1. Jogo
perverso, Blue Steel, 1990, Kathryn Bigelow
2. A balada
de Buster Scruggs, The Ballad of Buster Scruggs, 2018, Ethan Coen&Joel
Coen
3. Rio de
sangue, 2026, Gustavo Bonafé
4. Pela
metade, Half Man, Minissérie TV, 2026, Richard Gadd
5. Oldboy:
dias de vingança, Oldboy, 2013, Spike Lee
6. Oldboy,
Oldeuboi, 2003, Park Chan-wook
7. Brasil
70: a saga do tri, Minissérie TV, 2026, Rafael Dornellas&Naná Xavier
8. O jogo
do predador, Apex, 2026, Baltasar Kormákur
9. Bing feng
bao, wings over Everest, 2019, Fay Yu
10. Lugares
escuros, Dark Places, 2015, Gilles Paquet-Brenner
11. Passengers,
2008, Rodrigo García
12. O
desafio de Marguerite, Le théorème de Marguerite, 2023, Anna Novion
13. Betty
Blue, 37°2 le matin, 1986, Jean-Jacques Beineix
14. Desejo e obsessão,
Trouble Every Day, 2001, Claire Denis
15. Mishima:
uma vida em quatro tempos, A Life in Four Chapters, 1985, Paul Schrader
16. Red Skies,
Filme TV, 2002, Larry Carroll & Robert Lieberman
17. The
Killer, 2024, John Woo
18. O matador,
Dip huet seung hung, 1989, John Woo
19. A menina
do fim da rua, The Little Girl Who Lives Down the Lane, 1976, Nicolas
Gessner
20. O frio da
morte, Dead of Winter, 2025, Brian Kirk [Prime Video]
21. A Stray
Crow Samurai, 2025, Tomohiko Yamashita
22. The Blood of
Others, TV Movie, 1984, Claude Chabrol
23. Zoe
e Tempestade, Tempête, 2022, Christian Duguay
24. Hitler:
A trajetória do demônio, Hitler: The Rise of Evil, série TV, Christian
Duguay
25. Um
homem bom, Good, 2008, Vicente Amorim
02.06.26
1. Jogo perverso, Blue Steel, 1990, Kathryn Bigelow
No iutubi aqui
Crítica | Jogo Perverso por Kevin Rick 29 de agosto de 2017
Crítica | Jogo Perverso por Kevin Rick , 29. 08. 2017
Em seus dois primeiros filmes, Kathryn Bigelow nos trouxe histórias sobre jovens marginalizados, focando, majoritariamente, em figuras masculinas. Não demorou muito, porém, para que a diretora colocasse a mulher como centro de sua narrativa, já que em Jogo Perverso, seu terceiro longa-metragem na direção, vimos uma história sobre relacionamentos abusivos, disfarçado de drama policial. Ora metaforicamente, ora de forma explícita, a realizadora nos traz um retrato perturbador dessa problemática questão, que aflige milhares de pessoas, independente de status ou localização.
A narrativa é centrada em Megan Turner (Jamie Lee Curtis), jovem policial que acabara de graduar-se na academia em Nova York. Logo no seu primeiro dia nas ruas, ela se depara com um assalto a um mercado e, deixada sem opção, acaba matando o assaltante armado. Sem que qualquer um ali percebesse, uma das testemunhas no local acaba roubando o revólver do criminoso e não demora muito para se sentir tentado a usar tal arma. Tomado por pensamentos psicóticos, esse homem se aproxima de Turner, iniciando um perverso jogo de gato e rato, com a credibilidade da policial sendo colocada em xeque.
Logo cedo o roteiro de Kathryn Bigelow e Eric Red demonstra que sua intenção não é focar na investigação, visto que pontuais trechos nos mostram o lado de Eugene Hunt (Ron Silver), o psicopata com o revólver. Dessa forma, o texto assume uma veia mais psicológica, lidando não somente com a mente doentia do assassino, como com os impactos causados por suas ações na protagonista. Cria-se um paralelo bastante claro entre esse homem e o pai da policial, que bate na própria esposa, algo praticamente explicitado em determinado diálogo, no qual a personagem central fala que entrou para a polícia por causa de Hunt, claramente se referindo à sua atitude, que nada mais é que um desdobramento ainda mais assustador da relação entre seus pais.
Bigelow utiliza tal aspecto para construir seu filme na base da incerteza, a tal ponto que nunca sabemos quando, de fato, Turner irá se livrar desse psicopata, que passa a afetar todos os aspectos de sua vida de formas catastróficas, tendo, primeiro, se apresentado como um bom homem – visão essa que, claro, foi se alterando com o tempo, similarmente aos relacionamentos abusivos já falados anteriormente. A tensão crescente da narrativa, portanto, é proveniente da possibilidade de Hunt aparecer em qualquer momento, nunca deixando claro o que exatamente ele irá fazer, ou sequer quais as suas intenções em relação à protagonista.
Essa gradual claustrofobia criada pela diretora, porém, é jogada para o alto no ato final da obra, que funciona como uma grande repetição de si mesmo, simplesmente trazendo os mesmos acontecimentos de novo e de novo, de maneira exaustiva e até risível. Fica bastante claro que a intenção de Bigelow era demonstrar a dificuldade em se desvencilhar desse tipo de relação, metaforicamente, mas ela o faz em detrimento de nossa imersão, que desaparece quando entramos na interminável perseguição de Turner a Hunt, que facilmente poderia ser reduzida em alguns bons minutos e que apenas é sustentada pelo ótimo trabalho de Jamie Lee Curtis, cujo abalo emocional transparece em suas expressões faciais e olhar.
A força da atuação da atriz é tamanha que quase nos faz esquecer de outros deslizes do roteiro, como as consecutivas tentativas da protagonista em agir como vigilante, dispensando ajuda de seus companheiros policiais a fim de perseguir o suspeito por si só – questão que, na maioria das vezes, aparece de forma injustificada, fazendo-nos duvidar da inteligência da protagonista. No início podemos atribuir esse comportamento ao seu estado desacreditado no departamento, mas, quando ela passa a ter apoio dos outros, não há como não perceber a tentativa do roteiro em criar uma heroína às custas da verosimilhança, transformando, pois, um filme bem construído em um típico longa de ação dos anos 1990 – sim, a obra é de 1989, mas as semelhanças no ato final são bastante claras.
Esses deslizes, contudo, não são capazes de nos afastar de nossa percepção positiva da obra como um todo. Ao lidar com questões como relacionamentos abusivos, Kathryn Bigelow garante a profundidade desse seu longa-metragem policial, utilizando a trama detetivesca para contemplar questões extremamente pertinentes à nossa sociedade. Desde já, a diretora demonstra seu potencial ao lidar com protagonistas femininas, fugindo da temática de marginalização apresentada em seus dois primeiros filmes.
05.06.26
2. A balada de Buster Scruggs, The Ballad of Buster Scruggs, 2018, Ethan Coen&Joel Coen
Por que assistir ao filme The Ballad of Buster Scruggs?
"Os Irmãos Coen, de sucessos como ‘Fargo’, ‘O Grande Lebowski’ e ‘Arizona Nunca Mais’, retornam ao mundo do velho oeste após o remake de ‘Bravura Indômita’ neste longa-metragem exclusivo da Netflix. São seis histórias curtas que trazem reflexões de mundo, críticas sociais e também situações absurdas – o que remete aos westerns de outrora, que muitas vezes usavam a roupagem de uma época sem lei para contar histórias com critica social bem atual. O elenco traz estrelas como James Franco e Liam Neeson, além de um roteiro impecável, que foi escolhido como o melhor no Festival de Veneza em 2018."
07.6.26
3. Rio de sangue, 2026, Gustavo Bonafé [Disneyplus]
O cinema de ação brasileiro que não despreza o panorama social ou a temática política
O cinema brasileiro, historicamente mais inclinado à comédia, ao drama e ao documentário, com ênfase social e política, raramente flertou com o gênero de ação, e não faltam motivos estruturais e criativos para isto. Mesmo obras paradigmáticas como Tropa de Elite utilizam a ação mais como uma extensão orgânica e contextual da profissão do Capitão Nascimento, do que um imperativo estético de uma cultura imediatamente associada ao cinema hollywoodiano. Neste sentido, Rio de Sangue, dirigido por Gustavo Bonafé (de Legalize Já, Chocante e O Doutrinador), desponta como o raro exemplar nacional que não só incorpora a ação como pano de fundo narrativo, mas o coloca em primeiro plano.
Ambientado no Pará, em territórios indígenas e florestais invadidos pelo garimpo ilegal, o longa articula algumas camadas dramáticas sem permitir que estas desacelerem a ação, ou que este gênero sufoque o elemento humano no central da história. E que consiste no encontro entre a policial Patrícia (Giovanna Antonelli), afastada da corporação após uma ação desastrosa contra um quadrilha do tráfico de drogas, e a sua filha, a médica Luiza (Alice Wegmann), que presta serviços a tribos indígenas no interior da floresta amazônica. Embora ainda haja amor e afeto, esses sentimentos parecem estar enterrados mais profundamente do que pepitas de ouro, e depois de um breve, mas ácido encontro, Luiza parte para o interior da floresta e Patrícia fica para trás. Os eventos que sucedem resultam no sequestro de Luiza, para que trate os ferimentos do filho de Polaco (Antônio Calloni), e na busca… implacável de Patrícia para resgatar a filha.
O que é interessante é a forma como o filme equilibra os impulsos imediatos. A ação, aqui, não anula o drama; tampouco o drama frustra o fluxo da ação. Há uma consciência de ritmo que permite que sequências fisicamente intensas coexistam com momentos de elaboração emocional, sem que haja uma negativa do que faz a ação ser ação, nem uma ruptura do elemento humano para que nos importemos ou nos envolvamos com a narrativa. Trata-se de um cinema de corpos em movimento, corpos sujos, feridos e exauridos que correm, lutam e sobrevivem, e que também são corpos atravessados por vínculos afetivos e traumas que precisam ser elaborados.
Nesse contexto, uma das decisões mais instigantes da narrativa reside na escolha de seu ponto de vista: a narração conduzida por Fidélis Baniwa, que interpreta Mário, um personagem indígena deslocado de sua própria comunidade. Exilado como flecha que perdeu o rumo, isolado senão pela companhia do álcool e cujas ações são ambíguas e catalisadoras de conflitos, Mário ocupa uma zona liminar de quem não é parte do meio e não vive as tradições de seu povo, e que jamais seria integrado dentro da lógica do mundo branco, ainda que seja contaminado por ele.
Mário é, simultaneamente, agente e testemunha. Ação e olhar. Diferentemente dos demais personagens, intrusos, de alguma forma, num espaço que não lhes pertence, ele é o único que não está de passagem – igual Patrícia ou Luiza -, o único cuja trajetória está associada à jornada espiritual até de restabelecimento de sua conexão com aquele território. É nesse ponto que Rio de Sangue revela uma ambição para além da ação: a tentativa de articular um cinema de gênero com uma reflexão e preocupação sobre a exploração e recolonização de terras indígenas em frente e também atrás das câmeras. Embora a presença de personagens indígenas e, mais importante, de consultores indígenas no processo de produção vá impedir que o filme se reduza a um olhar externo – colonialista portanto -, mesmo que não elimine completamente as tensões típicas dessa representação.
Do lado antagonista, o filme adota uma estratégia dupla. Enquanto parte dos vilões é construída de maneira mais unidimensional, quase como corpos descartáveis a serviço da ação, e não há nada de errado nisto, o Polaco de Antônio Calloni se destaca como uma figura mais complexa. Movido por uma obsessão quase patológica pelo ouro que idolatra, ele encarna não só a ganância, porém a lógica exploratória que transcende o personagem. E Calloni, com sua experiência, imprime ao personagem uma postura ameaçadora, que dispensa os gestos ameaçadores de seu sobrinho vivido por Felipe Simas, mas investe estrategicamente no tom de voz e nos maneirismos do personagem.
Ainda assim, o roteiro por vezes recorre a soluções expositivas que revelam certa pressa em conduzir a narrativa a seus pontos de virada, e o melhor exemplo disto é o momento em que o personagem de Vinícius de Oliveira revela onde está sendo mantida Luiza a Patrícia. E um roteiro escrito a tantas mãos deveria zelar para que estas informações fossem mais orgânicas, e menos como etapas necessárias para que a ação prossiga. Há também uma tendência à simplificação de alguns conflitos secundários, o que resulta em personagens que orbitam a trama sem adquirir uma dimensão dramática para além da utilidade imediata, e logo me vem ao caso a presença de um policial corrupto.
De todo modo, Rio de Sangue é, antes de tudo, um exercício de eficiência. Um filme que realiza escolhas e entende suas prioridades, e as executa com convicção. A direção de Bonafé demonstra domínio do gênero, explorando locações naturais com inteligência e construindo uma encenação que privilegia a ação a partir de sua consequências imediatas, e não meramente de sua pirotecnia frontal. A fotografia, em particular, contribui para essa experiência ao capturar a densidade da floresta não apenas como um cenário, mas como entidade hostil; e, aliado a isto, trazendo consigo a sensação de desgaste físico e também emocional, o impacto direto da ação e do esforço sobre corpos e a adrenalina decorrente do gênero.
Ao apostar na ação como a linguagem central, sem abrir mão de um comentário social relevante, a narrativa amplia as possibilidades de nossa produção audiovisual. E, ao fazê-lo, a direção sugere que talvez o verdadeiro desafio não esteja entre escolher o entretenimento ou a reflexão, mas quem sabe encontrar formas de fazer com que ambos coexistam. Um filme bastante eficiente. (Marcio Sallem )
08.6.26
4. Pela metade, Half Man, Minissérie TV, 2026, Richard Gadd
“Half man”: Uma temporada no inferno da “masculinidade”
Eduardo Reisdisse , 2 de junho de 2026
A série Half man (HBO Max), do ator e roteirista Richard Gadd, teve seu último episódio exibido no final de maio. A produção é do mesmo criador do aclamado e autobiográfico Bebê rena (2024). Nesse novo trabalho, o artista nos apresenta uma releitura do status quo do paradigma da masculinidade. Não se trata de uma releitura comum; ao longo dos episódios, percebe-se que Gadd revela em sua dramaturgia algo que se desdobra no lado oposto de seus personagens, como se, aos poucos, pequenas granadas explodissem dentro de suas mentes, numa mistura constante de pólvora e poesia. Essa intensidade lembra a estranha e familiar visceralidade presente em Uma temporada no inferno, de Arthur Rimbaud (1873), especialmente no contexto de sua relação com Verlaine.
Niall e Ruben crescem juntos como irmãos; suas mães, Lori e Maura, formam um casal abertamente homoafetivo. O embaraço começa quando Ruben, após sair de uma instituição para jovens infratores, volta a morar na mesma casa e a estudar no mesmo colégio que Niall e, paradoxalmente, para esgarçar e aproximar ainda mais a relação de ambos, eles acabam dividindo o mesmo quarto. Há, nessa relação, um faiscar constante de pulsão e repulsa homoerótica, na qual a homofobia de ambos se emancipa no lado principal de seus avessos. São dois homens condenados a se atravessar continuamente, da adolescência à vida adulta; se arranham, se batem, se quebram, numa ânsia constante de se devorarem.
Enquanto Niall, o irmão aparentemente certinho e estudioso, conquista uma vaga na universidade, Ruben permanece na vida errante até que uma tragédia os separa novamente. Niall não contava que, ao convidar Ruben para passar uns dias na residência universitária, perderia a oportunidade de viver sua primeira experiência afetiva com outro homem. Seu irmão esmaga o rosto de seu colega e regressa, mais uma vez, ao sistema prisional. Isso se tornará uma constante na vida dos dois: entre idas e vindas mediadas por violência extrema, destruição mútua alimentada por desejo, ódio e aversão, eles fracassam na tentativa de apagar as fronteiras entre si.
Ruben dilacera brutalmente todos os que se arriscam a ultrapassar, mesmo que minimamente, seus pequenos limites. Age como se tivessem roubado um traço determinante de sua identidade, como se faltasse a metade de quem ele é, do que o constitui como homem, no sentido antiquado do termo. Por isso, qualquer sujeito que atravesse seu espaço estaria na iminência de ser aniquilado por seus atos impensados, pelo extravasamento de sua força bruta – nada muito distante da extensão das ruínas da virilidade, já amplamente conhecidas. A sensação é a de que tanto Niall quanto Ruben buscam reaver um padrão imaginário – ou melhor, imaginado – daquilo que eles não são, daquilo que nunca foram. Como numa espécie de Ecce homo nietzschiano, eles não se percebem naquilo que sempre foram ou fingem não saber que se tornaram aquilo que já eram.
O mais irônico nesse cenário é que os dois aparentam ter consciência e clareza de que lutam contra os próprios demônios. Não se trata de uma briga com o corpo social, com a moralidade ou com os estigmas religiosos que sentenciaram padrões de conduta de gênero, mas com o reconhecimento daquilo que eles próprios não suportam admitir em si. Como disse Caetano Veloso em sua canção “Dom de iludir”: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Trata-se, sobretudo, de um dom de autoilusão heteropatriarcal, mais comum do que se imagina.
Ruben materializa esse impasse em sua forma mais cruel. Mesmo sabendo ser infértil, sonha em ser pai para tentar corrigir o mal que seu pai lhe causou ao abusá-lo na infância e ao fazê-lo carregar a culpa por ter se excitado. Mas o pai de seu filho é seu irmão Niall, que acabou engravidando sua cunhada. A trama se estilhaça e se reconstrói o tempo todo, assim como os dois protagonistas, que tentam edificar o impossível: ser homem por inteiro. E o que é ser homem por inteiro? Ou será que a tragédia consiste justamente em perseguir uma inteireza que nunca existiu?
Um dos momentos mais impactantes de Half man ocorre no último episódio, quando os irmãos, na penitenciária, abrem seus cadernos secretos e expõem as próprias chagas entre soluços, risadas e choros intensos. É ali, frente a frente, separados apenas pelo vidro da sala de visitas, que Niall, ao se declarar gay, recebe de seu “meio-irmão” uma resposta desconcertantemente indiferente: “Não sinto nada”; “Por que eu ligaria?”; “Temos mães sapatões”; “Esse problema é seu, não tem nada a ver comigo”; “Sabe quem era o homofóbico na sua vida? Vou te contar: você”; “Desperdiçou sua vida dançando conforme a música dos outros, mas você nunca teve muito ritmo”.
Então, Niall pergunta: “Você não está bravo?”. E Ruben responde: “Não. Estou orgulhoso”.
Aqui parece haver uma trégua, uma possibilidade de reconciliação, mas ela dura pouco. Na sequência, Niall revela que é o pai biológico do filho de Ruben. A cena seguinte mostra os dois caídos no chão do celeiro, no dia do casamento de Niall, sugerindo que, enfim, o ciclo de violência entre eles chegou ao fim com a morte de Niall. Contudo, em outro episódio, a série indica que Ruben também morre. A questão permanece em aberto até a cena final, pois, durante a luta entre os dois, Niall, antes de morrer, esfaqueia o irmão no quadril.
A ambiguidade do desfecho parece menos interessada na morte de um dos irmãos do que no fracasso de ambos. Afinal, a tragédia não consiste em perder o outro, mas em descobrir que ele sempre esteve dentro de si. Como sugere Rimbaud, o eu é um outro; e Niall e Ruben passam a vida inteira tentando destruir justamente aquilo que os constitui.
Eduardo Reis é professor no curso de Cinema do Centro Universitário Jorge Amado (BA), especialista no cinema de Pedro Almodóvar e doutor em Artes Cênicas (UFBA, 2025). Pesquisador, dramaturgo e diretor, atua nas áreas de teatro, literatura e crítica cultural.
9.6.26
5. Oldboy: dias de vingança, Oldboy, 2013, Spike Lee
No iutubi aqui
Oldboy – Dias de Vingança (2013) By Gabriel Paixão
A esta altura da vida você já deve ter visto Oldboy, de Chan-wook Park, e sabe porque sua reputação o precede; se não viu, não perca mais tempo com minhas letras mal escritas. Pare o que estiver fazendo e coloque-o já na sua lista de prioridades. Como um primor da bizarrice e do cinema fantástico como um todo, a ideia de um remake americano já poderia ser considerada um ultraje, contudo americanizar Oldboy passava por um desafio maior que a tradução e mera comparação com o original: era preciso entender um contexto cultural do oriente que torna Oldboy perversamente único, uma referência do cinema sul-coreano.
Mas Spike Lee teve peito de tocar o projeto depois que a Dreamworks comprou os direitos em 2004, produzindo e dirigindo o longa. Contra tudo e contra todos, a consequência foi o total desprezo. A crítica especializada praticamente ignorou a obra e o público também: dos 30 milhões de dólares de orçamento, não fez nem 5 milhões em bilheteria. O suplício da obra foi merecido?
Se levarmos em consideração o roteiro escrito por Mark Protosevich (Eu Sou a Lenda, Thor) não era para tanto, pois a linha segue como o original: Joe Doucett (Josh Brolin) é um executivo workaholic, que, além de ser um babaca no trabalho, é um negligente marido e pai no começo dos anos 90. Depois de uma bebedeira homérica, Joe acorda surrado em um quarto de hotel sem janelas.
Pelos próximos 20 anos, comida chinesa e vodca são transferidas por baixo da porta, e o mundo passa por ele na pequena tela de TV do quarto, incluindo no pacote um noticiário sobre o assassinato de sua esposa lá em 1993, com Joe sendo o principal suspeito, e seus regulares aniversários de desaparecimento.
Subitamente ele é solto e apenas com um celular no bolso e as cartas que escreveu no cárcere para a filha Mia, Joe vibra por vingança. No caminho para encontrar quem o privou da liberdade por duas décadas, acaba cruzando o caminho de uma enfermeira chamada Marie (Elizabeth Olsen), o amigo Chucky (Michael Imperioli, Família Soprano) e lentamente começa a montar as peças para descobrir a identidade de seu captor: um sádico e degenerado milionário (Sharlto Copley, Distrito 9) com um passado para com Joe. Contudo a principal pergunta não é “quem“, mas “por que” Joe foi tratado assim. No caminho Lee recria cenas icônicas do mangá original e do filme coreano, como a luta de Joe com martelo contra criminosos liderados por Samuel L. Jackson.
Entre tantos, o maior dos problemas é falta energia, aquela rude interpretação crua que convence e causa tamanho impacto com as revelações finais. Por mais que Josh Brolin se esforce – e, justiça seja feita, é o mais consistente do elenco – cada ator parece estar contracenando em seu próprio filme, cada um para um lado. Sharlto Copley não mostra sutileza em sua vilania, é tão exagerado em seu figurino e maneirismos que lembra Gomez Addams, da Família Addams; Samuel L. Jackson é ele mesmo num filme do Tarantino; Elizabeth Olsen não consegue formar aquela conexão com Joe, tão necessária para o andamento da trama… E por aí vai.
Diz a lenda que Lee não concordou com os cortes impostos pelo estúdio, que reduziu a duração do filme de 140 para 105 minutos, mas não sei se estes cortes repostos seriam diferentes para melhorar alguma coisa.
Do jeito que está, no meio do novelão hermético e artificial tipo “Avenida Brasil” que o Oldboy americano vai se formando; as escolhas de Joe não condizem com o que se espera de alguém tão remoído pela vingança. Ao final, como o próprio personagem principal, a questão não está em “quem“, mas no “por que“: Talvez se fosse um filme separado e original tivesse algum valor, mas se não se equipara ao original ou adiciona nada novo ao legado de Oldboy. Qual é o motivo de fazê-lo? Talvez demore 20 anos para a resposta, enquanto isto Joe infelizmente merece o esquecimento dentro de um quarto de hotel sem janelas.
11.6.26
6. Oldboy, Oldeuboi, 2003, Park Chan-wook
Oldboy: a pedagógica tragédia de Park Chan-wook por por David Mandelbaum, 29/10/2023
Nos primórdios do cinema mudo japonês, era muito comum a figura do “benshi”, um ator profissional responsável pela narração dos filmes. Ele também fazia comentários técnicos e culturais, ajudando a contextualizar as cenas — isso era importante principalmente em produções estrangeiras. Não raro, o “benshi” contava a história inteira antes de o filme começar. O japonês, acostumado que estava ao “Kabuki”, ao “Noh”, ao “Bunraku” e a outras artes cênicas tradicionais, cujas peças se baseiam em lendas imemoriais, de conhecimento geral, não se chocava com a perda do “efeito surpresa”. Para ele, a experiência teatral — e, posteriormente, a cinematográfica — se baseava muito mais na apreciação da capacidade interpretativa de cada ator. Mas esse tempo e essa sensibilidade ficaram para trás. Musei Tokugawa, o “benshi” mais famoso de todos os tempos, morreu nos anos 70. Apesar de uma corajosa meia dúzia de praticantes que ainda resta, podemos dizer que o ofício do “benshi” está tão vivo quanto o do telégrafo ou o do guarda-freio. Atualmente, revelar antes do filme — à maneira de um “benshi” —, o ponto chave do roteiro é um daqueles crimes passíveis de linchamento público. Por tudo isso, sou obrigado a dizer: este texto contém “spoiler”. E dos grandes.
Há algumas semanas, tive a oportunidade de assistir “Oldboy” em uma tela de cinema. Já havia visto o filme outras vezes, mas sempre pelo computador. A experiência, é claro, foi muito mais impactante. A sala de cinema, com seu breu artificial e seu imponente ecrã, como que convida o expectador a imergir em cada “frame”. Nelson Rodrigues dizia que a cama é um móvel metafísico, onde o homem nasce, dorme, sonha, ama e morre. O mesmo poderia ser dito da poltrona de cinema, com a diferença de que nela esse ciclo se completa ao tempo de uma sessão.
Bom, vamos ao filme. Dirigido por Park Chan-wook e lançado em 2003, o enredo do longa-metragem sul-coreano se baseia num mangá japonês de mesmo nome do final dos anos 90, escrito por Garon Tsuchiya, com ilustrações de Nobuaki Minegishi. O filme é o segundo da “Trilogia da Vingança”, de Park Chan-wook; precede “Sympathy for Mr. Vengeance” (2002) e antecede “Lady Vengeance” (2005).
Somos convidados, desde a primeira cena, a seguir os passos desajeitados de Oh Dae-su rumo ao seu apocalipse particular. Depois de uma noite de bebedeira, o protagonista é sequestrado e levado a um quarto de hotel. Uma atmosfera kafkiana toma conta da trama. Ele não sabe quem lhe colocou lá, nem o porquê. Paralelamente, ele fica sabendo pela TV do quarto de hotel que sua esposa foi assassinada e ele é apontado pela polícia como o principal suspeito. Quinze anos se passam, ao longo dos quais Oh Dae-su treina seu corpo intensamente e cava em segredo o reboco da parede com a esperança de escapar do quarto. Certo dia, porém, sem nenhuma explicação, ele é solto do cativeiro.
Tomado pelo desejo de vingança, ele tenta desesperadamente descobrir quem destruiu sua vida e o motivo. Oh Dae-su acaba conhecendo uma jovem chamada Mi-do, que decide ajudá-lo em sua busca. Os dois se apaixonam e desenvolvem uma intensa relação de afeto. Algum tempo depois, o protagonista descobre que quem o colocou no hotel foi um homem nome de Woo-jin. É revelado posteriormente que ele e Oh Dae-su estudaram na mesma escola. Nessa época de estudante, Oh Dae-su descobriu que Woo-jin e sua irmã, Lee Soo-ah, mantinham uma relação incestuosa.
Oh Dae-su comenta o caso com um colega de sala. O boato logo se espalha e aumenta de tamanho. Fala-se pelos corredores da escola que Lee Soo-ah está grávida de Woo-jin. Influenciada pelo boato, a menina desenvolve uma gravidez psicológica e, no mais absoluto estado de desespero, acaba por se suicidar. E assim se explica o porquê de Woo-jin ter mantido Oh Dae-su preso durante quinze anos.
Mas a vingança diabólica de Woo-jin não termina por aí. E eu recomendo que quem pretenda assistir o filme pela primeira vez com o “efeito surpresa” pare a leitura imediatamente. Woo-jin hipnotizou Oh Dae-su e Mi-do para que eles acabassem se conhecendo. A paixão, porém, era imprevisível, e aconteceu por “sorte”. O detalhe mais sórdido do filme vem agora: é revelado que Mi-do é a filha de Oh Dae-su, seu plano consistia precisamente em fazê-los desenvolverem uma relação incestuosa, tal qual ele mantinha com a própria irmã. O próximo passo da vingança seria então revelar tudo a Mi-do. Oh Dae-su suplica a Woo-jin que não o faça e corta a própria língua — assim como Édipo cortou os próprios olhos na tragédia de Sófocles — para que a verdade não seja revelada. As súplicas surtem efeito. Woo-jin se mata e, ao final, Oh Dae-su convence a mulher que o hipnotizara quando ele deixou o quarto (ela trabalhava para Woo-jin) a apagar a sua memória quanto ao fato de Mi-do ser sua filha. Na última cena, Oh Dae-su e Mi-do se abraçam.
Se pensarmos bem, o final é perverso. Se Oh Dae-su não se lembra mais do teor incestuoso da relação, ela continuará indefinidamente. Assim, ao levantar-se da poltrona, o expectador não experimenta aquela sensação de purificação por meio da descarga emocional advinda de um trauma, que Aristóteles chamou de “Catarse” — o efeito natural da tragédia —, mas sim uma sensação de angústia.
Essa angústia, no entanto, não deixa de ter um caráter pedagógico. Oldboy nos faz lembrar do tão esquecido “poder das palavras”. Num diálogo antológico, Woo-jin fala a Oh Dae-su algo como: “Foi a sua língua que engravidou a minha irmã”, referindo-se ao fato de o boato ter feito a barriga de Lee Soo-ah crescer tal qual a de uma grávida. O filme mostra — de maneira magistral — toda a desgraça que uma palavra “maldita” pode causar na vida de alguém.
Em termos de literatura, o enredo lembra dois livros célebres: “A Tragédia da Rua das Flores” — o trabalho mais polêmico de Eça de Queirós — e “O Conde de Monte Cristo”. O primeiro trata de uma relação incestuosa entre uma mãe e um filho (ambos não tinham ideia do parentesco); o segundo, de uma grande vingança. Oldboy acaba unindo essas duas tramas numa tragédia espetacular.
O expectador sai da sessão tonto e angustiado, com a certeza de que acabou de presenciar uma grande obra de arte — que, de sobra, o ensinou alguma coisa. O olhar habilidoso de Park Chan-wook engendrou um monstro, no melhor sentido da palavra. Com toda certeza, vale a experiência.
14.6.26
7. Brasil 70: a saga do tri, Minissérie TV, 2026, Rafael Dornellas&Naná Xavier [Netflix]
Entre o ufanismo e o fato, Brasil 70 é espetáculo que a seleção do Tri merece
Produção da Netflix ultrapassa as lendas em campo para contar uma história, acima de tudo, sobre a paixão pelo futebol e os símbolos nacionais
Omelete, Alexandre Almeida, 29.05.2026
É quase impossível que você nunca tenha ouvido de alguém mais velho — pais ou avós — que a maior seleção da história do Brasil e do futebol foi a de 1970. Pelé, Gerson, Tostão, Jairzinho e todos os outros viraram símbolos que perseguiram qualquer convocação posterior. Não é à toa — e até demorou para acontecer — que, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, finalmente tenhamos essa história contada. Brasil 70: A Saga do Tri, nova minissérie da Netflix, narra os passos do "escrete" e do país naquela época, dando, claro, uma piscadinha para o cenário atual também.
Como em uma boa crônica esportiva, a produção escolhe seus personagens e, a partir deles e dos fatos, floresce o imaginário com os excessos que a paixão nacional permite. Contar histórias cujo final já conhecemos, tal qual os artigos que acompanhavam vitórias e derrotas nos jornais da época, não é tarefa fácil. Como engajar o público a acompanhar uma trama que já sabemos como termina, com suas reviravoltas e conquistas previsíveis? Brasil 70 escolhe o melhor caminho possível ao escalar o triângulo mágico formado por Pelé (Lucas Agrícola), João Saldanha (Rodrigo Santoro) e Zagallo (Bruno Mazzeo) como as engrenagens principais.
No meio do turbilhão que envolvia a ida da seleção para a Copa do Mundo do México, os três foram as figuras centrais. O Rei do Futebol estava desacreditado e era dado como acabado por alguns. Saldanha montou o time e classificou o Brasil para a Copa, mas acabou retirado do cargo por seus conflitos com a Ditadura Militar, que também comandava os bastidores do futebol via João Havelange (Nelson Baskerville). E Zagallo entrou no lugar de João sob a suspeita de todos, mas desde sempre teve o coração de Pelé ao seu lado.
Os arquétipos do trio são muito bem definidos, e o roteiro trabalha ufanismo e fatos históricos — precisos ou ficcionalizados — de forma perfeita para entrelaçar suas jornadas. O texto manipula os sentimentos do espectador com precisão, seja para amar, odiar, suspeitar ou entender os dramas de cada um. Com Pelé, temos a jornada do herói quebrado, que carrega a pressão do título de Rei e precisa entender seu papel entre o ídolo do futebol e a imagem usada pelos militares como sinal de progresso de um país em frangalhos sociais. Saldanha, por sua vez, é o esquentado que bate de frente com o sistema, mas carrega o amor pela pátria e pelo escudo no peito. Já Zagallo é o “novato” que precisa provar, entre suas excentricidades, que tem o que é preciso para ser um vencedor.
Tudo ganha ainda mais intensidade com a escolha do elenco. O trio principal mistura bem a caracterização precisa com a liberdade de criar momentos íntimos que nunca vimos. A semelhança entre Lucas Agrícola e Pelé é assombrosa. Sem cair na caricatura, mas mantendo frases e expressões marcantes, o ator consegue dar ao Rei do Futebol uma camada humana que permite a escalada gradual até o Olimpo deste deus do esporte. O mesmo vale para Santoro, que, ao lado de Marcelo Adnet, vira também a voz que narra a caminhada da seleção na competição. O destaque vale para todo o elenco, diga-se. As caracterizações — especialmente de Fillipe Soutto como Gérson, Gui Ferraz como Jairzinho, Daniel Blanco como Rivelino e Caio Cabral como Carlos Alberto Torres — são excelentes e acabam elevadas pela qualidade técnica da produção.
Poucas vezes o futebol foi tão bem representado em tela como em Brasil 70. A direção das cenas de jogo e a recriação de momentos icônicos dão um banho em outras produções sobre o esporte, como Ted Lasso, por exemplo. É notável a paixão dos realizadores pelo esporte: as jogadas ganham um tratamento visual que beira as histórias de super-heróis e os animes, ganhando um ar mítico. O uso do slow-motion, ainda que excessivo, transporta para a tela o sentimento de prender a respiração quando um gol ou uma jogada incrível acontece. É um retrato que marca a memória de qualquer fanático por esporte.
Essa crônica esportiva audiovisual ainda expande seus horizontes para falar de superstição, heróis e tragédias do passado, como no ótimo episódio que relembra o trauma da Copa de 1950 e a injustiça que assolou o goleiro Barbosa, arqueiro histórico do Vasco da Gama e do futebol brasileiro, até o fim de sua vida. As trevas da Ditadura Militar também acompanham a jornada, com militares fardados e armados aparecendo em quase todos os cenários, no Brasil e no México, mostrando sua influência direta no dia a dia do time e de seu maior astro, além da opressão óbvia do regime nas ruas do país.
rasil 70, então, traça um paralelo com o Brasil de 2026. A poucos dias do início da Copa do Mundo atual, a seleção vive um momento de descrédito semelhante. O grande ídolo da atual geração também é questionado por grande parte da mídia e da torcida. Além disso, o símbolo da seleção brasileira, a camisa canarinha, tal qual na Copa de 1970, foi sequestrado por discursos patrióticos que defendem um Estado acima das leis e dos direitos da população.
Já próximo da final, João Saldanha deixa claro que, independente de quem tente se apoderar do verde e amarelo, no fim das contas a camisa da seleção brasileira será sempre do povo — aquele que pinta as ruas, que chora e se emociona (e que ganha uma representação simpática na série com um casal que viaja ao México aos trancos e barrancos).
Brasil 70: A Saga do Tri é uma obra pop, com ritmo frenético e que lembra muito Senna (também da Netflix) em alguns momentos, mas se mostra ainda melhor resolvida no que se propõe. A série emociona não só pela conquista de Pelé e seus companheiros, mas por reviver um sentimento que foi tirado de nós desde o 7 a 1 para a Alemanha e o período político que se seguiu. O sentimento de voltarmos a ser torcedores ingênuos, apaixonados e sem vergonha de assumir que nos importamos, sim, com a seleção brasileira, com nossos símbolos e com um território que sempre dominamos: a Copa do Mundo.
15.6.26
8. O jogo do predador, Apex, 2026, Baltasar Kormákur [Netflix]
Charlize Theron é o mais recente sucesso da Netflix (ler aqui)
Entrevistas com Charlize Theron (aqui1 e aqui2) e Taron Egerton
Filmagens - imdb
16.6.26
9. Bing feng bao, wings over Everest, 2019, Fay Yu
No iutubi aqui
Quando um avião que transportava documentos importantes cai na "Zona da Morte" do Monte Everest, dois homens que afirmam trabalhar para o departamento de pesquisa e análise da Índia oferecem uma grande quantia em dinheiro à Team Wings — uma organização de resgate em montanha — para que a equipe os leve até o local e recupere os documentos. Eles enfrentarão uma batalha feroz nos perigosos Himalaias. Trata-se de um filme de ação chinês produzido para o público internacional e remasterizado digitalmente para lançamento em cinemas IMAX 3D. Dirigido por Yu Fay, *Wings Over Everest* é estrelado por Koji Yakusho, pela famosa atriz Zhang Jingchu e por Po-Hung Lin (vencedor do prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Golden Horse). (mntnfilm)
18.6.26
10. Lugares escuros, Dark Places, 2015, Gilles Paquet-Brenner
No iutubi aqui
Logo depois de “Mad Max” a mais bela e recente quarentona Charlize Theron e o jovem Nicholas Hoult voltam a trabalhar juntos nessa adaptação do livro homônimo de Gillian Flynn, cujo best seller “Garota Exemplar” bombou no ano passado e dirigido por Gilles Paquet-Brenner do ótimo e emocionante “A Chave de Sarah”.
Theron é Libby que presenciou o massacre de sua própria família quando criança e culpou o irmão que pegou prisão perpétua. Até que ela conhece Lyle (Hoult) que faz parte de um peculiar grupo de investigadores amadores que se dedicam a desvendar mistérios dados como finalizados pelas autoridades. Então Lyle convence Libby a investigar seu próprio passado em busca do que realmente aconteceu, enquanto em paralelo o espectador volta no tempo em flashbacks que mostram os dias anteriores à chacina onde a mãe de Libby, Patty (Christina Hendricks de “O Mistério de God’s Pocket”) batalha para cuidar de seus quatro filhos e manter sua fazenda, enquanto o único filho homem adolescente começa a se envolver com as pessoas erradas.
O mistério que permeia toda a história não deixa de ser envolvente, complexo, intrincado e sua resolução está realmente à altura. Assim, conceitualmente o roteiro não decepciona.
Entretanto há temas adjacentes que fazem parte da história que inevitavelmente provocam certo incômodo. Por exemplo: se Lyle e seu grupo são investigadores porque convidam Libby para participar ativamente da investigação e não simplesmente coletam o depoimento dela? Porque ela tem que sair atrás de supostas testemunhas (ou suspeitos) quando de posse do mesmo conhecimento, Lyle e seus amigos poderiam fazer o mesmo? A resposta existe, mas não convence: para dar o tom emocional na narrativa, pois dessa forma Libby visitaria seu próprio passado, os tais lugares escuros que dá nome ao título.
Também incomoda o estilo de filmagem do diretor que em suas tomadas insiste em fazer uma leve aproximação de câmera nos personagens como se fosse para dar um estilo documental, o qual nunca é cogitado. E finalmente o último ato que tinha tudo para um bom clímax é estragado por uma incoerência absurda e inexplicável (se não entendeu qual é a incoerência, pergunte nos comentários que eu respondo).
“Lugares Escuros” é um suspense meio padrão do subgênero que vai e volta nos flashbacks que tem uma história cativante, mas uma execução deficiente. Talvez no livro fique melhor. (cinecriticas)
20.6.26
11. Passengers, 2008, Rodrigo García
No iutubi aqui
Suspense com Anne Hathaway é cheio de reviravoltas, mistérios e luta por sobrevivência
Marcus Vinícius - 29 de junho de 2023
Prepare-se para embarcar em uma jornada cinematográfica repleta de emoção e questionamentos com o filme Passageiros. Dirigido por Rodrigo García, esse drama de 2008 cativou o público com sua narrativa envolvente e performances marcantes. Ao abordar temas profundos como solidão, conexão humana e busca pelo propósito, o filme nos leva a refletir sobre o significado da vida e as escolhas que fazemos ao longo do caminho.
Sinopse
Uma terapeuta tem a missão de prestar assistência psicológica aos sobreviventes de um acidente de avião e acaba se envolvendo romanticamente com Eric, o paciente mais calado do grupo. Os sobreviventes começam a desaparecer misteriosamente e ela acredita que Eric sabe o motivo.
Elenco
O filme apresenta um elenco talentoso, cujas atuações trazem vida e emoção aos personagens. Entre os principais protagonistas estão Anne Hathaway, Patrick Wilson, Clea DuVall, Andre Braugher e Dianne Wiest.
Vale a pena assistir?
Absolutamente! Passageiros é um filme que nos desafia a refletir sobre as nossas próprias vidas e a importância das conexões humanas. Com uma narrativa envolvente e atuações convincentes, o filme nos leva a uma jornada emocional que nos faz questionar o propósito da existência e a busca pela felicidade.
Se você busca um filme que vá além do entretenimento superficial e que estimule reflexões mais profundas, Passageiros é uma escolha certeira.
Curiosidades
Cada membro do elenco entrega performances tocantes, trazendo autenticidade e profundidade aos seus papéis.
O diretor Rodrigo García é conhecido por seu trabalho em dramas intimistas, explorando as complexidades das relações humanas. O roteiro do filme foi escrito por Ronnie Christensen, que trouxe uma abordagem sensível e perspicaz à história.
Passageiros foi elogiado por sua cinematografia envolvente e trilha sonora marcante, que contribuem para a atmosfera emocional do filme.
Consenso da crítica
A crítica reconheceu Passageiros como um filme cativante e reflexivo.
Foi elogiado por suas performances autênticas e pela forma como aborda temas universais como solidão, esperança e a importância das relações humanas. O filme foi aclamado por sua narrativa envolvente e pelos questionamentos que suscita, deixando uma marca duradoura nos espectadores.
Conclusão
Passageiros é uma obra-prima cinematográfica que nos leva a uma jornada emocional e reflexiva. Com um elenco talentoso e uma narrativa envolvente, o filme nos convida a refletir sobre as escolhas que fazemos em nossas vidas e a importância das conexões humanas. É uma experiência cinematográfica que nos toca profundamente e nos leva a questionar o sentido da existência. Se você está em busca de um filme que vá além do entretenimento superficial e que deixe uma marca duradoura, não perca a oportunidade de assistir a Passageiros
Passageiros / Passengers Por Sérgio Vaz
21.06.26
12. O desafio de Marguerite, Le théorème de Marguerite, 2023, Anna Novion
No iutubi aqui
O desafio de Marguerite por Eduardo Kaneco, 10/11/2023
Em seu terceiro longa-metragem, a diretora Anna Novion resolve questões difíceis de serem filmadas. O Desafio de Marguerite (Le Théorème de Marguerite) leva para as telas a ciência da matemática, em seus patamares mais avançados. Assunto digerível apenas por pesquisadores acadêmicos altamente especializados, mas a cineasta extrai daí o que se comunica com todos os espectadores: a paixão de uma pessoa pelo assunto que ela mais gosta. E, vai além, ampliando isso para a paixão pela vida.
No entanto, o enredo contrapõe essa paixão com a obsessão. A dedicação extrema da protagonista, a jovem acadêmica Marguerite (Ella Rumpf), pode conduzí-la à solução da teoria que estuda, mas também a isola do mundo social. No desenrolar da trama, ela se liberta dessas amarras que a prenderiam a um destino similar ao lado doentio de John Nash, matemático retratado em Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001), de Ron Howard.
E a diretora Anna Novion, por sua vez, não se confina a repetir os truques desse filme americano vencedor de quatro Oscars. Somente em uma cena vemos uma montagem com a protagonista enquadrada atrás de equações matemáticas, recurso exaustivamente utilizado por Ron Roward em seu longa. No restante de O Desafio de Marguerite, as equações estão nas lousas, iluminadas com cores diferentes sobre o giz. Destaca-se, ainda, um insight que surge magicamente nas peças do jogo chinês mahjong. Aliás, a cineasta também evita entrar nas regras desse jogo que poucos conhecem.
A emoção sobre a razão
Da mesma forma, evita se restringir ao raciocínio lógico e exato. Até se afasta dele, defendendo que a solução para Marguerite está no seu emocional. Nesse processo, ela acaba dividindo um apartamento com uma dançarina, Noa (Sonia Bonny). Ou seja, uma artista, portanto o oposto do que representa a protagonista. E a dança (cena comum no cinema francês contemporâneo) serve justamente para destravar a estudante de matemática. Uma cena engraçada e terna, na manhã seguinte ao sexo com um desconhecido, revela Marguerite arriscando uma descontração na loja onde trabalha. O filme mostra que ela resolve o teorema do seu trabalho, e também sua vida pessoal, ao se afastar por uns dias na casa da mãe no campo. A obsessão a levava para o fracasso, mas admitir que está apaixonada a liberta.
Pode não ser o arco de personagem mais original que possa existir, mas o filme consegue emocionar nessa consistência. Principalmente com a bela interpretação da atriz Ella Rumpf, que encarna Marguerite com total autenticidade. Sem recorrer a artificialismos para a transformar em princesa, ela convence tanto em sua versão nerd como em sua versão mulher atraente, sem ter que mudar nada em seu figurino, cabelo ou maquiagem. Palmas para Ella Rumpf e para Anna Movion.
FESTIVAL VARILUX 2023 | Diretora Anna Novion fala sobre "O Desafio de Marguerite" (áudio)
Le théorème de Marguerite (Original Motion Picture Soundtrack) https://www.youtube.com/watch?
23.6.26
13. Betty Blue, 37°2 le matin, 1986, Jean-Jacques Beineix (Mubi)
Béatrice Dalle - wiki Béatrice Dalle - imdb
Se você já amou alguém com grande intensidade – e contra todo bom senso – vai entender este filme perfeitamente. É uma das maiores representações desse dilema.
Zorg (Jean-Hugues Anglade) é um faz-tudo tímido, despreocupado e aspirante a escritor, já em plena paixão por Betty (Béatrice Dale, de 22 anos em sua estreia como atriz), uma jovem bonita, de espírito livre e provavelmente maníaco-depressiva.
Betty tem dificuldade com autoridade e tende a ficar violenta quando provocada. Zorg acha o comportamento maníaco e a postura despreocupada dela refrescantes, como contrapeso à sua própria tendência de se retrair.
Depois que o chefe de Zorg faz exigências injustificadas demais, Betty joga tudo do chalé e o incendeia. Aparentemente, incêndio criminoso não afeta Zorg, então eles partem em busca de uma vida melhor.
Betty Blue1986 - Resenha por Graham Williamson
Assistido em 01 de dezembro de 2016
A resenha de Graham Williamson publicada no Letterboxd
Eu amava Betty Blue quando adolescente. Claro que sim; é um filme sobre duas pessoas extremamente atraentes que passam todo o tempo vagando nuas, uma delas é a ridiculamente fascinante Béatrice Dalle. (Quão incrível é Béatrice Dalle? A última vez que ouvi falar dela nas notícias, ela admitiu que, quando era adolescente, tomou LSD em um necrotério e comeu a orelha de um homem morto. Você não vê esse tipo de coisa em uma entrevista com Jennifer Aniston)
No entanto, acho importante diferenciar um filme que é ótimo de um filme que você amava quando era adolescente. (A recusa em fazer isso é meu principal problema com Hadley Freeman) Eu estava na universidade no final da época, quando um pôster do Betty Blue na sua parede era um atalho para a sofisticação mundana. Hoje em dia, ajudado pelo fato de Jean-Jacques Beineix não ter feito nada de relevante desde então, é lembrado como um triunfo do estilo sobre o conteúdo, no melhor dos casos, e uma erotização misógina da doença mental no pior.
Ambas as afirmações têm alguma verdade. Tenho que admitir que acho as cores queimadas pelo sol e vívidas de Beineix incrivelmente atraentes, agradáveis o suficiente para me ajudar a passar por vários momentos secos nesta versão do diretor longa demais. O problema do estilo é que ele é usado sem julgamento. Beineix parece fascinado pela decoração interna e pertences de Zorg e Betty; ele também parece gostar das cenas intermitentes em que Betty tem um acesso de raiva e as joga pela janela, como mulheres mentalmente instáveis costumam fazer em histórias como esta. Isso me lembra do meu principal problema com Zack Snyder, que ele filma cenas 'legais' e 'traumáticas' de violência da mesma forma fetichista. Em vez de reforçar a emoção da história, o estilo a suaviza, tornando a beleza de um objeto e sua destruição igualmente sedutoras.
Quanto à atitude em relação à saúde mental da Betty – é verdade que o Zorg é extremamente desdenhoso em relação a isso, chegando a desculpar os danos materiais dela dizendo que ela está menstruada. Mas a atitude de Zorg não precisa ser a do filme, e até que a última meia hora estrague como um espalhador de lodos fora de controle, achei a atitude de Beineix bastante ambivalente. No papel, talvez Betty realmente parecesse uma figura de fantasia unidimensional para homens que gostam da fantasia sexual de uma mulher "problemática", mas não querem lidar com seus problemas. A atuação de Dalle transcende isso, porém. Ela é incrivelmente crua e vulnerável mesmo quando está no seu momento mais agressivo; Por outro lado, ela usa sua nudez como arma (literalmente, quando mostra para o chefe com raiva). Não há nada de confortável ou de carinhoso na versão dela de Betty.
Senti-me bastante indulgente com o filme de Beineix, em parte por nostalgia, em parte porque gostei do estilo mesmo em seu ponto mais vazio. Além disso, uma coisa pela qual não recebe crédito suficiente é pegar personagens da classe trabalhadora que lutam para sobreviver e permitir que eles sejam genuinamente sexy. A maioria das representações culturais da sexualidade entre os pobres tende à farsa ou ao grotesco, mas juntos e separados Betty e Zorg são mais atraentes do que qualquer fantasia plutocrata de EL James. Beineix consegue isso sem fetichizar a pobreza deles; não há o 'pornô da ruína' ou sentimentalismo de um filme como Beasts of the Southern Wild, e o filme leva a sério a luta deles por um salário regular. Betty Blue não é, no fim das contas, um filme de peso, mas há algo pesado nele.
25.6.26
14. Desejo e obsessão, Trouble Every Day, 2001, Claire Denis
Crítica | Desejo e Obsessão (2001) por Fernando JG 15 de junho de 2022
Os desejos proibidos de Claire Denis
“Look into my eyes, you see trouble every day, it’s on the inside of me”. [Quando você olha através dos meus olhos, você vê problemas todos os dias] É sugestivo que a cena de abertura, que enfoca um casal nas sombras, seja invadida por uma trilha sonora que, pelo que narra, se apresenta como uma parte fundamental desta composição cênica. Atuando quase como um comentário a respeito da ideia dramática, a orquestral Tindersticks vai criando uma atmosfera obscura e melancólica em que o sinistro toma corpo através dos lentos movimentos dos violinos que acusam a agonia a que estaremos expostos. Nas sombras, somos colocados de frente com o desconhecido e o que vemos diante da tela são cenas de um apetite prestes a se tornar patologia. Fato é que a abertura encapsula a síntese da proposta fílmica em todos os seus elementos primordiais.
Difícil falar em Novo Extremismo Francês e horror corporal sem retomar ao nome da cineasta mais essencial deste movimento que renasce no final dos anos de 1990 e início dos anos 2000. Sem querer reduzi-la a uma categoria fixa, visto que ela mesma se distancia desses rótulos, a cultuada e prototípica Claire Denis, https://www.planocritico.com/tag/claire-denis/ recorrentemente lembrada por ter feito o maior filme da década com seu Bom Trabalho, recria o subgênero a partir de uma assinatura manchada por intimismo, psicologismo, sedução, mania e agressividade, numa linha de enredo destrutivo já experimentado por Possessão (Andrzej Zulawski, 1981) e Crash – Estranhos Prazeres (David Cronenberg, 1996).
A sua radicalidade fílmica consiste não na manifestação gratuita de violência, mas numa dupla movimentação em que ao expor uma espécie de frenesi originário desvela brutalmente as camadas mais escondidas e recalcadas que existem no gênero humano. É como se Denis mostrasse aquilo que naturalmente é escondido por todos nós, explorando, de modo cru (raw), uma gama de sujeitos afetados – de uma maneira doentia – pelos impulsos mais primitivos e irracionais do desejo, concluindo que o polo-complementar do desejo só pode ser a morte. Denis materializa em imagens a teoria freudiana a respeito do princípio do prazer – e é chocante. Neste filme, nada separa o gênero humano das demais espécies de animais.
Dane-se a Morte, segundo filme de Denis, é muito mais incômodo se comparado a Desejo e Obsessão, a sua mais influente obra inserida no contexto do movimento. O problema de Dane-se a Morte é a sua baixa adesão à universalidade, coisa que é suprida posteriormente. Trouble Every Day, este conto de prazeres obsessivos e pecaminosamente carnais, nos insere num enredo a respeito de um estudo que está sendo elaborado de maneira ilegal sobre a libido, ganhando volume e textura quando nos relata que estes experimentos sobre o cérebro humano deram errado, trazendo à luz doenças mentais ligadas ao sexo e consequentemente ao canibalismo, expondo Shane Brown (Vincent Gallo) e Coré (Béatrice Dalle) como resultados empíricos dessas pesquisas.
Investigando ao máximo situações de desejo, Claire Denis chega a lugares inimagináveis em seu estudo a respeito da luxúria, de modo que, ao alegorizar situações de barbárie, a cineasta radicaliza o sexo e coloca este Outro devorado como objeto de satisfação máxima de uma vontade insaciável, doentia e patológica. Se a crítica a princípio não era capaz de conferir à película de Denis o status de um grande filme e se aborrecia com seu excesso de sangue, observamos que este clássico universal do cinema de horror cult ganha constantemente reavaliações, afinal de contas, temos aqui um emblema de uma estética da qual inúmeros cineastas se espelham. Deleitamos uma fotografia com imagens geladas – numa mescla casual entre o tom acinzentado e um azul tipicamente zulawskiano – e uma trilha sonora marcante, composta pela banda Tindersticks, que contribuíram em seis filmes da diretora, introduzindo classe, elegância e imersão no enredo proibido da película; me levando a ter a impressão de que todas as vezes em que toca a soundtrack o filme inevitavelmente sobe um patamar. A combinação é perfeita e o que era bom, fica melhor.
O longa é feito para ser imperfeito e aposta numa instabilidade limítrofe em suas alíneas narrativas bem como na movimentação de câmera em determinadas situações. Até por isso, esteticamente, se vale de características da feiura, do grotesco e de elementos repulsivos. A realizadora não precisa encher o seu trabalho, a todo tempo, de imagens desagradáveis, isto é, o filme acontece e ele não vai te explicar o porquê a cena inicial começa com um beijo em meio às sombras ou o porquê o personagem de Vincent Gallo não finaliza o sexo com a sua namorada em plena lua-de-mel, tendo que se aliviar no banheiro enquanto chora e ela grita com voz de piedade ao lado de fora. As subcamadas vão estar lá pedindo uma nova assistida e consequentemente uma reavaliação da obra. Neste sentido, talvez o sofrimento imerecido dos personagens que não conseguem controlar suas pulsões seja o maior horror que Denis possa provocar em sua película, muito embora utilize de densas e magníficas hipérboles na construção de suas cenas canibais. É um misto de terror e prazer.
Quando olhamos para a trama, somos levados a compreendê-la como narrativa erótica, contudo, esta característica se compreendida por si só é capaz de dotar o filme de algo que ele não é. A diretora trabalha aqui com níveis complexos de hiperssexualidade e antropofagia numa espécie de vampirismo trágico. Os episódios de mania, popularmente caracterizados como crise, são manchados não por hedonismo, prazer e imoralidade, mas por uma sorte de arrependimento, melancolia e sofrimento comoventes, nos fazendo experimentar um prazer culposo. Aí está a genialidade da construção dramática: não é arte pela arte, o roteiro move com uma fábula verossímil a partir de uma realidade possível, amplificada, como deve ser, pelo artifício cinematográfico. A colaboração de Ágnes Godard aqui é inesquecível: o seu close-up nas faces de desespero e luxúria que se colocam diante da câmera dá o tom perfeito daquilo que propõe a trama e aprofunda, ainda mais, a ideia do filme. Este primeiro-plano evidencia um constante martírio em que a satisfação do prazer acompanha imediatamente a dor e o remorso.
Obcecado por ambos os lados do corpo, material e metafísico, dentro e fora, pela dinâmica do desejo e pela sinestesia enquanto um fator capaz de conferir sensorialidade às suas imagens terríveis, Trouble Every Day tem uma cinematografia relevante e atuações que não precisam de muito para serem lembradas, afinal, quem esqueceria da intensa personagem de Béatrice Dalle após seus episódios inauditos de “desrazão“? E quem não perdoaria o anti-herói de Vincent Gallo com sua face de piedade tentando lutar contra sua própria natureza? Incompreendido, os trágicos problemas de todos os dias de Claire Denis é o filme de gênero que cineastas como Gaspar Noé e Julia Ducournau gostariam de ter no currículo e uma manifestação única de genialidade.
....
"Desejo e obsessão". Drama vê caminhos do amor canibal
Tiago Mata Machado, fsp, 12 de agosto de 2005
"O filme é, de certa forma, sobre o amor." Essa foi a resposta que a diretora Claire Denis encontrou para os jornalistas que repercutiam a controvérsia causada por "Desejo e Obsessão" no Festival de Cannes 2001. A julgar pela resposta, a cena de abertura pode ser vista como uma carta de intenções: o flagrante de um beijo noturno comentado pela fina orquestração da banda Tindersticks. "Quando você olha através dos meus olhos, você vê problemas todos os dias", canta a voz grave de Stuart Staples.
Mas, se esse é mesmo um filme de amor, seria preciso acrescentar que se trata de um daqueles ao estilo "ame-o ou deixe-o" - em Cannes, houve quem deixasse a sessão. Isso tudo porque, se resumido ao seu enredo, como gostam de fazer os críticos americanos, "Desejo e Obsessão" não foge à categoria "filme de horror".
Vejamos: o jovem casal Brown chega a Paris em lua-de-mel. Um pretexto para o senhor Brown (Vincent Gallo), atormentado por estranhas compulsões, procurar velhos conhecidos, Léo (Alex Descas), um cientista banido dos círculos oficiais por conta de uma controversa experiência com a libido humana, e sua mulher (Béatrice Dalle), cuja beleza é ainda mais predatória do que aparenta.
Dito isso, deve-se ressaltar que o enredo não importa muito. O público que não se engane: a diretora não é de fazer gênero. "Desejo" é um filme de atmosfera (um filme sobre a noite) que segue languidamente o fluxo do desejo de seus protagonistas, máquinas desejantes. É claro, as já famosas cenas de canibalismo estão lá, intensas mas perfeitamente estetizadas, prontas a levantar polêmica.
No início dos anos 90, quando rodava um curta com Gallo, Denis recebeu a proposta de um produtor americano para fazer um "filme de horror". Na época, ela se achava incapaz de fazer um filme de gênero. Nove anos depois, mudou de idéia. A melhor forma que encontrou de driblar, com seu talento, as ambições de seus financiadores foi levar o gênero a sério.
O resultado é uma obra que resvala nos códigos do filme de vampiro somente para se sedimentar sobre o mistério das relações humanas - o vampirismo entra aqui em sua forma original, sadiana, como sinônimo e metáfora de uma sexualidade desenfreada.
Denis continua enredada nas fronteiras e tessituras das relações humanas. A diretora, que começou como assistente de Wim Wenders e Jim Jarmusch, nunca deixou de reivindicar Jacques Rivette como referência. No documentário que dirigiu em homenagem ao cineasta para a série "Cinéma de Notre Temps", o veterano dizia: um filme deve ser, antes de tudo, um complô daqueles que o realizam. Lição que Denis e sua turma (comparsas de longa data como a fotógrafa Agnès Godard, o co-roteirista Jean-Pol Fargeau e o ator Alex Descas) parecem compreender cada vez melhor.
Trouble every day soundtrack - Tindersticks
26.6.26
15. Mishima: uma vida em quatro tempos, A Life in Four Chapters, 1985, Paul Schrader
Yuikio Mishima - wiki
Mishima: Uma vida em quatro tempos por João Lanari Bo, 08.11.2025
“Mishima: Uma Vida em Quatro Tempos”, dirigido por Paul Schrader em 1985, tornou-se um clássico. E como todo clássico que se preza, com um histórico polêmico e censório: a primeira exibição oficial no Japão foi há poucos dias, no Festival Internacional de Cinema de Tóquio, quarenta anos depois de concluído. Schrader foi quem que teve a ousadia de rodar um biopic sobre a vida do famoso escritor Yukio Mishima, uma das personalidades mais controversas – o termo é insuficiente, Mishima foi muito mais do que “controverso” – no Japão, país altamente cioso da sua singularidade cultural e hostil a estrangeiros que se atrevem a falar de assuntos, ainda mais “controversos”, japoneses.
Foi em 1970 que Mishima entrou no QG do Exército no centro de Tóquio, vestido como militar e acompanhado de companheiros milicianos, para cometer um “seppuku” público. Mishima iniciou o suicídio por esventramento, na presença do General tomado como refém, cortando o ventre da esquerda para a direita: com o ritual inconcluso, como ocorre na maioria das vezes, foi decapitado pelo auxiliar (e amante). Estava acompanhado de membros da milícia que fundou em 1968, a “Sociedade do Escudo”.
Antes, falou para uma plateia de soldados, no balcão do quartel. A TV filmou tudo, inclusive protestos e vaias da audiência. O discurso apelava para uma aliança com os militares em prol de uma “revolução purificadora”. O seppuku, ou hara-kiri, foi no gabinete, sem câmeras e na presença do comandante. Tinha 45 anos. Para muitos no Japão o melhor escritor de sua geração, Mishima deu uma guinada para a extrema direita a partir da onda de protestos contra o ANPO, acordo militar Japão-EUA, em 1960. Tornou-se um nacionalista peculiar, radical e arraigado.
De formação intelectual extremamente sofisticada, cultivava também o físico – Donald Richie, o melhor intérprete do cinema japonês e que era seu amigo, conta como Mishima apreciava ser reconhecido como bodybuilder. Escreveu peças de teatro, romances, ensaios. Casado, com filha e filho, alternava entre vida familiar e relações homossexuais. Paradoxalmente, sua casa era decorada no estilo ocidental, com mobília francesa século 16 e uma estátua clássica do deus Apolo. Um plano do jardim da casa abre “Mishima: Uma Vida em Quatro Tempos”, Mishima (Ken Ogata, excelente ator dos filmes de Imamura) toma café com porcelana francesa, preparando-se para o ritual.
Paul Schrader escreveu o roteiro com seu irmão Leonard, que vivia no Japão à época, casado com japonesa, Chieko. Passou quatro anos negociando direitos com a viúva do escritor. Mesmo depois de concluído, ela tentou reverter o acerto, sem sucesso. A opção dos roteiristas foi arriscada: narrar os momentos prévios do seppuku intercalados com sequências curtas em preto e branco de momentos biográficos de Mishima, além de cenas tiradas de trechos dos livros “O pavilhão dourado”, “Cavalos em Fuga” e “Casa De Kyoko”, este último sem tradução no Brasil. Com cenografia estilizada ao modo do teatro kabuki – cores fortes, representação realista e emocional – essas sequências, filmadas em estúdio em Tóquio, contribuem para compor um quadro de alusões psicológicas do próprio Mishima.
As cores no kabuki, nos figurinos e cenário, exprimem sentimentos fortes. Consultando a IA, por exemplo, tem-se: vermelho, representa heróis, paixão, força e justiça; azul, usado para vilões, medo e emoções negativas como ciúme; roxo, indica nobreza ou um personagem de alto escalão; e verde, personagens sobrenaturais ou o começo fresco e novo da juventude. Em “Mishima: Uma Vida em Quatro Tempos”, esse repertório configura uma matriz de imagens-afeto, que adiciona uma percepção instigante e sedutora.
O teatro trágico e espetacular de Mishima – é assim que Schrader define o ato no quartel – deixou muita gente no Japão estupefata. Se tinha algo de político no gesto, esvaiu-se com o tempo, apesar de uma extrema direita radical e nostálgica do imperialismo persistir naquelas paragens. O que resta é a complexidade psicológica do escritor-performer, algo difícil de entender e que nem os japoneses entendem, como diz o diretor.
Em 1960 Mishima escreveu conto sobre um tenente que comete seppuku junto com a esposa, na margem da revolta frustrada dos oficiais (excessivamente) leais ao Imperador, em fevereiro de 1936. O conto virou um média-metragem de 27 minutos, em 1965, intitulado “Rito de amor e morte”, com o próprio Mishima dirigindo e fazendo o protagonista. O título original traduz-se como “Patriotismo” – rodado em dois dias, não tem diálogos. A estetização da morte e a descrição gráfica do ato sugerem que seu filme foi um ensaio do próprio suicídio teatral, poucos anos mais tarde.
Em 1965, Mishima deu uma entrevista à BBC quando disse que o seppuku é um modo positivo e imponente de morrer: não tem nada a ver com o conceito ocidental de suicídio, ligado à derrota e ao fracasso.
E completou: ele pode fazer com que você vença.
27.6.26
16. Red Skies, Filme TV, 2002, Larry Carroll & Robert Lieberman
Sinopse
Durante uma troca de tiros em um navio chinês de tráfico de pessoas, uma equipe de operações especiais do FBI liderada pelo jovem David Cross (Shawn Christian) acredita que está prestes a capturar criminosos que usam a embarcação para o tráfico de drogas. Em vez disso, eles encontram a policial de Pequim Wu Wen Li (Vivian Wu). A agente Li também está à caça de Kwan, um chefe da Tríade, e une forças com o FBI. Kwan está foragido depois que Xangai se tornou perigosa demais para ele; agora, ele busca novas oportunidades criminosas nos EUA. O FBI persegue Kwan incansavelmente, enquanto Cross e Li se aproximam cada vez mais... filmstarts
28.6.26
17. The Killer, 2024, John Woo [primevídeo]
Crítica | The Killer (2024) por Fernando Campos 30 de setembro de 2024
John Woo revisita o próprio clássico
Não é incomum diretores revisitarem suas próprias obras na história do cinema, trazendo novas abordagens técnicas ou atualizando seus filmes para temas contemporâneos. Nomes como Alfred Hitchcock, que refilmou O Homem que Sabia Demais em 1956, e Michael Haneke, que refez Violência Gratuita em 2007 para a audiência britânica, são exemplos de como essas revisitações podem ser uma forma de explorar novas possibilidades estéticas ou temáticas dentro de narrativas já estabelecidas. John Woo segue essa tendência com sua releitura de O Matador, uma tentativa de resgatar a essência de seu icônico filme de 1989, ao mesmo tempo em que adapta sua visão ao cinema de ação contemporâneo e, mais especificamente, para o mercado ocidental.
A nova versão narra a história de Zee (Nathalie Emmanuel), uma assassina profissional que passa a ser caçada por colegas criminosos por se negar a matar uma jovem cantora. Enquanto isso, ela ainda precisa lidar com a presença do policial Sey (Omar Sy), que está investigando os crimes da mulher.
Como já é de se esperar de John Woo, o filme tem um trabalho visual muito atraente, especialmente na ação. A direção é dinâmica, apostando no uso do dolly, com movimentos laterais ou para frente para gerar sensação de energia, isso combinado com slow-motion que aumenta a estilização e planos gerais que permitem a audiência apreciar a complexidade das coreografias. Enquanto alguns realizadores apostam no frenético para iludir quem assiste, Woo opta pelo equilíbrio na tela para destacar o trabalho dos coreógrafos e a beleza dos movimentos. Ainda há um equilíbrio interessante entre o uso de efeitos práticos e digitais, o que dá à obra um visual moderno, sem perder a essência visceral do gênero. Chama a atenção como os confrontos entre os personagens resultam em uma nuvem de pó, sangue e destroços, trazendo impacto para os gestos e uma textura muito atraente, fugindo de qualquer artificialidade.
Diante dos elogios, pode parecer que a obra se assemelha ao clássico de 1989, mas está longe disso. Isso porque aqui Woo perde um tempo excessivo com a história e mesmo o visual não chega perto do original. A estética do cinema de Hong Kong, que permeava o original, se perde em meio a uma produção mais polida e ocidental. O simbolismo das pombas e os confrontos coreografados com precisão quase poética parecem mais uma homenagem do que uma parte orgânica da trama, por exemplo. O impacto emocional e moral da história também não tem o mesmo peso, sendo diluído por um enredo previsível e personagens que, embora bem desenvolvidos, carecem da profundidade trágica que marcou o original.
Woo também tirou o amor da equação no novo The Killer, o que acaba também diminuindo a substância da trama. Se no original a admiração entre bandido e policial questionava os limites éticos de ambos, aqui o filme cai em um maniqueísmo desinteressante. Além disso, no filme de 1989 o protagonista sofria por ter deixado a própria amada cega, o que aumentava a dramaticidade, já em 2024 Zee vê na mulher que tenta salvar apenas uma forma de redenção. Ou seja, todo o melodrama irresistível de Woo é substituído por uma história com pegada religiosa que torna tudo mais preto no branco. Funciona dentro da proposta, mas perde em profundidade.
Embora The Killer seja uma adição sólida ao gênero de ação contemporâneo, com uma direção estilizada como todo fã de John Woo aprecia, ele carece da profundidade e originalidade que tornaram o filme de 1989 um marco. Para os padrões atuais, sem dúvida bem executado e muito mais inventivo, mas sem o impacto duradouro do original. Ainda assim, seria um legado imenso se essa releitura despertasse no público o interesse de conhecer o clássico de John Woo. Obra essa que, com sua estética única, caótica e narrativa trágica, continua a influenciar o cinema de ação até hoje.
29.6.26
18. O matador, Dip huet seung hung, 1989, John Woo
No iutubi aqui
Crítica | O Matador (1989) por Gabriel Carvalho 28 de março de 2019 [Obra-prima]
“Você não pode vencer todas as vezes. Mas você não pode perder para sempre também.”
O grande protagonista de O matador é um assassino contratado, supostamente sem escrúpulos, sem misericórdia e também sem moral. Já o antagonista, colocando-se no caminho do mercenário Ah Jong (Chow Yun-Fat), é um policial comprometido, aparentemente mocinho, dentro da ordem, vivendo um moralismo correto e inofensivo. Os opostos, contudo, se atraem. E esses personagens são muito parecidos, transformando em equivocados os estereótipos presumidos a esses dois homens, prestes a entrarem numa jornada escandalosa sobre moral, honra e amizade. Um dos clássicos projetos de John Woo, esse marco importante ao cinema norte-americano surge sobre pretextos comuns às narrativas do gênero de ação, porém, torna-se um dos grandes exemplares do espetáculo cinematográfico. Qualquer cineasta de ação precisa espiar o cinema de Hong Kong.
Tão importante ao cinema norte-americano que essa seria uma enorme influência a nomes de peso na indústria, como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Mesmo assim, pouquíssimas obras consequentes conseguiram equiparar-se a John Woo em esmero, espirituosidade e compaixão à arte. Muitos artistas, porém, aumentaram na complexidade, pois o enredo que o cineasta usa é simples, com temáticas já vistas no cinema de ação e de forma mais encorpada até. O Samurai, de Jean-Pierre Melville, é um dos grandes alicerces de Woo, com a pianista sendo substituída pela cantora no primeiro ato. O que não torna O Matador genérico – muito pelo contrário, extraordinário – é a condução que o diretor dá ao seu projeto, contendo uma aura particular vigorosa e que casa-se perfeitamente com o drama estabelecido aos personagens. Os gritos, os choros, os tiros e tudo.
O longa-metragem quer, antes de qualquer coisa, constantemente repensar essas suas figuras centrais, sempre com um alma que calca-se na exclamação. O detetive Li Ying (Danny Lee), por exemplo, é envolvido em casos nos quais o seu instinto mostra ser mais necessário que um manual, colocando-o em contradição. Por isso o seu fascínio por Ah Jong – chamado de Jeffrey Chow em legendas internacionais -, um criminoso com honra. John Woo, em vista desse encontro de opostos, torna urgente a tensão que existe entre tais polos. Cenas como a do hospital – onde uma criança salva pelo protagonista é encaminhada – são exemplos inconfundíveis do que rola entre esses personagens. Uma garotinha sendo cuidada no meio do enquadramento e dois homens nos extremos, com armas apontadas um ao outro. É uma dinâmica entre a vida e a morte.
Essa rixa origina um melodrama que se assume um melodrama intenso de ação, abnegando da melancolia mascarada, como se em algum momento quisesse ser um drama mais sisudo, para assumir um caos interno a esses personagens que se consolida com os excessos. John Woo concilia o caráter dramático de sua obra – pautada, inicialmente, em um caso no qual uma mulher é acidentalmente ferida pelo protagonista -, com o teor “caótico” – embora nunca descontrolado ou incômodo, e sim estimulante – que imprime no conjunto em si. O mercenário Ah Jong entrará em missões visando os cuidados de sua nova amada, sua culpa do passado, a cantora Jennie (Sally Yeah), gravemente machucada em um acidente. Sua última tarefa será conseguir o dinheiro para uma cirurgia que, possivelmente, irá retomar a visão da mulher. O amor é cego e a justiça também.
Enquanto tudo pode soar um tanto piegas – a trilha sonora melódica e aquecedora é retomada sempre em momentos-chave -, a verdade é que existe uma sinceridade imensamente engajante nas abordagens espalhafatosas do diretor aos dramas específicos – amizades desconstruídas e amizades construídas – e aos casos que seus personagens vivem. É um cinema urgente, em que cada linha de diálogo é um epitáfio poderoso. “Honra agora é uma palavra suja”, comenta Ah Jong. Impressionante como O Matador constrói tanta coisa, com tanta agilidade e determinação, em pouquíssimo tempo, apesar de sempre estar renovando suas intenções. E as cenas de ação são algumas das melhores que o cinema de Hong Kong já proporcionou. Uma montagem que acompanha uma noção coreografada por si só, porque a linguagem é a dança e o cinema é o balé.
Essa é uma obra que se movimenta sempre com agilidade, sempre com intensidade. Mas o longa não se cansa e apenas cresce com o tempo, com a profundidade psicológica que carrega aos seus personagens – não complexidade, profundidade. Os impasses do herói e os impasses do vilão. Sempre há impasses. Sempre há uma questão no meio do caminho entre um e outro. O terceiro ato se encaminha para um fogo cruzado com dimensões épicas e conclui-se no desespero, no ultimato. Quando Ah Jong toca sua harmônica, na conclusão, uma experiência montada cuidadosamente se encerra. John Woo cria a sua obra-prima dos pares. O auge dessa conversa, aqui, mora em cenas como a do apartamento, em que o policial assimila os passos do matador e os planos intercalam-se até conseguir uni-los, mesmo que em tempos diferentes. É ação e poesia.
29.6.26
19. A menina do fim da rua, The Little Girl Who Lives Down the Lane, 1976, Nicolas Gessner [primevideo]
Jodie Foster imdb
A Menina do Outro Lado da Rua (The Little Girl Who Lives Down the Lane, 1976). Por André Pinto | 15.07.2021
1976 foi o ano de Jodie Foster. Mas se engana quem acha que o papel mais controverso que ela desempenhou esse ano foi de uma prostituta em Taxi driver, com apenas 13 anos.
Rynn Jacobs é uma garota que vive num casarão de uma cidadezinha em Quebec. Ela é filha de um conhecido poeta, e desde cedo aprendeu com o pai que se um dia ela tiver que viver sozinha, terá que enfrentar seus maiores medos e não confiar em ninguém. Nem na sua própria mãe. É no momento em que a garota recebe visitas indesejáveis que percebemos a situação limite estabelecida na trama: Rynn é uma menor que está vivendo sozinha. Seus pais estão desaparecidos, e para piorar a situação, sua integridade física corre risco com o frequente assédio de um adulto com quintas intenções, Frank Hallet (Martin Sheen).
O tema é explosivo. A personagem que Jodie Foster interpreta com perfeição é a força motriz da história, e o que faz o espectador seguir suas ações questionáveis é a própria situação cada vez mais insustentável de Rynn para se manter sã diante de tantas ameaças do mundo adulto. Em um momento ela mesmo pergunta: “A partir de que idade todos irão tratar você como gente?”
O grande problema de Foster é que ela foi obrigada a questionar isso no mundo real, fora de seu personagem. 1976 foi decisivo para a carreira da menina prodígio da Nova Hollywood. Jodie corria atrás de papéis difíceis. No mesmo ano seu nome figurava em cinco filmes diferentes, tão díspares quanto os estúdios que os bancavam. O nome de Jodie estava numa comédia familiar da Disney, num drama policial pesado de Scorsese para a Columbia, num musical fora da curva para a Paramount, um dramão para a United Artists e esse thriller. O ponto é que The little girl… é o primeiro filme em que Jodie é a estrela principal, e isso ao mesmo tempo foi uma oportunidade única e um calvário para o que viria a seguir.
Primeiro porque a atriz era uma menina de 13 anos que estava diante da logística de produção de um tema controverso. A personagem de The little girl… é uma assassina solitária que se envolve afetivamente com adultos. O que parecia ser um desafio dramático na tela virou uma dor de cabeça nos bastidores.
Segundo porque os produtores trataram o material como um filme exploitation usando uma figura de menor. O destaque em releases e cartazes ressaltava a personagem como uma “ninfeta assassina”. Nos promos era comum exibir desenhos da garota com brinquedos infantis pelo chão, e um semblante ameaçador. Rynn como uma Jason que matava quem atravessasse seu caminho.
No set de filmagem, Jodie brigava para não se expor fisicamente. Um produtor insistia para que ela fizesse mais cenas de nu. Jodie batia o pé e não cedia. Na cena em que a personagem de 13 se deita com um marmanjo de 19, Jodie conseguiu ajuda da própria irmã mais velha, Connie, para fazer a polêmica cena em que fica completamente nua, de costas. A atriz enfrentou a pressão por um material sensacionalista dos produtores com dignidade, e desde então declara que o filme, apesar de ter agradado a crítica, esconde a conturbada e real situação em que ela viveu nos bastidores.
O filme passou a fazer parte de um subgênero do suspense/ horror que produziria outras obras de sucesso nos anos 1970: o de crianças serial killers.
Importante destacar nesse filme a forma como são mostrados os créditos finais. Uma conclusão inesquecível para uma obra às vezes problemática.
30.6.26
20. O frio da morte, Dead of Winter, 2025, Brian Kirk [Prime Video]
O FRIO DA MORTE "2025" - "Dead of Winter" de "Brian Kirk", 18.2.26
Emma Thompson mergulha de cabeça no universo da ação com O Frio da Morte, um thriller gelado que, apesar da intensa carga dramática, cumpre seu papel como uma vitrine tensa para sua estrela. O hype do filme é Thompson, uma atriz com um histórico de atuações dramáticas se entregando em uma atuação estelar como uma heroína improvável em luto, o que acaba evidenciando, por contraste, a fragilidade de seus antagonistas ou seu talento pela ação.
Minnesota surge como uma paisagem implacavelmente sombria no inverno. Para Barb (Thompson), no entanto, o local é repleto de memórias preciosas: seus lagos congelados foram o cenário do primeiro encontro com o falecido marido, no início dos anos 80. Recém-viúva, Barb decide espalhar as cinzas do parceiro no Lago Hilda. Mas, com a piora das condições climáticas, ela busca abrigo em uma cabana local e percebe que algo está errado. A curiosidade a domina e logo ela se vê envolvida em uma trama de tráfico de órgãos digna de um filme dos irmãos Coen.
O Frio da Morte é, na verdade, a união de dois filmes distintos competindo entre si. A urgência da fuga se entrelaça à forma como Barb processa sua perda, resultando em algo profundamente comovente. Thompson eleva o material com uma atuação sincera e tocante. Com uma narrativa concisa, o longa é a escolha certeira para uma sessão de cinema em um dia chuvoso, sem margem para arrependimentos.
Emma Thompson tem esse "superpoder": ela consegue transformar uma premissa que poderia ser um suspense genérico de Supercine em algo com peso emocional real. Vale muito ver.
1.7.26
21. A Stray Crow Samurai, 2025, Tomohiko Yamashita
No iutubi aqui
Cinema: O Samurai Corvo Errante
Ambientado no Japão do século XVII, "O Samurai Corvo Errante" conta a emocionante história de Saijirō Yamakawa, um jovem sobrevivente de um massacre horrível que destruiu quase todo um clã — incluindo sua própria família. Após passar quatorze anos treinando como espadachim em Edo, Saijirō retorna à sua cidade natal, Taketa, determinado a se vingar de seu enigmático tio, o atual líder do clã, conhecido como o misterioso e excêntrico “Corvo Errante”.
Mas a missão de Saijirō se complica quando ele conhece Eri, filha de seu tio e a famosa beleza de Taketa, que inesperadamente conquista seu coração. Dividido entre amor e vingança, Saijirō precisa navegar por segredos perigosos e lealdades instáveis em um jogo mortal de honra, traição e destino.
Uma história sombria e emocionante de vingança e redenção, "O Samurai Corvo Errante" convida você a mergulhar nas sombras do Japão feudal, onde cada golpe de espada pode mudar o destino.
1.7.26
22. The Blood of Others, TV Movie, 1984, Claude Chabrol
No iutubi aqui
O Sangue dos Outros (filme) explicado
Baseado em: O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir Roteiro: Brian Moore Diretor: Claude Chabrol Cinematografia: Richard Ciupka
O Sangue dos Outros (fr|"''' Le sang des autres'''") é um filme dramático de 1984 dirigido por Claude Chabrol. É baseado no romance de 1945 O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir. O filme foi originalmente feito como um telefilme em inglês de três horas, que estreou em 25 de agosto de 1984 na HBO. O filme foi então editado em 40 minutos e dublado para francês para lançamento nos cinemas europeus. [1]
Enredo
Na França ocupada pelos nazistas, Jean Blomart está sentado ao lado de uma cama onde sua amante Hélène está morrendo. Por meio de uma série de flashbacks, aprendemos sobre ambos os personagens e sua relação entre si. Como jovem tomado pela culpa por sua vida privilegiada de classe média, Jean se junta ao Partido Comunista e se afasta da família, determinado a seguir seu próprio caminho na vida. Após a morte de um amigo em um protesto político, pelo qual se sente culpado, Jean deixa o Partido e se concentra nas atividades sindicais. Hélène é uma jovem estilista que trabalha na loja de confeitaria da família e está insatisfeita com seu romance convencional com seu noivo Paul. Ela tenta encontrar Jean e, embora ele a rejeite inicialmente, eles formam um relacionamento após ela fazer um aborto, após um caso imprudente com outro homem. Jean diz a Hélène que a ama, mesmo acreditando que não a ama. Ele a pede em casamento e ela aceita.
Quando a França entra na Segunda Guerra Mundial, Jean, admitindo a necessidade de conflito violento para promover mudanças, torna-se soldado. Hélène intervém contra sua vontade para providenciar um posto seguro para ele. Irritada com ela, Jean termina o relacionamento. À medida que as forças alemãs avançam em direção a Paris, Hélène foge e testemunha o sofrimento de outros refugiados. De volta a Paris, ela se envolve brevemente com um alemão que poderia impulsionar sua carreira, mas logo percebe o que seus compatriotas estão sofrendo. Ela também presencia a prisão dos judeus. Garantir a segurança de sua amiga judia Yvonne leva Hélène de volta a Jean, que se tornou líder de um grupo de Resistência. Ela se sente motivada a se juntar ao grupo. Jean se reconectou com seu pai com o objetivo comum de libertar a França da Alemanha. Sua mãe, no entanto, fica menos impressionada com as vidas perdidas para a Resistência.
Hélène é baleada durante uma atividade da resistência e, durante a vigília noturna de Jean ao seu lado, ele examina seu amor por Hélène e as consequências mais amplas de suas ações. Ao amanhecer, Hélène morre e Jean decide continuar com atos de resistência.
[1] Site: Claude Chabrol's - The Blood of Others - Le Sang des autres. Dvdbeaver.com . 2011-11-01.
Elenco
Jodie Foster como Hélène Bertrand, Michael Ontkean como Jean Blomart, Sam Neill como Dieter Bergman, Lambert Wilson como Paul, Stéphane Audran como Gigi, Alexandra Stewart como Madeleine, Jean-François Balmer como Arnaud, John Vernon como Charles, Michel Robin como Raoul, Jean-Pierre Aumont como M. Blomart, Jean-Yves Berteloot como Coutant Repentigny, Steven Vidler como Autre Manifestant
02.07.26
23. Zoe e Tempestade, Tempête, 2022, Christian Duguay [primevideo]
A vida muda num piscar de olhos
Dirigido por Christian Duguay, que já havia filmado outro filme de cavalos em 2013, "Jappeloup, de pai para filho", esta história abrange vinte anos, durante os quais acompanhamos essa família unida diante da adversidade na Normandia. Uma região onde os pais de Zoe, originários da Camarga, se estabeleceram para criar cavalos de trote para corridas.
Nascida na haras dos pais, Zoé cresceu cercada de cavalos e tem apenas um sonho: se tornar jóquei. Trempestad é uma égua que ela vê nascer e que se tornará seu alter ego. Mas numa tarde tempestuosa, Tempest, em pânico, pisa em Zoe e quebra seu sono. No entanto, ele não perde a esperança de alcançar o que parece impossível.
Melanie Laurent e Pio Marmai lideram o elenco, onde também podemos encontrar a magnífica Carole Bouquet e o grande Danny Huston, sem esquecer a filha do diretor e ator Matthew Kassovitz Carmen, que interpreta Zoe em uma fase da vida em que a vemos montando um cavalo muito bem.
O roteiro de Duguay, Christophe Donner e Lilou Fogli é inspirado no romance "Tempête au stud" de Christophe Donner, que conseguem fazer um filme muito familiar, que, apesar de ser um drama, não cai na sentimentalidade com cenas bastante empolgantes. Um cinema que pertence ao ramo da melhoria e inspiração de seus protagonistas que você sempre gosta de ver porque eles conseguem levantar seu ânimo.
Estreia nos cinemas em 4 de janeiro de 2023
Christian Duguay (TEMPÊTE) - Moteur demandé FFA 2022 - vídeo
3.7.26
24. Hitler: A trajetória do demônio, Hitler: The Rise of Evil, série TV, Christian Duguay [ PlutoTV]
Sinopse
“Hitler - A Ascensão do Mal” é um filme feito para TV (produzido pela CBS) e sem dúvida foi uma das obras que mais detalhou a vida do ditador alemão no período anterior a Segunda Grande Guerra, desde a infância até a tomada do poder pelo partido Nazista, em 1933. filmow
Assistir ao filme aqui
4.7.26
25. Um homem bom, Good, 2008, Vicente Amorim
No iutubi aqui
Um Homem Bom (Good), de Vicente Amorim por Paulo Santos Lima
Tentando ser um diretor bom
O cinema, em sua natureza, requer grandes mobilizações criativas e de gentes técnicas para chegar a um diálogo sobre aquilo idealizado previamente. Existe, no caso desse Um Homem Bom, uma modéstia ao longo do filme, um certo comedimento em se extrapolar as regras, em controlar demais a luz, a atuação, o movimento da câmera ou o corte da edição, que leva a crer que Vicente Amorim teve como maior preocupação fazer bonito na sua primeira direção no (e para o) estrangeiro. Todos os problemas que surgem no filme vêm justamente desse cuidado, dessa reverência ao “certo”, dessa tentativa de Amorim ser um diretor bom. Claro que seria injusto não perceber que a ausência de controle é inevitável, uma vez que Amorim está trabalhando num projeto que não é dele, e que envolve vários profissionais, inúmeros produtores e tal. Mas é bom não nos esquecermos que uma posição de câmera ou atuação de elenco dizem diretamente respeito ao diretor – e, claro, quem assina a direção é Vicente Amorim, o que o obriga a responder pelo filme.
Um Homem Bom é a história de conscientização de um homem ingênuo, cuja benevolência o leva, sem querer, a cometer atos discutíveis (descartar imperiosamente a esposa pela orientanda mais nova e bonitinha), graves (abandonar, por força dos acontecimentos, a mãe senil numa casa vazia) e medonhos (trabalhar para os nazistas). Assim, o escritor e professor John Halder, grande idealista e humanista, escreve um livro que defende a eutanásia para um personagem em sofrimento extremo à porta da morte, obra que o faz cair nas graças da cúpula de Hitler, que vê em sua articulação uma habilidade útil para narrativizar os intentos do governo nacional-socialista. De bom homem, Halder torna-se um bom nazista. Viggo Mortensen, ainda que mal dirigido, traz na sua imagem um interessante registro no olhar parvo com que compõe este personagem, que teima em não enxergar as evidências, deixando o amigo judeu ao léu da SS para, apenas no final, tomar consciência dos acontecimentos que ocorriam a metros do seu nariz. Só que seu olhar por si só não dá relevância maior ao filme ou ao personagem, como percebemos na maneira reiterativa e redundante como se mostra que Halder é um sonhador alienado. Vemos isso, por exemplo, nos momentos em que personagens em situações-limite tornam-se fantasiosamente músicos de uma banda qualquer.
Se esta solução é desastrosa, fora do registro sóbrio adotado pelo filme, por outro lado, curiosamente, permite que o filme conclua-se muito bem, num último plano interessantíssimo: um plano-sequência de Halder visitando um campo de concentração à procura do amigo. Além de ficar claro de antemão o insucesso da busca, o que vemos nessa cena, com a câmera agindo muitíssimo bem como jamais o fizera ao longo do filme, é um espaço sem a espetacularização recorrente no cinema sobre este tema. Troca-se o modelo de Spielberg e vai-se para algo que parece ter vindo do próprio “naïf” (com aspas, salientando) realizado por Amorim: prisioneiros ali e lá, uma desorganização típica desses lugares medonhos, o descampado, a negação a uma imagem totalizada do campo. A câmera segue Halder até o momento e que ele encontra uma banda de detentos alquebrados que toca a mesma música com a qual ele sonhava e diz, pra si mesmo, “é real”. É uma conclusão de uma grande obviedade, mas que, pela imponência que o movimento de câmera cria, todo cheio de boa moral, não cortando o plano e encontrando em seu passeio vários elementos vivos, cria um final estilisticamente interessante (e que deixa claro que o roteiro é um problema e tanto neste filme).
Vendo o filme de cabo a rabo, fica impossível deixar de ligar a trajetória do diretor e do personagem. Vicente Amorim, ao reverenciar aqueles que o acolheram à direção (e certamente tendo em mente a aventura autoral de Babenco, o afinco de Meirelles e os arremedos de Bruno Barreto e Walter Salles), toma os devidos cuidados e aplica-se em repetir uma tradição de imagens nobres, acabando por servir ao sistema, assinando um trabalho na linha dos filmes de Richard Attenborough e Lasse Hällstrom. Vende a sua alma ao se inclinar a um roteiro fora de esquadro e construir uma narrativa atrapalhada pelo peso da farda. A continência batida diz muito sobre um artista (Lang acatava muita coisa vinda dos produtores, porém subvertia em várias outras), mas seria injusto não reconhecer que o brasileiro repetiu a consciência de Halder sobre os horrores ao seu redor ao assinar esta direção (ou seja, sendo em princípio responsável pelo que está na tela). O que Amorim não pode esquecer é que, para o cinema, não basta ser um bom diretor. O ímpeto pela imagem vem de dentro, de uma moral outra, de anjo e demônio artista. Halder, por exemplo, era um dos caras mais bacanas, e pasma a todos ver o estrago que ele consentiu.
Outubro de 2008, editoria@revistacinetica.com.br




























