terça-feira, 26 de abril de 2022

Impossível erradicar o corona vírus

É impossível que consigamos erradicar o coronavírus, diz Anthony Fauci 

Do UOL, em São Paulo 26/04/2022

O imunologista Anthony Fauci, principal conselheiro médico do governo dos Estados Unidos para a pandemia, disse, em entrevista ao jornal O Globo, acreditar que é "extremamente improvável, impossível", que o mundo consiga erradicar o novo coronavírus. Segundo ele, isso deve acontecer devido à capacidade do vírus de se modificar. "Vírus como o sarampo, polio e a varíola não sofrem (muitas) mutações, mantêm-se estáveis por muitos e muitos anos. A covid-19, por sua vez, teve cinco variantes (importantes) em dois anos e meio, e a duração da imunidade não é vitalícia, o que nos coloca na situação de uma vacinação periódica, como é com a influenza", explicou ele.

Anthony Fauci é referência no acompanhamento da pandemia nos Estados Unidos Imagem: REUTERS/Jonathan Ernst

Fauci disse esperar que em 2022 e em 2023 o mundo entre num estágio de "controle do vírus" num nível baixo o suficiente para que não seja necessário adotar medidas mais rígidas, que afetem a economia, escolas e eventos. 

"Queremos chegar em um nível em que o vírus não desapareça totalmente, até porque não acredito que isso seja possível, mas que seja algo que não domine mais a sociedade, como o Sars-CoV-2 fez nos dois últimos anos e meio"  Anthony Fauci, em entrevista ao jornal O Globo 

Fauci é cauteloso quando questionado se é possível ser otimista e dizer que o pior já passou. Segundo ele, isso é possível, mas não se pode dizer com certeza que esse é o caso porque sempre há o risco de uma nova variante aparecer. "Já fomos enganados antes, pensamos que o pior tinha passado com a variante original e então apareceu a delta. Então achávamos que tínhamos passado pelo pior com a delta e veio a ômicron. Acredito que há uma grande chance de que o pior já passou, mas não há garantias porque há sempre o risco do aparecimento de uma nova variante." 

Sobre a flexibilização do uso de máscaras, realidade em diversos estados do Brasil, o especialista afirmou ser muito difícil dizer amplamente se é uma boa ideia ou não, citando que, nos Estados Unidos, as autoridades disseram às pessoas que elas precisam avaliar qual é o "seu risco individual".

Ele explica: "Por exemplo, se você é vacinado e tem a dose de reforço, mas é uma pessoa mais velha, com alguma comorbidade, você está em uma posição de grande risco de ter um desfecho grave. Então, faz sentido manter a máscara para ter um grau a mais de proteção. Mas isso não é o mesmo para todos. Para os jovens, saudáveis, em uma posição em que acham ser muito difícil usar a máscara, talvez haja a disposição de passar esse risco extra ao não usá-la. Não é somente uma política ampla, cada um determina qual o seu nível de risco".

Sobre a necessidade da quarta dose — segundo reforço — para todos os adultos, o imunologista destacou que dependerá da dinâmica do vírus em cada país. Ele destaca, no entanto, que, com a ômicron, todos precisam de, ao menos, uma dose de reforço. "Contudo, ainda não sabemos qual a periodicidade desse reforço no futuro, possivelmente teremos que dar anualmente, como a influenza."

Perguntado sobre como lidar com grupos antivacinas, Fauci reconheceu que não há uma solução fácil, mas que é preciso oferecer dados a estas pessoas — eles mostram a importância dos imunizantes para prevenir casos graves da doença, hospitalizações, e evitar óbitos.

"Os dados são muito, muito, claros quando comparamos os níveis de hospitalização e mortes dos não vacinados com pessoas vacinadas e com reforço. A maioria (de casos graves e mortes) é ostensivamente de não vacinados. A diferença entre vacinados e não vacinados é, fortemente, obviamente, em favor do benefício de salvar você mesmo de sérias complicações e morte. Os dados falam por si só. Às vezes, quando mostramos essas informações, as pessoas não acreditam, ou recusam a aceitá-las, não há muito o que fazer quanto a isso. Mas é preciso ser paciente e que sigamos tentando explicar. Não os rejeite, não os culpe porque isso só os aliena do que você está tentando dizer." Anthony Fauci

OMS: testes têm queda de até 90% e mundo vive "cegueira" diante da covid-19

Jamil Chade, 26/04/2022, UOL

A OMS (Organização Mundial da Saúde) alerta que a queda de testes sobre a covid-19 ameaça abrir uma nova crise sanitária e deixa o planeta "cada vez mais cego" diante da pandemia. Em uma declaração feita nesta terça-feira, a agência destacou que o número de mortes pelo vírus atingiu a menor taxa em 25 meses, com 15 mil óbitos. Mas a entidade insiste que a pandemia "não acabou" e pede para que governos continuem monitorando o vírus.

"Estamos recebendo cada vez menos informação sobre número de casos e sequenciamento genético", alertou Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. A queda na testagem varia entre 70% e 90% no mundo, de acordo com Bill Rodrigues, CEO da FIND, a aliança para a promoção de diagnóstico. "Isso significa que estamos cada vez mais cegos sobre o vírus, diante da queda de testagem. O vírus não vai desaparecer só por não olharmos para ele", alertou Tedros. Ao completar dois anos da criação dos mecanismos de distribuição de vacinas e tratamento, ele insistiu que o vírus "continua sendo mortal". "Além disso, não sabemos o impacto de longo prazo", insistiu.

O alerta da OMS ocorre num momento em que a Europa sinaliza que também irá abandonar o status de emergência sanitária e, gradualmente, retirar algumas das principais medidas de controle. Para o chefe de operações da agência, Mike Ryan, o gesto não é "inconsistente" com a realidade da doença na região. Mas insistiu que essa "não é hora de perder o foco". Maria Van Kerhkove, diretora técnica da OMS, também soa o alerta sobre os números que o mundo registra. "Não temos confiança", admitiu. "O vírus continua sendo um problema global. Não é o momento de retroceder", completou. 




Baixa mortalidade da covid-19 na China intriga especialistas

AFP 26/04/2022

A baixa mortalidade - apenas 190 óbitos por mais de meio milhão de infectados - da onda de covid-19 registrada em Xangai, a maior cidade da China, intriga muitos especialistas. Qual é o balanço? O gigante asiático conteve o balanço em menos de 5.000 mortes desde a detecção do coronavírus no final de 2019 na cidade de Wuhan, no centro do país.

Quanto às infecções confirmadas, sobem para 200.000 casos sintomáticos e 470.000 assintomáticos, de acordo com os balanços oficiais. Xangai, a cidade mais afetada do país pela variante ômicron, registra uma taxa de mortalidade de 0,036%, ou seja, 36 mortes por 100.000 infectados desde 1º de março. A taxa é inferior a de países que se tornaram exemplo de gestão da pandemia, como a Nova Zelândia (0,07%). Se Xangai tivesse a mesma taxa de mortalidade que o país da Oceania, a metrópole teria "mais de 300 mortos", diz com ceticismo o epidemiologista Michael Baker, da Universidade Otago, da Nova Zelândia.

Prabhat Jha, epidemiologista da Universidade de Toronto, acredita que a mortalidade do surto atual pode ser "um número muito alto", dado o grande número de idosos não vacinados e a baixa taxa de eficiência dos imunizantes usados no país.

Qual é a explicação? 

Desde o início da epidemia, a China segue uma estratégia de "covid zero" baseada em confinamentos precoces quando casos são detectados e testes maciços para identificar todos os infectados e isolá-los. Este método permite "limitar ao máximo" o contágio e "evitar" uma saturação de recursos médicos que causaria mais mortes, estimou o epidemiologista Wu Zunyou, uma das figuras na luta contra a covid-19 na China. A testagem em grande escala de parte da população também aumenta "as chances de detectar (precocemente) casos assintomáticos" ou leves, de acordo com o virologista Leong Hoe Nam, de Singapura.

De acordo com essa teoria, a distorção não se deve ao número de mortalidade, mas ao de infecções detectadas oficialmente, que seria maior graças a sua estratégia de combate à pandemia.

O que é verdade? 

"Mesmo assim, ainda há uma lacuna entre os casos identificados e as pessoas que acabam doentes e morrem" de covid, diz Baker, sugerindo que o balanço de Xangai pode crescer ainda mais. Em Wuhan, a primeira cidade confinada no início da pandemia, as autoridades revisaram posteriormente o número de mortes para aumentá-lo em 50%. Outra explicação pode ser os "critérios muito rigorosos para classificar as mortes relacionadas à covid-19", aponta Paul Tambyah, presidente da Sociedade de Microbiologia Clínica e Infecção da Ásia-Pacífico. De acordo com este critério, as pessoas com patologias anteriores agravadas pela covid não são incluídas no balanço oficial caso venham a falecer após serem curadas do vírus. Em outros países, a contagem é mais ampla. O Reino Unido, por exemplo, inclui como vítima do vírus qualquer pessoa que tenha morrido dentro de 28 dias após o teste positivo, "incluindo vítimas de acidentes rodoviários", diz Tambyah. Os números na China são "muito políticos", afirma o infectologista Mai He, da Universidade de Washington.

Especialmente nesta crise em que o poder comunista tentou apresentar sua gestão da pandemia como prova da superioridade de seu sistema político autoritário contra os balanços mortais de muitas democracias ocidentais.

Casos não contabilizados? 

A China se mostra "tímida" em relação aos números de mortalidade, comentou à AFP Ariel Karlinsky, conselheiro da OMS na Universidade Hebraica de Jerusalém. Comparar o número de mortes por qualquer causa na China desde 2020 e compará-lo com os anos anteriores à pandemia daria uma visão mais justa da situação, estimou esse especialista. Mas estes números não são públicos e só foram comunicados detalhadamente a "pesquisadores selecionados", lamentou.


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