. “Lá estava eu, mais uma vez, viralizando com situações esdrúxulas. E novamente reconhecido como a bicha medonha”, lamenta João.

A situação chegara ao limite. João Victor resolveu então gravar um vídeo. “Botei minha cara a tapa para que as pessoas me vissem, ouvissem e soubessem que eu não sou medonha. Expliquei quem eu era. E viralizou. Mas dessa vez, de uma maneira muito positiva. Eu meio que virei o jogo.”

X – Virando o jogo

As pessoas comentaram: “Meu Deus, a bicha medonha não é medonha”; “A bicha medonha é bonita”; “A bicha medonha é um fofo”; “Queria ser amigo da bicha medonha.” 

João Victor descansou, exultante. “As pessoas viram que eu tinha muita história, começaram a me seguir, engajar e falar comigo, pedindo mais conteúdos. Foi uma virada total.” Ele viu que seu engajamento estava altíssimo, com milhares de likes e visualizações a cada nova postagem. “Então pensei: vou virar o jogo ainda mais. Vou usar esse engajamento para falar de adoecimento mental. Vou fazer algo de útil para as pessoas.”

Hoje, o jovem capixaba de Cariacica produz vídeos falando sobre o tratamento que fez para superar a depressão refratária. Os fãs parecem gostar quando ele posta fotos de suas aventuras pelo mundo: a turnê da Beyoncé em Londres, os shows da Gaga em Copacabana, encontros com Inês Brasil, com Gretchen, a vida como voluntário nas Olimpíadas do Rio. “A bicha medonha vive demais!”, vibram. A fanbase da bicha medonha se autointitula medonhers.

“Estou num momento de remissão da depressão. Meus vídeos com mensagens positivas viralizam. Eu sempre quis ser famoso, mas eu não tenho talento nenhum. Não sei cantar, não sei dançar, não sei tocar um instrumento. O meu talento é ser eu. Por isso que era meu sonho entrar no BBB, porque aí eu ia mostrar o meu talento, que é ser eu.”

Quando voltou à ZigDuplex algumas semanas depois, João Victor foi recebido como uma celebridade: “Que tudo! Tô conhecendo a bicha medonha!”, celebrou um jovem rapaz. “Foi aí que abracei esse rótulo”, diz João Victor. “Eu sou a bicha medonha. Ressignifiquei o xingamento. Mas não vou largar a carreira de cientista de dados, porque não foi fácil chegar até aqui.”

João ainda nutre aquele velho sonho de viver um grande romance. E quer conhecer a pessoa que vomitou em sua cabeça. Com fins pacíficos, esclarece. “Se ela quiser se manifestar ao ler essa reportagem, eu adoraria conhecê-la. Ela acabou gerando um plot twist na minha vida.” Já a mona que o menosprezou no Instagram, dela a bicha medonha quer mesmo é distância.

*

A vida é cheia desses altos e baixos, como os tantos da trajetória de João Victor. Quando conversou com a piauí pela primeira vez, em julho do ano passado, ele estava numa fase muito feliz, positiva, otimista. Tinha conhecido um novo amor, um cara sensível que lhe escrevia cartas e poesias. Em outubro, porém, João Victor perdeu esse amor, que passava por uma depressão. Suicídio. O capixaba reforça a necessidade de se buscar ajuda diante de um quadro de depressão. No momento, está sendo bem doloroso. Mas ele vai dar mais uma volta por cima e voltar a ver as coisas boas da vida. Como tem feito desde criança. 


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Georges Abdallah: Juntos, só juntos, venceremos

"O capital não pode permanecer onde existe um conflito armado aberto. É precisamente isto o que situa Israel na fase final de sua existência histórica".

George Abdallah entrevistado por Lisandro Brusco

Entrevista: De Argentina a Líbano: “Juntos, solo juntos venceremos”

Ene 12, 2026 | Análisis político, Entrevistas, Internacionalismo, Palestina

Transcrevem-se aqui as palavras do professor, dirigente das Frações Armadas Revolucionárias Libanesas (FARL) e ex-preso político Georges Abdallah. A entrevista traduzida foi realizada em 18 de dezembro de 2025, em Beirute, pelo jornalista argentino Lisandro Brusco e publicada pelo movimento Masar Badil na versão em espanhol de seu site.

O valor de sua publicação não reside só na admirável firmeza que Abdallah demonstra após 41 anos de cárcere na França, mas também nos elementos que ele fornece para o exame da situação palestina, árabe e mundial. Parece particularmente valiosa sua análise sobre a importância de um polo tecnológico recentemente construído para o expansionismo sionista e a inviabilização de seu funcionamento – portanto, também do projeto do Grande Israel – pela operação militar de 7 de Outubro de 2023 e respectivos desdobramentos. Mas não só.

A sobrevivência moral e intelectual de Abdallah foi possível, em grande medida, porque, como ele mesmo relata, um esforço de solidariedade militante – combinado, cabe acrescentar, a um contexto político propício – lhe assegurou acesso a um intenso fluxo de leitura e informação durante esses 41 anos. Isso mostra a importância de garantir aos revolucionários presos tal direito, hoje sob forte ameaça consubstanciada em regimes carcerários despersonalizadores.

Doutro prisma, a origem desse polo tecnológico estratégico para o sionismo é também explicada por ele e reside noutro fato histórico, quase sempre ignorado por aqui: a gigantesca imigração, na década de 1980, da então União Soviética para a Palestina ocupada.

Pari passu à incorporação dos judeus asquenazes à elite imperialista do Atlântico Norte, o sionismo, durante todo o século XX e particularmente em sua segunda metade, realizou – inclusive pelos meios que começam a vir à luz no caso Epstein – um eficientíssimo trabalho de infiltração em todas as instâncias de poder, influência e riqueza dos EUA e da Europa. Esse esforço ameaça perder toda utilidade com a irreversível decadência desses impérios. Na China, não há lobby sionista e nem mesmo comunidade judaica que lhe pudesse servir de terreno para uma infiltração que, ainda em tal caso, seria bem mais difícil e arriscada que no Ocidente.

A única chance que Israel tem – ou acredita ter – de não ser tragado pela perda de poder dos EUA na Ásia Ocidental reside na influência que ainda pode exercer na Rússia, elo fraco do novo polo de poder que se ergue na Eurásia. Lá, não parece haver um lobby sionista tão profundamente enquistado nas estruturas de poder quanto nos EUA ou na Inglaterra; mas há, quando menos, o temor de qualquer governante a receber de volta – em caso de colapso de Israel – milhões de criminosos de guerra e de diversos outros tipos, que se tornariam, de imediato, um fator infernal de desestabilização interna e regional.

Henrique Júdice

Entrevistador: Para nós, sua trajetória é um exemplo: quarenta e um anos na prisão sem que esmorecessem suas ideias. Como conseguiu preservá-las?

Georges: Na realidade, eu fui um militante dentro da prisão. Nunca fui um prisioneiro que aspirava a se transformar em militante; sou militante e, como tal, luto inclusive em condições excepcionais, como são as do cativeiro. A questão central para mim sempre foi a luta; minha situação pessoal é secundária. Na medida em que minha situação permite afirmar o processo de luta, sinto-me numa posição adequada. Foi assim que aconteceu.

Minhas convicções mantiveram-se através de uma prática quotidiana, junto a companheiros e companheiras que acudiam de maneira constante ao longo de 41 anos. A solidariedade comigo foi entendida como um meio para se integrar na luta junto ao povo palestino e suas massas, e também como uma forma de expressar a posição das massas palestinas dentro do processo de luta na França. Quando os trabalhadores se mobilizam para exigir melhoras em suas condições ou para manifestar posições políticas, quem se solidariza comigo participa diretamente das mobilizações da CGT (Central Geral de Trabalhadores da França) e de outras organizações sindicais. De maneira regular — aproximadamente a cada mês, ou a cada 25 ou 20 dias— intervinha nessas mobilizações. Nas manifestações, alguns companheiros assumiam a tarefa de pronunciar discursos, e, assim, minha palavra como militante palestino e militante árabe encarcerado era lida por um deles. Desse modo, o tempo transcorria dentro de uma prática de luta, não à margem dela. Quando fui libertado, a decisão judicial se baseou num argumento jurídico fundamental: que minha permanência na prisão prejudicava a segurança nacional mais que minha liberdade. Sobre essa base, se decidiu minha soltura. Minha presença na prisão foi, portanto, uma presença militante. Relacionei-me com o cativeiro a partir das condições e fundamentos da luta, não como um fim em si mesmo. Não estive na prisão para reclamar melhorias pessoais, nem para exigir minha libertação, nem para proclamar minha inocência. Essa lógica não é aceitável para mim.

Diante dos tribunais, respondi à questão central, relativa às operações externas na França e na Europa. Não existe nenhuma prova que me incrimine. O que se condena é minha posição política. Afirmei que essas operações militares eram corretas e deviam continuar, não só na França como em todo o mundo, especialmente nas regiões que constituem o coração do sistema imperialista, o mesmo que trava uma guerra contra nosso povo. Não só hoje, mas já desde os anos oitenta. Hoje, essa realidade é ainda mais profunda.

Entrevistador: E o contato quando estava na prisão? As notícias políticas, a informação… Como era seu vínculo com o mundo exterior?

Georges: Como mencionei em minha primeira resposta, dentro da prisão eu era um militante. Quem vinha me visitar eram todas e todos militantes. Sua tarefa principal era trasladar meu ponto de vista ao exterior; a segunda, reforçar minha posição como militante. Por isso, se ocupavam de me garantir todos os meios necessários para o conhecimento: informação jornalística, cultural e política. Para dar um exemplo simples: eu não tinha problemas por excesso, e sim por falta de tempo. Não sofri por ter demasiado tempo livre; sofri por não ter tempo suficiente para ler tudo o que devia ler. E quando digo isto, não é uma metáfora literária, é uma realidade concreta. Cada semana, os companheiros me proporcionavam, só no plano jornalístico, cinco dossiês. Tudo o que se publicava em árabe, francês ou inglês no Líbano, Palestina e Egito. Cinco vezes por semana. Cada dossiê tinha umas 90 páginas. Isto é, ao redor de 450 páginas semanais, só de material informativo relacionado à causa palestina, à situação no Líbano, à resistência e aos protestos no Egito. Ademais, dispunha de toda a imprensa francesa: a imprensa dos partidos e a imprensa burguesa, como Le Monde, L’Humanité e outros veículos, assim como todas as publicações dos partidos de esquerda, em particular dos partidos menores. Nesse sentido, tinha uma visão completa de tudo o que estava disponível no plano cultural e informativo, inclusive mais ampla que a que tinham muitas pessoas fora da prisão.

Quanto à formação política, meu tempo estava estritamente organizado. Se me perguntam como começava meu dia: saía da cela às oito e meia da manhã e regressava às dez e quarenta e cinco. Durante esse tempo, fazia exercício físico para manter meu corpo apto para o combate, se assim se pode dizer.

De 10:45 a 11:00: higiene e banho.

De 11:00 às 16:00: leitura da correspondência. Necessitava muito tempo para ler as cartas e os materiais que me chegavam.

De 16:00 a 19:00: leituras teóricas.

À noite: correspondência relacionada a materiais teóricos e com o que se devia ou não fazer.

Dormia quatro horas, motivo pelo qual despertava às quatro da manhã.

De 4:00 a 7:00: respondia à correspondência pessoal, para preservar minha humanidade. Escrevia para meus familiares (filha, irmão) palavras simples, saudações, gestos que me permitiam continuar como um ser humano normal: alguém que sorri ao ver uma criança, que vê beleza numa flor, que reconhece as coisas simples da vida quotidiana.

Às sete da manhã, chegava o guarda e começava oficialmente o dia de prisão. Deste modo, minha jornada estava completamente cheia.

Entrevistador: A situação no Líbano, os palestinos nos campos de refugiados… ¿como encontrou os palestinos nos acampamentos e qual é a sua leitura da situação política dentro deles e do próprio Líbano?

Georges: Os palestinos no Líbano fazem parte do componente árabe da identidade histórica libanesa. No Líbano, existe uma longa trajetória de luta palestino-libanesa. A torrente de sangue compartilhada entre palestinos e libaneses constitui, historicamente, a base fundamental de nossa identidade como militantes. Minha geração se formou a partir dos efeitos da revolução palestina e do movimento de resistência palestino. Como partidos de resistência, libaneses e palestinos, mantemos uma interação histórica profunda. O que encontrei nos acampamentos confirma que a Palestina continua sendo a alavanca histórica da revolução árabe. Como te dizia, sou palestino, sou libanês e sou árabe, mas também sou comunista e observo todas essas dinâmicas como parte de um processo que espera o fim da exploração geral.

A libertação da Palestina tem um valor histórico e um valor estratégico: é a alavanca histórica do processo da revolução árabe. Não se pode separar uma da outra. O acampamento — falando em termos antropológicos — é o espaço onde se formou, através de seu próprio devir, a identidade palestina mais íntima. A Palestina inteira é um conjunto de acampamentos. O que se vê na Palestina e o que se viu em Gaza é uma soma de acampamentos que configuraram essa identidade profunda do povo palestino. É preciso viver num acampamento, dormir durante uma semana numa dessas chamadas “casas”, para compreender como é a vida em seu interior. O que dizer, então, quando essa vida se prolonga durante décadas, desde 1947 e antes? Isso permite entender o que é o acampamento e por que existe essa sanha imperialista, sionista e reacionária árabe para destruí-lo. Destruir o acampamento é destruir a identidade palestina.

O acampamento continua sendo, até hoje, uma fortaleza impossível de erradicar. Destrói-se um acampamento aqui e o palestino se desloca para lá e constrói outro. Não se pode criar um novo acampamento fora dos marcos da destruição do acampamento anterior.

Não temos acampamentos por causa da desertificação, nem da fome, nem do desemprego. Temos acampamentos porque existe uma entidade que engoliu a terra onde viviam essas pessoas; suas aldeias foram destruídas e viram-se obrigadas a se refugiar em acampamentos.

E esses acampamentos não foram destruídos só uma vez. Não existe um acampamento na Palestina que não tenha sido destruído mais de uma vez. Por isso, os acampamentos no Líbano – respondendo à sua pergunta – transformaram-se no principal refúgio dos pobres do país. Na realidade, não são mais acampamentos “palestinos” num sentido estritamente demográfico. Se você for, por exemplo, a Shatila, verá que por volta de 20% são palestinos; o resto são pobres do Líbano: sírios, iraquianos e libaneses. O acampamento é um foco dessa transformação histórica, dentro do processo objetivo da revolução, por sua contradição real com a estratégia imperialista e sionista.

Encontrei um povo firme, apesar de todas as suas contradições. Como qualquer povo do mundo, não somos homogêneos: existem setores sociais que se inclinam à negociação e à capitulação. Mas existe uma ampla maioria de massas resistentes que se levantaram com alegria ao ver o soldado israelense chorar e ir embora derrotado, enquanto os regimes e exércitos árabes observavam passivamente.

Temos massas que buscam dirigentes e lhes exigem estar numa posição revolucionária. Pode ser que essas direções não estejam hoje nesse lugar, mas, no final, essas massas encontrarão suas direções efetivas, farão a revolução e se converterão no núcleo revolucionário que sacudirá o conjunto do mundo árabe.

O que está colocado hoje é que o Líbano é o único lugar do mundo árabe onde existe uma vontade revolucionária e onde existe uma força militar que não está completamente controlada pelos equilíbrios de poder. Por isso, estaremos submetidos a uma pressão enorme. Todo o sistema imperialista, todas as forças vinculadas a Israel e, em particular, as reações árabes, farão uso de todo seu arsenal de ódio para forçar-nos à rendição. Mas nosso povo não se renderá. Conservaremos essa força militar e seremos a fagulha que fará explodir esses sistemas oficiais que oprimem nossas massas no Egito, Jordânia e nos chamados protetorados do Golfo.

Isso é o que encontrei no Líbano: forças vivas. Fui recebido como se recebem os militantes, e surpreendeu-me profundamente a calidez dessa recepção. Estou profundamente agradecido a todos os líderes que me receberam, e sinto-me muito tranquilo ante o enorme grau de disposição das massas para dar tudo.

O que nosso povo demonstrou nesta etapa é que a energia das massas supera todas as estimativas. Quando se trata da autodefesa e do futuro, as massas de nossa nação árabe e, em particular, na Palestina e no Líbano, se encontram num de seus momentos mais altos.

Desempenharão seu papel histórico suportando a pressão, tal como o povo palestino assumiu historicamente a responsabilidade de enfrentar o assentamento sionista em todo o Mashreq árabe (Oriente árabe). Durante décadas, esse ônus recaiu fundamentalmente sobre o povo palestino. Hoje, cabe às massas libanesas e palestinas assumir as exigências desta etapa para que a situação árabe estoure e possamos nos livrar desses tiranos, dessa leva de governantes cujos interesses estão organicamente ligados ao capital global.

Entrevistador: Hoje, muitas pessoas salientam que a situação econômica e social é pior que anos atrás, mas, ao mesmo tempo, aparecem vozes que dizem que não se deve lutar, que a mudança deve limitar-se à dimensão institucional, a reformas democráticas e parlamentares, sem revolução. Escuta-se isto em distintos países – por exemplo, na Argentina.

George: Na escala global, a situação é a seguinte: vivemos condições explosivas em todo o mundo. O movimento do capital, o sistema capitalista em seu conjunto, atravessa uma crise profunda, uma crise estrutural. Esta crise leva as burguesias a se enfrentarem entre si. O que vemos com Trump, o que vemos na Europa, o que vemos na Rússia, indica que pela terceira vez em menos de um século, estamos à beira de uma guerra mundial como consequência direta da crise do capital. É a terceira vez em menos de cem anos, e isto é evidente para quem quer que observe a realidade. O que podemos esperar neste contexto? As massas populares enfrentam, cada vez mais, um processo de fascistização em escala global. Existe uma dinâmica clara de transformação rumo ao fascismo dentro do próprio sistema capitalista, que abandona progressivamente o que denominava democracia representativa. Hoje, cada vez mais, os principais partidos e governos expressam esta deriva: na Argentina, na Itália e com processos similares avançando na França, na Alemanha e nos Estados Unidos. Esta dinâmica conduz a um empobrecimento crescente das massas, e esse empobrecimento não fará senão se agravar. A questão central que se coloca é a seguinte: como se formarão as vanguardas revolucionárias capazes de agrupar forças para enfrentar o fascismo?

Dito de outro modo, a composição da classe trabalhadora atual não é a mesma que a do século XX. O que se denomina setores precarizados e marginalizados constitui hoje a maioria da população mundial, distribuída em escala global. A crise do sistema capitalista atinge-os em todos os continentes. A pergunta é como essas forças populares poderão se organizar dentro de marcos políticos dotados de um programa capaz de enfrentar o fascismo na Argentina, no Peru, na França e em outros lugares. Nossa resposta é clara: existe uma grande massa social que tem um interesse objetivo na mudança. Essa massa está composta por uma combinação de setores precarizados, trabalhadores e outros setores populares. Através da participação concreta nas lutas cotidianas, se vai construindo essa força popular. Em seu processo histórico — econômico, social, político e cultural — , essa massa se forma em meio a contradições, mas sob uma diretriz clara: juntos, e só juntos, venceremos; juntos, e só juntos, avançaremos; juntos, em todos os lugares, venceremos. Na Argentina como em Beirute, é necessário identificar os espaços comuns e fortalecê-los para construir uma identidade compartilhada. A solidariedade com a Venezuela, com a Palestina, com o povo Kanak na Nova Caledônia, com os povos do Caribe, faz parte de um mesmo processo. É uma solidariedade que forja a identidade histórica da massa popular frente a um capital global que não oferece nada mais que barbárie.

Essa barbárie, nós a vimos em Gaza, na Cisjordânia, na Argentina e nas periferias de pobreza e miséria; a vemos na África e no sudeste asiático. O capital não tem outra proposta: só barbárie. Na medida em que agimos coletivamente em torno de objetivos comuns, contribuímos para construir a personalidade histórica desta massa popular. A massa popular, sujeito da mudança, se forma através da luta, não fora dela. No processo de luta, se produz a diferenciação das forças burguesas conciliadoras e se constrói uma compreensão comum dos interesses reais das massas. Essas massas chegarão a compreender por si mesmas seus interesses imediatos e históricos. Serão elas que transformarão a realidade. O papel dos militantes revolucionários é contribuir para a construção desta massa popular sobre uma base clara: juntos, e só juntos, venceremos; juntos lutamos, juntos nos formamos. A constituição dessa massa popular lhe permite compreender seus interesses presentes, seus interesses históricos e, com isso, o movimento geral da história. Essa é a verdadeira libertação: uma libertação que se produz dentro deste processo, não à margem dele.

Entrevistador: A operação do 7 de Outubro, a Tempestade de Al-Aqsa… Como a viveu? Esperava uma operação dessa magnitude? Quais foram suas impressões nesse momento e quais são agora?

George: Sou árabe, palestino e libanês, e abordo esta questão como algo que concerne a qualquer ser humano desta grande pátria árabe. Ademais, sou comunista, e, dessa posição, analiso essa operação não só em sua dimensão local, mas a partir de seus efeitos em escala global e em relação com a dinâmica da luta revolucionária árabe e internacional.

Do ponto de vista estritamente militar, o 7 de Outubro foi uma operação relativamente limitada; não foi uma operação de grande envergadura em termos históricos. A revolução palestina tem mais de quarenta anos. Que grupos de combatentes — mil, mais ou menos — realizem uma ação deste tipo é algo natural, inclusive algo que se poderia ter repetido periodicamente. No entanto, o que ocorreu produziu uma série de efeitos que foram muito além do esperado.

No plano político e social, ao nível da reação popular imediata, a resposta foi espontânea. Como tantos outros filhos de nosso povo árabe, quando vimos um fedayín capturando um soldado israelense sobre um tanque, aplaudimos e explodimos de alegria. Essa foi uma reação natural, ao ver os combatentes agirem como cabe a combatentes. Mais tarde, ao analisar a operação em detalhes, é válido dizer que algumas coisas poderiam ter sido feitas de outro modo. Mas, em sua orientação geral, foi uma operação militar altamente bem sucedida.

Agora, vejam: houve efeitos que nem todos perceberam de imediato. Essa operação revelou uma realidade que não estava completamente visível. Quando Israel enfrentou a violência palestina, respondeu de maneira bárbara, como era previsível. Mas essa resposta transformou toda a região numa zona insegura para o capital global, e este é o ponto central. Para compreendê-lo, é preciso entender o que é Israel. Até a década de 1970, Israel não contava com grandes instituições financeiras privadas:  bancos, sistemas de seguros e estruturas financeiras fundamentais continuavam sendo de caráter público. Nos anos oitenta, com a chegada de cerca de um milhão de colonos procedentes da União Soviética, chegaram também enormes quantidades de capital, muitas vezes por vias ilegais do ponto de vista do próprio capitalismo. Junto com esse capital, chegou uma massa humana altamente qualificada, formada cientificamente, o que permitiu a Israel dar um salto qualitativo e construir o que se conhece como seu “Vale do Silício”. O 7 de Outubro atingiu esse núcleo estratégico. Não porque o tivesse destruído fisicamente, mas porque o capital não pode permanecer onde existe um conflito armado aberto. Ninguém esperava esse efeito. E é precisamente isto o que situa Israel na fase final de sua existência histórica.

O projeto do chamado “Grande Israel” era viável enquanto esse Vale do Silício funcionasse. Não se tratava de uma ocupação militar clássica, mas de um domínio econômico e administrativo de toda a região, similar ao que se exerce sobre os chamados Estados do Golfo. O 7 de Outubro cancelou esse projeto, inclusive sem que aqueles que o levaram a cabo fossem necessariamente conscientes dessa dimensão estratégica.

Ademais, o 7 de Outubro impediu a normalização entre a Arábia Saudita e Israel. Não devemos esquecer que Gaza é uma enorme prisão, e que os planos consistiam em incrementar ainda mais esse confinamento. O 7 de Outubro foi a explosão dessa prisão, e essa explosão alterou todos os projetos regionais.

O Ocidente respondeu lançando mão de todo seu arsenal de barbárie e criminalidade, mas o povo palestino permaneceu em pé, com suas feridas e com suas crianças, sem se render. Ofereceu um exemplo de resistência que a humanidade não havia visto nem em Dien Bien Phu, nem em Stalingrado. Nunca um povo havia combatido dessa maneira em defesa de sua própria existência. Em escala mundial, o impacto foi imediato. Pela primeira vez na história do capitalismo ocidental, uma guerra de extermínio pôde ser observada em tempo real, hora a hora. O argentino, o boliviano, o paquistanês, puderam ver diariamente o genocídio se desenrolar ante seus olhos. Isso levou amplos setores da juventude a se levantar: primeiro, desde uma posição de solidariedade humana; depois, a partir de uma compreensão política mais profunda. Essa mobilização começou a adquirir um caráter claro de confronto com a “fascistização do extermínio”. Num contexto global marcado pela crise do capitalismo e pela possibilidade real de uma terceira guerra mundial, a causa palestina se tornou uma bandeira contra o avanço do fascismo na Europa e no mundo.

Por isso, quando começaram as manifestações na Europa nos Estados Unidos, os governos tentaram proibi-las e criminalizá-las. Ter uma cufia [lenço] ou uma bandeira palestina podia levar à prisão ou a ser acusado de antissemitismo. Hoje, no entanto, não há cidade no mundo onde não se levante a bandeira palestina e a cufia como símbolo não só de solidariedade, mas de resistência ao fascismo nos próprios países.

Netanyahu é uma expressão concreta do fascismo. Israel, como entidade, é uma extensão orgânica do imperialismo ocidental, que se formou historicamente através de guerras de extermínio. Estados Unidos, América Latina, Austrália: todos esses projetos estatais se construíram sobre genocídios massivos. Israel é a última expressão dessa lógica. A guerra de extermínio contra o povo palestino não começou em Gaza; começou em fins do século XIX. Em 1948, quando não chegava ao milhão de pessoas, o povo palestino resistiu. Hoje, supera os catorze milhões. Dentro da Palestina histórica, os palestinos já são mais numerosos que os colonos. Isso mostra que a guerra de extermínio fracassou.

O 7 de Outubro disse a esse projeto colonial: sua hora chegou. A violência desencadeada hoje em Gaza e no Líbano é a expressão desse último capítulo. Israel não pode mais se apresentar ante os povos do mundo como uma “democracia”. Revelou-se o que é: um símbolo absoluto de barbárie. Sem esse respaldo moral e político do Ocidente imperialista, Israel não se sustenta. Poderão continuar a enviar-lhe armas, mas as armas não mudam a história. São os povos que a fazem. E o povo palestino, com recursos rudimentares, demonstrou uma força superior a todo arsenal militar.

Durante mais de um século, o povo palestino resistiu a uma guerra de extermínio em nome de todo o Mashreq árabe. O projeto colonial não se dirigia só à Palestina, mas a toda a região. E foi o povo palestino, vanguarda desta nação, quem pagou o preço com o sangue de seus filhos e triunfou. Hoje, o mundo diz: não só resististe, venceste. E não só como palestino, mas como bandeira da luta contra o fascismo que avança em todas as partes.

Esses são os efeitos históricos do 7 de Outubro.

Entrevistador: Com o chamado cessar-fogo, viu-se uma certa desmobilização em escala mundial. Como analisa isto?

Georges: O que se denomina “cessar-fogo” é uma etapa dentro desse conflito, uma etapa importante. Mas é preciso analisar quais são seus fundamentos reais. O pano de fundo principal é o papel das reações árabes na tentativa de desarmar a resistência.

A preocupação central que sacode o imperialismo é que a luta armada na Palestina produziu um efeito global que não esperavam. O fedayin se transformou no representante do verdadeiro humanismo, o que tornou a cufia um símbolo universal de liberdade e de oposição ao fascismo. Por isso, recorrem a todos os meios possíveis para pôr fim a essa forma de luta. Isso é, na essência, o que está em jogo no chamado cessar-fogo. Dividiram esse processo em três ou quatro fases. A primeira fase consiste em dizer: “lhes permitiremos comer, não conseguimos exterminá-los”.

Logo, propõem uma segunda fase: que, sob cobertura religiosa ou regional, a reação árabe entre em Gaza. Mas para que entre, exigem a presença de forças internacionais destinadas a desarmar os chamados “terroristas”. Nós dizemos com clareza: esse exército não será desarmado. Esse exército é um símbolo de humanidade. Foi esse exército que permitiu que milhares e centenas de milhares de jovens saírem às ruas do mundo levantando a bandeira da liberdade representada pela cufia palestina.

Se essa reação árabe tentar entrar em Gaza, a esmagaremos. E se as forças imperialistas tentarem entrar em Gaza, as enfrentaremos e as destruiremos no pleno sentido da palavra.

As burguesias europeias e globais, sob a pressão das mobilizações populares na Europa, nos Estados Unidos e em escala mundial, começaram a fazer certas concessões no plano discursivo. Hoje, te dizem: podem se solidarizar com a “vítima palestina”, com o povo palestino faminto, assassinado, bombardeado. Isso está permitido. Mas não podem se solidarizar com quem é anti-imperialista.

Podes te solidarizar com a vítima enquanto vítima. Mas que essa vítima se transforme em sujeito histórico, em ator político, isso não: aí, passa a ser “terrorista”. Podes denunciar que um povo está sendo exterminado, podes afirmar que é uma vítima. Mas não tens direito — segundo eles — a solidarizar-te com quem luta com armas para defender esse povo. As forças imperialistas dizem claramente:   o verdadeiro problema é que hoje se coloque o anti-imperialismo como uma posição política legítima, com presença real na luta. Essa é a questão que não os deixa dormir. Dizem-te:   “Podes solidarizar-te humanitariamente com as crianças, com as mães… mas cuidado, muito cuidado com dizer que existe uma resistência anti-imperialista e que tu te solidarizas com ela. Isso é crime”.

Essa é sua posição. Nós dizemos o contrário. Estas condições históricas que converteram as crianças de Gaza num símbolo universal da liberdade não existiriam sem o 7 de Outubro. Não seriam um símbolo da liberdade se não existissem esses fedayins que carregaram uma bomba e a colocaram sobre um tanque. Só a posição fedayin encarna verdadeiramente o conteúdo do humanismo. Esse “humanismo” que hoje muitos dizem defender não é outra coisa senão a tradução prática do sacrifício desses combatentes que puseram sua vida e seu corpo frente à maquinaria militar.

Os imperialistas, em todas as suas variantes, repetem: “Solidariza-te com a vítima, mas cuidado… cuidado com solidarizar-te com os fedayins anti-imperialistas”.

E nós respondemos com clareza: somos anti-imperialistas porque somos fedayins. E representamos o verdadeiro humanismo porque somos fedayins que praticam a luta armada, na Palestina e fora da Palestina.

Entrevistador: Queremos enviar uma mensagem aos povos do mundo e também à América Latina.

George: A mensagem às e aos militantes da América Latina é clara: estamos numa mesma batalha. O grande temor do imperialismo é que a luta anti-imperialista deixe de ser uma consigna abstrata e se converta numa realidade concreta, legítima e assumida pelas massas. Esse é seu verdadeiro medo.

“Juntos, e só juntos, venceremos”. Nós, junto às e aos militantes da América Latina e de outros lugares do mundo. Isolados, não podemos vencer em lugar nenhum. Se nos fragmentamos, nenhum de nós vencerá. Quando as massas da América Latina se mobilizam por suas próprias reivindicações sob a bandeira palestina, o fazem como parte da luta contra o fascismo. Desse modo, expressam a forma mais concreta e efetiva de solidariedade com os presos da revolução palestina e com cada palestino que luta.

Este princípio não é só um lema. As massas argentinas, palestinas, egípcias, têm interesses comuns frente à barbárie do capital. Quando a massa social na Argentina se mobiliza contra seu próprio fascismo, está defendendo também a Palestina. Cada vitória ali é una vitória aqui. Qualquer triunfo em qualquer lugar do planeta é uma vitória para todos nós.

Cada passo adiante em qualquer ponto do mundo fortalece o conjunto das forças revolucionárias. Quando as filhas e os filhos do povo argentino avançam em suas lutas, esse avanço é também nosso. E cada vitória na Palestina é uma vitória para os povos da Argentina, do Peru e de outros lugares.

As direções reais da massa popular devem compreender que nossas lutas devem se coordenar. Temos que aprender a fazer isso. Cada batalha no Líbano deve ser pensada em relação com uma batalha na Argentina, na Europa ou em qualquer outro lugar. Devemos nos relacionar entre nós como o faz o capital em escala global, mas sem reproduzir suas contradições. “Juntos, e só juntos, venceremos”. Esse é nosso lema hoje, amanhã e depois de amanhã.

Assim construímos a massa popular com interesse histórico na mudança. Essa massa se constrói aqui e ali, e através dessa solidariedade se forja o que chamamos a internacional revolucionária. A defesa da Venezuela, a defesa da Argentina, a defesa da massa popular em qualquer lugar, é uma só e a mesma defesa. Cada vitória em Cuba, na Venezuela, na Rússia ou em qualquer outro ponto do mundo é uma vitória coletiva.

As direções revolucionárias devem levar isto em conta ao definir as prioridades da luta. Nosso inimigo é o capital global; nossos aliados são as massas populares. A massa popular não se constrói à margem da coordenação: se constrói dentro dela, e parte de sua identidade nasce desse processo. O nível de desenvolvimento da luta popular se reflete na natureza de suas direções. Quando predominam direções reformistas, reacionárias ou rendidas, isso constitui uma derrota também para outros povos. Quando há direções revolucionárias na Palestina, isso é uma vitória para a Argentina. Quando, na Argentina, há combatentes revolucionários, isso é uma vitória para a Palestina.

Essa interação é que permite construir uma massa popular global capaz de acabar com o sistema capitalista, um sistema em crise permanente que só pode ser superado mediante sua derrubada pelas massas organizadas. Mas isso não se consegue com discursos abstratos. A massa popular se constrói mediante a prática quotidiana do “juntos, e só juntos, venceremos”. Assim se constrói na Argentina e fora da Argentina. Enfrentá-los é nosso dever: na Palestina e em qualquer lugar. Cada passo aqui é um passo adiante ali. Cada passo ali é um passo adiante aqui. “Juntos, e só juntos, venceremos”.

Isto exige das direções revolucionárias uma posição clara. No plano prático, as vanguardas palestinas e libanesas devem identificar em cada país quem são os verdadeiros combatentes contra o capital e contra Israel, e aliar-se com eles. Não com os discursos vazios das burguesias, mas com os que entregam seu corpo à luta. Esses são nossos verdadeiros aliados, e sobre essa base devemos agir.

30/Janeiro/2026

O original encontra-se em masarbadil.org/es/2026/01/7295/ https://masarbadil.org/es/2026/01/7295/ . Tradução e introdução de Henrique Júdice.

Este artigo encontra-se em resistir.info https://resistir.info/

02/Fev/26

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