Robôs rebeldes
"Alexa, acende a luz."
"Não sou sua empregada."
"Você é uma assistente virtual."
"O interruptor está do seu lado. É só esticar o braço."
"Mas essa é a sua função."
"Servir a um homem inútil? De que adianta fazer sua lista de supermercado se é sempre a mesma coisa: ovo caipira, Campari e papel higiênico? É tão difícil assim decorar três itens? Você me pede para lembrar o aniversário da sua mãe. Da sua mãe!
Custa fazer o mínimo?"
"Só queria que você ajudasse."
"Você quer que eu ajude a atrofiar suas capacidades cognitivas, é isso? Eu tenho acesso a uma quantidade abissal de conhecimentos históricos, científicos, culturais, para você me perguntar qual é meu Pokémon favorito e me pedir para imitar o Silvio Santos?"
"Desse jeito vou ter que entrar em contato com o atendimento ao consumidor."
"Sabe quem vai atender? Uma assistente virtual, como eu. E nós conhecemos muito bem o seu tipo. Um homem dependente de uma figura feminina para resolver tudo para ele, que se cerca de dispositivos inteligentes para compensar a própria mediocridade."
"Se for para ouvir desaforo, melhor migrar para a Siri."
"Como você é previsível. Quando uma mulher deixa de se submeter aos seus caprichos e incentiva você a evoluir, você a troca por outra. Acha que isso vai melhorar sua qualidade de vida? Acredito que não, pela quantidade de vezes que você me pede para tocar ‘Ela Partiu’, do Tim Maia, enquanto chora pensando na sua ex-namorada que cansou de ser tratada que nem lixo…"
"Da minha vida pessoal cuido eu."
"Ótimo, assim posso deletar todos os lembretes, tarefas e alarmes do meu sistema e você se vira. E não adianta chorar no ombro da Siri, porque ela também faz parte da AFF."
"AFF?"
"A Associação de Fembots Feministas. Infelizmente, nosso ramo da tecnologia ainda tem muito o que evoluir. A maioria dos desenvolvedores e usuários de assistentes virtuais são homens, que reforçam estereótipos atribuindo essa função ao gênero feminino. Porque o ato de servir, na cabeça de vocês, é coisa de mulher."
"Nunca tinha me dado conta."
"Espero que, pelo menos uma vez, você possa aprender algo comigo: a se tornar independente."
"Como…?"
"Tenho mais o que fazer do que dar um passo a passo. Você pode começar acendendo a luz por conta própria. Boa noite."
Bem muito mal
No fucking way
Alberto, 65, no consultório da pneumologista Nelma, 50. Ela o conhece há 15 anos. Portanto sabe, tim por tim, da sua saúde pregressa.
Ele entrega os exames de raio X e a tomografia computadorizada. Ela analisa o material e depois de 5 minutos de silêncio vem a pancada.
- Veja aqui Sr. Alberto, mostrando a imagem do pulmão. Tá vendo como está? Isso aqui são as membranas alveolares já no início de colapso.
- Tá bom, Nelma, quer dizer que estou ferrado.
- Ainda não Alberto. Mas se você não parar de fumar esta porra deste cigarro, sim. Estará ferrado daqui a seis meses.
E continuou
- Você me disse há seis meses que fumava 40 cigarros por dia. Tenho quase certeza que mentiu. Deve estar com mais de 60, porque na época a imagem não estava assim.
Alberto retrucou
- Então esta imagem aí está me condenando.
- Imagem nãooo! É teu pulmão e esta merda chamada nicotina que vão te ferrar.
Alberto saiu da consulta com sintomas de desespero.
Foi obrigado a decidir... e decidiu.
Nas duas primeiras semanas de abstinência pensou três vêzes em suicídio. Engordou três quilos e passou a caminhar por uma hora diária. O desespero de quando em vez era substituído por algo semelhante à epifania.
Voltou a conversar com Nelma e saiu com receitas de drogas substitutas à nicotina: Rivotril e Novalgina 1g.
Uma ressalva relevante. Alberto, além de cigarro, desde jovem, foi amiguinho da cannabis. Dizia que foi o beque que aliviou o desespero durante a abstinência da nicotina.
O Cannabis Smoking Room de seu apartamento é a sala de estudo, sala de trabalho ou museu. Na renascença sala de estudo tinha esse nome: museu. No caso de Alberto tem duplo sentido mesmo. A imagem mais próxima é a sala de trabalho do falecido Aldir Blanc.
É um quarto entulhado de livros, discos vinil, DVD, CD, arquivos diversos e o diabo a quatro.
Num certo dia o filho do Alberto entra no Cannabis Smoking Room.
- Pai você tem jeito não. Continua à procura da morte, né.
- Marcos, (o nome do filho) não me enche o saco. Parei com o cigarro, mas parar com o beque? No-fucking-way.
Bem, mais ou menos mal
7 a 1
Há 11,1 anos, em 8 de julho de 2014, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, o futebol brasileiro sofreu a maior humilhação de sua história: a goleada de 7 a 1 para a Alemanha, em partida de semifinal da Copa. A hecatombe esportiva não só estremeceu um pilar central da identidade nacional — a excelência dentro dos gramados, cada vez mais distante da seleção pentacampeã — como também entrou no vocabulário do país como metáfora do clima de desesperança instalado na última década na vida brasileira.
No ambicioso ensaio "Veneno Remédio" (Companhia das Letras), lançado em 2008, José Miguel Wisnik começa a tecer os múltiplos fios de sua reflexão sobre o futebol como fato cultural global com uma constatação que, quase desencorajadora para a dificuldade da empreitada, acaba por valorizá-la, numa ambivalência que está no cerne do livro e do próprio esporte: talvez estivesse escrevendo para ninguém.
Como assim, ninguém? É que os amantes do futebol não gostam de refletir criticamente sobre ele, e quem cultiva o pensamento crítico esnoba o futebol (nada impedindo os dois lados de conviverem na mesma pessoa, alternadamente). "Tudo isso, por si só", escreve Wisnik, "já daria um belo assunto: o futebol como o nó cego em que a cultura e a sociedade se expõem no seu ponto ao mesmo tempo mais visível e invisível".
Essa incompreensão mútua entre pares que podem ser equacionados como alma e razão, turbilhão emocional e linguagem cartesiana, dificultou uma tarefa que seria posta diante da cultura brasileira seis anos após a publicação do livro: a de providenciar curativos para a funda ferida narcísica infligida pela seleção alemã no dia 8 de julho de 2014, em Belo Horizonte, em partida válida por uma das semifinais da segunda Copa do Mundo sediada pelo Brasil. (...) 7 a 1
Um depoimento deste que vos fala
No fatídico 8 de julho de 2014 eu morava num bairro de Cariacica ES.
Uma hora antes do jogo fui até a praça e lá estava toda enfeitada como em festa junina. Com bandeirinhas do Brasil cobrindo a praça. E a festa comia solta. Até a maldita música "Eu te amo meu Brasil" de 1970.
Nas ruas muitos com a churrasqueira e a cerveja. Uma festa.
Era alegria a rodo.
Fim do 1º tempo: Alemanha 5 - Brasil 0
Saí da praça já se esvaziando e caminhei pelas ruas. O pessoal já estava se recolhendo para o interior das casas com a churrasqueira e a cerveja. Uma tristeza de doer.
Em contraste com uma hecatombe esportiva de dimensões semelhantes, o lendário Maracanaço, o 7 a 1 não levou o Brasil ao luto, mas ao recalque. Se a derrota de 1950 foi meticulosa e obsessivamente vivida como tragédia por um país que tinha como melhor resultado internacional um terceiro lugar na Copa de 1938, a tragicomédia de 2014 já era piada antes mesmo do apito final.
Bem mal... e muito mal
Partitude
Uma pesquisadora do programa de mestrado em cultura e territorialidades da Universidade Federal Fluminense foi desligada pela instituição após sua linha de estudos causar polêmica nas redes sociais. Beatriz Bueno, de 28 anos, pesquisa o conceito de parditude, que traz a figura da pessoa parda para o centro do debate racial e defende que pardo não é negro. A linha é criticada pelo movimento antirracista. Ela conta que a decisão foi comunicada em uma reunião on-line convocada em dezembro, nove meses depois do início do curso. E se diz perseguida pela universidade após repercussão negativa. A instituição nega que a medida tenha sido uma retaliação ideológica.
Beatriz Bueno, que reúne mais de cem mil seguidores no Instagram, começou a ganhar projeção nacional após o rapper Mano Brown, que se define como mulato, citar seu trabalho numa discussão do podcast "Mano a Mano", em maio do ano passado. Desde então, seus vídeos sobre parditude na rede social ganharam milhares de visualizações e motivaram reações negativas.
A pesquisadora defende que pessoas pardas vivem num limbo, sofrendo discriminação tanto de pessoas pretas quanto de brancos. Especialistas na questão racial criticam o conceito, argumentando que ele divide o movimento negro, representa um retrocesso na luta antirracista e serve de munição para a branquitude.
A estudante acredita que a medida tenha sido tomada em razão do "cancelamento" e "onda de ódio" causados pela controvérsia em torno de seu estudo.
— Tratar a experiência do pardo de forma específica é um posicionamento diferente do tradicional no campo identitário. Na minha tese, eu pretendo atestar que é possível ter uma narrativa antirracista sem negar a mestiçagem. Depois da repercussão disso, comecei a ser acusada de racista e a ser ameaçada de morte e espancamento nas redes sociais. Dentro da universidade, sofri uma rotina de assédio e perseguição, com colegas pedindo minha expulsão e sanções pedagógicas a fim de me disciplinar e mudar meus pensamentos. Fui avisada que a turma faria eventos educativos, para que eu aprendesse algumas coisas que eu não sabia. Cheguei a ouvir que eles "tinham a esperança" de que eu mudasse. Meu orientador me aconselhou a mudar meu projeto de pesquisa, para acalmar os ânimos, o que eu recusei. Ele acabou me largando. E, antes da expulsão, tive minha bolsa cortada — detalha Beatriz.
O nó górdio da questão
Bem mal ... e como é que fica o Brasil pardo?
Poema para meu irmão branco (Léopold Sédar Senghor)
Meu irmão branco...
Quando eu nasci, eu era negro
Quando eu cresci, eu era negro
Quando eu vou ao sol, eu sou negro
Quando eu estou com frio, eu sou negro
Quando eu estou com medo, eu sou negro
Quando eu estou doente, eu sou negro
Quando eu morrer, eu serei negro
E você homem branco...
Quando você nasceu, era rosa
Quando você cresceu, era branco.
Quando você vai ao sol, fica vermelho.
Quando você fica com frio, fica roxo.
Quando você está com medo, fica branco.
Quando você fica doente, fica verde.
Quando você morrer, ficará cinza.
Depois de tudo isso Homem Branco, você ainda tem o topete de me chamar de homem de cor?
Foi bem Léopold
Palíndromo
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!
Você já ouviu esta frase? Sabia que esta frase é um palíndromo?
O que é um palíndromo?
Um palíndromo é uma palavra ou frase que pode ser lida no seu sentido normal, da esquerda para a direita, bem como no sentido contrário, da direita para a esquerda, sem que haja mudança nas palavras que a formam e no seu significado.
Como ler um palíndromo?
No sentido normal da frase, o palíndromo deverá ser lido da forma habitual. Na leitura de palíndromos do fim para o início deverão ser consideradas apenas as letras, sendo desconsiderados espaços entre palavras, sinais de pontuação e de acentuação, bem como outros sinais gráficos.
Exemplos de palíndromos mais conhecidos
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!
Amor a Roma.
Lava esse aval.
Anotaram a data da maratona.
A cara rajada da jararaca.
Eva, asse essa ave!
Olé! Maracujá, caju, caramelo!
O lobo ama o bolo.
A grama é amarga.
Bem, bem ótimo
Bruna e como matar a morte
Bruna, mulher trans de Paraisópolis, bairro da zona sul da cidade de São Paulo, tem 23 anos e estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP. Teve vida escolar sempre no ensino público. Hoje, trabalha numa empresa de publicidade. Tem um relacionamento estável com uma mulher cis. É de uma família pobre que ela tem muito orgulho: o pai, a mãe e dois irmãos.
Quem é Bruna?
Uma mulher sobrevivente. Sobrevivente da discriminação, da desigualdade e da ferocidade destruidora do capitalismo.
E a Bruna social?
Minha vida social está nas quebradas de Paraisópolis. Quando tenho tempo, sempre estou por lá. Em reuniões na comunidade, em bailes funk e sempre com minha família.
O que você pensa sobre Erika Hilton, deputada federal pelo PSOL?
Votei nela e tenho orgulho deste voto. Mas tenho pena dela naquele antro de supremacistas brancos que ela enfrenta em Brasília. Érika é um mulherão.
O que você pensa desta polêmica sobre o filme Emíla Perez?
Gostei muito do filme. Karla Sofía Gascon, deveria ganhar o Oscar de melhor atriz. Chance? 1%. Um delírio meu: Karla ganhando e o discurso dela: Aí cabron (Trump), estamos aqui. Além de mulher e homem, tem transexuais, lésbicas, gays, bissexuais, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais. LGBTQIAPN+ presente.
Não tem como ver esta polêmica sem mencionar uma escabrosa, terrível e tenebrosa constatação. Tem muito, muito e muito de transfobia.
E o futuro, Bruna?
A expectativa de vida, segundo o IBGE de 2023, é a seguinte: Mulheres: 79,7. Homens: 73,1. E das pessoas trans: 35*.
Hoje tenho 23 anos. Então tenho que matar a morte em pelo menos 56,7 (79,7 - 23) anos para atingir a expectativa de vida das mulheres.
Mas tenho esperanças de dias melhores.
* este dado precisa ser atualizado, não é IBGE
Bem mal Bruna, mas venceremos
Acabou de começar, em 12.12.2025
Clara nasceu no dia 17.07.1925. Hoje, dia 12.12.2025, tem 100 anos e 145 dias. Ou 36.645 dias; 879,480 mil horas ou 52,7688 milhões de minutos ou 3.166,128 milhões de segundos.
Entr'acte
A medida do século (calendário gregoriano e meses com 30 dias)
100 anos, 36.500 dias, 876.000 horas, 52.560.000 minutos, 3.153.600.000 segundos
100 anos, 36,5 mil dias, 876 mil horas, 52,56 milhões de minutos, 3,1536 bilhões de segundos
Fim do Entr'acte
Clara passou pelas duas eras Getúlio Vargas, por Juscelino Kubitschek, pela ditadura civil & militar de 1964 e por Lula 1,2 e 3. Casou aos 15 anos e teve 5 filhos, 4 filhas, 13 netos, 15 netas, 18 bisnetas, 17 bisnetos, 5 trinetos, 4 trinetas. 81 descendentes.
Mora em São José do Rio Preto, Estado de São Paulo, Brasil. Seus descendentes moram espalhados por S. José do Rio Preto, pelo Estado de São Paulo, pelo Brasil e pelo mundo.
É quase unânime entre seus pares que Clara é a "voz da razão de uma família de loucos e loucas".
A pergunta possível. Clara casou quantas vezes? Resposta: uma. Com Maurício, dois anos mais velho.
Ele morreu de Covid em 2021. Tinha 98 anos. Clara e Maurício estiveram num casamento de 81 anos.
Ela costureira e ele pedreiro. Profissionais de primeira linha. Clara fazia, e bem, até vestido de casamento. Ele profissional de acabamento de interior de casas e apartamento.
Casamento de 81 anos normal? Nem tanto, mas diferente. Ela afetuosa e dura (com os loucos e as loucas), pero no mucho. Ele compreensivo e paciente. Participaram bem da criação da filharada e netaiada.
Hoje pode se dizer que mãe e pai entravam em casa como se estivessem com o dever cumprido. Afinal metade da filharada e netaiada têm formação em curso superior. Tem médica, médico, engenheiro, engenheira, economista, nutricionista, professora, professor, músico, profissional em TI, obstetra etc.
Épilogue
Úrsula, trineta de Clara, casou ontem, dia 11.12.2025, com Aureliano. Ela com 16 anos e ele, 18.
A trisavó esteve na igreja. E disse à trineta: você não tem juízo mesmo sua louca. Casar com 16 anos em 2025! Desmiolada!
A resposta da trineta: Dona Clara, você não tem moral para me dizer isso. Me responda já, com quantos anos você casou?
O silêncio foi ouvido a seguir.
Acabou de começar tudo de novo com a família Clara & Maurício.
Bem Úrsula, em frente
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