quinta-feira, 3 de abril de 2025

Breque nacional


Entregadores convocam breque nacional e têm iFood como alvo principal: ‘Sem reajuste, sem entrega’
A paralisação será nos dias 31 de março e 1º de abril; segundo organizadores, movimento acontece em 18 estados
Gabriela Moncau, Brasil de Fato 24 mar 2025

Um breque nacional está sendo convocado por entregadores de todas as regiões do país para os dias 31 de março e 1º de abril. A greve pretende atingir os principais aplicativos de delivery, como Uber Flash e 99 Entrega, mas tem como alvo central o iFood, hegemônico no mercado.

A mobilização é organizada em grupos de Whatsapp e divulgada por uma campanha nas redes sociais, em páginas como @brequenacionaldosapps. De acordo com os organizadores, ações estão confirmadas em 40 cidades de 18 estados. Entre elas estão Maceió (AL), Manaus (AM), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), João Pessoa (PB), Natal (RN), Recife (PE), Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Cuiabá (MT), São Luís (MA), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).

 
Trabalhadores reivindicam que a taxa mínima por entrega seja de R$ 10 - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
 

Trabalhadores de apps como iFood aumentaram quase 50% no Brasil 

A paralisação tem quatro demandas centrais: a taxa mínima de R$ 10 por corrida; o aumento da remuneração de R$ 1,50 para R$ 2,50 a cada quilômetro rodado; o limite de um raio de 3 quilômetros para entregas feitas em bicicleta; e o pagamento integral por corrida mesmo quando pedidos são agrupados na mesma rota.

ENTREGADORES SE ORGANIZAM E FAZEM GREVE CONTRA APLICATIVOS- vídeo

Em vídeo de convocação que circula pelas redes sociais, imagens de trabalhadores e fotos de mobilizações são acompanhadas de uma narração com voz feminina e a identidade visual do breque, que inverte o logo do iFood para fazer uma cara triste.  “Três anos sem reajuste na taxa mínima. Enquanto isso, o combustível disparou, a manutenção da moto está um absurdo, peça de bicicleta está cada vez mais cara e até quem entrega de carro sente no bolso. Como mantém o veículo rodando? Como bota comida na mesa? A gente exige o mínimo de dignidade”, diz o vídeo, ao afirmar que a remuneração de R$ 10 por entrega não seria um “aumento”, mas a “reposição do que a inflação comeu”.
“Sem isso, não tem como seguir. Não dá para pedalar, rodar ou dirigir de graça enquanto empresas lucram bilhões”, segue o vídeo de divulgação. “E a pergunta que não quer calar: se fomos essenciais na pandemia, por que seguimos invisíveis? Se carregamos comida, remédios, mercado, se facilitamos a vida de milhões de pessoas, por que somos explorados dessa forma?”, questiona a narração: “Mas agora chega, o breque está marcado”. 

Jr. Freitas, um dos fundadores da Aliança Nacional dos Entregadores de Aplicativos (Anea), participa da organização do breque na capital paulista, onde um ato está sendo convocado no dia 31 de março às 10h em frente ao estádio do Pacaembu. A ideia é que, em motociata, os trabalhadores se desloquem até a sede do iFood, em Osasco (SP).  “O nosso objetivo é, primeiramente, mostrar a nossa indignação com a exploração feita pelos aplicativos. E por que o iFood? A gente entende que a empresa tem mais de 80% do monopólio do mercado”, explica Freitas. 

“Parar um ou dois dias, a gente não consegue dar um prejuízo enorme para a empresa, mas é importante alertar a sociedade que somos uma classe que já vem sofrendo há muito tempo”, defende o entregador.
Mortes decorrentes da precarização.

Apenas na capital paulista, segundo a prefeitura, as mortes de motociclistas aumentaram 20% entre 2023 e 2024. Só no ano passado foram 483 óbitos. Para Jr. Freitas, a estatística é “fruto da precarização”. A baixa remuneração, contra a qual o breque se organiza, acarreta, por exemplo, na necessidade de correr e de trabalhar sob exaustão, pontua.
“A gente tem que trabalhar 14 horas para atingir o objetivo que tem. E quanto mais precária fica a taxa, mais a gente tem que trabalhar, mais exposto e em vulnerabilidade a gente fica”, argumenta Freitas.
Na avaliação do entregador, essa será “uma das maiores paralisações” que a categoria já conseguiu organizar. “Desta vez a gente vai firme mostrar pra sociedade, para o poder público, que vem ignorando a nossa situação. Eles sabem do problema, mas não têm interesse em solucionar o problema”, diz Jr. Freitas.

A reportagem entrou em contato com iFood, que afirmou se manifestar apenas por meio da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Abomitec), entidade que reúne empresas de tecnologia. Esta, por sua vez, informou que  a renda média dos entregadores “cresceu 5% acima da inflação entre 2023 e 2024”.
“As empresas associadas da Amobitec apoiam a regulação do trabalho intermediado por plataformas digitais, visando a garantia de proteção social dos trabalhadores e segurança jurídica das atividades”, declarou a Associação.
No vídeo de convocatória, os organizadores da greve afirmam que a data não foi escolhida ao acaso: “Primeiro de abril, o dia da mentira, vai ser o dia de desmascarar as mentiras dos aplicativos. Se não tem reajuste, não tem entrega. Agora é luta”.

Editado por: Thalita Pires

terça-feira, 1 de abril de 2025

Filmes parte 50

Jane Eyre, 1943, Robert Stevenson

O Carteiro e o Poeta, Il postino, 1994, Michael Radford&Massimo Troisi

Le plaisir, 1952, Max Ophüls

Sem chão, No other land, 2024, Yuval Abraham&Basel Adra&Hamdan Ballal&Rachel Szor

Araya, 1959, Margot Benacerraf

O fugitivo de Santa Marta, The Lawless, 1950, Joseph Losey

A festa de Babette, Babettes gæstebud, 1987, Gabriel Axel

Festim Diabólico, Rope, 1948, Alfred Hitchcock

Adolescência, Adolescence, Minissérie TV, 2025, Stephen Graham & Jack Thorne

A Thousand Blows, Série de TV, 2024, Steven Knight

The White Lotus, S03, Série de TV, 2021–, Mike White

O segredo da porta fechada, Secret Beyond the Door, 1947, Fritz Lang

No turbilhão da metrópole, Street Scene, 1931, King Vidor

DNA do Crime, Série de TV 2023, Criação: Heitor Dhalia & Leonardo Levis


02/03/25

Jane Eyre, 1943, Robert Stevenson

No iutubi aqui 

Todas las adaptaciones de Jane Eyre a la pantalla grande, por Paola R. Morlote / marzo 22, 2022

Review by Catherine Stebbins ★ 6 (tradução livre)

Em um determinado momento, assistir à adaptação de Jane Eyre, de 1943, torna-se algo quase doloroso. Essa certamente deve ser uma das piores adaptações de um romance clássico no vasto mundo da interpretação cinematográfica. Passa de um evento para outro, pulando imperdoavelmente alguns (veja o incidente formativo da Sala Vermelha), estragando outros (nem chegamos a ver Bertha? Sério?) e falhando grosseiramente em transmitir ou entender o material de qualquer forma que serviria até mesmo para um filme medíocre. Joan Fontaine traz seu olhar permanentemente doloroso para Jane, onde a caracterização teme pisar. Orson Welles parece estar falando sozinho o tempo todo. Ele age para si mesmo, como se não soubesse que talvez, apenas talvez, ele queira considerar a possibilidade de fazer uma cena com as outras pessoas na sala. Assim, o romance central, o arco de Jane e a conexão entre a idade adulta emergente dela e as experiências da infância não são registrados. A reestruturação do propósito e do papel de Rivers faz pouco sentido sob praticamente todos os ângulos. Os cenários e a fotografia nos ajudam, evocando uma sensibilidade gótica efetivamente desconhecida. A última cena é um tour de force de hilaridade não intencional. Welles, sempre tropeçando em suas próprias ruínas, transforma-se momentaneamente em Ron Burgundy, apenas para depois dar o beijo mais agressivamente constrangedor da era do estúdio. Letterboxd 

O6/03/25

O Carteiro e o Poeta, Il postino, 1994, Michael Radford&Massimo Troisi

No iutubi aqui

“O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford, por Octavio Caruso -25 de maio de 2015

A emoção em “O Carteiro e o Poeta” (Il Postino– 1994), dirigido por Michael Radford, já nasce nos primeiros segundos, com a linda trilha sonora de Luis Bacalov, que consegue transmitir um profundo sentimento de nostalgia, como que a sociedade gritando por ajuda, a necessidade do retorno de valores já tidos como antiquados e dispensáveis.

O homem humilde, vivido por Massimo Troisi, emocionalmente inseguro, que, por hábito, aprendeu a se minimizar, observando ternamente a foto amarelada, enquanto o dia lentamente desperta.

Ele tenta estabelecer contato com o pai, um pescador embrutecido pela vida, porém, o velho não escuta suas desajeitadas palavras, preocupado mais com o mecânico saciar de sua fome. Ao conhecer o poeta Pablo Neruda, vivido por Philippe Noiret, em um cinejornal, o homem toca brevemente aquele mundo desconhecido, totalmente diferente de sua simples comunidade pesqueira.

A escuridão da sala de cinema potencializa a mágica desse primeiro encontro, posicionando o homem, em sua pequenez, diante do gigante visitante estrangeiro na tela.

Ele tenta conseguir um emprego como carteiro, porém, num toque sutil, a câmera se foca na exigência de uma bicicleta. A sua insegurança é tanta, que, sem pensar duas vezes, ele adentra o local com a bicicleta, como que tentando garantir sua contratação, antes de precisar abrir a boca.

Vale notar a postura dele ao avisar ao empregador sua fragilidade intelectual, afirmando que sabe, de forma lenta, ler e escrever, uma mentira que ele é incapaz de disfarçar, quando reage de forma defensiva ao escutar que irá trabalhar apenas para uma pessoa, já que todos na região são analfabetos.

Em sua visão, Neruda é o poeta amado pelas mulheres, aquele ser superior idealizado na sala escura. A remuneração é pouca, o trabalho é cansativo, devido ao número expressivo de cartas que ele carregará, ele descobre até que o poeta é um comunista, conotação política que não entende, mas nada disso importa para o carteiro, que, com um emprego, passa a existir novamente para seu pai. Ele é aconselhado a trocar o mínimo de palavras possível com o estrangeiro, sendo submisso e prestativo, evitando incomodar.

No primeiro encontro, ele se encanta com o carinho do poeta com sua esposa, gesto que corrobora sua imagem idealizada. Ele sorri como uma criança que flagra o beijo dos pais. A gorjeta era desnecessária, ele já tinha tido satisfeito o necessário, a confirmação de sua crença. Em sua mente, como todos que idealizam, ele cria até a ilusão de uma conversação, já que afirma ao empregador que o poeta fala de forma diferente, quando, na realidade, ele havia apenas agradecido pela entrega das cartas.

No segundo encontro, após efetivamente flagrar o beijo do casal, ele toma um pouco de coragem e tenta, de forma desajeitada, estreitar a relação, colocando-se à disposição dele para qualquer trabalho extra.

O carteiro precisa aprender aquele truque de mágica, aquela facilidade de encantar tantas mulheres. Com mais uma frase trocada, ele já expande sua ilusão, afirmando que o poeta também é um exímio contador de piadas. Sem cartas, ele vai até o poeta para conseguir uma dedicatória em um livro, uma prova de que ele é seu amigo, um tesouro que ele pretende utilizar com as mulheres, porém, para sua tristeza, seu nome não consta na breve dedicatória.

O carteiro se esforça, tentando compreender o poder sedutor por trás daquelas linhas, letras pequeninas, exercitando timidamente metáforas com o poeta, ainda que não saiba o que significa a palavra, como que mostrando a ele que poderiam ser amigos.

Ele não compreende a razão de algo tão simples possuir um nome tão complicado. E, numa cena bonita em simbolismo, pela primeira vez, o enquadramento mostra o poeta se colocando em posição de submissão, sentado, diante do simples carteiro, que, de pé, tenta impressioná-lo com o resultado de seu estudo dedicado. A poesia explicada torna-se banal, ele aprende que a mágica perde o fascínio quando o truque é revelado.

Os dois homens, tão diferentes em teoria, acabam se descobrindo, na prática, iguais. Não há mestre e aprendiz, ambos aprendem. O efeito deste encontro, um evento transformador na vida dos dois, uma amizade nascida da improbabilidade, fortalecida com o amor pela palavra escrita.

O carteiro deseja contar para o pai sua felicidade, mas, com sua sensibilidade que está sendo apurada, percebe que o velho bronco não irá compreender sua conquista, ou compartilhar seu orgulho, então, triste, ele silencia. A cultura, único elemento que verdadeiramente modifica o homem, já havia começado a libertá-lo daquela realidade simplória.

O emocionante terceiro ato, as circunstâncias de bastidores, com Troisi cada vez mais fragilizado, o adiamento de uma cirurgia cardíaca que poderia ter garantido mais alguns anos de vida, uma escolha apaixonada pela finalização da obra, decisão que evidencia a importância do filme na vida do querido ator italiano.

O seu falecimento, por ataque cardíaco fulminante, no dia seguinte ao término, trouxe lágrimas aos rostos de cinéfilos do mundo todo. O seu legado é eterno, assim como a influência do poeta na vida do personagem. O filho, que ele não chega a conhecer, carrega o nome do estrangeiro, que, a despeito de todos os avisos do empregador, acabou se encantando pela amizade pura e sincera do tímido carteiro.

O seu poema, criação que o ídolo nunca irá conhecer, perdido na revolta dos manifestantes, foi o atestado de independência e segurança emocional. A beleza da gratidão.

Massimo Troisi (1953-1994)

Troisi literalmente deu sua vida para fazer Il Postino. Ele estava ciente de sua condição cardíaca e foi informado de que precisava de tratamento, mas acreditava que a realização deste filme era mais importante. Ele morreu 12 horas depois que a câmera parou de rodar ...  

Pablo Neruda 

07/03/25

Le plaisir, 1952, Max Ophüls

Roteiro:  &  & 

Guy de Maupassant (1850-1893) - (303 créditos)  

Review by theriverjordan ★★★★½ 11 (tradução livre)

“Le Plaisir” é um filme tão belo que parece deslizar num caminho de elegância através de um salão de baile - deixando um rasto de jóias no seu caminho. 

A primeira entrada do realizador Max Ophüls no campo do filme de antologia está dividida em três partes. Cada uma delas centra-se em mulheres que exercem o seu charme para o prazer dos homens. A maior parte do filme é dedicada à história do meio, em que as senhoras de um bordel parisiense viajam para o campo para assistir a uma primeira comunhão. 

Ophüls passa grande parte de “Le Plaisir” a misturar o sagrado e o profano. Longe de ser uma combinação explosiva, os dois opostos entorpecem-se mutuamente até ao ponto de se tornarem vivíveis. Não há verdade na beleza pura e não há felicidade na santidade pura. O ponto onde se encontram pode estar longe do êxtase, mas é o mais próximo da satisfação terrena a que podemos aspirar. 

A eloquência de Ophüls com as suas gruas flutuantes e planos em dolly é agora lendária. “Le Plaisir” tem vários movimentos da sua elegante ótica que são agora matéria de mito, incluindo um plano do segundo ato que percorre as várias salas e histórias de um bordel sem nunca entrar lá dentro. 

Entre os muitos realizadores que consideram Ophüls como uma grande influência está Stanley Kubrick, que uma vez citou “Le Plaisir” como o seu filme favorito. A linhagem técnica entre os cineastas é clara, mas mais importante é a forma como se traduz numa transferência emocional partilhada, particularmente em “Barry Lyndon” de Kubrick. A delicadeza calculada das câmaras de ambos os homens ao olharem para o amor e a beleza - sem nunca se aproximarem deles - impede o espetador de agarrar uma joia que só se desfaria em pó se alguma vez fosse tocada. Letterboxd

08/03/25

Sem chão, No other land, 2024, Yuval Abraham&Basel Adra&Hamdan Ballal&Rachel Szor

Sem Chão', documentário vencedor do Oscar 2025, estreia em 13 de março no Brasil

Filme acompanha situação de Masafer Yatta, um conjunto de vilas localizado na região sul da Cisjordânia ocupado pelo exército de Israel

Da Redação, UOL,  07/03/2025 

Na noite em que o Oscar celebrou o cinema independente, os diretores Basel Adra e Yuval Abraham realizaram um dos discursos mais potentes da premiação. Denunciaram as ações de Israel na Cisjordânia. “Minha esperança para minha filha é que ela não precise viver a mesma vida que vivo agora, sempre temendo a violência dos colonos, as demolições de casas e os deslocamentos forçados que minha comunidade, Masafer Yatta, enfrenta todos os dias sob a ocupação israelense”, contou Adra, que também fez um apelo pelo fim do genocídio do povo palestino. (...)

Yuval também foi contundente em sua fala, pediu o fim da destruição de Gaza, a libertação de reféns israelenses e ressaltou as desigualdades nas condições de vida de cidadãos de Israel e moradores palestinos de regiões ocupadas. “Quando olho para o Basel [Adra], vejo meu irmão, mas somos desiguais. Vivemos em um regime em que eu sou livre sob a lei civil, e Basel está sob leis militares que destroem sua vida e ele não pode controlar”. E ainda propôs um novo caminho para a solução dos conflitos: “Há um caminho diferente, uma solução política sem supremacia étnica, com direitos nacionais para ambos os nossos povos”.

‘Sem Chão’ (‘No Other Land’) vence Oscar de melhor documentário e diretores denunciam genocídio palestino 

Discurso durante a cerimônia do Oscar – Mídia NINJA

‘Sem Chão’ (‘No Other Land’) vence Oscar de melhor documentário e diretores denunciam genocídio palestino

‘Tática de guerrilha’ permitiu que filme sobre limpeza étnica na Cisjordânia, rejeitado por distribuidores nos EUA, disputasse premiação

Por Haroldo Ceravolo Sereza, Opera Mundi, 2 de março de 2025

O documentário Sem Chão (No Other Land) venceu o Oscar 2025 na categoria de Melhor Documentário, levando a questão do genocídio palestino a uma posição de destaque na principal premiação estadunidense de cinema. Dois dos diretores do filme, o palestino Basel Adra e o israelense Yuval Abraham (os outros dois são Rachel Szor e Hamdan Ballal), na entrega do prêmio, discursaram e fizeram uma forte denúncia das ações militares israelenses em Gaza e na Cisjordânia.

“Há cerca de dois meses, me tornei pai, e minha esperança para minha filha é que ela não precise viver a mesma vida que vivo agora — sempre temendo a violência dos colonos, as demolições de casas e os deslocamentos forçados que minha comunidade, Masafer Yatta, enfrenta todos os dias sob a ocupação israelense”, disse Adra.

No Olher Land conta, justamente, a história das dificuldades que Adra enfrenta enquanto documenta a destruição de Masafer Yatta na Cisjordânia ocupada. A história também mostra sua amizade crescente com um segundo diretor do filme, o jornalista israelense Yuval Abraham, que passa, neste processo, a compreender as restrições, a discriminação que Adra enfrenta e a importância da resistência palestina.

O filme já havia conquistado outros importantes prêmios. Foi escolhido o melhor documentário no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2024, e Melhor Filme Não-Ficcional do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York.

Tática de guerrilha para disputar o Oscar

Para disputar o Oscar, os cineastas tiveram de adotar uma “tática de guerrilha”. Não houve nenhum distribuidor que aceitasse distribuir o filme nos Estados Unidos. Como o Oscar exige que a obra estreie no país para disputar a premiação, os cineastas organizaram uma exibição de uma semana no Lincoln Center, em novembro.

“Sem Chão reflete a dura realidade que temos suportado por décadas”, disse também Adra. “Pedimos ao mundo que tome ações concretas para acabar com essa injustiça e interromper a limpeza étnica do povo palestino”, completou o cineasta palestino.

Yuval Abraham também se manifestou na entrega do prêmio e aludiu a sua relação com Abraham. “Fizemos este filme, palestinos e israelenses, porque juntos nossas vozes são mais fortes. Vemos uns e outros a destruição atroz de Gaza e de seu povo, que deve acabar”. Abraham também pediu a liberação dos israelenses feitos prisioneiros pelas ações da resistência palestina em 7 de outubro de 2023.

Abraham ainda teve tempo de criticar o apoio dos Estados Unidos a Israel. “A política externa deste país está ajudando a bloquear esse caminho [da paz]”, disse, entre aplausos. “Vocês não percebem que estamos interligados? Meu povo só estará verdadeiramente seguro se o povo de Basel for verdadeiramente livre e seguro”, disse, antes de completar: “Não há outro caminho.”

Sem chão, 24/02/2025, Por JOÃO LANARI BO*

Comentário sobre o documentário, em exibição nos cinemas, dirigido por Basel Adra & Yuval Abraham

Sem chão é um documentário dirigido a quatro mãos sobre a tragédia que se arrasta na Cisjordânia, território ocupado por Israel desde 1967, após a Guerra dos Seis Dias – um palestino ativista, Basel Adra, e um jornalista israelense, Yuval Abraham, foram os realizadores. Também integraram essa corajosa equipe Hamdan Ballal e Rachel Szor, ele palestino e ela israelense. O adjetivo “corajosa” não é força de expressão – é um dado concreto da realidade.

Sem chão foi feito para furar o bloqueio midiático sobre o que se passa com os palestinos na Cisjordânia. O violento ataque do Hamas em outubro de 2023 – e a resposta totalmente desproporcional israelense que se seguiu – catapultaram o conflito na região para um novo e inédito patamar. Entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, entretanto, a distância é maior do que os poucos quilômetros que os separam, em território israelense. Gaza é governada pelo Hamas, Cisjordânia pela Autoridade Palestina.

À luz do controle governamental da coalizão de direita em Israel, que abriga partidos extremistas favoráveis à expulsão e/ou aniquilamento de todos os palestinos nos territórios ocupados por Israel, ninguém sabe o que pode acontecer. A ascensão de Donald Trump, imprevisível e impulsivo, só piora o quadro.

Masafer Yatta – onde foram filmadas a maioria das imagens do filme – é uma região com 19 aldeias no sul da Cisjordânia, perto de Hebron. Em 1980 a área foi denominada “Zona de Tiro 918”, a ser usada pelo exército para treinamento militar – apesar do então Primeiro-Ministro, Ariel Sharon, ter declarado explicitamente que o objetivo seria viabilizar a expulsão dos residentes locais.

Em 2022, depois de longo processo judicial e intimidações de toda ordem, a Suprema Corte israelense autorizou a expulsão dos habitantes de pelo menos 8 aldeias, mas de mil pessoas. O poder judiciário, sob ataque do governo Netanyahu – tal como ocorre em outros regimes autoritários, direita ou esquerda – acabou cedendo às pressões dos colonos e respectivos partidos políticos.

Basel Adra nasceu em 1996: sua primeira lembrança é de soldados israelenses invadindo sua casa e prendendo seu pai. Basel Adra tinha apenas cinco anos – e a partir desse momento todos os episódios violentos que testemunhou foram documentados, fotos e vídeo, para sua, e dos demais, proteção. “Comecei a filmar quando começamos a acabar”, afirma, repetindo as palavras do pai.

Tratores demolindo casas, famílias vivendo em cavernas, manifestações duramente reprimidas e ataques de colonos milicianos – tudo é filmado. Na concepção de Sem chão está presente o impulso do registro como mobilização permanente, da preservação da memória como condição de sobrevivência, literalmente.

Yuval Abraham cruzou com Basel em 2019, quando surgiu a ideia do projeto. Fluente em árabe – que aprendeu com seu avô judeu iemenita – Yuval Abraham tornou-se crítico ferrenho da ocupação à medida em que investigava casos como o de Masafer Yatta. Mas é voz minoritária em Israel, que já foi um país governado por um forte partido de centro-esquerda, o histórico Mapai – hoje Partido Trabalhista, que ocupa apenas quatro das 120 cadeiras do Parlamento.

A solução dos dois Estados para Israel e Palestina, projeto engendrado pela centro-esquerda trabalhista em diálogo com palestinos da OLP – e que era (ou foi) uma possibilidade factível – colapsou com o assassinato de Yitzhak Rabin, em 1995, por um fanático religioso.

Basel Adra e Yuval Abraham mais do que dirigem o filme, eles próprios são personagens e partícipes dos eventos que se sucedem. No limite da violência institucionalizada, se estabelece um diálogo entre Yuval e interlocutores palestinos, sobretudo Basel – raio de luz efêmero na paisagem destruída dos vilarejos.

Para se ter uma ideia do clima, a casa da família de Yuval Abraham em Israel foi ameaçada por uma multidão após ele pedir “cessar fogo em Gaza e fim do apartheid e desigualdade na Cisjordânia”, ao receber prêmio no Festival de Berlim, em 2024. Foi acusado de “antissemitismo” por políticos da direita alemã.

A indicação de Sem chão ao Oscar para documentário deve acirrar ainda mais os ânimos. Embora ainda exista percentual significativo da população em Israel contrária às práticas de ocupação – apesar de não se traduzir em peso político efetivo – a polarização, a exemplo de outras paragens, tende a radicalizar-se.

A proposta de Donald Trump de transformar Gaza em uma “Riviera” traz embutida uma noção asséptica de visualidade, que vê o mundo através da Fox News – o “pietismo” do presidente sugere que os palestinos serão “realojados” e vão ter condições melhores de moradia. Gaza, ou a imagem da Faixa de Gaza no imaginário trumpista, ficará limpa, etnicamente limpa.

Do lado palestino, o sofrimento é perene – Basel Adra esforça-se para manter a clarividência. Em entrevista, afirmou: “Espero que este filme seja visto, realmente visto, por muitas pessoas. Isso significaria muito para nós, e esperamos influenciar as pessoas: não apenas para mudar suas mentes, mas para movê-las a agir e nos manter, em suas mentes, vivos”.

*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo). [https://amzn.to/45rHa9F]

Referência

Sem chão [No other land]

Noruega, 2024, documentário, 95 minutos.

Direção: Basel Adra & Yuval Abraham, Roteiro: Rachel Szor, Elenco: Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal, Rachel Szor,

13/03/25

Araya, 1959, Margot Benacerraf

Filme disponível aqui 


Análise do filme aqui

O melhor filme já realizado na Venezuela. Conta, num tom ao mesmo tempo documental e lírico, a vida cotidiana em salinas feudais. Foi consagrado pela Fipresci, em Cannes. (Georges Sadoul, Dicionário de filmes, tradução de Marcos Santarrita e Alda Porto, p.36, L&PM, 1993) 

"Araya" (1959). Margot Benacerraf. Poema visual de la sal. Por Francisco Huertas Hernández 

Araya (película) wiki 

14/03/25

O fugitivo de Santa Marta, The Lawless, 1950, Joseph Losey

NOTA SOBRE O FUGITIVO DE SANTA MARTA (Joseph Losey, 1950) por Marc C. Bernard

Se O Fugitivo de Santa Marta é o mais belo dos filmes é porque não há outro que nos sugere um sentimento mais justo da natureza.

Não há, para a mão que desenha, e para o cineasta que olha, outra razão que a de precisar a ordem e a beleza natural das coisas.

Assim, a beleza deve ser radiante. (Vitória! exclamei cheio de admiração.) O fervor que me toma a cada visão de O Fugitivo de Santa Marta é como o sentimento de uma respiração mais confortável, a segurança de um sangue mais puro.

Era como a própria primavera!

A beleza da mise en scène é o desenho mais nítido possível da beleza do modelo. (Sucede que nos outros filmes permaneça apenas a nitidez do desenho enquanto o que nos é mostrado é feio ou falso: é o caso de O Tigre de Bengala, de Fritz Lang.)

Como o amor, a beleza só pode nascer da admiração. Pensando na temeridade de seu discurso, a mente encontra sua força no entusiasmo.

Não existe outro tema que a aquiescência à felicidade. O brio de O Fugitivo de Santa Marta, o calor e a impaciência de sua mise en scène são a graça reservada a essa concretização. Esse tom é o da juventude, irresistível, portanto, semelhante ao ardor de um mergulho matinal.

Uma tal felicidade exige as cores e a luz mais francas. A vibração do ar, a clareza da decupagem darão um brilho encantador às formas de um corpo livre e vivaz. Exemplo: uma árvore é uma árvore, uma garota é uma garota, a garota sobe na árvore (e machuca o joelho).

A proposta de O Fugitivo de Santa Marta é a mais grave, pois trata de estabelecer as relações mais nobres possíveis entre um homem e uma jovem mulher, e se o filme consagra alguns capítulos à violência, ele nos proporciona sobretudo o prazer, a arte de viver e a cortesia.

(Cahiers du Cinéma n° 111, setembro 1960, p. 33. Traduzido por Bruno Andrade)

Review by Bruno Andrade ★★★★½ 2

Entre outubro e novembro de 1999 uma revolução foi iniciada na programação dos canais Telecine, uma revolução que transformou o Telecine 5 (mais tarde Telecine Classic) no canal obrigatório de qualquer rato cinéfilo compulsivo digno do título, uma revolução cujo impacto chega a nós até hoje (o MKO é a descendência direta das programações heroicas do Paulo Perdigão). Em menos de dois meses Perdigão nos bombardeou com exibições de um Losey extremamente (naquela época) raro, semanas Douglas Sirk, Samuel Fuller, Anthony Mann, Max Ophüls, Jacques Becker, Jean Renoir (obras de que apenas havíamos ouvido falar, como os faroestes de Mann para a Universal, os filmes de Sirk produzidos por Albert Zugsmith e Ross Hunter, todo o cinema do Becker, os primeiros filmes coloridos de Renoir, Madame de... e Lola Montès...) e o melhor de tudo, a cereja no bolo, a novidade extraordinária que era naquele momento a exibição dos filmes em Scope no formato letterbox (felizes os que não sabem o que era ver Love is a Many Splendored Thing numa cópia cuja telecinagem mantinha apenas 50% do enquadramento CinemaScope, com as laterais escaneadas de um lado ao outro de maneira tão arbitrária quanto absurda). Mas não vou ficar falando do passado, hoje é do presente que chegam algumas notícias - não que isso importe muito, visto que os dois são a mesma coisa.

Após a exibição de Mr. Klein há poucos dias pelo cineclube Contactos começaram a aparecer nos arredores da Calle Alcalá, próxima do Círculo de Bellas Artes em Madrid, estranhos grafites loseyanos

Me disseram inclusive que Godard, ele mesmo, escreveu uns pequenos versos sobre o ocorrido. Independente de terem sido ou não escritas em função do grafite, essas linhas do Godard são dignas do poema em prosa que o Marc C. Bernard dedicou ao filme do alto do fervor mac-mahoniano com o cinema do Losey (Cahiers nº 111, setembro de 1960, edição obrigatória).

(breve parêntese. Essa cena do filme, uma série de movimentos sinuosos e entrelaçantes em que as personagens de Gail Russell e Macdonald Carey se cruzam algumas vezes sem realmente se encontrarem, um dos momentos mais sensuais, mais bonitos e mais impecavelmente bem filmados do cinema: alguém do nível do Hou levou quase duas décadas para aprender a filmar um composto de matéria visual e sonora tão denso, vibrante e compacto, só obtendo resultados comparáveis à altura de Nan guo zai jian, nan guo e Hai shang hua, enquanto Losey logra essa façanha, e várias outras, no seu segundo longa). E não se esqueçam de comprar o próximo livro do Michel Mourlet assim que sair, fiquem de olho desde já. Letterboxd 

Joseph Losey (wik) 

Joseph Losey (1909-1984) - imdb 

15/03/25

A festa de Babette, Babettes gæstebud, 1987, Gabriel Axel

Review by Jonathan White ★★★★★  10 (tradução livre)

Esta é a terceira ou quarta vez que me sento à mesa com Babette, e cada degustação é mais suntuosa e gratificante. Depois dessa exibição, percebi que Babette merece uma pontuação perfeita.

A história é simples, adorável e gentil. Ela leva seu tempo. É essa falta de pressa que faz você se apaixonar, gradual e naturalmente. O primeiro ato é dedicado exclusivamente à história de fundo, onde somos apresentados aos habitantes de um pequeno e pitoresco vilarejo dinamarquês. A comunidade unida gira em torno de uma pequena seita liderada por um pregador moral e justo. Suas duas filhas, Martine e Filippa, foram batizadas em homenagem a Martinho Lutero e seu amigo Philipp Melanchton, fundadores do protestantismo. A ruptura com o catolicismo é a noção de que as boas ações não compram sua entrada no céu, a graça de Deus é um dom que é dado gratuitamente. Essa noção desvincula os atos de bondade e caridade da recompensa e eleva esses atos porque são dados gratuitamente. Essa piedade também se estende a atos de autossacrifício e à fuga dos prazeres terrenos na busca de um caminho mais elevado.

Martine e Filippa estão encantadoras e atraem os olhares de dois homens que estão visitando a cidade. Um deles é um jovem oficial, Lorens, que está sendo punido com o exílio por causa de jogos de azar e comportamento impróprio; o outro é um astro da ópera no final de sua carreira, Papin, que está desanimado com seu futuro. Ambos se apaixonam, ambos são rejeitados e ambos prometem melhorar a si mesmos.

No segundo ato, os anos se passaram, assim como o pregador. Vemos as solteironas Filippa e Martine realizando ações boas e de caridade e, em geral, cuidando de sua comunidade. Elas dão exemplos, levam uma vida extremamente modesta e preparam alimentos sem sabor. Entra Babette, uma refugiada da Paris contrarrevolucionária. Com uma carta de apresentação de Papin, ela implora às irmãs que lhe deem refúgio, oferecendo-se para ser sua empregada doméstica sem remuneração. É aí que começam as questões interessantes. Martine e Filippa estão divididas. A ideia de uma criada é um prazer terreno que elas não conseguem conciliar, mas seu cristianismo não pode abandonar uma pessoa necessitada. No final, eles acham que a caridade supera seu desconforto com a ideia de uma empregada e acolhem Babette.

O enredo e a história são muito mais extensos do que eu costumo abordar em uma resenha, mas são apenas a configuração da história real e as perguntas e observações reais. A "festa" do título é quando a cidade comemora o 100º aniversário do nascimento de seu pastor. Por um golpe do destino, Babette pode e deseja preparar um jantar para a reunião. Mais uma vez as irmãs ficam divididas. Elas não conseguem se imaginar aceitando tal luxo, mas, ao mesmo tempo, nos quatorze anos em que Babette as serviu, ela não pediu nada. A graciosidade prevalece, mas não sem consternação.

Um aspecto que deixei de mencionar até agora foi o humor. Ele é sutil, como no filme, mas sempre presente, especialmente no último ato, o banquete.

Todos têm atuações fantásticas, tocantes e discretas, especialmente Stephane Audran como Babette, Dodil Kjer como Filippa e Birgitte Federspiel como Martine. A fotografia é austera, bonita e nunca distrai. Se há uma trilha sonora, ela é tão invisível que não a notei. Vejo um crédito de música, mas não consigo me lembrar de tê-la ouvido. Não é preciso dizer que Babette não o manipula emocionalmente com uma partitura, se ela estiver lá.

A mensagem de Babette é simples. Uma vida completa e feliz é abraçar tanto a piedade quanto o prazer.

"A misericórdia e a verdade se encontraram. A justiça e a felicidade se beijarão. O homem, em sua fraqueza e miopia, acredita que precisa fazer escolhas nesta vida. Ele treme diante dos riscos que corre. Nós conhecemos o medo. Mas não. Nossa escolha não tem importância. Chega um momento em que nossos olhos se abrem e percebemos que a misericórdia é infinita. Precisamos apenas aguardá-la com confiança e recebê-la com gratidão. A misericórdia não impõe condições. E eis que tudo o que escolhemos nos foi concedido. E tudo o que rejeitamos também nos foi concedido. Sim, até recebemos de volta o que rejeitamos. Pois a misericórdia e a verdade se encontraram, e a justiça e a bem-aventurança se beijarão".

Uma verdadeira joia que merece completamente sua pequena estátua de ouro. Letterboxd

15/03/25

Festim Diabólico, Rope, 1948, Alfred Hitchcock

Crítica | Festim Diabólico, por Ritter Fan 31 de março de 2020 

Antes que alguém venha ler essa crítica aqui todo pimpão já dizendo que Festim Diabólico é o filme que Alfred Hitchcock filmou em uma plano-sequência só, já vou logo dizendo: não é nada disso. Eu mesmo, quando vi essa obra pela primeira vez há anos, cheguei a achar isso, mas repetidas conferidas e um pouco de estudo revelaram que, apesar de Hitchcock ter procurado nos passar esse efeito (e ele conseguiu, diga-se de passagem), o filme, até por questões técnicas incontornáveis à época, é composto de uma série de planos-sequência longos costurados como se fossem um só. São exatamente 10 desses planos, o maior deles de 9’57” e o mais curto de 4’37”.

E, nesse sentido, é perfeitamente possível afirmar que Festim Diabólico é um laboratório em que Hitchcock resolveu fazer experimentações. Anos depois, o próprio diretor chegou a afirmar que sua experiência “não havia dado certo”, mas, nesse ponto, discordo veementemente do Mestre do Suspense. Ainda que ele tenha que ter sacrificado um pouco da profundidade da narrativa em vista das limitações técnicas que ele se auto-impôs, o resultado é um pequeno, mas eficiente thriller que consegue ter muito mais recheio do que talvez o próprio Hitchcock tenha se dado crédito.

A história, baseada em peça de teatro de 1929 escrita pelo dramaturgo e romancista britânico Patrick Hamilton, é simples, mas macabra: dois amigos matam um terceiro e colocam o corpo em um baú na sala de seu apartamento, que serve de mesa para um jantar ao qual convidam seu professor. O objetivo é provar que é sim possível cometer o “crime perfeito”.

Hitchcock decidiu manter a estrutura de peça de teatro, mas sem fazer teatro filmado, o que potencialmente teria tornado o filme extremamente enfadonho, apesar dos curtos 80 minutos de duração. Com toda a ação se passando quase em tempo real e apenas uma sequência – a de abertura, quando vemos o diretor em uma de suas famosas pontas – passada fora do apartamento de Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), Hitchcock trabalhou com enorme engenhosidade e com uma câmera inacreditavelmente fluida e movimentada, com close-ups (como no estrangulamento), planos americanos e planos médios, além de travellings quase que exclusivamente de um lado para o outro do apartamento em linha reta. Para conseguir esse feito, Hitchcock trabalhou em sincronia extrema com a equipe técnica para criar um cenário que pudesse ser movimentado durante as filmagens. As paredes, assim, foram montadas em cima de trilhos e era abertas e fechadas na medida do necessário, com ensaios que envolveram não só os atores, mas também os técnicos responsáveis por mexer em toda a estrutura. Além disso, o ciclorama (cenário de fundo) usado em Festim Diabólico foi o maior usado até 1948, além de um dos mais complexos, pois não só envolvia imagens de Nova York, como nuvens, fumaça de chaminé, luzes e iluminação que se modificavam na medida em que o tempo passava. É um divertimento esquecer o resto do filme e só focar nesses aspectos técnicos que, muitas vezes, passam despercebidos.

E Festim Diabólico ainda foi o primeiro filme do diretor em Technicolor, o que, à época, significava câmeras ainda maiores, que tiveram que ser montadas em estruturas móveis silenciosas especiais, só para complicar a vida dos técnicos. Mas o resultado valeu a pena, apesar dos comentários negativos do próprio diretor. É absolutamente fascinante ver a história se desenrolar ao longo dos 80 minutos de projeção como se literalmente fôssemos o observador onipresente e onisciente.

James Stewart faz o papel do professor Rupert Cadell, convidado de honra para o jantar e quem os estudantes desafiam para descobrir o crime que cometeram. É a primeira da prolífica parceria de Stewart, que já tinha uma bagagem considerável, com Hitchcock e que geraria clássicos inesquecíveis como Janela Indiscreta, a segunda versão de O Homem que Sabia Demais e Um Corpo que Cai. Stewart demonstra muita tranquilidade em seu papel, atuando com sempre atua: passando uma naturalidade quase sobre-humana que poucos atores eram (ou são) capazes de passar. Contracenando com um elenco menos conhecido, mas mesmo assim muito bom, ele acaba dominando toda a fita a partir do momento em que aparece.

É interessante, também, notar um subtexto que, em 1948, era um tabu quase intransponível: a homossexualidade. O filme é todo permeado do assunto e o restritivo – e absurdo – Código de Produção em vigor não pegou “o problema” em razão de um roteiro inteligente que foge da obviedade, de atuações contidas (os atores que fazem os dois assassinos eram gays) e de uma direção sábia de Hitchcock que escancara a situação, mas só para quem souber ler nas entrelinhas. E o mais interessante é que esse aspecto da vida sexual dos personagens nem era essencial à narrativa, mas ele é deixado lá por um diretor bem a frente de seu tempo.

Festim Diabólico marca talvez o verdadeiro início de Hitchcock como o Mestre do Suspense, considerando-se seus filmes seguintes, e é uma pequena joia que só melhora ao longo do tempo e do quanto mais nós sabemos sobre sua interessantíssima produção. Se essa definição fez sentido alguma vez, trata-se de um pequeno grande filme absolutamente imperdível à frente e atrás das câmeras.

Crítica originalmente publicada em 02 de abril de 2014. Revisada para republicação em 31/03/2020, como parte da versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

22/03/25

Adolescência, Adolescence, Minissérie TV, 2025, Stephen Graham & Jack Thorne

Crítica de Adolescence - a coisa mais próxima da perfeição televisiva em décadas

O drama de Jack Thorne e Stephen Graham sobre um adolescente acusado de homicídio é espantoso. O drama de Jack Thorne e Stephen Graham sobre um adolescente acusado de homicídio é impressionante.

Lucy Mangan, The Guardian, Qui 13 Mar 2025

No final dos anos 80, houve uma trilogia de dramas de Malcolm McKay chamada A Wanted Man. Era protagonizada por Denis Quilley e Bill Paterson e tinha no centro a atuação fenomenal de Michael Fitzgerald como Billy, um homem preso por indecência grosseira que passa a ser suspeito do homicídio de uma criança. A primeira parte seguiu o seu interrogatório por um detetive (Quilley), a segunda o seu julgamento e a terceira as suas consequências. Foi, e continua a ser, a série mais devastadora e imaculadamente guiada e interpretada a que alguma vez assisti - o mais próximo da perfeição televisiva que se pode chegar.

Ao longo dos anos, houve alguns candidatos à coroa, mas nenhum se aproximou tanto como a surpreendente série de quatro episódios Adolescence, de Jack Thorne e Stephen Graham, cujos feitos técnicos - cada episódio é feito num único take - são acompanhados por um conjunto de interpretações dignas de prêmio e um roteiro que consegue ser intensamente naturalista e extremamente evocativo ao mesmo tempo. Adolescence é uma experiência profundamente comovente e angustiante.

Começa com a polícia a entrar de rompante na casa da família de Jamie Miller, de 14 anos, e a prendê-lo por suspeita de ter assassinado a sua colega de turma Katie na noite anterior. Os dois primeiros episódios mergulham-nos no mundo da polícia, nos pormenores processuais e na construção do caso pelos detectives contra Jamie (Owen Cooper), embora este negue o seu envolvimento.

Ele escolhe o pai, Eddie (Stephen Graham), como o adulto adequado. Veremos a descrença deste homem transformar-se, ao longo dos 13 meses da história, numa dor insondável. Não é um spoiler dizer que Jamie matou Katie - a prova é-nos dada cedo e de forma incontestável. A preocupação do drama é saber porquê. Somos conduzidos a um mundo adolescente que é vivido principalmente online e que os adultos, independentemente do que possam pensar, são incapazes de monitorar ou compreender devidamente.

O inspetor-geral Luke Bascombe (Ashley Walters, extremamente bem, sobretudo a captar a tristeza essencial de um trabalho que pode ou não trazer justiça, mas que nunca devolverá uma criança morta aos pais) só começa realmente a compreender o possível “porquê” quando o seu próprio filho adolescente traduz os emojis utilizados nos comentários de Katie em alguns dos posts de Jamie no Instagram. O mundo da cultura “incel”, a mensagem difundida entre rapazes e homens jovens sobre o que têm direito a esperar e a tirar das moças e das mulheres, ganha vida. O nome de Andrew Tate é mencionado pelos adultos quando tentam compreender o que estão a aprender, mas as crianças não se incomodam - é apenas a água em que nadam.

O episódio mais surpreendente - de um quarteto deslumbrante - é o penúltimo, que consiste quase inteiramente numa sessão entre Jamie e uma psicóloga infantil, Briony (Erin Doherty), que foi enviada para fazer a avaliação independente necessária antes do processo em tribunal. A inteligência fria e rápida (caraterística de Doherty) é perfeitamente utilizada aqui, enquanto Briony empurra e encurrala o rapaz, aproximando-o cada vez mais de verdades que ele não quer reconhecer e da articulação de crenças que ele mal sabe que tem. Por vezes, ela prende-o como uma borboleta num cartão.

E é aqui que devemos fazer uma pausa, enquanto ele enfrenta uma mulher que está seguramente a emergir como um dos melhores atores da sua geração, para notar que este é o primeiro papel de Cooper, de 15 anos, conquistado através do envio de uma cassete à diretora de casting, Shaheen Baig, que analisou 500 rapazes para o papel. É um desempenho espantoso que nos deixa ver o misógino radicalizado que Jamie é ou pode vir a ser. Mas fazê-lo sem qualquer experiência anterior é um testemunho do talento inato e da promoção criativa que deve ter estado presente em toda a rodagem.

Se o episódio final, que se concentra nas tentativas desesperadas da família para se manter unida, parece um pouco mais fraco, é apenas no contexto do que se passou antes. A sua recusa em oferecer saídas fáceis (sem pais abusivos, sem segredos familiares obscuros), sem uma explicação clara sobre o que leva um rapaz a matar e outros não, é corajosa e real. Adolescence questiona quem e o que estamos a ensinar aos rapazes e como esperamos que eles naveguem neste mundo cada vez mais tóxico e impossível, quando o nosso conceito de masculinidade ainda parece depender do fato de os rapazes e os homens o fazerem sozinhos. E mantém a vítima suficientemente presente para que, a questão de quantas moças e mulheres morrerão enquanto tentamos resolver tudo isto também, fique conosco.

ADOLESCÊNCIA - Incrível em técnica e conteúdo | Crítica - PH

Adolescência (Netflix): perfeita, minissérie é das coisas ótimas que nunca mais veremos novamente 

23/03/25

A Thousand Blows, Série de TV, 2024, Steven Knight

‘Mil Golpes’ vai muito além de um simples drama esportivo

Wilson Spiler, Fixlandia,  23/02/2025

A série “Mil Golpes” chega com a força e a audácia características de Steven Knight, o mesmo criador que nos brindou com “Peaky Blinders”.

Ambientada na Londres dos anos 1880, a produção mergulha no submundo do crime e do boxe de rua, trazendo à tona personagens intensos e histórias marcadas pela violência, ambição e uma dose de anarquia que desafia as convenções da época.

O resultado é um drama que não só entretém, mas também provoca reflexões sobre racismo, exclusão social e a luta por poder num cenário implacável.

Sinopse da série Mil Golpes (2025)

Na trama de “Mil Golpes”, acompanhamos a chegada de Hezekiah Moscow e Alec Munroe, jovens imigrantes jamaicanos que desembarcam em uma Londres hostil e repleta de desafios. Confrontados com o preconceito e as barreiras impostas pela sociedade vitoriana, eles acabam se envolvendo no mundo brutal do boxe ilegal, comandado pelo temido Sugar Goodson.

Paralelamente, a narrativa ganha força com a entrada de Mary Carr, uma líder carismática e implacável que comanda a lendária gangue feminina conhecida como os Quarenta Elefantes. Em meio a duelos, traições e reviravoltas, cada personagem se vê obrigado a lutar não apenas por sobrevivência, mas também por um espaço de respeito em um mundo marcado pela exclusão.

Crítica de Mil Golpes, do Disney+

O grande trunfo de “Mil Golpes” é, sem dúvida, o elenco. Erin Doherty, no papel de Mary Carr, transforma a figura da “rainha dos quarenta elefantes” em um ícone moderno de força e vulnerabilidade. Sua atuação, carregada de intensidade, é acompanhada por Malachi Kirby, que, como Hezekiah, entrega uma atuação sutil, porém poderosa, evidenciando o peso de um passado doloroso e as dificuldades enfrentadas em um novo mundo.

Stephen Graham, interpretando Sugar Goodson, rouba a cena com uma presença imponente, mesclando brutalidade e uma humanidade complexa que torna seu personagem memorável.

Roteiro e enredo ágeis

O roteiro se destaca por seu ritmo dinâmico e diálogos afiados, que conseguem, com inteligência, misturar humor ácido e momentos de extrema tensão. A narrativa, embora por vezes sobre-expositiva nos episódios iniciais, mantém o espectador grudado à tela, desvelando aos poucos as camadas dos personagens e os meandros do submundo londrino.

A utilização do boxe como metáfora para os conflitos internos e as lutas contra opressões sociais agrega uma profundidade que vai além da ação física, transformando cada soco em uma expressão de resistência.

Ambientação e direção

A ambientação é outro ponto alto da série. Com cenários que evocam a Londres decadente e sanguinária do século XIX, “Mil Golpes” impressiona pelo cuidado nos detalhes, desde os becos sombrios do East End até os pubs e arenas de boxe que parecem ter saído de um romance noir.

A direção, ao equilibrar cenas de ação com momentos de reflexão, cria uma atmosfera quase palpável, onde o espectador se sente imerso num ambiente repleto de contrastes – da opulência dos ricos à miséria dos marginalizados.

Personagens e temáticas que rompem paradigmas

Um aspecto marcante da série é a forma como ela reconstrói o cenário criminal histórico, dando voz e protagonismo a personagens que habitualmente ficam à margem das narrativas tradicionais. Mary Carr e sua gangue feminina, por exemplo, não apenas desafiam os papéis impostos pela sociedade vitoriana, mas também ressaltam a importância da representatividade e da luta contra o sexismo.

Simultaneamente, a trajetória dos imigrantes jamaicanos evidencia as dores e a resiliência de quem precisa enfrentar barreiras impostas pelo racismo, reforçando que a diversidade sempre foi parte intrínseca da história britânica.

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Conclusão

“Mil Golpes” é uma obra que vai muito além de um simples drama esportivo. Com uma narrativa repleta de ação, personagens complexos e uma ambientação de tirar o fôlego, a série se estabelece como uma produção imperdível para os amantes de histórias intensas e carregadas de crítica social.

Apesar de alguns momentos narrativos que poderiam ter sido mais concisos, os pontos positivos – sobretudo as atuações e o design de produção – garantem uma experiência única e envolvente. Se você busca um drama que une o peso da história com a energia crua do submundo, “Mil Golpes” é, sem dúvida, uma aposta certeira.

24/03/25

The White Lotus, S03, Série de TV, 2021–, Mike White

White Lotus: minha meditação é juntar humor, cenário paradisíaco e crítica

Maria Ribeiro, Universa, 26/03/2025

Eu estou viciada na série "White Lotus". Acordo aos domingos com aquela alegria totalmente específica, sabe? Das esperas garantidas, sem chance alguma de desapontamentos.

Reconfortada por pensar que, mesmo não tendo nenhum controle sobre minhas células ou sobre o futuro da água da planeta, que independentemente dos rumos de Brasília ou da reunião de condomínio do prédio, uma hora o relógio vai marcar vinte e duas horas. Quando nada do mundo irá me importar. Nem filhos, nem filmes, nem prazos, nem as falas misóginas contra a Marina Silva, nem os assédios que ainda vivemos, e nem a Solange sem a Lídia Brondi.

Eu respiro por histórias. É por elas - e com elas - que olho para frente, para trás, e para lugares onde nunca estive, com pessoas com quem jamais estarei. Essa alienação programada - programada mesmo, não me convidem nem para casamentos que, aos domingos, não vou nem que eu seja a noiva -, tem, no caso da série da HBO, pouco mais de um mês.

Mas como eu tava precisando. Porque sou obcecada por documentários, não abro mão da experiência coletiva do cinema, vou atrás de todas as obras que me pareçam relevantes do ponto de vista de ler o tempo - como a recente "Adolescência" -, mas não há nada que me de mais colo do que acompanhar, por algum tempo, personagens contraditórios e bem construídos.

Eu sei, a temporada não é tão boa quanto as duas anteriores. É o que se diz por aí. Ainda assim, a possibilidade de vislumbrar semanalmente sessenta minutos de um roteiro que junta humor, luta de classes, cenários paradisíacos, trilha de primeira, crítica social e, principalmente, figuras humanas a ponto de nos gerar empatia a despeito de suas atitudes absolutamente condenáveis, nossa...essa é a minha ideia de meditação.

No episódio da última semana, um beijo causou alvoroço na internet. Não vou desenvolver o tema - que é de fato delicado e complexo - para não dar spoiler, mas preciso dizer que a angústia dos personagens depois do ocorrido conseguiu a proeza de me fazer olhar com compaixão para uma das figuras que mais abomino na série.

E é esse um dos grandes sentidos do audiovisual, e também da literatura e do teatro. Nos ensinar, através de supostos vilões, anti-heróis, ou de situações das quais não temos intimidade. A amar ou compreender pessoas que cancelaríamos na segunda ou na terceira frase.

Ampliar nossa capacidade de não julgar livros pela capa, aumentar nosso repertório de tolerância, vivenciar historias que nos deem material para caso um dia precisemos, multiplicar um dos grandes super poderes dessa viagem: fazer doutorado em afetos, mesmo em afetos difíceis.

Escrevo essa coluna do deserto do Atacama, para onde vim fazer umas fotos de moda. Hospedada em um hotel desses de tirar o fôlego e diante de uma paisagem arrebatadora, me vi observando, como nunca tinha feito, o modus operandi de tudo o que acontece nos bastidores de uma atmosfera onde tudo é feito para ser perfeito. Mas que, como vemos na série, nada é feito com a ausência de nomes próprios. Foi bonito.

Conheci o vale do arco-íris, o céu mais impressionante que já vi, lagunas e cânions inacreditáveis, mas isso não foi tudo. Conheci pessoas. Com passado, projetos, gostos, personalidades. Leo, Silvia, Jucelia, Gabriel. Isso, sim, é conhecer o mundo.

27/03/25

O segredo da porta fechada, Secret Beyond the Door, 1947, Fritz Lang

No iutubi aqui 

Crítica | O Segredo da Porta Fechada por Iann Jeliel - 8 de maio de 2021 

Acho interessante que o noir presente em O Segredo da Porta Fechada… se submete ao inverso do que costuma ser estruturalmente o gênero, onde geralmente é a figura masculina que uma feminina misteriosa que o colocará em uma situação de investigação. Não que seja intencional do diretor Fritz Lang fazer uma inversão completa de funcionabilidades dos princípios do gênero que ele adotou para si quando chegou em território americano, de acordo a sexualidade dos personagens – a troca da femme fatale para um “male fatale” –, até porque a construção atmosférica neste em específico remete muito mais aos thrillers Hitckcocianos de gênero, do que os que o próprio Lang dirigiu anteriormente, onde uma questão moral carcerária sempre estava muito presente, promovendo o suspense através da perseguição do casal protagonista e uma barreira ao próprio romance que tomava a tela em boa parte da narrativa.

Aqui, existe uma ambiguidade no suspense, que deixa sua questão moral em pano de fundo e se concentra num mistério ambíguo e devidamente intrigante pelas condições da premissa. Se o filme já começa estranho por instaurar um casamento precoce quase sem desenvolvimento, ele fica progressivamente mais difuso quando essa precocidade se ver ameaçada de estar pautada em uma justificativa conspiratória. Meio que essa premissa do romance rápido faz parte da tensão, pois pode ser um motivo conectado ao fato do Mark (Michael Redgrave) ser tão desconfiado, a ponto de esconder o quarto 7 para todo mundo, mais um mote para o suspense, uma vez que perguntamos, o que terá naquele espaço que não pode ser compartilhado? A roteirista Silvia Richards ajuda muito a reduzir a estranheza na perspectiva feminina, pensando na irracionalidade de atitudes que a levaram até essa situação.

A narração em off, por mais que seja um recurso básico, é fundamental para entendermos a coerência das motivações de cada passo de Claire (Joan Bennett, ótima como sempre), além de termos o raciocínio da sua paranoia em crescente com a história. O texto feminino também possui um discernimento ideal dos papeis facultativos das demais personagens femininas em estabelecer um círculo de históricos possíveis nas quais a história pode encaminhar para explorar a personalidade dúbia do marido. Veja bem o quanto ele reforça sobre a independência dessas figuras, mas ao mesmo tempo não consegue se desprender de novas. As cenas que ele vai apresentando os quartos em festa a novas mulheres reforça a dúvida sobre sua iminente periculosidade, que a protagonista passará a desconfiar cada vez mais conforme a atmosfera vai ganhando um novo peso dramatúrgico.

Talvez, Lang nem precisasse transacionar o tom como fica aparente. Do carisma de um romance a total desconfiança de um assassino à espreita. Até porque as elipses iniciais impedem bastante a que a construção clássica do casal seja crível e o filme demora um pouco para desapegar da ideia de que o inesperado amor seja plausível – considerando que as narrações em off cumpriram esse papel, sendo que não exatamente esse era um de seus intuitos. Portanto, a história só pega a partir da meiuca, em que realmente funciona como esse noir sexualmente invertido, onde Claire decide investigar suas desconfianças de Mark entrevistando as outras personagens ao seu redor. É um processo que leva a história para vários caminhos interessantes, barrados por um clímax antecipado tão interessante quanto – chega a ser quase um Psicose de inesperado – ao seguir uma linha de consequências muito diretas da investigação.

Acontece, que o terço final adentra num caráter mais metafórico que honestamente não parecia caber durante a história. Por mais que Freud fosse citado e a dubiedade do personagem se sustente no drama psicanalítico de uma experiência traumática maturada, houve muito pouco desenvolvimento do casal enquanto casal e dos indivíduos em separado para que seja crível a última virada. Não só descarta os caminhos interessantes levantados, quanto utiliza alguns de forma preguiçosa a forjar um novo clímax que reintegra um romance que na prática nunca aconteceu de fato e nem foi levado durante o filme pela teoria. Sem dúvidas, é uma conclusão bem aquém da construção até ela – ótimista demais? –, mas que não chega a decepcionar mais do que o ótimo sentimento de envolvimento do caminho, tornando O Segredo da Porta Fechada um filme ainda bem notável na carreira do diretor alemão.

28/03/25

No turbilhão da metrópole, Street Scene, 1931, King Vidor

No iutubi aqui 


Review by Jack Often ★★★★ (Tradução livre)

A primeira metade da peça de Elmer Rice, vencedora do Pulitzer, sobre os habitantes de um prédio de apartamentos em Manhattan, traz à mente o tipo de obra socialista rude sobre a vida, parodiada por Rob Reiner em Bullets Over Broadway ou Barton Fink, dos Coen, com sabor de Odets. Uma tradição de Nova York que se estende até Do the Right Thing e além.

Aqui, o trapeiro substitui o peixeiro em frente a uma varanda repleta de estereótipos de imigrantes, com Beulah Bondi, em sua estreia no cinema, liderando o coro de fofocas sobre a esposa do quarto andar (a glamourosa silenciosa Estelle Taylor), que está comendo descaradamente o leiteiro pelas costas do marido.

O filme começa a estagnar em seu único cenário majestoso até a chegada de nossa estrela Sylvia Sidney, quase meia hora depois do início da sessão. À medida que Vidor tece habilmente o clímax da história em torno dela, o filme explode em escopo e palpita com pathos, devido tanto ao rosto lamentável de Sidney quanto à escrita de Rice.

A aposta cara de Samuel Goldwyn na peça de Rice valeu a pena, com boa bilheteria e boas críticas, e ela ainda se mantém mais de 90 anos depois, desde a trilha sonora bem reciclada de Alfred Newman até a câmera arrebatadora de George Barnes, usada somente onde é importante.

Rice, um dramaturgo socialista e ateu, cujo outro grande sucesso, The Adding Machine, ainda é apresentado hoje em dia, manteve-se longe da lista negra, permanecendo em Nova York, mas foi muito franco durante toda a sua vida. É interessante vê-lo incluir a rica herança do socialismo judaico de forma tão clara nessa peça, e é igualmente interessante ver o personagem de Abe Kaplan realmente chegar à tela com a maioria de suas falas intactas. Sem mencionar as de seu filho, interpretado por William Collier Jr., que dialoga rejeitando abertamente qualquer religião. Impensável apenas alguns anos depois para qualquer pessoa que não fosse um vilão. As cópias do filme disponíveis atualmente são aprovadas após o relançamento da Hayes, mas esses elementos controversos permanecem e são possivelmente o que mais marca o filme como pré-código.

Também é um prazer ver os rostos familiares de lendas do personagem, como John Qualen, George Humbert e Matt McHugh, que, assim como Bondi, estavam estreando nas telas a partir do espetáculo de palco. Letterboxd 

29/03/25

DNA do Crime, Série de TV 2023, Criação: Heitor Dhalia & Leonardo Levis

DNA do Crime: conheça a 1ª série brasileira de ação policial da Netflix

Primeira temporada está disponível no catálogo do streaming em oito episódios

Bárbara Carvalho, colaboração para a CNN , São Paulo, 14/11/2023

A série “DNA do Crime” chegou ao catálogo da Netflix nesta terça-feira (14). Idealizada por Heitor Dhalia e Leonardo Levis, e baseada em eventos criminais reais, a narrativa acompanha um conjunto de agentes federais enquanto desvendam um monumental assalto na fronteira brasileira. Os protagonistas deste projeto são interpretados pelos atores Maeve Jinkings e Rômulo Braga.

Primeira série policial brasileira na plataforma de streaming, a trama apresenta uma intensa dose de ação e efeitos especiais, explorando os patamares mais refinados do crime e da aplicação da lei no Brasil.

De um lado, uma força policial altamente técnica que emprega a ciência forense para enfrentar investigações extremamente desafiadoras. Do outro, criminosos com métodos sofisticados para planejar assaltos, controlar cidades e conduzir operações que demandam anos de planejamento e investimentos na ordem de milhões de dólares.

“A série mostra outro lado do crime no Brasil, um crime de fronteira que é muito pouco explorado em histórias audiovisuais de ficção. Usamos um assalto transnacional, que se passa no Paraguai, como nossa referência e inspiração para o início da série, que vai se desenrolando na disputa de duas forças antagônicas, altamente sofisticadas, em um tabuleiro sul-americano com desdobramentos em outros crimes organizados”, conta Heitor Dhalia, criador e diretor-geral da série, em um comunicado.

História

Com oito episódios, a produção brasileira se desenrola após um assalto de enormes proporções atingir a instalação de uma seguradora de valores em Ciudad del Este.

Com os responsáveis pelo crime ainda em liberdade, os policiais federais da delegacia de Foz do Iguaçu iniciam uma investigação complexa, seguindo pistas que conectam criminosos de ambos os países não apenas nesse roubo, mas também em outros atos criminosos.

Caso Real

Em abril de 2017, ocorreu um crime em Ciudad del Este, cidade fronteiriça com Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, na Argentina. Um grupo composto por 50 indivíduos invadiu a sede de uma empresa de transporte de valores, detonou um cofre e subtraiu aproximadamente R$ 125 milhões.

A abertura do cofre foi realizada pelo grupo utilizando explosivos e fuzis antiaéreos, sendo os perpetradores afiliados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O assalto estendeu-se por mais de três horas, sendo parte da ação registrada em vídeos amadores.

Elenco

Com Maeve Jinkings (O Som ao Redor) como a protagonista Suellen e Rômulo Braga (O Rio do Desejo) no papel de Benício, o elenco de DNA do Crime também apresenta renomados talentos do cinema nacional, incluindo Thomás Aquino (Os Outros) como Sem Alma e Guilherme Faria (Irmandade) interpretando Toreto. Além disso, integram o elenco Miguel Nader (Impuros) e Pedro Caetano (O Diabo Mora Aqui).

















segunda-feira, 31 de março de 2025

Araya (1959), o filme

"Araya" (1959). Margot Benacerraf. Poema visual de la sal. Francisco Huertas Hernández

Araya - Hombre en montaña blanca
Filme disponível aqui

Raras películas son una cosmogonía. "Araya" de Margot Benacerraf (1926-2024)  lo es. En este aparente documental -"narración poética" según la directora- se cuenta el origen del mundo. Sobre la fastuosa música de Guy Bernard (1907-1979) - con influencia de Bernard Herrmann- despunta el cielo, el agua, la tierra yerma. "Sobre esta tierra nada crecía" declama el narrador. Deslumbrantes imágenes en blanco y negro del director de fotografía Giuseppe Nisoli. "Y todo allí era desolación... Y la vida toda venía del mar". Surge la sal de las olas al batir la arena: "Y de las bodas del mar y del sol nacía la sal sobre esta tierra". "Un día unos hombres desembarcaron sobre estas tierras áridas donde nada crecía... llamaron a estas tierras: Araya". Este es el inicio de una película donde la belleza de la naturaleza y el sufrimiento del trabajo alcanzan una pureza jamás vista en la historia del séptimo arte. La directora de Caracas filmó en su segunda obra los trabajos y los días de los salineros y pescadores del pueblo de Araya, estado de Sucre, al norte de Venezuela. Con la cámara desplazándose en panorámicas amplias asistimos a las labores de extracción, limpieza y transporte de la sal de cientos de hombres y mujeres en un ritual que se repite desde hace siglos sin cambios. "En ese tiempo la sal era tan preciada como el oro". "Tanta fue la fama de Araya, que el rey para defenderla contruyó una fortaleza, la segunda de las Indias Occidentales". De la naturaleza emerge la historia humana con sus construcciones de piedra, sus técnicas para la guerra y la defensa. La cámara asciende y desciende por las piedras de la fortaleza y el narrador relata la demolición del edificio. "Bajo el sol implacable, bajos los duros cielos, ¿qué queda de Araya?" "450 años han pasado desde aquel descubrimiento hasta este amanecer. Un amanecer más, igual a tantos otros, sobre la sal, sobre el viento, sobre la tierra seca de Araya, un día más va a comenzar". Con este lenguaje de resonancias bíblicas termina la majestuosa introducción de la película.

Araya - Cielo intro

Araya - Mar intro

Araya - Tierra yerma intro

Araya - Cactus Intro

Araya - Conchas rocas mar intro

Araya - La sal nace intro

Araya - Fortaleza contrapicado

Una fortificación humana para defender a unos humanos de otros. Si la tierra es estéril más estériles son los designios humanos: robar, matar. La sal fue botín para los colonizadores españoles que saquearon las riquezas naturales que encontraron en el continente "encubierto", que no "descubierto". Los fuertes defensivos frente a las incursiones inglesas y los piratas (filibusteros) olvidaron siempre a los pueblos sometidos y desposeídos de su medio natural

Los trabajos y los días: Vista aérea de las pirámides (pillotes) de sal. Hileras ordenadas de seres humanos transportan cestas (maras) de sal. "Son las seis de la mañana. Bajo el primer sol ya están los hombres de Araya en la entrega diaria de su sal". Los hombres sacan la sal de la laguna. El ritual de la sal, hoy como ayer, con la sola fuerza de los brazos y las palas. El trabajo, condición humana que transforma la naturaleza en mercancía, aún no distingue al individuo de la masa. Vemos fuerza de trabajo, lo que venden los trabajadores a los capitalistas por un salario en dinero. El primer salario fue la sal (salarium) "Oro blanco del mar. Sal lavada con el sudor de los hombres. Sal de los salineros. Duro cristal del viento". Hasta ahora el film únicamente ha ofrecido panorámicas (naturaleza), planos generales (trabajo), pero no ha alumbrado el primer plano (individuo). Y la cámara, sin embargo, va acercándose pausadamente al cuerpo, al rostro. Una celebración solar de la belleza, la fuerza de los cuerpos, que conecta con "Tabu: A Story of the South Seas" (1931) de F. W. Murnau, y "Olympia" (1938) de Leni Riefenstahl. "Gestos siempre idénticos. Noria de la sal y del tiempo, que no se detienen jamás". Las mujeres empaquetan y cosen los sacos de la sal. Luego, en camiones, la sal es llevada a los barcos.

El texto escrito por Benacerraf y el poeta Pierre Seghers (1906-1987) -recitado por el dramaturgo José Ignacio Cabrujas (1937-1995) en la versión original, y Laurent Terzieff (1935-2010) en la francesa- acompaña el movimiento repetido durante siglos de las labores manuales con la constancia de Sísifo, en una tarea que nunca cesa: el salinero siempre tiene que volver a subir el pillote con su mara de sal, una y otra vez. 

La familia (los Pereda): "En la salina, cada familia trabaja en equipo. Los Pereda son cuatro. Fortunato tiene 25 años. 15 años ayudando a Beltrán en la entrega. 15 años de noches sin sueños. A Fortunato, le sigue César. Y César tiene 9 años, y un porvenir de sal delante de él. Toñico es el menor, y éste será el único recuerdo de su infancia". De la masa indiferenciada de la fuerza de trabajo brota la familia, no como unidad de afecto sino de producción. La abominable lacra del trabajo infantil se muestra con la naturalidad con que la explotación oculta su rostro en máscaras como la "riqueza" y el "progreso". El subdesarrollo de América Latina posibilitó la pervivencia -hasta hoy mismo- de la explotación infantil. Los niños no eran escolarizados ni recibían ninguna protección. Un colonialismo que no se modificó con la independencia de España. Estas salineras de Araya fueron propiedad del Estado o de caciques, pero la situación laboral de los salineros no mejoraba en ninguno de los dos casos.

"Araya" Pillote de sal hombres con maras suben. Transportando las maras de sal a los pillotes. La sal, "el oro blanco del mar"

Araya - Con las palas levantan la sal sacada de la laguna

Araya - Brazos con maras

Araya - Turgentes cuerpos echan las maras rostros

Los cuerpos que se convierten en rostros. Los gestos siempre idénticos del quehacer de los salineros. Todavía la cámara no los ha "individuado", como dicen los filósofos. Es la etapa anterior al nombre personal. Son meramente fuerza de trabajo.

Araya - Cosiendo sacos con aguja

En la "división social del trabajo" de la salina, los hombres extraen, transportan, y las mujeres empacan y cosen los sacos

Araya - César y Toñico niños Pereda trabajando

César Pereda (9 años) y Toñico Pereda (más joven aún) trabajando, extrayendo la sal de la laguna. Ejemplo del trabajo infantil en América Latina

Araya - César (9 años) lleva carretilla con sal

La familia (los Salazar): "Amanece también al otro lado de la laguna. Dámaso Salazar y su hijo Nemesio madrugan para ir, como dicen allá, a "cortar" la sal. Unos van, otros vienen. La salina nunca está sola". Conoceremos también los rostros y los nombres del resto de la familia: Benito Salazar, hermano de Nemesio; Petra Salazar, la madre de ambos, que "ha hecho su vida al pie de los pillotes". 

Araya - Salazar en barca para cortar la sal

Nemesio Salazar. Un primer plano que individualiza (no del todo: no tiene voz) al trabajador. Tener nombre es ser individuo y persona. Los animales salvajes carecen de nombre, son especie solamente. Lo que hace a la persona son su rostro, sus palabras, sus recuerdos y sus anhelos (relatados). Las masas no tienen ninguno de estos atributos humanizadores. 

El "personalismo" del filósofo francés Emmanuel Mounier (1905-1950) distinguió varias características en las "estructuras del universo personal": a) existencia incorpórea. Aunque la persona está sumergida en la Naturaleza, la trasciende, ascendiendo al "personalizarse, y descendiendo al "despersonalizarse"; b) comunicación; c) conversión íntima, en su doble movimiento de recogimiento y exteriorización; d) "enfrentamiento" o "exposición", por los que la persona puede protestar, elegir y conseguir la libertad; e) libertad; f) dignidad; g) compromiso (engagement) que posibilita y hace fecunda la acción. En "Araya" muchas de estas  características están ausentes. El trabajo extenuante lo hace imposible

Araya - Benito Salazar con mara en cabeza

Benito Salazar, el otro hijo de Dámaso, en tierra, con mara de sal. Continúa el proceso de subjetivización de la película, que nunca será excesivo, porque son seres sin voz. Únicamente la cámara les nombra. El nombrarse unos a otros es el primer acto de amor que puede darse. La madre y el padre nombran inmediatamente a su bebé como señal de amor. Nombrándonos nos tratan como personas, y no como cosas. ¡Ay de aquel que no sea nombrado! La explotación laboral, la burocracia, la masa, son fenómenos de des-personalización del individuo, es decir, de in-nominación. Hasta los animales de compañía reciben un nombre como muestra de amor. Sostengo que el amor es pronunciar recíprocamente el nombre de la persona amada en el encuentro personal.

Emmanuel Lévinas (1906-1995), filósofo francés, consideró como principio de su ética de la experiencia del encuentro con el Otro, el encuentro cara-a-cara, la relación inevitable en la que la cercanía y la distancia de la otra persona logran sentirse y tener un efecto. ¡Cómo la deshumanización del trabajo -"el duro quehacer de cada día"- ha impedido al ser humano este encuentro! ¡Qué bien recrea ese tránsito de la panorámica al primer plano -escaso- Margot Benacerraf, el paso de lo impersonal a lo personal!

Araya - Petra Salazar, la madre de Benito y de Nemesio

Los pescadores: "A treinta kms. de allí ya no es la cerrada salina, sino el abierto mar. Amanece también en la playa del Escarceo para los pescadores que regresan de su larga noche en el mar". Al alba las mujeres de los pescadores llegan con sus cestas a esperar el pescado. Isabel, con su hija Carmen, cargarán el pescado que trae Adolfo en su barca, "La Sensitiva". "Todo el alimento de Araya depende de estos hombres, porque en esta tierra nada crece. Y toda vida proviene del mar"

El descanso y el hogar: Acabada la jornada los salineros regresan a sus casas, a veces caminando horas. Vemos las casas, de una extrema pobreza. El camión que reparte el agua llega a la aldea. "Sin manantiales, sin árboles, sin lluvia, Araya es un desierto, y el agua que viene de la costa vecina mitiga apenas una antigua sed".

 Las vendedoras de pescado: Isabel encuentra a su primera cliente, Petra Salazar, la empacadora. Una escena en la que se escuchan las voces atropelladas de las mujeres. Se come, se hacen vasijas de barro (múcuras), se duerme. No hay lugar para la diversión. El sol. El hambre. Dios no da las semillas prometidas a esta tierra estéril. Una tierra que no es más que el borde del mar. "La sal es la única defensa de la vida en Araya". Hay que salar el pescado para que no se pudra. El amor con palabras sencillas, los volantines (papagayos) ondeando al viento, el tiempo detenido y repetido. El cementerio marino, hecho de caracoles y ciriales, donde los muertos son tan silenciosos como los vivos. Y el tiempo se repite y las tareas de los hombres y mujeres. Y una música estridente de metales nos avisa -con imágenes de progreso- del fin de una era, de un mundo...

 "Araya" es poesía. Sus gentes son hermosas como el mar y la sal, pero su tiempo, detenido en el sufrir del trabajo extenuante, se termina. Margot Benacerraf solo hizo dos películas, magistrales ambas: "Reverón" (1952) sobre la vida del pintor venezolano Armando Reverón, y ésta. Llamar "documental" al género que practicó la directora caraqueña es inexacto. "Su" realidad alcanza una elevación lírica que va más allá del origen "neorrealista" de su propuesta. "Realismo mágico" sería una definición más precisa de su obra, entroncándola con la literatura de su tierra americana: las vidas y quehaceres de los humanos que en la pantalla desfilan no solo se funden con la naturaleza, sino que crean, con sus movimientos de cámara delicados, una nueva naturaleza, una nueva realidad, donde la belleza ya no hiere nuestras almas cansadas.

Araya - Mujeres de los pescadores en el alba por la playa

Las mujeres e hijas de los pescadores vienen al alba a esperar la pesca para venderla. Isabel, la mujer de Adolfo, y su hija Carmen, van entre ellas. La "división social del trabajo" (fragmentación o descomposición de una actividad en tareas más elementales, así como su reparto entre diferentes personas, según su fuerza física, habilidad y conocimientos) propia de sociedades preindustriales como ésta se aceleró en el siglo XIX. Las mujeres realizaban tareas complementarias de las de los hombres. En este caso, la recogida y venta del pescado.

Araya - Carmen con su caracola

Araya - Regreso de la familia Beltrán

La familia Beltrán regresa a casa, en Manicuare a 10 km de la salina, tras un día de duro trabajo.

Araya - Camión de agua y mujeres en El Rincón

El camión que reparte el agua en la aldea. Un bien escaso, en una tierra árida.

Araya - Ángelica Ortiz transportando agua en cuba en cabe

Angélica Ortiz transporta agua desde el camión a la casa. Un bello encuadre que me recuerda el famoso plano de la puerta en "The Searchers" (1956) de John Ford

Araya - Isabel vendiendo pescado a Petra Salazar y otras. Corocoro

Isabel vende pescado a Petra Salazar y otras mujeres: corocoro (Haemulon plumierii), chicharra (Trachurus trachurus), carite (Scomberomorus regalis), tajalí (Trichiurus lepturus). La distribución de bienes básicos extraídos del medio natural implica una estructura económica primaria muy simple. Los habitantes de este territorio no tienen acceso a la carne ni a productos de la tierra (verdura, fruta). Su dieta sumamente pobre se compone de maíz y pescado.

Araya - Alfarera anciana

La alfarera que aún no conoce el torno, Luisa Pereda, la hermana de Beltrán, fabricando "múcuras" (recipiente de barro arcilloso de la familia de los cántaros, similar a la botija, de tamaño mediano, con largo y estrecho cuello y pie esferóide como en las ollas. Vasija precolombina usada para recoger, beber y almacenar agua, chicha, cereales).

Araya - Comer en silencio Beltrán Pereda y Luisa alfarera

Araya - Salando pescado tres hombres

Salando el pescado para conservarlo. "La sal es la única defensa de la vida en Araya", con su cerrada (limitada) economía de subsistencia.

Araya - Las múcuras de Luisa secando al sol en la playa

Las "múcuras" de Luisa Beltrán secando al sol en la playa. ¡Cómo Margot Benacerraf crea lirismo con esos "huevos" vacíos de arcilla frente a las olas y con el erial detrás!

Araya - Los enamorados de Manicuare qué se dicen

"Los enamorados de Manicuare, ¿qué se dicen? Se dicen las palabras más simples, las palabras de siempre". Una escueta escena de amor entre volantines (papagayos, barriletes o cometas) ¡Cuánta poesía contiene esta película! Sin artificio ni sentimentalismo.

Araya - Cementerio de conchas

Carmen y su abuela en el cementerio marino. "Aquí duermen los que han llevado tantas maras, pescado tantos peces. Y en este lejano lugar donde las flores se niegan a crecer son los caracoles y los ciriales (madréporas, corales de la familia Oculinidae), esas flores del mar, que las reemplazan". La muerte individual no acaba con esta forma de vida, centenaria, de dependencia absoluta de la naturaleza y del patrón. Sin embargo, la muerte social llega con el progreso.

Araya - Cartel

Araya - Margot Benacerraf rodando entre sacos de sal

Margot Benacerraf dirigiendo junto a Giuseppe Nisoli entre pillotes de sal.

Margot Benacerraf rodando 

Directora de cine, guionista y promotora cultural venezolana. Fundadora de la Cinemateca Nacional de Venezuela en 1966. Autora de dos obras maestras del cine latinoamericano: "Reverón" (1952) y "Araya" (1959)

Araya, Venezuela, 90 minutes

Directed by Margot Benacerraf

Written by Margot Benacerraf, Pierre Seghers

Narrated by José Ignacio Cabrujas, Laurent Terzieff (french edition)

Music by Guy Bernard

Cinematography: Giuseppe Nisoli

Distributed by Milestone Films

Release date: 1959 (Venezuela)

Cannes International Critics Prize. 1959

Comentarios de nuestros lectores:

- Francisco Huertas Hernández: "¿Qué puedo decir de esta obra de arte excelsa? Solo la belleza y la verdad resplandecen en ella, pero hay tanta belleza en ella que la realidad que muestra queda transfigurada. Una belleza que trasciende el terrible sufrimiento de los trabajadores de las salinas de Araya. Hay poesía pero también denuncia, pero no panfleto. La delicadeza de la manera de filmar de Margot Benacerraf es algo coralino o auroral. ¿Por qué fuera de Venezuela, y de algunos estudiosos del cine latinoamericano, no es conocida esta autora genial? Pues por el maldito colonialismo, que parcela el séptimo arte en función de su industria. Venezuela es un gran país, pese al hostigamiento imperialista, y su cine vemos que alcanza la misma altura que el mejor cine francés, japonés, ruso o hollywoodiense. Benacerraf tuvo la mala suerte de ser mujer, venezolana y rodar solo dos películas -y documentales-. Cualquiera de las directoras anglosajonas más populares resultan estudiantes bisoñas a su lado"

- David López Salas: "Conocer estas "rarezas" es prácticamente imposible. Como bien describes en el artículo todos en mayor o menor grado, estamos sujetos a la infame "colonialidad cinematográfica", así que descubrir joyitas como ésta tiene aún más valor. Muchas gracias por dejar el enlace para ver la película. Ya he curioseado un poco el comienzo y sospecho que me va a gustar"

- Franklin Padilla: "Me comprometí con Estrella Millán Sanjuán en escribir sobre Margot Benacerraf y Fina Torres, las dos directoras venezolanas laureadas internacionalmente. Pero quiero investigar, documentarme bien para hacer algo de cierta seriedad. Con Margot es fácil irse por lo anecdótico, ella es como nuestra mamá, fundadora de la Cinemateca, amiga de Henri Langlois y de Picasso, hija de las familias sefarditas caraqueñas de más prosapia. De Fina Torres sé mucho menos. Me gustó "Oriana", pero no "Mecánicas celestes" y algo "Habana Eva". Veremos"

- Franklin Padilla: "¿Qué puedo yo decir sobre esta colocación de "Araya" en FB? Casi que me postro agradecido ante Franciso Huertas Hernández por haberla posteado. ¡Y pensar que yo esperé años para poder verla en mi país, cuando era una leyenda de la que todos hablábamos pero nadie había visto!. Creo que la versión original es la francesa con la voz de Terzieff y fue en los años ochenta cuano se estrenó en Venezuela narrada por José Ignacio Cabrujas, pero no me tomen en serio porque no estoy seguro. El canto del pescador al comienzo y al final del film me estremecen cada vez que veo la película, que gracias a Dios y a la Cinemateca Nacional tengo en DVD. pero esta copia de YouTube es muy decente aunque los subtítulos (comprensibles) molestan un poco. El texto de Huertas no desmerece la película es tan digno como ella y sabe transmitir el aliento poético del film. No, no es un documental. Tampoco es realismo mágico ni lo real maravilloso. Me parece que se mantiene en los parámetros del neorrealismo pero con el elemento poético. Si desean una etiqueta, llamémosla "neorrealismo poético". Muy cercana a "La terra trema", de Visconti. A riesgo de parecer ridículo o cursi, quiero cerrar diciendo que "Araya" es una de las pocas cosas que me hace sentir orgulloso de ser venezolano"

- Víctor M. Sánchez Pacheco: "Además de directora fue la creadora de la Filmoteca Nacional de Venezuela. Junto a Sonia Gómez son dos leyendas del cine latinoamericano, más allá de su sexo. 'Araya' ganó en Cannes la cámara de oro, ex-aequo, junto a 'Hiroshima mon amor'. Ambas marcaron nuevos rumbos en sus cinematografías y continentes"

- Víctor M. Sánchez Pacheco: "Somos un país curioso. Soy un gran amante del cine latinoamericano que adoro más que el de Hollywood mismo. El año pasado tuve la oportunidad de estudiar un máster de cinematografía y muchos de mis compañer@s eran latinoamericanos, y me sorprendió muchísimo lo poco que sabía del cine latinoamericano en comparación de lo que los latinos saben del nuestro. Están al día de todo. Tienen un sentimiento de unión cultural que nosotr@s por alguna razón no queremos tener o, simple y llanamente, no tenemos. Muchos de mis compañer@s españoles decían de la lejanía, a lo que ell@s respondían que había la misma de aquí hacía allá que de allá para acá.

- ¡Cuidado con la cubana!, de la que siento profunda admiración (máster vital en cine de alto nivel), ella engrandecía los debates de las clases cuando los profesores sacaban el listado de las mejores películas del mundo y todas eran norteamericanas y europeas, apenas había dos asiáticas, ninguna de la India o África, y Latinoamérica no existía. Enriquecedoras clases que me ofreció y aprendí a su lado. Sólo era una reflexión a raíz de lo que habéis comentado de no conocer a Margot Benacerraf"

- Alirio Pérez Lo Presti: "Araya es una magnífica película de Margot Benacerraf. Les agradezco mucho a mi amigo Franklin Padilla habérmela hecho llegar vía correo electrónico. Creo que Margot Benacerraf fue una mujer muy respetada y pudo disfrutar sus logros en vida. Se le reconoció tanto como se pudo y estuvo estrechamente vinculada con el liderazgo que ejerció la colonia judía en Venezuela. Muy influenciada por el neorrealismo italiano, la estética del filme va de la mano con ese movimiento artístico. De hecho, sin ambages la incluiría como una película propia del género. Sin llegar a hacer una crítica social directa, respeta las características propias de neorrealismo, siendo de un sensible contenido social que deslumbra. Cada toma es inmaculada, con una fotografía absolutamente impecable. A manera de anécdota, solía ir mucho a Araya y a Paria. La última vez que estuve en Araya, National Geographic estaba haciendo un documental sobre EL FORTÍN de Araya. En ese mismo viaje y siguiendo el progresivo desmantelamiento del fortín, habían sacado una bala de cañón incrustada en uno de sus muros y la estaban vendiendo. En los años ochenta, ese mismo fortín llegó a ser un centro nocturno en donde se presentaban grupos musicales y se bebía y bailaba hasta el amanecer. Después se convirtió un en un prostíbulo, y finalmente terminó siendo el baño público del pueblo. La película Araya termina con la transformación de una a otra sociedad, proceso que nos ha tocado vivir en carne propia. Creo que me reconcilia con mi gentilicio, por ser una película universal, como somos los venezolanos"

- Antonio Pardines: "Magnífico trabajo, Francisco. Muchas gracias por comentar y difundir esta magistral y "exótica flor", como dijo de ella el historiador venezolano Julio Miranda"

- Franklin Padilla: "De hecho, comenté que observaba una estrecha semejanza entre "Araya" y "La terra trema" del Visconti neorrealista, cuando trataba de hacer cine comprometido con el proletariado en su condición de militante del PCI. Luego se dedicó a retratar la burguesía. El episodio de la pesca a medianoche tiene el mismo lirismo del del canto del pescador con que empieza y termina “Araya”, que siempre me estremece. Gracias, Alirio, por valorar el envío y hacer el comentario"

- Estrella Millán Sanjuán: "Sublime película con aire de documental mágico, por decirlo de alguna forma. Bellas imágenes encadenadas, que constituyen un verdadero homenaje a esas mujeres, hombres y niños, que se dejan la piel literalmente en uno de los oficios más duros que existen por unas condiciones climatológicas extremas, debido a la fuerte insolación y contacto con la sal. Yo vivo y trabajo rodeada de marismas y salinas y cada año salgo con mi alumnado a pasear o ir en bici por ellas, para explicar el porqué de ese paisaje roturado y modificado por el ser humano. Es un paisaje muy peculiar, tiene su encanto, no es tan yermo como se narra en esta hermosa película. Sus ecosistemas son distintos a los habituales, pero los hay, la naturaleza es sabia y hace que sus especies se adapten para sobrevivir en medios hostiles y salinos, en este caso. Los pelícanos que salen majestuosos en "Araya" son sustituidos aquí por los imponentes y rosas flamencos.

 Esta película poética dignifica el duro trabajo colectivo y anónimo de estas personas que pasan su oficio de generación en generación, perpetuando sus penosas condiciones laborales y cotidianas, enriqueciendo con sus llagas, sudor y calcetines raídos a sus superiories.

 La sal es un producto natural que se extrae desde el Neolítico y perfeccionada su extracción después por fenicios, romanos y árabes en España. Medio de vida por siglos, tuvo su época de crisis, que obligó a cerrar muchas salinas, debido a otros sistemas de conservación de alimentos y otros factores. La sal ha estado ligada a la vida del ser humano desde que se tiene constancia, un bien preciado que ha sido indispensable. Emotivo regalo para esas incansables personas venezolanas que les hace Margot Benacerraf y que difundió esa luz blanca y brillante por todo el mundo en el Festival de Cannes y que ahora podemos disfrutar también con tu magnífico trabajo, Francisco. Llevaba desde enero queriéndola ver, pero siempre la posponía. Un descubrimiento"

- María Verchili Martí: "Es una hermosa película. Pausada, cotidiana, dura. Poesía visual con espíritu documental y realista. Consigue imágenes muy bonitas. El blanco de la sal le da mucha fuerza estética. Empieza y termina con el medio natural liberado, pero entre medias, el duro trabajo manual va a ser sustituído por uno mucho menos respetuoso... Las máquinas se imponen"

- Franklin Padilla: "¿Verdad que valió la pena, Estrella? Conmovedor comentario. Yo soy bastante sentimental y esas imágenes de Nemesio y de su madre, rostros curtidos, severos, callados, me hacen llorar hasta cuando las recuerdo. Hace años fuimos a Araya durante el Congreso Venezolano de Psiquiatría celebrado en Cumaná, la capital del estado (Sucre) y recuerdo que desde el barco ¡el agua de mar se veía rosada, por los cristales de sal que refractaban la luz y producían miles de microarcoiris!"

- Estrella Millán Sanjuán: "Franklin Padilla, ¡qué bonito haber estado allí! Ese color rosado lo dan un mini crustáceo y un alga que habitan en las salinas. Es precioso de ver. Es el que da el color rosa a los flamencos, pues se alimentan de esos crustáceos (artemia salina)"

- Franklin Padilla: "¡Gracias, Profe! Es una ilusión óptica porque sólo se ve de lejos, desde el barco. Al acercarse a la península de Araya el agua de mar recobra como es lógico, su transparencia"

Araya (Venezuela)