quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O GATO PRETO

Edgar Allan Poe, 1847

Para a narrativa sumamente extravagante e contudo sumamente trivial em que
tomo da pena, não espero nem peço crédito. De fato, louco seria eu de esperar tal
coisa, num episódio em que até meus próprios sentidos rejeitam o que
testemunharam. Contudo, não estou louco — e, decerto, tampouco estou
sonhando. 

Mas amanhã morrerei e hoje quero desafogar minha alma. Meu
propósito imediato é expor diante do mundo, de modo direto, sucinto e sem
comentários, uma série de simples eventos domésticos. Por suas consequências,
esses eventos me aterrorizaram — torturaram — destruíram. Contudo, não farei
uma tentativa de explicá-los. Para mim, pouco representaram além do Horror —
para muitos, parecerão menos terríveis do que barrocos. Num futuro próximo,
talvez, algum intelecto haverá de surgir para reduzir minha fantasmagoria ao
lugar-comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico e muito menos excitável
do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias por mim detalhadas com
assombro, nada mais do que uma ordinária sucessão de causas e efeitos
perfeitamente naturais.

Desde a infância sempre me fiz notar pela docilidade e humanidade de meu
temperamento. Minha ternura de coração era de fato tão evidente que me tornava
objeto de troça de meus companheiros. Tinha particular afeição por animais e fui
mimado por meus pais com uma grande variedade de bichos de estimação. Com
eles passava a maior parte do tempo e nunca me sentia tão feliz como nas ocasiões
em que os alimentava e acariciava. Essa peculiaridade de caráter acompanhou-me
ao crescer e, mais tarde, quando me tornei um homem, dela extraía uma das
minhas principais fontes de prazer. Para aqueles que acalentaram afeição por um
cão fiel e esperto, dificilmente preciso me dar o trabalho de explicar a natureza ou
a intensidade da satisfação que disso pode advir. Há qualquer coisa no amor
altruísta e abnegado de uma criatura bruta que cala fundo no coração de quem
muitas vezes já teve ocasião de experimentar a amizade mesquinha e a fidelidade
impalpável do mero Homem.

Casei-me cedo, e tive a felicidade de encontrar em minha esposa uma disposição
não incompatível com a minha própria. Observando meu apreço pelos animais
domésticos, ela não perdia a oportunidade de obter os tipos mais agradáveis.
Tivemos pássaros, peixes dourados, um ótimo cão, coelhos, um macaquinho e um
gato. Este último era um animal notavelmente grande e belo, todo negro, e esperto em
um grau espantoso. Falando de sua inteligência, minha esposa, que no fundo não
era pouco imbuída de superstição, fazia frequente alusão à antiga crença popular
que via em todos os gatos pretos bruxas disfarçadas. Não que em algum momento
falasse a sério nesse sentido — e não toco no assunto por nenhum outro motivo
além de acontecer, bem agora, de me vir à memória.
Pluto — esse o nome do gato — foi meu bicho e companheiro favorito. Somente
eu o alimentava, e ele me seguia pela casa aonde quer que eu fosse. Era mesmo
com dificuldade que conseguia impedi-lo de seguir-me pelas ruas.
Nossa amizade durou, desse modo, por vários anos, durante os quais meu
temperamento geral e caráter — por obra do Demônio da Intemperança —
experimentaram (coro em confessar) uma radical alteração para pior. Tornei-me, a
cada dia, mais taciturno, mais irritável, mais sem consideração pelos sentimentos
alheios. 

Permitia-me o uso de uma linguagem destemperada com minha mulher.
Por fim, cheguei até a ameaçá-la de violência física. Meus bichos, é claro, também
sofreram com minha mudança de disposição. Eu não só os negligenciava, como
também os maltratava. Por Pluto, entretanto, ainda mostrava suficiente
consideração para me abster de infligir-lhe maus-tratos, como fazia com os
coelhos, o macaco ou mesmo o cão, quando, por acidente, ou talvez por afeto,
entravam em meu caminho. Mas a doença ganhou corpo em mim — pois que
doença se compara ao Álcool? — e no fim até mesmo Pluto, que a essa altura
estava ficando velho e, consequentemente, um tanto malcriado — até mesmo Pluto
começou a experimentar os efeitos de meu temperamento irascível.

Certa noite, voltando para casa, muito embriagado, de uma de minhas tavernas
pela cidade, julguei que o gato evitava minha presença. Agarrei-o; nisso, em seu
medo de minha violência, ele me infligiu um leve ferimento na mão com os dentes.
A fúria de um demônio apossou-se instantaneamente de mim. Eu não mais me
reconhecia. Minha alma original pareceu, na mesma hora, levantar voo de meu
corpo; e uma malevolência mais do que diabólica, inflamada a gim, convulsionou
cada fibra de meu corpo. Tirei do bolso do colete um pequeno canivete, abri-o,
agarrei o pobre animal pela garganta e deliberadamente arranquei um de seus
olhos da órbita! Coro, enrubesço, estremeço conforme descrevo a abominável
atrocidade.


Quando a razão me voltou pela manhã — após ter dissipado no sono os vapores
do desregramento noturno — experimentei um sentimento que era parte horror,
parte remorso pelo crime do qual era culpado; mas foi, quando muito, um
sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu intocada. Voltei a mergulhar em
excessos e não tardei a afogar na bebida qualquer lembrança do ato.
Entrementes, o gato lentamente se recuperou. A órbita do olho perdido
apresentava, é verdade, uma aparência assustadora, mas ele não parecia sentir
mais dor alguma. Andava pela casa como de costume, mas, como era de esperar,
fugindo aterrorizado à minha aproximação. Restava-me suficiente de minha antiga
afeição para que no início ficasse magoado com esse evidente repúdio de parte de
uma criatura que outrora tanto me amara. Mas esse sentimento em breve deu
lugar à irritação. E então sobreveio, como que para minha ruína final e irrevogável,
o espírito da PERVERSIDADE. Desse espírito a filosofia não se ocupa. Contudo, não
tenho tanta convicção sobre a existência de minha alma quanto tenho de que a
perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano — uma das
indivisíveis e primordiais faculdades, ou sentimentos, que orientam o caráter do
Homem. Quem nunca se pegou, uma centena de vezes, cometendo algum ato vil ou
tolo sem nenhum outro motivo além de saber que não deveria? Não mostramos
uma perpétua inclinação, malgrado todo o nosso bom-senso, a violar essa coisa que
chamamos Lei, meramente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de
perversidade, como disse, veio para minha ruína final. 

Foi esse inescrutável anseio da alma de atormentar a si mesma — de violentar sua própria natureza — de cometer o mal em nome do mal simplesmente — que me impeliu a continuar e finalmente consumar o agravo que já infligira à inofensiva criatura. 

Certa manhã, a sangue frio, passei um laço em torno de seu pescoço e o enforquei no galho de uma árvore; — enforquei-o com as lágrimas brotando de meus olhos, e com o remorso mais amargo no coração; — enforquei-o porque sabia que me amara, e porque sentia que não me dera o menor motivo para ressentimento; — enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado — um pecado mortal que poria minha alma imortal em perigo a ponto de deixá-la — se tal coisa era possível — fora de alcance até da misericórdia infinita do Deus Mais Misericordioso e Mais
Terrível.

Na noite do dia em que perpetrei essa cruel infâmia, fui despertado do sono
pelos gritos de fogo. As cortinas de minha cama estavam em chamas. A casa toda
ardia. Foi com grande dificuldade que minha esposa, uma criada e eu próprio
conseguimos escapar da conflagração. A destruição foi completa. Todas minhas
posses terrenas foram consumidas e entreguei-me dali em diante ao desespero.
Não cedo à fraqueza de tentar estabelecer uma sequência de causa e efeito entre
o desastre e a atrocidade. Mas estou descrevendo uma cadeia de eventos — e não
desejo deixar de fora nem sequer um possível elo. Certo dia após o incêndio fiz
uma visita às ruínas. As paredes, com exceção de uma só, haviam desabado. Essa
exceção consistia de uma parede divisória interna, não muito grossa, mais ou
menos no meio da casa, contra a qual ficava recostada a cabeceira de minha cama.

O reboco havia, em grande parte, resistido à ação do fogo — ocorrência que atribuí
ao fato de ter sido recentemente aplicado. Em torno dessa parede uma compacta
multidão havia se reunido e muitas pessoas pareciam examinar uma área
particular dela com atenção extremamente minuciosa e intensa. As palavras
“estranho!”, “singular!” e outras expressões similares atiçaram minha curiosidade.
Acerquei-me e vi, como que gravado em bas relief sobre a superfície branca, a
figura de um gigantesco gato. A imagem se estampava com uma precisão
realmente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.
Quando contemplei a aparição — pois como menos que isso eu dificilmente
podia encará-la — minha admiração e meu terror foram extremos. Até que enfim a
reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei, fora enforcado em um jardim
adjacente à casa. Ao alarme de incêndio, esse jardim fora imediatamente tomado
pela multidão — e alguém ali devia ter cortado a forca e jogado o animal por uma
janela aberta dentro do meu quarto. Isso provavelmente fora feito com o intuito de
me despertar de meu sono. A queda de outras paredes comprimira a vítima de
minha crueldade na massa da alvenaria recém-aplicada; a cal do reboco, sob a ação
do fogo, combinara-se ao amoníaco da carcaça para executar o esboço tal como eu
o via.

Embora desse modo procurasse eu prontamente prestar contas a minha razão,
quando não, na medida do possível, a minha consciência, pelo fato alarmante que
acabo de descrever, isso tampouco deixou de causar uma profunda impressão em
minha imaginação. Por meses não consegui me libertar da imagem fantasmagórica
do gato; e, durante esse período, voltou-me ao espírito um sentimento vago que
parecia, mas não era, remorso. Cheguei a ponto de lamentar a perda do animal, e
de procurar, nas sórdidas tavernas que agora me habituara a frequentar, outro
bichano do mesmo tipo, e de aparência algo similar, com o qual suprir seu lugar.
Certa noite, enquanto eu me sentava, meio entorpecido, num antro dos mais
infames, minha atenção foi subitamente atraída por um objeto negro, repousando
sobre a tampa de um imenso tonel de gim, ou rum, que constituía a principal peça
de mobília do ambiente. Eu estivera a olhar fixamente para a tampa desse tonel por
alguns minutos, e o que agora causava minha surpresa era o fato de não ter
percebido antes o objeto que estava sobre ele. Aproximei-me e o toquei com a mão.
Era um gato preto — muito grande — tão grande quanto Pluto, e muito parecido
com ele em todos os aspectos, exceto um. Pluto não tinha um único pelo branco em
todo o seu corpo; mas esse gato exibia uma mancha branca enorme, embora
indefinida, a lhe cobrir toda a região do peito.

No momento em que o toquei, ele se levantou de imediato, ronronou
audivelmente, esfregou-se em minha mão e pareceu deliciado com a atenção
concedida. Aquela, então, era exatamente a criatura que eu estava procurando.
Ofereci-me na mesma hora para adquiri-lo junto ao dono; mas o homem afirmou
que não lhe pertencia — que nada sabia do bicho — nunca o vira antes.
Continuei com minhas carícias e quando me preparava para voltar para casa o
animal evidenciou disposição de me acompanhar. Permiti que o fizesse; parando
ocasionalmente e dando-lhe tapinhas carinhosos conforme andava. Quando
cheguei em casa, ficou à vontade na mesma hora e imediatamente conquistou a
predileção de minha mulher.

De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer
dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém
— não sei dizer como nem por que — sua evidente afeição por mim antes me
repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação
evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de
vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer
algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus-tratos
ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente — muito
gradualmente — comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em
silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.

O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a descoberta, na
manhã subsequente à noite em que o levei para casa, de que, como Pluto, ele
também fora privado de um olho. Essa circunstância, entretanto, apenas o fez
crescer em afeição perante minha esposa, que, como já disse, possuía, em elevado
grau, essa humanidade de sentimentos que outrora havia sido meu traço
característico, e a origem de muitos de meus prazeres mais singelos e puros.
Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim pareceu aumentar.
Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor
compreender. Sempre que me sentava, acomodava-se sob minha poltrona, ou
pulava sobre meus joelhos, cobrindo-me com suas detestáveis carícias. Se eu me
levantava para andar, metia-se entre meus pés e desse modo quase me derrubava,
ou, cravando suas garras longas e afiadas em minha roupa, trepava, desse modo,
até meu peito. Em momentos como esse, embora desejasse com todas as forças
matá-lo de um só golpe, eu era contudo impedido de o fazer, em parte pela
lembrança de meu antigo crime, mas principalmente — que eu o confesse logo de
uma vez — por absoluto pavor da criatura.

Esse pavor não era exatamente o pavor de um mal físico — e contudo me
faltariam palavras para defini-lo de outro modo. Tenho quase vergonha de confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso, tenho quase vergonha de confessar — que o terror e o horror que esse animal me infundia haviam sido aumentados por uma das mais simples quimeras que seria possível conceber.

Minha esposa chamara minha atenção, em mais de uma ocasião, para o caráter da
mancha de pelo branco, da qual falei, e que constituía a única diferença visível
entre o estranho animal e o outro que eu matara. O leitor haverá de recordar que
essa mancha, embora grande, havia se mostrado originalmente muito indefinida;
porém, mediante vagarosas gradações — gradações quase imperceptíveis, e que
por longo tempo minha Razão lutou por rejeitar como fruto da imaginação —,
assumira, finalmente, uma rigorosa precisão de contornos. Era agora a
representação de um objeto que tremo em nomear — e por isso, acima de tudo,
nutria ódio, e pavor, e teria me livrado do monstro caso ousasse — era agora,
afirmo, a imagem de uma coisa hedionda — de uma coisa macabra — do
PATÍBULO! — ah, pesaroso e terrível maquinismo de Horror e de Crime — de
Agonia e de Morte!

E agora eu estava de fato desgraçado para além da desgraça da mera
Humanidade. E uma criatura bruta — cujo semelhante eu matara
desprezivelmente — uma criatura bruta engendrara para mim — para mim, um
homem, feito à imagem do Deus Altíssimo — tamanho e insuportável suplício! Ai
de mim! nem de dia, nem de noite, conhecer a bênção do Descanso! Durante o dia,
a criatura não me deixava mais um momento sozinho; e, à noite, eu acordava, de
hora em hora, com pesadelos de indizível medo, para dar com o hálito quente da
coisa sobre meu rosto, e seu vasto peso — a encarnação de um Súcubo que eu era
impotente para repelir — oprimindo eternamente meu coração!

Sob a pressão de tormentos como esses, o tênue resquício do que havia de
bondade em mim cedeu. Pensamentos malignos tornaram-se meus únicos
companheiros — os pensamentos mais negros e malignos. Meu temperamento
habitualmente taciturno evoluiu num ódio por todas as coisas e por toda a espécie
humana; ao passo que das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de uma
fúria à qual eu agora cegamente me abandonava minha resignada esposa, ai de
mim!, era a mais habitual e a mais paciente das vítimas.

Certo dia ela me acompanhava, em algum serviço doméstico, ao porão da velha
casa que nossa pobreza nos compelia a ocupar. O gato me seguiu pelos íngremes
degraus e, quase me fazendo cair de frente, exasperou-me ao ponto da loucura.
Erguendo um machado, e esquecendo, em minha ira, o pavor infantil que até então
detivera minha mão, dirigi um golpe contra o animal que, sem dúvida, teria se
provado instantaneamente fatal caso houvesse descido como eu desejara. Mas o
golpe foi interrompido pela mão de minha esposa. 

Instigado por essa interferência numa fúria mais do que demoníaca, libertei meu braço e enterrei o machado em seu cérebro. Ela tombou morta imediatamente, sem um gemido.
Executado o assassinato hediondo, procedi incontinente, e com total
determinação, à tarefa de ocultar o corpo. Eu sabia que não poderia removê-lo da
casa, de dia ou de noite, sem o risco de ser observado pelos vizinhos. Inúmeros
planos passaram por minha mente. A certa altura, pensei em cortar o cadáver em
pequenos pedaços e destruí-los no fogo. Em outro momento, resolvi cavar um
buraco para enterrá-lo no chão do porão. 

Depois, considerei a possibilidade de jogá-lo no poço do quintal — ou de fazer um embrulho e encaixotá-lo, como se fosse uma mercadoria, tomando as usuais providências, de modo que
um carregador viesse levá-lo da casa. Finalmente, ocorreu-me um expediente que
julguei muito melhor do que todos esses. Decidi emparedá-lo no porão — como
ouvira dizer que os monges da Idade Média faziam com suas vítimas.
Para um tal propósito o porão se prestava bem. Suas paredes eram construídas
sem firmeza, e haviam recentemente recebido uma camada grosseira de reboco,
que a umidade do ambiente impedira de endurecer. Além do mais, numa das
paredes havia uma saliência, causada por uma falsa chaminé, ou lareira, que fora
preenchida, de modo a se parecer com o restante do porão. Não tive dúvida de que
seria capaz de remover facilmente os tijolos nesse lugar, inserir o cadáver e
reconstruir a parede como antes, de modo que olho algum detectasse algo
suspeito.

E nesse cálculo não me equivoquei. Utilizando um pé de cabra, desloquei
rapidamente os tijolos e, após escorar o corpo cuidadosamente contra a parede
interna, mantive-o nessa posição, enquanto, com pouca dificuldade, refazia toda a
estrutura como se mostrava originalmente. Tendo buscado argamassa, areia e
crina, com todas as precauções possíveis, preparei um reboco que fosse
indistinguível do antigo, e com ele procedi muito diligentemente à obra da nova
alvenaria. Após terminar, observei satisfeito o trabalho bem-feito. A parede não
apresentava o menor sinal de ter sido perturbada. Recolhi o entulho no chão com
cuidado mais do que minucioso. Olhei em torno em triunfo e disse comigo mesmo
— “Aí está, pronto, meu trabalho não foi em vão”.

Meu passo seguinte foi procurar pelo causador de tamanha desgraça; pois eu
havia, enfim, chegado à firme determinação de matá-lo. Tivesse eu sido capaz de
encontrá-lo naquele momento, não resta dúvida sobre qual teria sido seu destino;
mas ao que parecia a criatura astuciosa se alarmara com a violência de minha fúria
precedente e evitava aparecer em meu presente estado de espírito. É impossível
descrever, ou imaginar, a profunda, jubilosa, sensação de alívio que o sumiço do
detestado animal ocasionou em meu peito. Ele não apareceu durante a noite — e
assim, por uma noite, ao menos, desde que fora trazido à casa, dormi um sono
profundo e tranquilo; sim senhor, dormi, mesmo com o fardo do assassinato em
minha alma!

O segundo e o terceiro dia se passaram, e ainda nem sinal de meu algoz. Eu
voltava a respirar como um homem livre. O monstro, aterrorizado, fugira do lugar
para sempre! Eu não o veria nunca mais! Minha felicidade era suprema! A culpa
por meu ato tenebroso pouco me perturbava. Umas poucas perguntas haviam sido
feitas, mas foram respondidas prontamente. Até mesmo uma busca fora
empreendida — mas é claro que nada se descobrira. Eu contemplava minha futura
felicidade como assegurada.

No quarto dia após o crime, uma equipe policial veio, um tanto inesperadamente,
ter à minha porta, e procedeu mais uma vez a uma rigorosa investigação da casa.
Confiante, entretanto, na inescrutabilidade de meu esconderijo, mostrei grande
desembaraço. Os policiais instaram que os acompanhasse em sua busca. Não
deixaram um único vão ou recesso por examinar. Finalmente, pela terceira ou
quarta vez, desceram ao porão. Não tremi um músculo sequer. Meu coração batia
tão calmamente como o de alguém no sono da inocência. Andei pelo porão de
ponta a ponta. Cruzei os braços sobre o peito e perambulei para cá e para lá,
tranquilo. Os policiais se deram totalmente por satisfeitos e se prepararam para ir embora.
A exultação em meu coração era forte demais para ser reprimida. Eu ardia
por dizer nem que fosse uma palavra, a título de triunfo, e tornar duplamente
garantida sua certeza de minha inocência.

“Senhores”, disse eu, enfim, quando os homens subiam pela escada, “alegra-me
ter-lhes aplacado as suspeitas. Desejo saúde a todos, e lhes apresento mais uma vez
meus respeitos. A propósito, senhores, esta — esta é uma casa muito bem
construída.” (Em meu incontrolável desejo de dizer o que quer que fosse com
naturalidade, eu mal fazia ideia do que falava.) — “Devo dizer, uma casa
excelentemente bem construída. Estas paredes — já vão, senhores? — estas
paredes são obra sólida”; e nisso, no pleno frenesi de minha bravata, bati
fortemente, com a bengala que levava na mão, exatamente naquela parte da
alvenaria atrás da qual jazia o cadáver de minha amantíssima esposa.
Mas queira Deus me proteger e livrar das presas do Príncipe das Trevas! Nem
bem a reverberação de minhas batidas mergulhou no silêncio, fui atendido por
uma voz vinda da tumba! — por um gemido, inicialmente abafado e fraco, como de
uma criança a soluçar, e depois se dilatando rapidamente em um grito longo,
elevado e contínuo, inteiramente anômalo e inumano — um uivo — um guincho
lamurioso, metade horror e metade triunfo, tal como só poderia ter brotado do
inferno num esforço combinado das gargantas dos condenados em sua agonia e
dos demônios que exultam na danação.

De meus próprios pensamentos é tolice falar. Desfalecendo, cambaleei para a
parede oposta. Por um instante, os policiais na escada permaneceram imóveis,
num paroxismo de terror e perplexidade. No instante seguinte, uma dúzia de
braços vigorosos avançava contra a parede. Ela veio toda abaixo. O cadáver, já
grandemente decomposto e coberto de crostas de sangue, surgiu ereto ante os
olhos dos presentes. Em sua cabeça, com a boca vermelha escancarada e um olho
solitário de fogo, estava a hedionda criatura cuja astúcia me levara ao assassinato,
e cuja voz delatora me condenara à corda do carrasco. 

Eu emparedara o monstro dentro da tumba!
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EDGAR ALLAN POE
CONTOS DE IMAGINAÇÃO E MISTÉRIO
ILUSTRAÇÕES DE Harry Clarke
TRADUÇÃO DE Cássio de Arantes Leite
PREFÁCIO DE Charles Baudelaire

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