terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Rios são pacientes. Até que se revoltam

Trump e a estratégia do hipopótamo

As ações do presidente dos EUA estão a ser recebidas com susto, perplexidade e horror, ameaçando fragmentar ainda mais sua já dividida sociedade

Por José Eduardo Agualusa, 10/01/2026 

Quando os hipopótamos querem marcar e expandir o seu território, entram num rio ou num lago e defecam furiosamente, enquanto agitam a cauda para melhor disseminarem as fezes. Donald Trump e o seu governo parecem estar seguindo estratégia semelhante.

Na última semana tudo foi um frenesi: o sequestro de Nicolás Maduro, mantendo intacto o regime bolivariano, e enfatizando o saque explícito do petróleo, em vez da democratização do país; as insistentes ameaças de anexação da Groenlândia, que estão deixando os antigos aliados europeus entre a ira e o pânico; e o abandono pelos Estados Unidos de 66 organizações internacionais de cooperação entre nações.

Espalhar fezes, abrir a gigantesca bocarra, exibir as enormes presas amarelas, agitar as águas num exaltado alarido, tudo isso é uma estratégia que, no caso dos hipopótamos, costuma dar bons resultados. Não tenho tanta certeza de que produza o mesmo sucesso entre nós, seres humanos. Os hipopótamos sabem exatamente onde começa e termina o seu território, enquanto nós somos constantemente empurrados para uma zona escura, onde excrementos se apresentam como discurso e a brutalidade mais primária faz as vezes de justiça.

Ao transformar cada gesto numa provocação global, a atual administração americana corre o risco de produzir aquilo que nenhum hipopótamo jamais desejaria: um rio inteiro de rivais, antes dispersos, unindo-se para enfrentar um mesmo perigo em comum.

Internamente, as ações de Trump estão a ser recebidas com idêntica perplexidade, susto e horror, ameaçando fragmentar ainda mais a já muito dividida sociedade americana — e o próprio partido de Donald Trump.

O senador democrata Chris Murphy classificou o plano de “gestão” da Venezuela como “completamente insano”: “Eles estão falando em roubar o petróleo da Venezuela por um período de tempo indeterminado.”

Por sua vez, o senador republicano Thom Tillis disse que as ameaças à Groenlândia distraem o público “do bom trabalho do governo”. Ainda segundo Murphy, os “amadores que defendem a anexação da Groenlândia deveriam ser despedidos”.

A acreditar em sondagens recentes, a maioria esmagadora dos cidadãos americanos é contra a anexação da Groenlândia, da mesma forma que se opõe à ideia de que os EUA “governem” — uso aqui uma expressão de Donald Trump — a Venezuela. Infelizmente, a esmagadora minoria que defende tais disparates conseguiu ocupar a Casa Branca.

O frio assassinato de uma mulher, na quarta-feira passada, em Minneapolis, por agentes da polícia de imigração, o temível ICE, agravou o clima de revolta que se vive hoje nos Estados Unidos. Renee Nicole Good, de 37 anos, foi atingida na cabeça dentro do seu carro. Estava desarmada, limitando-se a observar a atuação dos agentes. A Fox News, um canal conhecido pelas suas posições conservadoras, apresentou Renee como uma poeta, que “deixou uma parceira lésbica”. Aparentemente, o fato de Rennee ser poeta, e ainda por cima lésbica, justificaria a atuação do assassino.

Rios são pacientes. Até que se revoltam.

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