Edson Pereira Cardoso, setembro de 2010
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Americanos
Edson Pereira Cardoso, setembro de 2010
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
América dos americanos
Bad Bunny's Apple Music Super Bowl Halftime Show - vídeo
Prólogo: América não é um país, mas um continente
God bless América, sea Chile, Argentina, Uruguay, Paraguay, Bolivia, Perú, Ecuador, Brasil, Colombia, Venezuela, Guyana, Panamá, Costa Rica, Nicaragua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Cuba, República Dominicana, Jamaica, Tila, Antilla, United States, Canadá, Modland, mi patria, Puerto Rico. Seguimos
Desenhando
Em 1925, Vladimir Maiakóvski, o poeta Russo, viajou pela América visitando Cuba, México e EUA o que resultou no livro Minha descoberta da América (1). Disso resultou uma prosa quase fotográfica, que mescla o ritmo da própria poesia maiakovskiana com o realismo cru do registro. Com essa poética do flash, ele descreve o navio povoado por uma mescla dos tipos humanos mais diversos, párias de toda espécie. Russos vagando pelo mundo à procura de emprego, turcos que só falam inglês, representantes de empresas francesas com passaportes paraguaios e argentinos, esses "colonizadores contemporâneos" que dividem o navio em classes, com a primeira vomitando na segunda, a segunda na terceira e esta em si mesma: cruza tudo isso com a história da exploração dos índios e negros norte-americanos por toda espécie de aventureiros (2). Quando se diz "América" na imaginação logo aparecem Nova York, Manhattan, Los Angeles, Hollywood etc. Estranho porque as Américas são três: a do Norte, a Central e a do Sul. Os Estados Unidos não ocupam nem toda a do Norte. Tomaram, apropriaram e incorporaram a denominação da todas as Américas.
Estranho e certo. Diz Maiakovski: "Certo, porque pegaram à força o direito de se autodenominar Estados Unidos da América, com encouraçados gigantes e dólares, enchendo de medo as repúblicas e colônias vizinhas. Só durante minha única curta temporada trimestral vi os americanos brandir um punho de ferro diante do nariz dos mexicanos sobre o projeto mexicano de nacionalização de seu próprio subsolo terrestre inalienável"
Que os Estados Unidos fazem parte da América todo mundo sabe. Mas, segundo Maiakovski, foi Calvin Coolidge (presidente de então) que "apenas formalizou essa
questãozinha em um dos últimos decretos, autodeterminando-se – e somente a si mesmos – americanos. Debalde o rugido de protesto de muitas dezenas de repúblicas e até de outros Estados Unidos (por exemplo, os Estados Unidos de México) que forma a América. Agora a palavra América foi definitivamente anexada". (...)
(1) Vladimir Maiakovski, Minha descoberta da América, Martins Fontes, 2007
(2) Paulo Bezerra, Um comuna nos EUA, Folha de São Paulo, 09/09/2007
Somos todos americanos
(...) A designação exclusiva dos habitantes USA como norte-americanos é igualmente incorreta, já que canadenses e mexicanos são também habitantes da América do Norte. Convenhamos que, apesar de sua dimensão geográfica, não cabe ao Brasil o direito de reservar prepotentemente ao seu habitante o designativo exclusivo de "sul-americano"!
A definição dos cidadãos USA como estadunidenses constitui a única nominação pátria correta, lingüística e sociologicamente. Ela constitui restauração lingüística, desprovida de julgamento de valor, do sentido inicial do termo "americano" - habitante da América -, que sofreu deslocamento semântico impróprio devido ao poder material e cultural do imperialismo estadunidense... (Florence Carboni, “Apenas estadunidenses”)
E mais
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Só para lembrar: quem nasce nos EUA é estadunidense.
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
Perdão das dívidas estudantis nos EUA
Por que o perdão das dívidas estudantis nos EUA não é elitista. Não, não é um socorro a baristas preguiçosos
Paul Krugman, 30/08/2022, FSP
Confissão embaraçosa: tenho assistido a "Mulher-Hulk: Defensora de Heróis". Em geral, não sou fã do gênero super-herói; mas depois de "Orphan Black" eu vejo qualquer coisa estrelada por Tatiana Maslany. De todo modo, um dos pontos da trama do programa é que a personagem-título está relutante em revelar seus superpoderes. Por quê? Entre outras coisas, ela se preocupa (corretamente, ao que parece) que, quando as pessoas souberem o que ela é capaz de fazer, ela terá dificuldade para pagar seus empréstimos estudantis.
Não acho que os autores pretendessem fazer uma declaração política. Eles estavam apenas reconhecendo a onipresença da dívida estudantil –e a ansiedade sobre ela– nos Estados Unidos modernos. E essa generalidade é o motivo pelo qual os ataques dos republicanos à política de perdão das dívidas do presidente Biden – que eles geralmente retratam como um presente para elites privilegiadas ou para gastadores preguiçosos– provavelmente fracassarão.
Vamos falar sobre os números. O governo Biden diz que seu plano proporcionará alívio a até 43 milhões de americanos. É muita gente, não uma pequena elite mimada. Em particular, os dados do Fed de Nova York dizem que mais de 12 milhões de americanos na faixa dos 30 anos –mais de um quarto desse grupo– ainda têm dívidas estudantis não pagas.
O que isso significa é que mesmo que você concorde com a teoria política de lanchonete de Trump –segundo a qual os únicos eleitores que importam são operários que usam bonés de beisebol– deve estar ciente de que alguns desses caras provavelmente pegaram empréstimos para frequentar escolas de comércio ou faculdades comunitárias, muitas vezes recebendo em troca nada além de dívidas. Mesmo entre os que não tomaram empréstimos estudantis, muitos provavelmente têm filhos, irmãos, primos ou amigos que o fizeram. Assim, o plano Biden afetará muitas pessoas.
Resumindo, o perdão das dívidas estudantis não é algum tipo de preocupação da elite; é uma questão ampla, pode-se até dizer populista. A votação inicial sobre o plano de Biden é um pouco mista, com uma pesquisa do Emerson College mostrando um apoio muito maior do que outra do CBS/YouGov. Mesmo esta última, no entanto, mostra que a maioria dos americanos aprova o plano; ele ainda encontra muito menos oposição entre os brancos não universitários do que se poderia esperar, dada a desaprovação geral desse grupo a tudo o que é ligado a Biden.
A outra ponta da reação da direita envolve invocar a responsabilidade pessoal – na verdade, pintar os destinatários do perdão das dívidas como rainhas do bem-estar. Os esforços republicanos nessa frente, entretanto, foram extraordinariamente surdos.
Apenas sob princípios políticos gerais, dizer a dezenas de milhões de americanos que são preguiçosos e irresponsáveis –que são todos, como disse Ted Cruz, como um "barista preguiçoso" que desperdiçou anos "estudando coisas completamente inúteis"– parece… burrice. Para ser brutalmente franco, esse tipo de caricatura pode ter funcionado para os republicanos quando os insultos eram dirigidos aos negros urbanos. Mas é provável que saia pela culatra quando estamos falando de um amplo espectro de americanos que estavam apenas tentando subir na vida. Além disso, muitos dos críticos mais proeminentes do perdão das dívidas são quase comicamente fora de sintonia, hipócritas ou ambos. Na verdade, apague o "quase".
Por exemplo, Marco Rubio orgulhosamente declarou que pagou toda a sua dívida estudantil –depois que foi eleito para o Senado e conseguiu um contrato para escrever um livro. Por que todos não podem fazer isso?
Na frente da hipocrisia, a Casa Branca está tendo um dia de folga zombando de congressistas republicanos cujas empresas receberam perdão de dívidas sob o Programa de Proteção de Salários. É verdade que o perdão das dívidas para empregadores que mantiveram suas forças de trabalho durante a pandemia de Covid-19 foi incorporado a esse programa; também é verdade que pesquisas posteriores sugerem que apenas cerca de um quarto dos fundos do programa apoiavam empregos que, de outra forma, teriam desaparecido. O resto foi, na verdade, um presente para os empresários.
De maneira mais geral, é difícil levar a sério as palestras sobre responsabilidade pessoal quando vêm de um movimento cheio de pessoas –de Donald Trump, famoso por dar calote em seus empreiteiros, para baixo– que há muito se recusam a pagar o dinheiro que devem. É difícil superar o espetáculo de Stephen Moore, que Donald Trump tentou nomear para o Federal Reserve, chamando as pessoas que não pagam suas dívidas de "caloteiros"; afinal, a indicação de Moore falhou em parte porque ele se recusou a pagar à sua ex-mulher US$ 300 mil em pensão alimentícia aos filhos.
Agora, nada disso significa que o plano de Biden deva ser isento de críticas, embora a veemência com que alguns centristas o atacaram permaneça intrigante. Acima de tudo, o plano oferece um alívio pontual, mas não resolve o problema subjacente que levou a toda essa dívida estudantil – que não é uma proliferação de baristas preguiçosos; é uma sociedade que exige credenciais educacionais para muitos empregos sem tornar a educação acessível.
A questão é que Biden tentou resolver esse problema subjacente; faculdade comunitária gratuita fazia parte de sua proposta original Reconstruir Melhor. Mas ele não conseguiu aprová-la no Congresso. Ele está, porém, oferecendo uma ajuda real a milhões de americanos –e os republicanos claramente não têm ideia de como responder.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves
Enquanto isso no Fies - Brasil
Fies: inadimplência cresceu 82% em 2020
Biden confirma perdão a dívidas estudantis nos EUA próximo a eleição
Medida vale para devedores que ganham até US$ 125 mil por ano e deve ser contestada na Justiça
Zolan Kanno-Youngs, Stacy Cowley, Jim Tankersley, 24/08/2022
Washington | The New York Times
O presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou nesta quarta-feira (24) que dará um perdão de US$ 10 mil (R$ 51 mil) nas dívidas de empréstimos estudantis contraídas por americanos que ganham menos de US$ 125 mil (R$ 639 mil) por ano.
Foram meses de expectativa em relação a essa promessa que ele fez em campanha. Biden também prorrogou até o final do ano uma suspensão do pagamento dos empréstimos em vigor desde março de 2020, na época da pandemia de Covid.
Em anúncio no Twitter no qual descreveu detalhes do plano, ele destacou o "alívio às famílias trabalhadoras e de classe média que se preparam para retomar os pagamentos de empréstimos estudantis federais em janeiro de 2023".
Biden também disse que os que fizeram empréstimos para graduação poderão limitar pagamentos a 5% da renda mensal, mudança capaz de reduzir significativamente as contas de milhões de devedores. Os atuais planos governamentais baseados em renda geralmente limitam os pagamentos a 10% da renda discricionária de quem fez o empréstimo.
O perdão da dívida, embora muito menor que o valor pedido por alguns democratas, ocorre após meses de deliberações na Casa Branca sobre justiça e temores de que o plano possa exacerbar a inflação antes das eleições de meio de mandato. O plano quase certamente enfrentará recursos na Justiça.
Nos EUA, 45 milhões de pessoas devem um total de US$ 1,6 trilhão (R$ 8,2 trilhões) de empréstimos federais contraídos para cursar a faculdade —mais do que devem em financiamentos de carros, cartões de crédito ou qualquer dívida de consumo, exceto hipotecas.
NB: O PIB dos EUA estimado para 2022 é de US$ 24 trilhões
Muitos democratas argumentaram que o perdão da dívida é necessário para sanar disparidades raciais na economia. Mas os críticos dizem que o perdão generalizado é injusto para aqueles que apertaram os cintos para pagar a faculdade. Republicanos e alguns democratas afirmam ainda que isso aumentará a inflação, dando aos consumidores mais dinheiro para gastar.
A Casa Branca procurou tratar dessas preocupações econômicas direcionando a ajuda, que só será estendida a mutuários que ganham menos de US$ 125 mil por ano ou famílias que ganham menos de US$ 250 mil (R$ 1,3 milhão). O governo afirma que 90% do alívio irá para famílias que ganham US$ 75 mil por ano ou menos.
Os alunos que receberam bolsas Pell, para estudantes de baixa renda, terão direito a mais US$ 10 mil em perdão de dívidas. À primeira vista, a medida poderá custar aos contribuintes cerca de US$ 300 bilhões ou mais em dinheiro efetivamente emprestado e que nunca será reembolsado. Mas o verdadeiro custo é mais difícil de calcular, e menor, porque era provável que grande parte dessa dívida não fosse paga. Mais de 8 milhões de pessoas —1 em cada 5 devedores— deixaram de saldar seus empréstimos antes da pandemia. Muitas tinham saldos pequenos e agora poderão ter as dívidas canceladas.
Legisladores democratas e grupos progressistas argumentaram que lidar com as disparidades raciais econômicas exigiria o perdão de US$ 50 mil, citando relatórios que mostram que negros tomadores de empréstimos acabam tendo saldos médios mais altos do que seus pares brancos.
O deputado Tony Cárdenas, que se reuniu com a Casa Branca para defender o cancelamento da dívida, disse que mesmo o alívio financeiro limitado pode ser o fator de dinamização necessário para o partido de Biden antes das eleições de novembro. "Muitos jovens vão poder dar um suspiro de alívio, vão poder comprar uma casa em breve. Eles podem fazer planos de começar uma família mais cedo."
Ele e outros membros da bancada latina ajudaram a aumentar a pressão sobre Biden. Mas na Casa Branca os principais assessores discutiam ramificações políticas e econômicas da decisão. O presidente estaria preocupado que o projeto fosse visto como uma doação, o que seria uma afronta aos que pagaram suas mensalidades ou as de seus parentes. Alguns argumentavam que Biden não teria autoridade legal e deveria trabalhar com o Congresso em vez de usar um ato executivo.
A inflação crescente (Inflação nos EUA acelera para 9,1% em junho, maior nível em 40 anos) também complicou o processo. "No meio da esmagadora inflação de Biden, como o presidente poderia justificar uma doação de empréstimos estudantis que ignora os americanos mais prejudicados pela inflação?", questionou no mês passado o deputado republicano Kevin Brady.
Os conselheiros econômicos de Biden, no entanto, argumentaram que, ao retomar os pagamentos de empréstimos e combinar o perdão com limites de renda, isso teria um efeito desprezível no aumento dos preços ao consumidor. O chefe de gabinete Ron Klain ainda destacou que a ajuda poderia galvanizar jovens eleitores, cada vez mais frustrados com o presidente.
Contestações legais são esperadas, embora não esteja claro quem teria legitimidade para levar o caso ao tribunal. Um artigo recente na revista Virginia Law Review argumentou que a resposta pode ser ninguém: os estados, por exemplo, têm pouca influência na operação de um sistema federal de empréstimos.
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Rockin' at the Hops - Chuck Berry
Na manhã de 17 de outubro de 1961, um estudante de economia de 18 anos estava na plataforma da estação ferroviária de Dartford, esperando o trem para Londres.
Mick Jagger estava indo para a London School of Economics para mais um dia de aulas. Debaixo do braço, ele carregava dois discos que havia recebido recentemente pelo correio de Chicago: "Rockin' at the Hops", de Chuck Berry, e uma coletânea de Muddy Waters intitulada "The Best of Muddy Waters".
No início da década de 1960, na Inglaterra, esses discos não eram apenas raros — eram quase impossíveis de encontrar. As lojas de discos britânicas não estocavam blues e R&B americanos autênticos. Se você quisesse o original, precisava saber onde procurar e estar disposto a esperar semanas pela entrega internacional da Chess Records, em Chicago.
Jagger sabia onde procurar.
Enquanto ele estava na plataforma, com os álbuns visíveis debaixo do braço, outro adolescente os notou.
Keith Richards, de 17 anos e estudante da Sidcup Art College, também esperava o trem naquela manhã. Ele tocava guitarra e era obcecado por blues, rock and roll e R&B americanos — a música que a maioria dos jovens britânicos da sua idade nunca tinha ouvido. Quando viu o que Jagger carregava, não resistiu.
Aproximou-se e puxou conversa.
O mais notável é que Jagger e Richards já se conheciam — ou pelo menos, tinham se conhecido anos antes.
Ambos cresceram em Dartford, uma cidade em Kent, a cerca de 29 quilômetros a sudeste de Londres. Quando crianças, moravam a poucas ruas de distância. Suas mães se conheciam. Frequentaram a mesma escola primária — Wentworth Primary — e até brincaram juntos quando meninos.
Mas, como acontece com amizades de infância, seus caminhos se separaram.
Escolas secundárias diferentes, interesses diferentes, círculos sociais diferentes. Na adolescência, perderam completamente o contato. Podiam se cruzar na rua sem se reconhecerem. Até aquela manhã de outubro na estação de trem, quando Keith Richards viu os discos debaixo do braço de Mick Jagger e percebeu que estava diante de alguém que compartilhava sua paixão pela música que a maior parte da Inglaterra ignorava.
"Você tem Muddy Waters!" disse Richards, aproximando-se. "Onde você conseguiu isso?"
Jagger explicou que os havia encomendado diretamente da Chess Records, nos Estados Unidos. Não era possível comprá-los na Inglaterra, mas se você soubesse o endereço da gravadora e tivesse paciência, poderia encomendá-los pelo correio de Chicago.
Richards ficou impressionado. Ali estava alguém não apenas interessado em blues e rock and roll americanos, mas dedicado o suficiente para rastrear as gravações originais, para buscar o som autêntico em vez de se contentar com covers britânicos ou versões diluídas.
Eles embarcaram juntos no trem e conversaram durante toda a viagem até Londres.
A conversa abrangeu seus músicos favoritos, as músicas que amavam, o som que ambos buscavam. Chuck Berry. Muddy Waters. Little Richard. Bo Diddley. Jimmy Reed. Os nomes começaram a surgir — artistas que a maioria dos adolescentes britânicos nunca tinha ouvido falar, mas que representavam tudo o que havia de vital, emocionante e autêntico na música americana.
Quando o trem chegou a Londres, Richards convidou Jagger para sua casa naquela noite para ouvir os discos com calma.
Naquela noite, eles se sentaram no quarto de Richards e tocaram aqueles álbuns repetidamente, analisando o trabalho de guitarra, a interpretação vocal, a energia bruta que tornava essa música tão diferente do pop polido que dominava as rádios britânicas.
Jagger mencionou que cantava em uma banda — Little Boy Blue and the Blue Boys — que tocava principalmente covers de blues e R&B.
Eles ensaiavam, mas raramente se apresentavam, tendo dificuldade em encontrar locais interessados em blues americano.
Richards pegou seu violão e tocou. Jagger ficou impressionado. O convite foi natural: Richards estaria interessado em se juntar a eles?
Richards disse que sim.
Nos meses seguintes, eles tocaram juntos, refinaram seu som e aprofundaram sua amizade. Mas Little Boy Blue and the Blue Boys continuaram sendo uma operação de pequena escala, um grupo de entusiastas que tocavam mais uns para os outros do que para o público.
A grande virada aconteceu em 1962, quando Jagger e Richards conheceram outro jovem músico igualmente obcecado pelo blues americano: Brian Jones.
Jones era um guitarrista e multi-instrumentista de Cheltenham que se mudou para Londres especificamente para seguir carreira na música. Ele era mais velho, mais experiente e extremamente determinado. Ele havia colocado um anúncio procurando músicos para formar uma banda de rhythm and blues — uma banda séria, que pudesse realmente fazer da música sua carreira, em vez de apenas um hobby.
Quando Jagger e Richards conheceram Jones, a química foi imediata. Ali estava alguém com a mesma paixão, a mesma dedicação ao blues e R&B autênticos, mas com a ambição e as habilidades organizacionais para realmente fazer algo acontecer.
Jones já estava montando uma banda. Ele havia recrutado o pianista Ian Stewart. Estava fazendo audições com outros músicos.
Quando Jagger e Richards se juntaram, o núcleo estava completo.
Mas eles precisavam de um nome.
Segundo a lenda, Jones estava ao telefone com um jornalista que perguntou qual era o nome da banda. Jones olhou para um disco no chão perto do telefone — um álbum de Muddy Waters. Seus olhos pousaram no título de uma música: "Rollin' Stone".
"Nós nos chamamos The Rolling Stones", disse Jones.
O nome pegou.
Os Rolling Stones fizeram seu primeiro show como banda em 12 de julho de 1962, no Marquee Club, em Londres. A formação naquela noite incluía Jagger nos vocais, Richards na guitarra, Jones na guitarra, Stewart no piano, Dick Taylor no baixo e Tony Chapman na bateria. A seção rítmica mudaria várias vezes antes de se estabilizar com Bill Wyman e Charlie Watts, mas o núcleo — Jagger, Richards e Jones — estava definido.
Desde os primeiros tempos tocando em pequenos clubes, os Rolling Stones se tornariam uma das bandas mais bem-sucedidas e influentes da história do rock. Eles gravariam dezenas de álbuns, venderiam centenas de milhões de discos, fariam turnês ininterruptas por mais de seis décadas e definiriam o que significava ser uma banda de rock and roll.
Mas tudo começou com aquele encontro casual na estação ferroviária de Dartford.
Pense em como as coisas poderiam ter sido diferentes.
Se Jagger tivesse pegado um trem diferente naquela manhã, eles não teriam se conhecido. Se Richards não tivesse notado os discos debaixo do braço de Jagger, ele não teria se aproximado. Se Jagger tivesse sido menos receptivo ou Richards menos ousado, a conversa poderia ter terminado após algumas gentilezas.
Se algum deles fosse menos apaixonado por blues americano — se gostassem de jazz, folk ou pop tradicional — eles não teriam tido aquela conexão instantânea. Se Jagger não tivesse encomendado aqueles discos específicos da Chess Records, se os tivesse deixado em casa naquele dia, Richards talvez nunca o tivesse notado.
Remova qualquer elemento daquela manhã e os Rolling Stones talvez nunca tivessem existido.
Em vez disso, dois adolescentes que se conheciam desde crianças se reconectaram por meio de seu amor compartilhado pela música que a maior parte da Inglaterra ignorava. Essa reconexão levou a uma parceria musical que definiria o rock and roll por gerações.
A história daquela manhã de outubro se tornou um dos contos de origem mais famosos da música rock, contada e recontada em entrevistas, biografias e documentários. Jagger e Richards a recontaram dezenas de vezes, com os detalhes sempre os mesmos: a estação de trem, os discos, a conversa no trem, o reconhecimento de uma alma gêmea.
"Não me lembro de uma época em que não o conhecia", disse Jagger em uma entrevista à Rolling Stone em 1995, refletindo sobre seu relacionamento com Richards. "Nossas mães se conheciam. Não éramos melhores amigos, mas éramos amigos."
Eles eram amigos na infância. Tornaram-se parceiros na adolescência. E criaram uma obra que transformou a música popular.
Os Rolling Stones acabariam por ir além de suas raízes no blues, incorporando elementos de rock, pop, country e experimentais em seu som. Mas essa base — o amor pelo blues e R&B americanos que uniu Jagger e Richards em uma plataforma de trem em 1961 — permaneceu no centro de tudo o que eles fizeram.
Os riffs de guitarra de Chuck Berry. O poder vocal bruto de Muddy Waters. O ritmo pulsante e a honestidade emocional do blues de Chicago. Tudo isso filtrado através de dois adolescentes britânicos que amavam tanto essa música que rastrearam gravações originais e as estudaram como textos sagrados.
Hoje, aqueles discos que Jagger carregava naquela manhã — "Rockin' at the Hops" de Chuck Berry e "The Best of Muddy Waters" — são artefatos da história do rock. Objetos físicos que por acaso estavam no lugar certo na hora certa, catalisadores para uma conversa que mudou a música para sempre.
E o nome da banda — The Rolling Stones, tirado daquela música de Muddy Waters — serve como uma lembrança permanente de suas origens, da música que os inspirou, do momento em que dois adolescentes reconheceram um no outro uma paixão compartilhada que valia a pena perseguir.
Uma plataforma de trem. Dois adolescentes. Alguns discos de vinil.
E daquele encontro casual: décadas de música que influenciariam inúmeros artistas, definiriam várias gerações e provariam que, às vezes, os momentos mais importantes da história acontecem quando alguém repara no que você está carregando debaixo do braço e decide puxar conversa.
Os Rolling Stones não apenas criaram a história do rock and roll.
Eles provaram que a história pode mudar nos menores momentos — se você estiver prestando atenção.
E mais...
Track listing
Side A
1. "Bye Bye Johnny"
2. "Worried Life Blues"
4. "Confessin' The Blues"
5. "Too Pooped To Pop"
6. "Mad Lad"
Side B
2. "Betty Jean"
3. "Childhood Sweetheart"
4. "Broken Arrow"
5. "Driftin' Blues"
6. "Let It Rock"
segunda-feira, 11 de março de 2024
A Shoah depois de Gaza (tradução)
The Shoah after Gaza, Pankaj Mishra, London Rewiew of Book, Vol. 46 No. 5 · 7 March 2024, foi replicado neste Blog em inglês. Dado a relevância do texto, fiz uma tradução livre (Google) no sentido de maior divulgação.
Em 1977, um ano antes de se matar, o escritor austríaco Jean Améry se deparou com relatos na imprensa de tortura sistemática contra prisioneiros árabes em prisões israelenses. Preso na Bélgica em 1943 enquanto distribuía panfletos antinazistas, o próprio Améry foi brutalmente torturado pela Gestapo e depois deportado para Auschwitz. Ele conseguiu sobreviver, mas nunca pôde olhar para seus tormentos como coisas do passado. Ele insistiu que aqueles que são torturados permanecem torturados, e que seu trauma é irrevogável. Como muitos sobreviventes de campos de extermínio nazistas, Améry passou a sentir uma "conexão existencial" com Israel na década de 1960. Ele atacou obsessivamente os críticos de esquerda do Estado judeu como "irrefletidos e inescrupulosos", e pode ter sido um dos primeiros a fazer a afirmação, habitualmente amplificada agora pelos líderes e apoiadores de Israel, de que antissemitas virulentos se disfarçam de anti-imperialistas virtuosos e antissionistas. No entanto, os relatos "reconhecidamente esboçados" de tortura nas prisões israelenses motivaram Améry.
Améry ficou particularmente perturbado com a apoteose em 1977 de Menachem Begin como primeiro-ministro de Israel. Begin, que organizou o atentado de 1946 ao Hotel King David, em Jerusalém, no qual 91 pessoas foram mortas, foi o primeiro dos francos expoentes do supremacismo judaico que continuam a governar Israel. Ele também foi o primeiro a invocar rotineiramente Hitler, o Holocausto e a Bíblia enquanto atacava árabes e construía assentamentos nos Territórios Ocupados. Em seus primeiros anos, o Estado de Israel tinha uma relação ambivalente com a Shoah e suas vítimas.
O primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion, inicialmente viu os sobreviventes da Shoah como "destroços humanos", alegando que eles haviam sobrevivido apenas porque tinham sido "maus, duros, egoístas". Foi o rival de Ben-Gurion, Begin, um demagogo da Polônia, que transformou o assassinato de seis milhões de judeus em uma intensa preocupação nacional e uma nova base para a identidade de Israel. O establishment israelense começou a produzir e divulgar uma visão muito particular da Shoah que poderia ser usada para legitimar um sionismo militante e expansionista.
Améry observou a nova retórica e foi categórico sobre suas consequências destrutivas para os judeus que vivem fora de Israel. Aquele Begin, "com a Torá no braço e recorrendo às promessas bíblicas", fala abertamente em roubar terras palestinas "por si só já seria motivo suficiente", escreveu ele, "para os judeus na diáspora reverem sua relação com Israel". Améry pediu aos líderes de Israel que "reconheçam que sua liberdade só pode ser alcançada com seu primo palestino, não contra ele".
Cinco anos depois, insistindo que os árabes eram os novos nazistas e Yasser Arafat, o novo Hitler, Begin assaltou o Líbano. Quando Ronald Reagan o acusou de perpetrar um "holocausto" e ordenou que ele o encerrasse, as Forças de Defesa de Israel (IDF) haviam matado dezenas de milhares de palestinos e libaneses e destruído grande parte de Beirute. Em seu romance Kapo (1993), o autor judeu-sérvio Aleksandar Tišma captura a repulsa que muitos sobreviventes da Shoah sentiam pelas imagens que saíam do Líbano: "Os judeus, seus parentes, os filhos e netos de seus contemporâneos, ex-prisioneiros dos campos, estavam em torres de tanques e dirigiam, bandeiras agitando, através de assentamentos não defendidos, através de carne humana, rasgando-a com balas de metralhadora, cercando os sobreviventes em campos cercados com arame farpado."
Primo Levi, que conhecera os horrores de Auschwitz ao mesmo tempo que Améry e também sentia uma afinidade emocional com o novo Estado judeu, rapidamente organizou uma carta aberta de protesto e deu uma entrevista na qual disse que "Israel está rapidamente caindo em isolamento total (...) Devemos sufocar os impulsos de solidariedade emocional com Israel para raciocinar friamente sobre os erros da atual classe dominante de Israel. Livre-se dessa classe dominante" Em várias obras de ficção e não-ficção, Levi havia meditado não apenas sobre seu tempo no campo de extermínio e seu legado angustiado e insolúvel, mas também sobre as ameaças sempre presentes à decência e à dignidade humanas. Ele ficou especialmente irritado com a exploração da Shoah por Begin. Dois anos depois, ele argumentou que "o centro de gravidade do mundo judeu deve voltar atrás, deve sair de Israel e voltar para a diáspora".
Dúvidas como as expressas por Améry e Levi são hoje condenadas como grosseiramente antissemitas. Vale lembrar que muitos desses reexames do sionismo e ansiedades sobre a percepção dos judeus no mundo foram incitados entre sobreviventes e testemunhas da Shoah pela ocupação do território palestino por Israel e sua nova mitologia manipuladora. Yeshayahu Leibowitz, teólogo que ganhou o Prêmio Israel em 1993, já alertava em 1969 contra a "nazificação" de Israel. Em 1980, o colunista israelense Boaz Evron descreveu cuidadosamente os estágios dessa corrosão moral: a tática de confundir palestinos com nazistas e gritar que outra Shoah é iminente era, ele temia, libertar os israelenses comuns de "quaisquer restrições morais, já que aquele que está em perigo de aniquilação se vê isento de quaisquer considerações morais que possam restringir seus esforços para se salvar". Os judeus, escreveu Evron, poderiam acabar tratando "não-judeus como sub-humanos" e replicando 'atitudes racistas nazistas'.
Evron também pediu cautela contra os apoiadores (então novos e ardentes) de Israel na população judaica americana. Para eles, argumentou, defender Israel tornou-se "necessário por causa da perda de qualquer outro ponto focal para sua identidade judaica" – na verdade, tão grande era sua falta existencial, de acordo com Evron, que eles não queriam que Israel se libertasse de sua crescente dependência do apoio judaico-americano.
Eles precisam se sentir necessários. Eles também precisam do "herói israelense" como uma compensação social e emocional em uma sociedade na qual o judeu geralmente não é percebido como incorporando as características do duro combatente viril. Assim, o israelense fornece ao judeu americano uma imagem dupla e contraditória – o super-homem viril e a potencial vítima do Holocausto – cujos componentes estão longe da realidade.
Zygmunt Bauman, filósofo judeu nascido na Polônia e refugiado do nazismo que passou três anos em Israel na década de 1970 antes de fugir de seu clima de justiça belicosa, se desesperou com o que viu como a "privatização" da Shoah por Israel e seus apoiadores. Passou a ser lembrado, escreveu ele em 1988, "como uma experiência privada dos judeus, como uma questão entre os judeus e seus odiadores", mesmo quando as condições que o tornaram possível estavam aparecendo novamente em todo o mundo. Tais sobreviventes da Shoah, que haviam sido mergulhados de uma crença serena no humanismo secular na insanidade coletiva, intuíram que a violência a que haviam sobrevivido – sem precedentes em sua magnitude – não era uma aberração em uma civilização moderna essencialmente sólida. Também não poderia ser atribuído inteiramente a um preconceito hoary contra os judeus. A tecnologia e a divisão racional do trabalho permitiram que as pessoas comuns contribuíssem para atos de extermínio em massa com a consciência tranquila, Mesmo com frissons de virtude, e esforços preventivos contra tais modos impessoais e disponíveis de matar exigiam mais do que vigilância contra o antissemitismo.
Quando recentemente recorri aos meus livros para preparar esta peça, descobri que já tinha sublinhado muitas das passagens que cito aqui. No meu diário há linhas copiadas de George Steiner ("o Estado-nação eriçado de armas é uma relíquia amarga, um absurdo no século dos homens amontoados") e Abba Eban ("Já é tempo de nos apoiarmos sozinhos e não nos dos seis milhões de mortos"). A maioria dessas anotações remonta à minha primeira visita a Israel e seus Territórios Ocupados, quando procurava responder, na minha inocência, a duas perguntas desconcertantes: como é que Israel chegou a exercer um poder tão terrível de vida e morte sobre uma população de refugiados; e como pode o mainstream político e jornalístico ocidental ignorar, até mesmo justificar, suas crueldades e injustiças claramente sistemáticas?
Eu tinha crescido absorvendo um pouco do sionismo reverencial de minha família de nacionalistas hindus de casta superior na Índia. Tanto o sionismo quanto o nacionalismo hindu surgiram no final do século 19 a partir de uma experiência de humilhação; muitos de seus ideólogos desejavam superar o que percebiam como uma vergonhosa falta de masculinidade entre judeus e hindus. E para os nacionalistas hindus na década de 1970, detratores impotentes do então partido pró-palestino Congresso, sionistas intransigentes como Begin, Ariel Sharon e Yitzhak Shamir parecia ter vencido a corrida para a nação musculada. (A inveja agora está fora do armário: os trolls hindus constituem o maior fã-clube de Benjamin Netanyahu no mundo.) Lembro-me que tinha uma foto na minha parede de Moshe Dayan, o chefe de gabinete das IDF e ministro da Defesa durante a Guerra dos Seis Dias; e mesmo muito tempo depois que minha paixão infantil pela força bruta se desvaneceu, não deixei de ver Israel da maneira como seus líderes começaram a apresentar o país a partir dos anos 1960, como redenção para as vítimas da Shoah, e uma garantia inquebrável contra sua recorrência.
Eu sabia o quão pouco a situação dos judeus bodes expiatórios durante o colapso social e econômico da Alemanha nas décadas de 1920 e 1930 havia registrado na consciência dos líderes da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, que até mesmo os sobreviventes da Shoah foram recebidos com um ombro frio e, no Leste Europeu, com novos pogroms. Embora convencido da justiça da causa palestina, achei difícil resistir à lógica sionista: que os judeus não podem sobreviver em terras não judaicas e devem ter um Estado próprio. Eu até pensei que era injusto que Israel sozinho entre todos os países do mundo precisasse justificar seu direito de existir.
Não fui ingênuo o suficiente para pensar que o sofrimento enobrece ou capacita as vítimas de uma grande atrocidade a agirem de maneira moralmente superior. Que é muito provável que as vítimas de ontem se tornem as vítimas de hoje é a lição da violência organizada na ex-Jugoslávia, no Sudão, no Congo, no Ruanda, no Sri Lanka, no Afeganistão e em demasiados outros lugares. Eu ainda estava chocado com o significado sombrio que o Estado israelense havia tirado da Shoah, e depois institucionalizado em uma máquina de repressão. Os assassinatos direcionados de palestinos, postos de controle, demolições de casas, roubos de terras, detenções arbitrárias e indefinidas e tortura generalizada nas prisões pareciam proclamar um ethos nacional impiedoso: que a humanidade está dividida entre aqueles que são fortes e aqueles que são fracos, e assim aqueles que foram ou esperam ser vítimas devem esmagar preventivamente seus inimigos percebidos.
Embora eu tivesse lido Edward Said, ainda fiquei chocado ao descobrir por mim mesmo como insidiosamente os altos apoiadores de Israel no Ocidente escondem a ideologia niilista de sobrevivência da mais forte reproduzida por todos os regimes israelenses desde o de Begin. É do seu próprio interesse preocupar-se com os crimes dos ocupantes, se não com o sofrimento dos despossuídos e desumanizados; mas ambos passaram sem muito escrutínio na respeitável imprensa do mundo ocidental. Qualquer um que chame a atenção para o espetáculo do compromisso cego de Washington com Israel é acusado de antissemitismo e de ignorar as lições da Shoah. E uma consciência distorcida da Shoah garante que sempre que as vítimas de Israel, incapazes de suportar sua miséria por mais tempo, se levantam contra seus opressores com ferocidade previsível, elas são denunciadas como nazistas, decididas a perpetrar outra Shoah.
Ao ler e anotar os escritos de Améry, Levi e outros, eu estava tentando de alguma forma mitigar o sentimento opressivo de injustiça que senti depois de ser exposto à interpretação sombria da Shoah por Israel e aos certificados de alto mérito moral concedidos ao país por seus aliados ocidentais. Procurava tranquilizar pessoas que conheciam, nos seus corpos frágeis, o monstruoso terror de milhões de pessoas que um Estado-nação europeu supostamente civilizado e que tinham resolvido estar em guarda perpétua contra a deformação do significado da Shoah e o abuso da sua memória.
Apesar de suas crescentes reservas em relação a Israel, uma classe política e midiática no Ocidente tem eufemizado incessantemente os fatos gritantes da ocupação militar e da anexação sem controle por demagogos etnonacionais: Israel, diz o coro, tem o direito, como única democracia do Oriente Médio, de se defender, especialmente de brutos genocidas. Como resultado, as vítimas da barbárie israelense em Gaza hoje não podem sequer obter o reconhecimento direto de seu calvário das elites ocidentais, muito menos o alívio. Nos últimos meses, bilhões de pessoas em todo o mundo testemunharam um ataque extraordinário cujas vítimas, como Blinne Ní Ghrálaigh, um advogado irlandês que é representante da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça de Haia, "estão a transmitir a sua própria destruição em tempo real na esperança desesperada, até agora vã, de que o mundo possa fazer alguma coisa".
Mas o mundo, ou mais especificamente o Ocidente, não faz nada. Pior, a liquidação de Gaza, embora delineada e difundida por seus perpetradores, é diariamente ofuscada, se não negada, pelos instrumentos da hegemonia militar e cultural do Ocidente: desde o presidente dos EUA afirmando que os palestinos são mentirosos e políticos europeus entoando que Israel tem o direito de se defender até os prestigiosos veículos de notícias que usam a voz passiva ao relatar os massacres realizados em Gaza. Encontramo-nos numa situação sem precedentes.
Nunca tantos testemunharam um massacre em escala industrial em tempo real. No entanto, a insensibilidade, a timidez e a censura prevalecentes desautorizam, até zombam, nosso choque e tristeza. Muitos de nós que vimos algumas das imagens e vídeos que saíram de Gaza – aquelas visões do inferno de cadáveres retorcidos e enterrados em valas comuns, os cadáveres menores segurados por pais enlutados ou colocados no chão em fileiras limpas – têm enlouquecido silenciosamente nos últimos meses. Todos os dias são envenenados pela consciência de que, enquanto seguimos nossas vidas, centenas de pessoas comuns como nós estão sendo assassinadas, ou sendo forçadas a testemunhar o assassinato de seus filhos.
Aqueles levados a escanear o rosto de Joe Biden em busca de algum sinal de misericórdia, algum sinal de fim da sangria, encontram uma dureza assustadoramente suave, quebrada apenas por um pequeno sorriso nervoso quando ele desfoca mentiras israelenses sobre bebês decapitados. A teimosa malícia e crueldade de Biden com os palestinos é apenas um dos muitos enigmas horríveis que nos são apresentados por políticos e jornalistas ocidentais.
A Shoah traumatizou pelo menos duas gerações judaicas, e os massacres e a tomada de reféns em Israel em 7 de outubro pelo Hamas e outros grupos palestinos reacenderam o medo do extermínio coletivo entre muitos judeus. Mas ficou claro desde o início que a liderança israelense mais fanática da história não se furtaria a explorar um sentimento generalizado de violação, luto e horror. Teria sido fácil para os líderes ocidentais sufocar o seu impulso de solidariedade incondicional para com um regime extremista, reconhecendo ao mesmo tempo a necessidade de perseguir e levar à justiça os culpados de crimes de guerra em 7 de Outubro. Por que então Keir Starmer, um ex-advogado de direitos humanos, afirmou que Israel tem o direito de "reter energia e água" dos palestinos? Por que a Alemanha começou febrilmente a vender mais armas para Israel (e com sua mídia mentirosa e repressão oficial implacável, especialmente contra artistas e pensadores judeus, forneceu uma nova lição ao mundo na rápida ascensão do etnonacionalismo assassino lá)? O que explica manchetes na BBC e no New York Times como "Hind Rajab, de seis anos, encontrado morto em Gaza dias após telefonemas de socorro", "Lágrimas de pai de Gaza que perdeu 103 parentes" e "Homem morre após se incendiar em frente à embaixada israelense em Washington, diz polícia"? Por que políticos e jornalistas ocidentais continuam apresentando dezenas de milhares de palestinos mortos e mutilados como danos colaterais, em uma guerra de autodefesa forçada contra o exército mais moral do mundo, como afirmam as IDF?
As respostas para muitas pessoas ao redor do mundo não podem deixar de ser contaminadas por uma amargura racial de longa duração. A Palestina, assinalou George Orwell em 1945, é uma "questão de cor", e foi assim que inevitavelmente foi visto por Gandhi, que pediu aos líderes sionistas que não recorressem ao terrorismo contra os árabes que usavam armas ocidentais, e as nações pós-coloniais, que quase todas se recusaram a reconhecer o Estado de Israel. O que W.E.B. Du Bois chamou de problema central da política internacional – a "linha da cor" – motivou Nelson Mandela quando disse que a liberdade da África do Sul do apartheid é "incompleta sem a liberdade dos palestinos". James Baldwin procurou profanar o que chamou de "silêncio piedoso" em torno do comportamento de Israel ao afirmar que o Estado judeu, que vendia armas ao regime do apartheid na África do Sul, encarnava a supremacia branca e não a democracia. Muhammad Ali via a Palestina como um exemplo de injustiça racial grosseira. É o que fazem hoje os líderes das mais antigas e proeminentes denominações cristãs negras dos Estados Unidos, que acusaram Israel de genocídio e pediram a Biden que acabasse com toda a ajuda financeira e militar ao país.
Em 1967, Baldwin foi tato o suficiente para dizer que o sofrimento do povo judeu "é reconhecido como parte da história moral do mundo" e "isso não é verdade para os negros". Em 2024, muito mais pessoas podem ver que, quando comparadas com as vítimas judaicas do nazismo, os incontáveis milhões consumidos pela escravidão, os numerosos holocaustos vitorianos tardios na Ásia e na África e os ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki mal são lembrados. Bilhões de não-ocidentais foram furiosamente politizados nos últimos anos pela calamitosa guerra do Ocidente contra o terror, pelo "apartheid de vacinas" durante a pandemia e pela hipocrisia descarada sobre a situação de ucranianos e palestinos; dificilmente podem deixar de notar uma versão beligerante da "negação do Holocausto" entre as elites dos antigos países imperialistas, que se recusam a abordar o passado de brutalidade genocida e pilhagem de seus países e se esforçam para deslegitimar qualquer discussão sobre isso como "wokeness" desequilibrado. Os relatos populares do totalitarismo continuam a ignorar as descrições agudas do nazismo (de Jawaharlal Nehru e Aimé Césaire, entre outros súditos imperiais) como o "gêmeo" radical do imperialismo ocidental; eles evitam explorar a conexão óbvia entre a matança imperial de nativos nas colônias e os terrores genocidas perpetrados contra judeus dentro da Europa.
Um dos grandes perigos hoje é o endurecimento da linha de cores em uma nova Linha Maginot. Para a maioria das pessoas fora do Ocidente, cuja experiência primordial da civilização europeia seria brutalmente colonizada por seus representantes, a Shoah não apareceu como uma atrocidade sem precedentes. Recuperando-se dos estragos do imperialismo em seus próprios países, a maioria das pessoas não ocidentais não estava em posição de apreciar a magnitude do horror que o gêmeo radical do imperialismo infligiu aos judeus na Europa. Assim, quando os líderes de Israel comparam o Hamas aos nazistas, e diplomatas israelenses usam estrelas amarelas na ONU, seu público é quase exclusivamente ocidental. A maior parte do mundo não carrega o fardo da culpa europeia cristã sobre a Shoah, e não considera a criação de Israel como uma necessidade moral para absolver os pecados dos europeus do século 20. Há mais de sete décadas que o argumento entre os "povos mais negros" continua o mesmo: porque é que os palestinianos devem ser despossuídos e punidos por crimes em que só os europeus eram cúmplices? E eles só podem recuar com repulsa da alegação implícita de que Israel tem o direito de matar 13.000 crianças não apenas por uma questão de autodefesa, mas porque é um Estado nascido da Shoah.
Em 2006, Tony Judt já alertava que "o Holocausto já não pode ser instrumentalizado para desculpar o comportamento de Israel" porque um número crescente de pessoas "simplesmente não consegue compreender como é que os horrores da última guerra europeia podem ser invocados para licenciar ou tolerar comportamentos inaceitáveis noutro tempo e lugar". A "mania de perseguição há muito cultivada por Israel – "todo mundo está fora para nos pegar" – já não suscita simpatia", alertou, e as profecias de antissemitismo universal correm o risco de "tornar-se uma afirmação autorrealizável": "O comportamento imprudente de Israel e a identificação insistente de todas as críticas com o antissemitismo são agora a principal fonte de sentimento anti-judaico na Europa Ocidental e em grande parte da Ásia". Os amigos mais devotos de Israel hoje estão inflamando essa situação. Como o jornalista israelense e documentarista Yuval Abraham, o "terrível mau uso" da acusação de antissemitismo pelos alemães esvazia-a de sentido e "põe em perigo os judeus em todo o mundo". Biden continua fazendo o argumento traiçoeiro de que a segurança da população judaica em todo o mundo depende de Israel. Como disse recentemente o colunista do New York Times Ezra Klein: "Sou uma pessoa judia. Sinto-me mais seguro? Sinto que há menos antissemitismo no mundo agora por causa do que está acontecendo lá, ou me parece que há um grande aumento do antissemitismo, e que mesmo judeus em lugares que não são Israel são vulneráveis ao que acontece em Israel?"
Este cenário ruinoso foi claramente antecipado pelos sobreviventes da Shoah que citei anteriormente, que alertaram para os danos infligidos à memória da Shoah pela sua instrumentalização. Bauman alertou repetidamente após a década de 1980 que tais táticas de políticos inescrupulosos como Begin e Netanyahu estavam garantindo "um triunfo post-mortem para Hitler, que sonhava em criar conflitos entre judeus. Este cenário ruinoso foi claramente antecipado pelos sobreviventes da Shoah que citei anteriormente, que alertaram para os danos infligidos à memória da Shoah pela sua instrumentalização. Bauman alertou repetidamente após a década de 1980 que tais táticas de políticos inescrupulosos como Begin e Netanyahu estavam garantindo "um triunfo post-mortem para Hitler, que sonhava em criar conflitos entre judeus.
Não há muito o que esperar a esse respeito dos atuais líderes de Israel. A descoberta de sua extrema vulnerabilidade ao Hizbullah, bem como ao Hamas, deve torná-los mais dispostos a arriscar um acordo de paz de compromisso. No entanto, com todas as bombas de 2000 libras esbanjadas por Biden, eles buscam loucamente militarizar ainda mais sua ocupação da Cisjordânia e de Gaza. Tal automutilação é o efeito de longo prazo que Boaz Evron temia quando alertou contra "a menção contínua do Holocausto, o antissemitismo e o ódio aos judeus em todas as gerações". "Uma liderança não pode ser separada de sua própria propaganda", escreveu ele, e a classe dominante de Israel age como os chefes de uma "seita" operando "no mundo dos mitos e monstros criados pelas próprias mãos", "já não consegue compreender o que se passa no mundo real" ou os "processos históricos em que o Estado é apanhado".
Quarenta e quatro anos depois que Evron escreveu isso, é mais claro, também, que os patronos ocidentais de Israel se tornaram os piores inimigos do país, levando sua ala mais fundo à alucinação. Como disse Evron, as potências ocidentais agem contra seus "próprios interesses e aplicam a Israel uma relação preferencial especial, sem que Israel se veja obrigado a retribuir". Por conseguinte, «o tratamento especial dado a Israel, expresso num apoio económico e político incondicional», «criou uma economia e o caldeirão político em torno de Israel, isolando-o das realidades econômicas e políticas globais".
Netanyahu e sua turma ameaçam as bases da ordem global que foi reconstruída após a revelação dos crimes nazistas. Mesmo antes de Gaza, a Shoah estava perdendo seu lugar central em nossa imaginação do passado e do futuro. É verdade que nenhuma atrocidade histórica foi tão ampla e amplamente comemorada. Mas a cultura da lembrança em torno da Shoah agora acumulou sua própria longa história. Essa história mostra que a memória da Shoah não surgiu apenas organicamente do que aconteceu entre 1939 e 1945; foi construída, muitas vezes de forma muito deliberada, e com fins políticos específicos. De fato, um consenso necessário sobre a saliência universal da Shoah tem sido ameaçado pelas pressões ideológicas cada vez mais visíveis sobre sua memória.
Que o regime nazista da Alemanha e seus colaboradores europeus haviam assassinado seis milhões de judeus era amplamente conhecido depois de 1945. Mas durante muitos anos esse fato estupefaciente teve pouca ressonância política e intelectual. Nas décadas de 1940 e 1950, a Shoah não era vista como uma atrocidade separada de outras atrocidades da guerra: a tentativa de extermínio de populações eslavas, ciganos, deficientes e homossexuais. É claro que a maioria dos povos europeus tinha razões próprias para não se debruçar sobre o assassinato de judeus. Os alemães estavam obcecados com seu próprio trauma de bombardeio e ocupação pelas potências aliadas e sua expulsão em massa da Europa Oriental. França, Polônia, Áustria e Holanda, que haviam cooperado avidamente com os nazistas, queriam se apresentar como parte de uma valente "resistência" ao hitlerismo.
Muitas lembranças indecentes de cumplicidade existiram muito depois do fim da guerra, em 1945. A Alemanha tinha ex-nazistas como chanceler e presidente. O presidente francês, François Mitterrand, tinha sido um apparatchik no regime de Vichy. Ainda em 1992, Kurt Waldheim era presidente da Áustria, apesar de haver evidências de seu envolvimento em atrocidades nazistas.
Mesmo nos Estados Unidos, houve "silêncio público e algum tipo de negação estatista em relação ao Holocausto", como escreve Idith Zertal em Israel's Holocaust and the Politics of Nationhood (2005). Só muito depois de 1945 é que o Holocausto começou a ser lembrado publicamente. Em Israel, a consciência da Shoah foi limitada durante anos aos seus sobreviventes, que, surpreendentemente lembram-se hoje, foram encharcados de desprezo pelos líderes do movimento sionista. Ben-Gurion tinha inicialmente visto a ascensão de Hitler ao poder como "um enorme impulso político e econômico para a empresa sionista", mas ele não considerava os destroços humanos dos campos de extermínio de Hitler como material adequado para a construção de um novo Estado judeu forte. "Tudo o que eles haviam suportado", disse Ben-Gurion, "expurgou suas almas de todo o bem". Saul Friedlander, o principal historiador da Shoah, que deixou Israel em parte porque não suportava ver a Shoah sendo usada "como pretexto para duras medidas antipalestinas", lembra em seu livro de memórias, Where Memory Leads (2016), que os estudiosos acadêmicos inicialmente desprezaram o assunto, deixando-o para o centro de memória e documentação Yad Vashem.
As atitudes só começaram a mudar com o julgamento de Adolf Eichmann, em 1961. Em O Sétimo Milhão (1993), o historiador israelense Tom Segev conta que Ben-Gurion, acusado por Begin e outros rivais políticos de insensibilidade aos sobreviventes da Shoah, decidiu encenar uma "catarse nacional" ao realizar o julgamento de um criminoso de guerra nazista. Ele esperava educar os judeus dos países árabes sobre a Shoah e o antissemitismo europeu (nenhum dos quais eles estavam familiarizados) e começar a vinculá-los com judeus de ascendência europeia no que parecia muito claramente uma comunidade imperfeitamente imaginada. Segev continua descrevendo como Begin avançou nesse processo de forjar uma consciência Shoah entre judeus de pele mais escura que há muito eram alvo de humilhações racistas pelo establishment branco do país. Begin curou suas feridas de classe e raça prometendo-lhes terras palestinas roubadas e um status socioeconômico acima dos árabes despossuídos e destituídos.
Essa distribuição dos salários dos israelenses coincidiu com a erupção de políticas identitárias entre uma minoria abastada nos EUA. Como Peter Novick esclarece em detalhes surpreendentes em O Holocausto na Vida Americana (1999), a Shoah "não apareceu tão grande" na vida dos judeus americanos até o final dos anos 1960. Apenas alguns livros e filmes abordaram o assunto. O filme Julgamento em Nuremberg (1961) dobrou o assassinato em massa de judeus na categoria maior dos crimes do nazismo. Em seu ensaio "O Destino Intelectual e Judaico", publicado na revista judaica Commentary em 1957, Norman Podhoretz, o santo padroeiro dos sionistas neoconservadores na década de 1980, nada disse sobre o Holocausto.
Organizações judaicas que se tornaram famosas por policiar a opinião sobre o sionismo no início desencorajaram a memorialização das vítimas judaicas da Europa. Eles estavam lutando para aprender as novas regras do jogo geopolítico. Nas mudanças camaleônicas do início da Guerra Fria, a União Soviética deixou de ser um aliado ferrenho contra a Alemanha nazista e passou a ser um mal totalitário; A Alemanha deixou de ser um mal totalitário para se tornar um aliado democrático ferrenho contra o mal totalitário. Assim, o editor do Commentary exortou os judeus americanos a nutrirem uma "atitude realista em vez de punitiva e recriminadora" em relação à Alemanha, que agora era um pilar da "civilização democrática ocidental".
Este extenso iluminamento pelos líderes políticos e intelectuais do mundo livre chocou e amargurou muitos sobreviventes da Shoah. No entanto, eles não eram então considerados como testemunhas privilegiadas do mundo moderno. Améry, que detestava o "filossemitismo intrusivo" da Alemanha do pós-guerra, foi reduzido a amplificar seus "ressentimentos" privados em ensaios destinados a agitar a "consciência miserável" dos leitores alemães. Em um deles, ele descreve uma viagem pela Alemanha em meados da década de 1960. Ao discutir o último romance de Saul Bellow com os novos intelectuais "refinados" do país, ele não podia esquecer os "rostos pedregosos" dos alemães comuns diante de uma pilha de cadáveres, e descobriu que guardava um novo "rancor" contra os alemães e seu lugar exaltado nos "majestosos salões do Ocidente". A experiência de "solidão absoluta" de Améry diante de sua Gestapo torturadores haviam destruído sua "confiança no mundo".
Foi só depois de sua libertação que ele voltou a conhecer o "entendimento mútuo" com o resto da humanidade, porque "aqueles que me torturaram e me transformaram em um inseto" pareciam provocar "desprezo". Mas sua fé curativa no "equilíbrio da moralidade mundial" foi rapidamente abalada pelo subsequente abraço ocidental da Alemanha e pelo recrutamento ávido de ex-nazistas pelo mundo livre em seu novo "jogo de poder".
Améry teria se sentido ainda mais traído se tivesse visto o memorando do Comitê Judaico Americano em 1951, que lamentava o fato de que "para a maioria dos judeus o raciocínio sobre a Alemanha e os alemães ainda é obscurecido por fortes emoções". Novick explica que os judeus americanos, como outros grupos étnicos, estavam ansiosos para evitar a acusação de dupla lealdade e aproveitar as oportunidades dramaticamente crescentes oferecidas pela América do pós-guerra. Eles ficaram mais atentos à presença de Israel durante o amplamente divulgado e polêmico julgamento de Eichmann, que tornou inescapável o fato de que os judeus haviam sido os principais alvos e vítimas de Hitler.
Mas foi somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a Guerra do Yom Kipur, em 1973, quando Israel parecia existencialmente ameaçado por seus inimigos árabes, que a Shoah passou a ser amplamente concebida, tanto em Israel quanto nos Estados Unidos, como o emblema da vulnerabilidade judaica num mundo eternamente hostil. Organizações judaicas começaram a usar o lema "Nunca Mais" para pressionar por políticas americanas favoráveis a Israel. Os EUA, enfrentando uma derrota humilhante no Leste Asiático, começaram a ver um Israel aparentemente invencível como um representante valioso no Oriente Médio, e começaram sua pródiga subvenção do Estado judeu. Por sua vez, a narrativa, promovida por líderes israelenses e grupos sionistas americanos, de que a Shoah era um perigo presente e iminente para os judeus começou a servir de base para a autodefinição coletiva para muitos judeus americanos na década de 1970.
Os judeus americanos eram então o grupo minoritário mais educado e próspero da América, e eram cada vez mais irreligiosos. No entanto, na sociedade americana rancorosamente polarizada do final dos anos 1960 e 1970, onde o sequestro étnico e racial se tornou comum em meio a um sentimento generalizado de desordem e insegurança, e a calamidade histórica se transformou em um distintivo de identidade e retidão moral, mais e mais judeus americanos assimilados se filiaram à memória da Shoah e forjaram uma conexão pessoal com um Israel que viam como ameaçado por antissemitas genocidas.
Uma tradição política judaica preocupada com a desigualdade, a pobreza, os direitos civis, o ambientalismo, o desarmamento nuclear e o anti-imperialismo transformou-se numa tradição caracterizada por uma hiperatenção à única democracia do Oriente Médio. Nos diários que manteve a partir da década de 1960, o crítico literário Alfred Kazin alterna entre a perplexidade e o desprezo ao mapear os psicodramas de identidade pessoal que ajudaram a criar o eleitorado mais leal de Israel no exterior: O atual período de "sucesso" judaico um dia será lembrado como uma das maiores ironias... Os judeus apanhados numa armadilha, os judeus assassinados, e bango! Das cinzas todo esse lamento inescapável e a exploração do Holocausto... Israel como "salvaguarda" dos judeus; o Holocausto como nossa nova Bíblia, mais do que um Livro de Lamentações.
Kazin era alérgico ao culto americano de Elie Wiesel, que andava por aí afirmando que a Shoah era incompreensível, incomparável e irrepresentável, e que os palestinos não tinham direito a Jerusalém. Na visão de Kazin, "a classe média judaica americana" havia encontrado em Wiesel, um "Jesus do Holocausto", "um substituto para sua própria vaga religiosa". A potente política identitária de uma minoria americana não foi perdida por Primo Levi durante sua única visita ao país em 1985, dois anos antes de se matar. Ele tinha sido profundamente perturbado pela cultura do consumo conspícuo do Holocausto em torno de Wiesel (que dizia ter sido o grande amigo de Levi em Auschwitz; Levi não se lembrava de tê-lo conhecido) e ficou intrigado com a obsessão voyeurista de seus anfitriões americanos com sua judiaria. A potente política identitária de uma minoria americana não foi perdida por Primo Levi durante sua única visita ao país em 1985, dois anos antes de se matar. Ele tinha sido profundamente perturbado pela cultura do consumo conspícuo do Holocausto em torno de Wiesel (que dizia ter sido o grande amigo de Levi em Auschwitz; Levi não se lembrava de tê-lo conhecido) e ficou intrigado com a obsessão voyeurista de seus anfitriões americanos com sua judiaria. Pela própria admissão de Levi, essa truculência intelectual (amargamente lamentada por seu agora autor antissionista) ajudou a extinguir sua "vontade de viver".
A literatura americana recente manifesta mais claramente o paradoxo de que quanto mais remota a Shoah crescia no tempo, mais ferozmente sua memória era possuída pelas gerações posteriores de judeus americanos. Fiquei chocado com a irreverência com que Isaac Bashevis Singer, nascido em 1904 na Polônia e em muitos aspectos o escritor judeu por excelência do século 20, retratou os sobreviventes da Shoah em sua ficção e ridicularizou tanto o Estado de Israel quanto o filossemitismo ávido dos gentios americanos. Um romance como Sombras no Hudson quase parece projetado para provar que a opressão não melhora o caráter moral.
Mas escritores judeus muito mais jovens e secularizados do que Singer pareciam submersos demais no que Gillian Rose em seu contundente ensaio sobre a Lista de Schindler chamou de "Piedade do Holocausto". Em uma resenha no LRB de A História do Amor (2005), romance de Nicole Krauss ambientado em Israel, Europa e EUA, James Wood destacou que seu autor, nascido em 1974, "prossegue como se o Holocausto tivesse acontecido ontem". O judaísmo do romance tinha sido, escreveu Wood, "deformado em fraudes e histriónicas pela força da identificação de Krauss com ele". Tal "fervor judaico", beirando a "minstrelsy", contrastava fortemente com o trabalho de Bellow e Norman Mailer e Philip Roth, que "não haviam demonstrado grande interesse pela sombra da Shoah".
Uma afiliação obstinada à Shoah também marcou e diminuiu muito o jornalismo americano sobre Israel. Mais consequentemente, a religião político-secular da Shoah e a identificação excessiva com Israel desde a década de 1970 distorceram fatalmente a política externa do principal patrocinador de Israel, os EUA. Em 1982, pouco antes de Reagan ordenar sem rodeios que Begin cessasse seu "holocausto" no Líbano, um jovem senador americano que reverenciava Elie Wiesel como seu grande professor se encontrou com o primeiro-ministro israelense. No relato atordoado de Begin sobre a reunião, o senador elogiou o esforço de guerra israelense e se gabou de que teria ido além, mesmo que isso significasse matar mulheres e crianças. O próprio Begin foi pego de surpresa pelas palavras do futuro presidente dos EUA, Joe Biden. "Não, senhor", insistiu. "De acordo com nossos valores, é proibido ferir mulheres e crianças, mesmo na guerra (...) Este é um critério da civilização humana, não para ferir civis."
Ao longo do período de relativa paz fez com que a maioria de nós esquecesse as calamidades que a precederam. Apenas algumas pessoas vivas hoje podem se lembrar da experiência de guerra total que definiu a primeira metade do século 20, as lutas imperiais e nacionais dentro e fora da Europa, a mobilização ideológica de massas, as erupções do fascismo e do militarismo. Quase meio século dos conflitos mais brutais e das maiores rupturas morais da história expôs os perigos de um mundo onde não existia nenhum constrangimento religioso ou ético sobre o que os seres humanos podiam fazer ou ousaram fazer. A razão secular e a ciência moderna, que deslocaram e substituíram a religião tradicional, não apenas revelaram sua incapacidade de legislar sobre a conduta humana; eles estavam implicados nos novos e eficientes modos de abate demonstrados por Auschwitz e Hiroshima.
Nas décadas de reconstrução após 1945, lentamente tornou-se possível voltar a acreditar no conceito de sociedade moderna, em suas instituições como uma força inequivocamente civilizadora, em suas leis como uma defesa contra paixões viciosas. Essa crença provisória foi consagrada e afirmada por uma teologia secular negativa derivada da exposição de crimes nazistas: Nunca Mais. O próprio imperativo categórico do pós-guerra gradualmente adquiriu forma institucional com a criação de organizações como a CIJ e o Tribunal Penal Internacional e de grupos vigilantes de direitos humanos como a Anistia Internacional ou a Human Rights Watch. Um importante documento dos anos do pós-guerra, o preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, está impregnado do medo de repetir o passado de apocalipse racial da Europa. Nas últimas décadas, à medida que as imaginações utópicas de uma melhor ordem socioeconômica se esvaíam, o ideal dos direitos humanos extraiu ainda mais autoridade das lembranças do grande mal cometido durante a Shoah.
De espanhóis lutando por justiça reparadora após longos anos de ditaduras brutais, latino-americanos agitando em nome de seus desaparecidos e bósnios pedindo proteção contra os limpadores étnicos sérvios, até o pedido coreano de reparação para as "mulheres de conforto" escravizadas pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, as memórias do sofrimento judaico nas mãos dos nazistas são a base sobre a qual a maioria das descrições de ideologia extrema e atrocidade, e a maioria das demandas por reconhecimento e reparações, foram construídas.
Essas memórias ajudaram a definir as noções de responsabilidade, culpa coletiva e crimes contra a humanidade. É verdade que têm sido continuamente abusadas pelos expoentes do humanitarismo militar, que reduzem os direitos humanos ao direito de não serem brutalmente assassinados. E o cinismo se reproduz mais rápido quando os modos formulaicos de comemoração da Shoah – viagens solenes a Auschwitz, seguido de camaradagem efusiva com Netanyahu em Jerusalém – tornou-se o preço barato do bilhete para a respeitabilidade para políticos antissemitas, agitadores islamofóbicos e Elon Musk. Ou quando Netanyahu concede absolvição moral em troca de apoio a políticos francamente antissemitas no Leste Europeu que buscam continuamente reabilitar os fervorosos carrascos locais de judeus durante a Shoah. No entanto, na ausência de algo mais eficaz, a Shoah continua sendo indispensável como padrão para aferir a saúde política e moral das sociedades; Sua memória, embora propensa a abusos, ainda pode ser usada para descobrir iniquidades mais insidiosas. Quando olho para meus próprios escritos sobre os admiradores antimuçulmanos de Hitler e sua influência maligna sobre a Índia hoje, fico impressionado com a frequência com que citei a experiência judaica do preconceito para alertar contra a barbárie que se torna possível quando certos tabus são quebrados.
Todos esses pontos de referência universalistas – a Shoah como a medida de todos os crimes, o antissemitismo como a forma mais letal de intolerância – correm o risco de desaparecer à medida que os militares israelenses massacram e matam os palestinos de fome, arrasam suas casas, escolas, hospitais, mesquitas, igrejas, bombardeiam-nos em acampamentos cada vez menores, enquanto denunciam como antissemitas ou defensores do Hamas todos aqueles que imploram para que ele desista, das Nações Unidas, Anistia Internacional e Human Rights Watch aos governos espanhol, irlandês, brasileiro e sul-africano e ao Vaticano. Israel hoje dinamita o edifício de normas globais construído após 1945, que vem cambaleando desde a catastrófica e ainda impune guerra ao terror e a guerra revanchista de Vladimir Putin na Ucrânia. A ruptura profunda que sentimos hoje entre o passado e o presente é uma ruptura na história moral do mundo desde o marco zero de 1945 – a história em que a Shoah foi durante muitos anos o evento central e a referência universal.
Há mais terremotos pela frente. Os políticos israelitas resolveram impedir um Estado palestiniano. De acordo com uma pesquisa recente, a maioria absoluta (88%) dos judeus israelenses acredita que a extensão das baixas palestinas é justificável. O governo israelense está bloqueando a ajuda humanitária a Gaza. Biden agora admite que seus dependentes israelenses são culpados de "bombardeios indiscriminados", mas compulsivamente distribui mais e mais equipamentos militares para eles. Em 20 de fevereiro, os EUA desprezaram pela terceira vez na ONU o desejo desesperado do mundo de acabar com o banho de sangue em Gaza. Em 26 de fevereiro, enquanto lambia uma casquinha de sorvete, Biden lançou sua própria fantasia, rapidamente derrubada por Israel e pelo Hamas, de um cessar-fogo temporário. No Reino Unido, tanto os trabalhistas como os conservadores os políticos procuram fórmulas verbais que possam apaziguar a opinião pública enquanto fornecem cobertura moral à carnificina em Gaza. Parece pouco crível, mas as evidências se tornaram esmagadoras: estamos testemunhando algum tipo de colapso no mundo livre.
Ao mesmo tempo, Gaza se tornou para inúmeras pessoas impotentes a condição essencial da consciência política e ética no século 21 – assim como a Primeira Guerra Mundial foi para uma geração no Ocidente. E, cada vez mais, parece que apenas aqueles sacudidos pela calamidade de Gaza podem resgatar a Shoah de Netanyahu, Biden, Scholz e Sunak e reuniversalizar seu significado moral; só eles podem ser confiados para restaurar o que Améry chamou de equilíbrio da moralidade mundial. Muitos dos manifestantes que enchem as ruas de suas cidades semana após semana não têm relação imediata com o passado europeu da Shoah. Eles julgam Israel por suas ações em Gaza, em vez de sua demanda santificada pela Shoah por segurança total e permanente. Conhecendo ou não a Shoah, eles rejeitam a grosseira lição social-darwinista que Israel tira dela – a sobrevivência de um grupo de pessoas às custas de outro. Eles são motivados pelo simples desejo de defender os ideais que pareciam tão universalmente desejáveis após 1945: respeito à liberdade, tolerância à alteridade das crenças e dos modos de vida; solidariedade com o sofrimento humano; e um senso de responsabilidade moral para com os fracos e perseguidos. Esses homens e mulheres sabem que, se há alguma lição a ser tirada da Shoah, é "Nunca mais para ninguém": o slogan dos corajosos jovens ativistas da Voz Judaica pela Paz.
É possível que percam. Talvez Israel, com sua psicose sobrevivencialista, não seja a "relíquia amarga" que George Steiner lhe chamou – ao contrário, é o presságio do futuro de um mundo falido e exausto. O endosso total a Israel por figuras de extrema direita como Javier Milei, da Argentina, e Jair Bolsonaro, do Brasil, e seu patrocínio por países onde nacionalistas brancos contagiaram a vida política – EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Itália – sugere que o mundo dos direitos individuais, das fronteiras abertas e do direito internacional está retrocedendo. É possível que Israel consiga limpar etnicamente Gaza, e até mesmo a Cisjordânia também. Há demasiadas evidências de que o arco do universo moral não se inclina para a justiça; homens poderosos podem fazer seus massacres parecerem necessários e justos. Não é nada difícil imaginar uma conclusão triunfal para a investida israelense.
O medo de uma derrota catastrófica pesa na cabeça dos manifestantes que interrompem os discursos de campanha de Biden e são expulsos de sua presença para um coro de "mais quatro anos". A descrença sobre o que veem todos os dias em vídeos de Gaza e o medo de uma brutalidade mais desenfreada perseguem os dissidentes online que diariamente criticam os pilares do quarto estado ocidental por sua intimidade com o poder bruto. Acusando Israel de cometer genocídio, eles parecem deliberadamente violar a opinião "moderada" e "sensata" que coloca o país, bem como a Shoah, fora da história moderna do expansionismo racista. E provavelmente não convencem ninguém em um mainstream político ocidental endurecido.
Mas então o próprio Améry, quando dirigiu seus ressentimentos à consciência miserável de seu tempo, "não estava de modo algum falando com a intenção de convencer; Eu simplesmente jogo minha palavra cegamente na balança, seja lá o que ela possa pesar." Sentindo-se enganado e abandonado pelo mundo livre, expôs seus ressentimentos "para que o crime se tornasse uma realidade moral para o criminoso, a fim de que ele fosse levado à verdade de sua atrocidade". Os acusadores clamorosos de Israel hoje parecem mirar pouco mais. Contra os atos de selvageria e a propaganda por omissão e ofuscação, incontáveis milhões proclamam agora, nos espaços públicos e nas mídias digitais, seus ressentimentos furiosos. No processo, eles correm o risco de amargar permanentemente suas vidas. Mas, talvez, sua indignação por si só alivie, por enquanto, o sentimento palestino de absoluta solidão e contribua de alguma forma para resgatar a memória da Shoah.
28 February 2024
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“Holocausto” é o termo inglês e “Shoah” o termo hebraico usado para descrever o genocídio perpetrado pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Ambos os termos têm uma dimensão teológica ou cósmica. “Holocausto” é derivado do grego para oferta queimada e é geralmente definido como u ma vasta destruição causada por fogo ou outras forças não humanas. “Shoah”, entretanto, tem sua raiz bíblica no termo “shoah u-meshoah” (devastação e desolação) que aparece tanto no Livro de Sofonias (1:15) quanto no Livro de Jó (30:3).
Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, “Holocausto” é o termo mais comum, enquanto na Europa continental o termo Shoah se mostrou mais ressonante. (...)
Qual é a diferença entre “Holocausto” e “Shoah”?














