domingo, 6 de fevereiro de 2022

Fim da epidemia na Dinamarca

O que o fim da epidemia na Dinamarca diz sobre o Brasil
País europeu acaba com restrições, mas taxa de morte é parecida com a brasileira

Vinicius Torres Freire, FSP, 05/02/2022

A Dinamarca liberou geral. Em 1º de fevereiro, foi o primeiro país europeu a acabar oficialmente com a exigência de máscara em lugar fechado e transporte público, com passaporte de imunidade, com limite de aglomeração, com tudo. A epidemia de Covid deixou de ser "ameaça socialmente crítica". Essa conversa em breve vai chegar por aqui, avacalhada, como de costume.

Apesar do fim da situação de emergência, por estes dias se morre tanto de Covid na Dinamarca quanto no Brasil, em termos relativos. São pouco mais de 3 mortes diárias por milhão de habitantes. O morticínio por agora só não é maior do que o de janeiro de 2021. O número de casos da doença jamais foi tão alto. O que acontece no reino da Dinamarca?

A Dinamarca é diferente, irmão, é muito mais do que um sonho, como diria o cantor. Tem o tamanho do estado do Rio de Janeiro e 5,8 milhões de habitantes, metade da população da cidade de São Paulo. É um país exótico: um dos dez mais ricos, o segundo mais feliz e um dos 15 mais igualitários do mundo.
A chefe do governo é mulher, a premiê social-democrata Mette Frederiksen, 44.

Em "Borgen", série dinamarquesa de TV, a primeira-ministra da ficção lava uma louça quando chega em casa depois do trabalho —se não é verdade, é bem provável. Aqui, temos um monstro imbecil que espalha farofa, estoura o cartão de crédito do governo, é inimigo da vacina e anda de moto aquática rindo dos mortos. É mais fácil administrar uma crise sanitária em país pequeno e civilizado do que na imensidão de misérias revoltantes do Brasil. Mas há mais.

A evolução do número relativo de mortes não diz tudo sobre a situação e o destino da epidemia, claro. Neste início de fevereiro, havia 30 pessoas internadas em UTIs dinamarquesas. Na cidade de São Paulo, 375. A dinâmica do vírus é diferente até porque as condições sociais, saúde e educação são outras.
A taxa de vacinação é alta por lá: mais de 81% com duas doses, mais de 61% com reforço. O estado de São Paulo não está tão longe: quase 80% com dose 2, 36% com reforço. Mas a taxa de morte por milhão de habitantes em São Paulo é alta, de 5,4 e os internados em UTI são 4.000. Além do relativo controle da doença, ora "branda", a liberação dinamarquesa foi motivada por uma reconsideração dos prós e contras das restrições: efeitos na economia, no bem-estar geral, psicológico inclusive, e nos direitos e liberdades.

Os consultores do governo dizem também que a estratégia para lidar com a epidemia depende da vontade geral de apoiar restrições. Essa disposição vem caindo; foi maior quando os hospitais estavam cheios, dizem as pesquisas (no Brasil é parecido, numa avaliação impressionista). Por fim, as opiniões a favor e contra restrições mais e mais deixam de ser razoáveis, se entrincheiram e se tornam causas políticas ou de guerra cultural. O cansaço também envenena o debate, a disposição de seguir normas e de confiar no governo. "Deu".

Nos EUA, muitíssimo mais ricos, mas grandes e quase tão desiguais quanto o Brasil, não há administração central da epidemia, que ainda é um massacre, com mais de 7 mortes por milhão. O conflito político-cultural é agudo. A taxa de vacinação americana é menor do que a brasileira. Mais países europeus estão à beira do liberou geral. É o caso de Irlanda e Holanda, ora com baixo número de mortes, e de Reino Unido, França e Finlândia (com taxas de morte parecidas com a do Brasil e com vacinação em duas doses similar, mas com mais do que o dobro de doses de reforço).

Com mais ou menos fundamento, provavelmente muito menos, a conversa do dia da liberação chegará ao Brasil, que não é uma Dinamarca, mas um Estados Unidos miserável.

Em tempo


Fonte: Our World in Data



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