Welcome to the jungle
Pergunta: Cadê a Rosa?
Resposta: Tá na 25 do 19.
Praia de Camburi, Vitória, ES. Lá pelos idos de 1990.
Tradução de na 25 do 19: a barraca 25 do Chico, o 19. O apelido vem dos 19 dedos no corpo, não tinha um dedo do pé.
E quem fez a pergunta? Ana Júlia.
A praia de Camburi a noite, nesta época, era bem diferente de hoje.
Hoje é um cemitério.
Quem viveu, viu. Era festa, feira, folia e território livre. E as vezes um rabo de arraia entre bêbados ou bêbadas.
Nesse ambiente conviviam todas as classes sociais. Pedreiro, médico, advogado, bancário, vendedor, traficante, estudante, professor e as minas da pista. Tudo misturado, juntos, curtindo a noite com cerveja, conhaque Dreher, caipirinha, peixe frito, camarão, peroá, frango a passarinho, aipim frito etc.
O Dezenove era o cara que sabia de tudo o que se passava. Contava algumas, outras não. E ele sabia porque não. Sobre a Rosa sabia... e me contou.
Rosa
Rosa, uma mulher da pista que era linda de morrer. Meio esquentada, mas sedutora. Seletiva em relação a clientes. Não ficava com qualquer um. Tinha requisitos. Conversava bastante, gostava de conhaque e às vezes cheirava uma coca da boa. Mas tudo sob controle já que tinha dois filhos ainda crianças e trabalhava durante o dia como auxiliar de limpeza num supermercado. Requisito 1: no geral saia da pista no máximo às três da madrugada porque tinha trampo às 8 da matina. Requisito 2: no fim de semana ficava por conta da família e dos filhos. Quando na pista os meninos ficavam com a irmã. Rosa era separada do pai dos filhos.
Na pista, Rosa, ganhava um extra e curtia a vida. Tinha um custo: sono curto de segunda a sexta, mas repunha nos finais de semana.
Dias normais até Rosa encontrar Claudio. Conheceram-se e rolou um quê entre os dois. Requisito 3: não se envolver com alguém.
Mas, no caso a razão e o controle foram para o espaço.
Antes uma vez por semana, depois duas e logo, exclusividade. Rosa ficava apenas com Claudio a noite toda e ele a deixava em casa. Aí a mistura fatal. Claudio conheceu os filhos de Rosa e saiam juntos alguns fim de semana.
Após seis meses desta mistura o ponto final.
Porque está falando isto, amor? Temos a maior tesão entre nós. Tenho prazer contigo na cama e fora dela. Meus filhos adoram você, disse Rosa depois que Claudio disparou a declaração final.
A carne não é fraca, Rosa, a carne é triste, infelizmente, disse Claudio.
Claudio era casado, com filhos e a situação ficara insuportável para ele.
Rosa nunca mais viu Claudio.
Ana Julia
Ana Julia, uma mulher da pista linda de viver. Juntas Rosa e Ana tinham perfis parecidos. Separadas dos pais dos filhos e eram mães. Ana tinha duas filhas, uma criança e outra adolescente. Mães que trabalhavam durante o dia e a noite caiam na pista.
Eram amigas e confidentes. Ana ajudou muito Rosa durante sua rebordosa pós separação. Fizeram loucuras na praia de Camburi. Beberam, cheiraram, participaram de brigas, fizeram programas juntas e muito mais. Eram carne e osso, tampa e balaio.
O inevitável
Um acontecimento clareou o que estava embaçado. Ana Julia foi divinamente cantada por outra mulher. Saíram para um motel e na volta encontraram uma Rosa possessa de raiva. Deu BO. Sim, com delegacia e tudo a que se tem direito. Tudo por conta de um ciúme ancestral que Rosa tinha de Ana.
O clarear: estavam apaixonadas e aí quando acontece dá-se um chute bem dado na razão.
Depois de um tempo
Percebi que Rosa e Ana não estavam na praia. Perguntei ao 19 onde estavam. Saíram da pista casadas e viviam com filhos e filhas em Carapina, Serra, ES. Tinham um armazém / bar movimentado o suficiente para bem sobrevirem. Às vezes apareciam na 25, mas só para curtirem a madrugada.
Puta que pariu, como sou apaixonada por Ana Julia.
Foi a declaração final que o 19 ouviu de Rosa na última visita à ainda viva praia de Camburi.
NB: o título destas mal traçadas linhas é uma homenagem à Rogéria
https://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2017/09/04/adeus-rogeria/
domingo, 22 de outubro de 2017
terça-feira, 17 de outubro de 2017
A Cartomante
Machado de Assis
HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que
fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe
dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe
queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso,
quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa
ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não
acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as
ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagcm para a casa da cartomante. Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado.
Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não
desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que
gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita.
Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, —ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas.
Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo.
Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam. Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava
imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo.
Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse
ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se
sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de
Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e
lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar
algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as
palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela.
"Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela
voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê?
Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto.
Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando
que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois
rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo
voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua.
Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era
grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns
fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O
cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a ponco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos,
pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia.
A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia... " Que perdia ele, se... ?
Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e
rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não, viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do
que destruía o prestígio. A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande
susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra
vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas
descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três vezes;
depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendedo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu,
como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de
dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele,
falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava , cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o
céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa;
parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas
felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo
olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a ponco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e
foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
FIM
HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que
fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe
dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe
queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso,
quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa
ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não
acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as
ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagcm para a casa da cartomante. Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado.
Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não
desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que
gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita.
Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, —ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas.
Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo.
Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam. Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava
imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo.
Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse
ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se
sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de
Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e
lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar
algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as
palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela.
"Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela
voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê?
Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto.
Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando
que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois
rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo
voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua.
Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era
grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns
fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O
cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a ponco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos,
pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia.
A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia... " Que perdia ele, se... ?
Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e
rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não, viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do
que destruía o prestígio. A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande
susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra
vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas
descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três vezes;
depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendedo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu,
como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de
dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele,
falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava , cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o
céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa;
parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas
felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo
olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a ponco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e
foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
FIM
sábado, 23 de setembro de 2017
Não me esqueça num canto qualquer
Não me grila ser esquecido. Às vezes é bom sair de mansinho da vida de alguém.
Rio de Janeiro, metrô, Siqueira Campos, sento ao lado de uma mulher. Ela puxa conversa. Te conheço de algum lugar.
Essa já conheço. É cantada barata. E era mesmo uma cantada.
Posso saber o teu nome? Sim, Oscar. E o teu? Érika, com k.
Saímos na Cinelândia e fomos para o Amarelinho tomar chope com frango a passarinho. Depois um cinema do lado: Odeon, cinemão de 550 lugares de 1932. O filme: Dunkirk, 2017, de Cristopher Nolan (filmão). Érika sobre o filme: li sobre este filme e concordo. Acerta como um coice de cavalo. É uma força e tanto. Um coice que é um dos melhores filmes do ano.
Érika, sem dissimular nada, me chama para terminar a noite em sua casa. Um apartamento de 150 metros quadrado no Flamengo. E tome vinho para fechar a noite e começar a madrugada. Lembro me de um gostei de você antes de adormecer. Acordei as 11 do outro dia e me fui.
No dia seguinte repetimos a dose. No Net Gávea. O filme: Lady Macbeth, 2016, Willian Oldroyd . Dunkirk é um coice. Lady Macbeth é um direto no estômago. Impactante.
Nada de boteco. Voltamos para o aconchegante apartamento de Érika. Conversa recorrente: cinema. Vinho: Pinot Noir. Jantar: espaguete com filet au poivre. Noite maravilhosa, madrugada idem. Já dia claro fomos dormir embriagados, saciados e com um cara, continuo gostando muito de você... Eu também.
E a semana continuou com a rotina cinema, botequim, vinho e muito mais. Hotell, 2013, de Lisa Langseth (Igmar Bergman presente, é filme sueco) com Alicia Vikander, no cine Joia em Copacabana e Adega Pérola na Siqueira Campos. O filme da minha vida, 2017, de Selton Melo (imperdível) no cine Santa Tereza no centro e Nova Capela na Lapa.
Durante a última noite que estive com Érica, após cinco dias de intensa convivência, nos conhecemos mais. Disse a ela que era geógrafo, que não morava no Rio, divorciado, e estava de férias. Ela me disse que era roteirista de cinema e TV, casada e tinha dado um tempo no trabalho.
Me diz uma coisa Érica, você é casada? Cadê o marido?
Ele está no exterior trabalhando. Semana que vem está de volta.
Outra coisa, dona Érica, frequentei o apartamento que teu marido frequenta?
Sim.
Tem problema não. Ele me conhece e sabe como sou. E mais, seu Oscar, você não foi o primeiro.
Só me restou uma resposta, lembrando Toquinho.
Só peço a você Érika um favor, se puder. Não me esqueça num canto qualquer
quinta-feira, 17 de agosto de 2017
Aparência e Essência
Essência para a filosofia é “aquilo que a coisa é em si mesma”, isto é, a verdade mais profunda da coisa, o ser da coisa. E aparência, como a própria palavra sugere, é aquilo que a coisa aparenta ser e não aquilo que ela é em si. Aqui temos uma diferença/oposição/contradição (dialética). Ser e aparecer são realidades opostas que não somente se distinguem em suas características, mas que se digladiam entre si não havendo espaço e possibilidade de convivência. (Danilo Corrêa)
Aparência
Lauro é professor universitário, 31 anos, bonito e corpo escultural. Um Apolo com barriga zero. Irritante quando o vi em minha frente. O cara era só massa magra e eu com barriga maior que zero, não obeso, claro, mas frente a frente me deu um complexo de inferioridade estética.
Conversei com Lauro durante uma hora em sua sala de trabalho na universidade.
Tô casado não. Solteirinho da silva. Não tenho tempo para namorar. Sou contaminado pelo trabalho. Minha vida se resume em trabalho e nos intervalos, academia de ginástica.
Tempo social e tempo profissional. O primeiro quase inexiste. O trabalho de Lauro é predominantemente pesquisa. É da geração do Curriculum Lattes.
Rapaz, sou escravo do dead line. Veja lá no meu Lattes, um artigo a cada três meses. Tem que ser assim, é a sobrevivência como docente da universidade.
É a opinião de Lauro. Sobrevivência na universidade operacional contemporânea. Como ele conheço vários docentes e várias docentes que pensam como.
Sindicato? Me acho cientista, cara. E como tal, confesso pra ti, não me considero trabalhador. Trabalho sim, e muito, para a ciência.
A origem da universidade está na idade média circunscrita ao pensamento cristão medieval. A igreja era a protetora e zeladora. Na época os universitários tinham imunidades similares às dos clérigos. E clérigos não eram trabalhadores.
E a família Lauro?
Minha família mora longe. Estou com eles e elas no Natal. Meus irmãos e irmãs são diferentes. Não pensam como penso, mas me dou bem com eles e elas. Gosto da minha família.
Saí da conversa com Lauro lembrando de Caravaggio.
Narcissus - 1597-99
Galleria Nazionale d'Arte Antica - Rome
https://favourite-paintings.blogspot.com.br/2011/03/michelangelo-merisi-caravaggio.html 15/08/2017
Galleria Nazionale d'Arte Antica - Rome
https://favourite-paintings.blogspot.com.br/2011/03/michelangelo-merisi-caravaggio.html 15/08/2017
Essência
Marcos é um rapaz de 30 anos que mora em Vila Velha, Espírito Santo. Tem um filho, de 10, que mora com a mãe em Belo Horizonte. Todo o mês Marcos envia a mesada (1 salário mínimo) para o filho.
Tenho uma vida agitada, mas gosto do que faço. Moro com minha mãe e tenho muito carinho por ela, diz Marcos. A mãe, dona Manuela, tem personalidade forte e sabe como defender o filho. Não mexe com meu filho, senão viro bicho, diz sempre.
O filho da Manuela é um cara animado e falante. Estudou até o ensino médio e tem uma cultura respeitável. Conversa bem sobre literatura, cinema e psicanálise. Filosofar? É com ele mesmo. Gosta de moda e por sinal se veste muito bem.
Relato a seguir uma semana na vida agitada de Marcos.
Segunda: durante o dia é divulgador em uma loja de um shopping na Praia da Costa. A partir das 18 horas é apoio/segurança em um jantar no Cerimonial Orla Camburi em Jardim Camburi em Vitória. Volta depois da meia noite para Vila Velha. Para isto toma dois ônibus (o popular bacurau). Chega em casa às duas horas da madrugada.
Terça: Acorda às 6 horas e vai para a loja Aquarius na Glória, em Vila Velha. Lá trabalha como apoio e divulgador. À noite, a partir das 19 horas é garçom na boite Octopus em Itaparica, Vila Velha. Sai a 1 hora e chega em casa às 2 da madrugada.
Quarta: Às 8 horas está no shopping da Praia da Costa. As 13 se manda para a Glória para o serviço na loja Aquarius. A noite volta para a Octopus. Está em casa às 2 da madrugada.
Quinta: a partir das 8 é apoio e divulgador na loja Veneza Modas na Glória. À noite, a partir das 20, é apoio no show do Exaltasamba no Parque de Exposição de Carapina, no município da Serra. Fica por lá até 1 hora da madrugada. Para voltar mais dois ônibus (bacurau) e depois de duas horas está em casa.
Sexta: durante o dia, é Papai Noel de uma loja no shopping na Praia da Costa. A noite é garçom no Bar do Luiz em Itapuã, Vila Velha.
Sábado: de novo é Papai Noel no shopping. À noite garçom no Bar do Luiz.
Domingo: é dia de descanso. E como ninguém é de ferro se encontra com o namorado Alcides.
Para Marcos não há tempo ruim, não reclama da vida.
Resumo da ópera
Marcos e Lauro têm vidas distintas. Marcos (a exploração do trabalho) e Lauro (a alienação) representam o ser e o aparecer.
A ciência é, por assim dizer, a plenificação da coisa em si. No início do processo, a ciência está para ela na forma de aparência. Este processo é considerado por Hegel como o modo da essência de mostrar se à aparência. É este mostrar se que constitui a alienação, pois a ciência assume a forma de aparência para realizar se plenamente. O aparecer é a forma que a essência assume para vir à tona. (Fabrício J.Brustolin)
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Feliz dia dos pais, João
A paternidade continua um privilégio de quem consegue receber e um favor de quem consegue exercer
Ana Paula Lisboa, O Globo – 16/08/2017
Minha mãe é filha de um homem mestiço português, e vem daí esse meu sobrenome da capital lusitana que muitos aqui em Luanda acreditam ser meu nome artístico.
Quando meu avô conheceu minha avó, ela era bem jovem, e ele, já um homem velho e casado com uma senhora branca, mas com muitas mulheres e, consequentemente, muitos filhos espalhados no mundo. Minha mãe era a única dos filhos fora do casamento que fora registrada por ele. Segundo meu avô, essa era a maior prova de amor que ele poderia dar à minha avó: acreditar que aquela filha era dele e dar a ela o seu sobrenome.
Minha avó faleceu, infelizmente, antes dos 50 anos, de um derrame cerebral. No dia do seu enterro, já há anos deixado por ela e cheio de recalque, meu avô soltou a seguinte pérola: “Filho de minhas filhas, meus netos são, de minhas noras serão, ou não?” Eu demorei anos pra entender o que esse ditado complexo significava, mas sabia que era algo muito ruim, porque minha mãe desde então cortou relações com meu avô e, mesmo depois de sua morte, nunca mais voltamos a Magalhães Bastos. A última notícia que tenho é de uma herança que minha mãe faz questão de não receber.
Eu sei que ela vai me matar quando ler essa coluna, mas eu precisava contar toda essa história íntima da minha família para dizer que ainda existem homens como o meu avô e filhas como a minha mãe. E que minha maior curiosidade está nos tios e primos que tenho pelo mundo e não conheço.
Sim, porque dados do Conselho Nacional de Justiça de 2011 dizem que mais de um quarto da população brasileira não tem na certidão de nascimento o nome do pai. O Estado do Rio lidera o ranking, com quase 700 mil crianças com “pai desconhecido”. A esses meus tios e tias foi privado o direito à personalidade e à identidade, a ter uma história de família para contar.
Nesse quase um mês fora do Rio, o que tem me guiado é pensar que “se você não sabe para onde está indo, saiba pelo menos de onde veio”.
Repararam no último domingo que, diferente do Dia das Mães, em que as redes sociais ficam repletas de amor, de agradecimento e de saudades, o Dia dos Pais traz uma enxurrada de ressentimento, de relações interrompidas ou que começaram tardiamente, de relatos de abandono e de tristeza? Parece até que pai se tornou aquilo que a gente nunca viu, nem comeu, só ouviu falar e admira nas fotos dos outros.
Porque é claro que há também as declarações de amor, de orgulho, de saudades, há os almoços, os churrascos, há a música do Fábio Júnior e a da Legião Urbana, há o perdão. Mas mesmo para essas pessoas, ter um bom pai parece ser um privilégio.
Por aqui o domingo foi normal, já que a data — Dia do Pai — é comemorada em 19 de março, dia de São José, o pai “adotivo” de Jesus. E mesmo o cristianismo não sendo uma referência atual pra mim, pareceu-me bem mais coerente que no Brasil, onde a data foi pensada por um publicitário.
A referência contemporânea mais antiga é que no início do seculo XX Sonora Luise resolveu homenagear seu pai, um veterano de guerra nos Estados Unidos, que foi pai solo de seis filhos depois que a esposa faleceu. No dia do aniversário dele, ela espalhou cartazes por toda a cidade com os seus feitos e emocionou todo o país.
Sem saber do feito de Sonora, eu fiz um post na semana passada pedindo para que pessoas usassem um tempinho do seu dia e ligassem para o meu pai, que fez aniversário do último dia 6 e que por não possuir nenhuma rede social, não havia recebido nenhuma declaração minha. Mais de 20 pessoas se disponibilizaram e ligaram para o meu pai, não sei se isso quer dizer alguma coisa, mas desses, só dois eram homens. E o presente no fim não foi pra mim ou para ele, foi para essas pessoas, que me devolveram emocionadas frases como “por um tempinho eu tive pai”.
Não é por acaso que Sonora tenha resolvido homenagear o pai depois de ouvir um sermão sobre as mães. Segundo a história, ela percebeu o quanto toda a abnegação feminina estava presente nos feitos do pai, e desde então pouca coisa mudou.
A paternidade continua um privilégio de quem consegue receber e um favor de quem consegue exercer. Enquanto a maternidade se entende como um dom natural.
Não é só sobre pagar pensão ou dar o seu nome, tem a ver com “romper com esse padrão histórico e compulsório do abandono, do desapego e do descompromisso com a paternidade frente a questões da reprodução da vida, do amor e da criação das pessoas”.
Tem a ver com expectativa social que se cria sobre o que é ser pai e, consequentemente, sobre o que é ser mãe, porque é realmente impossível descolar uma coisa da outra. Tem a ver com homens que formam outros homens.
Tem a ver especialmente com João, meu mais jovem afilhado, que nasceu bem no dia do aniversário do meu pai. Porque João tem um desses “pais desconhecidos” que todo mundo conhece. Porque João tem irmão, tem avô, tem primos e talvez João nunca os conheça. Eu fico pensando se João fará uma postagem de rancor no Dia dos Pais.
Não, João fará posts de quem nessas datas agradece à vida pela mãe, pela avó, pelas madrinhas e se orgulha por romper esse ciclo e ser um homem diferente.
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Família profana
Morreu Jeanne Moreau, em 31/07/2017 aos 89 anos. Uma atriz e mulher
incríveis, com uma cinematografia extensa e com algumas obras inesquecíveis.
Neste dia Inácio Araújo escreveu na Folha de São Paulo sobre Jeanne:
Foram apenas dois casamentos, mas, sabidamente, muitos amantes. Significam a inquietude sem fim, o gosto pela independência, a inteligência e o poder de sedução dessa atriz que, se vê sua força de estrela arrefecer na maturidade (como acontece frequentemente às atrizes), ainda filmaria, entre outros, com R.W. Fassbinder ("Querelle, de 1982), "Além das Nuvens" (1995, de novo com Antonioni, agora em parceria com Wim Wenders).
O filme emblemático de Jeanne Moreau, sem dúvida, foi Jules et Jim (http://www.imdb.com/title/tt0055032/) de François Truffaut, 1962. O título em português acrescenta Uma mulher para dois. Uma idiotice inominável.
Jules et Jim: a estória
Catherine (Jeanne Moreau), Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) se conhecem e a partir daí tornam-se inseparáveis. Uma relação triangular cheia de idas e vindas. Três boêmios com pensamentos as vezes divergentes mas convergentes num quisito: a liberdade.
Neste dia Inácio Araújo escreveu na Folha de São Paulo sobre Jeanne:
Foram apenas dois casamentos, mas, sabidamente, muitos amantes. Significam a inquietude sem fim, o gosto pela independência, a inteligência e o poder de sedução dessa atriz que, se vê sua força de estrela arrefecer na maturidade (como acontece frequentemente às atrizes), ainda filmaria, entre outros, com R.W. Fassbinder ("Querelle, de 1982), "Além das Nuvens" (1995, de novo com Antonioni, agora em parceria com Wim Wenders).
O filme emblemático de Jeanne Moreau, sem dúvida, foi Jules et Jim (http://www.imdb.com/title/tt0055032/) de François Truffaut, 1962. O título em português acrescenta Uma mulher para dois. Uma idiotice inominável.
Jules et Jim: a estória
Catherine (Jeanne Moreau), Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) se conhecem e a partir daí tornam-se inseparáveis. Uma relação triangular cheia de idas e vindas. Três boêmios com pensamentos as vezes divergentes mas convergentes num quisito: a liberdade.
Era 1916 e logo vem a guerra. Jules, alemão e Jim, francês,
participam, como soldados, em lados opostos. Às vezes, tenho medo de que vá matar Jules durante uma batalha,
confessa Jim.
O trio volta a se
encontrar no pós-guerra. Jules está casado com Catherine e com uma filha, Sabine. Jim aceitou que ela pertencia ao Jules.
Mas o casamento Catherine - Jules não estava nada
bom.
Jules: Ela não é realmente minha esposa, Jim. Ela
já teve três amantes. Um foi um encontro logo antes de nosso casamento, como
uma despedida de solteira. Outro foi uma vingança por algo que eu fiz. E não
sei o que. Não sou o homem que ela precisa...E ela não aceita isso. Estou
acostumado a ela ser infiel comigo...Mas não suportaria vê-la partir.
Catherine numa palavra: inquietude.
O trio resolve morar juntos.
Um casamento profano, não sagrado.
As idas e vindas continuam. Ela ainda
insatisfeita, infiel e aflita.
Final da estória: Catherine convida Jim para andar em
seu automóvel e a seguir cai no mar do alto de um penhasco. Morrem juntos.
O caixão de Jim era maior que ele em vida. O de Catherine
era uma caixa de joia.
Há dois temas: o da amizade dos dois, que tenta sobreviver, e o da impossibilidade de viver a três. A ideia do filme é que o casal não é um conceito satisfatório, mas não há outra solução (Truffaut)
Há dois temas: o da amizade dos dois, que tenta sobreviver, e o da impossibilidade de viver a três. A ideia do filme é que o casal não é um conceito satisfatório, mas não há outra solução (Truffaut)
segunda-feira, 31 de julho de 2017
Vontade de viver
A cena
Uma mulher (Anna), no Louvre, se aproxima de um quadro de Édouard Manet, Le Suicide. Senta ao lado de um estranho. Depois de um tempo, o diálogo:
O estranho: Você também gosta desse quadro?
Anna: Ele me dá vontade de viver
O quadro de Manet (1880) é mostrado abaixo.
http://www.manet.org/paintings.jsp
31/07/2017
São aquelas cenas
finais de filmes em que resumem tudo sobre a estória narrada. Lembro de caso
semelhante no filme Marcas da violência,
David Cronenberg de 2005.
A estória se passa
em Quedlimburgo, 1919 (pós 1ª guerra) Alemanha. Anna (Paula Beer) encontra o
jovem Adrien (Pierre Niney) frente ao túmulo de seu jovem noivo (Frantz) morto
na guerra. Adrien se apresenta como amigo francês do noivo. A verdade aparece
depois: o soldado Adrien matou o soldado Frantz numa batalha de guerra. O
francês fora a Quedlimburgo devido a remorsos por ter causado a morte do
alemão.
O ambiente era de
feridas não cicatrizadas. Diálogo entre o pai de Frantz e Adrien:
Pai de Frantz: Todo francês é assassino do meu filho. Então desapareça daqui.
Adrien: O senhor tem razão, doutor. Eu também era
soldado e sou mesmo assassino.
O filme é antibélico
e sem apelo sentimentalista trata das cicatrizes advindas dos horrores da guerra.
Adrien ao ser
perguntado por Anna sobre as marcas no corpo, diz: “Minha única cicatriz é
Frantz”. Nessa frase, há muito do termômetro do filme. Mesmo com uma trama
recheada de reviravoltas, Ozon não cede em nome de um roteiro mais veloz.
Frantz – e aqui está sua maior beleza – não é um filme sobre a ferida, mas sim
sobre as cicatrizes (Diogo Guedes, uol.com.br).
Ponto de inflexão
Anna, a mãe e o pai
de Frantz passam a ver Adrien com olhar diferente. A rejeição anterior dá lugar
ao afeto.
Adrien volta a
Paris. E depois de um tempo Anna resolve reencontrar Adrien. Vai até Paris e
depois de procurar muito o encontra noivo com casamento marcado. Decepção. Anna
apaixonada não se desaponta. Fica em Paris e um dia se veste de preto e vai até
o Louvre ver o quadro de Manet.
Tudo se passa como
Anna estivesse de luto novamente.
É o luto pela
segunda perda.
Ele me dá vontade de
viver diz ao estranho
sobre o Le Suicide de Manet.
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