sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Na madrugada de 3 de janeiro o sequestro criminoso

“Entraron los gringos!”

Um fim de semana apocalíptico nas ruas da capital venezuelana

Rodolfo A. Rico e Isabel Guerrero, de Caracas, 05 jan 2026

Policiais protegem o supermercado de possíveis saques em meio à tensão e às filas de clientes que se formaram no fim de semana em Caracas. Rodolfo A. Rico

Não eram fogos de artifício. As explosões na madrugada de 3 de janeiro vieram acompanhadas por um ruído que mais tarde foi identificado como sendo de helicópteros, por gritos e apitos, uma forma de alerta inventada pelo chavismo para alertar sobre algum perigo entre uma rua e outra.


Então explodiu o rumor. Naquele horário, duas da madrugada, no corredor de um prédio no centro de Caracas, o grupo de vizinhos no WhatsApp compartilhava fotos, imagens e recomendações sobre como agir. Se alguém estava eufórico quanto ao significado daquelas bombas sobre Caracas, tratava de disfarçar no grupo. Nada mais normal, já que o governo conta com um sistema que incentiva os vizinhos militantes do partido governista a se converterem em delatores, e há pessoas detidas há muitos meses pela aplicação da Lei do Ódio, por terem escrito alguma mensagem no WhatsApp.


No sábado dos ataques, a população de Caracas ainda estava nos pós-festejos de Natal e Ano-Novo. As aulas ainda não haviam recomeçado, e quem conseguiu poupar para as festas já ficou sem dinheiro. Mas quando amanheceu em La Candelaria, uma zona central da capital venezuelana, depois que se soube que Nicolás Maduro e Cilia Flores tinham sido capturados, todos pareciam participar de um filme pós-apocalíptico. As ruas de Caracas ficaram desertas, com exceção daqueles que fazem fila para comprar água e comida. Isso porque os poucos comércios abertos funcionam parcialmente, deixando entrar poucas pessoas de cada vez, por temer que a necessidade termine em saques. Não seria a primeira vez. Na Venezuela já se saqueou por fome e por retaliação política. 


As longas filas para comprar água se formaram, por exemplo, na avenida Este 5, na chamada esquina de Chimborazo, onde o supermercado, a padaria, o açougue e a peixaria, que normalmente abrem bem cedo, permaneceram fechados. Se alguém resolvesse comer uma empanada de queijo ou carne, não poderia, pois a loja que vende os salgados também estava fechada. Mas o comércio vizinho, que vende água, estava aberto, já com cerca de cem pessoas fazendo fila na sua frente, logo de manhã cedo. Carregavam, no mínimo, um galão de água de 20 litros para encher. Em Caracas, a água da torneira não é potável e, além disso, é escassa. Quase todos os moradores da cidade amargam horas ou até dias sem água em casa, com frequência. Portanto, se começam a cair bombas na sua cidade, você já sabe: precisa providenciar água para beber.


Os postos de abastecimento e supermercados parcialmente abertos têm uma característica em comum: na porta de todos há, pelo menos, um par de policiais montando guarda. E diante de cada porta também há longas filas de pessoas ansiosas para comprar. Os policiais na entrada de um desses postos de abastecimento no centro da cidade confirmam que a missão do dia é proteger os comércios que abrirem. Itens como ovos, arroz e macarrão estão começando a faltar.


Soraya é produtora de eventos ligados à vida esportiva em Colinas de Bello Monte, uma área muito afetada nos serviços por ser vizinha do Forte Tiuna, que ficou sem água, energia elétrica, telefonia fixa ou móvel. Ela relata: “Depois da 1h30, ouvi uma forte explosão e na mesma hora a energia caiu. Meu filho disse, brincando: ‘Chegaram os gringos’. As explosões continuaram e começamos a levar a coisa a sério. Uma amiga me ligou para dizer que estavam atacando o Forte Tiuna, e aí eu liguei para outra amiga, que mora em frente a La Carlota, e ela me disse que estava trancada no banheiro com o pai. Aí descobri mais coisas nos grupos do WhatsApp, algumas que depois fiquei sabendo que não eram verdade, como o bombardeio do quartel de La Montaña.”


Logo depois dos ataques a Caracas, enquanto as redes sociais explodiam de notícias, desinformação e memes, a liderança do partido governista mal aparecia. Um comunicado de imprensa conciso lido por um jornalista do canal estatal culpou a administração dos Estados Unidos por perpetrar um ataque à soberania nacional. Nas horas seguintes, uma mensagem de voz de Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro, foi difundida no canal oficial. Em seu discurso, ela exigiu uma “prova de vida” de Maduro, que havia sido “sequestrado” pelas forças norte-americanas. Como ela não apareceu na tela e não foi acompanhada por uma frente unida do chavismo-madurismo, não faltaram especulações, e chegou-se a acreditar que Delcy Rodríguez estava na Rússia, boato difundido em alguns sites de notícias e pelas redes sociais, que nenhuma fonte oficial se deu o trabalho de desmentir.


Em outra hora do dia, o número dois do chavismo, Diosdado Cabello, vestido com roupas militares, convocou um movimento revolucionário nas ruas junto com as forças policiais. Cabello apareceu diante das câmeras da televisão oficial e, atrás dele, o coronel Granko Arteaga, responsável pela tortura contra opositores, segundo relatórios da ONU. Outros soldados também os acompanhavam. No final do sábado, no meio da noite, os coletivos paramilitares e motorizados do chavismo de pelo menos três setores populares de Caracas saíram às ruas para uma demonstração de força e presença. E na tarde de domingo voltaram a aparecer. Uma testemunha disse à piauí que os viu circulando de motocicleta e armados no centro de Caracas.


Com o passar das horas, depois da divulgação das imagens de Maduro algemado e da entrevista coletiva do presidente Donald Trump, houve declarações na tevê dos membros mais próximos do governo, todos sentados em volta de uma mesa, exigindo a libertação do presidente capturado, “porque ele é o único presidente da Venezuela”, encerrou Delcy Rodríguez, diante de uma câmera.


Depois de 25 anos no poder, o chavismo tem seus ritos. Um deles é que, ao identificar algum risco, seus militantes se encontram em torno do Palácio de Miraflores, a sede do governo, na Avenida Urdaneta. No sábado não foi diferente. Nessa ocasião, porém, os chavistas se encontraram perto da Santa Capela, uma basílica menor em cujos terrenos consta que foi celebrada a primeira missa em Caracas, e do imponente Banco Central da Venezuela, um prédio em estilo brutalista. Ali já estava montada uma plataforma com som, equipamentos para transmissão ao vivo pelo Canal Estatal e um animador que cedia o microfone e apresentava os participantes daquilo que ele insistia em chamar “tribuna anti-imperialista”. Provavelmente, eram estruturas instaladas para um evento da Prefeitura de Libertador, a principal instituição chavista do maior município de Caracas, que foi abruptamente cancelado em vista dos acontecimentos.


Com a bandeira tricolor ao fundo, desfilou sobre o palco uma série de personagens. Uma mulher colombiana subiu à plataforma afirmando ser representante na Venezuela do Pacto Histórico do presidente de seu país, Gustavo Petro. Em seguida um venezuelano indígena afirmou que as organizações do continente estão cientes do que está acontecendo na Venezuela e mencionou o apoio que a poderosa Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) presta a Maduro. Depois, um homem idoso e corpulento fez um chamamento a aproveitar o momento para acabar com os quinta-colunistas da revolução; e evangélicos que, entre citações de salmos e menções a Jeová, se declararam convencidos de que Deus está com Maduro e que ele deve ser resgatado em nome de Jesus.


Tanía Díaz, vice-presidente do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), foi um dos nomes relevantes a subir ao palco, e dali bradou: “Aqui está o povo de Caracas para dizer ao governo dos Estados Unidos que os mercenários que levaram nosso presidente devem devolvê-lo, pois vamos ficar nas ruas até que Maduro esteja de volta no Palácio Miraflores”.


Carlos Clemente, um homem na casa dos 60 anos, vestindo uma camiseta do recém-canonizado santo venezuelano Dr. José Gregorio Hernández, veio a pé de seu bairro, Pinto Salinas, cerca de 3,5 km a Leste de Santa Capela, para prestar seu apoio a Maduro: “Estamos aqui em defesa da pátria, em defesa de Maduro, estamos defendendo a pátria nas ruas, agora não é hora de hesitar, hesitar é traição.” Ao seu lado, um homem mais jovem chamado Andrés Díaz  afirma que, assim que soube do que estava acontecendo, às 2h, iniciou a caminhada rumo ao centro da cidade. “Donald Trump passou dos limites ao levar nosso presidente, um verdadeiro ultraje que nos indigna, somos incapazes de reagir com uma guerra, mas queremos Maduro de volta”, afirmou Díaz.


Em Caracas, a maior parte do transporte coletivo é privado. O Estado pouco intervém, limitando-se a definir tarifas e aprovar trajetos. Esse transporte não funcionou em Caracas no fim de semana de invasão e bombas. Os motoristas, assim como a maioria da população, resolveram abrigar-se em casa. As ruas e avenidas da cidade ficaram tão vazias quanto no auge da pandemia de Covid-19, no início da década.


O único transporte que funcionava em Caracas era o metrô, pelo menos a linha 1, a principal, que atravessa a cidade de leste a oeste e que normalmente recebe o maior volume de passageiros. A operação, no entanto, ocorria de forma diminuta, com catraca livre, apenas algumas entradas abertas em cada estação e poucos funcionários. Também havia um serviço de táxi privado solicitado por aplicativos de celular, mas com pouquíssimos motoristas dispostos a oferecer o serviço.


Viajantes que haviam planejado o regresso a seu local de origem em voos domésticos também não puderam viajar no sábado. Todos os aeroportos suspenderam a operação, retomada no dia seguinte.

AGrande Caracas é composta por cinco municípios. A população costuma falar do oeste e do leste da cidade não apenas como uma divisão geográfica, mas também como uma divisão socioeconômica. O oeste é, na prática, o município de Libertador, onde fica o centro histórico da cidade, o maior e mais populoso e, portanto, o mais diverso. Além das fronteiras desse município, tudo é “o leste”. Seguindo nessa direção, até o extremo da região metropolitana de Caracas, chega-se à favela de Petare, considerada, ao menos na Venezuela, a mais populosa da América Latina.


Da Avenida México, o metrô segue para o leste, e para aquele imediato leste que é o município de Chacao, o mais rico do país. A estação é Altamira, onde fica a praça Francia, com seu obelisco simbólico, que por muitos anos foi o ponto de encontro das celebrações e frustrações de grande parte da oposição venezuelana. Ao lado da praça Francia está o bairro de Los Palos Grandes, que também está com seus inúmeros cafés e restaurantes fechados.


O Open é o principal supermercado da região, onde também há policiais montando guarda e, claro, pessoas fazendo fila. Sentada na calçada em frente ao supermercado, uma senhora com uma viseira preta que a protege do sol e uma camiseta branca prefere não prestar depoimento, “porque estou muito sensível e choro por qualquer coisa”. Para muitos opositores, ao final da tarde de sábado, a situação é contraditória e de grande incerteza. É como em O Leopardo, do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa, tudo muda para que tudo continue igual. Maduro não está mais lá, mas o restante do poder chavista está.


Ricardo e Winston estão esperando na fila do supermercado há duas horas, para fazer suas compras. Ricardo inicialmente reluta em responder alegando ser “muito apolítico, pois desde que tudo isso começou, teve muita mentira de todo lado, e a gente achava que nada iria acontecer, por isso fomos pegos de surpresa”. Winston concorda, diz que não responde: “Vou soltar puro veneno.” Ricardo faz questão de dizer que não está lá para fazer compras no desespero, que ele sabe muito bem do que precisa.


 A oeste de Los Palos Grandes está Chacao, a área que dá nome a todo o município. No fim de semana, quase tudo estava fechado. Apenas uma quitanda aberta, sem filas, e um restaurante: La Tasca de Juancho, especializado em comida peruana. Seu cozinheiro e sócio, Manfer Cubas, testemunhou o bombardeio na primeira fileira, pois mora numa casa em frente ao aeroporto de La Carlota, que sofreu repetidos ataques. Ele diz que, ao ouvir o bombardeio, subiu ao telhado da casa para ver melhor, que as janelas tremiam com a onda de choque. Ele desceu para a rua, a exemplo de outros vizinhos. Perguntamos por que decidiu abrir o restaurante? “Porque o que ia acontecer já aconteceu.” 


A realidade é que a captura de Maduro e Cilia Flores deixou um rastro de morte e destruição. Um relatório do SP3 (sigla de sistema de proteção popular, ligado ao Ministério do Interior) registrou inicialmente mais de quinze mortes no círculo de segurança de Maduro e pelo menos vinte locais vinculados às Forças Armadas bombardeados em Caracas e nos estados de Miranda e La Guaira, mas logo as estimativas se ampliaram. O New York Times fala em 80 mortes. Uma rede de médicos afirma que, somando os registros dos dois hospitais militares, Carlos Arvelo e Fuerte Tiuna, há pelo menos noventa militares feridos. Por ora, não há números oficiais a respeito.


Não eram fogos de artifício. Houve bombas, marines, destruição e vidas de venezuelanos perdidas. Nas ruas, ainda paira a incerteza sobre o que pode acontecer: novos ataques dos Estados Unidos? O chavismo no poder tentará uma retaliação ainda maior contra a oposição? Ou simplesmente os poderosos chegarão a um acordo e o chavismo no poder sobreviverá novamente, agora com a ajuda de Donald Trump?

Tradução: Sérgio Molina

Rodolfo A. Rico é jornalista e analista de dados, baseado em Caracas

Isabel Guerrero é uma jornalista investigativa baseada em Caracas, com experiência em veículos como Armando.info e no Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais


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