2. Gustavo Cruz: o cinema e a IA
3. Cabo Verde e sua água potável
4. Os duelos da fase de 32
seleções da Copa do Mundo 2026
5. Terremoto na Venezuela
6. Michelle
7. Marlon Brando
8. Paixão e guerra no sertão de Canudos, 1993
9. Psicanálise é pseudociência?
10. Maria Adelaide Amaral
11. Informação é o nosso
12. A idade é só um número
13. Soberba é o motor da história
14. O singelo assassino - Ruy Castro
15. Pantanal das secas e incêndios
16. Vanessa e Tetê
17. O gigante jovem Kubrick
18. Dinho, Nasi e Sérgio
19. China e a autossuficiência alimentar
20. Os caçadores de balas perdidas
21. Lola López Mondéjar: duas horas de psicanálise
22. Laura Cardoso
23. No idioma de Rasputin: as festas infinitas de Vorcaro
1. Anatomia do caos
Uma estreia propícia
O documentário Anatomia do caos vem em boa hora
Eduardo Escorel, piaui, 01. 07. 2026
Restando três meses até o primeiro turno da eleição presidencial, em 4
de outubro, não poderia ser mais oportuno o lançamento de Anatomia do caos nos
cinemas, nesta quinta-feira (2.7.2026), e os debates a serem realizados em várias
cidades, nos dias seguintes, “sobre democracia e os impactos da pandemia no Brasil”,
conforme vêm sendo anunciados.
O documentário de Dandara Ferreira é dedicado “à memória de todos os
brasileiros que morreram na pandemia”. Resgata a trajetória da CPI do Senado
que investigou, de abril a outubro de 2021, a atuação do governo federal no
enfrentamento à Covid. Mais de 700 mil pessoas morreram por causa do vírus no
Brasil. Para tanto, Ferreira recorre, em grande parte, a gravações de arquivo
feitas por inúmeras emissoras de televisão, fotógrafos, cineastas e um operador
de drone.
O presidente da República, na época, era Jair Bolsonaro, acusado sem
meias palavras em Anatomia do caos, pelo professor e epidemiologista Pedro
Hallal, de ser responsável direto por “um pedaço dessas mortes”. Atualmente,
Bolsonaro está em prisão domiciliar, condenado pelo STF a 27 anos de reclusão
por liderar a trama golpista que pretendia impedir a posse de Lula. O
ex-presidente é pai de Flávio, atual candidato à Presidência que tem cerca de
43% das intenções de voto em um eventual segundo turno, de acordo com a
pesquisa DataFolha divulgada em 20 de junho. Daí a inegável atualidade de
Anatomia do caos.
Pai e filho, um como presidente da República, o outro no exercício de
seu mandato de senador, têm participação desigual no documentário. Jair, no
papel de eterno bufão arrogante, faz as suas habituais declarações absurdas e
grosseiras, provas de ignorância que atestam seu despreparo para o cargo que
ocupava. Flávio, por sua vez, figura apagada, pouco articulado, por vezes
agressivo, demonstra ser incapaz de cumprir sequer o papel secundário de fiel
escudeiro do pai.
Um dos méritos a se destacar em Anatomia do caos, portanto, é o de
mostrar a devastadora imagem do então presidente, ao qual o senador Renan
Calheiros se refere, quando apresenta o relatório da CPI da Covid, como “um
homicida homiziado no Palácio do Planalto”. Isso no momento em que as mortes
pela Covid haviam passado de 600 mil.
Além de rememorar, semanas antes do início da próxima campanha
eleitoral, a gestão criminosa do chefe do clã Bolsonaro na Presidência da
República, Anatomia do caos cumpre a nobre função de relembrar a tentativa da
CPI da Pandemia de preservar a memória, ratificar a verdade e assegurar
reparação, conforme uma voz feminina não identificada declara em off nos
minutos iniciais do documentário.
Espaços vazios no Senado são contrapostos ao longo de Anatomia do caos,
de modo sistemático, a corredores e salas movimentadas. O recurso de montagem
sugere a intenção de assinalar, em retrospecto, ceticismo em relação ao efeito
prático de algumas das recomendações da CPI. À medida que o relato avança, com
a progressão do número de mortes, mais do que as atividades agitadas do dia a
dia, o que predomina é a melancolia, resultante talvez da premonição de que as
conclusões da comissão não seriam acolhidas.
Um sentimento ambíguo transparece, por exemplo, na entrevista da
senadora Simone Tebet (PSB-MS) incluída em Anatomia do caos, na qual a
integrante da CPI reconhece primeiro o impacto e, logo em seguida, a gravidade
da investigação ainda em curso: “A CPI, ela antecipou vacina no braço do povo
brasileiro. Essa, [sem] dúvida nenhuma [foi uma decorrência positiva], mas
quando nós achávamos que estávamos encerrando uma etapa, veio uma tão grave
quanto. A CPI desvendou e está desvendando um suposto gravíssimo esquema de
corrupção no Ministério da Saúde de pagamento antecipado de vacina, de propina,
de tráfico de influência, num esquema bilionário.”
No final, os sete senadores que aprovaram o relatório final da CPI da
Covid reagiram com indignação quando a Procuradoria-Geral da República pediu o
arquivamento não apenas de todas as acusações feitas ao presidente Jair
Bolsonaro, mas também de grande parte dos demais 78 indiciamentos de pessoas
físicas e empresas.
As legendas finais de Anatomia do caos, superpostas à imagem aérea do
Senado e da Câmara dos Deputados, reiteram: “Mais de 700.000 mortos. Nenhuma
condenação. Nenhuma prisão. Nenhum pedido de desculpas” – pendência histórica
não resolvida, como a dos responsáveis pela tortura durante a ditadura militar
que permanecem impunes. Esse é um dos legados nefastos da Presidência de
Bolsonaro, cuja família agora pretende voltar ao poder. Para que isso não
aconteça, Anatomia do caos pode ser uma contribuição importante.
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2. Gustavo Cruz: o cinema e a IA - vídeos
A indústria do cinema está quebrada
Por que a "escrita" feita com IA parece tão errada?
Ainda sobre filmes
A história por trás dos filmes
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3. Cabo Verde e sua água potável - vídeo
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4. Os duelos da fase de 32
seleções da Copa do Mundo 2026
Veja os duelos da fase de 32 seleções e os já definidos das oitavas da
Copa do Mundo
África do Sul e Canadá abriram a disputa do primeiro mata-mata da
competição
Seleção brasileira venceu o Japão de virada e a enfrenta agora a Noruega
Claudinei Queiroz, fsp, 28.06.2026
Com o início da fase de 32 seleções da Copa do Mundo de 2026, os
confrontos das oitavas de final começam a ser definidos.
Veja, a seguir, todos os cruzamentos da primeira etapa eliminatória deste Mundial e as seleções que já se garantiram nas oitavas.
Oitavas de final
Sábado (4)
14h - Canadá x Marrocos
18h - Paraguai x França
Domingo (5)
17h - Brasil x Noruega
Fase de 32 seleções
Domingo (28)
16h - África do Sul 0 x 1 Canadá
Segunda-feira (29)
14h - Brasil 2 x 1 Japão
17h30 - Alemanha (3)1 x 1(4) Paraguai
22h - Holanda (2)1 x 1(3) Marrocos
Terça-feira (30)
14h - Costa do Marfim 1 x 2 Noruega
18h - França 3 x 0 Suécia
22h - México x Equador
Quarta-feira (1º)
13h - Inglaterra x República Democrática do Congo
17h - Bélgica x Senegal
21h - EUA x Bósnia-Herzegovina
Quinta-feira (2)
16h - Espanha x Áustria
20h - Portugal x Croácia
Meia-noite - Suíça x Argélia
Sexta-feira (3)
15h - Austrália x Egito
19h - Argentina x Cabo Verde
22h30 - Colômbia x Gana
Copa 2026 - webstories
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5. Terremoto na Venezuela
Terremotos deixaram 2.595 mortos na Venezuela, anuncia presidente interina.
AFP/fsp, 02/07/2026
Pelo menos 2.595 pessoas
morreram nos dois terremotos de 24 de junho na Venezuela, anunciou nesta
quinta-feira (2) a presidente interina do país, Delcy Rodríguez. Ela afirmou
que todas as vítimas serão identificadas.
"Desde o início, eu
disse: ninguém vai para vala comum", declarou Delcy em coletiva de
imprensa. "A primeira coisa é o reconhecimento por impressão
digital", afirmou, ou por fotografia, e "nos casos em que isso não
foi possível, recorremos à arcada dentária forense".
Os tremores também
deixaram 12,4 mil feridos, segundo a presidente.
Nações Unidas estimaram
que elas podem chegar a 50 mil.
Delcy defendeu sua
gestão da catástrofe, diante das críticas da população e da imprensa. Podem-se
"contar as horas" desde o momento dos terremotos e quando foi
ordenado o envio de funcionários militares e policiais, declarou. "Nas
primeiras 24 horas, chegamos a 4 mil funcionários, e, 48 horas depois, havia 11
mil funcionários. Neste momento, já há 19 mil", destacou a presidente. O
governo venezuelano não informou o número de pessoas desaparecidas, mas as
Nações
Os dois terremotos
causaram uma destruição generalizada no estado de La Guaira e afetaram Caracas.
O governo estima que cerca de 200 prédios tenham desabado completamente.
Segundo estimativas da Nasa, 58 mil edificações podem ter sido afetadas.
.........
Desabamento de hospital obriga famílias a levarem corpos para necrotério
na capital da Venezuela
Yessica Mendoza, 43, relata ter decidido levar sozinha corpos de filha e genro e cremá-los porque já se decompunham. Regime de Delcy Rodríguez confirma pelo menos 920 mortes; estimativa da ONU fala em mais de 50 mil desaparecidos
Caracas | AFP, fsp, 27.06.2026
Uma caminhonete abarrotada de corpos em sacos brancos aguardava do lado
de fora do necrotério de Caracas neste sábado (27): com os hospitais
sobrecarregados após os terremotos na Venezuela, são as famílias dos falecidos
que levam seus entes queridos para lá.
Os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram a região na última
quarta-feira (24) em menos de um minuto deixaram, até este sábado, ao menos
1.430 mortos, mais de 50 mil desaparecidos e um cenário de devastação por todo
o país, especialmente em La Guaira, estado vizinho da capital Caracas.
Yessica Mendoza, 43, chegou ao necrotério de madrugada com o corpo da
filha. Ela precisou transportá-lo em um carro particular devido à falta de
serviços funerários.
Sua filha, Yesimar Rodríguez, 25, e seu genro, Jhomel Anaya, 26, ficaram
presos sob os escombros quando o prédio onde moravam desabou durante os
violentos terremotos que transformaram sua cidade, La Guaira, no mais devastado
local dessa tragédia. "Tivemos que retirá-los nós mesmos; ninguém
ajudou", disse a mãe.
Em apenas uma hora, a agência de notícias AFP viu pelo menos três
caminhonetes chegarem ao necrotério carregando corpos cobertos com sacos e
lençóis. Ao passarem, os veículos deixavam um odor de decomposição.
Veja imagens de satélite que mostram antes e depois dos terremotos naVenezuela
Um funcionário, que pediu anonimato por não estar autorizado a falar,
disse que pelo menos 200 corpos chegaram a este necrotério, sede do Serviço
Nacional de Medicina Legal da Venezuela, desde sexta-feira (26).
Mendoza relatou que decidiu levar a filha ao necrotério porque no
hospital Catia la Mar, em La Guaira, "os mortos estavam no chão". O
corpo da filha de Yessica Mendoza foi encontrado na sexta, e o do genro, no dia
anterior. "Vamos cremá-los porque já estão em um estágio muito avançado de
decomposição e não podemos fazer um velório", disse a mulher.
O regime de Delcy Rodríguez confirma ao menos 920 mortos. O Serviço
Geológico dos EUA estimou a possibilidade de mais de 10 mil mortes decorrentes
dos terremotos, o que os colocaria entre os mais letais da América Latina no
último século. "Até 6,76 milhões de pessoas podem ter sido afetadas"
pelas consequências do desastre, segundo a ONU, que estimou os danos diretos em
aproximadamente US$ 6,7 bilhões, valor equivalente a 6% do PIB do país
sul-americano.
À medida que socorristas trabalham nos prédios destruídos, espera-se que
a quantidade de vítimas siga aumentando. Em comunicado, Delcy disse que, para
ajudar na resposta ao desastre, o regime está "militarizando" o
estado de La Guaira.
Os dez terremotos mais mortais da história da América Latina e Caribe
Em número de mortos
A oposição venezuelana compartilhou sites criados para registrar
desaparecidos — o número seria de 56 mil pessoas
com paradeiro desconhecido. Segundo estimativa do chefe de ajuda humanitária da
ONU, há mais de 50 mil desaparecidos.
Leia mais sobre os terremotos na Venezuela
Construir sistema de alertas de terremotos na Venezuela seria missão dedécadas, diz especialista
Itamaraty confirma dois brasileiros mortos após terremotos na Venezuela
Veja ranking dos terremotos mais letais da história da América Latina eCaribe
Terremotos abalam uma Caracas com construções vulneráveis devido à criseeconômica na
Refeitório em Caracas mantém rotina de solidariedade após terremotos naVenezuela
......
Sobe para 2.295 o número de mortes confirmadas em terremotos naVenezuela, 1º.jul.2026
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6. Michelle
Em nome de que Michelle desafiou a autoridade de Bolsonaro?
Vídeo foi planejado em
detalhes, com cenário, roteiro e teleprompter. Ex-primeira-dama cita Valdemar
Costa Neto e lideranças do PL Mulher como aliados.
Juliano Spyer, fsp,
25.06.2026
Michelle Bolsonaro
publicou um vídeo (ver aqui) explicando por que não apoiará Flávio. O que me interessa não
é o que ela diz, mas o que ela faz a partir desse ato e as perguntas que isso
levanta.
Michelle tomou essa
atitude sem consultar ou pedir autorização ao marido? Porque ela não diz falar
em nome de Jair e não faz sentido que ele ataque o filho. Seu primogênito é
pré-candidato à Presidência da República escolhido por ele próprio. Não me lembro
de outro gesto da ex-primeira-dama demonstrando essa autonomia contra o
interesse familiar.
Qual é o objetivo, além
de prejudicar as chances de Flávio na corrida presidencial, ao apresentá-lo e
aos irmãos como pessoas que atacam uma mulher —a esposa do pai— tratando-a como
ingênua nas palavras dela, para apoiar um inimigo político em nome do
pragmatismo?
Ela tem motivos para
agir. Ao tomar a frente como candidato do bolsonarismo, Flávio tirou de cena o
projeto de chapa entre Tarcísio e a própria Michelle. A dobradinha era tida
como a mais viável para vencer Lula —juntava a experiência de Tarcísio como governador
aprovado de São Paulo com a força da ex-primeira-dama levando mulheres,
inclusive evangélicas pobres, atraídas a Lula.
O Ministério Madureira
da Assembleia de Deus já declarou apoio aberto a Caiado, e outros pastores não
escondem o desejo de seguir o mesmo rumo —apenas temem o desgaste dessa escolha
dentro de suas denominações.
Michelle quer vingança,
quer uma chapa, ou outra coisa?
Ela calculou suas ações
em detalhes. Seu vídeo é uma peça publicitária que conta com cenário —diplomas
ao fundo, símbolo de libras e estrela de Davi, taça de cristal clássica. Havia
um roteiro elaborado. Havia um teleprompter para ela ler. Esse planejamento
supõe que existem outras pessoas atuando em nome dela.
E quem então faz parte
desse núcleo duro em torno de Michelle? Ela cita alguns nomes em sua fala. O
mais conhecido é o do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Ela também defende
o grupo de lideranças que constituiu por meio da presidência do PL Mulher.
Podemos supor que ela
esteja dialogando com pastores como Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, que
visitou Bolsonaro na prisão? E o pastor Silas Malafaia, a liderança que tem
criticado Flávio publicamente? E os evangélicos ligados ao governo Bolsonaro,
da Igreja Presbiteriana, como o ministro André Mendonça?
Finalmente, cabe
perguntar qual é a eficiência desse ataque à pré-candidatura de Flávio. Houve a
revelação de que ele mentiu sobre não conhecer o ex-dono do Master, Daniel
Vorcaro. A informação veio de dentro —mas de quem? Não parece haver pressão
para que se revele o destino verdadeiro dos milhões pagos por ele ao clã, com o
objetivo inicial de financiar o filme.
Mesmo acuada, a
pré-candidatura resiste. Nem Zema nem Caiado têm ganhado tração nas pesquisas.
Apesar do que já foi revelado, Flávio segue sendo visto como o nome com mais
chances de vencer Lula no segundo turno. Ele recebeu a bênção do pai e os
adversários até agora se mostraram submissos a esse desejo de Jair.
A estratégia do círculo
de Flávio parece ser apresentar esta eleição como um plebiscito sobre Lula e o
PT. Eleitores da direita entendem que a meta maior é tirar o presidente,
independentemente de quem for ocupar essa posição. E Flávio se consolidou como
a opção mais viável para esse confronto, pelo menos no primeiro turno.
Devemos analisar os
vídeos de Michelle a partir desse cenário. Ela foi figura importante no PL ao
longo dos últimos anos, mesmo depois de deixar a Presidência. Teve recursos,
infraestrutura, prestígio. Agora, com Flávio, ela e seu grupo vêm sendo
maltratados, expostos e desmerecidos.
Será que a
ex-primeira-dama terá vaga para concorrer ao Senado? E quem será ela no partido
caso Flávio seja eleito?
Esse parece ser o motivo
mais razoável para a atuação de Michelle. Ela demonstrou que quer negociar um
espaço no PL antes do início da campanha. Para continuar relevante em 2030, em
um cenário sem Lula, ela e seus interlocutores próximos —especialmente evangélicos
— precisam mostrar a força que têm hoje.
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7. Marlon Brando - vídeos
A VERDADE POR TRÁS DA SUPOSTA RELAÇÃO JAMES DEAN E MARLON BRANDO! BR
AS MULHERES QUE MARLON BRANDO TRAUMATIZOU!
100 ANOS DE MARLON BRANDO: Suas 10 Melhores Performances
O QUE ACONTECEU AOS FILHOS DO MARLON BRANDO???
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8. Paixão e guerra no sertão de Canudos,1993 - filme
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9. Psicanálise é pseudociência?
Dunker comenta polêmica com Natalia Pasternak
Do UOL, em São Paulo, 02/07/2026
A psicanálise é uma prática clínica "de cura pela fala", e não
algo que se encaixe num teste rígido de "ciência ou pseudociência",
diz o psicanalista Christian Dunker para Antonio Tabet no Alt Tabet, do Canal
UOL.
Ao comentar a polêmica após a cientista Natália Pasternak incluir a
psicanálise entre "pseudociências" em um livro, Dunker afirma que a
discussão sobre o que é ciência ficou mais complexa e que a psicanálise deve
ser entendida como experiência prática de cuidado.
"É uma cura pela
fala, um tratamento pela fala em relação. Ou seja, a gente conta muito com a
maneira como o sujeito se coloca em relação ao que ele diz e como ele vai
re-experienciando a sua história, os seus sonhos, os seus futuros. De tal
forma, é tratado o sofrimento na forma dos sintomas, das angústias, das
inibições. (...) A psicanálise é uma clínica. Ela é uma experiência
prática." Christian Dunker
Dunker também afirma que
a pergunta sobre "demarcar" ciência e não-ciência tem uma marca de
época e diz que, na epistemologia, há posições diferentes sobre o lugar da
psicanálise. Ele acrescenta que, depois de décadas, o campo se desdobrou em várias
psicoterapias influenciadas por Freud, o que torna a discussão menos binária.
"A ideia de
pseudociência se transformou numa coisa pejorativa, desautorizativa. Então, se
você não está fazendo ciência, você está enganando os outros. Isso é uma forma
de ilusão." Christian Dunker
Ao falar diretamente
sobre Pasternak, Dunker diz que ela perdeu a chance de ampliar o debate sobre
divulgação científica. Segundo ele, a cientista apresentou um modelo "sem
história" e associado à imagem de autoridade e laboratório, com metodologias
que, na visão dele, são contestadas na psicologia e na psicanálise.
"A Natália perdeu
uma chance preciosa de expandir uma área que a gente é bastante vulnerável, que
é a divulgação científica. (...) Apresentou um modelo de ciência que confirma
os preconceitos e as resistências que a ciência hoje gera: autoritário,
arrogante, sujeito dentro de um laboratório, fazendo experimentos com um certo
tipo de metodologia, estudos randomizados, que para a psicanálise e para a
psicologia hoje são extremamente contestados." Christian Dunker
"O mais importante
desse processo é que isso é uma tarefa pra reduzir o sofrimento das pessoas,
mas principalmente pra descobrir pra onde vamos. (...) E é esse encontro que a
psicanálise promete. Um encontro com o seu desejo", completa o
psicanalista.
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Maria Adelaide Amaral e os encontros que mudam uma vida | Joyce Pascowitch entrevista
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11. Informação é o nosso esporte
Uma mesa-redonda precisa contemplar sempre a variedade de estilos e opiniões. Gosto do estilo de Thierry Henry, porque une personagens diferentes, informa e diverte
PVC, fsp, 23.06.2026
Thierry Henry é um sucesso de crítica como comentarista da Fox, nos
Estados Unidos. Tanto que já mereceu elogios no britânico The Guardian e no
norte-americano The Athletic, braço esportivo do The New York Times.
O sucesso de público do trio que forma com Alexi Lalas e Zlatan Ibrahimovic nas análises pré e pós-jogo e no intervalo contrasta com as críticas severas feitas pelos dois grandes jornais ao comportamento de Lalas e Zlatan. "Highlights de arrogância", escreveu Andrew Marchand, no The Athletic, sobre o comportamento de Ibra.
Um comercial transmitido nos intervalos da Copa mostra o craque sueco de
frente para o espelho imaginando a frase após o título: "França, campeã
mundial! Não, não está bom. Argentina, campeã mundial. Não, também não. Zlatan,
da República Zlatan, campeão mundial de futebol. Agora sim!". É um
personagem.
"O francês aristocrata e o idiota americano", escreveu Aaron
Timms, no The Guardian. Nos dois casos de elogios, são a Henry e à
apresentadora Rebecca Lowe. As críticas são à arrogância de Ibrahimovic e à
tentativa de Lalas de ser o americano típico: "Gostaríamos que Lalas nunca
tivesse aprendido inglês, especialmente quando usa seu estilo ‘hot take’",
escreveu Andrew Marchand, referindo-se às polêmicas vazias. "É o mais
insuportável dos comentaristas."
Henry é calmo, sereno, didático e usa o telão para mostrar imagens que
esclarecem. Mostra Cristiano Ronaldo sem abrir espaço para seus companheiros de
time: "Portugal precisa de gols, não é você quem precisa de gols",
disse Henry.
Com o perdão da redundância, a preferência desta coluna é pelo estilo
Thierry Henry, principalmente pela capacidade de criar um tipo de programa que
une personagens diferentes, informa e diverte.
Esta maldita palavra vazia usada em emissoras de TV do Brasil,
"entretenimento", significa que você precisa parar diante do monitor
por algum motivo. Informar-se ou apenas rir. Entretenimento é palavra vazia,
porque tudo isso pode entreter.
E informação é a coisa mais moderna do mundo moderno. Chico Anysio e Jô
Soares usavam informação para montar personagens divertidos.
O que há na Fox, com o quarteto Lowe, Henry, Ibra e Lalas, é direção.
Não importa se está na tela um ex-jogador, um jornalista, um comediante ou um
influenciador. Tem de cumprir uma função. Para o meu gosto, Henry cumpre mais
que Lalas.
Mas a soma é melhor que Jorginho, do Flamengo, contratado para ser
comentarista ocasional na Copa. Questionado sobre o que lhe chamou a atenção no
início do Mundial, respondeu que estava viajando e só viu o Brasil antes de
retornar das férias. Foi contratado para dizer que não sabe e que não viu?
Até entretenimento tem de ser profissional.
Sou suspeito. Comentarista há 26 anos, presente na cabine de transmissão
das últimas cinco finais de Copa. Uma mesa-redonda deveria contemplar sempre a
variedade de estilos e opiniões. Era assim a Mesa Redonda Facit, a primeira do
estilo no Brasil, em 1965, na TV Rio.
Luís Mendes apresentava de terno, como Armando Nogueira, que pretendia
ser o comentarista de respeito. Junto a eles estavam João Saldanha, José Maria
Scassa, Nelson Rodrigues e o craque da Copa de 50, Ademir de Menezes.
Se estamos falando sobre eles 60 anos depois, é porque ficou legado.
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12. Idade é só um número
A idade é só um número, pelo menos no gramado da Copa
Quando atletas de elite provam que declínio físico não é destino,
cidadão comum começa rever prazos de validade. A fronteira da velhice parece
mais longe e o gramado virou um grande palco dessa virada
Mariliz Pereira Jorge, fsp, 23.06.2026
Bonito ver a linha do tempo sendo desafiada em campo. Para ficar em dois
exemplos, de um lado, Lionel Messi, que completa 39 anos nesta quarta (24),
lidera a artilharia da Copa; do outro, Cristiano Ronaldo, aos 41, marca dois
gols em uma única partida e balança a rede em seis Copas do Mundo. Numa idade
em que a biologia tradicional do futebol decretaria o pijama, eles implodem
estereótipos etaristas diante de bilhões de pessoas. A fronteira da velhice
parece mais longe e o gramado virou um grande palco dessa virada.
Para quem se acostumou a ver o esporte aposentar seus ídolos ainda
jovens, o choque é cultural. Pelé despediu-se da seleção aos 30 anos. Tostão
parou aos 26 e Ronaldo Fenômeno sucumbiu às dores aos 34. Parecia uma lei
implacável: passou dos 30, o corpo pede o boné.
O que testemunhamos hoje não é um mero privilégio genético, mas uma
mudança profunda de mentalidade que redesenha a nossa relação com o tempo.
Quando atletas de elite provam que o declínio físico não é um destino imediato,
o cidadão comum também começa a rever seus prazos de validade. Essa sobrevida
no topo deixa de parecer uma excentricidade distante e passa a funcionar como
um espelho para a nossa própria maturidade.
A ciência responsável por manter esses quarentões correndo em alto nível
é a mesma que está redefinindo o envelhecimento comum. A evolução da medicina
esportiva não vai ficar restrita aos clubes europeus, ela já molda a saúde
pública. A lógica do preparo, potência muscular, recuperação que sustenta o
desempenho na Copa é a que a medicina moderna recomenda para garantir autonomia
de qualquer um de nós.
O treino de força é a intervenção mais eficaz para a longevidade
saudável. Puxar ferro virou prescrição obrigatória muito antes da terceira
idade: serve para mulheres na pré-menopausa e para qualquer um que queria
peitar o envelhecimento do corpo e da mente. Não por acaso, programas de
condicionamento para idosos já são uma tendência fitness no Brasil. Assistir a
esses veteranos é entender que o nosso próprio segundo tempo pode ser jogado em
alto nível.
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13. Soberba é o motor da história
Polícia Federal avança em investigações sobre o Master por causa de
celulares apreendidos, Por excesso de confiança, criminosos juntam eles mesmos
as provas que poderão condená-los.
Hélio Schwartsman,fsp, 18.06.2026
Apesar de não haver ainda nenhuma delação premiada envolvendo o caso
Master, a PF vem avançando a passos largos nas investigações. O senador Jaques
Wagner, petista de escol e ex-governador da Bahia, foi tragado para o centro do
escândalo. Um pouco antes, descobrimos que Hugo Motta, o presidente da Câmara,
também foi paparicado por Daniel Vorcaro, tendo usufruído de uma daquelas
viagens nababescas bancadas pelo ex-banqueiro.
Sobrou até para a própria PF, pois ficamos sabendo que as organizações
Master pagavam mesada de R$ 400 mil a um grupo de agentes e ex-agentes que se
encarregavam de informar a família Vorcaro do andar das investigações. E essa é
só uma versão muito sucinta de revelações dos últimos dias.
Antes disso, o caso Master já provocara abalos ainda mais profundos. A
credibilidade do STF escoou pelo ralo com detalhes do relacionamento de Vorcaro
com ministros da corte. Flávio Bolsonaro pode ter perdido de véspera a eleição
com o áudio em que pede milhões de dólares ao mecênico ex-banqueiro para
financiar o filme Dark Horse.
Como a PF avançou tanto se ninguém ainda recorreu à delação premiada? A
resposta está nos celulares apreendidos. Esses aparelhinhos se tornaram a
perdição de criminosos, que se encarregam eles próprios de produzir e armazenar
as provas que irão mais tarde condená-los. E às vezes até se gabam de seus
feitos.
Não dá para dizer que seja só ignorância. Ao menos em instantes
críticos, os suspeitos recorreram a sistemas de criptografia e outros
estratagemas para evitar a autoincriminação. Mas, por uma combinação de
autoconfiança excessiva com falta de familiaridade com a tecnologia, não
tiveram sucesso. Deixaram de observar até procedimentos básicos para
delinquentes, como desabilitar o backup automático.
Qual é o motor da história? Para Hegel, era o Espírito Absoluto; para
Marx, a luta de classes. Penso que a hýbris, a soberba, explica muito mais, do
naufrágio do Titanic à campanha russa de Napoleão, passando pelas indiscrições
de Daniel Vorcaro.
Entenda a fraude no Caso Master - webstories
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14. O singelo assassino
Ruy Castro, fsp, 18.06.2026
O psicopata condenado a 43 anos de prisão foi chamado pela imprensa de
Dr. Jairinho. Seria como se os assassinos da menina Isabella Nardoni fossem
tratados por Aninha e Alex.
Há dias, terminou no Rio o julgamento do assassinato do menino Henry
Borel, torturado e morto aos quatro anos em 2021 por seu padrasto, o
ex-vereador e médico Jairo Souza Santos, sob a omissão de sua própria mãe,
Monique Medeiros. Ele pegou 43 anos de prisão; ela, a quem se devia a proteção
do filho, 1 ano e quatro meses, e mesmo assim a juíza a mandou para casa. É
quase intolerável saber a que essa criança foi submetida durante um mês inteiro
até sua morte. Apesar disso, durante todo o processo, Jairo Souza Santos foi
chamado pela imprensa por seu meigo apelido de "Dr. Jairinho". Tal
tratamento provoca revolta ou asco?
Em 1992, também no Rio, a atriz Daniella Perez, 22 anos, foi assassinada
por seu colega Guilherme de Pádua e pela mulher dele, Paula Thomaz. Ainda
insuspeito, Pádua, incrivelmente, juntou-se ao luto da família. Não me ocorre
que tenha sido tratado por "Gui" no noticiário, como Daniella talvez
o fizesse. Em 2002, em São Paulo, Suzanne von Richthofen urdiu com o namorado
Daniel Cravinhos e o irmão deste, Cristian, a morte de seus pais enquanto
dormiam. Nem por isso Suzanne tornou-se Suzy.
Também em 2002, numa favela carioca, o jornalista Tim Lopes foi
capturado, torturado e morto pelo traficante Elias Pereira da Silva e seus
cúmplices. O corpo foi coberto de pneus, a que se jogou combustível e se pôs
fogo, num processo chamado de "micro-ondas". Elias era famoso como
"Elias Maluco", não como Eli.
Em 2008, também em São Paulo, Isabella Nardoni, cinco anos, foi agredida
pela madrasta, Anna Carolina, e atirada do 6º andar por seu pai, Alexandre
Nardoni. Por sorte, eles não se tornaram o casal Aninha e Alex, como os amigos
deviam chamá-los. E, em 2012, igualmente em São Paulo, o executivo Marcos
Matsunaga foi morto com um tiro por sua mulher, Elize. Teve o corpo dividido em
sete partes e estas, levadas em malas e espalhadas pela região de Cotia. Mas
Elize continuou Elize, não Ize.
Já o psicopata Jairo Souza Santos foi reduzido ao singelo diminutivo
"Jairinho".
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15. Pantanal das secas e incêndios
Após anos de secas e incêndios, pantanal enche, ao menos por enquanto
Região de Paiaguás, na maior planície alagada do mundo, vê-se cheia como
não ocorria havia algum tempo. O ano de 2026, porém, pode guardar armadilhas de
fogo, com provável El Niño que se aproxima.
Phillippe Watanabe & Lalo de Almeida, fsp, 04.05.2026
Bogotá (Colômbia) e Ladário - Uma imagem de encher os olhos pode ser
vista neste momento no pantanal.
Depois de alguns anos de secas e de grandes incêndios em partes do
bioma, a região do Paiaguás (Mato Grosso do Sul), a maior do pantanal,
encontra-se coberta de água. Há áreas, inclusive, só acessíveis com pequenos
barcos ou aviões. "Fazia tempo que não ficava nessas condições", diz
Ângelo Rabelo, diretor do IHP (Instituto Homem Pantaneiro). "Traz uma
beleza. Como um aquário natural."
Os anos de 2023 e 2024 tiveram recordes de fogo no bioma. Em novembro de
2023, mais de 4.000 focos de fogo ardiam na região, um recorde para o mês. Em
junho de 2024, mais 2.000 focos de incêndio eram registrados no pantanal,
também o maior valor já visto para o mês.
Já em 2025 a situação foi consideravelmente mais amena no bioma, no
quesito queimadas. Mesmo que, aos olhos, haja beleza, a situação não é
necessariamente positiva por inteiro. Rabelo diz que, apesar da cheia atual, já
viu os níveis de água no bioma muito acima do que se vê.
Pantanal enche, ao menos por enquanto - galeria
A situação, porém, pode não continuar tão positiva durante o restante do
ano. Já está declarado, por portaria publicada em fevereiro, um estado de
emergência ambiental no bioma por risco de incêndios —o que, em algumas regiões
do pantanal, segue ativo até dezembro.
A declaração, entre outras coisas, permite a contratação temporária de
pessoal.
A organização SOS Pantanal alertou, no começo de março, que o auge da
estação chuvosa no bioma não resultou em um volume de chuvas favorável. Segundo
a ONG, choveu menos nas cabeceiras do pantanal "indicando que
provavelmente o ano de 2026 apresentará um cenário de seca acentuada e maior
suscetibilidade ao fogo".
Tomando como base dados do Serviço Geológico do Brasil, o SOS Pantanal
fala que o bioma em Mato Grosso do Sul tem tendência de ficar sem cheia pelo
oitavo ano seguido. "A última grande cheia considerada foi em 2018, em que
a mesma régua de Ladário registrou nível de 5,35 metros", aponta a ONG.
Outro ponto de atenção em 2026 no bioma é o provável El Niño que se
aproxima. O fenômeno costuma levar a temperaturas mais elevadas, mais seca e,
consequentemente, maior risco de queimadas para partes dos estados que abrangem
o pantanal, segundo nota técnica do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais).
A mesma nota técnica aponta que, em episódios de El Niño forte, observações empíricas sugerem que, em Mato Grosso do Sul e em parte de
Goiás, há maior regularidade nas chuvas, com volumes significativos em meses de
verão e outono. Já ao norte da região, há maior irregularidade na frequência e
na distribuição espacial das chuvas.
De toda forma, o contexto presente e o provável El Niño levaram Flávio
Dino, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), a intimar a União e osestados parte da Amazônia e do pantanal a informar o planejamento e os preparativos frente ao aumento do
risco de incêndios florestais.
Um aquário recente
A beleza do que parecem piscinas que se formam na região do Paiaguás e a
presença mais recente de grandes animais, como onças-pintadas, na área pode
esmaecer o processo que levou a isso. Até não muito tempo atrás, a região não
era assim.
Nos termos usados localmente, um "arrombado" levou a isso.
Trata-se, em linguagem técnica, de uma avulsão, quando o leito de um rio —no
caso, o rio Taquari — se torna mais alto do que suas margens.
O processo no local foi acelerado pela ocupação desordenada das
cabeceiras do rio, o que acentuou o assoreamento do Taquari.
Duas avulsões ocorreram, na década de 1980 e 1990, no rio. Além das
questões ambientais associadas ao fenômeno, comunidades tradicionais
abandonaram diversas fazendas da região, que acabaram inundadas,
impossibilitando a tradicional criação de gado no pantanal.
A situação geral do pantanal também é preocupante. Trata-se do bioma que
mais perdeu superfície de água, segundo dados do MapBiomas. Em 2024, o bioma havia perdido 61% da superfície de
água em relação à média histórica.
O jornalista Lalo de Almeida viajou a convite do Documenta Pantanal
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16. Vanessa e Tetê - vídeos
VANESSA DA MATA - Desculpincomodar #19
TETÊ ESPINDOLA - Desculpincomodar #05
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17. O gigante jovem Kubrick
Muitos dos maiores fãs de Stanley Kubrick de hoje só o conhecem pelos
seus últimos filmes. Teriam grande surpresa se vissem 'O Grande Golpe',
'Spartacus' ou 'Glória Feita de Sangue'.
Ruy Castro, fsp, 06.06.2026
No dia 16/5, dei aqui uma lista dos 20 filmes que Stanley Kubrick dizia serem os seus favoritos, os que mais gostava de
rever. Alguns estranharam que ele tivesse incluído um de seus próprios filmes:
"Glória Feita de Sangue" (1957). Não vi nada demais nisso —talvez
Kubrick o considerasse o filme em que tudo saíra como ele planejara. Além
disso, para mim e para muitos, "Glória Feita de Sangue" pode ser o
maior filme de guerra já feito.
Leitores opinaram que, se Kubrick tinha de incluir um de seus filmes,
deveria ter citado "O Iluminado" (1980) ou "Nascido Para
Matar" (1987). Ou "Laranja Mecânica" (1971) ou "Barry Lyndon" (1975). Não me lembro se alguém citou
"2001: Uma Odisseia no Espaço" (1968) — espero que sim. Mas a pergunta é:
o que os comentários dos leitores revelam? Que muitos deles, talvez mais
jovens, só conhecem o Kubrick da última fase, de "2001" para cá.
Talvez nunca tenham visto o intrigante "A Morte Passou por
Perto" (1955), sua estreia oficial aos 27 anos, e o já maduro, ousadíssimo
"O Grande Golpe" (1956), em que a ação retrocede a todo momento,
vista pelo ângulo de cada personagem, como no romance "O Som e a
Fúria", de Faulkner. Quem é esse tal de Kubrick? —perguntaram os críticos.
Daí que, no filme seguinte, que foi "Glória Feita de Sangue", já
estavam de olho nele. E ele ainda os surpreendeu.
De repente, o aparente retrocesso: "Spartacus" (1960), uma
superprodução bíblica com Kirk Douglas à frente de milhares de figurantes. Os
críticos desprezavam o gênero, e "Spartacus" pagou por isso. Mas,
revisto hoje, que surpresa! Que filme! Não direi nada sobre "Lolita"
(1962), que também adoro, mas entendo os que acham ter sido um erro desafiar a
censura filmando o romance de Vladimir Nabokov. E então chegamos a "Dr.Fantástico" (1964), um dos meus dez favoritos e dos dez maiores do cinema.
Donde, para os que só conhecem o Kubrick "moderno", uma dica:
tentem ver os filmes de quando ele era um jovem que já se julgava um gigante. E
que, como sabemos hoje, era mesmo.
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18. Dinho, Nasi e Sérgio - vídeo
DINHO OURO PRETO - Desculpincomodar #08
NASI - Desculpincomodar #02
SÉRGIO BRITTO - Desculpincomodar #03
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19. China e a autossuficiência alimentar
Plano da China por autossuficiência alimentar ameaça o agro brasileiro
O Brasil tem uma dependência crítica e concentrada do mercado chinês,
que é o destino de 71% das exportações nacionais de soja e 54% da carne bovina.
Fernando Canzian, Folhapress, 08/06/2026
O agronegócio brasileiro, um dos pilares da estabilidade econômica do
país, enfrenta hoje uma ameaça estrutural inédita, algo que pode redesenhar o
comércio global nas próximas décadas.
O Brasil tem uma dependência crítica e concentrada do mercado chinês,
que é o destino de 71% das exportações nacionais de soja e 54% da carne bovina.
Sozinho, o país fornece mais de 60% de toda a oleaginosa importada por Pequim e
cerca de 40% de sua carne.
No entanto, a China decidiu que essa dependência é um risco intolerável
para sua segurança nacional e acionou um plano para reduzir suas compras
externas. As medidas estão delineadas no recém-publicado 15º Plano Quinquenal
chinês 2026-2030.
A projeção central é que a demanda chinesa por importação de soja caia
25% até 2030, o que representa um corte de 23,5 milhões de toneladas. O volume
equivale a quase um terço de tudo o que o Brasil exportou para a China em 2024.
Sem outros compradores globais com escala suficiente para absorver
tamanha oferta, o Brasil enfrenta o risco real de uma queda simultânea nos
volumes e nos preços das commodities. Isso pode desvalorizar terras
recém-convertidas e infraestruturas logísticas, que perderiam viabilidade
econômica.
Uma mudança profunda na estratégia chinesa impulsiona essa
transformação: o país passou a aplicar no campo o mesmo “manual industrial” que
lhe garantiu a liderança global em painéis solares e veículos elétricos.
No 15º Plano Quinquenal, a segurança alimentar foi elevada à
classificação de prioridade estratégica, equiparada à segurança energética e
financeira. O objetivo de Pequim é reverter também um déficit comercial
agrícola de US$ 124,5 bilhões (R$ 631,2 bilhões) mediante uma doutrina de
“Alimentação Expandida”, com foco em resiliência soberana e autonomia
tecnológica.
A China reconhece que a autossuficiência absoluta é impossível pela
escassez de terra e água possuindo apenas 8% das terras aráveis do mundo para
15% da população, mas busca uma “dependência segura” por meio da diversificação
agressiva e inovação. “Negar o tamanho dessas transformações pode ser muito
nocivo, e não vemos um sentido de urgência no Brasil para enfrentar as novas
diretrizes”, afirma Patricia Ellen, sócia e CEO no Brasil da Systemiq,
consultoria internacional presente em países como Reino Unido, Alemanha e
Indonésia que esmiuçou em recente relatório (“Chinas Food Future”) os impactos
dessas mudanças.
Para Ricardo Abramovay, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e
Tecnologia, embora a propriedade de terras na China seja estatal, há forte
estímulo a investimentos privados e inovadores como cultivos e produção de
proteína animal em estruturas verticais e próximas às cidades. O plano prevê
acesso a capital de baixo custo de bancos estatais. Inclui também subsídios
direcionados e financiamento contínuo em pesquisa e desenvolvimento. Esse
conjunto de medidas reduziria o risco nos estágios iniciais e o custo de
fracassos. Além disso, permitiria que as empresas investissem em escala antes
que a viabilidade comercial fosse comprovada acelerando curvas de aprendizado e
viabilizando a expansão da capacidade produtiva.
“Os líderes chineses têm convicção, pelo passado do país, de que um bom
governo é o que garante boa alimentação. Querem replicar na área, agora que os
chineses têm mais renda para comer melhor, o que realizaram no setor
industrial”, afirma Abramovay.
De 1959 a 1961, a China enfrentou a chamada Grande Fome, causada pela
combinação de fatores climáticos com as políticas econômicas e agrícolas
fracassadas do programa “Grande Salto Adiante”, de Mao Tsé-Tung (1893-1976).
Dezenas de milhões de pessoas morreram por inanição, em uma das maiores crises
de fome da história mundial. “As metas são concretas: produção de 725 milhões
de toneladas de grãos por ano, mais que o dobro da produção brasileira;
expansão de terras de alto padrão com irrigação e mecanização; sementes
soberanas com biotecnologia em larga escala; mais seguro e crédito, e melhor
infraestrutura no campo”, analisa Marcos Jank, coordenador do Núcleo Insper
Agro Global.
Ele afirma, no entanto, que as projeções da Systemiq com base nos planos
chineses podem ser vistas com ceticismo. “Sistemas agroalimentares são
governados por biologia, agronomia e cultura, e são muito mais resistentes à
transformação rápida do que painéis solares, baterias e veículos elétricos,
setor em que o sucesso chinês foi enorme.”
Jank pondera que, enquanto o potencial de crescimento da oferta agrícola
brasileira é enorme, o da China é limitado pela escassez de terras férteis e
pelas restrições severas no uso de água. “Mas a prudência nos recomenda buscar
outros mercados”, diz. Procurado, o Ministério da Agricultura e Pecuária não
comentou as novas diretrizes chinesas. A Associação dos Produtores de Soja e
Milho de Mato Grosso, estado líder na produção de grãos, também não se
manifestou.
Os avanços tecnológicos que sustentam a guinada chinesa são acompanhados
de números rigorosos. O governo acionou o plano “Ação de Capacidade de 50
Milhões de Toneladas”, que impõe metas de produtividade estritas às províncias
para aumentar a produção doméstica de grãos até 2030. Na área de biotecnologia,
a China trata a segurança de sementes com a mesma importância estratégica dos
semicondutores, aprovando a comercialização de variedades de milho e soja
geneticamente modificados locais para elevar o rendimento por hectare entre 6%
e 13%.
Outra frente decisiva é a reestruturação das fórmulas de ração animal. O
governo determinou que a inclusão de farelo de soja caia de 14,5% para menos de
10% até 2030. A eficácia dessa medida já é visível em escala industrial: a
gigante Muyuan Foods, maior produtora de suínos do mundo, reduziu sua inclusão
de soja para apenas 5,7% em 2023, economizando 31 kg do grão por animal
produzido.
Segundo Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama e diretor-executivo do
Grupo Associado de Agricultura Sustentável, a China tem primazia na produção de
aminoácidos (“tijolos” que constroem proteínas). “Isso permite aumentar o valor
proteico de suas rações, e os chineses estão em pleno processo de escalar os
volumes para tornar seu uso economicamente viável”, afirma.
A longo prazo, a China planeja deixar de ser o maior importador para se
tornar um competidor global. Até 2040, o país projeta ser um exportador líquido
de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos, forçando produtores
tradicionais a enfrentar a concorrência chinesa. Além disso, Pequim investe em
biomanufatura, com bionegócios e proteínas alternativas (vegetais, fermentadas
e cultivadas em laboratório) projetadas para atender de 35% a 55% da demanda
doméstica por carne até 2050.
Nesse novo tabuleiro geopolítico, o agronegócio brasileiro ainda é
considerado pela China como uma “garantia de subsistência real” a curto prazo,
enquanto o agro dos EUA serve como “moeda de troca política”.
No entanto, com o aumento da autossuficiência tecnológica, a China terá
o poder de elevar exigências ambientais, demandando produtos livres de
desmatamento e com rastreabilidade total, alinhando-se a padrões similares aos
da União Europeia.
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20. Os caçadores de balas perdidas
Criada para investigar mortes em Gaza, a arquitetura forense agora é
usada por pesquisadores no Complexo da Maré para esclarecer casos de violência
policial
Juliana Faddul, piaui, 16. 06. 2026
Munido apenas do celular, Maykon Sardinha percorreu as ruas do Complexo
da Maré fotografando tudo o que via pela frente. Na manhã daquela terça-feira,
27 de outubro de 2020, policiais civis tinham entrado de manhã cedo na
comunidade, na Zona Norte do Rio de Janeiro, com a justificativa de prender
foragidos da Justiça. A operação policial terminou com uma moradora grávida
atingida por uma bala perdida. Depois que ela já havia sido socorrida, Sardinha
entrou em sua casa e não pensou duas vezes: começou a tirar fotos. De
diferentes ângulos, usou a câmera do celular para registrar a marca que o projétil
havia deixado na parede depois de atravessar a moradora, assim como os
respingos de sangue.
“Tinha muitas pessoas na hora. Ouvi os depoimentos e tirei umas seis ou
sete fotos”, ele relembra. Seu objetivo não era compartilhar as imagens em
redes sociais ou com a imprensa. Ele estava ali para colher provas. Nascido e
criado na comunidade, Sardinha tem 30 anos e coordena o Maré por Justiça,
projeto que apoia vítimas de violência do Estado e colabora com investigações
para descobrir os responsáveis. “Através de uma única imagem é possível contar
uma história.” A história, nesse caso, terminou em tragédia. O bebê, que estava
no quarto mês de gestação, morreu. A mãe, Maiara Oliveira, tinha apenas 19
anos. Ela sobreviveu, mas perdeu parte dos movimentos de um dos braços e ficou
com cicatrizes.
Embora tenha acontecido há mais de cinco anos, o episódio até hoje não
foi esclarecido pelo poder público. A investigação que apura quem foi o
responsável pela morte do bebê está emperrada na 21ª Delegacia de Polícia, no
bairro de Bonsucesso. É a mesma unidade de onde saíram os policiais que
realizaram a operação. Na época, a Polícia Civil se eximiu de responsabilidade.
Afirmou que os agentes sofreram uma emboscada de traficantes do Comando
Vermelho, momento em que Oliveira foi “ferida pelos disparos dos criminosos”.
Os moradores da Maré nunca acreditaram nessa versão. Em 2024,
finalmente, puderam pô-la à prova. Foi quando a Redes da Maré, uma organização
da sociedade civil que representa moradores da comunidade, se uniu a
pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) para criar um projeto
pioneiro de arquitetura forense – um tipo de perícia que mistura conhecimentos
de arquitetura e urbanismo com tecnologias de análise espacial para reconstruir
casos de violência, desastres e violações de direitos humanos. O objetivo é
produzir análises técnicas capazes de esclarecer fatos e apoiar investigações
judiciais ou humanitárias. A iniciativa recebe apoio financeiro do Ministério
da Igualdade Racial.
O caso de Maiara Oliveira foi o primeiro a ser analisado, e as fotos de
Sardinha foram a peça central da investigação. Formado por arquitetos,
designers, programadores, cineastas e jornalistas, o grupo levantou ainda
imagens de satélite e mediu a dimensão das casas, vias e calçadas no entorno do
local onde Oliveira foi baleada. Essas informações foram cruzadas com
documentos da operação policial e os testemunhos de quem estava lá. Em seguida,
os pesquisadores usaram softwares de modelagem BIM – que lembram um pouco o
jogo The Sims – para criar modelos 3D navegáveis. Assim, puderam simular
diferentes versões do que aconteceu no dia da operação e aferir quais eram as
possíveis trajetórias da bala perdida.
A conclusão foi de que a versão da polícia era altamente improvável. A
evidência que embasa essa informação é a foto tirada por Sardinha que mostra os
respingos de sangue na parede da casa de Oliveira. Considerando a posição da
jovem no momento do disparo e a direção em que o sangue espirrou, os
pesquisadores concluíram que o tiro não pode ter saído do local onde estavam,
em tese, os traficantes. Ela foi baleada de frente, e os traficantes estavam
atrás dela, segundo as informações divulgadas pela polícia. Restaram apenas
três possibilidades: que o tiro tivesse partido de um criminoso que se
encontrava atrás da polícia (uma hipótese que a própria Polícia Civil não
ventilou), ou de um policial no nível do chão, ou de um policial situado numa
laje. A primeira possibilidade, no entanto, logo foi descartada, já que não
havia espaço para que um criminoso se posicionasse atrás da polícia. As outras
duas hipóteses foram consideradas plausíveis – ambas apontando um policial como
autor do disparo.
A análise resultou num vídeo que foi enviado, em setembro de 2025, ao
procurador Fernando Cury, titular da 1ª Promotoria de Justiça de Investigação
Penal Territorial da área da Ilha do Governador e Bonsucesso, bairros próximos
à Maré. Por nunca ter sido utilizada em uma investigação oficial no Rio de
Janeiro, a técnica de arquitetura forense teve de ser submetida a uma validação
de peritos do Ministério Público. A avaliação até hoje não foi concluída. Está
nas mãos da Dedit – a Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia do MPRJ, a
quem caberá dar a palavra final sobre o vídeo e, possivelmente, incluí-lo no
inquérito policial.
O conceito de arquitetura forense nasceu de uma inquietude de Eyal
Weizman, um arquiteto britânico-israelense. Desde 2006, ele estuda e publica
artigos acadêmicos defendendo a “arquitetura como ferramenta de investigação
política”. Em 2010, Weizman fundou a Forensic Architecture, um grupo de
pesquisa sediado na Universidade de Londres, onde ele leciona. Naquele ano, sua
tese foi posta em prática pela primeira vez. O grupo foi convidado por
ativistas de direitos humanos de Israel a investigar a morte de Bassem Abu
Rahma, um palestino morto em 2009 durante uma manifestação pacífica na Cisjordânia.
Ele foi atingido no peito com uma granada de gás lacrimogêneo disparada por
militares israelenses.
As Forças de Defesa de Israel alegaram, na época, que o disparo havia
sido feito em “ângulo parabólico” (quando o projétil sai do chão, sobe e volta
em direção ao chão), como manda o protocolo. Vídeos gravados por outros
manifestantes, porém, davam uma impressão diferente do ocorrido. Com base
neles, a equipe de Weizman criou uma modelagem 3D e, combinando-a com uma
análise arquitetônica do local, conseguiu reconstituir o episódio.
O caso teve grande repercussão e foi um dos retratados no filme Cinco
câmeras quebradas, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2013 (o título é
uma referência ao fato de que, durante a gravação do filme, o diretor perdeu
cinco câmeras em protestos e quebradeiras). Apesar da comoção, a Justiça
israelense considerou não haver provas suficientes e encerrou o inquérito sem
apontar culpados pela morte de Abu Rahma. Reconheceu apenas que houve negligência
na condução da investigação, inclusive com o desaparecimento de partes do
processo. Para a Forensic Architecture, porém, foi um primeiro passo
importante.
Desde então, o grupo de pesquisa ganhou notoriedade e participou de
outras grandes investigações, muitas delas em parceria com jornalistas. Em
2018, colaborou com o New York Times para elucidar a morte de uma enfermeira de
20 anos em Gaza. Em 2023, ajudou o The Guardian numa investigação visual que
mostrou como, em junho de 2020, durante os protestos pelo assassinato de George
Floyd, nos Estados Unidos, as forças policiais usaram uma quantidade sem
precedentes de gás lacrimogêneo para reprimir os manifestantes.
No Brasil, a Forensic Architecture atuou em 2022 numa investigação sobre
o avanço da mineração e a destruição de terras indígenas na Amazônia. O projeto
foi feito em parceria com pesquisadores da UnB e do Instituto Socioambiental
(ISA). Dois anos depois, os pesquisadores ingleses receberam o primeiro contato
da Redes da Maré. Entusiasmaram-se, porque há tempos já cogitavam aplicar a
tecnologia forense em uma favela brasileira.
“O caso da Maiara foi escolhido entre tantos outros que aconteceram na
Maré por ela ser uma sobrevivente”, diz Flavia Palladino, uma das profissionais
envolvidas no projeto da Redes da Maré. Ela é mestre em arquitetura forense
pela Universidade de Londres. “Fiz o mestrado para trabalhar com casos de
homicídio praticados por policiais no Rio. Os casos eram arquivados, as
famílias tinham que investigar… entrei nisso e não consegui parar mais.” Para
evitar confusão com a perícia feita pelos órgãos de Estado, a arquitetura
forense usa termos próprios: em vez de peritos, os profissionais se intitulam
analistas forenses, caso de Palladino; não fazem investigações nem
reconstituições, mas análises e reconstruções.
É um cuidado pertinente, já que as duas atividades são diferentes, ainda
que complementares. Um perito da polícia passa por concurso público e precisa
ter diploma em graduações específicas, como física, química, biologia,
engenharia, farmácia ou medicina. Seu objeto de análise é também a arquitetura,
mas não apenas: peritos colhem impressões digitais, amostras de fluidos
corporais e muitas outras evidências. A arquitetura forense, por sua vez, é
feita por grupos heterogêneos, que reúnem de arquitetos a cineastas, de
fotógrafos a designers.
Palladino ajudou a treinar jovens moradores da Maré que participaram do
projeto em vídeo, recontando a história do que aconteceu naquele dia. “Além de
ensinar os conceitos técnicos, nós passamos para eles alguns cuidados
psicológicos. Nesse trabalho, a gente acaba vendo uma mesma cena de violência
várias e várias vezes. Isso causa um dano invisível a nós”, ela diz. Os jovens
foram orientados a, se possível, assistir aos vídeos sem som, em telas menores
e em preto e branco, para diminuir o impacto das cenas chocantes.
Segundo Palladino, a tecnologia da arquitetura forense não deverá ser
usada em todos os casos, mas apenas pontualmente. O objetivo principal é chamar
a atenção do poder público para a violência policial e a impunidade. Em 2025,
segundo os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), a polícia matou 797
pessoas no estado do Rio. Historicamente, poucas dessas mortes são investigadas
ou resultam em punição. Entre 2011 e 2021, de acordo com a ONG Fórum Justiça,
91% dos inquéritos no Ministério Público do Rio de Janeiro sobre mortes
causadas pela polícia foram arquivados por falta de evidências ou porque
concluiu-se que o agente agiu em legítima defesa – o chamado excludente de
ilicitude.
“A nossa perspectiva não é ter 50 mil Redes da Maré espalhadas pelo
Brasil, mas que possam ser criadas soluções em cada território. Queremos acabar
com esse formato de política pública criada por pessoas que sequer pisaram numa
favela”, diz Tainá Alvarenga, coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública
e Acesso à Justiça do Redes da Maré.
Em junho de 2020 – portanto, quatro meses antes de ser disparado o tiro
que atingiu Maiara Oliveira –, o ministro Edson Fachin, do STF, proibiu
operações em favelas do Rio salvo em casos “absolutamente excepcionais”. A
decisão se deu no contexto da pandemia, que exigia medidas de isolamento
social, mas foi também uma resposta à alta letalidade dessas operações. Semanas
antes, dois jovens haviam sido mortos em operações policiais no Morro do
Salgueiro, em São Gonçalo, e no Morro da Providência, no Centro. Um deles, João
Pedro, de 14 anos, foi atingido por um tiro de fuzil nas costas enquanto estava
dentro de casa.
A proibição, porém, nunca foi totalmente respeitada. E, com o fim da
pandemia, tudo voltou a ser como era, embora ainda hoje o STF cobre do governo
do Rio uma maior transparência e fiscalização das operações. Segundo o
Ministério Público, somente entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025 ocorreram
1.354 operações policiais em favelas da cidade do Rio, a maioria conduzida pela
PM. Na Maré, foram 42, segundo um levantamento da Redes da Maré.
Liliane Santos, articuladora institucional da Redes da Maré, conta que,
de uns anos para cá, a ONG passou a fazer um registro detalhado dessas
operações, colhendo informações como o horário de chegada da polícia, os
mandados judiciais que justificaram a ação, e os relatos de violência. As
operações são divididas em três categorias: as planejadas, as emergenciais e as
“pontuais”, quando se trata apenas de cumprir um mandado de prisão ou uma
busca. A Redes da Maré também criou estatísticas próprias que nunca foram
disponibilizadas pelo poder público, como o número de moradores submetidos a
cárcere privado durante operações da polícia e a quantidade de helicópteros
usada numa determinada ação. A coleta desses dados resultou na criação do
relatório De Olho na Maré, publicado anualmente desde 2016.
Naquele ano, a Defensoria Pública do Estado do Rio, em articulação com a
Redes da Maré, ingressou com uma ação civil pública na Justiça pedindo uma
série de medidas para reduzir a letalidade e os danos materiais causados pelas
operações na comunidade. Em junho de 2017, o Tribunal de Justiça do Rio
concedeu uma liminar em favor dos moradores, impondo uma série de restrições às
operações da polícia. Proibiu o cumprimento de mandados judiciais à noite e
determinou a instalação de câmeras, equipamento de áudio e sistemas GPS nas
viaturas, assim como a disponibilização de ambulâncias em dias de operação. A
decisão também obrigava o governo do estado a apresentar um plano para a
contenção da violência. Novamente, como no caso do STF, a ordem judicial teve pouco
ou nenhum impacto.
“O Ministério Público tem a prerrogativa de fazer investigações
autônomas, independentes da polícia, mas isso não acontece por falta de
ferramentas do próprio Ministério Público”, diz Maykon Sardinha. A advogada e
pesquisadora Marcela Cardoso explica que a arquitetura forense é uma forma de
tentar preencher esse vácuo, oferecendo uma versão dos fatos alternativa à da
polícia. Ela diz que o inquérito sobre o tiro que atingiu Maiara se resumiu a
apenas doze depoimentos, sendo oito deles de policiais (a piauí procurou a
Polícia Civil para confirmar essa informação, mas não obteve resposta). “Com a
arquitetura forense, nós pudemos trazer mais elementos para que o promotor
tenha uma leitura do que de fato aconteceu, já que não havia elemento algum
nesse inquérito”, completa a advogada.
Em 2020, o Ministério Público do Rio exigiu que a Polícia Civil
incluísse no inquérito um laudo complementar do exame do corpo de delito de
Maiara e pediu que ela fosse à Corregedoria da Polícia, acompanhada de um
promotor, para fazer o reconhecimento dos agentes envolvidos na operação. Em
dezembro, a piauí perguntou ao Ministério Público em que fase estava o
inquérito. O órgão respondeu que faltava anexar aos autos o laudo complementar
do exame de corpo de delito e o reconhecimento dos policiais pela vítima. Disse
ter pedido à polícia “prioridade nas investigações”. Até agora, elas não foram
concluídas. A piauí perguntou novamente ao MP, em maio, o status do inquérito e
se havia uma previsão de quando seria finalizada a análise do vídeo de
arquitetura forense. Não houve resposta. A Secretaria de Polícia Civil, por sua
vez, enviou uma nota à piauí reforçando a alegação de que o tiro que atingiu
Maiara partiu de criminosos. Disse que “de acordo com a perícia técnica [feita
pela polícia], o projétil foi disparado de uma direção oposta ao deslocamento
da vítima no momento dos fatos, posição na qual não havia atuação de agentes de
segurança pública”.
Maiara, hoje com 25 anos, processou o estado do Rio na Justiça pedindo
indenização por danos morais e estéticos. Além de perder o filho, ela ficou
internada em estado grave durante quarenta dias no Hospital Municipal Evandro
Freire, na Ilha do Governador. Conta que até hoje sente fortes dores abdominais
e perdeu parte dos movimentos de um dos braços. Ficou também com a cicatriz do
tiro no abdômen. O pedido de indenização ainda não foi julgado.
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21. Lola López Mondéjar, duas horas de psicanálise
"As tecnologias atuais podem
sequestrar nossa subjetividade" (
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22. Laura Cardoso
Nem Messi, nem Mbappé: perto dos 99 anos, Laura Cardoso tem um incrível recorde ligado à Copa do Mundo e muito difícil de ser superado
História de Guilherme Guidorizzi, 17.06.2026
Lionel Messi e Kylian Mbappé estão dispostos a lutar para ver quem maisbate recordes na Copa 2026. O argentino campeão em 2022 é agora, ao lado de Miroslav Klose, omaior artilheiro de todos os Mundiais (16 gols em seis Copas desde 2006). Já o francês vem logo atrás com 14 em três
Mundiais.
E de camarote quem assiste a essa frenética e emocionante disputa é LauraCardoso.
Com longuíssima carreira na TV desde 1950, ano de inauguração da
primeira emissora brasileira, a Tupi (1950-1980), a veterana atriz dona de
papéis icônicos completa 99 anos em 13 de setembro. Isso quer dizer que Laura
Cardoso assistiu a todas as 23 edições de Copas do Mundo disputadas desde a
primeira, em 1930, até aqui.
Viu todas as Copas do Mundo! Em que ano Laura Cardoso nasceu?
Aliás, o primeiro Mundial teve início em julho de 1930, quando a atriz
nascida em 1927 não tinha nem 3 anos. Aquele torneio foi sediado no Uruguai e o
país-sede foi campeão; em 1934, a coincidência se repetiu, mas envolveu a
Itália, bicampeã em 1938, última disputa antes da paralisação por conta da
Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
A Copa do Mundo voltaria a acontecer em junho de 1950, no Brasil e três
meses antes da inauguração da primeira TV brasileira. Àquela altura, Laura
Cardoso já era atriz e estava perto dos seus 23 anos. E dá para dizer que a
eterna dona Guimar da segunda versão de "A Viagem" chorou com o
"Maracanazo" - a derrota e perda de título do Brasil para o Uruguai
no Maracanã.
Ah, não custa lembrar que a novela espírita vai ganhar agora adaptação
para o cinema com importantes mudanças na história.
Copa do Mundo, 1º título do Brasil e idade de Laura Cardoso
A gente dá um salto no tempo e chega a 1958, ano do primeiro título do
Brasil, na Copa da Suécia. Naquele ano, Laura comemorou seus 31 anos. Depois, a
Seleção conquistou o bicampeonato, no Chile, em 1962, e o tri, no México, em
1970, ano no qual a atriz estava na TV em "As Pupilas do Senhor Reitor'
(Record).
A querida artista chegaria à Globo aos 54 anos, em 1981 com
"Brilhante", ano anterior da Copa da Espanha e que rendeu o
tricampeonato da Itália. Passamos pelo bi da Argentina (1986) e pelo tri da
Alemanha (1990) até pararmos no tetra da Seleção brasileira em 1994 nos EUA.
Aos 67 anos, Laura encarou momento frágil na saúde e precisou deixar as
gravações de "A Viagem" por um tempo.
Copa do Mundo do 7 x 1 para a Alemanha
Com 70 anos, a veterana viu o Brasil perder a final em 1998 na Copa da
França para os anfitriões - os torneios costumam ser disputados entre junho e
julho, a gente reforça. E aos 74, comemorou o penta no Mundial da Coreia do Sul
e do Japão. A partir daí veio o jejum de títulos e o, como não lembrar, 7 x 1
para a Alemanha em 2014?
Laura, aliás, tinha 86 anos naquele 8 de julho. Em 2022, com o Mundial
disputado pela primeira vez entre novembro e dezembro, a atriz presenciou a
eliminação brasileira para a Croácia nos pênaltis nos seus 95 anos. Agora, aos
98 anos, a artista pode ver o sexto título brasileiro... Só falta a Seleção
ajudar à querida dona Laura...
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23. No idioma de Rasputin: as festas infinitas de Vorcaro
Tradutores para prostitutas russas e outras extravagâncias das festas
infinitas de Daniel Vorcaro, o homem acusado de enriquecer com o dinheiro
finito dos aposentados
João Batista Jr., piaui, 18.06.2026
As festas infinitas de Daniel Vorcaro
Tradutores para prostitutas russas e outras extravagâncias das festas
infinitas de Daniel Vorcaro, o homem acusado de enriquecer com o dinheiro
finito dos aposentados
João Batista Jr., piaui, do Rio de Janeiro 18 Jun 2026
Logo após a sua estreia como locomotiva social e bon vivant no Carnaval
do Rio de Janeiro de 2025, quando gastou 40 milhões de reais para fechar um
andar do camarote Alma Rio, fazer festa exclusiva no Parque Lage tendo
convidados como o senador Ciro Nogueira e alugar uma mansão no bairro de Santa
Teresa para que seus amigos estrangeiros pudessem dançar ao som de Alok tendo
como vista a Baía de Guanabara, Daniel Vorcaro reuniu os mais íntimos para
alguns dias de mais festas da casa mais impressionante de Trancoso, na Bahia.
Na Quarta-Feira de Cinzas, quando a ressaca dos desfiles da Sapucaí
sequer tinha terminado, ele contratou dois cantores para se apresentarem na
sala de sua casa: Vanessa da Mata e Silva. Estavam presentes cerca de trinta
pessoas, como o empresário americano David Grutman e sua mulher, a mineira
Isabela. Os convidados voaram do Rio para Trancoso de jatinho e ficaram
hospedados nos bangalôs espalhados em uma área de 40 mil m2 de sua propriedade.
Para o dia seguinte, a grande estrela era o prato principal: Vorcaro
mandou trazer diretamente da Espanha, pela importadora Frescatto, um atum
inteiro do tipo Bluefin. Naquela tarde, quem comandou a cozinha foi o chef
Rafael Gomes, vencedor do reality show da Band MasterChef Profissionais 2018.
Na ocasião, foram preparados sushis e sashimis de akami, chutoro, toro e otoro,
as partes mais nobres do peixe importado de Barcelona. Estavam na ocasião
apenas amigos e familiares, como a então namorada, Martha Graeff.
Gomes postou em seu perfil do Instagram o vídeo que mostrava um avião
saindo de Barcelona e chegando ao Sul da Bahia, seguida da abertura de um
recipiente enorme cheio de gelo onde estava o atum. O vídeo sugere que a
iguaria chegou ao Brasil em aeronave privada, até porque não existe voo
comercial entre Barcelona e cidades do Sul da Bahia. Os aeroportos de Trancoso
(privado) e Ilhéus (comercial) não operam voos internacionais. Já o de Porto
Seguro opera voos internacionais no verão, vindos sobretudo da Argentina.
Quando questionado pela reportagem sobre ter trabalhado como chef de
Vorcaro, Gomes negou e desligou o telefone. A reportagem então enviou imagens
do vídeo postado pelo próprio Gomes em sua rede social, que ignorou os
questionamentos. A legenda da postagem: “Uma noite especial com o melhor peixe
do mundo. Preparei um jantar inesquecível com o exclusivo Bluefin Tuna trazendo
texturas e sabores únicos para cada prato. Uma experiência sublime para os
amantes da Alta Gastronomia.” Ele não marca quem o contratou nem mostra imagens
da residência – o sigilo era a regra para todos os prestadores de serviço das
celebrações.
Em algumas festas em Trancoso, o clima passava do familiar para o 18+.
Uma pessoa que trabalhou na residência conta que nas festas havia garotas de
programa estrangeiras. “Tinha tradutor de russo, inglês e uma outra língua”,
recorda o ex-funcionário. “Não tínhamos autorização de fazer foto de nada, nem
das pessoas nem da casa.”
Um vizinho de Vorcaro em Trancoso conta mais detalhes sobre a presença
de mulheres. “A casa dele tem acesso exclusivo à praia. Então, ali na frente do
mar, era comum ver muitos seguranças e muitas mulheres jovens, muitas loiras, e
uns homens mais velhos”, recorda. No final de 2025, quando os escândalos do
Banco Master se tornaram públicos, Vorcaro tinha trocado o muro de cerca
natural de sua residência – ele passou de 2 para 3,2 metros de altura. “Quando
ele foi preso (pela primeira vez), ainda não tinham finalizado a cerca”, diz
esse mesmo vizinho, sobre a ocasião em que ele foi preso no Aeroporto
Internacional de Guarulhos quando tentava deixar o Brasil, em novembro de 2025.
Um relatório da Polícia Federal tirado do sigilo mostra uma mensagem de Vorcaro
para um assistente pessoal, de 23 de abril de 2024: “preciso de um avião para
as kengas”, usando uma gíria para prostitutas. A data da mensagem é próxima de
uma viagem do banqueiro para Nova York, na companhia do senador Ciro Nogueira,
quando o político ficou hospedado no Hotel Park Hyatt, por 47,8 mil dólares,
tudo pago por Vorcaro.
Nas festas de Trancoso, Vorcaro dispunha de um bartender exclusivo.
Bastava acenar com a cabeça para ser atendido. A sua bebida quente favorita era
o licor 43. O champanhe oficial da casa, Veuve Clicquot. Não havia na
residência um cardápio fixo, para os convidados e familiares pedirem a partir
de um menu, mas não faltava na geladeira salmão, caviar e, como bom mineiro,
torresmo.
A casa baiana recebeu shows privados de artistas como Nando Reis, Naldo
Benny, Seu Jorge e Marcelo Falcão. “Quando já estava animado, ele tinha essa
coisa de querer pegar o microfone e cantar também”, conta o empresário de um
artista contratado que pede para não ter o seu nome revelado. “Quem negociava
para ele não era mão aberta para pagar cachês.” Os cantores ficavam hospedados
no Hotel Fasano de Trancoso.
Daniel Vorcaro comprou a propriedade do casal Sandra e Sergio Habib, em
junho de 2024. O casal paulistano, que fez fortuna no mercado de
concessionárias de carros importados e trouxe ao Brasil as marcas Citroën e
Aston Martin, era conhecido pela comunidade por fazer trabalho social e também
por algumas excentricidades – comprava poltrona de primeira-classe para levar o
cachorro Charlie em voos de carreira para países como China. A casa tinha uma
decoração mais chique e rústica, com madeira aparente. Vorcaro costumava alugar
a propriedade dos Habib para finais de semana, até que decidiu comprar. “A
Sandra colocou um preço muito alto achando que ele não iria comprar, mas ele
topou na hora”, recorda o mesmo vizinho.
Ao adquirir a propriedade por uma transação de 280 milhões de reais,
Vorcaro automaticamente provocou um efeito em cascata — os imóveis ao lado
passaram a ser ofertados no mercado por valores também muito altos. “Ele deixou
a decoração mais contemporânea, com estilo tailandês e moderno.” Uma empregada
da casa ficava responsável por lustrar as pratarias e louças (boa parte, da
marca Tânia Bulhões), para remover as impurezas trazidas pela maresia.
O ex-funcionário disse à piauí já ter visto autoridades como o político
baiano ACM Neto na casa. Procurado, o assessor de imprensa negou e disse que
ACM Neto pediu para que a revista reavaliasse a publicação da informação, “pois
ele está afirmando em ON que nunca esteve”. Ao ouvir que a informação seria
mantida, ele escreveu novamente com uma mensagem de ACM Neto: “Em atendimento à
demanda da revista piauí, informo que frequento Trancoso há décadas. Estive uma
única vez na residência de Daniel Vorcaro no ano de 2024, mas nunca, jamais,
participei de festa na casa dele.” Investigações apontaram que uma empresa do
político recebeu 3,6 milhões de Vorcaro.
Para o Réveillon de 2024 para 2025, Vorcaro mandou uma corretora pedir
aos vizinhos que alugassem suas casas. “Ele não queria colocar ninguém ali. Era
para dar privacidade e para que ninguém se chateasse com o barulho”, diz o
vizinho.
O mesmo cuidado com barulho e privacidade aconteceu no Réveillon de 2022
para 2023, dessa vez em Fernando de Noronha. Então tendo um romance
extraconjugal com a atriz Monique Alfradique, o banqueiro alugou uma pousada
para ficar com ela e mais dois casais de amigos – e decidiu alugar a pousada do
lado para ficar fechada. Ele simplesmente não queria ninguém por perto.
Na pousada em que ficou com Monique, o banqueiro mandou erguer uma
estrutura de palco para apresentações privadas. Queria muita privacidade e zero
aborrecimento com barulho. Nessa temporada, Vorcaro quis surpreender a atriz:
ele fechou o Forte de Nossa Senhora dos Remédios, conhecido por Farol Noronha,
uma fortificação construída em 1737 sob o reinado de João V de Portugal. Ali,
para apenas dez convidados, entre eles o ator e humorista Marcus Majella, se
apresentaram a banda cigana de origem espanhola Gipsy Kings e o DJ australiano
Chet Faker. Para o show de Silva realizado na Pousada do Zé Maria, dentro de um
festival de verão, Vorcaro pagou 150 mil reais para ter um camarote exclusivo
para ele e Alfradique. “Só que a festa estava lotada de influencers e artistas,
que fizeram um camarote B e não se importaram de se misturar com eles. Vorcaro
e Monique deixaram o lugar no meio do show”, contou uma pessoa que ficou dentro
do camarote B. (Naquela ocasião em Noronha, Vorcaro ainda era casado com
Fabíola de Almeida Macedo Vorcaro. Ele deixou a ilha para passar o dia 31 de
dezembro com sua família e depois retornou para seguir as festividades com
Alfradique.)
Até abril deste ano, portanto quando já amargava a segunda temporada na
prisão de onde não tem previsão de sair, Daniel Vorcaro tinha ao todo trinta
funcionários fixos, divididos em setores como camareiras, cozinheiras,
jardineiros, manutenção e escritório, além de uma pessoa de Recursos Humanos
para cuidar de férias e escala de funcionários. A segurança é terceirizada,
feita por uma empresa local de segurança patrimonial. Em abril, diante do
contexto, foram demitidas 24 pessoas. “Os funcionários gostam dele, sempre foi
gente boa e educado com todo mundo”, diz um dos que foram desligados. A casa
foi ocupada por Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro, no último
Réveillon. Depois disso, ninguém mais da família retornou à residência.
Henrique está preso desde maio por liderar “o núcleo violento” da organização
criminosa criada por seu filho, segundo a Polícia Federal. Na última terça, o
pai e o primo do dono do Banco Master, Felipe Cançado Vorcaro, tiveram suas
prisões mantidas pela segunda turma do Supremo Tribunal Federal. O ministro
André Mendonça justificou pela manutenção da prisão: “há indícios de
continuidade das práticas criminosas, risco de destruição de provas,
intimidação de testemunhas e interferência nas apurações.”
Daniel Vorcaro era chamado pelos amigos que convidava para as suas
festas pelo apelido de “Bili”, diminutivo de bilionário.
*
O tamanho das fraudes operadas por Vorcaro, conforme indicam as
investigações, são multibili. Só do fundo dos aposentados e pensionistas do Rio
de Janeiro, 3,7 bilhões de reais foram investidos no Master, em uma operação
que a Polícia Federal aponta como suspeita. Já o BRB, banco estatal do Distrito
Federal, afirma que precisa de 8,8 bilhões de reais para recuperar “possíveis
perdas” em negócios catastróficos com o Master.
Assim como as festas do banqueiro, seu dinheiro parecia infinito – mas
não é. O que sobrava em champanhe está faltando no bolso de alguém.

















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