No dia 25 de outubro de 2026, o povo brasileiro deu uma voadora no fascismo. A população brasileira venceu a eleição presidencial [Lula (64,2 mi-votos) x Fábio Bolsonaro (59,8 mi-votos)]. A democracia venceu a milícia&fascismo. Por enquanto expulsamos algumas coisas piores que a morte.
É pertinente, nesse contexto, lembrar Hitler e o que representa (no presente) o nazismo
As entrevistas de Hitler e suas lições para o presente
Livro mostra como o ditador nazista usou a imprensa para reforçar seu discurso radical.
Lutz Hachmeister - piaui, 27. 10. 2026
“Minha vida inteira não passou de um ato contínuo de persuasão.” Adolf Hitler, 18 de janeiro de 1942, na Wolfsschanze [1]
Falo, logo existo. Esse era o principal lema de vida de Adolf Hitler. Proibi-lo de falar seria como impedi-lo de respirar. E isso se aplicava a todas as formas de discurso. Sua loquacidade incessante, seu ato persistente de monologar em todas as situações de comunicação possíveis, “a torrente de palavras”, tal como descreveu em 1935 seu primeiro e exilado biógrafo Rudolf Olden – tudo isso foi logo notado pelos observadores de Hitler desde o início. E esse fato se referia a toda sorte de circunstância: desde suas participações em comícios e suas “conversas à mesa” – ao meio-dia ou no final da tarde, perante uma audiência ora constrangida, ora entusiasmada – até suas mais de cem entrevistas concedidas a jornalistas estrangeiros. No entanto, ao se fazer uma seleção dessas entrevistas de acordo com os países dos quais provinham os repórteres, um claro interesse estratégico e instrumental por parte de Hitler se torna visível: as cerca de sessenta conversas com jornalistas anglo-americanos predominam, seguidas por dezessete com entrevistadores italianos e oito com franceses.
As entrevistas de Hitler podem ser claramente divididas em três fases: a primeira, que vai do “Mussolini da Baviera” até sua detenção em 1923 e a subsequente prisão em Landsberg; a segunda, de 1930 a 1933, quando o poder se tornou uma possibilidade concreta para o movimento nazista; e a terceira, a fase ditatorial como chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas.
Já em 1936 o bem-informado jornalista americano John Gunther reconheceu a inesgotável habilidade de Hitler para falar em público como a principal causa de sua ascensão: “Ele chegou ao poder pela fala. O curioso é que Hitler é um mau orador. Ele grita; seu modo afetado de se expressar é desajeitado; sua voz falha a cada parágrafo; ele nunca sabe quando parar. Como orador, Goebbels é bem mais sutil e versado. No entanto, Hitler, cujo magnetismo em geral é quase nulo, é capaz de levar o público ao delírio, em especial o grande público. Obviamente, ele conhece todos os truques.”
Com truques retóricos ou não, o fato é que, de modo geral, Hitler não gostava de ser entrevistado por nenhum jornalista, nem mesmo pelos repórteres da Itália, genuína aliada fascista, e muito menos pelos enviados das instituições democráticas da mídia capitalista, que, segundo ele, eram controladas pelo “judaísmo global”. Mesmo como ideólogo racial declarado, dificilmente poderia exigir de seus entrevistadores um certificado de origem ariana; portanto, do ponto de vista genealógico, não sabia exatamente quem estava à sua frente. Além disso, não gostava de ser interrompido em suas declarações e, por conseguinte, não era receptivo a possíveis formas de diálogo com repórteres, que é o que de fato torna uma entrevista interessante. De resto, ele não tinha como saber quais comentários resultariam das entrevistas, uma vez que eles seriam integrados a reportagens abrangentes dos respectivos meios de comunicação estrangeiros sobre a atuação do regime nacional-socialista. Quando seus conselheiros – sobretudo Ernst Sedgwick “Putzi” Hanfstaengl, que havia muitos anos era “chefe do departamento de imprensa estrangeira do Partido Nacional-Socialista” – insistiam para que ele desse entrevistas a estrangeiros, a fim de melhorar sua imagem, ele fazia questão de apresentar repetidas vezes os pontos centrais da ideologia nacional-socialista, já formulados em 1920, e aproveitava as conversas com a imprensa para abordar temas táticos e estratégicos e mentiras deslavadas que lhe pareciam importantes no momento.
Em todo caso, o autoproclamado especialista em mídia e propaganda logo reconheceu o valor propagandístico dessas notícias. Além disso, pelo menos até 1933, com frequência cada vez maior passou a cobrar pelas entrevistas, com o intuito de reforçar o caixa sempre reduzido do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). Com a expansão de sua esfera de poder a partir de 1930, Hitler – um controlador maníaco tal como todos os ditadores, líderes de seitas e autocratas –, junto com “Putzi” Hanfstaengl, que ele descartou em 1937, e com os especialistas em mídia e mediadores que o sucederam, conseguia preparar minuciosamente os encontros com jornalistas estrangeiros, insistir para que as perguntas lhe fossem enviadas com antecedência, determinar o enfoque da entrevista e, é claro, reservar-se o direito de dar a autorização final para que o texto fosse publicado. Na maioria das vezes (mas nem sempre), dava certo. Quase sempre, a vontade de Hitler prevalecia. Mesmo assim, sentia-se desconfortável nesses encontros.
Já para os jornalistas e as respectivas organizações de mídia, o papel era outro: para eles, Hitler era um troféu; a entrevista com o Führer já era um furo de reportagem em si, independentemente da estrutura e do conteúdo. A maioria dos repórteres não se mostrava preparada para entrevistar Hitler, tanto em termos biográficos quanto em termos estratégicos e políticos. Na maior parte das vezes, eles simplesmente deixavam o difícil interlocutor falar para logo obterem alguma manchete. E isso nas diferentes funções políticas desempenhadas por Hitler: no início, como o “Mussolini da Baviera”, a figura clownesca com bigode de Chaplin, o house painter austríaco, com uma biografia estranhamente obscura; em seguida, com o amplo sucesso do NSDAP nas eleições de 1930, como o expoente estridente dos direitos völkisch; [2] e, por fim, por um período após a tomada do poder pelos nacional-socialistas, surpreendentemente como o estadista em traje militar prussiano, ao estilo de Hindenburg. [3] A partir do momento em que os nacional-socialistas passaram a ser vistos como uma opção real de poder na Alemanha, os jornalistas estrangeiros começaram a bater à porta de Hitler. Em sua autobiografia, o célebre correspondente americano Hans V. Kaltenborn descreve uma reunião importante e, em muitos aspectos, típica, ocorrida em 1932 em Berghof, casa de veraneio de Hitler na Baviera
Louis Lochner, na época correspondente da Associated Press na Alemanha, e eu tínhamos pedido uma entrevista com o Führer. Para minha grande surpresa, Ernst Hanfstaengl, um de meus ex-colegas em Harvard e, na ocasião, oficial de ligação de Hitler para a imprensa estrangeira, telefonou para mim e disse que o Führer nos veria no dia seguinte em sua casa em Berchtesgaden. Como sabíamos de sua tendência a discursar para jornalistas, preparamos uma série de perguntas, para as quais estávamos decididos a obter as respostas.
Hitler não nutria grande simpatia por representantes da imprensa estrangeira. Cumprimentou-nos de maneira superficial e hostil. A entrevista foi realizada na varanda de sua magnífica casa nos Alpes Bávaros, perto da fronteira com a Áustria. Um local encantador, e da varanda se tinha uma belíssima vista das montanhas. Era uma manhã quente de verão, e os canários chilreavam alegremente nas gaiolas penduradas em toda parte no terraço. Nesse ambiente, Hitler começou a falar com expressão carrancuda, como se estivesse discursando para uma multidão. Procurei perturbá-lo com minha primeira pergunta: “Por que seu antissemitismo não faz distinção entre os judeus que migraram em massa para a Alemanha no pós-guerra e as muitas famílias judias refinadas que são alemãs há várias gerações?”
“Todos os judeus são estrangeiros”, gritou. “Quem o senhor pensa que é para me questionar como lido com os estrangeiros? Vocês, americanos, não admitem nenhum estrangeiro que não disponha de um bom dinheiro, de uma boa constituição física e de uma boa moral. Quem o senhor pensa que é para falar sobre quem deveria ser admitido na Alemanha?” Isso determinou o tom que predominaria durante toda a entrevista. [4]
Para descontentamento de Lochner e Kaltenborn, Hanfstaengl também tinha convidado para o encontro em Berghof, sem avisar, Karl von Wiegand, correspondente da Hearst. [5] Wiegand tinha conseguido marcar uma conversa exclusiva de quinze minutos com Hitler, mas, ao final, também concluiu: “Esse homem é um caso perdido. A cada vez que o vejo, ele está pior. Não consegui obter nada dele. Se você lhe faz uma pergunta, ele responde com um discurso. Toda essa visita foi uma perda de tempo.” Juntos, os três jornalistas americanos ainda tiraram uma foto com Hitler. Posteriormente, Wiegand fez mais entrevistas com o Führer.
Existem dezenas de relatos semelhantes, em que os correspondentes relembram a atmosfera dos encontros com Hitler. Mas não há nenhuma gravação sonora deles (por motivos técnicos da época), nem mesmo anotações taquigrafadas com precisão. Há apenas as versões impressas pelos respectivos órgãos de imprensa, de modo que o texto em si deve ser tratado com o devido ceticismo, sobretudo na fase inicial das entrevistas de Hitler até 1923. Com o tempo, as fontes foram melhorando graças à correspondência de acompanhamento, a materiais de arquivo e a versões autorizadas pelo Partido Nacional-Socialista para a publicação em seu jornal Völkischer Beobachter.
Desde o início, prevaleceram as entrevistas a jornalistas estrangeiros. Em contrapartida, quase não se encontram entrevistas do Führer a órgãos de imprensa nacionais. E as razões são várias. Por um lado, os bons jornais democráticos, como o Frankfurter Zeitung ou o Berliner Tageblatt, não tinham interesse naquele sofista völkisch e político provinciano que, até 1933, também não queria conversa com jornalistas de “tabloides judaicos”, como os chamava. Seja como for, posteriormente eles já não eram relevantes para ele. Por outro lado, o NSDAP dispunha de seu próprio jornal, o Völkischer Beobachter, para o qual Hitler escrevia de bom grado e com frequência a partir de 1921 – o que o levou desde cedo a mudar seu título profissional de “pintor” para “jornalista”, antes mesmo de escrever Mein Kampf (Minha luta). É significativo que sua entrevista mais longa a um órgão de imprensa nacional tenha sido concedida ao jornal de Otto Dietrich, chefe de imprensa de Hitler. [6]
Uma das raras entrevistas de Hitler a um jornal alemão, o 8-Uhr-Blatt, de Nuremberg e Munique, ocorreu no outono de 1922 e obteve uma considerável repercussão internacional. Desse modo, em 12 de novembro de 1922, o jornal nacionalista francês L’Action Française reagiu apresentando o “Mussolini bavarois” como “Dr. Hittler”. Sem dúvida, o momento crucial que determinou esse interesse da imprensa estrangeira por Hitler foi a “marcha” de Mussolini sobre Roma, no final de outubro de 1922.[7] Essa entrevista inicial foi bastante característica por sua franqueza. Em uma reportagem publicada em 12 de novembro de 1922, a edição berlinense do jornal húngaro Pester Lloyd resumiu a conversa da seguinte maneira:
O Mussolini da Baviera
(Telegrama do Pester Lloyd)
Berlim, 11 de novembro
No que se refere à prisão de Roßbach [8] e às incitações do líder bávaro fascista Hirtler [sic], merece atenção um relato enviado pelo correspondente especial do Acht-Uhr-Blatt de Munique sobre uma visita a Hitler. De acordo com esse relato, inicialmente esse Mussolini da Baviera era um pintor de cartazes. Tem cerca de 35 anos, é alto, nervoso e desatento. Exprime-se com frases desconexas e quase sempre usa de retórica vazia. Seu programa é o mais flagrante antissemitismo. Ele começa a responder a primeira pergunta do entrevistador dizendo que não pretende organizar nenhum golpe. Quer construir um Estado inteiramente fundado em uma base social, mas na única base correta, que o judeu jamais poderia compreender. Luta contra o marxismo, pois acredita que ele seja um disparate que corrompe o mundo, bem como contra toda a República Alemã, pois ela estaria dominada pelos judeus, assim como a monarquia guilhermina antes dela. Segundo ele, Jesus teria origem germânica, enquanto o papa Alexandre VI, o imperador Guilherme II e o rei Eduardo VII seriam judeus. Esse último, porque sua mãe, a rainha Vitória, teria tido um relacionamento com seu médico pessoal, de nome Wolf.
Em 4 de junho de 1942, o líder do nacional-socialismo procurou o marechal Carl Gustav Emil Mannerheim, comandante supremo do Exército finlandês, por ocasião de seu aniversário de 75 anos. A rápida visita, ocorrida no aeroporto de Immola, no sudeste da Finlândia, não seria digna de nota se o técnico de som Thor Damen, funcionário da radiodifusora pública Yleisradio, não tivesse gravado, sem permissão, onze minutos de conversa entre Hitler e Mannerheim no vagão do trem, até a escolta SS de Hitler intervir. Essa gravação foi preservada e está disponível na internet. Até hoje, a conversa entre Hitler e Mannerheim é considerada o único registro sonoro “privado” do ditador, embora não seja tão privado assim, uma vez que trata da situação militar e política na guerra entre a Rússia e a Finlândia e da lealdade indireta da Finlândia às potências do Eixo. Inicialmente, o velho Mannerheim ainda conseguiu fazer alguns comentários educados sobre a situação da guerra, mas, em seguida, Hitler dominou a conversa como sempre fazia, com estatísticas sobre a produção soviética de tanques e a interessante revelação de que gostaria de ter atacado a França já no outono de 1939, mas o tempo não ajudou.
Essa gravação dá uma boa ideia do tom de voz usado por Hitler para se dirigir aos jornalistas estrangeiros. No entanto, ele também iniciava seus discursos às massas em um tom deliberadamente mais baixo antes de elevá-lo em um êxtase retórico. Portanto, à parte o volume, na conversa com Mannerheim não se nota nenhuma diferença em relação ao ritual de comunicação de Hitler. Os correspondentes estrangeiros podiam, porém, ser enganados por seu tom de voz, que, embora às vezes parecesse colorido pelo suave sotaque bávaro-austríaco, não deixava de ser ameaçador. Uma das teses desse livro é que, em princípio, não há diferença entre os discursos de Hitler em cervejarias ou comícios, as negociações diplomáticas, as “conversas à mesa” ou as situações mais íntimas de entrevista. Em última instância, existem apenas variações situacionais, mais ou menos calculadas, da mesma comunicação estéril de persuasão.
As “conversas à mesa no quartel-general do Führer” (1941-42), registradas pelos taquígrafos [9] do Partido Nacional-Socialista, confirmam isso. Nelas, é possível reconhecer perfeitamente a verborragia völkisch de um homem sem nenhuma formação filosófica e incapaz de autoironia e de um pensamento dialético. Em março de 1942, por exemplo, Hitler concluiu que não havia problema no fato de o termo Führer continuar sendo usado em expressões como Oberführer, Straßenbahnführer, Zugführer [10] e assim por diante, mas, se algum dia ele tivesse um sucessor, essa situação teria de ser mudada, e o termo Führer teria de ser “elevado a um conceito exclusivo”. No mesmo mês, após ler a biografia de Napoleão escrita pelo Reichsleiter [11] Philipp Bouhler, ele informou a seu círculo de assessores presentes que Napoleão Bonaparte havia fracassado sobretudo porque “seus colaboradores não atendiam aos requisitos. Ele não podia ser poupado da acusação de ter escolhido uma equipe inferior”. [12]
Em outra ocasião, Hitler discorreu sobre a produção alemã de mel (em maio de 1942, seu pai tinha a apicultura como hobby): “Durante o jantar, o chefe destacou que a produção de mel na Alemanha poderia ser dez vezes maior do que a obtida pelos apicultores hoje.” Segundo ele, era preciso ter sempre em mente que, “na Antiguidade e na Idade Média, o mel de abelhas era o principal adoçante de que se dispunha, usado até mesmo para adoçar o vinho”. Em junho do mesmo ano, ele mencionou o “número extraordinariamente elevado de doentes mentais na Finlândia”, cuja provável causa seria a aurora boreal, mas também “a forte tendência dos finlandeses à introspecção religiosa”. Não se sabe de onde ele tirou essa conclusão, mas ela lhe deu a oportunidade de trazer os judeus novamente à baila, pois, em sua concepção, pessoas religiosas que, no isolamento de um longo inverno, buscavam a clareza final em suas ideias religiosas, usando a Bíblia como recurso, eram mentalmente aleijadas. Afinal, eram obrigadas a “dar um sentido a essa fajutice judaica, na qual não havia sentido algum. Por conseguinte, elas literalmente se aprofundavam em uma linha de pensamento qualquer e, se não fossem muito resistentes, caíam em delírio religioso”.
Em 1919-1920, depois de se apropriar do Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP), inicialmente como encarregado da educação nas Forças Armadas da República de Weimar, depois como “coordenador de propaganda” e, por fim, como presidente do partido em Munique, Hitler rapidamente alcançou seu indiscutível sucesso como orador missionário. Em pouco tempo, começou a lotar cervejarias como a Sterneckerbräu, a Hofbräuhaus e a KindlKeller com um público que, muitas vezes, ultrapassava 2 mil pessoas. Só em 1920, proferiu cerca de noventa discursos como esses. Sabendo de seu diferencial, contratou um treinamento profissional para aprimorar seus gestos e sua expressão facial. Em 3 de fevereiro de 1921, fez sua primeira aparição no Circus Krone para 3.500 espectadores. Foi o primeiro grande comício do NSDAP, novo partido surgido a partir do DAP. Naquele ano, Hitler discursou sete vezes no Circus Krone para uma plateia de até 7 mil espectadores (em 25 de agosto).
Em 2021, o historiador Norman Domeier demonstrou em sua tese de doutorado [13] sobre os correspondentes americanos no Estado nazista que, sem as entrevistas de Hitler, “a ascensão do Führer e do Movimento Nacional-Socialista dificilmente seria concebível nas empresas de comunicação de massa do século XX”. Nesse caso, seria perfeitamente possível apresentar uma opinião diferente: talvez Hitler tivesse chegado ao poder mesmo sem dar nenhuma entrevista exclusiva aos correspondentes estrangeiros.
A biografia midiática de Hitler surge em um período de sérias agitações sociais, que também assiste ao nascimento e à disseminação do cinema, do rádio, da cultura de revistas ilustradas, dos cartazes políticos e de anúncios luminosos. Contudo, ainda mais significativa é a relação, desenvolvida a partir do final do século XIX, entre publicidade, relações públicas, formas incipientes de marketing político, “psicologia das multidões” e propaganda. Foi Gustave Le Bon quem definiu o tom fundamental nesse sentido, com sua Psicologia das multidões, em 1895, e sua descoberta da “alma das multidões”: “As multidões nunca ansiaram pela verdade. Afastam-se dos fatos que lhes desagradam e preferem idolatrar o erro quando ele as seduz. Quem sabe iludi-las facilmente se torna seu senhor; quem busca instruí-las sempre se torna sua vítima.” Hitler passou a vida preso a essa dicotomia entre “líder” (masculino) e “multidão” seduzível (feminino). [14] Isso ainda foi impulsionado pela supervalorização do papel atribuído à propaganda (bem como à “psicologia militar”) na Primeira Guerra Mundial, até culminar na poderosa fórmula “invictos no campo de batalha”, divulgada pelo comando supremo das Forças Armadas e, mais tarde, por todos os representantes da direita nacionalista. [15]
Curiosamente, embora nenhum analista de Hitler tenha conseguido evitar uma descrição de sua performance, até hoje não há nenhuma obra sólida que associe de maneira coerente todo o seu repertório de sinais comunicativos às manifestações concretas da propaganda nacional-socialista. Desse modo, por um lado, podemos ler inúmeros estudos sobre a retórica de Hitler, seu “simbolismo político”, suas encenações, sua vestimenta, sua fisionomia, sua biblioteca e até mesmo seu bigode; por outro, há livros que tratam do desenvolvimento do controle dos meios de comunicação pelos nazistas, da Gleichschaltung [16] da vida pública, das campanhas eleitorais acirradas antes de 1933 (“Hitler sobre a Alemanha”) ou da propaganda estrangeira. Como as entrevistas de Hitler se estendem por um período de mais de vinte anos, é bastante evidente a estreita relação entre a concepção de sua propaganda e a plataforma política, a técnica, a estratégia e a tática correspondentes de todo o aparato nazista. Resumindo, Hitler é menos separado de Goebbels e companhia do que normalmente acontece.
Hitler se orgulhava muito de seus assessores no controle da propaganda e da mídia. Em fevereiro de 1942, exprimiu-se da seguinte forma sobre o tosco diretor da editora nazista, o arianista Max Amann (1891-1957), que na Primeira Guerra Mundial fora um de seus superiores: “Quanto a Amann, só posso dizer que é um gênio. O maior jornalista do mundo. Embora ele seja discreto, Rothermere e Beaverbrook [17] são fedelhos perto dele.” No comando do Völkischer Beobachter, Amann já tinha “usado de rigor militar para obter o máximo desempenho de todos os colaboradores”.
Em Mein Kampf, Hitler empregou esforços consideráveis para apresentar seus pontos de vista sobre o papel proeminente da imprensa como instituição educacional e, em sua biografia, chegou a fundamentar sua ideologia racial incondicional na leitura de jornais vienenses. Essas passagens estão entre as mais esclarecedoras de seu extenso manifesto. A princípio, assim escreve Hitler, ele teria acompanhado com a máxima consideração a “imprensa mundial” de Viena, surpreso “com a abrangência do que ela oferece a seus leitores, bem como com a objetividade da exposição detalhada dos fatos” e com “o tom elegante”. Mas, em seguida, ele teria descoberto que justamente os supostos jornais de qualidade estavam sob controle de capital e mentes judaicos: “É preciso estudar esse infame comportamento judaico de despejar, de uma só vez e como em um passe de mágica, baldes sujos com as mais baixas calúnias e difamações, provenientes de centenas de lugares, nas roupas limpas de pessoas honestas, para que possamos avaliar corretamente todo o perigo representado por esses canalhas da imprensa.” A partir de então, Mein Kampf passou a exibir apenas invectivas agressivas contra “a imprensa” em geral: “barões ladrões intelectuais”, “vagabundos”, “canalhas”, “invencionices de uma suposta liberdade de imprensa”. Essa última seria o perigo mortal para qualquer Estado. Com efeito, a liberdade de imprensa não significava absolutamente uma imprensa livre, mas apenas a liberdade de determinados indivíduos de fazer o que quisessem e o que correspondesse a seus interesses, mesmo que isso infringisse os interesses do Estado.
Entretanto, como o regime nacional-socialista não podia renunciar totalmente à imprensa, restava apenas impor a Gleichschaltung e a subordinação dos jornalistas às diretrizes do governo ditatorial e à suposta “vontade do povo”. No início, explicou Hitler, não foi muito fácil deixar claro ao jornalismo que ele também seria um membro a serviço do todo. Por isso, era preciso advertir constantemente esses profissionais de que a imprensa estaria se contradizendo e se prejudicando. Por exemplo, se doze jornais escrevessem um relato diferente sobre o mesmo acontecimento em uma cidade, o leitor se convenceria de que nenhum deles é sério. Conforme opinou Hitler em um jantar na Wolfsschanze, a Toca do Lobo, em 15 de abril de 1942, a imprensa acabaria perdendo o controle sobre a opinião pública e, por fim, já não corresponderia a ela em nada.
Hitler via a si mesmo como um excelente especialista em propaganda e perito em todas as questões relativas à imprensa – até nos mínimos detalhes. Isso é visível nas “conversas à mesa”. Portanto, em sua opinião, a Leipziger Illustrierte deveria apresentar um conteúdo mais atraente, a fim de concorrer com as revistas anglo-saxônicas; a Deutsche Illustrierte, em contrapartida, poderia ser dispensada. Em tempos de paz, além do prestigiado Das Reich, deveria haver um jornal dominical para a população rural, acrescido de um folhetim, “para que as moças tivessem alguma distração”. De acordo com o especialista em economia de mídia chamado Hitler, o perigo maior estaria nas “agências de anúncios em mãos de judeus”, pois com elas os judeus poderiam “levar um grande jornal à ruína bloqueando os anúncios”. Por outro lado, o Führer não conseguiu impor a Goebbels sua predileção pela “teledifusão”, que deveria transmitir sinais de rádio para todo o território através da rede de telefonia: “Teledifusão! Ordenei que seja feita. O Ministério da Propaganda não cumpriu porque o diretor-geral dos Correios disse que a tecnologia para tanto ainda não está pronta!”
Como figura midiática, Hitler precisava de mediadores e assessores. Um dos mediadores menos conhecidos nas primeiras entrevistas de Hitler era o contraalmirante reformado Waldemar Vollerthun, defensor de Alfred Tirpitz, chefe da Marinha Imperial. Quando jovem tenente, Vollerthun (1869-1929) estivera estacionado em Camarões e, entre outras atividades, atuara no serviço de inteligência da Marinha Imperial de Berlim. Tivera seu apogeu na Primeira Guerra Mundial como importante estrategista na colônia naval de Qingdao. Foi uma das figuras a princípio sem liderança, depois politicamente ativas no comando do Exército e da Marinha, que após 1918 quiseram criar uma ligação entre a ideologia guilhermina, os Freikorps, as sociedades secretas de extrema direita e Hitler, novo tribuno völkisch do povo. Nos anos 1920, Vollerthun, que já tinha escrito o livro de memórias Der Kampf um Tsingtao (A batalha por Qingdao), tornou-se editor da seção de política externa do jornal de direita Münchner Neuesten Nachrichten (MNN) e atuou no jornalismo político de cunho völkisch. Disponibilizou sua residência em Theresienwiese, em Munique, para os encontros de Hitler com jornalistas estrangeiros e tentou, acima de tudo, estabelecer uma aliança entre Hitler e Tirpitz. Em novembro de 1922, Vollerthun escreveu a Tirpitz que Hitler “havia passado várias horas em minha casa como convidado” e descreveu o líder nazista da seguinte forma: “Seu antissemitismo não é destrutivo, mas construtivo; não significa extinguir os judeus, mas colocá-los em seu lugar.” Desse modo, Vollerthun representa o protótipo dos primeiros apoiadores de Hitler, pertencentes a círculos monarquistas e de extrema direita. Ele usou o MNN sobretudo para veicular a tradução alemã das entrevistas intermediadas por ele próprio. [18]
Não demoraria muito para Hitler ver o objetivo desses esforços de mediação, mas ainda não estava inteiramente convencido de sua eficácia. Em 6 de julho de 1942, em um de seus jantares, falou de Hanfstaengl, seu assessor de imprensa estrangeira de longa data, que muito tempo antes havia caído em desgraça e fugido para a Grã-Bretanha. Embora organizar entrevistas com a imprensa estrangeira (e fornecer a ela artigos assinados por Hitler) tenha se mostrado muito lucrativo do ponto de vista financeiro, no fim das contas “Putzi” teria sido mais homem de negócios que político, “visando apenas ao sucesso financeiro”. Quando Hitler o encarregara, por exemplo, de “publicar, o mais rápido possível, um artigo na imprensa do mundo inteiro”, Hanfstaengl perdera um tempo precioso na tentativa de obter o máximo de dinheiro nas negociações. Muito irritado, Hitler o repreendeu: “Hanfstaengl, não me tire do sério com essa sua ganância! Se o que me importa é que o artigo seja lido amanhã no mundo inteiro, as considerações financeiras não fazem a menor diferença!”
Outras histórias sobre Hanfstaengl se estenderam ao longo da noite. No fundo, esse filho da classe média alta, no qual este livro ainda se aprofundará com mais detalhes, chegou de maneira tão acidental a Hitler quanto o próprio chegou ao Partido dos Trabalhadores Alemães. Truman Smith [19], seu ex-colega de Harvard, que na época trabalhava para a embaixada americana em Berlim e achara Hitler um “demagogo formidável”, enviara Hanfstaengl a Munique para que ele assistisse a um discurso de Hitler. Rapidamente convencido do talento de Hitler como orador e, em princípio, alinhado à sua ideologia, “Putzi” se tornou mediador-chefe dos contatos de Hitler com a imprensa estrangeira – até essa tarefa ser assumida por Goebbels e pela Chancelaria do Reich.
A entrevista de janeiro de 1935 com Hitler, realizada por Pierre John Huss – americano nascido em Luxemburgo, correspondente do grupo Hearst –, no âmbito do Referendo do Sarre [20], pode ser considerada paradigmática para os encontros meticulosamente preparados do Führer com os jornalistas estrangeiros após 1933, pois os estrategistas da mídia nazista a planejaram e controlaram melhor que o próprio jornalista. Por essa razão, essa entrevista será antecipadamente abordada aqui como um estudo de caso.
Os responsáveis pela realização dessa conversa foram o dr. Karl Bömer, na época chefe de imprensa do escritório de política externa do NSDAP, comandado por Alfred Rosenberg, e Hans Thomsen, secretário-adjunto da Chancelaria do Reich e muito estimado por Hitler. Inicialmente, Huss (1901-66) se dirigiu a Bömer para pedir uma entrevista com Hitler. Bömer era professor de jornalismo e propagandista do nacional-socialismo, e Huss o conhecera pessoalmente quando ele era docente nos Estados Unidos. Em 14 de dezembro de 1934, Thomsen, a quem o anglófilo “Charlie” Bömer havia encaminhado o pedido de entrevista, comunicou que, em princípio, o “Führer e chanceler do Reich” havia autorizado a entrevista. No início de janeiro do ano seguinte, Bömer entrou mais uma vez em contato com a Chancelaria do Reich: “Na noite do dia 10, irei pessoalmente com Huss ao Sarre e voltarei no dia 14 pela manhã. Nesse meio-tempo, Huss terá concluído sua reportagem, que será complementada com a entrevista realizada com o Führer e imediatamente enviada a Nova York e à imprensa alemã.”
A pedido de Bömer, seu leal mentor, Huss entregara antecipadamente seis perguntas por escrito, como a seguinte: “Dizem que, após o Referendo do Sarre, serão realizadas uma reorganização e uma depuração no nsdap, que uma nova batalha com a Igreja Católica e uma nova abordagem da questão da Igreja Protestante são iminentes e que, de modo geral, a liderança do partido será mais rigorosa. O que há de verdade nisso?” Bömer bloqueou de antemão essas perguntas espinhosas – o Expurgo de Röhm, em junho de 1934, e seus efeitos na imprensa estrangeira (“A noite das facas longas”) ainda estavam vivos na memória. [21] Fez o que pôde para ocupar Huss no Sarre, entre outras coisas, intermediando encontros com oficiais nazistas, como o Gauleiter [22] Josef Bürckel, encarregado da região do Sarre. Desse modo, antes da entrevista com Hitler, Bömer pôde obter um relato favorável sobre o “rigor” do Referendo do Sarre.
Quando Huss finalmente se sentou à frente de Hitler em Obersalzberg, sua pergunta final, enviada com antecedência, abriu as portas para o habitual discurso torrencial de seu entrevistado: “Senhor chanceler do Reich, após seu grande sucesso no Referendo do Sarre, tem algo a dizer que possa ser de especial interesse para o povo americano?” Naquele momento, o Referendo do Sarre ainda não tinha sido realizado, mas Huss antecipou o desfecho esperado. Hitler usou a ocasião para enviar a mensagem, que também circulava por meio da agência alemã oficial de notícias (DNB), controlada pelos nazistas, de que, no momento, ele tinha “um único pedido” a fazer ao povo americano: “O que milhões de cidadãos americanos terão ouvido e lido sobre o Sarre nos últimos anos e nos últimos meses é o contrário do que hoje demonstra essa eleição livre e aberta. Eu ficaria feliz se reconhecessem isso, para que também no futuro as pessoas não acreditassem mais em uma só palavra dos caluniadores e agitadores internacionais de nossos emigrantes, que fazem da intriga sua profissão. Da mesma forma como mentiram sobre o Sarre, mentem sobre a Alemanha e, assim, enganam praticamente o mundo inteiro.” Se possível, o “povo americano” deveria visitar a Alemanha para ter uma ideia de um Estado “cujo regime atualmente é apoiado pela esmagadora maioria de uma nação”.
Além disso, Hitler usou a entrevista a Huss para assegurar mais uma vez que, após a reintegração da região do Sarre à Alemanha, ele não faria “mais nenhuma exigência territorial à França”: “Faço isso para que esse árduo sacrifício contribua para trazer a paz à Europa.” Obviamente, essa era uma mentira deslavada. Como bom revanchista, Hitler não tinha nenhuma intenção de deixar a Alsácia-Lorena aos franceses – e, com efeito, no decorrer do planejamento da campanha ocidental, chegou-se a considerar a possibilidade de anexar toda a Borgonha como antigo “território do Reich”. De uma maneira ou de outra, a França seria retalhada, e Hans Globke, futuro chefe de gabinete da Chancelaria no governo de Konrad Adenauer, desempenhou um papel bastante relevante nesses projetos. [23] De volta aos Estados Unidos, Pierre J. Huss usa novamente de floreios e toda sorte de reflexões sobre a psicologia de Hitler para descrever seu encontro com o Führer, ocorrido em 1942, em Obersalzberg, em seu livro Heil! And Farewell! (Heil! E adeus), sem se aprofundar com mais detalhes nos antecedentes dessa entrevista. Narra seu passeio com o “líder nazista” e seu “grande cão húngaro” pela neve alta, durante o qual Hitler lhe teria pedido que fizesse uma bola de neve e lançá-la para o alto: “Hitler sacou uma pistola automática e acertou minha bola de neve com precisão. Uma fração de segundo depois do tiro, a bola estourou no ar, estilhaçada pela bala. Devo ter parecido um tanto cético, pois ele me convidou a lançar outra bola. Com tranquilidade, atirou novamente e, pelo que me pareceu, quase sem mirar, mas a bola de neve se despedaçou no ar.” Na ocasião, Hitler teria revelado a ele: “Acho que posso afirmar, com razão, que atualmente sou um dos poucos conhecedores versáteis de armas de fogo no mundo.” Acreditando-se ou não nesses episódios, o fato é que, em 1942, Huss encontrou tempo para apresentar Hitler a seu público anglo-americano essencialmente como o fanático que era, fiel à sua plataforma política. No entanto, não deixou transparecer que Hitler e sua equipe de relações públicas tinham a última palavra quanto à preparação e à autorização dessas entrevistas, sobretudo quando sua tradução alemã era divulgada pela dnb e pelo Völkischer Beobachter.
O fato de Hitler ter sido um fenômeno de liderança não é nenhum segredo; entretanto, nem a pesquisa sobre seus antecedentes familiares nem as sofisticadas análises psicopatológicas conseguiram dar alguma explicação útil para isso. Os jornalistas de sua época já reconheciam que, embora sua história familiar fosse complicada, com tantos Hiedlers, Hüttlers e Schicklgrubers, Hitler não era o único descendente da região de Waldviertel que tivera um pai autoritário e uma veneração pela mãe. Em 1934, John Gunther e seu colega Marcel Fodor, que escrevia para o Manchester Guardian, foram ao vilarejo Spital, na Baixa Áustria, para localizar os parentes (primos e tias) do líder do nacional-socialismo, mas não conseguiram obter muita coisa deles. Os resultados das pesquisas sobre a família do Führer decepcionaram os repórteres. Viram algumas fotos da infância de Adolf e de sua mãe, quando ela já estava no final da vida. Além disso, descobriram que ela havia trabalhado como doméstica na casa da segunda esposa do pai de Hitler. “E o que isso prova?”, perguntou Gunther. “Vou lhe dizer a verdade: absolutamente nada”, admitiu Fodor.
Sem dúvida, Adolf Hitler é o governante mais pesquisado e mais amplamente interpretado no mundo, bem mais que outros ditadores, monarcas belicistas e autocratas, como Napoleão Bonaparte, Mao Tsé-Tung, Stálin, Franco ou Mussolini. Obviamente, isso tem a ver com diversos fatores: a peculiaridade de seu terrorismo de Estado; sua vontade incondicional de destruição; o fato de seu governo ter sido exercido sobre e por meio de uma “nação civilizada” do Ocidente ou da Europa Central; sua carreira política a partir de 1919, inicialmente difícil de compreender; e, por fim, fontes documentais relativamente boas. Hoje, quem tiver interesse consegue informações sobre quase todas as viagens de carro ou avião de Hitler, sobre seus discursos e aparições em público, bem como sobre a respectiva situação política interna e externa em relação à “tomada de decisão” de Hitler em cada momento. Em 2016, o experiente gerente de logística Harald Sandner publicou uma obra abrangente, em quatro volumes e com mais de mil páginas, intitulada Hitler – das Itinerar (Hitler – O itinerário), na qual, de fato, estão registrados quase todos os trechos percorridos por Hitler e seus encontros que puderam ser verificados desde seu nascimento até sua morte, inclusive todas as consultas a médicos e dentistas. Já nos anos 1960, Max Domarus (1911-92), professor e arquivista de Würzburg, que trabalhara principalmente para a nobreza, também editou uma série em quatro volumes intitulada Hitler – Reden und Proklamationen 1932-1945 (kommentiert von einem deutschen Zeitgenossen) (Hitler – Discursos e proclamações – 1932-1945 - comentados por um contemporâneo alemão), por muito tempo usada sobretudo fora da Alemanha como obra de referência, apesar dos muitos comentários obscuros do “contemporâneo alemão” Domarus.
Do ponto de vista editorial, a historiografia acadêmica na Alemanha sempre procedeu com a devida distância temporal, pois tradicionalmente sempre suspeitou das obras documentais sobre Hitler. Além disso, até hoje suas edições nunca foram totalmente conclusivas, como pode ser demonstrado pelos trechos das entrevistas de Hitler, reproduzidos na edição do Instituto de História Contemporânea (IfZ).[24] Já o renomado historiador Eberhard Jäckel não teve muita sorte. No esforço de documentar de maneira abrangente os primeiros textos de Hitler, ele acabou sendo enganado e adquiriu documentos do falsário Konrad Kujau para sua edição Adolf Hitler. Sämtliche Aufzeichnungen 1905-1924 (Adolf Hitler. Registros completos – 1905-1924) – obra que, de resto, é bastante útil. Até hoje, o mercado de não ficção continua a equiparar “Hitler” ao regime nacional-socialista, no intuito de criar uma marca póstuma e de promover as vendas. Desse modo, é possível ler livros sobre “Hitler em Los Angeles”, onde ele nunca esteve, mas que, na verdade, tratam da influência do nacional-socialismo em Hollywood. Há também uma obra sobre a vida musical alemã de 1919 a 1945, obviamente intitulada Hitler in der Oper (Hitler na ópera).
Em princípio, Rudolf Olden – que até sua emigração, em 1933, fora editorialista político do Berliner Tageblatt – já havia levantado todas as informações relevantes sobre a ascensão de Hitler e sua personalidade na primeira biografia abrangente sobre o Führer (publicada em Amsterdã). [25] Ele evidenciara sobretudo a crueldade infantil do líder nazista: “Em psicologia, há uma condição conhecida como infantilismo ou regressão infantil. Não significa que a inteligência e o intelecto tenham sofrido; tampouco se trata de uma debilidade mental em decorrência da idade, e sim de impulso e reação. A psique do adulto permaneceu em um estado de barbárie infantil ou regrediu à infância. É desse fenômeno que se trata aqui, tanto no que se refere à Alemanha nacional-socialista quanto ao próprio Hitler”. E, em 1938, em seu livro Hitler is no fool (Hitler não é tolo), publicado com o pseudônimo Karl Billinger, o cientista social alemão Paul Massing, defensor convicto do Partido Comunista, deixou claro para os leitores americanos que Hitler seguiria com todo o rigor a plataforma política desenvolvida já no início dos anos 1920, ou seja, a perseguição aos judeus e a busca pela soberania germânica na Europa.
Nas biografias de Hitler, chama atenção o fato de que, nas últimas décadas, o número de páginas e o conteúdo parecem estar, cada vez mais, em uma relação inversa. Em essência, as primeiras biografias, escritas por exilados como Olden e Konrad Heiden, já disseram tudo o que havia para ser dito sobre o ditador nazista, pelo menos no que se refere à sua personalidade, à sua estratégia e às suas intenções destrutivas – que ele também havia expressado abertamente em suas primeiras entrevistas. Sem dúvida, após 1945, também se acrescentaram considerações legítimas sobre suas respectivas estratégias militares, bem como análises sobre o eleitorado, os patrocinadores financeiros e industriais e a relação com seu círculo mais próximo; porém, em princípio, a imagem de Hitler permaneceu igual. Desconsiderando-se as primeiras obras de referência anglo-saxônicas, escritas por Allan Bullock e John Toland, a concorrência acadêmica e o mercado de livros de não ficção, sempre receptivo a temas relacionados a Hitler, forçaram os respectivos autores a apresentar teorias cada vez mais ousadas sobre as reais motivações do homem de Braunau.
Em 1973, Joachim C. Fest deu início a uma nova hitlermania. O jornalista tirou uma licença especial da emissora de televisão NDR para se dedicar a seu extenso trabalho sobre Hitler e, posteriormente, passou a colaborar com o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) como editor de cultura. Fest se incomodava com o fato de não haver na época nenhuma biografia atualizada de Hitler escrita em alemão. Não gostava muito de pesquisar as fontes originais, preferindo estender-se em longas hipérboles estilísticas. Para Fest, a questão fundamental era a seguinte: “A história que se conhece não registra nenhum outro fenômeno como ele. Devemos chamá-lo de ‘grande’? Ninguém despertou tanto júbilo, histeria e expectativa de salvação como ele. Ninguém despertou tanto ódio”. E, no fim de sua introdução, Fest escreve:
Se no final de 1938 Hitler tivesse sido vítima de um atentado, poucos hesitariam em chamá-lo de um dos maiores estadistas alemães, talvez o consumador da história da Alemanha. É bem provável que os discursos agressivos e Mein Kampf, o antissemitismo e o conceito de dominação do mundo caíssem no esquecimento, descartados como obra da imaginação juvenil de seu idealizador, e que apenas ocasionalmente os críticos os relembrassem a uma nação descontente. Seis anos e meio separam Hitler dessa reputação. Por certo, apenas um fim violento poderia tê-lo ajudado a obtê-la, pois, por natureza, ele tinha uma predisposição para a destruição e não se isentou disso. Mas, de todo modo, esteve perto de conquistar essa fama. Podemos chamá-lo de “grande”?
Como era de esperar, isso levou a ataques furiosos por parte dos neomarxistas, que viam em Hitler apenas uma espécie de personificação dos interesses capitalistas e industriais globais. Seguiram-se discussões totalmente infrutíferas entre “intencionalistas”, mais focados em Hitler e em sua plataforma política, e “estruturalistas”, que davam mais importância ao contexto social, econômico ou cultural. De certo modo, isso teve um fim com a extensa biografia de Hitler escrita por Ian Kershaw em 1998, embora, como discípulo do “estruturalista” Hans Mommsen, a princípio Kershaw não quisesse escrever uma biografia sobre o Führer. Entretanto, a produção biográfica sobre Hitler e toda sorte de novas teorias continuaram a surgir.
O renomado historiador Peter Longerich quis, por um lado, distanciar-se da abordagem adotada por Kershaw em sua biografia, redefinida como estruturalista, e, por conseguinte, também da imagem de um “ditador fraco”, que teria sido elaborada por Mommsen. Por outro lado, Longerich também quis se distanciar de Fest: “Trata-se simplesmente da história de um ilustre desconhecido.”
Wolfram Pyta precisou de 846 páginas e de um longo trabalho solitário para retratar Hitler mais uma vez como artista, tanto no sentido estético quanto no político: “Este estudo é fruto de sete anos de pesquisa ininterrupta. Não surgiu no âmbito de um projeto de pesquisa colaborativo e de larga escala nem pôde contar com a contribuição de uma equipe de projetos financiada por terceiros. Por essa razão, de certo modo, pode parecer antiquado. O autor optou por passar vários anos isolados em sua ‘toca’ para elaborar seu trabalho.”
Em 2019, Brandon Simms iniciou uma “biografia global” de Hitler, partindo da teoria “de que o principal foco de Hitler durante toda a sua carreira não era a União Soviética e o bolchevismo, e sim a América anglo-saxônica e o capitalismo global”, e “de que sua postura em relação ao povo alemão, mesmo após o ‘expurgo’ dos judeus e de outros ‘indesejados’, era extremamente ambígua e sempre determinada por um sentimento de inferioridade em relação aos ‘anglo-saxões’”.
Algum tempo antes, Volker Ullrich, ex-editor de história do jornal Die Zeit, tentou mais uma vez “fazer um balanço do ‘caso Hitler’ e situar seu lugar na história”, um trabalho realizado em dois volumes (2013 e 2018) e que ocupou cerca de 2 mil páginas. Aos que desejam algo menos denso, a biografia de 160 páginas escrita por Helmut Heiber (1960), há muito esquecida e esgotada, é uma indicação confiável para ter acesso às principais informações sobre Adolf Hitler e seus apoiadores. [26]
Desde o século XIX, as entrevistas fazem parte do repertório-padrão do jornalismo profissional. De modo geral, o editor James Gordon Bennett (1795-1872) é considerado o pioneiro da entrevista jornalística. Escocês de nascimento, foi editor e fundador do jornal de grande circulação The New York Herald e, em 1839, entrevistou o presidente americano Martin van Buren (1782-1862). Muitos estudiosos da imprensa também mencionam Horace Greeley, um dos precursores na luta contra a escravidão, cuja entrevista com o profeta mórmon Brigham Young, impressa em 1859 no New York Tribune, é considerada a primeira no mundo a usar o formato, hoje comum, de pergunta e resposta.[27]
Os formatos de entrevista são tão variados quanto a profissão em si e as funções a ela relacionadas. Em princípio, eles podem ser analisados de acordo com a conhecida – e ligeiramente modificada – fórmula do cientista político americano Harold Dwight Lasswell: “Quem pergunta o quê, a quem, de que maneira e com que efeito (e quando)?”. Podem ser entrevistas de pesquisa transcritas que não se destinam à publicação, breves interrogatórios sobre temas atuais, conversas biográficas prolixas e mais extensas com artistas e popstars, entrevistas objetivas com cientistas sobre os resultados de suas pesquisas ou entrevistas confessionais de cunho escandaloso. Um exemplo da última categoria é a entrevista (televisiva) mais espetacular das últimas décadas, realizada pelo jornalista da bbc Martin Bashir com Lady Diana Spencer. Mais tarde, descobriu-se que Bashir recorrera a meios desonestos para levar a princesa a fazer aquela confissão sobre seu casamento com o príncipe Charles. Nesse caso, assim como em muitos outros, não ficou claro quem usou quem. [28]
De todo modo, há que levar em conta o fato de que – com muito mais frequência do que o público imagina – existem conversas encomendadas, com as quais o entrevistado busca divulgar determinada mensagem. Nesse sentido, pode-se falar tanto em push-interviews, nas quais a iniciativa parte do entrevistado, quanto em pull-interviews, nas quais a iniciativa é tomada pelo veículo de comunicação. Quanto à técnica de fazer perguntas, os limites entre essas conversas e os interrogatórios conduzidos pela criminalística, pela Justiça ou pela pesquisa no campo das ciências sociais são fluidos, embora se presuma que as táticas formais de treinamento, como a de bom policial/mau policial usada pela polícia, sejam mais estruturadas nessas últimas áreas do que nas escolas de jornalismo.
Muitas vezes, há efeitos de celebridade que se reforçam mutuamente entre entrevistadores e entrevistados: com frequência, lideranças políticas realmente importantes podem escolher os jornalistas que as entrevistarão, [29] enquanto para jornalistas famosos – como Barbara Walters, Walter Cronkite ou Christiane Amanpour, nos Estados Unidos, ou Jean-Pierre Elkabbach, Christine Ockrent e Patrick Poivre d’Arvor, na França – a lista de ditadores, chefes de Estado ou terroristas de destaque que conheceram é uma informação-padrão em sua biografia profissional. When big names talk, they talk to the BBC (Quando nomes importantes falam, eles falam com a BBC), diz um memorável slogan do renomado programa Hardtalk, da BBC. A revista masculina Playboy, de Hugh Hefner, conseguiu melhorar sua imagem com entrevistas de conteúdo relevante; [30] Andy Warhol publicou a revista Interview; em filmes como Entrevista (Steve Buscemi, 2007), Frost/Nixon (Ron Howard, 2008) ou A entrevista (Evan Goldberg, 2014), as possibilidades de iniciar e conduzir as conversas são apresentadas de maneira divertida.
No que se refere aos países de língua alemã, podem-se mencionar as entrevistas da revista Der Spiegel; as de caráter filosófico e biográfico, minuciosamente preparadas por Günter Gaus para o programa televisivo Zur Person; as intrusões psicológicas de André Müller, publicadas em diversos jornais de qualidade; ou o bate-pronto de perguntas e respostas de Roger Willemsen no programa 0137 do canal Premiere, posteriormente publicado em forma de livro com o significativo título An der Grenze. Gespräche mit Attentätern, Bankräubern, Mördern, politischen Gefangenen, Autoknackern, Todeskandidaten und Gewaltopfern (No limite. Entrevistas com autores de atentados, ladrões de bancos, assassinos, presos políticos, arrombadores de automóveis, condenados à morte e vítimas de violência).[31] É relativamente raro ver um jornalista admitir que uma de suas entrevistas foi desastrosa, o que torna ainda mais interessante a confissão do ensaísta francês Emmanuel Carrère, intitulada Como arruinei minha entrevista com Catherine Deneuve [32]: ele não sabia mais o que dizer a ela, e a atriz também não parecia muito animada com a entrevista.
No século XXI, o interesse pelas entrevistas jornalísticas com Hitler [33] cresceu. Em 2019, Éric Branca editou na França dezesseis entrevistas com o Führer, munidas de comentários e de uma introdução. No entanto, totalmente esquecidas, como sugere o título do livro (Les entretiens oubliés d’Hitler 1923-1940), essas entrevistas não foram. Em sua obra sobre a relação entre Hitler e Mussolini, Wolfgang Schieder recorreu a muitas das conversas dos jornalistas italianos com o ditador nazista. Várias biografias de Hitler trazem mais entrevistas com repórteres de outros países. Já em 2007, o jornal The Guardian incluiu em sua série de brochuras “Grandes entrevistas do século XX” a entrevista de George Sylvester Viereck com Hitler (1923-1932). E, em outubro de 2019, o jornal dinamarquês Århus Stiftstidende descobriu em seu arquivo uma entrevista de novembro de 1922, na qual Hitler pergunta logo no início ao entrevistador, cuja identidade ainda hoje é desconhecida: “O senhor é judeu?” Além disso, quando indagado sobre a questão judaica, Hitler respondeu com a citação: “E se você não quiser ser meu irmão, quebro seu crânio.” [34] Entretanto, essa entrevista, que teria sido concedida no escritório do NSDAP, na época localizado em Munique (Corneliusstraße 12), é tão obscura quanto todas as entrevistas anteriores de Hitler. Já não é possível descobrir o que realmente foi dito na ocasião. Mas certamente é consistente o fato de Hitler não esconder sua feroz posição antissemita nesse tipo de conversa.
Em 2014, o autor canadense Colin Castle publicou uma biografia do jornalista Lukin Johnston, seu compatriota, que em novembro de 1933 foi assassinado a mando de Goering, após uma entrevista com Hitler. Mas também esse caso ainda não foi esclarecido. Em seu trabalho sobre os correspondentes americanos na Berlim nacional-socialista, o historiador Norman Domeier não apenas se ocupou das condições de trabalho e da biografia desses profissionais, mas também analisou em detalhes suas estratégias de entrevista. E, nos últimos anos, tem havido uma discussão mais intensa sobre uma entrevista conjunta que os jornalistas catalães Eugeni Xammar e Josep Pla teriam realizado em novembro de 1923, horas antes do golpe liderado por Hitler e Ludendorff.
Além disso, nosso tema tem uma atualidade evidente: a múltipla instrumentalização dos canais de mídia doméstica e internacional por parte de ditadores, autocratas, revisionistas da história e populistas de todos os matizes. Isso se aplica a instituições jornalísticas da classe média e a plataformas de mídia social, que resistem à regulamentação e são particularmente vulneráveis aos esforços de propaganda, incluindo diversionismos e ataques por parte de “fábricas de trolls” no âmbito da guerra psicológica.
Os debates sobre os “idiotas úteis” na mídia estabelecida, que, de maneira consciente ou involuntária, reforçam posições políticas radicais oferecendo “palco” para fanfarrões políticos – muitas vezes com a intenção barata de desmascará-los – ou discorrendo intensamente sobre eles, acirraram-se em toda a Europa com o sucesso eleitoral dos partidos de direita. Historiadores da comunicação poderiam identificá-los, por exemplo, analisando a ascensão do clã Le Pen na França. Material não falta sobre carreiras político-midiáticas como a de Jörg Haider (1950-2008), líder do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), que morreu prematuramente, ou a do longevo Silvio Berlusconi (1936-2023), na Itália. Na Alemanha, há uma discussão circular em curso sobre a presença de representantes do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) em talk shows políticos ou em “entrevistas de verão”, realizadas pelas redes públicas de televisão ARD e ZDF, embora defensores de uma abordagem normalizada dessas figuras gostem de ressaltar que, afinal de contas, esses representantes foram eleitos democraticamente e que os telespectadores assinantes (e eleitores da AfD) têm o direito de assistir a eles também nesses formatos.
No entanto, essas discussões sobre o efeito intensificador que a presença na mídia gera para grupos originariamente periféricos têm seus precursores. Já no início dos anos 1950, os Estados Unidos discutiam sobre como lidar com o senador Joseph McCarthy, muito familiarizado com a mídia. Sua caça aos comunistas, inicialmente marginal, ganhou enorme impulso depois que muitos meios de comunicação viram nele a nova estrela política do Partido Republicano – embora os jornalistas e as empresas de comunicação envolvidos fossem totalmente contrários a seus métodos de interrogatório desajeitados e rudes.
“Como todos sabem”, escreveu o jornalista e sociólogo Jens Bisky em 2024, “96% de todas as analogias com Weimar são erradas ou falsas”. Pelo menos no que se refere a seu desempenho comunicação, certamente o apagado chanceler Olaf Scholz pode ser comparado a Hermann Müller, do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), último chanceler da República de Weimar, ou a Heinrich Brüning (Partido do Centro), sucessor de Müller. E, certamente, há paralelos com Weimar que se impõem, como a falta de ação e de comunicação por parte do establishment burguês e, ao mesmo tempo, o fortalecimento de um novo movimento de direita, regressivo do ponto de vista histórico e político, que, com a AfD, dispõe no Parlamento da organização de uma frente destrutiva, alimentada pelos contribuintes. O cansaço, a raiva e a perda de controle em amplos segmentos da população diante de avanços na tecnologia da cultura e da comunicação que não foram bem assimilados lembram a primeira República Alemã, bem como os ataques antissemitas, que atualmente também são fomentados por grupos radicais islâmicos. Entretanto, não há na República Federal da Alemanha condições paramilitares que sejam aceitas de modo geral; não há um sistema de justiça autoritário, socializado ao estilo guilhermino; e a Bundeswehr não é a Reichswehr [35].
As analogias do tipo “Weimar reloaded” [36] têm seus limites analíticos, e não foi à toa que, em 2024, de forma um tanto inesperada, milhões de cidadãos saíram às ruas porque não desejavam uma nova Volksgemeinschaft, [37] liderada por arruaceiros retrógrados ou por diversos “Untergangster do Ocidente”. [38] Recorrer a uma conveniente hashtag antifascismo (#Nazisraus) [39] e a comparações constantes com a ascensão do NSDAP, com Hitler ou com Goebbels, também não ajuda a melhorar a situação, sobretudo porque, obviamente, os inteligentes partidários da nova direita perceberam – no fundo, já desde 1945 – que qualquer referência positiva aos líderes nazistas originais é imprópria por motivos táticos e que é preferível adornar-se com a terminologia mais velada dos admiradores temporários de Hitler, como Martin Heidegger ou Carl Schmitt. [40] Em seu livro de entrevistas Nie zweimal in denselben Fluss (Nunca duas vezes no mesmo rio, 2023), que traz páginas inteiras de referências acadêmicas a Heidegger e Nietzsche, Björn Höcke, líder da AfD na Turíngia, assegura com confiança: “Seja como for, não aceito a violência na atual guerra cultural, que deveria ser travada exclusivamente em nível intelectual.” Além disso, apesar de todas as referências cruzadas, não é possível identificar uma “Internacional völkisch”; por fim, até mesmo a candidata Marine Le Pen (Rassemblement National), que recentemente teve grandes chances de chegar à Presidência da França, e a italiana Giorgia Meloni, do partido pós-fascista Fratelli d’Italia, no cargo de primeira-ministra desde outubro de 2022, distanciaram-se da AfD de Höcke. Quando se trata de Realpolitik, os interesses são muito distintos, sobretudo no que se refere à economia e ao contexto da União Europeia.
Depois de ler pela segunda vez a biografia de Hitler escrita por Volker Ullrich, o escritor americano T. C. Boyle concluiu em uma entrevista à revista Stern (fevereiro de 2024) que há “paralelos assustadores” entre Donald Trump e Hitler, pois Trump (“um homem com sede de poder, profundamente inescrupuloso e moralmente corrompido”, “Trump é um fascista”) também manipula tanto as pessoas com fake news, propaganda e ódio pelas minorias “que, no fim, elas acabam votando contra seus próprios interesses”. É bem verdade que, já durante seu primeiro mandato, Trump se encontrava em uma posição mais favorável que o ditador nazista, pois, graças às redes sociais, pôde ignorar canais da mídia tradicional – como CNN, The New York Times ou The Washington Post – e dirigir-se com as mais duras ofensas aos jornalistas já inseguros dessas instituições jornalísticas de elite. Entretanto, também nesse caso, as diferenças são evidentes: Trump é um rich kid, um investidor imobiliário obscuro e um moderador de reality show na televisão, bastante avesso a intervenções militares internacionais. Do ponto de vista biográfico, Hitler não era nada disso. [41]
No entanto, o que T. C. Boyle destaca em relação a estratégias de comunicação, a definições de opositores e ao marketing político com estereotipagens e simplificações grosseiras certamente é correto. Ao longo da história, quase todos os ditadores, autocratas, líderes religiosos e de seitas conquistaram sua ascensão e seu poderio com regimes que controlavam a comunicação, com revisionismo histórico-político, com pão e circo e com uma análise psicológica mais ou menos sofisticada de seus reais e potenciais apoiadores. Para tanto, usaram as ferramentas de mídia existentes em sua época, como homenagens, sinais, slogans, marchas e demonstrações em sentido literal. As entrevistas de Hitler também foram parte desse conjunto de estratégias que usaram funcionalidades do jornalismo moderno. Só que essa estratégia de persuasão acabou falhando, fosse em razão dos fatos da política real e militar, fosse devido aos limites da crença em todo tipo de propaganda – se o lema “invictos no campo de batalha” já não valia para a Primeira Guerra Mundial, para a Segunda valia menos ainda.
Em 18 de julho de 1942, depois de mais uma vez falar dos malefícios do fumo (segundo ele, essa seria uma vingança dos indígenas “pelo fato de os brancos lhes terem apresentado a aguardente, que os levou à ruína”), Hitler pensou que uma entrevista com um correspondente estrangeiro poderia ser útil. Durante um jantar em seu quartel-general Werwolf (Lobisomem), na cidade ucraniana de Vinítsia, a conversa girava em torno da “segunda linha de frente” que Stálin vinha cobrando dos aliados ocidentais havia muito tempo. Hitler quis se manifestar publicamente a respeito e, embora fosse tarde demais, reconheceu o valor estratégico da conversa com a imprensa: uma entrevista sobre os problemas da campanha oriental poderia ser mais útil que um discurso público. Era arriscado fazer discursos sem uma razão plausível; pessoas inteligentes sempre poderiam encontrar algo para criticar. Já em uma entrevista, “o essencial poderia ser dito em poucas frases subordinadas sem chamar muita atenção”. De acordo com as anotações dos taquígrafos, ele formularia suas declarações sobre o tema “segunda linha de frente” de tal forma que a entrevista seria como um “banho de água fria” para os ingleses. A fim de “não comprometer” o objetivo da entrevista, “ele não diria que, no momento, não acreditava no estabelecimento de uma ‘segunda linha de frente’. Em vez disso, explicaria que estar preparado para todas as eventualidades, inclusive a de uma ‘segunda linha de frente’, era algo que condizia com o rigor e a meticulosidade do Exército alemão”.
Hitler concordou com o Dietrich, chefe de imprensa do Reich, que a entrevista deveria ser dada a um correspondente estrangeiro que até então tivesse apoiado particularmente o trabalho da imprensa alemã: “Se fosse o representante de um país grande ou pequeno, aliado ou neutro, não faria diferença, pois, de todo modo – como bem disse o chefe de imprensa do Reich –, a entrevista seria impressa no mundo inteiro.” Tal entrevista não viria a acontecer, pois já não havia nenhum jornalista disposto a ser convocado por Hitler dessa maneira. [42]
They Wanted War (Eles queriam a guerra) – eis o título que Otto D. Tolischus, correspondente do The New York Times, deu a seu livro de memórias, publicado em 1938, sobre o período que havia passado em Berlim sob o regime nazista. Esse título resume a história do nacional-socialismo, de Hitler, de seus executores, dos “administradores combatentes”, dos tecnocratas, dos juristas, dos militares e de muitos dos apoiadores do Führer, embora em 1939 o entusiasmo com a guerra não fosse tão acentuado como no patriotismo exaltado de 1914. Também tiveram sua guerra, tal como Goebbels havia formulado em seu discurso de fevereiro de 1943, no Sportpalast em Berlim, “mais total e radical do que podemos imaginar hoje”. Era para isso que tudo concorria desde o início: primeiro o Putsch e a guerra civil, depois o grande conflito militar.
Já em seu importante discurso no Reichstag, o Parlamento, em 11 de dezembro de 1941, no qual declarou guerra aos Estados Unidos em nome do Império Alemão e classificou o presidente americano Franklin D. Roosevelt e seu antecessor indireto, Woodrow Wilson, como doentes mentais, Hitler declamou: “Posso dizer que, para mim, desde 1914, a guerra não teve um fim. Continuei a lutar assim que pude voltar a discursar e cruzei o país de norte a sul, de uma localidade a outra, de uma cidade a outra, discursando e trabalhando sempre, pensando apenas em libertar o povo alemão dessa fragmentação, em arrancá-lo de sua letargia, em tirálo de seu sono e reuni-lo novamente.” Além disso, Hitler anunciou, de maneira bastante aberta, que na maioria das áreas não necessitava de conselheiros nem de qualquer tipo de especialista: “Minha cabeça já me basta. Não preciso de um grupo de conselheiros para me auxiliar. Se, de fato, houver necessidade de uma mudança em algum lugar, ela surgirá primeiro em meu cérebro, e não no de outras pessoas, tampouco no de especialistas.” Independentemente do que perguntassem e apesar dos diferentes interesses das editoras ou de cada jornalista, os entrevistadores de Hitler também poderiam ser informados sobre esse tipo de egomania e solipsismo.
Nos próximos capítulos, analisaremos as entrevistas de Hitler, em grande parte de maneira cronológica, tanto individualmente quanto em seu contexto geopolítico. Ao fim retomaremos a questão principal: qual é o sentido de entrevistar ditadores e autocratas? Antecipando a resposta: quase nenhum.
Prólogo do livro Os entrevistadores de Hitler: o ditador e os jornalistas, de Lutz Hachmeister, que está sendo lançado neste mês pela editora Carambaia
Notas
[1] Toca do lobo, bunker onde Hitler planejou a guerra. (Nota da tradutora)
[2] Relativo ao movimento Völkisch, cujo objetivo era formar uma nação étnica e culturalmente homogênea, livre de elementos “não alemães”. (N.T.)
[3] Paul von Hindenburg (1847-1934) foi marechal do Império Alemão e presidente do país durante a República de Weimar. Em 1933 nomeou Adolf Hitler como chanceler da Alemanha. (N.T.)
[4] Cf. Hans V. Kaltenborn: Fifty Fabulous Years. 1900-1950 (, 1950); ver também, do mesmo autor: An Interview with Hitler, August 17, 1932, em The Wisconsin Magazine of History, vol. 50, nº. 4 (1967). (Nota do autor)
[5] A rede de jornais e revistas do magnata americano William Randolph Hearst (1863–1951), que incluía, entre outras publicações, a Esquire e a Harper’s Bazaar. (Nota da edição)
[6] A entrevista de Hitler ao Rheinisch-Westfälische Zeitung (RWZ), em 16 de agosto de 1932, foi reproduzida em Max Domarus em Hitler. Reden und Proklamationen 1932-1945 (Hitler. Discursos e Proclamações 1932-1945), vol. I, e em Völkischer Beobachter, nº 230, de 17 de agosto de 1932. Em sua biografia de Otto Dietrich, Stefan Krings atribui a entrevista a Theodor Reismann-Grone, editor do RWZ e sogro de Otto Dietrich. A conversa foi intermediada por Otto Dietrich. (N.A.)
[7] Após a marcha fascista sobre Roma, o ex-socialista Mussolini foi nomeado chefe de um governo de coalizão da direita italiana pelo rei Vitor Emanuel III. Em 31 de outubro de 1922, ele foi empossado como primeiro-ministro. A partir de então, por um bom tempo, Hitler foi considerado na imprensa alemã e internacional como cópia de Mussolini, inclusive em sua política de entrevistas. Cf. Schmussolini. Ein amerikanisches Interview Hitlers, em Vorwärts, 21 de agosto de 1928. Ver também a anedota reproduzida por Hans-Jochen Gamm em Der Flüsterwitz im Dritten Reich (1963): “Desde a primeira visita de Hitler à Itália, corre na Alemanha o boato de que Hitler teria cumprimentado o colega italiano da seguinte forma: ‘Ave, Imperator!’, e Mussolini teria respondido: ‘Ave, Imitator!’” (N.A.)
[8] Gerhard Roßbach (1893-1967), líder dos Freikorps, foi preso em 11 de novembro de 1922 por rebelar-se contra o sistema democrático de Weimar, de acordo com a Lei de Proteção da República. Roßbach também foi o protagonista de um romance ensaístico nacionalista de Arnolt Bronnen, publicado em 1930 pela editora Rowohlt. Sobre Roßbach, a ideologia e o corpo político dos Freikorps, ver o clássico de Klaus Theweleit Männerphantasien 1 + 2 (Fantasias Masculinas 1 + 2, 1977). (N.A.)
[9] Para uma crítica rigorosa dos textos e da história da tradição das “conversas de Hitler à mesa”, ver: Mikael Nilsson: Hitler Redux. The Incredible History of Hitler’s So Called Table Talks (Hitler, o retorno. A incrível história das chamadas “Conversas à Mesa” de Hitler, 2021). No entanto, não restam muitas dúvidas quanto ao fato de que, na escolha dos temas e em suas diversas excentricidades, Hitler tenha se manifestado de maneira semelhante. (N.A.)
[10] Respectivamente: oficial de alta patente, condutor de bonde e condutor de trem. (N.T.)
[11] Segundo cargo político mais importante no Partido Nazista, subordinado diretamente ao Führer. (N.T.)
[12] Hitler criticava o fato de Napoleão ter protegido indevidamente seu círculo próximo de parentes, algo que ele próprio evitava. No entanto, dada a quantidade de viciados em morfina, alcoólatras, obscurantistas e baderneiros que o rodeavam, sua declaração demonstra uma capacidade muito limitada de autorreflexão. (N.A.)
[13] Norman Domeier: Weltöffentlichkeit und Diktatur. Die amerikanischen Auslandskorrespondenten im “Dritten Reich” (A opinião pública mundial e a ditadura. Os correspondentes estrangeiros americanos no “Terceiro Reich”, 2021). (N.A.)
[14] Do ponto de vista atual, a Psicologia das multidões de Le Bon inicia-se de maneira obscura: “Meu trabalho anterior foi dedicado à análise da alma das raças. Neste, queremos investigar a alma das multidões.” No entanto, a estruturação do livro também contém algumas teses que hoje ainda soam modernas: “O desaparecimento de crenças gerais e a extraordinária difusão da imprensa atual tornam as visões modernas cada vez mais variáveis/Como as opiniões das multidões sobre a maioria das questões tendem à indiferença/Incapacidade dos governos de orientar as opiniões como faziam antes.” Sobre a repercussão do livro, ver o instrutivo posfácio de Helmut König na versão alemã da Psicologia das multidões de Le Bon, 16a edição (2021). Não há nenhuma evidência de que Hitler tenha assimilado o texto de Le Bon – ao contrário de Mussolini. (N.A.)
[15] Cf. Gerd Krumeich: Als Hitler den Ersten Weltkrieg gewann. Die Nazis und die Deutschen 1921-1940 (Quando Hitler venceu a Primeira Guerra Mundial. Os nazistas e os alemães – 1921-1940, 2024). O próprio Krumeich descreve o título de seu livro como uma “provocação”: “Até hoje, não existe nenhuma história da República de Weimar que tenha tratado de maneira consistente o trauma da guerra perdida”. (N.A.)
[16] Nome dado ao processo de controle e subordinação de todos os aspectos da sociedade alemã ao nazismo. Também conhecido como “coordenação” ou “nazificação”. (N.T.)
[17] Harold Sidney Harmsworth (1868-1940), primeiro visconde de Rothermere: empresário britânico, proprietário da Associated Newspapers Ltd.; William Maxwell Aitken (1879-1964), primeiro barão de Beaverbrook: editor de jornal canadense-britânico. (N.T.)
[18] Sobre a atividade jornalística do círculo de Tirpitz, ver Sebastian Rojek: Versunkene Hoffnungen. Die Deutsche Marine im Umgang mit Erwartungen und Enttäuschungen 1871-1930 (Esperanças frustradas. A Marinha Alemã diante de expectativas e decepções, 2017). (N.A.)
[19] Truman Smith (1893-1970) foi comandante de batalhão do 4o Regimento de Infantaria dos Estados Unidos nas batalhas ocorridas na França durante a Primeira Guerra Mundial. De 1920 a 1924, foi vice-adido militar dos Estados Unidos em Berlim, para onde retornou como adido militar, de 1939 a 1945. Opositor declarado de Roosevelt, acompanhou, entre outros, Charles Lindbergh em suas cinco viagens à Alemanha para inspecionar a Força Aérea alemã e a indústria aeronáutica do país. Os críticos o acusaram de ser muito próximo de Lindbergh, enquanto seus defensores o elogiaram por suas informações sobre a situação do rearmamento alemão. Sobre a missão de Smith de observar o movimento hitlerista em Munique, cf. Henry G. Gole: Exposing the Third Reich. Colonel Truman Smith in Hitler’s Germany (2013). (N.A.)
[20] O Referendo do Sarre, de 1935, ocorreu em 30 de janeiro do mesmo ano: 90,7% dos eleitores votaram a favor da reincorporação da região do Sarre ao Império Alemão. Em abril de 1919, o Tratado de Versalhes estabelecera que o Sarre seria separado do Reich por um período de quinze anos e permaneceria sob o mandato da Liga das Nações, com a opção de um subsequente referendo. Durante essa fase, o Sarre dependeu da França tanto econômica quanto politicamente. Para o Referendo do Sarre de 1935, o regime nacional-socialista usou de todos os meios de propaganda disponíveis. (N.T.)
[21] Poucas semanas antes do Röhm-Putsch, Hitler foi entrevistado por Louis P. Lochner, diretor do escritório da Associated Press em Berlim. Na ocasião, Lochner, que tinha boas relações nos círculos nazistas, conseguiu fazer a seguinte observação: “Dizem, por exemplo, que um de seus mais importantes colaboradores estaria contrariando [suas] medidas.” Hitler respondeu de maneira sibilina que “não tinha se cercado de nulidades, mas de homens reais. [...] Quando um grupo de personalidades poderosas como esse se reúne, é inevitável que haja algum atrito. Mas nenhum dos homens que me seguem jamais tentou me impor a própria vontade. Muito pelo contrário, eles têm se subordinado a meus desejos de maneira admirável”. (Citação extraída da versão alemã da entrevista, publicada no Völkischer Beobachter de 23 de março de 1934.) (N.A.)
[22] Líder regional do Partido Nacional-Socialista. (N.T.)
[23] Cf. Peter Schöttler: “Eine Art ‘Generalplan West’. Die Stuckart-Denkschrift vom 14. Juni 1940 und die Planungen für eine neue deutschfranzösische Grenze im Zweiten Weltkrieg”, in: Sozial. Geschichte, 18 (2003), fascículo 3.
[24] A edição atual do Instituto de História Contemporânea (Hitler: Reden, Schriften, Anordnungen 1925-1933) contém essencialmente apenas as respostas de Hitler às respectivas entrevistas, além de um resumo geral do assunto tratado. Em janeiro de 2024, o IfZ anunciou um novo projeto, a ser desenvolvido ao longo de sete anos, que se de-dicará a estudar os discursos, os textos e as disposições de Hitler no período entre 1933 e 1945. Ver: https://www.ifzmuenchen.de/forschung/ea/forschung/edition-der-reden-adolf-hitlers-von-1933-bis-1945 (N.A.)
[25] Isso também se aplica à habilidade de Hitler de usar o termo “nacional-socialismo” para se dirigir, de maneira resumida, a diferentes setores do eleitorado. No entanto, ao longo de sua carreira, ele se livrou sistematicamente dos membros anticapitalistas ou social-revolucionários de seu partido, neutralizando-os ou assassinando-os, como aconteceu com o teórico econômico Gottfried Feder, os irmãos Strasser e as Tropas de Assalto (SA) de Röhm.
[26] Uma das razões para o aumento do número de biografias de Hitler foi a publicação, nesse meio-tempo, de uma série de pesquisas historiográficas bastante aprofundadas, por exemplo, sobre a “tomada de decisão” que levou ao Holocausto, sobre a interação entre burocracia civil e Justiça ou sobre o desenvolvimento das elites militares e industriais na República de Weimar e no Estado nazista. (N.A.)
[27] Cf. George Turnbull: Some Notes on the History of the Interview, in: Journalism & Mass Communication Quarterly, vol. 13, nº 3, março de 1936. Para uma antologia útil sobre a história das entrevistas jornalísticas, ver Christopher Silvester: The Penguin Book of Interviews. An Anthology from 1858 to the Present Day (1993). (N.A.)
[28] Cf. também o filme A grande entrevista (Scoop), lançado em 2024 na Netflix, sobre a entrevista de Emily Maitlis com o príncipe Andrew para a BBC, a respeito de seu envolvimento com a rede de tráfico sexual de Jeffrey Epstein. (N.A.)
[29] Por exemplo, em 1949, o chanceler alemão Konrad Adenauer escolheu deliberadamente John P. Leacacos, correspondente europeu do jornal provinciano americano Cleveland Plain Dealer, para lançar sua ideia de um rearmamento da Alemanha Ocidental. (N.A.)
[30] Uma das mais conhecidas entrevistas desse tipo foi a realizada pela Playboy com o canadense Marshall McLuhan, importante teórico da mídia (edição de março de 1969), na qual ele falou, entre outras coisas, sobre a transmissão dos discursos de Hitler pelo rádio. Para ele, mesmo que Hitler não tivesse existido, outro demagogo teria usado o rádio para retribalizar os alemães. Mais importantes para a situação atual da comunicação são as observações de McLuhan, descritas de forma acessível nessa entrevista, a respeito dos impactos dos avanços tecnológicos na comunicação sobre a coesão social, que inicialmente levam à confusão e à exaltação no sentido de uma nova cultura tribal, baseada na tecnologia. (N.A.)
[31] Nesse sentido, de acordo com a lógica do sucesso jornalístico, entrevistas potencialmente escandalosas com Charles Manson, Lady Di, Muhammad Ali ou com escritores como Michel Houellebecq são adequadas no que se refere ao impacto pretendido e à lógica da celebridade. (N.A.)
[32] Em seu livro 97,196 Words: Essays (2019). (N.A.)
[33] Nos países de língua inglesa, o termo interview também é empregado para designar encontros entre diplomatas e políticos. Desse modo, em janeiro de 1945, o encontro de Janos Voeroes, chefe do Estado-Maior húngaro, com Hitler e o que havia restado de seu círculo em seu bunker em Berlim apareceu nos jornais americanos com o título Interview with Hitler. Voeroes tinha visitado o Führer em seu bunker no dia 20 de setembro de 1944 e, posteriormente, descreveu a um correspondente da Associated Press em Moscou a deterioração do estado físico e mental do ditador nazista: “Eu preferia ter lutado em uma batalha a ter presenciado o que aconteceu ali [no bunker]” (ver, por exemplo, Townsville Daily Bulletin, de 19 de janeiro de 1945). Além disso, houve conversas entre Hitler e jornalistas ou aventureiros, cujo conteúdo foi reproduzido mais tarde em livros sem a indicação explícita de que se tratava de entrevistas; cf. o livro do importante eugenista e teórico racial americano Lothrop Stoddard: Into The Darkness: An Uncensored Report From Inside the Third Reich at War (Rumo à escuridão: um Relato sem censura de dentro do Terceiro Reich em guerra, 2011). Em 1940, Stoddard viajou por quatro meses pela Alemanha nacional-socialista como correspondente da North American Newspaper Alliance e fez entrevistas com Hitler, Joseph Goebbels e Heinrich Himmler. De acordo com suas próprias declarações, Stoddard prometera ao Führer manter em sigilo o conteúdo das conversas sobre a teoria racial. Já em março de 1923, o jornalista americano Ludwell Denny escrevera para o jornal The Literary Digest um interessante artigo sobre o Movimento Nacional-Socialista, que também se baseava em um encontro pessoal com Hitler, sem que o texto fosse explicitamente identificado como “entrevista”; cf. a respeito Michael Zalampas: Adolf Hitler and The Third Reich in American Magazines, 1923-1939 (1989). Em 1940, em seu livro These Men I Knew, a viajante e escritora britânica Rosita Forbes (1890-1967; The Secret of the Sahara) relatou em detalhes suas conversas com Hitler, Mussolini e Stalin. Nesse sentido, são fluidos os limites entre reportagens em contextos domésticos, encontros e entrevistas explícitas. Cf. também a obra de Despina Stratigakos, Hitler at Home (2015), com referências ao artigo de William George Fitzgerald sobre Berghof, em Current History (julho de 1936) e Homes and Gardens (novembro de 1938). (N.A.)
[34] Frase de Bernhard Heinrich Karl Martin von Bülow (1849-1929), chanceler do Reich de 1900 a 1909, proferida em um discurso no Reichstag em 10 de novembro de 1903. (N.T.)
[35] Bundeswehr: Forças Armadas alemãs, fundadas em 1955; Reichswehr: Forças Armadas da República de Weimar entre 1919 e 1935. (N.T.)
[36] Cf. Gregor Mayntz: Weimar reloaded? Warum es die Deutschen nicht schaffen, den Anfängen zu wehren, und was ihnen nun zu tun bleibt (Weimar reloaded? Por que os alemães não conseguem conter o avanço do perigo logo no início e o que lhes resta fazer agora, 2019). (N.A.)
[37] Comunidade nacional. Conceito promovido pelo nazismo, que defendia a criação de uma sociedade alemã sem classes, baseada na pureza racial. (N.T.)
[38] “Gângsteres da decadência”, expressão que remete ao clássico Der Untergang des Abendlandes (A decadência do Ocidente), de Oswald Spengler, e a Untergangster des Abendlandes, de Judith Goetz, Joseph Maria Sedlacek e Alexander Winkler, sobre a ideologia e a recepção dos movimentos identitários de extrema direita. (N.T.)
[39] “Fora nazistas”. (N.T.)
[40] Para os “metapolíticos” da extrema direita, é mais confortável referir-se a sentenças eruditas ou que soem decisionistas, como Sein des Seyns (ser do ser), de Martin Heidegger, ou “ordenamento dos grandes espaços no direito internacional com proibição de intervenção por parte de potências estrangeiras” (Carl Schmitt), do que diretamente aos textos ou discursos de Hitler e Goebbels. Cf. Patrick Bahners: Die Wiederkehr. Die AfD und der neue deutsche Nationalismus (O Retorno. A AfD e o novo nacionalismo alemão, 2023).
[41] Sobre a impossibilidade fundamental de entrevistar racionalmente egocêntricos grosseiros como Donald Trump, que além de tudo desprezam jornalistas, ver Federico Finchelstein: Trump’s npr interview shows the danger of interviewing him, em The Washington Post, 20 de janeiro de 2022.
[42] Em 1944, houve apenas uma entrevista menos importante, feita por telefone, com o jornalista sueco Christer Jäderlund. (N.A.)










