quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Grande sertão: veredas - Cap. 3

Continuação de Grande sertão: veredas - Cap. 2 ( ver aqui

Desagasalhados na alegria

O senhor havia de gostar de ver aquela ajuntação de povo, as coisas que falavam e faziam, o jeito como podiam se rir, na vadiação, todos bem comidos, entalagados, Daí, escureceu. Homens deitados no chão, escornados até quase debaixo do mijo dos cavalos pastantes. Eu estava que impava, queria um bom sono. A ver, fui com Diadorim para o rumo dos pés de fruta, seguindo o rego. Com a entrada da noite, o passar da agua canta friinho, permeio, engrossa, e a gente aprecia o cheiro do musgúz das árvores. Zé Bebelo tinha ido embora, para sempre, no cavalo de duas cores, fez pouca poeira. Nós estávamos no jaz ali, repimpados, enfunando as redes. Disso não esqueço? Não esqueço. A gente estava desagasalhados na alegria, feito meninos. [205-206]

O rio desmazelado, livre rolador

Naquela mesma da hora, Joca Ramiro dava partida também de volta para o São joão do Paraíso. Lá ia ele, deveras, em seu cavalão branco,   ginete - ladeado por So Candelário e o Ricardão, igual iguais galopavam. Saíam os chefes todos - assim o desenrolar dos bandos. em caracol, aos gritos de vozear. Ao que reluzia o bem belo. Diadorim olhou, e fez o sinal da cruz, cordial.- "Assim, ele me botou a benção..." foi o que disse. Dá sempre tristezas algumas, um destravo de grande povo se desmanchar. Mas, nesse dia mesmo, em nossos cavalos tão bons, dobramos nove léguas.

As nove. Com mais dez, até à Lagoa do Amargoso. E sete, para chegar numa cachoeira no Gorutuba. E dez, arranchando entre Quem-Quem e Solidão; e muitas idas marchas sertão sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Mas saímos, saímos. Subimos. Ao quando um belo dia, a gente parava em macias terras, agradáveis. As muitas águas. Os verdes já estavam se gastando. Eu tornei a me lembrar daqueles pássaros. O marrequim, a garrixa-do-brejo, frangos-ďágua, gaivotas. O manuelzinho-da-crôa! Diadorim, comigo. As garças, elas em asas. O rio desmazelado, livre rolador. E aí esbarramos parada, para demora, num campo solteiro, em varjaria descoberta, pasto de muito gado. [207-208]

Pêjo de vento

Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. Melhor alembro. Eu estava sozinho, num repartimento dum rancho, rancho velho de tropeiro, eu estava deitado numa esteira de taquara. Ao perto de mim, minhas armas. Com aquelas, reluzentes nos canos, de cuidadas tão bem, eu mandava a morte em outros, com a distância de tantas braças. Como é que, dum mesmo jeito, se podia mandar o amor? O rancho era na borda- da- mata. De tarde, como estava sendo, esfriava um pouco, por pêjo de vento - o que vem da Serra do Espinhaço - um vento com todas almas. [210]

Um Diadorim só para mim

O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor..." Como era que eu podia dizer aquilo? Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas - como quando a chuva entre-onde-os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abracava com meu corpo aquele Diadorim - que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de mim: uma serepente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava. [211]

Mataram Joca Ramiro

O Gavião-Cujo abriu os queixos, mas palavra logo não saíu, ele gaguejou ar e demorou - decerto porque a notícia era urgente ou enorme.

- "Ar'uê, então?!" - Titão Passos quis. - "Te rogaram alguma praga?"

O Gavião-Cujo levantou um braço, pedindo prazo. À fé, quase gritou:

"Mataram Joca Ramiro.!.."

Aí estralasse tudo no meio ouvi um uivo dôido de Diadorim -: todos os homens se encostavam nas armas. Ar, ei, feras! Que no céu, só vi tudo quieto, só um moído de nuvens.Se gritava - O araral. As vertentes verdes do pindaibal avançassem feito gente pessoas. Titão Passos bramou as ordens. Diadorim tinha caído quase no chão, meio amparado a tempo por João Vaqueiro.

Caíu, tão pálido como cera do reino, feito um morto estava Ele, todo apertado em seus couros e roupas, eu corri, para ajudar. A vez de ser um desespero. O Paspe pegou uma cuia d'água, que com os dedos espriçou nas faces do meu amigo. Mas eu nem pude dar auxílio: mal ia pondo a mão para descolete-jaleco, e Diadorim voltou a seu si, num alerta, e me repeliu, muito feroz. Não quis apôio de ninguém. sozinho se sentou, se levantou. Recobrou as cores, e em mais vermelho o rosto, numa fúria, de pancada. Assaz que os belos olhos dele formavam lágrimas. Titão Passos mandava, o Gavião-Cujo falava. Assim os companheiros num estupor. Ao que não havia mais chão, nem razão, o mundo nas iuntas se desgovernava.

_ "Repete, Gavião!"

"Ai, chefe, ai, chefe: que mataram Joca Ramiro..."

- "Quem? Adonde? Conta!

Arre, eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços. Secou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Até atravessado, na barriga, me doeu. Antes mais, o pobre Diadorim. Alheio ele dava um bufo e soluco, orço que outros olhos, se suspendia nas sussurrosas ameaças. Tudo tinha vindo por cima de nós feito um relâmpago em fato.

- ... " Matou foi o Hermógenes...

- "Arraso, cão! Caracães! O cabrobó de cão! Demônio! Traição! Que me  pagal..." - constante não havendo quem não exclamasse. O ódio da gente, alí em verdade, armava um pojar para estouros. Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter matado? Aquilo era como fosse um touro preto, sozinho surdo nos êrmos da Guararavacã, urrando no meio da tempestade. Assim Joca Ramiro tinha morrido. E a gente raivava alto, para retardar o surgir do medo - e a tristeza em crú - sem se saber por que, mas que era de todos, unidos malaventurados.

- ". ○ Hermógenes... Os homens do Ricardão.... O Antenor.. Muitos..."

- "Mas. adonde onde!?"

- "A desgraca foi num lugar, na Jerara, terras do Xanxerê, beira da Jerara - lá onde o córrego da Jerara desce do morro do Voo e cai barra no Riachão da Lapa... Diz-se que foi sido de repente, não se esperava. Aquilo foi traição toda. Morreram os muitos, que estavam persistindo lealmente. Ai mortos: João Frio, o Bicalho, Leôncio Fino, Luís Paieú, o Cambó, Leite-de-Sapo, Zé Inocêncio...uns quinze. Até se deu um tiroteio terrível; mas o pessoal do Hermógenes e do Ricardão era demais numeroso... Dos bons, quem pôde, fugiram corretamente. Silvino Silva conseguiu fuga, com vinte e tantos companheiros..." [214-215]

A caraíba-de-flor-rôxa, tão urucuiana

A gente os quatro, com o cavalo, era nada, as arrobazinhas. E nós entramos, depois que o patrão nos saudou, em nome de Nosso Senhor Cristo-Jesus e disse: "Eu cá sou amigo de todos, segundo a minha condição..." E o Alaripe aceitou dele um gole de cachaça, aceitamos. Jesualdo disse, repostando: "Amigo de todos? Rio-abaixo, na canoa, quem governa é o remador!" Bem que rio-acima é que era, mas com remeiros muito bons esforçados. Aí constante, o velêjo, vento em pano - nem remeiro com o varejão não carecia de fazer talento. Pediram notícias do sertão. Essa gente estava tão devolvida de tudo, que eu não pude adivinhar a honestidade deles. O sertão nunca đá notícia. Eles serviram à gente farta jacuba. - "Por onde os senhores vieram?" - o patrão indagou. - "Viemos da Serra Rompe-Dia..." - respondemos. Mentiras d'água. Tanto fazia dizer que tínhamos vindo da de São Felipe. O barqueiro não acreditou, deu o zé de ombros. Mas levou a gente travessia fácil, frenteando a boca do Urucúia. .  Ah, o meu Urucúia, as águas dele são claras certas. E ainda por ele entramos, subindo légua e meia, por isso pagamos uma gratificação. Rios bonitos são os que correm para o Norte, e os que vêm do poente - em caminho para se encontrar com o sol. E descemos num pojo, num ponto sem praia, onde essas altas árvores - a caraíba-de-flor-rôxa, tão urucuiana. E o folha-larga, o aderno-preto, o pau-de-sangue; O pau-paraíba, sombroso. O Urucúia, suas abas. E vi meus Gerais! [222]

Me alembro, meu é

 E que, com o nosso cansaço, em seguir, sem eu nem saber, o roteiro de Deus nas serras dos Gerais, viemos subindo até chegar de repente na Fazenda Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda. Que's borboletas! E era em maio, pousamos lá dois dias, flôr de tudo, como sutil suave, no conhecimento meu com Otacília. O senhor me ouviu. Em como Otacília e eu ficamos gostando um do outro, conversamos, combinados no noivável, e na sobremanhã eu me despedi, ela com sua cabecinha de gata, alva no topo da alpendrada, me dando a luz de seus olhos; e de lá me fui, com Diadorim e os outros. E de como viemos, em cata do grosso do bando de Medeiro Vaz, que dali a quinze léguas recruzava, da Ratragagem para a Vereda-Funda, e com eles nos ajuntamos, economizando rumo, num lugar chamado o Bom-Burití. Me alembro, meu é. Ver belo: o céu poente de sol, de tardinha, a roséia daquela cor. E lá é cimo alto: pintassilgo gosta daquelas friagens. Cantam que sim. Na Santa Catarina. Revejo. Flores pelo vento desfeitas. Quando rezo, penso nisso tudo. Em nome da Santíssima Trindade. [223]

Viver é muito perigoso

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, que produz os sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já e um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe. O Reinaldo era Diadorim - mas Diadorim era um sentimento meu. Diadorim e Otacília. Otacília sendo forte como a paz, feito aqueles largos remansos do Urucuia, mas que é rio de braveza. Ele está sempre longe. Sozinho. Ouvindo uma violinha tocar, o senhor se lembra dele. Uma musiquinha até que não podia ser mais dansada - so o debulhadinho de purezas, de virar-virar... Deus está em tudo - conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse, por uma vez. Como é que se pode pensar toda hora nos novissimos, a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito. Eu penso é assim, na paridade. O demônio na rua... Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro e o do sentidor. O que eu quero, é na palma da minha mão. Igual aquela pedra que eu trouxe do Jequitinhonha. Ah, pacto não houve, Pacto? Imagine o senhor que eu fosse sacerdote, e um dia tivesse de ouvir os horrores do Hermogenes em confissão. O pacto de um morrer em vez do outro e o de um viver em vez do outro, então?! Arrenego. E se eu quiser fazer outro pacto, com Deus mesmo - posso? - então não desmancha na rás tudo o que em antes se passou? Digo ao senhor: remorso?  Como no homem que a onça comeu, cuja perna. Que culpa tem a onça, e que culpa tem o homem? [226]

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Ledo engano

Amara Moira#

Vários são os aspectos que tornam o Grande sertão: veredas um marco na literatura brasileira, mas, dentre todos, o componente sexual e de gênero é o que mais me chama a atencão. Nas primeiras resenhas que a obra recebeu, já se pontuava esse aspecto, por exemplo no seguinte trecho, em que se discute a "grande afeição de Riobaldo por Diadorim, afeição exagerada, assumindo um aspecto corydonesco - embora o heroi de Guimarães Rosa não pareça ter uma ideia nítida dos verdadeiros motivos que o aproximam do companheiro".*

Quando diz "verdadeiros motivos", a resenha defende que, a despeito do homoerotismo que domina a obra por 485 páginas, o que vale mesmo é o segredo revelado nas quinze últimas: "Diadorim era mulher e não homem, explicando-se assim, fora da perspectiva gidiana, todo o seu fascínio sobre Riobaldo".** Ou seja, é como se Riobaldo já intuisse o que só descobriria após a morte de Diadorim, e essa intuicão, aos olhos da resenha, bastasse para heterossexualizar o desejo manifestado ao longo de toda a narrativa. Nas palavras de outro resenhista, Octavio Mello Alvarenga: "O fecho fica perfeito. O amor de Riobaldo não tinha sujice".*** A reviravolta um tanto inverossimil é comemorada nessas primeiras resenhas, que funcionam também como um alerta ao leitor, uma forma de prepará-lo para um livro que parecerá deveras homossexual, mas no fim, bem no finzinho mesmo, se revelará hétero.

E eis um dos grandes ardis de JGR: sua obra máxima nos convida a mergulhar no prazer que o protagonista sente ao apaixonar-se por outro homem, mas cria um alibi perfeito para, nas páginas finais, podermos alegar que tudo não passou de um malentendido, um ledo engano. O curioso é que Riobaldo conhecia o desfecho quando começa a desfiar suas memórias, mas escolhe contá-las de forma a fazer com que experienciemos o que ele própr1o viveu, isto é, os sentimentos conflituosos de um desejo homossexual. Terá Riobaldo a mesma certeza que seus resenhistas de primeira hora?

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* Correlo da Manhã, 15 ago, 1956, p. 9.

* Ibid.

*** Ibid, 10 nov.1956, p.9.

# Grande sertão: veredas - "O diabo na rua, no meio do redemoinho" - Edição especial 70 anos, João Guimarães Rosa, p. 523, Companhia das Letras, 2026.

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