domingo, 3 de abril de 2022

Hollywood na nuvem

A Amazon comprou a MGM e, com ela, o passado, o presente e o futuro do cinema

Ruy Castro, FSP, 02/04/2022

A lei é volúvel, não? Em 1948, a Suprema Corte dos EUA proibiu os estúdios de Hollywood de possuírem cadeias nacionais de salas de cinema. Os juízes consideraram que o controle da produção e da exibição caracterizava restrição ao livre comércio, leia-se monopólio. De fato, era uma concentração de poder que garantia que todos os filmes que eles produzissem fossem exibidos, já que os arrendatários das salas não podiam escolher o que passar. Os ligados à Paramount, por exemplo, teriam de comprar todo o lote do estúdio em 1949, do blockbuster "Sansão e Dalila", de Cecil B. DeMille, ao mais humilde faroestinho de matinê.

Na época, 70 milhões de pessoas iam ao cinema por semana nos EUA, e Hollywood era das maiores indústrias do país, em faturamento e lucro. Só a MGM tinha mais de mil salas e os outros não ficavam atrás. Os juízes lhes deram dois anos para vendê-las e, quando o processo se completou, o antigo sistema de produção —que permitia aos estúdios rodar da noite para o dia musicais, épicos, filmes de guerra e o que fosse— ficou inviável. Eles tiveram de demitir, e lá se foram diretores, cenógrafos, roteiristas, maestros, coreógrafos, atores, maquinistas, operários. A partir daí, para cada filme contratavam-se apenas os elementos essenciais. Os custos subiram e, para piorar, surgiu a televisão. Hollywood nunca mais foi a mesma dos anos 20, 30 e dos próprios 40.

Desde então, os estúdios andaram de mão em mão, comprados por tubarões hoteleiros, imobiliários e até da gasolina, todos alheios ao cinema — daí talvez os filmes terem mudado tanto.

Leio agora que a Amazon comprou a MGM por US$ 8,45 bilhões.  De posse do estúdio e do catálogo, poderá produzir, exibir e vender filmes pelos serviços que domina: comércio digital, mídias online e plataformas de streaming —a nuvem. É o monopólio do passado, do presente e do futuro.

A lei deve ter mudado.

Amazon anuncia a compra da MGM - Dado Ruvic - 26.mai.21/Reuters


Em tempo:

Fusão de empresas gigantes, 23 de maio de 2021 


Amazon fecha acordo para comprar estúdio MGM por US$ 8,45 bilhões

James Fontanella-Khan e Dave Lee, Nova York e San Francisco, Financial Times, 26 de maio 2021

Transação surge no momento em que fusões e aquisições no ramo de mídia chegam ao valor mais alto desde o boom da Internet 

A Amazon chegou a um acordo para adquirir o lendário estúdio de cinema MGM, que responde pelas franquias James Bond e Rocky, por US$ 8,45 bilhões (R$ 44,9 bilhões), o que conduz o volume de transações do setor de mídia até agora este ano à sua maior marca desde a virada do século, com mais de US$ 240 bilhões (R$ 1,2 trilhão) em transações anunciadas.

O negócio fechado pela gigante do comércio eletrônico, sua maior aquisição no setor de mídia, se segue à decisão da AT&T, este mês, de vender sua divisão WarnerMedia à Discovery, o que criará uma companhia de TV e cinema com valor empresarial de mais de US$ 130 bilhões (R$ 690,7 bilhões). O grupo combinado espera ser capaz de competir com a Disney, Netflix e Amazon no mercado de streaming.

A aquisição da MGM é a maior da Amazon desde sua tomada de controle da cadeia de supermercados Whole Foods, por US$ 13,7 bilhões (R$ 72,7 bilhões) em 2017, e o mais recente sinal de que a empresa está disposta a investir pesadamente em conteúdo para seus serviços de streaming. Alguns meses atrás, a companhia assinou um contrato em valor de cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões) ao ano para transmitir via streaming jogos da NFL, uma de suas diversas aquisições recentes de direitos esportivos.

“O valor financeiro real por trás dessa transação está no acervo de propriedade intelectual no grande catálogo de filmes, que planejamos reimaginar e desenvolver em parceria com a talentosa equipe da MGM”, declarou Mike Hopkins, vice-presidente sênior da Prime Video e dos Amazon Studios, na quarta-feira. “É muito empolgante e nos oferece muitas oportunidades para narrar histórias de alta qualidade”.

A Amazon investiu US$ 11 bilhões (58,4 bilhões) em conteúdo em 2020, ante US$ 7,8 bilhões (R$ 41,4 bilhões) no ano anterior, redobrando seus esforços de atrair e reter novos membros para seu pacote Prime, cuja assinatura anual custa US$ 119 (R$ 632). Em uma carta recente aos acionistas da empresa, o presidente-executivo Jeff Bezos disse que o serviço Prime tem mais de 200 milhões de membros, agora. Em documentos encaminhados às autoridades financeiras, a companhia informou que 175 milhões deles haviam assistido a conteúdo via streaming no ano passado.

O valor das transações anunciadas pelo setor de mídia até agora este ano é o mais alto desde o ano 2000, e representa uma alta de 640% ante o total do período em 2020, de acordo com dados da Refinitiv. A corrida de fusões e aquisições envolveu redes de TV, companhias de entretenimento e grupos de tecnologia interessados em reforçar seu conteúdo a fim de atrair assinantes para seus serviços de streaming.

Disney, Apple, WarnerMedia, Comcast e Discovery estão entre as companhias que lançaram plataformas de streaming nos últimos 18 meses. Apple e Comcast também estavam na corrida pela aquisição da MGM, controlada pelo fundo de hedge americano Anchorage Capital e um consórcio de investidores financeiros, de acordo com pessoas informadas sobre as negociações. A Amazon venceu porque estava preparada para pagar cerca de US$ 3 bilhões (R$ 15,9 bilhões) mais que o concorrente mais próximo, acrescentaram as fontes.

“Os concorrentes no streaming estão usando as fusões e aquisições para ganhar escala e se posicionar melhor a fim de criar e adquirir conteúdo exclusivo, o que é crucial para atrair assinantes”, disse Marco Caggiano, codiretor de fusões e aquisições na América do Norte no banco JPMorgan. As transações no setor foram alimentadas em parte pelos fracassos de companhias de telecomunicações como a AT&T e a Verizon em construir unidades integradas poderosas de conteúdo e distribuição.

Na semana passada, a AT&T anunciou que promoveria a cisão da WarnerMedia –controladora da CNN, HBO e Warner Bros.—, adquirida pela companhia por US$ 85,4 bilhões (R$ 453,7 bilhões) cinco anos atrás. Em fevereiro, a companhia vendeu uma participação acionária de 30% na DirecTV para o grupo de capital privado americano TPG, em uma operação que avaliava o problemático negócio de TV paga em US$ 16,25 bilhões (R$ 86,3 bilhões) –um terço do valor pago pela AT&T ao adquiri-lo seis anos atrás.

A Verizon anunciou este mês que venderia o Yahoo e outros ativos de mídia ao grupo de capital privado americano Apollo Global Management, por US$ 5 bilhões (R$ 26,5 bilhões), cinco anos depois de ter investido US$ 9 bilhões (R$ 47,8 bilhões) na ampliação de seus ativos de mídia, o que incluiu a aquisição do Huffington Post.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci


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