sexta-feira, 24 de julho de 2026

Máximas marxianas - parte 4

Resenha de Karl Marx: Uma Biografia por Antonio Carlos Mazzeo

Máximas marxianas - parte 3 ler aqui

PAULO NETTO, José. Karl Marx: Uma Biografia 

São Paulo: Boitempo, 2020. 816 p. 

Antonio Carlos Mazzeo*

Reoriente, vol.1, n.1 jan/jun, pp. 153 a 156, 2021 

Muito esperado, finalmente chega Karl Marx – Uma biografa, para deleite daqueles que se interessam pela vida e pela obra de Marx e, claro, intrinsecamente por sua histó- ria intelectual e seus pensamentos vividos – parafraseando-se o título da autobiografa do mestre György Lukács, Gelebtes Denken [1]. No entanto, cautelosamente José Paulo Netto, o biógrafo, diz ser essa “uma, não a biografa de Karl Marx”. Em que pese a pru- dência necessária desse experiente pensador marxista brasileiro, entendemos que essa cautela demasiada não faz jus à monumental pesquisa presente nesse livro e à própria trajetória desse notável intelectual. 

Mas podemos dizer que essa “prudência” é, na verdade, o modus operandi de seu impenitente e incansável trabalho intelectual. Na trajetória de Netto encontramos uma plêiade de textos, livros e artigos, além de entrevistas e aulas gravadas, que abordam os mais diversos temas – políticos, sociais, filosóficos, econômicos etc. sempre realizados com rigor, dentro da conceptualidade da teoria social de Marx. Isso significa dizer que o livro que hora resenhamos não difere, no âmbito mais imediato, da profundidade analítica encontrada nos trabalhos de José Paulo Netto. No entanto, essa biografia de Marx possui um algo mais. Além da abordagem dessacralizada do biografado, confor- me a assertiva do autor em itálicos, e da ampla e exaustiva pesquisa das biografias de Marx publicadas sobre Marx, para além das clássicas como as de Franz Mehring e Au- guste Cornu, entre outras, Netto constrói uma competente síntese entre a vida e a obra marxiana, exatamente contextualizando sua evolução e seu amadurecimento ou, na definição do mestre Lukács, o processo ontológico da construção de sua teoria social. 

No dizer do autor, “Esta biografia não é somente um registro cronológico [...] ela acompanha o processo de construção da teoria marxiana, ao mesmo tempo que o con- textualiza historicamente e o inscreve na experiência sociopolítica dele”, expressando sua longa relação com a obra de Marx. Efetivamente, o texto de Netto vai desvelando, precisa e progressivamente, o processo da construção da teoria social marxiana, aten- do-se minuciosamente às questões teóricas enfrentadas por Marx, seus entraves e as soluções e superações encontradas pelo pensador alemão. Pontos altos, a descrição da construção dos Cadernos de Paris e dos Manuscritos de 1844, além do “encontro histórico com Engels”. É de se destacar a análise sistemática, atenta e profunda da elaboração d’O Capital, em meu entender, o momento mais importante dessa biografia. 

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* Professor aposentado da Faculdade de Filosofa e Ciências da Unesp e professor junto aos Programas de Pós-graduação em História Econômica (FFLCH/USP) e do Serviço Social da PUC-SP. 

[1] Veja-se György Lukács, Gelebtes Denken – Eine Autobiographie im Dialog: Berlim, Suhrkamp Verlag, 1981 [edição italiana, Il Pensiero Vissuto – autobiografa in forma di dialogo, Roma, Riuniti, 1983, tradução de Alberto Scarponi; edição brasileira, O pensamento vivido – autobiografa em diálogo, Viçosa: Editora da UFV, 1999, tradução de Cristina Alberta Franco]. 

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Portanto, a cobertura da trajetória de Marx é abrangente e densa. Mas, restringido pelos limites dessas linhas e como marco fundamental do point de départ da trajetória marxiana, rumo à elaboração de sua teoria social, destaco seu período de juventude, iniciando a abordagem de Colônia, a partir de 1842, na Gazeta Renana, na qual Marx rapidamente passa a exercer o comando editorial, quando não somente ganha experiência como jornalista, mas também aprofunda sua crítica política e, percebe que deve se qualificar teoricamente para responder a questões da vida social. Nesse sentido, é que Netto enfatiza que Marx, em sua estada em Kreusznach, apesar de envolvido com o projeto dos Anais Franco-Alemães, não deixou de lado sua atividade intelectual e lá estuda a Filosofia do Direito de Hegel, que Netto ressalta como o momento do estudo da política e do Estado moderno, que resulta em um manuscrito que conhecemos como a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, de 1843. 

Ali, desvelam-se os elementos do “misticismo lógico” de Hegel sobre a conexão Estado/Sociedade Civil (que Marx chamará de Bürguerlische Geselschaft – a sociedade civil burguesa). Naquele manuscrito, como ressalta o autor, Marx “acerta as contas” com a teoria hegeliana do Estado e, ao mesmo tempo, avança em relação à questão democrática, radicalizando-a e seguindo na perspectiva de compreender a política para além do âmbito jurídico, apontando para o político-social. O jovem Marx evolui encontrando os nexos do Estado na dinâmica da sociedade civil, mas ainda com difi- culdades teóricas que o atormentam [2]. Na sequência e como resultado das superações construídas em Kreuznach, já em Paris, Marx escreve dois ensaios: Sobre a Questão Judaica, escrito em finais de 1843 e Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução, ambos publicados em fevereiro de 1844, no número único e du- plo dos Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais Franco-Alemães). Em Sobre a Questão Judaica evidenciam-se algumas rupturas essenciais, ainda que sua visão da economia política seja rudimentar. 

No entanto, pode-se dizer que, nos ensaios publicados nos Anais, Marx já faz uma abordagem materialista sobre o tema, supera a visão liberal da democracia e realça a luta político-social, como também entende Netto, que ressalta ser o materialismo do jovem Marx diferente e superior àquele iluminista. Já Lenin, em seu verbete Karl Marx, redigido para o Dicionário Granat, em 1914, afirma que “[...] Nos artigos de Marx publicados pela revista [Anais Franco-Alemães], ele aparece-nos já como um revolucionário que proclama ‘a crítica implacável de tudo o que existe’ e, em particular, ‘a crítica das armas’, e apela para as massas e o proletariado”[3]. Na perspectiva lenineana, pode-se entender que nesses textos Marx já se insinua como um pensador revolucionário. Netto, por sua vez, ainda o vê como um democrata radical. De qualquer modo, objetivamente, ali intrincavam os primeiros passos e elementos teóricos que iriam proporcionar a Aufhebung/salto na transição do democrata radical para o comunista. 

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[2] Lukács chama a atenção para sua crise teórica, de 1843, e o próprio Marx se refere a essa crise no Prefácio de 1859 da Contribuição à crítica da economia política. Veja-se György Lukács, Il Giovane Marx, Roma Riuniti, 1978, p. 52 

[3] Veja-se Vladímir Ilitch Lenin, Lenin – Obras completas, v. i, Madri, id: Akal, 1978. v. I. p. 157-158. 

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Assim, o processo de construção do conhecimento sob a óptica da crítica socialista já se manifestava claramente no segundo artigo publicado no mesmo número dos Anais, Contribuição à crítica da Filosofia do Direito de Hegel - introdução, em que aparece pela primeira vez em sua obra o termo proletariado e onde aprofunda suas análises sobre a concepção de Estado em Hegel, localizando-a, no âmbito do limite do pensamento jurídico burguês, na miséria alemã. Como ressalta Netto, ainda que não tenha um entendimento mais elaborado e materialista da religião, Marx a situa dialeticamente em seus elementos contraditórios [4]

Mas na Contribuição Marx afronta a questão do mundo real, buscando entender o aspecto de sustentação da miséria alemã. 

Em suma, e na mesma direção da visão lukacsiana, Netto aponta que nesses dois textos estão as premissas para a ruptura com o materialismo iluminista. Detive-me nessa urdidura intelectual do jovem Marx, em sua transição da Alemanha para a França, definida por Netto como “um mergulho num oceano de livros” por ser um ponto ao mesmo tempo de inflexão e de impulsionamento que poria Marx em novo patamar intelectual. Isso fica evidente no artigo em que Marx desmonta as argumentações de Ruge, publicadas no jornal Vorwärts (Avante), sob o título “O rei da Prússia e a reforma social” assinado: ‘Um prussiano’”, em que define a pobreza como resultado de causas sociais. Como acentua Netto, Marx desnuda as confusas teorias de Ruge contra argumentando que “[...] Toda revolução dissolve a velha sociedade; nesse sentido, é social. Toda revolução derruba o velho poder; nesse sentido, é política” [5].

É nesse período de rupturas qualitativas que Marx entra em contato com o texto de F. Engels, “Lineamentos de uma crítica da economia política”, publicado nos Anais, e, como acentuou Lukács, texto que impulsionou Marx a abandonar a crítica da filosofia e se dedicar aos clássicos da economia política [6].

Netto estuda detalhadamente esse processo e nos prepara para a imersão nos Cadernos de Paris, escritos entre janeiro de 1844 e janeiro de 1845, em que se materializa o contato de Marx com a economia-política e, também, nos Manuscritos de 1844, nos quais aparecem os elementos fundantes de sua teoria social, que serão consolidados, reconceituados e aprofundados mais adiante, em O Capital. Mas, tanto nos Cadernos como nos Manuscritos de 1944 Marx elabora a crítica da inumanidade dentro da economia política, isto é, realçando o elemento antropológico que subjaz nela, a relação do homem com o homem como relação de proprietário privado com proprietário privado. Aqui, ressalta-se o detalhamento da teoria da alienação, realçando o ser humano como ser genérico; a sociedade como a verdadeira comunidade dos seres humanos e, por isso mesmo, impensável como uma “sociedade de atividades comerciais”. 

Assim, Netto demonstra didaticamente, mas sem perder a profundidade, os pontos nodais da construção marxiana da Teoria da Alienação, em que é realçada a contradição entre “uma comunidade humana verdadeira e uma comunidade falsa, porque falseia a própria vida do homem” [7]

Contudo, nos Manuscritos a questão da alienação, vem elaborada com mais profundidade, e nela é esclarecida a exteriorização do trabalho, quer dizer, a relação do trabalhador com a produção, o que a economia po- lítica oculta. Mesmo com a presença de laivos feuerbachianos, a análise marxiana retrabalha o conceito da relação homem-natureza, no âmbito do ser ativo, que trabalha e produz. Aqui, explicitam-se a perspectiva filosófico-antropológica, o ser do homem se constitui enquanto atividade vital consciente, enquanto atividade livre consciente – in limine, a vida produtiva [8].

Entre a primavera e o verão de 1844, Marx avança muito e assevera o comunismo com fundamento filosófico-antropológico da condição para o resgate e a apropriação da vida hominizada. Esses acúmulos, aliados às experiências sociopolíticas, lançam as condições objetivas para suas reflexões maduras na elaboração dos manuscritos preparatórios, desde os Esboços da crítica da economia política (Grundrisse der Kritik der Politischen Őkonomie), 1857-1858, até a redação de O Capital. 

Sem dúvida, a análise de Netto sobre esse processo é a mais completa em relação às que apareceram até agora. Karl Marx – uma biografia, de José Paulo Netto, é brilhante e preciosa. O estilo ágil e desenvolto do autor nos faz mergulhar na obra do genial Marx, e nos ajuda a desvelar questões complexas que Netto trata com grande didatismo e ao mesmo tempo com a profundidade que só um intelectual de grande quilate pode nos oferecer. 

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[4] J.P. Netto, cit. p. 81. 

[5] Karl Marx, apud J. P. Netto, cit. p.88. 

[6] G. Lukács, cit., p 105. 

[7] J. P. Netto, cit. p. 97-101. 

[8] Na assertiva de Netto, a alienação é o processo especifcamente humano- social, traço que se confgura cristalinamente nos Manuscritos: “No mundo real prático, a autoalienação só pode aparecer através da relação prática com outros homens. O meio pelo qual a alienação procede é ele próprio um meio prático”. K. Marx, apud J. P. Netto, cit. p. 117. 

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