quarta-feira, 11 de abril de 2018

John Huston: "Ele se esqueceu da humanidade"


John Huston (1906 - 1987) tem uma vasta participação na história do cinema. Como diretor são 47 filmes, ator, 54 e roteirista, 40.

Filmes obrigatórios (dentre muitos) na cinematografia de Huston:
Reflections in a Golden Eye (Os pecados de todos nós) de 1967, The night of Iguana (Noite do Iguana) de 1964, The misfits (Os desajustados) de 1961, Fat city (Cidade das ilusões) de 1972, The red badge of courage (Gloria de um covarde) de 1951.

Um filme fora desta lista é a superprodução A bíblia (The bible: in the beginning...) de 1966. São notáveis algumas cenas do filme: a criação (Gênese), a arca de Noé e a parte que mostra Abraão e Sarah. A bíblia de Huston termina em Abraão.

Jornalistas que acompanharam as filmagens de A bíblia tinham duas perguntas recorrentes. E Huston respondeu assim:

Sobre a Bíblia

Perguntaram se eu acreditava na Bíblia. Em geral eu respondia que o Gênese representava uma transposição do Mito, quando a criatura humana, perante a Criação e outros mistérios insondáveis, inventava explicações para o inexplicável; da Lenda, quando atribuía aos ancestrais qualidades heroicas de liderança, bravura e sabedoria; e da História, quando, tendo saído do Mito e da Lenda, descrições de proezas verdadeiras e acontecimentos vividos passavam de pai para filho antes do registro da palavra escrita.

Sobre Deus

A pergunta inevitável: eu acreditava em Deus? Minha resposta se resumia mais ou menos no seguinte: a princípio o Senhor se apaixonou pela humanidade e ficou, consequentemente, ciumento. Estava sempre pedindo provas de nossa afeição: vendo, por exemplo, se Abraão seria capaz de degolar o próprio filho. Mas depois, com o correr dos séculos, Seu ardor esfriou e Ele assumiu um novo papel – o de uma divindade generosa. Bastava o pecador se confessar e dizer que estava arrependido para Deus perdoa-lo. Essa foi a segunda etapa. Agora, ao que parece, Ele se esqueceu totalmente da humanidade. Passou, talvez, a se ocupar com a vida noutras partes do universo, noutros planetas. É como se tivéssemos deixado de existir, no que Lhe diz respeito. Pode ser até que tenhamos.
A verdade é que não professo nenhuma crença, no sentido ortodoxo do termo. O mistério da vida me parece muito grande, muito vasto e profundo, para provocar mais do que assombro. Pretender ir mais longe do que isso seria, no meu entender, uma impertinência.

Referência: John Huston, um livro aberto, LPM, 1980,

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Lula, o humano


El Pais,  ELIANE BRUM,  09/04/2018

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/09/politica/1523288070_346855.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM 

Compreender as contradições de Lula e do PT no poder é mais importante e urgente para o país do que construir um mito

“Eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia.” A frase do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva antes da prisão, no palanque do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, já se tornou célebre, como estava programado. Mas o símbolo deste momento para a história não foi o discurso, e sim a imagem feita de cima, em que aquele que acabara de se lançar não como candidato, mas como lenda, parece se transubstanciar na multidão: “Esse país tem milhões e milhões de Lulas”.



O problema daqueles que querem ser mitos em vida é a própria vida. A vida atrapalha o mito.
A vida lembra o mito, dia após dia, que ele é humano. Demasiado humano. E isso é perigoso para um mito. Consciente desse risco, Getúlio Vargas (1882-1954) se suicidou tendo o cuidado de deixar uma carta-testamento impecável para a história, num último lance de genialidade política. O “Pai dos Pobres” do Brasil do século 20 sabia que a vida atrapalhava a lenda.
Lula acredita que pode ser mito em vida, o corpo preso na cela da Polícia Federal da República de Curitiba, como uma morte simbólica, enquanto o mito atravessa o corpo da multidão. Foi nesse sentido os melhores esforços de Lula desde que a prisão se tornou uma possibilidade cada vez mais certa e mais próxima. As frases foram muitas nas últimas semanas, a mais messiânica esta aqui: “Eles estão lidando com um ser humano diferente, porque eu não sou eu, eu sou a encarnação de um pedacinho de célula de cada um de vocês”. O fato de que aquela que já se tornou a imagem histórica do momento ter sido a foto feita de cima não é um dado qualquer. De cima há mito. De baixo, nos interiores da multidão, há realidades e sentimentos mais humanos. Mas a foto já marca um ponto, mostrando que de política Lula entende bem mais do que Sérgio Moro, que apostava na foto de Lula preso, vencido pela Operação Lava Jato. E terá que lidar com a foto de um mito nos braços do povo. Não é um peso qualquer para um homem tão vaidoso quanto Moro, que também aspira a um lugar bonito na história. E ninguém quer o lugar de um Carlos Lacerda. A história, porém, é um ponto de interrogação, porque o passado é construído no futuro. E nada parece mais incerto do que o futuro no Brasil. A memória de Lula ainda está em disputa.
O futuro é imprevisto também na forma como a memória será construída no mundo que virá. Ainda não somos capazes de compreender como a internet repercute e muda o que chamamos de memória. O futuro do Lula histórico não será determinado pelos livros de história escritos por acadêmicos ou biografias feitas por jornalistas – ou pelo menos não só por eles – como aconteceu com Vargas e outros ícones da trajetória do Brasil. E isso já é um dado novo deste momento. Só saberemos mais adiante se um mártir de esquerda na cadeia tem a força que teve no futuro do passado, quando a internet não estava posta na construção das narrativas.
Lula está preso, não morto. Lula ainda está no jogo do presente.

1) O dia mais triste

7 de Abril de 2018 é talvez o dia mais triste da história recente. Para Lula, o humano, e para todos os brasileiros. Qualquer pessoa que não teve seus neurônios infectados pelo ódio – e uma das características do ódio é ser burro – é capaz de perceber a gravidade representada por um político que encarnava o projeto de pelo menos duas gerações de brasileiros, um projeto que de forma nenhuma pertencia apenas a ele, ser acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. E ser preso por isso sem provas convincentes no momento em que está em primeiro lugar nas pesquisas para a eleição de 2018.
Qualquer brasileiro sério é capaz de perceber o abismo que isso representa para o Brasil. A dureza desse momento não para Lula, mas para o que chamamos “nós”, o que de fato não existe, ou só existe em alguns momentos de síntese.
As panelas batendo com fúria nas janelas dos bairros “nobres” de São Paulo é o som da nossa vergonha como país. A de que as pessoas que tiveram o privilégio de estudar, num Brasil tão desigual, sejam incapazes de compreender a gravidade do momento histórico. Esse ódio mascarado de alegria é o rosto contorcido de uma distorção. Esse ódio mascarado de alegria é obsceno. Mas estas são as pessoas do alto, as pessoas que podem olhar e interferir no mundo sem sair da janelinha. O fato de que batam panelas nos edifícios, em vez de irem às ruas lutar pelo Estado de Direito, num país tomado pelo Cotidiano de Exceção, é a expressão do fracasso do projeto de conciliação que Lula representou na prática, embora não tenha sido este o projeto que muitos que o elegeram acreditavam.
Perdemos muito no 7 de abril de 2018. Perdemos bem mais do que de 7X1. A forma como correu o processo de Lula, muito mais rápido do que a maioria, instalou dúvidas sobre a justiça. O julgamento do habeas corpus de Lula pelo Supremo Tribunal Federal, votando um caso particular em vez de decidir sobre a prisão após a segunda instância, instalou dúvidas sobre a justiça. A clara cisão do STF durante o julgamento instalou dúvidas sobre a justiça. A rapidez com que Sérgio Moro decretou a prisão instalou dúvidas sobre a justiça.
As instituições fracassaram. Não para os interesses privados de alguns, mas para o que deveriam representar para o conjunto dos brasileiros, o que deveriam ser para além do “sentimento social”. O STF, afogado em vaidades e convertido em palanque, se apequenou (um pouco mais). A maldição do protagonismo sem formação política, uma das mazelas dos dias atuais que atinge também juízes e procuradores, encolheu ainda mais a sensação de justiça. E tudo o que o Brasil não precisava neste momento tão delicado era de mais dúvidas sobre a justiça.

2) Um “reply” ao general

A intervenção do general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro, na véspera do julgamento do habeas corpus no Supremo, foi uma afronta à democracia. Mas como o governo que aí está já é uma afronta à democracia em sua própria existência, o general não recebeu nenhuma punição. Como o governo que aí está é resultado de um impeachment sem fundamento legal, da deposição de uma presidente ruim, mas legitimamente eleita, o general continua na ativa, ativíssimo. Como o governo é encabeçado por um presidente, Michel Temer (PMDB), atolado em denúncias de corrupção, rodeado por um ministério que em parte é uma quadrilha, outros militares já proclamaram ameaças à democracia e nada aconteceu com eles. Entre todas as transformações trazidas pelas redes sociais, ninguém imaginou que agora o Brasil seria assombrado também por “generais de Twitter”. Ao se manifestar pelo Twitter na véspera do julgamento de um ex-presidente pela Suprema Corte, o general afirmou: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”. Sim, general, brasileiros como eu reivindicam há décadas que os militares e os agentes civis que assassinaram, sequestraram e torturaram milhares de pessoas no Brasil, inclusive crianças, a serviço do Estado e durante uma ditadura que durou 21 anos sejam investigados, denunciados, julgados e responsabilizados. Eu e muitos repudiamos a impunidade dos assassinos, sequestradores e torturadores do regime de exceção que se instalou quando os militares colocaram seus tanques nas ruas, apoiados por parte da sociedade civil.
Tenho escrito neste espaço que parte da corrosão da atual democracia se deve ao fato de que o Brasil não fez memória sobre a ditadura. E só se faz memória com responsabilização. Com assassinos, sequestradores e torturadores de farda ou à paisana circulando livremente pelas ruas, o país entende que a vida humana vale muito pouco. E este é um dado histórico do Brasil, país fundado sobre os corpos de indígenas e de negros, que a impunidade dos criminosos do regime acentuou, com as consequências que aí estão.
Assim, já passou há muito da hora de acabar com a impunidade dos agentes do Estado que assassinaram, torturaram e sequestraram. Mas, em vez disso, o senhor, general, que acabou de repudiar a impunidade no Twitter, pediu uma espécie de anistia prévia aos militares que hoje participam da intervenção federal no Rio de Janeiro, para que não sejam responsabilizados quando matarem civis: “Os militares precisam ter garantia para não enfrentar daqui a 30 anos uma nova Comissão da Verdade pelo que vamos enfrentar no Rio durante a intervenção”.
Assim, general, nosso conceito de “cidadão de bem” é diferente. Cidadão de bem não mata, não tortura e não sequestra. E cidadão de bem não defende a impunidade de assassinos, torturadores e sequestradores, tenham eles fardas ou não, estejam a serviço do Estado ou não. E cidadãos de bem não botam uma baioneta no pescoço do Supremo Tribunal Federal. O senhor é um funcionário público, pago pelo povo brasileiro, e a Constituição afirma que sua intervenção foi indevida.

3) O quanto perdemos todos

Se a vida que segue pode atrapalhar Lula no seu propósito de virar lenda, o mito que Lula quer se tornar atrapalha a vida dos brasileiros. Lula controlou a iconografia da sua prisão. Ao fazê-lo, as contradições do Lula humano foram apagadas pelo Lula mito. Seus oponentes podem ter conseguido impedi-lo de ser candidato nas eleições de 2018, pleito em que ele lidera nas pesquisas de intenção de voto. Mas não conseguiram fazer com que isso soasse como justiça para uma parcela significativa da população, acentuando a crise do país e interditando ainda mais a possibilidade de debater, com a seriedade necessária, o múltiplo e contraditório legado de Lula.
É claro que há uma parcela que bate panelas e veste a camiseta da seleção, mas há muitos que não. E mesmo críticos aos governos de Lula e de Dilma Rousseff sentiram-se enojados pela forma como o processo foi conduzido pelas instituições.
Sem compreender as contradições de Lula no poder (e de Dilma Rousseff, sua escolhida, logo em seguida), torna-se difícil construir um novo projeto de esquerda capaz de aglutinar uma parte do Brasil. E mesmo a direita, pelo menos a séria, deveria desejar que existisse um novo projeto de esquerda, porque para a democracia esse diálogo é essencial. O Brasil governado por Lula teve aumento real de salário mínimo, teve redução significativa da miséria, teve ampliação do acesso à universidade, teve melhorias importantes no Sistema Único de Saúde (SUS), teve cotas raciais (uma ação afirmativa ainda tímida, mas essencial), teve garantia de crédito para os mais pobres. Isso não é pouco. Não é mesmo. E se fará sentir no Brasil por muitas décadas. As principais vozes de resistência das periferias urbanas hoje nasceram dessa experiência e desse acesso a mundos até então barrados.
A realidade de um operário ocupando o poder pelo voto num país como o Brasil teve um impacto na vida dos brasileiros que não há como dimensionar com exatidão, porque em grande parte subjetivo, mas que é uma enormidade. E isso Lula fez – e ninguém pode tirar dele.
Mas o Brasil governado por Lula, principalmente após o segundo mandato, e levado adiante por Dilma Rousseff, sua escolhida, aliou-se ao que havia de pior nas oligarquias brasileiras, de José Sarney aos ruralistas, enfraqueceu os movimentos sociais, capitulou diante de questões como a descriminalização do aborto e a legalização das drogas, avançou pouco (no caso de Dilma quase nada, e às vezes retrocedeu) na regularização fundiária e na demarcação de terras indígenas e unidades de conservação, acentuou o aumento da população carcerária em condições torturantes, ao manter a política falida de “guerra às drogas”, criminalizou manifestantes e manifestações e, por fim, fez as grandes hidrelétricas na Amazônia – Santo Antonio e Jirau, no rio Madeira, e Belo Monte, no Xingu, desencadeando processos de graves violações aos direitos humanos e agravando o desmatamento da floresta e a contaminação dos grandes rios amazônicos. E, importante: em seu projeto de conciliação, Lula não tocou na renda dos mais ricos.
A visão de Lula para a Amazônia mostrou-se muito semelhante à da ditadura civil-militar (1964-1985). É uma visão colonizadora e exploradora. E provocou uma grande destruição, ainda em curso, dos povos da floresta, os humanos e os não humanos.
Lula é um homem plantado no século 20 e parece só conseguir enxergar o mundo em termos de capital-trabalho. Revelou-se incapaz de compreender outras formas de viver que não fossem as mediadas pelo emprego, nem outro conceito de felicidade que não fosse ter churrasco no fim de semana, cerveja na geladeira e um carro na garagem.
Como homem do ABC Paulista, muito mais do que menino do semiárido nordestino, até nos últimos discursos ele defendia os carros nas ruas em vez de transporte público coletivo e de qualidade. Seu governo e especialmente o de Dilma Rousseff calaram as vozes da floresta e os modos de viver da floresta, silenciando o que havia de mais original nos Brasis. Lula foi avisado disso, mas nunca foi capaz de escutar – ou nunca lhe foi conveniente escutar.
Há vários Lulas. E há inclusive o líder absoluto do partido que se corrompeu no poder como outros partidos que o antecederam. O que não é de forma alguma um dado qualquer, porque o PT foi apoiado por pelo menos duas gerações de brasileiros por ter se comprometido a levar ética à política. Lula elegeu-se dizendo que sabia que não podia errar. E errou. E muito.
Com o Direito sem Justiça que marcou a sua prisão, as contradições são apagadas no esforço do mito. E as contradições não devem e não podem ser apagadas. Não por uma questão de vingança, como tanto querem alguns oportunistas, mas porque é urgente recriar um projeto para o país. E não se cria um projeto sem acolher todas as complexidades de uma experiência tão importante quanto foi a do PT no poder. No caso de Lula, o Brasil está submetido aos afetos. Quem odeia Lula, como encarnação de todos os males, só enxerga uma parte. E quem ama Lula, também como ato desesperado para não se ver diante das ruínas de um projeto tão caro, se mostra incapaz de ver a outra parte. É chocante ler análises da esquerda que acham possível escrever sobre o momento negando a corrupção evidente do PT no poder. E ignorando o que Belo Monte causou na vida justamente dos mais desamparados. Assim como é chocante ver Lula demonizado por gente que se beneficiou enormemente com o seu governo, um governo que não deixou apenas os pobres menos pobres, mas os ricos mais ricos. Com a sensação de que a prisão foi uma injustiça, a cisão entre os Lulas continua. E se torna cada vez mais difícil juntar todas as partes do quebra-cabeça dessa experiência de poder, inclusive e especialmente suas contradições. Sem contar que, para parte da esquerda, tanto a que se sentiu muito traída quanto a que começava tardiamente a se sentir constrangida, a criação de um mártir pode ser o melhor acontecimento. Assim, as perguntas difíceis, que são as mais importantes, ficam adiadas para talvez nunca mais. Tanto as que cada um deve fazer a si mesmo, como exercício interno, quanto as que devem ser feitas e debatidas em público, na expressão coletiva.
Esse constante adiamento das perguntas difíceis é mais uma tragédia num país que vive aos espasmos desde 2013. Sem as perguntas difíceis, o Brasil continuará girando em falso. Pode ser bom para o mito Lula, assim como para outros candidatos a mito e seus egos gigantescos, mas é ruim para o Brasil e para os brasileiros.

4) O que eu desejaria para Lula e o Brasil

Eu acreditaria em justiça no Brasil se, primeiro, os agentes do Estado que assassinaram, sequestraram e torturaram durante a ditadura civil-militar fossem julgados e punidos. Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os aqueles que são responsáveis pelo genocídio cotidiano dos jovens negros nas periferias urbanas, policiais e não policiais, fossem julgados e punidos. Eu acreditaria em justiça no Brasil se os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes fossem denunciados, julgados e punidos. Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os mandantes e pistoleiros que executaram ambientalistas, defensores de direitos humanos, pequenos agricultores, indígenas, ribeirinhos e quilombolas na Amazônia fossem investigados, denunciados, julgados e punidos.
Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os presos sem condenação no sistema penitenciário fossem libertados e o Estado pagasse indenização pelo período que ficaram encarcerados sem julgamento. Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos as mulheres presas por aborto fossem libertadas. Eu acreditaria em justiça no Brasil se ninguém mais fosse preso por portar quantidades pequenas de drogas nas favelas e periferias e as ações se concentrassem em quem realmente lucra com o mercado ilegal de drogas e de armas.
Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os corruptos, de todos os partidos, a começar pelos que estão hoje no Executivo e no Congresso, fossem julgados e presos. Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os corruptos da iniciativa privada fossem julgados e presos, assim como aqueles empresários que colaboraram com o assassinato, a tortura e o sequestro de pessoas na ditadura-civil militar.
Eu acreditaria em justiça no Brasil se a ministra Rosa Weber fosse criticada por ter suspendido por liminar, quatro dias antes do Natal, os efeitos expansivos da proibição de todos os tipos de amianto no Brasil. A justificativa da ministra era a de seria necessário esperar o prazo para os advogados apresentarem embargos de declaração contra o entendimento do plenário, que estendeu a proibição da fibra cancerígena para todo o Brasil. Ela, que tanto defende a decisão do colegiado, tomou uma decisão monocrática. Enquanto isso, o amianto, que tem matado milhares de brasileiros há décadas e é proibido na Europa e em vários países do mundo, segue sendo produzido e comercializado nos estados em que não é proibido: a maioria.
Eu acreditaria em justiça no Brasil se os brasileiros cobrassem de Lula e de Dilma Rousseff por que razão nunca levaram adiante o banimento do amianto, que matou e adoeceu – e segue matando e adoecendo até hoje – trabalhadores pobres da indústria, trabalhadores cuja vida pelo menos Lula deveria conhecer.
Eu acreditaria em justiça no Brasil se Lula e Dilma Rousseff fossem responsabilizados pela violação de direitos humanos e não humanos na floresta amazônica, e especialmente na construção de Belo Monte. E eu acreditaria ainda mais em justiça no Brasil se os brasileiros se importassem com isso.
Eu desejaria que Lula fosse candidato a presidente e que fosse derrotado nas urnas pelo que fez no Xingu e em outros rios amazônicos. Pela Força Nacional enviada pela sua escolhida, Dilma Rousseff, para reprimir operários em greve no canteiro de obras de Belo Monte. Pela Força Nacional impedindo o direito de manifestação de indígenas e ribeirinhos no canteiro de obras de Belo Monte. Pelos ribeirinhos e pequenos agricultores e pobres urbanos que assinaram com o dedo papéis que não eram capazes de ler para que Belo Monte pudesse ser construída sem “entraves” humanos. Pelo etnocídio indígena na região do Xingu causado por Belo Monte. Eu acreditaria em justiça no Brasil se Lula fosse derrotado por ter materializado Belo Monte no Xingu e, com isso, ter produzido pobres na periferia de Altamira.
Se isso acontecesse, uma derrota pelo voto em nome dos direitos humanos e dos direitos dos povos da floresta, o Brasil avançaria. Mas isso não acontece no Brasil atual.
Ainda assim eu desejaria que Lula fosse candidato e disputasse a eleição no processo democrático. E possivelmente ele venceria, pela simples razão, que também é legítima, de que a maioria começa a concluir que a vida estava melhor no seu governo. E os brasileiros são sobreviventes – e muito pragmáticos.
Mas eu desejaria também que Lula fosse candidato e fosse eleito para que as pessoas tivessem que lidar com o fato de que pouco se importam com a corrupção desde que sua vida esteja razoável. Mas principalmente eu desejaria que Lula fosse candidato para que as pessoas sejam obrigadas a lidar com o fato de terem votado e talvez eleito o presidente que tornou Belo Monte possível. E assim tivessem que lidar com a sua hipocrisia cheia de verbos e de boas intenções, protegidas pela distância dos que morrem de várias maneiras no Xingu e nas Amazônias. E tivessem que lidar com o fato de que sua preocupação com os direitos humanos é seletiva.
Mas o Direito sem Justiça interditou o processo dos desejos.

5) A volta do humano

A mística que antecedeu a prisão – missa + discurso – foi cuidadosamente planejada para que Lula voltasse a ser o Lula que já não é. O Lula que liderou as greves do ABC Paulista, fundou o PT e fez as Caravanas da Cidadania. A linguagem, os gestos, o conteúdo. Mas o que já não é não pode voltar a ser.
Há, entre um Lula e o outro, pelo menos oito anos de poder direto, como presidente, mais os cinco anos e meio de Dilma Rousseff, sem contar a Carta ao Povo Brasileiro, na eleição de 2002. O discurso soava, como tem soado há algum tempo, uma imitação do Lula jovem feita pelo Lula velho. Mas num mundo já diferente. Como algumas bobagens sobre as mulheres que se tornaram constrangedoras, os habituais jogos para a torcida e uma espécie de conversão em Jesus. Esse Lula era, já não é. O que não impede que esse discurso ainda mova – e comova – muita gente que gostaria que ele ainda fosse o que já não pode ser.
Neste sentido, o de Lula foi um discurso mais de apagamentos, o que é fundamental para quem pretendia sair dali como mito, do que de construções. Por isso também a foto se tornou muito mais importante. O domingo passou com várias mensagens de WhatsApp: “Essa foto é a foto oficial que Lula enviou e pede que seja a mais disseminada por todos. Eles terão a foto que tanto querem, Lula preso terá o povo”. Não há como afirmar se foi “Lula que enviou”, mas é possível afirmar que ele sempre foi um bom biógrafo de si mesmo. Não deixa de ser fascinante essa construção de mitologia em vida.
Para efeitos imediatos, o ato mais importante do discurso foi o gesto de lançar, simbolicamente, Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D'Ávila(PCdoB) como seus herdeiros, pregando a união das esquerdas neste momento limite. Ambos são pré-candidatos à presidência nas eleições de 2018. Boulos representa uma das forças mais potentes deste momento, os movimentos de sem-teto nas cidades, que de certo modo ocupam o lugar que foi do MST na trajetória de Lula. Manuela carrega a potência dos novos feminismos, mostrando na vivência da política também uma experiência diversa de maternidade. São as duas figuras mais interessantes da nova política. O gesto marca também o abismo do PT. Em grande parte por causa da onipresença de Lula, não há ninguém no próprio partido com força suficiente para representar o futuro e liderar uma aliança de esquerda. Lula não fez seu Lula dentro do PT. Nem permitiu que fizessem.
Mas o gesto foi bonito – e se há uma cena com grandeza neste momento, é a de Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila juntos. Ainda falta se mostrarem capazes de compor de fato com a floresta e os outros modos de viver dos Brasis.
Compreender o homem que Lula é, assim como a experiência do PT no poder, é mais importante e urgente para o país do que construir um mito. Sem acolher as contradições, o Brasil seguirá com “um enorme passado pela frente”, apesar de tudo o que representou a chegada de um operário ao poder.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum










segunda-feira, 2 de abril de 2018

2001: uma odisseia no espaço


Meio século depois, '2001' se mantém atual e ainda explica humanidade
Efeitos especiais revolucionários e intensa pesquisa sobre o futuro da tecnologia ajudam a entender sucesso

Helen Beltrame-Linné
Folha de São Paulo, 02/04/2018

RESUMO ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’ completa 50 anos como um dos filmes mais importantes da história. A frutífera parceria entre Kubrick e Clarke, Arthur C. Clarke(1917-2008) os efeitos especiais revolucionários, a precisão obsessiva com sons e imagens e a intensa pesquisa sobre o futuro tecnológico ajudam a explicar tamanho sucesso.
 Ao iniciar o projeto de "2001: Uma Odisseia do Espaço", Stanley Kubrick (1928-99) afirmou: "Eu quero fazer o primeiro filme de ficção científica que não seja considerado um lixo".
Passadas cinco décadas do lançamento do longa, a pretensão de Kubrick soa modesta. Dentre tantas celebrações que terá pelo mundo, a do Festival de Cannes deste ano se anunciou superlativa: "50 anos atrás, um filme mudou todos os filmes para sempre".
Na época da declaração, no entanto, nada sugeria que "2001" viria a se firmar como um dos maiores filmes da história —e muito menos que pudesse resistir praticamente incólume à passagem do tempo.
É verdade que o diretor americano criado no Bronx, em Nova York, já havia se aventurado por diversos gêneros cinematográficos e mostrado talento para reinventá-los.
"O Grande Golpe" (1956), um misto de filme de gângster com filme noir, "Glória Feita de Sangue" (1957), uma obra de guerra, "Spartacus" (1960), um longa histórico, e "Lolita" (1962), uma comédia negra, atestam a habilidade de Kubrick em trabalhar com criatividade em categorias bem distintas.
Alcançar sucesso com uma ficção científica, porém, era outro tipo de desafio, pois se tratava de gênero ainda sem prestígio.
Sua vontade de se aventurar com um "filme de ETs", como disse num jantar ao produtor Roger Caras em 1964, não surgiu por acaso. Naquela década, a Nasa investia pesado em missões espaciais e o programa Apollo estava a todo vapor.
Caras abraçou a ideia sem titubear e iniciou o contato com Arthur Clarke, astro da literatura de ficção científica. A parceria entre Kubrick e o escritor inglês resultou em duas obras: "2001", o filme, lançado em 2 de abril de 1968, com roteiro assinado pelos dois, e o romance homônimo, publicado pelo britânico em junho daquele mesmo ano (do qual Kubrick ficou com 40% dos direitos autorais).
No dia em que fecharam o acordo para começar os trabalhos, os dois passaram o fim de tarde na varanda do apartamento do diretor, em Nova York. De lá, avistaram no céu um ponto de luz que se estabilizou acima do horizonte. Não se movia; não poderia ser um satélite, concluíram. Por dez minutos, revezaram-se no telescópio, deslumbrados. "Isso é coincidência demais. Eles [alienígenas] estão querendo nos impedir de fazer esse filme", disse Clarke.

A JORNADA DO HERÓI

Foi um encontro de almas. O "enfant terrible" do cinema americano passou a ter no escritor inglês um companheiro para dividir seu interesse por vida extraterrestre. Os maiores frutos dessa colaboração, contudo, brotaram não de suas semelhanças, mas de suas diferenças.
Kubrick era um cético, como seus filmes anteriores evidenciavam: a fragilidade humana em "O Grande Golpe", os horrores da guerra em "Glória Feita de Sangue", a loucura da corrida armamentista em "Dr. Fantástico".
Clarke era um otimista. Acreditava que a salvação da humanidade residiria em descobertas científicas e invenções tecnológicas.


Stanley Kubrick (esq.) e Arthur C. Clarke no escritório do cineasta, nos anos 60

Diante dessa oposição, Kubrick buscou um terreno filosófico comum nos estudos de Joseph Campbell. Logo no início da colaboração, o cineasta pediu ao escritor que lesse "O Herói de Mil Faces" (1949), obra fundamental da mitologia comparada, em que Campbell defende que a jornada de todos os heróis mitológicos inclui três fases: separação, iniciação e retorno.

"Foi uma ideia a que ambos puderam aderir, Clarke com seu otimismo inato quanto às possibilidades humanas, e Kubrick com seu ceticismo profundamente arraigado", analisa Michael Benson em "2001: Uma Odisseia no Espaço" (que a Todavia lança neste mês).
O autor continua: "Foi esse aparente entrelaçamento contraditório de visões de mundo que conferiu a '2001: Uma Odisseia no Espaço' sua instigante fusão entre agnosticismo e fé, entre cinismo e idealismo, entre morte e renascimento".
O grande mérito de "2001" reside na expansão desse entendimento sobre o herói dos mitos, que os autores aplicaram não a um único indivíduo, mas à trajetória de toda a humanidade. "De macaco a anjo", como Kubrick definiria mais tarde.
As palavras do diretor aludiam a "Assim Falou Zaratustra" (1883), obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, na qual os seres humanos aparecem como uma espécie em transição, alguma coisa entre o macaco e o que o autor chamou de "super-homem".
"2001" é praticamente a transposição visual dessa ideia. Começa na pré-história, onde símios aprendem a usar ossos como armas depois da chegada de um monólito alienígena; passa pela descoberta, em 2001, de um objeto similar enterrado na superfície lunar; continua com uma jornada espacial para Júpiter, 18 meses depois, em busca de vida extraterrestre; e termina com o encontro do astronauta protagonista com o monólito, ingressando em um portal de espaço-tempo no qual acaba sendo devolvido à condição de feto.

SILÊNCIO E MÚSICA

"Primeiro movimento: Aurora. O homem sente o poder de Deus. Andante religioso. Mas o homem ainda anseia. Ele mergulha na paixão (segundo movimento) e não encontra paz. Ele se vira para a ciência e tenta em vão resolver os problemas da vida em uma fuga (terceiro movimento). Soam as agradáveis músicas de dança e ele se torna um indivíduo. Sua alma se eleva para cima, enquanto o mundo vai afundando debaixo dele."
Poderia ser uma sinopse poética de "2001", mas se trata da introdução escrita por Richard Strauss para "Assim Falou Zaratustra", obra musical de 1896 que ele definiu como uma sugestão sonora do estado de espírito do texto literário.

https://www.youtube.com/watch?v=RJKsp9_L24Q 

Kubrick faz uso similar da composição: é o primeiro trecho da obra de Strauss, "Aurora", que dá o tom daquela que se tornaria uma das aberturas mais clássicas do cinema de ficção científica, inspiração para outros filmes do gênero, como a saga "Guerra nas Estrelas".
A música sempre teve papel fundamental na obra do cineasta. Uma de suas citações mais famosas, revelada por Norman Kagan em "The Cinema of Stanley Kubrick", nunca editado no Brasil, é esta: "Um filme é —ou deve ser— mais como música do que como ficção".
A prevalência do aspecto sensorial sobre o verbal em "2001", contudo, não estava dada desde o princípio. No primeiro rascunho de roteiro, Clarke havia escrito uma longa narrativa em off, marcadamente descritiva, que lhe parecia essencial para dirimir dúvidas e incertezas do espectador.
Com o filme em produção, era comum que o escritor aparecesse no estúdio com novas sugestões de narração, que escrevia depois de considerar incompreensíveis algumas cenas filmadas. O diretor, entretanto, caminhou cada vez mais no sentido de eliminar diálogos e deixar as coisas subentendidas.
Em novembro de 1967, Clarke enviou um telegrama para Kubrick: "Acabei de retornar turnê de palestras duas semanas 16 mil km passei cada minuto livre trabalhando narração como solicitado". O cineasta respondeu sem rodeios: "Lamento pela narração. Conforme o filme é montado, ficou evidente que a narração não será necessária".
Ao assistir ao filme dois dias antes do lançamento, Clarke não escondeu sua decepção com a falta de didatismo. "Fui um impulsionador da primeira etapa e, ocasionalmente, ofereci orientação. Mas este é, realmente, um filme de Stanley Kubrick", teria declarado.
Livro e filme se distanciaram de maneira radical durante as filmagens. No início, Kubrick disse para Clarke: "Tudo que você puder descrever, eu consigo filmar". Com o tempo, entretanto, foi se tornando clara a distinção que passou a fazer entre as duas obras: "Escreva a coisa do jeito que quiser. Faça o que quiser para deixar a história clara. O livro é seu".
O romance, que se diz "baseado no roteiro de Stanley Kubrick e Arthur Clarke", acabou se tornando uma espécie de manual de instruções do filme, procurado por espectadores perplexos e decididos a decifrar seus mistérios.
"2001", o longa-metragem, dispensou totalmente a narração em off e tem trechos inteiros em que não se ouve nada além de silêncio ou, no máximo, sons abafados de respiração. A versão final, com 149 minutos, tem menos de 40 minutos de diálogos, nenhum deles nos 20 minutos iniciais ou finais. O resto é silêncio —e música.
Como declarou um dos supervisores de efeitos especiais, Douglas Trumbull, "as escolhas musicais de Kubrick às vezes aconteciam em resposta a um ritmo visual que ele já havia determinado".
Por exemplo: o clássico "Danúbio Azul", de Johann Strauss 2º, coincide com a coreografia das aeronaves do filme. "Réquiem", de György Ligeti, traduz a sensação sonora que o monólito suscitava na imaginação do cineasta.

https://www.youtube.com/watch?v=Jcqg7_94wQc 

https://www.youtube.com/watch?v=wawSCvuGj4o 

FICÇÃO E CIÊNCIA

A precisão obsessiva de Kubrick com os sons se estendia às imagens. E é justo dizer que Clarke não se preocupava só com o texto. Ambos demonstraram verdadeira neurose acerca da construção de uma realidade futurística tecnologicamente crível.
A dupla se dedicou profundamente à pesquisa de tecnologia e detalhes da estrutura material do porvir. Kubrick cercou-se de consultores da Nasa, que fizeram o design das espaçonaves, e encomendou figurinos a especialistas que transpuseram as tendências da época ao futuro distante.
O próprio escritor incorporou ao roteiro algo que viu em uma de suas visitas aos laboratórios da empresa Bell: o computador IBM 7094, munido de um sintetizador de voz, tornou-se a primeira máquina a cantar uma música. O episódio está na raiz da cena em que HAL entoa, agonizante, "Daisy Bell (Bicycle Built for Two)", enquanto o protagonista o mata desligando sua memória.

https://www.youtube.com/watch?v=OuEN5TjYRCE 

O esforço de Kubrick e Clarke não tornou a obra premonitória —já se vão quase duas décadas desde o ano 2001 e a humanidade ainda não atingiu o patamar de avanço tecnológico imaginado—, mas salvou o filme de um destino comum na ficção científica: tornar-se kitsch e datado com o passar do tempo ("Star Trek" e os primeiros volumes de "Guerra nas Estrelas", por exemplo, não escaparam à armadilha).

A longevidade de "2001", contudo, não se explica apenas pelo intenso trabalho de pesquisa. O filme contou com métodos revolucionários de criação de efeitos especiais, desde "back projection" (projeção por trás de uma tela) —em vez da projeção frontal, padrão da época— até o uso de filtros negativos e "slit-scan" (processo de registro de imagem com slide móvel).
Foram quatro os supervisores de efeitos especiais de "2001" —Wally Veevers, Douglas Trumbull, Con Pederson e Tom Howard—, mas nenhum deles foi indicado ao Oscar da categoria. Como só podiam ser indicadas três pessoas por prêmio, a produção deu o nome de Kubrick, que acabou levando aquela que seria a única estatueta de sua carreira.
Com carta branca do estúdio e orçamento recorde para um gênero desvalorizado (US$ 10 milhões à época), Kubrick rodou quase 500 horas de material e concebeu quantidade enorme de cenas icônicas, para as quais contribuíram seu passado de fotojornalista e a admiração por diretores como Ingmar Bergman, cujo uso de simetrias encantava o americano.
Além do bom gosto na composição das tomadas e do formato grandioso que escolheu (Panavision 65 mm), outras decisões favoreceram a perenidade estilística de "2001". Por exemplo, a opção por alienígenas inorgânicos, na figura do monólito negro, em vez de seres figurativos, que tendem a se tornar ridículos com o tempo.
Kubrick e sua esposa, Christine, discutiram muito sobre como seria a aparência da vida extraterrestre do filme, até que ele decidiu por um objeto no formato de um maço de cigarros gigante da cor preta: "O monólito deixa um vácuo aberto, que sentimos quando tentamos imaginar o inimaginável", afirmou.
Deixar o máximo a cargo da imaginação do espectador foi o caminho seguido pelo diretor Andrei Tarkóvski em "Solaris", a ficção científica apontada por muitos como a resposta russa a "2001".
Tarkóvski criticou duramente a obsessão de Kubrick em fazer uma constituição futurística e, em entrevista de 1970, declarou que isso havia transformado o filme do americano "enquanto obra de arte, num esquema sem vida, apenas com pretensões à verdade".
A declaração pode ser vista como uma defesa prévia de "Solaris", cujo roteiro o russo desenvolvia à época, já consciente de que não teria orçamento para nenhum efeito especial comparável aos de "2001".
Mas, ao despir seu filme da vocação detalhista de Kubrick, Tarkóvski acabou se concentrando numa reflexão sobre o espírito humano e sobre as questões morais e existenciais enfrentadas diante dos avanços da ciência.

HOMEM E MÁQUINA

Em investigação similar, senão mais profunda, "Blade Runner" (1982), de Ridley Scott, lida com dilemas criados pela inteligência artificial, tendo ciborgues multifacetados e complexos no centro da trama.
Em "2001", o único exemplar de inteligência artificial é HAL, inicialmente concebido como figura humanoide, mas que acabou com identidade visual simples, representado por espécie de webcam com um ponto de luz vermelha.
Sua voz foi cuidadosamente dirigida pelo cineasta, que pretendia evitar a todo custo um excesso de sentimentalismo. Kubrick acompanhou a gravação pessoalmente, sentado ao lado do ator Douglas Rain, a quem pediu que mantivesse o tom calmo e os pés esticados em um travesseiro.
Ainda assim, Kubrick injetou aspectos humanos em HAL. Além da sinistra humanidade de sua morte, o computador tem falas que remetem ao estado de espírito do próprio diretor àquela altura, depois de anos de trabalho intenso com o filme ("Estou constantemente ocupado. Trabalho no limite de minha capacidade, o que é, creio, tudo o que qualquer ser consciente pode esperar fazer").
A tensão entre o homem e a máquina superinteligente é mais um traço de permanência do filme. O físico Stephen Hawking, por exemplo, já perto de sua morte no mês passado, insistia em dizer que o desenvolvimento de inteligência artificial completa poderia significar o fim da raça humana. O empresário inovador Elon Musk chegou a afirmar que, "com a inteligência artificial, estamos convocando o demônio".
Se ainda não existem ciborgues como os de "Blade Runner" nem computadores como HAL —interessado em ouvir uma conversa secreta por meio de leitura labial—, os avanços tecnológicos do século 21 mostram que Kubrick não errou o alvo completamente.
Hoje, câmeras monitoram movimentos em locais públicos e privados; algoritmos identificam padrões, decifram necessidades, antecipam desejos e propiciam novas maneiras de manipular parcelas expressivas da sociedade. As máquinas ainda não prescindem do ser humano, mas já fazem quase tudo o que HAL fazia.
Ainda falta o monólito salvador de "2001", que eleva o protagonista do filme a um estado de placidez e harmonia. Mas o objeto negro ("black mirror"?) existe.
O monólito de 2018 está acoplado ao corpo humano, quase uma extensão dos membros superiores. Aparelhos celulares e tablets que têm se mostrado fonte de tristeza, solidão e discórdia, muito mais do que de iluminação.
A semelhança do iPhone com o monólito só não é mais assombrosa porque Steve Jobs e seus colegas são fruto da cultura que bebe consciente ou inconscientemente em Kubrick. É uma geração que conheceu "2001" ainda criança e que carrega o filme em seu imaginário.
No enredo do longa, a equipe que avista o misterioso objeto negro na Lua, procurando manter segredo sobre a descoberta, inventa a história de que haveria uma epidemia na base lunar. No episódio inicial do filme, o efeito do monólito nos símios é epidêmico: o primeiro animal transforma o osso em ferramenta/arma, e não tarda para que seja imitado pelos outros.
O paralelo com a atualidade salta aos olhos: adultos, jovens e crianças vivem afundados nesses monólitos portáteis, com consequências que vão de epidemias de obesidade, depressão e suicídio até atentados com armas.

REDENÇÃO

Em "2001", o monólito pode ser visto como um viabilizador da redenção do homem, que atinge finalmente a condição do super-homem de Nietzsche. A transformação ocorre quando a velhice toma conta do astronauta, que, num passe de mágica, volta à condição de feto. O círculo da vida se fecha e coexiste naquele instante; o protagonista completa a missão, que pode ser vista como espécie de retorno à origem.
Na "Odisseia", de Homero, Ulisses vaga durante anos antes de regressar à terra natal, onde usa arco e flecha para derrotar os pretendentes de sua mulher, Penélope.
Em "2001", Bowman ("homem-arco") é o herói que luta contra um ciclope cibernético para encontrar o retorno ao lar, sem que haja esposa, filho ou pretendentes —e aí talvez esteja demonstração do pessimismo de Kubrick. Como dizia o poeta alexandrino Claudian: "Omnia mors aequat" (a morte torna todos iguais).
O cineasta tinha uma citação favorita de "African Genesis" (1961), livro de Robert Ardrey que inspirou o episódio de abertura de "2001":
"Nós nascemos de macacos que se ergueram, não de anjos caídos (...). Sobre o que vamos ponderar? Sobre nossos assassinatos e massacres, mísseis e regimentos inconciliáveis? Ou sobre nossos acordos, pelo que valeram ou não; nossas sinfonias, por mais que sejam raramente tocadas; nossos campos pacíficos, ainda que com frequência possam se converter em campos de batalha; nossos sonhos, por menos que possam ser realizados. O milagre da humanidade não é o quanto ela afundou, mas a forma magnífica como ascendeu".
Benson escreve que, em 2 de abril de 1968, quatro anos depois da primeira reunião com Clarke, o "rapaz barbeado de Nova York, autor de uma bem-sucedida sátira à Guerra Fria, tinha se metamorfoseado em uma figura barbada com os olhos marcados de cansaço".

Depois de uma estreia calamitosa e traumática para o diretor, o filme, em menos de uma semana, superou outros sucessos da época e terminou como a maior bilheteria daquele ano.
Kubrick se mudaria em seguida para a Inglaterra, onde dirigiu outros cinco longas igualmente profundos e inovadores: "Laranja Mecânica" (1971), "Barry Lyndon" (1975), "O Iluminado" (1980), "Nascido para Matar" (1987) e "De Olhos Bem Fechados" (1999).
Mas é "2001" o filme que "mudou todos os filmes para sempre".
Foi com ele que Kubrick entendeu (e mostrou) que, enquanto houver humanidade, estaremos nesse "algum lugar" entre o macaco e o super-homem de Nietzsche. Sobrevivendo a assassinatos e massacres, ouvindo sinfonias, ainda que raramente, esperando a ascensão à condição de estrela.


Helen Beltrame-Linné, 37, graduada em direito pela USP e cinema pela Sorbonne Nouvelle (Paris), ex-diretora da Fundação Bergmancenter (Suécia), é editora-adjunta da Ilustríssima.

NB: Foram inseridos, no texto, links do Youtube

domingo, 1 de abril de 2018

Juliette



Juliette Binoche: 'É maravilhoso poder dizer não a homens abusivos'

Em 'Deixe a luz do sol entrar', a atriz vive pintora divorciada em busca do amor verdadeiro


POR CARLOS HELÍ DE ALMEIDA, ESPECIAL PARA O GLOBO
01/04/2018

RIO — Em cartaz nos cinemas desde quinta, a comédia dramática “Deixe a luz do sol entrar” reúne pela primeira vez dois ícones do cinema francês: a diretora Claire Denis, autora de dramas com mulheres no centro da trama, como “Minha terra, África” (2009), e a atriz Juliette Binoche, um dos talentos mais versáteis de sua geração. O filme descreve o carrossel de emoções de Isabelle, pintora divorciada em busca do amor verdadeiro. A produção, que abriu a Quinzena dos Realizadores, mostra paralela do Festival de Cannes do ano passado, chega às salas no momento em que movimentos feministas reivindicam fortalecimento do papel da mulher na vida profissional, social e amorosa — aqui, pela lente do humor.
— Isabelle diz não a vários homens abusivos por não se sentir respeitada, e é maravilhoso ter essa opção — diz Binoche, 53 anos, em entrevista por telefone ao GLOBO.

A busca de Isabelle por amor traz momentos cômicos e dramáticos. Como foi encarná-los?

Ao ler um roteiro, é difícil perceber o quanto uma personagem vai exigir de você. Só durante as filmagens nos damos conta do que ela demanda. Fiquei surpresa muito depois, ao assistir ao filme pela primeira vez, em Cannes, junto com o público, em como as pessoas riram de algumas situações. Também ri naquela primeira projeção, mas não na segunda vez. Ela tem momentos trágicos e engraçados também, depende de como você vê as coisas.


Como vê a obsessão de Isabelle, madura, mãe e divorciada, em achar um novo companheiro?

Ela é corajosa, acredita nas relações amorosas, na ideia de dividir coisas com outra pessoa, e busca isso até o ponto de doer demais, de sair ferida da tentativa. Mas reconheço que ela tem um método bastante peculiar de escolher homens, que nem sempre a respeitam. Talvez isso esteja relacionado a certa fragilidade da personagem. É interessante ver esse ideal romântico do ponto de vista da mulher.

Qual o lugar de Isabelle no mundo de hoje, que testemunha uma nova onda do feminismo?

Ela não pertence somente aos dias de hoje, ponto. O caso dela é antigo. Minha avó criou os filhos sozinha. Minha mãe também. Também criei meus filhos praticamente sozinha, porque a maior parte do tempo não estava casada. Talvez o fato de que somos capazes de dar a luz envolva uma responsabilidade carnal sobre a criação dos filhos, a ponto de influenciar as escolhas que fazemos na vida. Sei que há pais maravilhosos, participativos e responsáveis, mas nem sempre é assim, são homens que permanecem crianças e não se tornam pais.

Isabelle assinaria a carta do movimento liderado por Catherine Deneuve criticando o suposto “puritanismo” de iniciativas como o #MeToo?

Isabelle atravessa um período difícil no que diz respeito às relações amorosas, mas ela não é contra os homens. Ela quer amá-los o máximo que pode, porque acredita no relacionamento homem-mulher. Mas, como o vidente que ela procura diz, “para que isso aconteça, é preciso antes que você esteja bem consigo mesma”. Isso a ajudaria a escolher melhor seus companheiros (risos). Mas o filme não se propõe a fazer um julgamento do gênero masculino. A questão principal é de como nós, mulheres, às vezes, nos permitimos participar de uma relação abusiva. Isabelle é capaz de dizer não a vários deles, porque não se sente respeitada — e é maravilhoso ter essa opção.

No auge do escândalo envolvendo o produtor Harvey Weinstein, com quem você trabalhou em “O paciente inglês” e “Chocolate”, você deu uma entrevista ao jornal “Le Monde” em que falou sobre assédio sexual no trabalho. Foi reconfortante?

Acho bom que finalmente as mulheres possam se expressar. Vejo tudo como o início de uma mudança de consciência em curso no mundo. É importante, porque, em muitos países, as mulheres estão sendo oprimidas ou se tornando escravas com upgrade. Ainda existem muitos lugares em que as mulheres não são respeitadas.


POR SUSANA SCHILD
28/03/2018 16:08

Se assinado por um diretor, é bem provável que “Um beau soleil intérieur” (no original) fosse acusado de machista, misógino e adjetivos do gênero. Mas a marca Claire Denis — com uma longa filmografia fortemente marcada por questões sociais e familiares — associada a uma corroteirista e à parceira habitual Agnès Godard na fotografia afastam a suspeita.
Na França, o filme foi recebido como a primeira comédia da diretora. Comédia? Como assim? Vejamos: Isabelle é uma artista próxima dos 50 anos, linda, corpo de 30, sorriso irresistível (Juliette Binoche, cada vez mais deslumbrante). Apesar da aparência, a personagem padece de uma dupla patologia crônica: viciada em discutir a relação, cultiva o arcaico sonho de mulherzinha obcecada em encontrar o amor verdadeiro.
Por que seria tão difícil? Pelo visto — e ouvido — porque ela não consegue parar de questionar os homens que passam pela sua vida. O cardápio é variado — e inclui um banqueiro, um ator, o ex-marido, um rapaz mais novo com quem dança a lânguida “At last” na voz de Etta James.

Instável, hesitante, imatura, Isabelle chora à toa, mas não perde as esperanças. E os argumentos. A entrada de Gérard Dépardieu representa uma guinada de peso desconcertante e muito divertida. Com narrativa límpida, sem afetações, “Deixe o sol entrar” é um interessante estudo da alma feminina (seria um modelo em extinção?), com apenas um furo: a ausência da filha na vida desta mulher que não consegue parar para pensar — ou sentir. Um prato saboroso para acalorados debates feministas.




terça-feira, 27 de março de 2018

Mabel


POR PAULA AUTRAN 27/03/2018 O Globo

Maria Bethânia, sua irmã, já declamou em shows o poema de Fernando Pessoa pregando que todas as cartas de amor são ridículas. Mas a escritora Mabel Velloso preferiu se dedicar às de desamor e libertação. Quarenta histórias de mulheres que sofrem e se redimem, escritas por ela em forma de missivas e publicadas em livro, estão a partir desta terça-feira no Oi Futuro, no Flamengo, na mostra “Cartas”, do Programa Poesia Visual e Digital.
Elas aparecem em vídeos, lidas por mulheres como a coreógrafa Márcia Milhazes e a artista plástica Maria Lynch, e por homens como os poetas Antonio Cícero e Jorge Salomão.
— Mabel faz contos epistolares a partir de histórias que ouviu, talvez inventou ou viveu — diz Alberto Saraiva, curador da exposição. — As cartas falam mais diretamente ao leitor, que fica um pouco como espectador e voyer.

“Proibida a leitura às mulheres felizes!”, adverte Mabel, de 84 anos, na dedicatória do livro “Cartas de dor, cartas de alforria” (Oiti, 2004), que deu origem ao projeto. Mas mesmo essas entenderão bem dramas como o que aparece em “Verão, 1975”:

“Sei que você vai ficar surpreso quando voltar para casa. Na mesa, em vez dos seus pratos preferidos, vai encontrar somente esta carta. Não está sendo fácil escrevê-la, e muito mais difícil foi tomar a atitude que até que enfim tomei: chamar um caminhão, arrumar todas as coisas e desarrumar a vida que estava vivendo. Arrumar outra vida e sair...”.

— Peguei as coisas que vivi, que me contaram, e passei para o papel para não me esquecer. Você sabe que quem conta um conto aumenta um ponto, né? — diverte-se a filha de Dona Canô, que diz ainda receber cartas. — Gosto de cartas porque elas levam e trazem o cheiro das pessoas.

UMA MULHER QUE PASSOU POR "MUITAS COISAS"

Mabel classifica seu estado civil de “atrapalhado” (“era divorciada, mas o pai da minha filha morreu e fiquei viúva”, explica). Ela conta que decidiu se dedicar ao projeto das cartas por ser mulher e ter passado por “muitas coisas”:

— Eu me chamo Maria Isabel. Digo que minha carta de alforria já está no nome.

Mabel, que lecionou por 40 anos numa escola pública de Santo Amaro, na Bahia, lembra que começou a escrever porque queria que seus alunos pudessem ter histórias em que pudessem “entrar”.
— Eram uma opção aos contos com palácios e gente loura. Eles liam sobre as tranças de Rapunzel, mas tinham tranças nagô — diz a autora de 11 livros para crianças, que buscou neste universo inspiração para as cartas. — Nelas, queria que fosse como nas histórias infantis: “E foram felizes para sempre.”

domingo, 18 de março de 2018

Marielle

Não quero ser vilã ou mocinha, quero ser gente

Marielle foi executada porque, enquanto o mundo fala de direitos humanos, o Brasil ainda não consegue compreender que ser humano é todo mundo

POR STEPHANIE RIBEIRO*
17/03/2018 4:30  O Globo

RIO - Quando era mais nova, via muita novela e programa policial. Ambos me ensinaram que, quando uma pessoa morre, evidentemente merece, pois ela era má. A banalização da morte é reflexo dessa banalização dos sujeitos, entende-se que é possível dividir o mundo entre bom e mau. Bom é quem está comigo, e mau é o outro, aquele que se opõe ou que desconheço. Logo, não preciso compreender nem interagir com o outro, preciso me afastar, preciso das minhas cercas, muros, blindagens, preciso deixar claro que ele não é do mesmo mundo que o meu. Nos diferenciamos para mostrar nosso poder. Quanto mais nos afastamos, entendemos que tudo é problema individual. E não da sociedade, pois não quero ter que nos movimentar pela mudança. Muitos acreditam nessa divisão, e todos se enxergam como mocinhos dessa história.
Mas Marielle era mocinha ou vilã?


Marielle Franco (27/07/1979-14/03/2018), foto de Márcia Foletto / Agência O Globo, 16/03/2018

No contexto nacional, em que as pessoas compreendem tudo de forma unilateral e maniqueísta, depende do olhar de cada um. Quando Marielle foi assassinada brutalmente, muitos tentaram justificar dizendo: “Mas ela era defensora de bandido.” Marielle, para muitos, é vista como alguém “torto”, logo é a defensora do “vilão”, pois não seguia as regras dos “bons”. Afinal, supostamente, só defendia os “ruins”, a “escória da sociedade”. Mas, quando você deseja a morte de alguém, você é mocinho ou vilão?
Num mundo real fora da fantasia das novelas e dos programas de TV, todos somos HUMANOS. E olha que “todos somos todos humanos” é uma frase recorrentemente banalizada, que não pode ser aplicada para justificar os tais comentários sobre a morte de Marielle.
Me perguntaram hoje: “A que ponto chegamos nessa sociedade que estamos justificando mortes?” Só consigo responder: “A que ponto chegamos ou a que ponto não saímos?” A gente não está “voltando” a ser. Nunca fomos nada além de um país colonial. Escrevo este texto no dia 16 de março, e há exatos quatro anos Claudia Ferreira da Silva era arrastada por mais de 300 metros. Ela era mãe e mulher trabalhadora, mas era negra e pobre. Se sua vida realmente importasse, quem a matou de forma brutal estaria em qualquer lugar, menos no de capitão da polícia. Como de fato aconteceu.
Este não é um país de vilões e mocinhos, é um país em que seres humanos não são vistos como tais. Não quero ser vilã ou mocinha, quero ser gente! E Marielle também queria isso.
Nosso colonialismo nos impede de avançar coletivamente para um país igualitário de fato, como se propõe nas leis. Há a corrupção na base do país, e a “política” como algo hereditário, sendo passado de pai para filho e assim mantendo cargos e poderes. Há a mão de obra barata e explorada que ainda é marcada pela cor negra. Nós, Brasil, não somos nada além de um país colonial. Pensamos e agimos como tal, só que existem alguns que são como Marielle, que pensam à frente, que pensam que precisamos avançar coletivamente. Afinal, se não queremos mais tanta violência e corrupção, não faz sentido manter estruturas desiguais, racistas, sexistas e retrógradas.
Marielle desenhava o futuro mesmo para aqueles que insistem em acreditar que privilégio é viver no passado. No fundo, quando dizem das mais diversas formas que ela era “torta” por não “seguir o esperado”, realmente não sei se é errado pensarem isso. Marielle Franco era uma mulher, era negra, era da Favela da Maré, era lésbica, era a base da estrutura social, ela era um ser marginal, um ser visto como incompleto, um ser que não é visto como HUMANO. E provavelmente por essa somatória de fatores, Marielle se engajou na carreira política. Para dizer que ela, e os que eram como ela, eram HUMANOS e precisavam ser tratados como HUMANOS. E provavelmente também foi por essa série de fatores que ela não foi ameaçada, ela simplesmente foi executada. Executada sem meios-termos e firulas. Não tentaram maquiar fingindo um acidente ou assalto. Mataram. Mataram porque tanto quem mata quanto quem justifica sua morte pensam da mesma forma, não enxergam Marielle como pessoa. Eles a entendem como marginal, um ser que ainda não é sujeito.
Marielle queria mais do que isso, para si e para nós, que, como ela, somos marcados pelo que somos. Direitos humanos são sobre isso, não uma pauta partidária, não é loucura de maconheiro nem mimimi de defensor de bandido. É sobre garantir que todos sejamos tratados com igualdade, respeito e justiça dentro das nossas diferenças, pois não somos todos iguais. E as pessoas precisam aceitar que, mesmo com nossas diferenças, temos os mesmos direitos. Só que não aceitam, fazem de nós os vilões dessa novela. Dizem que nossas existências são ofensivas. Tentam até nos corrigir, usando o poder da violência.
Olha aquela puta que se acha com aquele vestidinho curto. Manda estuprar.
Olha aquele preto que quer andar nas ruas com Pinho Sol na mochila. Manda prender.
Olha aquele viado que anda rebolando. Manda lâmpada na cabeça dele.
Olha aquela mulher, negra, favelada, deputada que sempre denunciou o genocídio da população negra, as ações das milícias, a corrupção, o machismo, o racismo, a lgbtofobia, as violências estruturais. Manda executar para calar a boca dela e deixar bem claro o recado: lugar de preto é na senzala ou no caixão.
Não me surpreendi com a morte da Marielle, pois não consigo mais me surpreender vendo negros morrendo todo dia. Tem dia que é um primo seu, tem dia em que você acha que, se fizer universidade e “vencer na vida”, não será mais o próximo. E, pumba!, vem alguém e te lembra que, antes de ser gente, que antes do seu nome, a sua cor vai chegar primeiro. Há dias em que você se choca pela brutalidade como no caso de Claudia, que foi arrastada. Tem dias que você se choca, pois era só uma criança. Tem outros em que você se choca por serem 111 tiros. No fundo, a gente se choca pela forma que foi, mas não se surpreende mais. Nós, negros, estamos nos acostumando a fazer do cemitério nossa segunda casa, e as pessoas estão acostumadas a negar raça como um fator que determina a vida que levamos e como seremos tratados. Internacionalmente, como mulher negra, vejo a morte de Marielle deixando muito claro que, se um homem branco e uma mulher negra dizem a mesma coisa, ela será um alvo mais fácil. Sua vulnerabilidade é histórica e estrutural. Não precisa ameaçar o sujeito que já nasce vulnerável, a execução dela nos diz isso.
Por isso, não me surpreendi. Mas chorei, porque aqui dentro alguma coisa também morreu. Mesmo que me digam para não ter ódio, se fazem o luto ser nosso verbo, também fizeram o ódio ser nosso escudo. Não o ódio do outro, não o ódio do diferente, o ódio da estrutura que mantém tudo isso. Um país que, em 2018, ainda é colonial, que não aceita que uma vereadora eleita, mulher, negra, mãe, lésbica e favelada seja gente. Marielle foi executada. Marielle foi executada porque, enquanto o mundo fala de direitos humanos, o Brasil ainda não consegue compreender que ser humano é todo mundo, e não somente os homens bons da colônia.

*Arquiteta, urbanista e ativista


A arquiteta Stephanie Ribeiro - Adriana Lorete / Agência O Globo


sexta-feira, 16 de março de 2018

Epifania

Marina

Marina esteve no Presídio Central de Porto Alegre cumprindo pena por tentativa de homicídio. Foi condenada a 3 anos. Desde criança era assediada pelo padrasto, um pedófilo violento. Até que não aguentou e tentou mata-lo quando nos 18 anos.  Por bom comportamento saiu depois de dois anos.

Epifania 1

Marina saiu da prisão com a sensação de uma espécie de epifania amargurada. Algo como um iluminamento que permitiria seguir vivendo. Amargura sim pelo que viveu de ruim nos vinte anos de vida. A prisão, o padrasto pedófilo, a mãe inerte e às vezes conivente, a opressão e preconceito presentes sempre. Mas ela foi em frente e viveu, não morreu.
De que adianta ler o jornal de ontem? Notícias conhecidas por todos que ninguém mais quer ler. O que passou perdeu a validade.

A música

Marina estudou canto lírico desde os dez anos. Retomou às aulas com o professor Sérgio Augusto. Além do canto trabalha como estilista de moda. O que significa o canto lírico para Marina? Autoafirmação. A arte a serviço da autoestima. Sente-se nos céus quando canta Ombra mai fu, de Handel. Uma ajuda para quem não conhece esta ária. Ouça a mezzo-soprano Mairin Srygley

Preconceito

O encantamento pela música resultou em paixão entre Marina a Sérgio. Juntos moraram em Porto Alegre até um acontecimento desagradável no Sgt. Peppers Bar.  Estavam numa mesa tomando gin tônica quando apareceu um sujeito muito embriagado. Te conheço, mas não sei de onde. Deixe lembrar. Ah já sei, do Presídio Central. Disse olhando fixamente para Marina. Sim estive presa lá. Meu nome é Marina e o teu? Sei lá o meu nome, seu viado. Pare de hipocrisia! Marina, estupefata, quase agrediu o sujeito. Mas não, apenas respondeu: olha aqui, seu merda, só não arranco tua cabeça porque não bato em cachorro morto.

Epifania 2

Marina saiu do bar com um claro sintoma de epifania desesperada. Um pensamento indescritível e único de revolta, de desespero. Usou dos seus recursos vocais e fez o que desejava no momento: um grito primal para que todos e todas na rua ouvissem. Não bastasse o que de ruim já viveu, agora carrega a cruz pesada por ser transexual.

E por último

Marina e Sérgio mudaram para Santiago do Chile. Vivem como queriam. De canto lírico, aulas de  piano e moda.

NB: este texto é descaradamente inspirado no filme chileno Una Mujer Fantastica, 2017,  vencedor do Oscar 2018 na categoria de melhor filme estrangeiro. Que tem a protagonista interpretada pela fantástica atriz Daniela Vega