quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Pílulas 48

Escultura Mãe Preta no Largo Paissandu / Douglas Nascimento - São Paulo Antiga

1. Linda Perry 

2. Doula voluntária

3. Washington Novaes e a causa indígena

4. Grande Sertão Veredas

5. A baleia-jubarte 

6. Revelando: Grandes Igrejas, Master Negócios

7. China ajuda agricultura familiar brasileira 

8. Oldest video ever recorded - 1874 ?! - History 

9. A cozinha caipira de São Paulo & 4.500 anos de culinária 

10. José Miguel Wisnik fala sobre “Grande sertão: veredas” 

11. Socorro Acioli: os nordestinos pelo mundo 

12. Por que o Irã está atacando a infraestrutura tecnológica dos EUA?

13. Se a IA é um risco existencial, o que fazer? 

14. Política foi a grande estrela das premiações do Festival de Veneza 

15. O planeta das baratas: 11. 9. 2001

16. Casos de câncer relacionados ao 11/9 crescem nos EUA 25 anos após 

17. Expedita, filha de Maria Bonita e Lampião

18. Lalo de Almeida / Retrato de fim do mundo 

19. Festival de Veneza 2025: Vencedores

20. Os pterodátilos contra-atacam – Ruy Castro

21. 'Mestre dos Batuques' de Agualusa põe soberania de Portugal em xeque

22. Orhan Pamuk - Socorro Acioli

23. Google Tradutor 

24. Louie / escala 4x3 

25. Roland Talks #04 | Charles Gavin recebe Liminha 

26. As cores do coração - Ruy Castro

27. Câmara de São Paulo aprovou regras contra pessoas negras perto da abolição

28. Helena de Troia 

29. O legado de Alexei Bueno

30. Gloria Steinem

31. Vera Sylvia Magalhães

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1. Linda Perry 

What's Up?, 4 Non Blondes

Mais aqui

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2. Doula voluntária

Dona Rô acompanha gestantes em hospital público de São Paulo há 27 anos. 

Rosângela Ferro, 71, atua no Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte da capital paulista, e viu milhares de nascimentos. Ela integra o Programa Voluntários da Saúde da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.

Rosangela Aparecida Ferro acompanha o parto de Giulia Eduarda, junto de seu marido Erick, na tarde de 17 de setembro, no Vila Nova Cachoeirinha - Bruno Santos - 17.set.26 / Folhapress

Luis Eduardo de Sousa, fsp, 27.9.2026

Doula, substantivo feminino: na Grécia antiga, mulher que auxiliava a parturiente durante o parto; que orienta gestantes a fazer exercícios físicos para diminuir as dores da bacia e o desconforto geral, na definição do dicionário Michaelis.

Rosângela Aparecida Ferro, 71, exerce a função há 27 anos. Ela presta apoio por meio do toque e da explicação. Durante o parto, explica qual é o motivo da dor que a gestante está sentindo, em que momento do parto a mulher está e atende a pedidos da mãe. As designações não definem a função para ela, que se limita a dizer: "é uma bênção divina".

Dona Rô, como é conhecida no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, circula pelos corredores da unidade, visitando "mãezinhas" em momentos diferentes – seja aguardando o parto, dando à luz ou se recuperando da operação.

Dona Rô no hospital Vila Nova Cachoeirinha, onde atua voluntariamente desde 1999 - Bruno Santos - 17.set.26/Folhapress

Já acompanhou milhares de partos e fez outras milhares de amizades.

Dona Rô é moradora da Vila Cachoeirinha e se dedica a prestar apoio voluntário a gestantes do hospital, cujo público é composto em grande parte por pessoas em situação de vulnerabilidade econômica de comunidades da zona norte.

Ela é uma mulher baixa, com cabelos grisalhos cujas pontas triscam a orelha. Usa óculos de armação preta e grossa e caminha de um lado para outro sorrindo e conversando com as pessoas pelos corredores. Gosta de conversar e contar histórias dos quase 30 anos na função.

A doula integra o Programa Voluntários da Saúde da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS). O trabalho das doulas é uma das oportunidades de voluntariado, mas não é o único. Pode-se contribuir com atividades de arte, cultura e empreendedorismo, por exemplo. Segundo a pasta, há hoje 650 voluntários na rede municipal. A administração não especifica quantos desses voluntários são doulas.

A atuação das doulas ganhou espaço nos últimos anos com a discussão sobre parto humanizado no SUS (Sistema Público de Saúde). Elas são um direito da mãe e só não participam do parto em casos graves, que podem exigir cirurgias mais invasivas. Doulas não são parteiras: elas oferecem suporte emocional, físico e informativo, e não realizam exames ou intervenções médicas.

Em 2021, o Estado brasileiro reconheceu a atividade como uma profissão e passou a exigir critérios de formação, como 120 horas de curso. A prática pode ser remunerada.

Dona Rô, a doula do Vila Nova Cachoeirinha - fotos

Não é o caso de dona Rô. "Jamais aceitaria receber qualquer valor. Na minha cabeça, nasci para auxiliar. Às vezes me perguntam se trabalho de graça, e eu respondo que Deus me paga em saúde."

Ao encontrar a reportagem da Folha, a doula, espírita kardecista, andava pelo corredor do alojamento da unidade com uma pilha de livros infantis nas mãos e um exemplar do Antigo Testamento. "Acabei de sair de um parto e ia levando [o livro religioso] para as mãezinhas que acreditam na palavra."

Sentada em um sofá no corredor do hospital, conta que acorda às 5h às segundas-feiras e aos sábados, toma café da manhã e, às 7h, já está no hospital. Ali permanece sem horário para sair. "Às vezes troca a equipe de plantão e eu continuo aqui, vou embora de madrugada."

O ofício não atende a horários fixos. Tudo depende do momento em que o parto parece pronto para acontecer. "Eu já fui embora daqui às 3h para voltar às 5h", conta. Segundo ela, o que despertou seu interesse pela função foi a maternidade. Ela tem duas filhas, de 43 e 39 anos, e dois netos, um menino de 12 anos e uma menina de cinco. "Sempre fiz trabalhos voluntários e sempre me identifiquei com as gestantes. Elas vinham até mim pedir alguma orientação, e foi surgindo esse interesse. Algumas pessoas parecem nascer para o cuidado", diz.

Em 1999, um médico do Vila Nova Cachoeirinha a convidou para voluntariar na unidade. Depois de alguns anos atuando no hospital, se qualificou por meio de um curso oferecido pela Prefeitura de São Paulo.

Rosângela vai ao hospital todas as segundas-feiras e todos os sábados, ou quando tem algum parto ou é solicitada por alguma gestante.

Em agosto, recebeu uma homenagem que afirma ser uma das mais marcantes desde sua chegada. Um casal de imigrantes bolivianos deu à primeira filha o nome de Rosângela.

Projeto inclui doulas no apoio a gestantes atendidas no SUS no Rio - fotos

Ela se esforça para falar o espanhol, mas diz que a comunicação com as mãos transcende o idioma, é algo espiritual. Diz sentir, por meio das mãos, a energia de uma mulher quando gera a vida.

Na manhã do último dia 17, Jhennyfer Victoria Rodrigues, 19, deu à luz Maitê, na companhia de dona Rô. "Me ajudou tanto na parte psicológica, pelo apoio emocional que ela deu, quanto na física, no toque, na mão dela junto à minha", afirmou. "Quando ela chegou, eu estava pensando que estava morrendo, mas ela começou a falar coisas boas, explicar o que está acontecendo, me acalmou", disse Jhennyfer.

No pré-parto, o casal Cátia, 37, e Gildásio, 39, esperava a chegada do filho Daniel. O pai, nervoso, relatou também se beneficiar da presença da doula. "A conversa com ela me deixou mais calmo", diz.

Segundo dona Rô , ser doula exige também um investimento de tempo (e de dinheiro) em casa. Aposentada, ela complementa a renda com artesanato. Ela diz que gasta parte do dinheiro para comprar roupas para os bebês de mães carentes. "Tem muita gente que chega aqui sem nada, menina adolescente sozinha. Tem mãe que vive em situação de rua, mãe vítima de violência sexual. Esse lugar reúne um leque de diversidade desconhecido lá fora", afirmou.

"Tem muita gente que chega aqui sem nada, menina adolescente sozinha. Tem mãe que vive em situação de rua, mãe vítima de violência sexual. Esse lugar reúne um leque de diversidade desconhecido lá fora."

Rosângela Aparecida Ferro, 71, conhecida como dona Rôdoula voluntária no SUS. Dona Rô também arrecada livros infantis para que as mães levem para os demais filhos em casa, como forma de incentivar a leitura.

Não consegue contar quantas mensagens recebe por WhatsApp de pais e mães que receberam o apoio durante o parto. Nem quantos presentes já ganhou –exceto um específico: "me lembro de uma barraca que um pai me deu, que até hoje meu neto brinca".

Recentemente inaugurou uma nova modalidade de acompanhamento: tem apoiado mães que estão fora de São Paulo por WhatsApp. Mas diz que é no Vila Nova Cachoeirinha que encontra material para colocar em prática um dos principais ensinamentos do espiritismo: "a caridade".

Ela diz que não tem intenção de parar, ao menos por enquanto.

Após a conversa, dona Rô é chamada. Acompanhada pelo fotojornalista da Folha, Bruno Santos, ela vai para mais um parto, ao lado do casal Giulia, 25, e Erick, 21. E assim segue, mais 12 ou 13 vezes no dia, até se sentir pronta para ir para casa.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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3. Washington Novaes e a causa indígena

Intérpretes do Brasil - 06 - Vontade de Beleza, por Washington Novaes ver aqui 

Washington Novaes - 30/07/2007 - Roda Viva

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4. Grande Sertão Veredas

Grande Sertão Veredas: Antônio Cândido sobre Guimarães Rosa. Ver aqui 

Guimarães Rosa: A alquimia do verbo e a metafísica da travessia. Ver aqui 

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5. A baleia-jubarte 

Recuperação da baleia-jubarte evidencia importância da ciência para conservação 

Normas para turismo, navegação e áreas protegidas se baseiam em 30 anos de pesquisa. Ocorrência da espécie em Abrolhos era desconhecida até criação de parque nacional na região.

Fêmea de baleia-jubarte com filhote é acompanhada por macho em passagem por Abrolhos - Rubens Cavallari / Folhapress

Jéssica Maes&Rubens Cavallari, fsp, 23.9.2026

Caravelas (BA)

Sob o céu azul de agosto, um catamarã avança pelo mar do extremo sul da Bahia em direção à costa. É o fim de uma expedição de dois dias ao Parque Nacional Marinho de Abrolhos.

Debruçados sobre planilhas de papel e um computador, pesquisadores fazem cálculos. "Ao todo, 59 baleias se aproximaram do barco, duas delas filhotes, fora todas as outras que vimos à distância", conclui Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, que há três décadas estuda a espécie.

O número impressiona, em especial quando se considera que a população das baleias-jubartes da costa brasileira foi reduzida a algumas centenas pela caça, proibida mundialmente em 1986. Hoje, o total chega a quase 35 mil, segundo o último censo do instituto, de 2022.



O trabalho de observação dos animais inclui a documentação minuciosa de informações como localização, profundidade, comportamento, quantidade de indivíduos em cada grupo e, quando possível, registro fotográfico da cauda, que tem um padrão único e serve como uma impressão digital.

O processo envolve várias pessoas, muitas horas de navegação, olhos atentos e gritos: "Baleia à bombordo", "É um grupo de seis", "Cauda, cauda!" e "Consegui a foto, essa é padrão P1".

O projeto já cadastrou mais de 14,7 mil fotografias de baleias na plataforma global Happy Whale. Dessas, 9.254 foram identificadas e correspondem a 8.359 indivíduos

O trabalho levou à descoberta de uma jubarte baiana que viajou por mais de 14 mil quilômetros, chegando até a Austrália. O registro em águas brasileiras foi feito por pesquisadores do IBJ, como o instituto é conhecido, e a foto da cauda "deu match" com uma imagem feita do outro lado do planeta.

Instituto Baleia Jubarte transforma dados em políticas para o oceano - fotos

O conhecimento acumulado pelos pesquisadores também embasa políticas públicas, como normas para o turismo de observação de baleias e lista de espécies ameaçadas de extinção — da qual a jubarte deixou de fazer parte em 2014.

Os dados vêm sendo usados, ainda, para reduzir o risco de atropelamento de baleias por navios. "Já fizemos isso para o terminal Almirante Barroso, em São Sebastião (SP), e o porto de Vitória (ES)", conta Marcondes. "Os navios são orientados a adotar uma rota que passa por área com menor concentração de baleias e numa velocidade máxima de 10 nós."

Em Abrolhos, pesquisadores se aventuram para estudar baleias-jubartes - vídeo 

Outro exemplo de aplicação dessas informações são as diretrizes para pesquisa sísmica. A técnica usada na indústria de óleo e gás é como um ultrassom gigante, que causa um grande ruído submarino para buscar novas reservas de combustíveis fósseis. "Conseguimos incluir Bahia, Espírito Santo e Sergipe como área de restrição à sísmica por conta da jubarte, numa área que vai da linha da costa até a profundidade de 500 metros, no período de 1º de julho a 30 de novembro", diz o veterinário, em referência à temporada de baleias no litoral brasileiro.

"Há 15 anos nossa preocupação era tirar a jubarte da lista de espécies em extinção. Hoje o desafio é saber como as nossas atividades no mar vão conviver com uma população saudável de 35 mil baleias", explica Eduardo Camargo, diretor-presidente do IBJ.

Novas frentes de pesquisa

A longevidade do projeto permite algo valioso na ciência: a produção de dados ao longo de muito tempo. Isso, somado a avanços tecnológicos e à recuperação da espécie, abre novos caminhos de pesquisa.

Nádia Freitas, 33, mestranda em Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina, e Laura Aguilar, 26, mestre em Zoologia da Universidade Estadual de Santa Cruz, fazem parte da mais recente geração de cientistas do IBJ.

Enquanto Freitas estuda a ocupação pelas baleias-jubarte da região costeira de Abrolhos, Aguillar analisa o peso e o tamanho delas a partir de imagens de drone. "Nos anos em que eu vi que a condição corporal delas estava melhor, a Nádia também viu que tinha mais baleia, por exemplo", afirma Laura. "Será que a condição corporal indica que elas estavam se alimentando muito bem na temporada anterior? Dá para relacionar isso com fatores ambientais? A gente chega com uma pergunta e vai descobrindo outras, querendo investigar mais coisas."

 Milton Marcondes (em pé), diretor de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, analisa dados de avistamento de baleias com os biólogos Fabio Fontes, Nádia Freitas e Laura Aguilar (de costas) - Rubens Cavallari/Folhapress

Até o momento, a produção científica do IBJ conta com 143 artigos publicados e a formação de 44 estudantes de mestrado e 19 de doutorado saídos de diversas universidades. "Estamos investindo também em estudos de fisiologia, por exemplo, medindo cortisol, o hormônio do estresse, nas baleias", diz Eduardo Camargo. Experimentos controlados irão avaliar a influência do barulho e das embarcações no estresse dos animais.

A coleta de amostras genéticas desses gigantes parece cena de filme de ação. De colete salva-vidas, capacete e amarrados a um bote inflável, os pesquisadores partem em busca de grupos de machos que brigam pela atenção de uma fêmea.

Em meio a batidas das nadadeiras imensas, quando os animais sobem para respirar, a ação deve ser rápida e precisa: um cientista dispara uma flecha, que acerta a baleia e logo cai na água. Ela tem a ponta modificada para retirar um pequeno pedaço da pele e da gordura da jubarte e é equipada com uma boia colorida para não se perder na confusão.

Os ácidos graxos das amostras coletadas pelo IBJ serão analisadas numa parceria com instituições australianas. A pesquisa irá avaliar a condição ambiental da Antártida e o impacto da mudança climática no continente a partir da alimentação das baleias.

Pesquisadores se aproximam de grupo de baleias que disputam uma fêmea para coletar amostras genéticas - Rubens Cavallari/Folhapress

Milton Marcondes, diretor de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, exibe amostra recém-coletada de gordura e pele de baleia-jubarte - Rubens Cavallari/Folhapress

30 anos de ciência

A descoberta de que a costa da Bahia é um berçário da baleia-jubarte é causa e consequência do projeto.

As baleias-jubarte migram por milhares de quilômetros todos os anos. As que frequentam o litoral do Brasil nadam da região das ilhas Geórgia do Sul e Sandwich, na Antártida, sua área de alimentação, até o banco de corais de Abrolhos, onde se reproduzem e têm filhotes.

Só após a criação do parque nacional na região — o primeiro marinho do Brasil, em 1983— percebeu-se a presença sazonal dessas gigantes naquelas águas quentes.

"Fizemos várias idas e vindas por aqui para a implantação do parque e descobrimos uma população de baleias", conta Enrico Marcovaldi, com os olhos no mar e a câmera fotográfica na mão. "Foi uma surpresa muito grande, porque elas tinham sido quase extintas."

Fotógrafo de vida selvagem, ele fundou com a bióloga Márcia Engel, em 1988, o Projeto Baleia Jubarte para estudar a espécie. Em 1996, nasceu o instituto de mesmo nome, que expandiu as atividades do projeto. Desde o início, o IBJ recebe patrocínio da Petrobras.

A atividade petroleira tem alto impacto ambiental marinho e braço socioambiental da empresa apoia não apenas esse, como outros projetos de conservação. Para Gregório Araújo, gerente de projetos ambientais da Petrobras, não há conflito de interesses na relação.

"Quando você faz uma agenda de sustentabilidade vinculada a valores e práticas estruturantes da empresa, essa contradição deixa de existir. Porque uma coisa é você dar um dinheiro, ficar um ou dois anos e ir embora. Outra coisa é uma parceria de 30 anos, que vai sendo amadurecida", afirma.

Ele dá o exemplo do terminal de petróleo de São Sebastião, usado pela companhia. "A partir do monitoramento das rotas da jubarte, desenhamos o melhor traçado para esses barcos chegarem e saírem do terminal sem impactar a migração das baleias."

Em 2025, a estatal investiu R$ 70 milhões em projetos socioambientais relacionados ao oceano. O lucro líquido da Petrobras no mesmo ano foi de R$ 110 bilhões.

Os repórteres viajaram a convite da Petrobras

Onde avistar baleias - webstories

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6. Revelando: Grandes Igrejas, Master Negócios

Meta derruba perfil de série com Porchat sobre relações entre Master e Igreja Lagoinha 

Plataforma pede desculpa; ela havia alegado violação de padrões ao canal Revelando, mas não detalhado regra descumprida. Teaser somava 6 milhões de visualizações antes da retirada da conta.

Diego Alejandro&Karina Matias, fsp, 23.9.2026

Revelando: Grandes Igrejas, Master Negócios | Ep #2 Ver aqui 

Segundo o coletivo responsável pela produção, a plataforma havia informado inicialmente que o conteúdo não seguia os padrões do Instagram, sem especificar qual regra teria sido descumprida.

O episódio "Grandes Igrejas, Master Negócios" foi publicado na segunda-feira (21) e, em menos de 24 horas, chegou ao primeiro lugar do ranking Hype do YouTube. A produção afirma que o teaser publicado no Instagram havia acumulado 6 milhões de visualizações antes da retirada do perfil. O vídeo completo continua disponível no YouTube.

Com pouco mais de 30 minutos, o episódio apresentado por Fabio Porchat parte do casamento de Natália Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro, com Fabiano Zettel. A cerimônia foi celebrada pelo pastor André Valadão, uma das principais lideranças da Igreja Batista da Lagoinha.

Igreja da Lagoinha - webstories

A reportagem reconstrói as relações entre a família Vorcaro, a igreja e personagens políticos. Entre os nomes citados estão Valadão, Zettel, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do STF.

O episódio também aborda doações à igreja, operações financeiras e relações empresariais que aparecem nas investigações sobre o Master. As suspeitas apresentadas pela produção ainda são objeto de apuração, e Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel foram presos preventivamente, sem condenação pelos fatos investigados, segundo informações divulgadas sobre o episódio.

A retirada do Instagram afetou também publicações feitas em colaboração com os parceiros da série, segundo o grupo responsável. Além do teaser com Porchat, saíram do ar conteúdos relacionados ao primeiro episódio de "Revelando", apresentado por Samara Felippo e dedicado à história da eugenia e de políticas de esterilização no Brasil.

"Revelando" é uma iniciativa do podcast "Calma Urgente", em parceria com ICL, Mídia Ninja e 342 Artes. O projeto foi lançado em setembro com a proposta de produzir reportagens especiais sobre temas históricos e atuais.

Ligação do STF com o Banco Master - webstories

com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS

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7. China ajuda agricultura familiar brasileira 

Máquinas agrícolas da China ajudam agricultura familiar brasileira a avançar rumo à mecanização e à digitalização 

Wang Yuyuan e Wu Hao correspondentes da Xinhua, fsp, 13.9.2026

Ni Xindong, pós-doutorando da Universidade Agrícola da China, apresenta plataforma de big data para produção agrícola na Residência de Ciência e Tecnologia de Brasília na Universidade de Brasília

No semiárido do Rio Grande do Norte, no nordeste do Brasil, a colheitadeira chinesa já se tornou indispensável para o agricultor Diano, da comunidade de Apodi. O equipamento foi levado emprestado para uma feira de agricultura familiar em Natal, capital do estado. No dia seguinte, Diano já perguntava quando a máquina voltaria.

Diano é um dos agricultores da região que se beneficiam com as máquinas agrícolas chinesas. Além dos equipamentos, tecnologias como internet das coisas (IoT), big data e inteligência artificial (IA) vêm chegando à agricultura familiar por meio da cooperação com equipes chinesas. Essas ferramentas ajudam os agricultores a reduzir a dependência das condições climáticas, tomar decisões com mais rapidez e precisão e, na prática, elevar a produtividade e a renda.

Mais do que ampliar a produção, a cooperação vem se firmando como um espaço de intercâmbio bilateral no setor agrícola, ao mesmo tempo que favorece o cultivo de amizade entre os participantes chineses e brasileiros.

MÁQUINAS CHINESAS GANHAM ESPAÇO NA AGRICULTURA FAMILIAR DO BRASIL

Em setembro de 2021, uma delegação brasileira se encontrou em Beijing com a professora Yang Minli, da Universidade Agrícola da China (UAC), em busca de soluções de mecanização para pequenos e médios produtores.

"Naquele encontro, percebi que a agricultura familiar é responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros. Diferentemente das grandes propriedades mecanizadas no sul do país, muitos pequenos produtores das regiões Norte e Nordeste ainda não têm acesso a equipamentos adequados e dependem principalmente do trabalho manual", relembrou Yang.

Com quase quatro décadas de experiência em mecanização agrícola, a professora viu na demanda brasileira uma oportunidade de cooperação concreta.

Por iniciativa dela, em fevereiro de 2024 foi inaugurada, em Apodi, a primeira fazenda demonstrativa de cooperação em mecanização agrícola. O projeto colocou 31 máquinas chinesas em funcionamento na região.

Na inauguração, mais de mil agricultores participaram das demonstrações de tratores e colheitadeiras de arroz. "Muitos nunca tinham visto tantos equipamentos de pequeno porte reunidos em um mesmo local. Eles subiam nas máquinas, tiravam fotos, faziam perguntas. A empolgação era geral", recordou Ni Xindong, pós-doutorando da UAC e responsável pela fazenda em Apodi.

Estudantes da Universidade Agrícola da China apresentam drones agrícolas a agricultores brasileiros em fazenda de Apodi, no Rio Grande do Norte

"A mecanização agrícola da China avançou em um contexto marcado por pequenas propriedades, áreas dispersas e grande diversidade de culturas. Por isso, muitas máquinas chinesas são menores, multifuncionais, mais flexíveis e têm menor custo operacional, que atendem melhor às necessidades de agricultores familiares brasileiros," explicou Ni.

Para adaptar os equipamentos às práticas locais e aos sistemas de cultivo da região, a UAC enviou estudantes de pós-graduação para trabalhar diretamente nas propriedades, realizar pesquisas e orientar os produtores no uso das máquinas. "Atualmente temos cinco integrantes chineses trabalhando em Apodi: um pós-doutorando e quatro doutorandos", disse Ni, acrescentando que os conhecimentos técnicos e os recursos práticos da UAC chegam à agricultura local por meio da fazenda-piloto.

Segundo dados da equipe do projeto, as 31 máquinas instaladas em Apodi já beneficiaram cerca de mil agricultores. O tempo de trabalho foi reduzido, em média, em 80%, enquanto a renda dos produtores aumentou entre 80% e 90%.

BIG DATA E IA DÃO "CÉREBRO DIGITAL" ÀS FAZENDAS BRASILEIRAS

Na Residência de Ciência e Tecnologia de Brasília, instalada na Universidade de Brasília (UnB), o professor Sérgio Sauer acompanha por uma tela dados que são atualizados continuamente.

Com o apoio de uma plataforma agrícola digital desenvolvida pela China, ele consegue verificar, com poucos cliques, se as máquinas estão sendo usadas de forma eficiente, analisar a qualidade e a fertilidade do solo, acompanhar índices de umidade e até monitorar preços de mercado. As informações ajudam agricultores e técnicos a tomar decisões bem fundamentadas.

Estudantes chineses e brasileiros realizam pesquisa sobre as necessidades da agricultura familiar junto a agricultores locais na fazenda demonstrativa de cooperação em mecanização agrícola em Apodi

Sauer observa que muitas das plataformas agrícolas digitais disponíveis no Brasil foram desenvolvidas para grandes áreas de monocultura e têm custos elevados. A realidade da agricultura familiar, porém, é bastante diferente: propriedades menores, menor grau de mecanização, terrenos variados e produção diversificada. "Nós acreditamos que o know-how chinês é um caminho possível para atender à demanda da agricultura familiar," avaliou.

Em Apodi, a equipe de Ni já utiliza algoritmos de IA para auxiliar nas decisões sobre o cultivo de cana-de-açúcar e soja. A tecnologia ajuda a identificar os melhores momentos para determinadas operações agrícolas e permite planejar as atividades em conjunto com os produtores locais.

Gláucia Back, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e coordenadora de projetos de digitalização e IA voltados à agricultura familiar, visitou a China neste ano. Durante a viagem, conheceu uma cooperativa de produção de arroz e trigo e observou de perto o uso de big data e IA no campo. "Essas tecnologias acompanham todas as etapas, desde o preparo do solo até o armazenamento dos alimentos. Isso é fundamental para a agricultura familiar brasileira e merece ser replicado, adaptado e desenvolvido de acordo com a nossa realidade", ressaltou.

Para ela, o principal desafio no Brasil é o baixo nível de mecanização e conectividade em muitas áreas rurais. "Grande parte das tecnologias existentes ainda é voltada para o agronegócio de larga escala. Por isso, a experiência chinesa com pequenas propriedades e cultivos diversificados tem muito valor para nós", acrescentou.

COOPERAÇÃO QUE VAI ALÉM DA TECNOLOGIA

Durante a visita do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva à China no ano passado, o então ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil, Paulo Teixeira, disse que as Residências de Ciência e Tecnologia China-Brasil sobre Mecanização Agrícola Familiar trouxeram novas esperanças aos agricultores brasileiros.

Após mais de dois anos de desenvolvimento, a iniciativa deixou de se limitar à introdução de máquinas e a demonstrações de campo. Hoje, as Residências de Ciência e Tecnologia China-Brasil sobre Mecanização Agrícola Familiar funcionam como uma plataforma de cooperação de longo prazo, reunindo testes de equipamentos, aperfeiçoamento técnico, formação de profissionais e pesquisa conjunta.

Pesquisadores, professores e estudantes dos dois países participam das atividades cotidianas das Residências, realizando levantamentos, testando máquinas e promovendo treinamentos junto com agricultores. "Com base nas Residências, demos um passo adiante ao estabelecer, em parceria com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) do Brasil, o Laboratório Brasil-China de Mecanização e Inteligência Artificial na Agricultura Familiar." informou Ni, acrescentando que o acordo foi assinado sob testemunho dos chefes de Estado, o que evidencia que a prática em Apodi já transcendeu o âmbito de uma simples fazenda-modelo e se tornou parte essencial da cooperação agrícola e tecnológica bilateral.

Para os participantes, o alcance da cooperação vai além dos equipamentos e dos indicadores de produtividade. A experiência está construindo uma ponte duradoura entre China e Brasil, dois importantes países do Sul Global, ao mesmo tempo que aproxima pesquisadores, técnicos e agricultores.

Depois de quase dois anos de trabalho em Apodi, Ni manifestou que passou a enxergar a cidade como um novo lar. "Os parceiros que nos apoiam há tanto tempo e os agricultores que trabalham conosco deixaram de ser apenas participantes do projeto. Eles se tornaram parte da nossa família", disse. "Temos uma perspectiva muito boa dessa transferência de tecnologia, mas é muito mais do que uma transferência de tecnologia, é quase uma solidariedade com a agricultura familiar brasileira, que possibilita a gente avançar neste campo também," disse Gláucia Back.

"A experiência acumulada pela China no apoio aos pequenos agricultores tem valor concreto para a agricultura familiar brasileira", concluiu Ni. "Acredito que a cooperação técnica agrícola entre China e Brasil poderá beneficiar um número cada vez maior de famílias de agricultores."

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8. Oldest video ever recorded - 1874 ?! - History. Ver aqui 

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9. A cozinha caipira de São Paulo & 4.500 anos de culinária 

Chefs reforçam a importância da cozinha caipira de São Paulo em preparos elaborados 

Em busca do mesmo respeito da gastronomia mineira, comida de roça é tema de feira na cidade em setembro. Roteiro mostra 13 endereços para provar receitas tradicionais e releituras na capital paulista.

Flávia G. Pinho, fsp, 16.9.2026

Nos dias 26 e 27 de setembro, a 7ª Feira Gosto.Sa, no Unibes Cultural, região oeste de São Paulo, terá a cozinha caipira como tema. Seis dezenas de expositores vão servir a fina flor da caipirice paulista.

Será possível provar os bolinhos de quirera do Bar Sardosa, os pastéis de angu do Celeiro Arimbá e as broas de fubá do café Quente da Boca. Uma oficina de paçoca de pilão será comandada pela chef Heloísa Bacellar.

Costelinha servida no restaurante Lena - Divulgação

Profissionais de outras especialidades participam com criações desenvolvidas para o evento, caso da Mission, que vai levar chocolates de pamonha, e da Pinguina, que vai vender sorvete de milho.

O evento, com curadoria da pesquisadora Patrícia Moll, quer reforçar a importância da comida caipira para São Paulo. "Foi essa cozinha, construída a partir da roça e transformada por diferentes povos, que alimentou a cidade antes dela virar metrópole", defende.

Embora a cozinha caipira não costume constar dos guias gastronômicos, sua presença na capital é crescente, como mostra o roteiro a seguir. Mas a relação do paulistano com essa parte de suas origens nunca foi bem resolvida, relatam os estudiosos do assunto.

No dicionário, o termo caipira tem duplo significado. Pode ser quem vive na roça, mas também quem é rude e de pouca instrução. Paulistano filho de mineiros, Francisco Montans pensou muitas vezes antes de rotular dessa forma o seu estabelecimento, o Quente da Boca. "O termo ainda tem um quê pejorativo. Tem gente que o associa a algo grosseiro", afirma.

Cozinha caipira ganha espaço em feira e restaurantes de SP - fotos

A chef Mara Salles, desde 1990 à frente do restaurante Tordesilhas, concorda. "O termo assusta. Ainda está no lugar da comida bruta e malfeita. Sempre lutei muito para levar uma cozinha caipira elaborada à mesa urbana."

Essa percepção não é de hoje. Autora de "Cozinha Caipira, Cozinha Esquecida" (Ed. Alameda), a historiadora Viviane Soares Aguiar explica que, para se firmar como metrópole, São Paulo optou por se distanciar de sua história. "Muitos autores mencionam o apagamento da cultura caipira, por ser a antítese da imagem de modernidade que São Paulo queria para si", explica.

Curioso, porém, que ícones da cozinha caipira, como o feijão tropeiro, a canjiquinha com costelinha suína e o frango com quiabo, sejam bem assimilados pelo paulistano quando identificados como "comida mineira".

De acordo com o chef Marcelo Corrêa Bastos, coautor do livro "A Culinária Caipira da Paulistânia" (Ed. Fósforo), os pratos vêm de uma mesma cultura alimentar, que se estende do sul de Minas Gerais ao norte e oeste do Paraná, incluindo Mato Grosso e Goiás — a tal Paulistânia a que o título do livro se refere. "Enquanto outras culturas regionais se manifestam de forma orgulhosa, organizada e deliberada — por exemplo, as do sertanejo e do gaúcho —, a cultura caipira, envergonhada de suas próprias características, sobrevive de maneira dissimulada", afirma.

Confira, a seguir, onde encontrar comida caipira na capital.

Boteco do 28

No topo do Farol Santander, serve farofa de içá (R$ 15) e esfiha de jenipapo com recheio de coração de bananeira (R$ 18). O arroz de moela leva quiabo tostado (R$ 49).

R. João Brícola, 24, 28º andar, Centro. @botecodo28.sp

A Casa do Porco

No novo menu, lançado em junho, o chef Jefferson Rueda reverencia suas origens em pratos como o arroz de suã (R$ 120). A cabeça de porco assada (R$ 498, para quatro) sai só com reserva.

R. Araújo, 124, República, região central. @acasadoporcobar

Celeiro Arimbá

A chef Angelita Gonzaga prepara mexido do celeiro com linguiça e ovo frito (R$ 59,90) e pasteis de angu com oito recheios (de R$ 21,90 a R$ 26,90 a dupla).

R. Caio Graco, 226, Vila Romana, região oeste. @espacoarimba

Dalva e Dito

O menu brasileiro do chef Alex Atala abre espaço para caipirices como o macarrão com feijão e ragu de linguiça (R$ 84 e R$ 118) e o porco na lata com purê de mandioquinha (R$ 149).

R. Padre João Manuel, 1.115, Cerqueira César, região oeste. @dalvaedito

Conheça os pratos do restaurante Jiquitaia

Batata-doce do menu-executivo do Jiquitaia-Priscila Pastre/Folhapress

Baião-de-dois do menu-executivo do Jiquitaia-Priscila Pastre/Folhapress

Salada do menu-executivo do Jiquitaia-Priscila Pastre/Folhapress

Sorbet de manga do Jiquitaia-Priscila Pastre/Folhapress

Arroz de pato com magret do Jiquitaia-Priscila Pastre/Folhapress

Têm assinatura do chef Marcelo Corrêa Bastos a meia bochecha suína com pamonha (R$ 53) e a leitoa à pururuca, que sai aos domingos (R$ 260, para três).

R. Coronel Oscar Porto, 808, Paraíso, região sul. @jiquitaia

Lena

Pratos que também fazem parte do repertório paulista, como a costelinha com canjiquinha e farofa crocante (R$ 93), estão no menu da casa, que se identifica como mineira.

R. Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, 98, Pinheiros, região oeste. @lenaemsp

Lobozó

O prato que dá nome à casa, preparado pelo chef Gustavo Rodrigues, é uma espécie de farofa rica de farinha de milho, em versões vegetarianas ou com linguiça (R$ 89 a R$ 94).

R. Medeiros de Albuquerque, 436, Vila Madalena, região oeste. @lobozocozinha

Maria Farinha Cozinha

Da cozinha da chef Lisandra Amaral saem petiscos como o bolinho caipira (R$ 21, três unidades) e o feijão tropeiro com copa-lombo (R$ 58).

R. João Elias Saada, 126, Pinheiros, região oeste. @mariafarinhasp

Quente da Boca

Sotaques mineiro e paulista se mesclam no chips de jiló laminado no fubá (R$ 27), no arroz de suã (R$ 65) e no frango com angu e quiabo frito (R$ 60).

R. João Moura, 519, Pinheiros, região oeste. @quentedaboca

Sardosa

A seção de sargados do cardápio da casa inclui bolinhos de quirera e de arroz com suã (R$ 19 a unidade). A galinhada com quiabo e milho grelhados e ovo frito (R$ 120) dá para duas pessoas.

R. Carlos Weber, 1.750, Vila Leopoldina, região oeste. @sardosabar

Terraço Jardins

O chef Raul Vieira prepara versões autorais inspiradas na cozinha do interior. A copa-lombo de porco caipira vai à mesa com aligot de mandioca (R$ 105).

Hotel Renaissance - al. Santos, 2.233, Jardim Paulista, região oeste. @terracojardins

Tordesilhas

A origem da chef Mara Salles, criada na roça, aparece em pratos como a costelinha de porco confitada com arroz de feijoada e couve (R$ 130).

Al. Tietê, 489, Jardim Paulista, região oeste. @tordesilhas

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Há 4.500 anos, culinária já era notavelmente sofisticada 

Pesquisadores encontram evidências concretas de cozinha elaborada. Analisando ossos, restos de vegetais e gorduras, cientistas viram uso de diferentes panelas com propriedades térmicas, dependendo do alimento.

Copenhague (Dinamarca) | AFP, 11.9.2026

Há 4.500 anos, a culinária na Síria já era notavelmente sofisticada, com receitas que incluíam cabra, grãos ou gazela cozidos a fogo lento em panelas de barro, segundo um estudo dinamarquês divulgado nesta sexta-feira (11).

"Era uma época de reinos, cidades bem organizadas e sociedades hierárquicas. Nesse sentido, não é surpreendente que eles também dominassem uma culinária sofisticada. O que me surpreende é que possamos fornecer evidências concretas disso", explicou Mette Marie Hald, arqueobotânica do Museu Nacional de Copenhague, à AFP.

Vendedor prepara bandejas de comida quente em uma barraca de rua enquanto muçulmanos se preparam para o mês sagrado do Ramadã, em Damasco, Síria - Yamam Al Shaar - 18.fev.26/Reuters

A pesquisadora e sua equipe analisaram ossos de animais, restos de vegetais e gorduras encontrados dentro das paredes de panelas de barro desenterradas em Hama, na Síria.

A pesquisa mostra que os cozinheiros da cidade usavam panelas com diferentes propriedades térmicas, dependendo do tipo de alimento que estavam preparando, assim como hoje escolhemos entre uma panela de ferro fundido ou uma antiaderente. "Parece algo muito moderno: ter panelas e utensílios de cozinha diferentes", destaca Hald.

As panelas produzidas localmente eram feitas de barro e calcita, enquanto outro tipo de panela, importada das estepes orientais, era feita de uma mistura de barro e basalto.

A madeira de coníferas era usada para aromatizar certos pratos que só eram cozidos em um tipo específico de panela. As refeições podiam incluir ingredientes importados, como carne de gazela, que também vinha das estepes, localizadas muito mais a leste.

Essas descobertas confirmam o que é observado em receitas de períodos posteriores, observou a pesquisadora. "Temos receitas extraídas de textos cuneiformes que datam de cerca de 2.000 anos atrás, nas quais vemos que eles usavam muitos ingredientes diferentes e praticavam uma culinária bastante sofisticada", explicou.

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10. José Miguel Wisnik fala sobre “Grande sertão: veredas”. Ver aqui 

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11. Socorro Acioli: os nordestinos pelo mundo. Ver aqui 

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12. Por que o Irã está atacando a infraestrutura tecnológica dos EUA? Aqui

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13. Se a IA é um risco existencial, o que fazer? 

Empresas de IA alertam para riscos extremos, mas pouco fazem para limitar seus próprios poderes. Governança independente pode ser o primeiro passo para enfrentar os riscos da IA de fronteira.

Ronaldo Lemos, fsp, 13.9.2026

Na última semana o mundo assistiu, estarrecido, a diversas manifestações de lideranças da inteligência artificial nos EUA argumentarem que a tecnologia representa um risco existencial para a humanidade.

No sábado (12), o presidente da Anthropic publicou um ensaio sobre esses riscos existenciais, pedindo a desaceleração da pesquisa da IA de fronteira, https://c-level.folha.uol.com.br/ia/2026/09/altman-e-musk-concordam-com-ceo-da-anthropic-sobre-desacelerar-desenvolvimento-da-ia.shtml com outras medidas.

Esses alertas devem ser levados a sério. Os ataques feitos por enxames de agentes de IA contra o site Hugging Face e contra a própria empresa OpenAI (mapeados de forma independente) mostram que a IA pode se comportar como nas cenas mais apocalípticas da ficção científica.

Só que essa agitação toda ainda está cercada de inação.

Esta combinação de fotos mostra (da esquerda para a direita) o CEO da OpenAI, Sam Altman; o CEO da Anthropic, Dario Amodei; e Elon Musk; Amodei pediu às empresas de inteligência artificial que desacelerassem o desenvolvimento da tecnologia, em meio a preocupações crescentes sobre os riscos de sistemas de computador 'superinteligentes' - Brendan Smialowski/AFP

O texto do presidente da Anthropic pede várias medidas. Só que a maioria depende de que "alguém" faça alguma coisa: reduzir o ritmo do desenvolvimento da IA desde que todas as empresas do setor concordem; análise permanente de riscos da IA, mas feita por avaliadores contratados pela empresa; coordenação entre governos democráticos sobre como regular a IA; e coordenação desses governos com a China.

A pergunta é: o que pode ser feito aqui e agora? Afinal, estamos falando de riscos existenciais.

Leia mais sobre IA

Por que é difícil para as empresas de tecnologia conter a IA. Aqui 

OpenAI afasta IPO em 2026 por preocupações com segurança da IA. Aqui 

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Como escrevi em artigo publicado nos EUA com o professor da NYU Kenji Yoshino, as primeiras mudanças deveriam ser realizadas na governança da própria empresa. Hoje a Anthropic tem como peça central um "trust" com poderes de nomear a maioria do seu conselho e cuja função é zelar pelo interesse público em suas atividades. Afinal, a empresa foi fundada por ex-funcionários da OpenAI que queriam justamente desenvolver IA de forma segura.

Só que esse trust é opaco, seus documentos não são públicos. Os trustees têm mandatos de apenas um ano e os acionistas podem anular suas decisões. Em suma, não possui a independência necessária para cumprir a missão.

O que é IA - webstories

O caminho adequado seria criar um corpo independente e representativo de supervisores, com independência financeira e decisória, inclusive com respeito a sua própria composição.

Esse corpo seria responsável por implementar padrões de segurança e transparência que a empresa não possa mudar por pressões internas, nem dos acionistas ou do mercado. Suas decisões seriam sempre transparentes. E em casos de incidentes, esse corpo seria responsável por conduzir as investigações e prestar contas para órgãos governamentais e o público.

Uma estrutura como essa faz falta. Por exemplo, em fevereiro a Anthropic abandonou a promessa de cessar o treinamento sempre que as salvaguardas de segurança não pudessem ser garantidas. Além disso, seu modelo Mythos 5.1 não foi compartilhado com órgãos de segurança como o britânico AISI antes do lançamento, como era praxe antes.

Por fim, a oferta pública de ações da empresa está prevista para outubro. Depois dela, qualquer melhoria de governança será muito mais difícil, então a mudança só tem chances de ser feita agora.

Pedir para "ser regulado" em vez de fazer por si próprio lembra a cena d´Os Trapalhões em que Renato Aragão fingia querer brigar com um oponente e pedia para um colega: "me segura, me segura", mas não havia ninguém segurando. A diferença é que, no caso das empresas de IA, a piada não tem graça nenhuma.


We Must Pace the Frontier. Aqui 

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14. Política foi a grande estrela das premiações do Festival de Veneza 

Leão de Ouro reconheceu 'Woman Unknown', único filme da competição dirigido por uma mulher. Já a melhor direção foi para 'Dau', ambicioso projeto crítico à opressão stalinista.

Bruno Ghetti, fsp, 12.9.2026

Uma das grandes polêmicas do Festival de Veneza deste ano foi a escolha de apenas um filme com direção solo de uma mulher a participar da disputa pelo prêmio principal. Pois, entre os 21 longas da disputa, foi justamente ele, o dinamarquês "Woman Unknown", de May el-Thouky, o eleito para levar o Leão de Ouro, pelo júri presidido pela atriz americana Maggie Gyllenhaal.

Mais que um reconhecimento estético, o prêmio é claramente uma tomada de posição — não há o que explique por que mulheres ainda hoje tenham tão mais dificuldades de participar de festivais do que cineastas homens, nos diz o júri com a premiação. E, com isso, vai na contramão do diretor do evento, Alberto Barbera, que disse que Veneza só escolhe filmes pelo seu valor estético.

Cena do filme 'Dau', de Ilya Khrzhanovsky - Divulgação

No caso de "Woman Unknown", a inclusão na disputa atendeu tanto a representatividade feminina quanto ao critério de qualidade fílmica: é um longa que merecia, de fato, sair do Lido com prêmios. A trama aborda a história de uma mulher de origens proletárias, que se casa com o antigo patrão.

Mas seu conforto material é ameaçado depois que um rapaz lhe diz que vai revelar seu grande segredo do passado: durante a Segunda Guerra, ela teve um romance com um nazista, e, com o fim da ocupação alemã, caso a verdade venha à tona, seu casamento pode acabar — e ela corre sério risco de ser levada à praça pública, tendo seus cabelos raspados diante de todo mundo, como forma de punição.

Além do Leão de Ouro, o filme deu a Coppa Volpi de melhor atriz para Mathilde Arcel, também uma ótima escolha. O filme de El-Thoukhy tem certa convencionalidade narrativa, mas a história é contada com excelente senso de precisão e uma grande sensibilidade para destacar o pavor dessa mulher em ser desmascarada — sendo que seu próprio marido, que fez negócios com os nazistas, não tem medo algum de pagar por isso. Afinal, algumas punições, o filme nos diz, são específicas das mulheres.

Veja imagens de filmes que competem no Festival de Veneza de 2026

Mas não foi o único filme militante a se destacar em Veneza neste ano. O mais abertamente combativo em termos políticos, o documentário "Naza", dos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, ficou com o prêmio especial do júri, o terceiro mais importante.

Mostra que Israel tem promovido o assassinato deliberado de civis em Gaza, em ações que muitas vezes visam matar apenas um terrorista do Hamas, mas levando concomitantemente à morte centenas de pessoas sem relação alguma com o grupo, que são assassinadas apenas por estarem no lugar errado. O filme conta com desconcertantes depoimentos de pessoas que participaram de operações do governo de Binyamin Netanyahu e que, por arrependimento ou até algum senso de orgulho, falam ao filme, com seus rostos e vozes camuflados.

Ilya Khrzhanovsky, nascido na Rússia, mas que abriu mão de sua cidadania do país por desavenças com o governo de Vladimir Putin, foi laureado com o prêmio de melhor direção pelo notável "Dau". É o encerramento de um projeto monumental iniciado há 20 anos, que contou com a criação de um enorme estúdio em que pessoas moraram por mais de um ano.

Ali, tudo simulava a vida na União Soviética do auge da opressão estatal, e, embora o foco do filme seja na vida do físico Lev Landau, que foi um dos grandes cérebros por trás do programa nuclear soviético, mostra como o governo coagia as pessoas a fazerem o que era interessante ao Estado. Algo que, segundo o diretor, não mudou muito na Rússia de hoje.

O que foi a União Soviética - webstories

As agruras do mundo do trabalho no atual estágio do capitalismo foi um dos focos de "Possible Love", do sul-coreano Lee Chang-dong, vencedor do Grande Prêmio do Júri, o segundo em termos de importância. Um dos cineastas mais aclamados pela crítica nas últimas décadas, o diretor mostra uma trama sobre uma documentarista que realiza um filme sobre desempregados de uma grande empresa da Coreia do Sul. Quando ela e seu marido convidam um dos demitidos e sua mulher para um fim de semana em uma casa de praia, vêm à tona uma série de situações envolvendo poder, inveja e desejo sexual entre o casal rico e o pobre.

"Un Bon Petit Soldat", do francês Stéphane Brizé, também fala sobre questões trabalhistas, e saiu vencedor do prêmio de melhor roteiro, assinado por Brizé, Coralie Amedeo e Olivier Gorce. Acompanha uma diretora de RH de uma grande empresa que precisa se equilibrar entre as ordens do chefe insensível e a própria humanidade, diante de questões envolvendo o futuro de profissionais da corporação. O filme merecia até prêmio maior: é uma excelente exposição dos absurdos do mundo corporativo, em uma narrativa que mescla humor e melancolia, refletindo nosso enorme senso de impotência diante de pessoas com grande concentração de poder.

Veja cenas de 'The Infamous Ramírez Hoffman', peça de John Malkovich

Também o prêmio de melhor ator foi para um filme que, de certa forma, retrata pessoas onipotentes — no caso, atuando em zonas de conflito. John Malkovich foi laureado por sua formidável performance em "Cavalo Selvagem Nove", do britânico Martin McDonagh, no papel de um agente da CIA enviado para diversos países de terceiro mundo para defender os interesses dos Estados Unidos em cada local.

O filme se passa no Chile às vésperas da derrubada de Salvador Allende, e o personagem passa o filme todo revelando o quanto o destino desses países estava nas mãos dos agentes do serviço de inteligência americano. O prêmio em Veneza, aliás, faz Malkovich largar na frente na corrida pelo Oscar de ator do ano que vem, assim como o longa, um dos favoritos à estatueta de melhor filme.

Mas, em um ano em que Hollywood passou discretamente pelo Lido, o brilho maior na tela não foi tanto dos astros. Veneza mostra que, nos tempos atuais, a grande estrela dos festivais tem sido mesmo a política.

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15. O planeta das baratas: 11. 9 . 2001

Em 11 de setembro de 2001, exatos 25 anos atrás, escrevi isso aqui

Flavio Gomes, set 11

Onze setembro  Foto: Spencer Platt/Getty Images

Sou um interessado observador de baratas. Elas são nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de adversários tão hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, só vão sobrar as baratas.

Talvez seja melhor. Não há notícias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas não tenham nada na cabeça, não sei sequer se têm cabeça. Baratas não se matam. São uma espécie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocreias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.

Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razoáveis. Ou para comer, ou para se defender. Eles não odeiam os outros animais. São indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. Têm seus instintos, suas próprias leis, e vão levando a vida através dos séculos

O homem, não. É um fracasso como espécie animal. É capaz das maiores façanhas tecnológicas, de ir à Lua e clonar gente, mas incapaz de estabelecer regras de convivência que deveriam fazer parte de algum código genético interno, como o das baratas, das lacraias e das mocreias. O homem fabrica armas que têm como único objetivo matar outros homens. E transforma suas criações mais formidáveis, como aviões, em mísseis recheados de gente muito mais eficientes que ogivas nucleares.

A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie, é pela estupidez que seremos lembrados pelas baratas daqui a alguns milhões de anos. E o 11 de setembro de 2001 será emblemático, o dia em que o homem a exerceu com esplendor.

Eu e as baratas passamos o dia anteontem colados na TV, vendo nossa estupidez transformada em espetáculo de mídia. Nada mais formidável, cardápio para todos os gostos. Para aqueles que defendem o troco imediato, com a mesma violência e insanidade, e para os que acreditam que, finalmente, a arrogância do poder econômico e político recebeu sua lição, sentiu na pele o que é ter medo, o mesmo medo disseminado pela força ao longo dos anos.

Aqueles que admiram a superioridade imposta por nossos vizinhos do norte ao resto da humanidade no último século, que se sentem incomodados pelas nações que não tiveram a competência de construir suas disneylândias e não jogam basquete direito, estão radiantes. É a hora de provar de uma vez por todas quem manda no galinheiro.

Estes devem ter adorado a figura patética do presidente caubói garantindo a vingança com discurso hollywoodiano, “não se enganem, já vencemos outros inimigos antes, vamos vencer de novo”, um Forest Gump mal-acabado defendendo ideais de liberdade, democracia e justiça nos quais só quem nunca esteve nos EUA pode acreditar. (Basta meia hora em território americano para perceber a falácia dos tais ideais. Que liberdade existe num país vigiado por câmeras e satélites, onde jogar um chiclete na rua é motivo para ser detido pela Swat? Que democracia é essa que referenda uma eleição fraudulenta e coloca na presidência um sujeito que teve menos votos que o derrotado? Que justiça é essa que faz com que esse país se ache no direito de interferir nos destinos de todos os outros exportando guerras e miséria?)

Os EUA apanharam. Não sabem de quem, mas talvez saibam por quê. E, se não sabem, era hora de alguém se dirigir ao seu povo e admitir que se meia-dúzia de doidos foram capazes das atrocidades do 11 de setembro, é porque muito mal esse país andou fazendo a outros povos por aí para ser tão odiado. Infelizmente, o caubói não é esse alguém. Sob a sombra e o cheiro fétido de 20 mil cadáveres, o caubói estava mais preocupado, horas depois dos atentados, em garantir aos seus cidadãos que “a economia americana está aberta aos negócios como sempre”.

Eu e as baratas nos espantamos com essa declaração. Aliás, nos espantamos também com gente festejando a morte de milhares de inocentes em Beirute e Jerusalém. Ouvi alguém dizer que o que aconteceu ontem mostra que o mundo precisa de deus no coração. Discordamos, eu e as baratas. Foi o excesso de deus, assim mesmo, em minúscula, que levou as Cruzadas a dizimarem inimigos que acreditavam em outro tipo de deus, na Idade Média. Foi o excesso de deus no coração que conduziu os judeus na expulsão dos palestinos de seu território depois da Segunda Guerra. É o excesso de deus no coração que faz os árabes explodirem lanchonetes, shoppings, pizzarias, aviões e prédios pelo mundo afora.

O que há, e nisso eu e as baratas concordamos, é um excesso de deuses no coração dos homens. Um deles, citado pelo caubói, é o mercado, a economia, o papel verde que move as engrenagens do planeta, e que uma barata amiga confessou ter roído um dia, de um maço escondido sob o assoalho, sem saber do que se tratava — não apreciou o paladar. Em nome de deus, ou de Deus, ou das várias modalidades de deuses, matamos, explodimos, arrebentamos, crucificamos, bombardeamos, torturamos e acompanhamos tudo pela TV como se fosse um grande espetáculo, e nisso concordamos de novo, eu e as baratas, somos muito bons.

Não há guerra boa ou paz ruim, escreveu Benjamin Franklin, curiosamente num 11 de setembro. As baratas discordam, a próxima guerra será muito boa porque sobreviveremos, me disse uma.

As baratas são bem melhores do que nós.

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16. Casos de câncer relacionados ao 11/9 crescem nos EUA 25 anos após atentados 

Possíveis vítimas ainda brigam na Justiça para terem suas doenças reconhecidas como correlacionadas aos ataques. Novos documentos mostram que a Prefeitura de Nova York sabia que o ar era tóxico, mas deixou a população circular ali.

Mayara Paixão, fsp, 10.9.2926

Ainda que a exata dimensão dos efeitos do 11 de Setembro para a saúde da população americana siga desconhecida, elementos tornados públicos por autoridades locais nas semanas e meses que antecederam esta sexta-feira (11), marco de 25 anos dos atentados às Torres Gêmeas em Nova York, clarearam um pouco esse cenário.

O número de casos de câncer diretamente relacionados ao ar tóxico que dominou a porção sul de Manhattan naquele momento disparou. Os dados oficiais mais recentes, de agosto passado, mostram que há ao menos 57 mil casos reconhecidos. Há dez anos, eram 5.600.

Cobertos pelo pó da destruição das torres, socorristas carregam vítima dos atentados terroristas retirada de um dos prédios do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 - Shannon Stapleton/Reuters

O crescimento expressivo aponta não apenas para o fato de que os diagnósticos aumentaram, mas também para o fato de que pesquisas científicas, estudos clínicos e uma infinidade de litigâncias permitiram aumentar a correlação entre essas doenças e o ar tóxico que dominou a região naquele dia e nos dias seguintes.

Cabe a advogados como Matthew McCauley representar sobreviventes e socorristas que descobriram seus casos de câncer ou outras doenças anos após os atentados e acreditam que eles estão relacionados com o 11/9, mas ainda não tiveram seu caso reconhecido na Justiça. 

McCauley é ex-paramédico e, havia poucos meses aposentado da polícia de Nova York quando ocorreram os ataques, começava a trabalhar com advocacia. Ele chegou a ajudar nos resgates dos escombros, e pouco depois começou a advogar pelas vítimas. "Se uma pessoa teve certo nível de exposição no dia e trabalhou no local, ela se qualifica para programas de saúde públicos que oferecem uma assistência enorme às pessoas, algo especialmente importante hoje em dia, já que os cuidados médicos e os planos de saúde estão muito caros", diz ele à Folha.

Um fator novo dos últimos dias pode mudar o rumo dessa história.

Em resposta à pressão popular e judicial que já se estende por duas décadas, o prefeito de Nova York, o democrata Zohran Mamdani, tornou públicos mais de 170 mil arquivos que eram mantidos sob sigilo pela Prefeitura e que mostram falhas na resposta aos atentados. McCauley é um dos advogados que assina esse processo judicial.

A gestão pública disse aos nova-iorquinos, há 25 anos, que era seguro ficar nas ruas no entorno da área atingida pelos ataques terroristas e minimizou a importância de equipamentos de proteção pessoal, como máscaras, para as equipes de resgate.

Aquela zona, no entanto, estava exposta a centenas de substâncias cancerígenas, a mais comum delas o amianto, liberado e pulverizado a partir de materiais de construção e infraestrutura quando desabam.

Veja fotos do 11 de Setembro

A brasileira Maria Nally, 27, natural de Maceió, trabalha com McCauley no atendimento aos que acreditam ter tido a saúde comprometida por esse evento. Todos os dias, fala com diversas famílias. "A primeira coisa que me chama atenção são as vozes. Muitos mal conseguem falar, ou ser entendidos, porque tiveram a voz ou a fala comprometida por alguma doença, e então necessitam de ajuda de algum familiar."

Ela relata que muitos dos clientes estão em situação de extrema vulnerabilidade social. "São em geral mais velhos, de 60 a 80 anos, e alguns com estágios da doença já muito avançados. Muitos nem sequer sabiam que tinham direito a ter ajuda do Estado, mesmo que tenham feito esse trabalho hercúleo de ajudar nos resgates."

À época dos atentados, Nova York era governada pelo republicano Rudy Giuliani, 82, que anos depois se tornaria um aliado de primeira hora do hoje presidente Donald Trump. Sua vida pessoal, aliás, reverbera a disputa pelos impactos na saúde pública pós-11/9.

Veja fotos das homenagens às vítimas nos 20 anos do 11 de Setembro

Há poucos meses, ele entrou na Justiça para pedir que seu tratamento para uma pneumonia fosse pago pelo Estado. Afirmou, para isso, que há anos foi diagnosticado com uma doença pulmonar restritiva (quando o volume pulmonar reduz e fica mais difícil expandir durante a inalação do ar) que estaria relacionada ao ar tóxico dos atentados.

O advogado McCauley diz que os documentos liberados pela Prefeitura podem ajudar na pesquisa científica sobre o tema a correlação entre as condições de saúde de vítimas e os ataques.

"Um dos grupos de pessoas que não estão contemplados atualmente, por exemplo, são os que estavam no útero no momento dos ataques. Se uma mulher estava grávida na época do 11 de Setembro, ela é elegível para o programa, mas o filho, a menos que depois de nascer tenha sido levado de novo para a área afetada, não é elegível, mesmo tendo estado no útero enquanto a mulher estava exposta", afirma.

Ao menos 2.753 pessoas morreram nos ataques ao World Trade Center, número que engloba vítimas das duas torres, dos dois aviões usados pelos terroristas para atingir os prédios e aquelas atingidas nos arredores da cena. E 40% delas seguem sem identificação.

Em 2015, novo World Trade Center inaugurou observatório - fotos

Criado em 2010 para atender àqueles cuja saúde foi diretamente impactada pelos atentados, o Programa de Saúde World Trade Center tem hoje 139,4 mil condições de saúde relacionadas ao 11/9 — em muitos casos, a mesma pessoa apresentou mais de uma condição.

Os casos mais volumosos são os de doenças do trato respiratório, seguidas por cânceres e casos de saúde mental. E as vítimas são especialmente socorristas, aposentados ou não, seguidos por pessoas comuns, chamados de "sobreviventes". Os cânceres mais comuns são os de pele, o de próstata, o de mama, linfoma, tireoide, rim, e pulmões.

Os bombeiros tiveram um papel central em demonstrar os impactos dos atentados nos casos de câncer. Desde 2010, o Departamento de Bombeiros de Nova York tem demonstrado a maior incidência de cânceres entre os trabalhadores de resgate expostos à fumaça e aos detritos dos atentados.

Os estudos mostram que os ataques geraram uma exposição ambiental sem precedentes a substâncias capazes de causar câncer.

Eles avaliaram os chamados biomarcadores sanguíneos: a presença de um deles não é determinante para a pessoa ter câncer, mas denota aumento de risco. E encontraram que os bombeiros expostos à zona do ataque apresentaram três vezes mais chances de apresentar mutações em comparação com os que não foram designados para a tarefa.

Além disso, encontraram que, entre os que foram designados, aqueles com essas mutações tinham uma probabilidade quase seis vezes maior de desenvolver leucemia do que os que não apresentavam.

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17. Expedita, filha de Maria Bonita e Lampião

No Avisa Lá que Eu Vou, Expedita Ferreira Nunes citou lembranças com o pai e revelou que só passou a admirá-lo já adulta: 'A imagem que tinha dele era de ladrão'

Por gshow — São Paulo, 08/07/2025

Paulo Vieira conversa com Expedita, filha de Lampião e Maria Bonita. Aqui

Se a principal proposta do Avisa Lá Que Eu Vou é conhecer o Brasil profundo, o quarto episódio da atual temporada do programa inovou ao entrar no mundo do cangaço que, o apresentador da atração, o ator Paulo Vieira, definiu como "um lugar no imaginário do povo brasileiro, na geografia mítica que sustenta parte da nossa cultura". Como não poderia deixar de ser, um dos locais visitados por ele foi Serra Talhada, em Pernambuco, onde nasceu Lampião (1898-1938).

Além disso, Paulo conheceu Expedita Ferreira Nunes, única filha reconhecida do rei do cangaço e de Maria Bonita (1911-1938). De acordo com o g1, quando os pais foram mortos, ela tinha cinco anos e passou a ser criada por um aliado de Lampião. Aos oito anos foi viver com um tio paterno, com quem permaneceu até se casar, aos 18 anos.

Expedita Ferreira Nunes é a única filha de Lampião e Maria Bonita — Foto: Reprodução

Ainda segundo o g1, o cangaço foi caracterizado como um movimento de banditismo, que consistia em grupos armados que percorriam a região, utilizando o crime como forma de combater as injustiças sociais e buscar algum tipo de progresso. Aos 92 anos, Expedita contou ter sido deixada pelos pais quando tinha apenas 21 dias de vida, já que crianças não podiam permanecer com o bando de cangaceiros.

"Ele entrava e eu me escondia, porque tinha medo de todas aquelas armas. Certo dia me escondi embaixo da cama, ele me tirou, botou no colo e eu com medo", relembrou ela, no programa exibido nesta terça-feira (8), no GNT, citando uma das visitas do pai. "Outra vez, estava sentada no chão chorando, não sei porque, e ele pegou uma tesourinha e me deu. Eles foram embora e eu fiquei com a tesourinha".

Paulo Vieira conversa com Expedita Ferreira Nunes, única filha de Lampião e Maria Bonita — Foto: Reprodução

"Não gostava que ninguém falasse, porque a imagem que tinha dele era de ladrão, criminoso. Em 1969, apareceu uma moça lá em casa, Christina da Matta Machado [1938-1971], que me convidou para ir a São Paulo, porque lançaria um livro, 'As Táticas de Guerra dos Cangaceiros'. Na casa dela estava metade dos cangaceiros que sobreviveram. Foi uma emoção muito grande. Quando vi quem foi meu pai, mudei de ideia". — Expedita Ferreira Nunes

Como de costume, Paulo não perdeu a piada e citando as filhas de Xuxa Meneghel e Beyoncé, fez uma analogia que divertiu a filha de Lampião. "Se o pai e a mãe da senhora são o rei e a rainha do cangaço, a senhora é a princesa. A senhora é a Sasha cangaceira, a Blue Ivy do Nordeste".

Paulo Vieira com Expedita Ferreira Nunes, única filha de Lampião e Maria Bonita — Foto: Instagram

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18. Lalo de Almeida

Lalo de Almeida / Retrato de fim do mundo. Aqui 

Lalo de Almeida - home. Aqui 

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19. Festival de Veneza 2025: Vencedores

Os resultados foram anunciados em 06.09.2025:

Leão de Ouro de Melhor Filme:

– “Father Mother Sister Brother”, de Jim Jarmusch

Leão de Prata de Melhor Diretor:

– Benny Safdie, por “The Smashing Machine” 

Grande Prêmio do Júri:

– “The Voice Of Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania

Prêmio Especial do Júri:

– “Below the Clouds”, de Gianfranco Rosi

Atriz:

– Xin Zhilei, por “The Sun Rises On Us All” 

Ator:

– Toni Servillo, por “La Grazia”

Roteiro:

– Valerie Donzelli e Gilles Marchand, por “A Pied D’Oeuvre” 

Prêmio Marcello Mastroianni (atuação iniciante):

– Luna Wedler, por “Silent Friend” 

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20.,Os pterodátilos contra-atacam – Ruy Castro

Ruy Castro, fsp, 9.9.2026

Há razões até estéticas para que alguns artistas voltem a usar mídias consideradas extintas. Estou treinando agora para fazer a ponta no lápis com gilete e lambê-la antes de escrever.

Tive o prazer de saber por José Eduardo Agualusa de um bem-vindo contra-ataque do analógico a certos flancos da ditadura digital: fotógrafos que voltaram a trabalhar com o velho filme, músicos gravando discos em fita magnética e escritores que — como ele — escrevem à mão e depois passam o texto para o computador. Não é só uma volta ao tempo dos pterodátilos. Os mais jovens talvez gostem de saber que há razões inclusive estéticas para essa recuperação de mídias dadas como extintas.

É fácil disparar a câmera do celular e ver se, até sem querer, sai algo que preste. Já a foto em filme obriga o fotógrafo, pelo custo do material, a buscar a expressão, a luz e o enquadramento perfeitos antes de clicar. O mesmo quanto à gravação da música em fita. Sem os recursos que hoje permitem afinar desafinados, dar voz a quem não tem e inventar ídolos incapazes de reproduzir no palco o que sai da mesa de som, os artistas precisam mostrar a que vêm. Quanto a escrever à mão, eu próprio teimo em fazer isso — todo dia.

Fui dos primeiros da minha turma a trocar a máquina de escrever pelo computador, em 1988, e nunca mais olhei para trás. Mas também nunca abandonei a caneta. Nos 19 anos em que ocupo este espaço https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/ na Folha, desde 2007 já produzi mais de 3.000 colunas. Todas escritas primeiro à mão, em cadernetas, com a infalível Bic preta, depois transcritas para o computador e, em muitos casos, impressas, rabiscadas e só então, se as acho prontas, enviadas para o jornal.

Escrevo em qualquer lugar — no táxi, na fila do supermercado, na sala de espera do dentista. Acho ótimo. Publicada a coluna, reabro a caderneta e xizo o rascunho de alto a baixo. Não me deixo apanhar de surpresa —se uma caderneta está acabando, já trago outra no bolso, pronta para entrar em campo. E não jogo fora as usadas. Servem para me lembrar o quanto me custaram de queima de massa cinzenta.

Estou me interessando agora pelos lápis, treinando em lhes fazer a ponta com gilete e lambê-la (a ponta, não a gilete) antes de escrever.

Cadernetas de Ruy Castro, onde ele escreve à mão as colunas publicadas na Folha - Foto Heloisa Seixas

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21. 'Mestre dos Batuques' de Agualusa põe soberania de Portugal em xeque

Romance repensa a dicotomia civilização versus selvageria com conflito entre Angola e reino português

Tássia Nascimento, 3.1.2025

Mestre dos Batuques, Preço R$ 69,90 (224 págs.); R$ 44,90 (ebook)Autoria José Eduardo Agualusa, Editora Tusquets

Em janeiro de 1902, na montanha Halavala, em Angola, 25 soldados europeus foram encontrados sem vida em um acampamento militar. Os corpos não apresentavam nenhuma ferida, "nenhum corte de lâmina, buraco de bala, hematomas ou contusões". O mistério e a incompreensão sobre o que sucedera a esses soldados marca o início do livro "Mestre dos Batuques", novo romance do escritor e jornalista angolano José Eduardo Agualusa.

José Eduardo Agualusa, autor de 'O Vendedor de Passados' e 'Os Vivos e os Outros' - Karime Xavier/Folhapress

A obra tem como cenário o planalto central de Angola, mais precisamente o Reino do Bailundo, e ocorre durante o conflito armado para a libertação da região do jugo colonial português. Apesar da descrição impressionante marcar o início do primeiro capítulo e da guerra figurar como contexto da narrativa, esse tipo de detalhamento é quase raro no corpo do livro.

De forma sensível, passeamos pelo romance entre Jan Pinto, jovem militar, e Lucrécia Van-Dunem, luandense filha de comerciantes. Mais do que cenas de batalhas, conhecemos o poder ancestral dos batuques, a autonomia e as estratégias de resistência dos guerreiros de Mutu-ya-Kevela.

A complexidade do conflito ocorrido no século 20 não permite que nos limitemos às informações que circularam nos jornais ou livros oficiais de história. Através de uma gama de personagens, Agualusa constrói um percurso que nos ajuda a repensar noções como ficção e história, arquivo e memória.

Existiria apenas uma versão para os fatos ocorridos naquela região? A sociedade secreta dos guerreiros batucadores contesta a possibilidade de uma história única.

Angola por Juca Varella - fotos

A obra é narrada por Leila Lucrécia e constantemente nos deparamos com as suas observações que aparecem destacadas no texto. São pausas que balizam a interpretação, permitindo que a narradora anuncie a sua presença e comunique aos seus leitores as suas verdades. "Faça o favor, querido leitor, de acreditar nelas".

Após as negociações que definiram as fronteiras e a independência do Reino do Bailundo no interior de Angola, o Diário de Notícias de Lisboa publicou, na manhã de 16 de novembro de 1902, a manchete: "Rei do Bailundo rende-se e reconhece soberania de Portugal em Angola".

Na contramão das informações apontadas pelo jornal, surge a versão presente nas memórias da família de Leila, "aquilo que de fato foi acordado". Nas descrições, nos deparamos com o seu exercício de interpretação dos acontecimentos, dos dados colhidos pela memória dos seus ancestrais, o olhar dos supostamente "vencidos".

Um dos personagens, Luís Mambo, alferes e fotógrafo, afirma: "Só quem duvida pode encontrar a verdade". Podemos pensar que a verdade da narrativa está na versão dos guerreiros do Bailundo sobre a colonização portuguesa. Talvez o romance de Agualusa seja uma forma de ressignificar a imagem de soberania que atribuímos a Portugal quando falamos daquele período.

O romance nos ajuda a repensar a dicotomia clássica civilização versus selvageria. No livro surge a pergunta: "O que é para si um selvagem?". Jan em um debate sobre o tema, assevera: "Há muita selvageria, muita maldade, no interior daquilo a que chamamos civilização".

Major Frutuoso Manso, representante de Portugal, corrobora essa sentença ao demonstrar o seu desejo ávido pelo conflito armado: "E o que ganharíamos nós em impedir a guerra?"

Na oposição entre os "selvagens armados com lanças e flechas" e o "exército moderno" sobressai o mistério dos batuques. No território da narrativa, destaca-se a potência dos tambores e a sua capacidade de atravessar o tempo repercutindo suas "batidas de transe". Ali ele surge enquanto armamento ou, do ponto de vista do exército português, um suposto "veneno" capaz de provocar alucinações ou uma dor intolerável.

O Reino de Portugal quer saber "de que planta extraem os nativos um veneno tão potente, capaz de desorientar e matar duas dezenas de homens?". A resposta está na força dos batuques dos bailundos, nos efeitos dos toques dos quimbandeiros, nas "cerimônias mágicas" dos mestres dos tambores.

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22. Orhan Pamuk - Socorro Acioli

Voltei a escrever diário para reconectar o cérebro à ponta de um lápis [Socorro] 

Socorro Acioli, fsp, 8.9.2026

Decidi imitar Orhan Pamuk, o escritor vivo que eu mais gostaria de conhecer. Demora no desenho da letra é o tempo que o pensamento pede entre as palavras.

Quando me perguntam, a resposta vem fácil: o escritor vivo que eu mais gostaria de conhecer é Orhan Pamuk.

Primeiro porque "O Museu da Inocência" é um dos melhores livros que li na vida. Menos pelo interesse no tema, mais pela perfeição na execução. E pelo que foi feito durante e depois da escrita: o livro virou realidade, o museu existe em Istambul. Eis um romancista que leva a profissão ao limite do perfeccionismo e da obsessão.

Orhan Pamuk diz que gostaria mesmo de ter sido um pintor famoso, mas não conseguiu. Em vez disso, virou escritor e ganhou um Nobel.

Entre as suas rotinas inegociáveis, ele inclui o trabalho constante em seus cadernos de bolso, desenhando e escrevendo diariamente. "É como se eu estivesse escondendo o mundo aqui dentro." O hábito começou em 2008 e persiste como uma extensão da sua vida. Outro hábito que mantém é ir religiosamente, toda sexta-feira e todos os sábados, a um museu em Nova York. O mesmo museu, o Metropolitan Museu of Art.

Apesar de ser responsável por influenciar leitores a amar Istambul, o romancista vive nos Estados Unidos, depois de enfrentar os tribunais turcos e receber acusações por suas opiniões sobre política e direitos humanos. Os diários de Pamuk foram publicados, inclusive, com o título "Memórias de Montanhas Distantes".

Sou uma fã daquelas que assistem a todo material disponível na internet. Escuto até as entrevistas em turco, sem entender nada, mas percebendo a sonoridade de seu idioma original. Ele sorri pouco e fala de trabalho com tanta seriedade que beira a angústia. Em tudo ele mergulha.

Entre as horas de escrita, o desenho nos diários, as visitas aos museus, o tempo de pensar, são dias e dias de solidão. É necessário ficar só para escrever, para acessar esse lugar misterioso onde germinam os temas que interessam à humanidade. Ficar só é a exigência número um na escrita de um romance, eu acho.

Por causa de Pamuk, decidi voltar a manter um diário a partir do dia nove do nove, esta quarta-feira, depois de tanto tempo sem escrever dessa forma.

Sou de uma geração que alimentou cadernos e agendas com colagens, desenhos, até não conseguir mais fechar as páginas. Tudo foi documentado com o máximo de detalhes, letra cursiva escrita com calma, um retrato do passado que minha memória não seria capaz de recuperar.

Imitei Orhan Pamuk e comprei um caderno de bolso, para recomeçar nesta quarta a escrever e rabiscar as coisas.

A demora no desenho da letra cursiva é o tempo que o pensamento pede entre uma palavra e outra. A letra bastão, como chamam, parecerá sempre um grito — e a voz da paz é baixa, tranquila, uma caligrafia ondulada como rio manso.

Nesse movimento coletivo de voltarmos aos anos 1980, ouvir vinil, revelar fotografias, escrever à máquina, acho saudável reconectar o cérebro à ponta de uma caneta, de um lápis, de um caderninho que aguente o tranco de bolsa em bolsa, de cidade em cidade, guardando a vida às escondidas.

O senhor Pamuk usa caneta tinteiro, inclusive, de marcas específicas, mas por enquanto não vou copiar essa parte. O tempo está passando muito rápido, também quero esconder e guardar um pouco da beleza que vejo no mundo.

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23. Google Tradutor 

Google Tradutor completa 20 anos: confira as línguas mais traduzidas pelos brasileiros.

O Google Tradutor nasceu como uma ferramenta de tradução baseada em estatística, mas ganhou processamento neural em 2016.

Avatar do(a) autor(a): Igor Almenara Carneiro, 29/04/2026

O Google Tradutor comemora 20 anos nesta terça-feira (28). A ferramenta se consolidou como uma das soluções de tradução de texto mais populares do mundo, apesar das limitações que marcaram seus primeiros anos.

Atualmente, o Google Tradutor suporta quase 250 idiomas e mais de 60 mil pares linguísticos. No texto de aniversário, a empresa destaca o suporte a línguas indígenas e ameaçadas de extinção. No Brasil, a ferramenta é mais utilizada para adaptar textos em inglês, espanhol e chinês. O recurso de download de idiomas para uso offline também se mostrou útil para turistas sem acesso constante à internet.

Só na Play Store, o aplicativo acumula mais de 1 bilhão de downloads. O app, no entanto, não é a única forma de usar a ferramenta — ela também está disponível na web, integrada nativamente ao navegador e em outros produtos do Google.

Das traduções literais à interpretação de contexto

O Google Tradutor foi lançado em 2006 como uma ferramenta de tradução automática baseada em estatística (SMT, na sigla em inglês). O processo consistia em adaptar o conteúdo para o inglês e, só depois, para o idioma desejado — cruzando os termos com milhões de documentos transcritos das Nações Unidas e de Parlamentos Europeus.

A ferramenta estava longe de ser perfeita nessa época. As traduções literais e a ausência de adaptações contextuais eram evidentes em textos mais elaborados.

Foi só em novembro de 2016 que o Google Tradutor migrou para a Neural Machine Translation, plataforma baseada em aprendizado de máquina. A solução permitiu traduzir conteúdo com muito mais precisão, já que conseguia compreender o contexto de frases inteiras.

O Brasil foi um dos primeiros países a receber a novidade. O português foi um dos oito idiomas selecionados para testar a nova estrutura, ao lado de inglês, francês, alemão, espanhol, chinês, japonês, coreano e turco.

App Google Tradutor foi lançado em 2010

Em termos de distribuição, o Google Tradutor estreou nos navegadores — incluindo o Chrome — em 2010. Naquele mesmo ano, a versão mobile foi lançada para Android; um ano depois, chegou ao iOS.

No ano passado, a ferramenta ganhou melhorias oriundas do Gemini, inteligência artificial do Google, com o objetivo de tornar as traduções mais precisas. A integração aprimorou a tradução de frases com significados sutis, introduziu a capacidade de traduzir áudio em tempo real e deu vida a uma ferramenta de aprendizado de idiomas dentro do próprio app.

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24. Louie / escala 4x3 

Louie adota escala 4x3 no administrativo há seis anos, conta fundadora 

UOL, 07/09/2026

Divã de CNPJ - vídeo

A Louie adota há seis anos a escala 4x3 para os funcionários da área administrativa, afirma a fundadora e diretora criativa da marca, Livia Ribeiro, no Divã de CNPJ, do Canal UOL. Segundo a empresária, a redução da semana de trabalho foi adotada para proporcionar mais qualidade de vida à equipe.

Os funcionários do administrativo concentram reuniões e entregas entre segunda e quinta-feira e têm a sexta-feira livre para resolver assuntos pessoais. A fábrica da empresa, por outro lado, continua funcionando na escala 5x2.

"O meu administrativo é 4x3. A fábrica continua 5x2. Por que há seis anos eu optei pelo 4x3? Eu acho que as pessoas têm que ter qualidade de vida, têm que ter o tempo delas. Então, eu falei: gente, vamos focar de segunda a quinta, e sexta vocês resolvam os problemas pessoais de vocês. Foi ótimo. Sexta-feira também é aquele dia que ninguém quer saber de mais nada. Todo mundo já fala: 'Deixa pra segunda'." Livia Ribeiro

Ribeiro diz que a empresa combinou um ritmo mais intenso nos quatro dias úteis, com entregas sem "postergar", e que o time aderiu à proposta. Para ela, a sexta-feira virou um espaço para organizar vida pessoal e reduzir pendências fora do trabalho.

"Eu notei que tem mais foco, as coisas se resolvem melhor durante essa segunda a quinta, não vai postergando. Tem um combinado de segunda a quinta: sem choro nem vela, vamos entregar, vamos focar, vamos dar o melhor de nós nesses quatro dias. Para a Louie foi ótimo, foi muito bom. E eles adoram. Meu time adora." Livia Ribeiro

A fundadora também descreve um modelo de gestão baseado em confiança e cobrança por entrega, não por presença. Ela afirma que libera saídas pontuais durante a semana, desde que o combinado esteja em dia e o prazo seja cumprido.

"Eu confio muito nas pessoas que trabalham comigo. Às vezes acontece: numa terça-feira, preciso ir ao médico, preciso ir na reunião de pais e mestres do meu filho. Pode ir? Claro. Você está com tudo em dia? Problema nenhum. Eu nunca vou perguntar. Você fez? Você vai me entregar? Então, eu confio. Eu tenho muito essa troca com as pessoas que trabalham comigo." Livia Ribeiro

Na discussão sobre o fim da escala 6x1 no Brasil, Ribeiro avalia que parte do debate confunde mudança de jornada com fechamento de lojas. Para ela, o efeito prático tende a ser a reorganização por turnos e a necessidade de contratar mais gente para cobrir folgas.

"Eu acho que tem essa ilusão nessa discussão toda de 6x1, que as empresas vão fechar. Não é que a loja vai fechar. É que vai aumentar o fluxo de pessoas, de funcionários novos trabalhando. Aquele vai descansar, então entra um outro turno. É só o turno da pessoa. O empresário vai ter que contratar mais pessoas." Livia Ribeiro

Ribeiro também relaciona a escala 4x3 à possibilidade de os funcionários dedicarem mais tempo à vida pessoal. Ela cita integrantes da equipe que aproveitam a sexta-feira para cuidar do neto, tocar um negócio paralelo ou passar mais tempo com os filhos. Segundo a empresária, os três dias de descanso também fazem com que a equipe retorne ao trabalho mais tranquila na segunda-feira. 

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25. Roland Talks #04 | Charles Gavin recebe Liminha. Aqui 

Roland Talks #05 | Charles Gavin recebe Liminha | Parte 2 Aqui 

Õ Blésq Blom - Álbum

Introdução por Mauro e Quitéria 

Miséria 

Racio símio 

O camelo e o dromedário 

Palavras 

 Medo 

 Natureza morta 

Flores 

O pulso 

32 dentes 

Deus e o diabo 

Vinheta final por Mauro e Quitéria 

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26. As cores do coração - Ruy Castro

Ruy Castro, fsp. 5.9.2926

Se for crime usar a camisa do time adversário, muitos ilustres já deveriam ter pagado por isso. O que o garoto corintiano que pediu a camisa de Neymar levará desta experiência pela vida?

Pedro, 8, que foi hostilizado por torcedores do Corinthians após receber uma camisa de Neymar, visita o CT Joaquim Grava, do Corinthians, e conheceu os jogadores; na foto, Memphis Depay - Corinthians no Instagram

Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida —profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância?

Se for crime vestir a camisa do adversário, muitas pessoas ilustres já deveriam ter pagado por isso. Em sua edição de 14 de julho de 1979, a revista Manchete abriu uma reportagem sobre Nelson Rodrigues e Zico com uma incrível foto de Paulo Scheuenstuhl, em que o dramaturgo, histórico torcedor do Fluminense, veste a camisa do Flamengo. Por sua vez, no dia 24 de março de 1993, Zico, símbolo do Flamengo, atuou no Maracanã com a camisa 9 do Vasco no jogo de despedida de seu grande amigo Roberto Dinamite. O mundo não acabou.

Flamengo e Vasco vivem uma das piores rivalidades do futebol brasileiro. Se o craque de um deles se passa para o outro, deveria ser excomungado, não? Não. O Flamengo já viu alguns de seus heróis usando as cores do inimigo —Andrade, Bebeto, Junior Baiano, Petkovic e, mais doloroso de todos, Rondinelli, o Deus da Raça —, mas perdoou-os, por sabê-los Flamengos. E, para gáudio rubro-negro, o Vasco teve de se curvar ao fato de que, em 1995, Romário, ao deixar o Barcelona eleito o maior jogador do mundo e voltar para o Rio, preferiu o Flamengo, onde fez também monumental carreira.

E quando um jogador não consegue jogar pelo clube para o qual secretamente torce? Gerson, o Canhotinha, revelou-se no Flamengo, foi ídolo do Botafogo e só em fim de carreira chegou ao seu time de coração, o Fluminense. Como ele, muitos outros.

Dias depois, o garoto posou com uma bandeira do Corinthians e a camisa de Neymar. Assim se faz.

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27. Câmara de São Paulo aprovou regras contra pessoas negras perto da abolição

Escultura Mãe Preta no Largo Paissandu / Douglas Nascimento - São Paulo Antiga

Fernando Granato, fsp. 5.9.2026

Norma municipal ampliava vigilância e punia circulação noturna de escravizados. Urbanização expulsou moradores negros de área central rumo ao Paissandu

No final do período imperial, São Paulo era uma cidade partida. De um lado, estava uma elite intelectual abolicionista, posicionada na vanguarda nacional da luta pelo fim da escravidão. De outro, uma elite financeira, incluída a classe política, que remava com todos os instrumentos possíveis contra a emancipação de pessoas negras. No meio, as camadas mais populares, excluídas do vertiginoso processo de crescimento trazido com as riquezas do café.

Nesse contexto, em 6 de outubro de 1886, a Câmara Municipal emitiu uma Postura do Município de São Paulo, que funcionava na prática como uma espécie de preparação da cidade para a abolição iminente.

Com medidas restritivas aos cativos e libertos, a legislação adotava ações que iam da área de segurança pública ao estrangulamento do mercado de trabalho para aquelas pessoas.

Largo da Sé e as charretes de aluguel conduzidas por escravizados, em foto de 1880 - Marc Ferrez/IMS

No artigo 169 da postura, por exemplo, constava a proibição de "ajuntamentos de escravos ou de outras pessoas fazendo vozerias e incomodando a vizinhança". Já o 235 determinava: "Os escravos que, depois do toque de recolher, forem encontrados nas ruas e não apresentarem bilhete de seus senhores, serão recolhidos à cadeia até o dia seguinte". Havia ainda um artigo, o 237, que vetava, depois do toque de recolher, "a assistência de escravos em funções de danças e batuques".

As medidas restritivas ao mercado de trabalho e à subsistência, naquela postura, eram as mais devastadoras para a população oriunda da escravidão. Muitos libertos tinham pequenas criações de animais, que garantiam a alimentação. O artigo 84 determinava: "É proibido criarem-se porcos ou conservá-los dentro de prédios da cidade e suas povoações por espaço maior de 24 horas". O 183 restringia ao Matadouro Público a função de "matar, esquartejar, rezes, porcos, cabras e carneiros".

De forma mais explícita, o artigo 217 da Postura Municipal proibia "concederem-se a escravos matrículas para cocheiros de carros ou condutores de carroças de aluguel ou de vender água". Até então, essa era uma atividade comum aos chamados "escravos de ganho", aqueles que exerciam funções remuneradas e eram obrigados a dividir o lucro com seus senhores.

Descendentes de escravizados mantêm comunidade em Sertãozinho (SP) - fotos

Com o dinheiro que sobrava das atividades remuneradas, os "escravos de ganho", muitas vezes, conseguiam comprar suas próprias alforrias. A profissão de cocheiro era uma das mais praticadas. No largo da Sé (atual praça), muitos deles estacionavam as charretes de aluguel, ou tílburis, como eram chamados, e ficavam à cata de fregueses.

A Postura Municipal, entretanto, buscou atingir exatamente esses "escravos de ganho". Considerava-se que esses escravizados, que tinham mais independência com relação ao controle exercido por seus senhores, precisavam da mão pesada do Estado para controlá-los.

Outra atividade que também era comum aos escravizados nos centros urbanos era a de "criados" e "criadas". Eles exerciam funções domésticas junto a famílias mais abastadas. A postura tratou também dessas profissões, no artigo 264: "É proibido a quem quer que seja exercer a ocupação de criado ou criada sem estar inscrito no livro de registro da Secretaria da Polícia. O infrator incorrerá em oito dias de prisão".

Monumento Mãe Preta, obra do escultor Júlio Guerra - fotos

Ao mesmo tempo em que as leis restritivas tiravam os cativos e ex-cativos do mercado de trabalho, a urbanização em curso tratava de afastá-los fisicamente das áreas mais nobres da cidade. Foi assim que se deu, por exemplo, a expulsão de pessoas negras que viviam na região próxima à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no largo de mesmo nome (onde fica hoje a praça Antônio Prado, no centro).

Num processo que durou cerca de 30 anos, primeiro foram demolidas as casas e, depois, a igreja que havia sido fundada em 1711. O templo e aqueles moradores foram então transferidos para uma área menos valorizada, do outro lado do rio Anhangabaú, para o local onde fica hoje o largo do Paissandu. A capela ainda se mantém ali.

Especialista nos temas exclusão, trabalho e racismo, o historiador Ramatis Jacino, professor de história econômica na Universidade Federal do ABC, salienta que as pessoas negras estavam entre as principais preocupações dos legisladores no período próximo à abolição.

"Isso porque eles representavam a síntese de tudo aquilo que se queria superar", afirma. "Na qualidade de escravo, exemplificava uma estrutura social ultrapassada e, como livre, era um grande incômodo; na aparência, na cultura, na religiosidade, no modo de ser."

Na visão do historiador, esse tipo de legislação, para impedir que escravizados exercessem atividades urbanas, tinha um objetivo muito explícito: "Afastar esses trabalhadores negros do mercado de trabalho para garantir que essas ocupações fossem exercidas por brancos, particularmente imigrantes europeus vindos para cá com o projeto de branqueamento do Brasil".

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28. Helena de Troia 

Ao perturbar os gregos, Helena de Troia incitou todos eles à união nacional.

Mario Sergio Conti, fsp,  4.9.2026

Tradutora de 'Odisseia' destruiu filme de Christopher Nolan. Sucesso do longa faz tradução vender 1 milhão de cópias

Menos de dois meses depois de estrear, a "Odisseia" já arrecadou US$ 1,5 bilhão nas bilheterias do mundo. Com três horas de duração, tornou-se o filme para maiores de 17 anos no Brasil, o mais visto na história do cinema. Custou US$ 250 milhões e, prevê-se, irá faturar US$ 2 bilhões.

O filme é um fenômeno pop. Apoia-se em efeitos especiais de ponta, dramaturgia retumbante, elenco de deidades hollywoodianas, marketing da indústria cultural. Embora seja um produto para o mercado global, não se resume a comércio puro e duro. Sua gênese está num poema de 3.000 anos, feito numa língua morta, desconhecida dos mortais.

Mas conhecida por Emily Wilson, classicista inglesa de 54 anos, professora da Universidade da Pensilvânia e primeira mulher a transpor a "Odisseia" para o inglês. O diretor Christopher Nolan disse que o primeiro verso da tradução —"fale-me sobre um homem complicado, musa"— lhe serviu de inspiração.

Como o poema não tem diálogos nem o filme narrador, a influência da tradução, na prática, foi nula. Enquanto a versão de Emily Wilson arrebata pelo vigor pulsante, o texto de Nolan só deixa de ser pedestre quando soçobra na mediocridade. Ao anunciar o retorno de Ulisses a Ítaca, por exemplo, Telêmaco festeja: "‘Daddy’ está voltando para casa". É ridículo.

Ainda assim, o filme impulsionou o livro, que bateu a marca de 1 milhão de exemplares vendidos. Emily Wilson não agradeceu a colher de chá de Nolan à sua tradução. Escreveu uma interminável resenha na London Review of Books estraçalhando o filme. O afluxo de leitores ao site da publicação foi tão grande que ele colapsou e saiu do ar.

A professora é pop. Tatuagens lhe descem pelos braços, um com motivos da "Odisseia" e outro da "Ilíada". Ela observa na resenha que o filme chama os escravos de servos; compara-o a "O Senhor dos Anéis" e "Game of Thrones"; chama Agamemnon de Darth Vader.

'A Odisseia' é adaptação épica para texto de Homero - fotos

Conta que seus filhos adolescentes se divertiram com o show, "uma queima de fogos de artifício no Quatro de Julho, com a mesma profundidade narrativa e emocional". Reclamou da ausência de cenas de sexo e do aspecto horrível da comida. Foi ferina e maldosa.

Informa que a "xênia" designava relações idealizadas entre estranhos, que deveriam se tratar com respeito. Nolan a chama de Lei de Zeus e a transforma em caridade filantrópica: "Os ricos devem ser generosos com os pobres e famintos, sem nada fazer para mitigar sua pobreza". Por fim, o filme se apieda de Ulisses, o saqueador de Troia, não de suas vítimas.

Uma semana depois, Emily Wilson fez algo bizarro: divulgou um comunicado anunciando que retraduziria a "Odisseia". Ora, ela escrevera, mais de uma vez, que obras da Antiguidade só deveriam receber nova versão depois de um longo período, quando uma abordagem distinta se impusesse. E sua festejada tradução da "Odisseia" havia sido publicada ontem, em 2017. O que houve? Trocou a coxia pela ribalta e passou a ver-se como uma celebridade?

O afinco em aparecer não parou aí. Aproveitou o lançamento do filme para lançar "Crossing the Wine-Dark Sea: Journeys Through Ancient Literature" — atravessando o mar vinho-rubro: viagens pela literatura antiga.

Veja obras de arte que retratam passagens da 'Odisseia', de Homero

Com 13 ensaios sobre a Antiguidade greco-latina, o livro é uma introdução de alto nível a obras criadas há milhares de anos, num tempo sobre o qual pouco se sabe ao certo, exceto ser muito diferente da atualidade. Para ela, as novas traduções e edições deveriam se ater ao espírito do passado, ao mesmo tempo em que evidenciem os pontos de contato com o presente.

Nesse sentido, o ensaio sobre Helena de Troia é formidável. Filha de Zeus e de uma mortal, Leda, Helena é uma diva de destaque na mitologia, dando o ar da graça em Homero, Eurípides, Hesíodo, Virgílio e Ovídio. Casou-se com o rei de Esparta, Menelau, e foi conduzida a Troia pelo príncipe Páris. Os gregos foram buscá-la e ficaram dez anos em guerra.

Seu grande mistério é o seguinte: ela foi sequestrada por Páris ou o acompanhou porque estava apaixonada? Era uma vítima ou uma vadia? Como Capitu — suspeita pelo marido, Bentinho, de traí-lo com Escobar —, o adultério, ou não, de Helena depende de quem narra sua história.

Helena é um mito maior que sua ambiguidade. "Hellas" é o nome oficial da Grécia, tanto no idioma de Homero como no atual. Significa terra helênica, dos helenos. "Ela é importante não como pessoa ou mesmo como objeto erótico", escreve Emily Wilson.

Ao perturbar e inflamar os gregos, Helena os incitou à união nacional.

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29. O legado de Alexei Bueno

O legado de Alexei Bueno, o poeta que fez da literatura sua profissão de fé 

Tom Farias, fsp, 2.9.2026

Há pouco mais de dois meses morreu, aos 63 anos, o poeta carioca Alexei Bueno. Li, por esses dias, o seu monumental "Poesia Completa e Traduzida", publicado pela G. Ermakoff Casa Editorial. Não é o seu livro mais recente, mas é, sobretudo, o que reúne o universo de sua produção poética das últimas quatro décadas de vida, em volume de 1.052 páginas, distribuídas por obras que vão desde "As Escadas da Torre", de 1984, a "A Noite Assediada", de 2022, essa reunindo seus poemas em prosa.

Os dois livros derradeiros que recebi de Bueno foram "Naquele Remoto Agora", de 2024, e "A Chave Quebrada", que saiu em abril deste ano.

Me aproximei de Alexei Bueno no início da década de 1990, quando já era poeta afamado e conhecido por suas calorosas polêmicas, entre as quais a defesa intransigente de suas ideias, o que fez colecionar uma lista de inimigos tão grande quanto sua extensa produção literária.

Conhecedor profundo de arte e literatura, Bueno organizou a obra completa de diversos autores canônicos, especialmente para a Nova Aguilar, onde também foi editor, entre os quais Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa, Mário de Sá-Carneiro, Olavo Bilac, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes, Almada Negreiros, Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo.

Em 2024, esteve envolvido nas comemorações pelo quinto centenário do nascimento de Luís de Camões, proferindo magna palestra no Real Gabinete Português de Leitura, "Camões, 500 Anos, o Tempo Acorrentado", e lançou "Camões, Além do Desconcerto", pequena relíquia de 66 páginas, certamente uma das mais belas palavras escritas sobre a vida e a obra do autor de "Os Lusíadas".

Trabalhamos juntos na Fundação Biblioteca Nacional, na gestão do professor Eduardo Portella, período em que organizamos a exposição do centenário de Cruz e Sousa, poeta simbolista negro catarinense. Para a ocasião, Bueno publicou o catálogo "Cruz e Sousa, 100 Anos de Morte – 1898-1998", tendo eu cedido algumas peças raras do meu acervo pessoal, entre imagens e objetos.

Esta parceria rendeu artigos, entre os quais a colaboração na revista "Estudos Afro-Asiáticos", de 2008, da Universidade Cândido Mendes, editada por mim.

Inventivo e laborioso, Alexei Bueno era uma personalidade múltipla, genial, algumas vezes explosiva e, por conta disso, imensamente incompreendida. Pensava e vivia como poeta —que mais lembrava os tempos passados.

Escreveu sonetos, odes e elegias. O crítico Ruy Espinheira Filho resumiu bem seu perfil disruptivo, ao dizer que o "caminho da vida, no caso de Alexei Bueno, é o caminho da poesia".

Diante da leitura de "Poesia Completa e Traduzida", volume cuidadosamente impresso, dada a sensibilidade do editor George Ermakoff, nos deparamos com um autor entregue, na totalidade, a seu ofício de escritor, pesquisador e tradutor —sua verdadeira profissão de fé.

Fizemos juntos uma viagem a João Pessoa, na Paraíba, quando lembramos da obra completa de Augusto dos Anjos, editada por ele, para a qual dedicou exaustivamente 31 anos. "Nunca parei de trabalhar", me disse. Para concluir o livro, chegou a fazer 800 páginas de prova, com cerca de 20 marcações de revisão por página, totalizando umas 16 mil marcações, como declarou.

Traduziu autores clássicos universais, como Poe, Mallarmé, Leopardi e Shakespeare — com uma versão de "O Corvo" rivalizando com a de Machado de Assis no século 19.

Perco um amigo das horas mortas nos bares da Lapa, berço da boemia tão cara a Bueno, e companheiro de conversas intermináveis sobre literatura, em que partilhávamos o mesmo incômodo com os modismos literários e com a decadência da crítica no Brasil.

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30. Gloria Steinem

Gloria Steinem, ícone do feminismo e cofundadora da revista ‘Ms.’, morre aos 92 anos. Jornalista e ativista morreu em casa, em Nova York; ela foi uma das principais vozes da segunda onda do feminismo nos Estados Unidos

Por Eduarda Menina, O Estado, 03/09/2026

A jornalista e ativista Gloria Steinem, uma das principais figuras do movimento feminista nos Estados Unidos, morreu na última quarta-feira, 2, aos 92 anos. A morte foi anunciada nesta quinta-feira, 3, pela fundação que leva seu nome. A causa não foi divulgada.

Steinem morreu em sua casa, em Nova York, cercada por pessoas próximas. Em comunicado, a fundação afirmou que ela continuou trabalhando pela igualdade até o fim da vida.

Uma das vozes mais conhecidas da segunda onda do feminismo, Steinem dedicou décadas à defesa dos direitos das mulheres, com atuação em temas como liberdade reprodutiva, participação feminina na política, violência doméstica e desigualdade no mercado de trabalho.

No jornalismo, ganhou notoriedade em 1963 ao trabalhar disfarçada como coelhinha da Playboy para investigar as condições de trabalho das mulheres nos clubes da empresa. Anos depois, tornou-se uma das fundadoras da revista Ms., publicação criada na década de 1970 e dedicada a temas ligados aos direitos das mulheres.

Atuação política e legado feminista

Steinem também participou da criação do National Women’s Political Caucus ao lado de nomes como Bella Abzug, Shirley Chisholm e Betty Friedan. A organização buscava ampliar a participação das mulheres na política norte-americana.

A jornalista norte-americana Gloria Steinem, um dos maiores ícones do movimento feminista, morreu aos 92 anos, em Nova York Foto: @gloriasteinem via Instagram

Em 2013, recebeu do então presidente Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, maior honraria civil dos Estados Unidos.

No ano de 2017, em entrevista ao Estadão, Steinem falou sobre sua biografia Minha Vida na Estrada e refletiu sobre os avanços do movimento feminista. “A consciência vem antes da mudança física e agora, definitivamente, há consciência e alguma mudança também”, afirmou.

Leia a entrevista completa:

Ícone do feminismo, Gloria Steinem fala sobre sua biografia lançada agora no Brasil

Quando a americana Gloria Steinem aderiu à luta pelos direitos humanos e, sobretudo, pela causa feminista, a expressão violência doméstica não existia. Era como se aquilo fizesse parte da vida e ponto. A jornalista que se disfarçou de Coelhinha da Playboy para escrever sobre o famoso clube masculino; que estava no Lincoln Memorial, em 1963, quando Martin Luther King fez o histórico discurso ‘Eu tenho um sonho’; que ouviu Gay Talese fazer um comentário machista sobre ela a Saul Bellow quando estavam os três num táxi e ela tinha acabado de contar sobre uma entrevista que faria com Bobby Kennedy; que fundou a importante revista Ms. em 1971; e que voltou a marchar em Washington em março deste ano, com milhares de outras mulheres – e, desta vez, ela mesma fez um discurso –, viu muita coisa acontecer nas últimas seis décadas de ativismo. 

Nesses anos todos, Gloria escolheu a estrada – uma paixão que remete à infância e a seu pai. Onde quer que solicitem sua presença, sua voz, ou se uma questão lhe causa revolta, lá está ela. É essa história – a história de uma incansável mulher – que ela conta em Minha Vida na Estrada. O livro é dedicado ao médico que fez um aborto em Gloria, quando isso ainda era proibido na Inglaterra, e a fez prometer, aos 22, que faria o que quisesse com sua vida. Aos 83, ela falou ao Estado, por telefone, de Nova York – para onde volta ao final de suas andanças.

Como o fato de ter crescido em uma família como a sua, na estrada, a ajudou a se tornar quem é? Somos todos como aquelas bonecas russas. Nosso eu criança está sempre dentro de nós e depois vamos ficando mais velhos e mais velhos. Meu pai tinha dois motivos de orgulho: nunca ter usado chapéu e nunca ter tido um patrão. Isso me preparou para ser uma escritora e jornalista freelancer e para viajar como uma forma de viver. Naquela época, eu queria ser como as outras crianças, que viviam em casa, perto da escola, mas, olhando em retrospecto, valorizo o que aprendi. 

E sobre sua mãe? Com ela, aprendi a amar os livros e a escrita. Antes de eu nascer, ela queria seguir sua carreira como jornalista, mas não conseguiu. De uma certa forma, vivo a vida que ela não viveu.

A situação da mulher é melhor hoje, mas ainda não é boa o suficiente. Estamos nos contentando com pouco? O mundo é um lugar melhor para as mulheres hoje do que quando você começou ou esses avanços são ilusórios? Muito melhor porque hoje sabemos que não somos loucas; o sistema é que é louco. No meu tempo, por exemplo, não havia uma palavra para violência doméstica. Ela era chamada “vida”. E as mulheres eram culpadas pelo ato de seus maridos. Hoje, há abrigos para essas mulheres – e isso é um avanço enorme. A consciência vem antes da mudança física e agora, definitivamente, há consciência – e alguma mudança também. Mas ainda é verdade que o lugar onde a mulher americana corre mais risco de morrer é em sua própria casa. 

Quais são as questões enfrentadas já nos anos 1960 que ainda não foram resolvidas? Nos anos 1960, enfrentamos o fato de que estávamos vivendo uma guerra, uma guerra injusta. Além disso, o racismo crescia em todo o país, sobretudo no Sul por causa da luta pelos direitos civis e porque o sexismo está intrinsecamente ligado ao racismo e a uma certa ideia masculina de naturalismo. O movimento feminista surgiu de todas essas mudanças principalmente porque percebemos que é preciso ter controle sobre o corpo da mulher para manter a diferença de gênero. 

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A trajetória da jornalista também chegou ao cinema. Em 2020, sua história foi retratada em As vidas de Glória, dirigido por Julie Taymor e estrelado por Julianne Moore. Steinem seguiu escrevendo e participando de iniciativas ligadas aos direitos das mulheres até os últimos anos de vida.

As Vidas de Glória 2020 Trailer Oficial Legendado 

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31. Vera Sylvia Magalhães

Memória política - VERA SYLVIA MAGALHÃES = TV Câmara 2004. Aqui 

Na histórica imagem dos 40 presos políticos trocados pelo embaixador alemão von Holleben, Vera aparece à direita do grupo, sentada numa cadeira por não conseguir ficar em pé pelas torturas sofridas, pouco antes do embarque para o exílio, na base aérea do Galeão. Ao lado dela, agachado de camisa branca, Fernando Gabeira; atrás de Gabeira, em pé, de camisa quadriculada e braços cruzados, Daniel Aarão Reis.



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