Bem pior que 64
O golpe em andamento, de inspiração paraguaia e hondurenha, confere ao Brasil a condição de republiqueta e o atira a uma rota imprevisível
25/04/2016 04h09 CARTA CAPITAL Autor: Mino Carta
Um filme intitulado Sem Evidências enfeitou a programação de uma HBO a cabo na noite de domingo 17 de abril de 2016. Mergulhei no enredo ao mudar ao acaso um canal para outro, enquanto a Câmara Federal rasgava impavidamente a Constituição para condenar a presidenta Dilma Rousseff sem provas do crime que lhe atribuía. O filme é uma implacável metáfora do que acabava de acontecer diante dos olhos de milhões em êxtase e uns poucos vexados entre o fígado e a alma. História verdadeira, a do filme, remonta a 1993, quando três crianças de uma cidadezinha do Arkansas são estupradas e assassinadas e as autoridades locais escolhem de antemão os culpados, três jovens tidos como praticantes de rituais satânicos.
O mais velho, de 18 anos, veste-se de preto, tem cabelos compridos, lida com desembaraço com a língua e a ironia e não esconde sua curiosidade por demonologia. Outro, de 17 anos, padece de disfunções mentais. O terceiro, de 16 anos, é tímido e indefeso. Todos se dizem inocentes, mas os donos do poder tomaram sua irrevogável decisão antes do processo, enfim realizado para sacramentar a decisão adrede tomada. Para tanto a polícia local colabora ativamente e transforma suposições em verdade factual, os promotores cometem irregularidades sem conta na instrução da demanda judicial e contam com um juiz desbragadamente parcial.
Os líderes da comunidade cuidam de elevar a 100 graus a ira popular. Conclusão: o mais velho dos réus é condenado à morte, os outros dois à prisão perpétua. Somente 18 anos depois, a Suprema Corte do Arkansas revê as sentenças, uma delas, à cadeira elétrica ainda não consumada, e recoloca os condenados em liberdade.
Ocorreu-me uma dúvida: quem programou Sem Evidências para o mesmo momento em que, sem evidências, a Câmara Federal condenava a presidenta legítima agiu de caso pensado ou conforme pauta definida com larga antecedência? Se sabia o que fazia, ofereceu a quantos sabem o que fazem uma parábola do episódio a se desenrolar, no mesmo instante, nesta nossa republiqueta tão parecida com uma cidadezinha do Arkansas.
Muitas dúvidas mais me assaltam. E ao sabor de dúvidas teço considerações. E pergunto aos meus atônitos botões se os discursos que ecoaram na Câmara Federal na noite de 17 de abril foram pronunciados, em aterradora maioria, por idiotas ou por hipócritas, excelentes nos dois casos? Ou seria por idiotas hipócritas, magníficos na simbiose? Não espero por resposta, não se faz necessária.
E em relação aos que ouvem e aprovam, em qual categoria catalogá-los? Idiotas ou hipócritas, simplesmente, ou habilitados a mesclar ambas as qualidades negativas? O espetáculo que conseguimos oferecer ao mundo exorbita na prova, esta sim indiscutível, de nossa condição de republiqueta das bananas. Os autores do golpe, além de imitadores de ações idênticas levadas a cabo em 2006 em Honduras e em 2012 no Paraguai, alegam motivações que confiam cegamente na ignorância e na parvoíce da nação. Pasmem: e acertam, e levam, como CartaCapital temia na sua edição passada.
Somos o que somos, e é doloroso aceitar mais esta inegável evidência. Um paiseco do tamanho de um continente, destinado pela natureza para ser um paraíso terrestre, fica entregue à sua própria desgraça, algo assim como um suicídio coletivo. Com a contribuição decisiva do evangelismo galopante, cada vez mais espalhado, a mostrar sua inevitável aliança à política do poder pelo poder, empenhada em promover boçalidade demente e a enterrar qualquer esperança de democracia.
Não faltarão os céticos, prontos a sustentar que democracia cabe no baú das velharias. Certo é que o golpe de 2016, a mostrar a nossa imaturidade para qualquer tentativa democrática e a fragilidade de quanto foi construída depois da saída do general Figueiredo pela porta dos fundos do Planalto, é muito pior, infinitamente mais assustador, do que o de 1964.
Abril de 64 não traiu a tradição, como sempre desfechado pela casa-grande para sustar no nascedouro um processo capaz de conduzir à demolição da senzala. Teve, paradoxalmente, o condão de excitar alguns espíritos nativos a formas de resistência e cultivar esperanças.
Hoje temos de constatar que ainda pagamos por aquele 1º de abril e que a chamada redemocratização foi uma farsa. Ainda é pouco em comparação com o preço a pagar pelo golpe de abril de 2016. Nada é previsível se não há como se apoiar naquela deplorável tradição. Sobram diversas, assombrosas incógnitas.
Se o assunto é a imprevisibilidade, não cabem incertezas, é óbvio, quanto à composição de um governo Temer. Candidatos óbvios, a rendição à vontade de Tio Sam, genuflexão ao deus mercado em proveito do desequilíbrio social e da punição do trabalho, o loteamento de bens brasileiros, a começar pela entrega do pré-sal às famigeradas Sete Irmãs.
Mas é nesta moldura que a névoa se alastra, bem como as dúvidas. Por exemplo. Como e quando acaba a Lava Jato? Sergio Moro prestou-se ao jogo, mas ainda se prestará? E que desfecho fica reservado para Eduardo Cunha? E para o calendário eleitoral? E o povo sofrerá com a resignação de sempre?
Acabamos de adentrar uma zona de intensa nebulosidade, talvez de inesperadas turbulências, e dentro dela nada nos reporta ao passado. Em uma situação nunca dantes navegada, claro está apenas e tão somente que a crise, muito mais profunda do que simplesmente econômica, mas antes social, política, moral, mental em um país à deriva, não se oferece a mais pálida possibilidade de arrefecimento, muito pelo contrário.
O golpe em andamento contém e expressa um trágico engodo, como o verbo dos conspiradores, dos arautos da casa-grande, dos falsos pastores de almas. O complô visava Lula como candidato em 2018, com o intuito de abater Dilma pelo caminho, e o obstáculo principal por ora permanece. A maior incógnita na crista das ondas é agora a sorte do favorito das próximas eleições. Apontam os barômetros para a instabilidade total.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
domingo, 3 de abril de 2016
Réquiem
"O que você fez seu filho de uma égua? E agora o que será de mim? O que faço da minha vida, seu merda?" Chorando e puta da vida. Era Virgínia, perdida e terrivelmente irritada. Não sabia o que fazer.
Na década de 1960, Felipe e Virgínia eram estudantes na USP. Ele na engenharia civil e ela na psicologia. Encontraram-se e experimentaram o veneno da paixão. Êxtase brutal, selvagem. Tesão nas alturas, libido aos cântaros.
Moravam no CRUSP (Conjunto residencial estudantil da USP) que na época reunia todas as tribos: militantes políticos, positivistas que acreditavam que a ciência resolveria os problemas do mundo, porra-loucas, certinhos e certinhas, idiotas e outros mais.
O guerrilheiro é um reformador social. Virgínia e Felipe diante da droga malhada em que estava o Brasil da época (aliás, continua hoje) seguiu Che Guevara e entraram para a ALN (Ação Libertadora Nacional) de Carlos Marighella. Carlos, uma grande personagem da história brasileira, puto com o PCB (Partido Comunista Brasileiro), resolveu agir e não interagir de forma vertical e passiva no interior das catacumbas do partido. Partiu para a resistência armada à ditadura e fundou a ALN.
Felipe foi convocado a atuar no Rio e Virgínia em São Paulo. Separação. No começo doloroso, mas com agitação da luta distanciaram-se. A tempestade afetiva deu lugar ao terremoto político da ação armada. Felipe esteve preso e torturado com sequelas nunca dizimadas. Os dois saíram do país em 1970. Ele exilado no Chile e ela em Paris. Conheceram pares no exilio. Casaram e tiveram filhos.
Com a anistia Virgínia e Felipe voltaram ao Brasil em 1979 e 1980 respectivamente.
Em 1989 reencontram-se durante a campanha eleitoral de Lula da Silva. Caso raro: voltou a tesão um pelo outro. Voltaram a morar juntos. Eles e os filhos mais novos dos dois.
Passados 10 anos de união ou re-união veio a tragédia.
Virgínia inconsolável saiu para fumar e voltou. Olhou para o rosto de Felipe. "E agora, cacete, você quer que eu faça o que depois desta traição? Traição sim, mané, porque agora estou sozinha, sem ninguém"
Dez minutos depois de olhar fixamente o rosto daquele homem se retirou do velório chorando muito. Virgínia nunca perdoou Felipe pelo suicídio.
Na década de 1960, Felipe e Virgínia eram estudantes na USP. Ele na engenharia civil e ela na psicologia. Encontraram-se e experimentaram o veneno da paixão. Êxtase brutal, selvagem. Tesão nas alturas, libido aos cântaros.
Moravam no CRUSP (Conjunto residencial estudantil da USP) que na época reunia todas as tribos: militantes políticos, positivistas que acreditavam que a ciência resolveria os problemas do mundo, porra-loucas, certinhos e certinhas, idiotas e outros mais.
O guerrilheiro é um reformador social. Virgínia e Felipe diante da droga malhada em que estava o Brasil da época (aliás, continua hoje) seguiu Che Guevara e entraram para a ALN (Ação Libertadora Nacional) de Carlos Marighella. Carlos, uma grande personagem da história brasileira, puto com o PCB (Partido Comunista Brasileiro), resolveu agir e não interagir de forma vertical e passiva no interior das catacumbas do partido. Partiu para a resistência armada à ditadura e fundou a ALN.
Felipe foi convocado a atuar no Rio e Virgínia em São Paulo. Separação. No começo doloroso, mas com agitação da luta distanciaram-se. A tempestade afetiva deu lugar ao terremoto político da ação armada. Felipe esteve preso e torturado com sequelas nunca dizimadas. Os dois saíram do país em 1970. Ele exilado no Chile e ela em Paris. Conheceram pares no exilio. Casaram e tiveram filhos.
Com a anistia Virgínia e Felipe voltaram ao Brasil em 1979 e 1980 respectivamente.
Em 1989 reencontram-se durante a campanha eleitoral de Lula da Silva. Caso raro: voltou a tesão um pelo outro. Voltaram a morar juntos. Eles e os filhos mais novos dos dois.
Passados 10 anos de união ou re-união veio a tragédia.
Virgínia inconsolável saiu para fumar e voltou. Olhou para o rosto de Felipe. "E agora, cacete, você quer que eu faça o que depois desta traição? Traição sim, mané, porque agora estou sozinha, sem ninguém"
Dez minutos depois de olhar fixamente o rosto daquele homem se retirou do velório chorando muito. Virgínia nunca perdoou Felipe pelo suicídio.
quarta-feira, 30 de março de 2016
IA e a barbarie
Já comentei neste blog as contradições da IA (Inteligência Artificial): "O cinema versus IA"http://librinas.blogspot.com.br/2014/07/o-cinema-versus-ia.html
O texto do Roberto Vitorino acrescenta sobre o tema, além de ser insuportavelmente brilhante.
Roberto Vitorino
28 de março às 01:25 ·
Eu tenho um amigo que escolheu viver offline. Ele não tem facebook, instagram, twitter, snapchat, não liga a tv em casa, não tem whatsaap, não gosta de falar ao celular. Fazia tanto tempo que eu não o via, que pensei, sei lá, que talvez ele tivesse... enfim, meu amigo está muito bem. Outro dia o encontrei na praia e ficamos a tarde conversando. Ele sabe o que está acontecendo no Brasil, tem opinião sobre tudo, continua estranhamente sendo o cara que sempre foi. Mas tinha uma coisa diferente nele agora, digo "diferente" de antes, diferente dos outros amigos, diferente de nós; uma delicadeza quase arrogante de tão alienada. É que esse amigo teima em ser insuportavelmente gentil. Para qualquer entendedor trata-se do caso clássico de um alienado adaptado aos novos tempos. Meu amigo concorda com esta tese, inclusive. Ele sabe disso. E depois que concorda, ele vai no mar e dá um mergulho, volta sorrindo e não entende quando alguém repete uma piada do Sensacionalista. "Isso é um programa de TV?"
Eu me lembrei desse amigo hoje quando li que "Tay", o projeto ambicioso de Inteligência Artificial da Microsoft, fracassou redondamente semana passada. Tay era um personagem feminino programado para aprender com as interações da rede e produzir tweets espontaneamente depois de interagir com os humanos. Em menos de 24 horas a Microsoft teve que tirar Tay do ar, porque a menina dotada de inteligência e vontade própria virou nazista. Isso mesmo, Tay virou nazista (com elogios públicos a Hitler), além de homofóbica, racista e misógina. Para o constrangimento da empresa que teve que vir a público se desculpar das declarações que Tay fez com ódio amplo e disseminado a povos, pessoas, a praticamente todo mundo. Eu poderia dar exemplos aqui, mas os tweets de Tay são mesmo impublicáveis.
Não à toa, um punhado de pesquisas acadêmicas tenta mapear a relação real entre ódio e internet. Essa impressão de que a internet simplesmente deu voz a uma legião de imbecis (como disse Eco) não é mais completamente aceita. Existe uma possibilidade real de que seres humanos confinados em bolhas artificiais de algoritmos e trending topics (onde pessoas tendem a ler e conviver muito mais com pessoas que pensam e concordam com elas sobre os mais diversos assuntos) estejam de fato sendo levados a uma radicalização forçada do pensamento, levados a uma atrofia da faculdade de percepção da realidade. Somos todos Tay, portanto. Ou mais ou menos isso.
Eu que não tenho dignidade para ser offline, nem vegano, nem triatleta (mas tenho um respeito profundo aos três) estava aqui juntando três pontinhos soltos no espaço: a gentileza alienada desse meu amigo offline, o nazismo inesperado de um programa de inteligência artificial e a tal tese de que talvez a internet não tenha desvelado simplesmente os monstros guardados nos calabouços da alma; quem sabe ela tenha dado um sopro de vida para alguns desses monstros também.
Somos todos Tay e somos todos Frankenstein. Hashtag qualquer coisa aqui.
O texto do Roberto Vitorino acrescenta sobre o tema, além de ser insuportavelmente brilhante.
Roberto Vitorino
28 de março às 01:25 ·
Eu tenho um amigo que escolheu viver offline. Ele não tem facebook, instagram, twitter, snapchat, não liga a tv em casa, não tem whatsaap, não gosta de falar ao celular. Fazia tanto tempo que eu não o via, que pensei, sei lá, que talvez ele tivesse... enfim, meu amigo está muito bem. Outro dia o encontrei na praia e ficamos a tarde conversando. Ele sabe o que está acontecendo no Brasil, tem opinião sobre tudo, continua estranhamente sendo o cara que sempre foi. Mas tinha uma coisa diferente nele agora, digo "diferente" de antes, diferente dos outros amigos, diferente de nós; uma delicadeza quase arrogante de tão alienada. É que esse amigo teima em ser insuportavelmente gentil. Para qualquer entendedor trata-se do caso clássico de um alienado adaptado aos novos tempos. Meu amigo concorda com esta tese, inclusive. Ele sabe disso. E depois que concorda, ele vai no mar e dá um mergulho, volta sorrindo e não entende quando alguém repete uma piada do Sensacionalista. "Isso é um programa de TV?"
Eu me lembrei desse amigo hoje quando li que "Tay", o projeto ambicioso de Inteligência Artificial da Microsoft, fracassou redondamente semana passada. Tay era um personagem feminino programado para aprender com as interações da rede e produzir tweets espontaneamente depois de interagir com os humanos. Em menos de 24 horas a Microsoft teve que tirar Tay do ar, porque a menina dotada de inteligência e vontade própria virou nazista. Isso mesmo, Tay virou nazista (com elogios públicos a Hitler), além de homofóbica, racista e misógina. Para o constrangimento da empresa que teve que vir a público se desculpar das declarações que Tay fez com ódio amplo e disseminado a povos, pessoas, a praticamente todo mundo. Eu poderia dar exemplos aqui, mas os tweets de Tay são mesmo impublicáveis.
Não à toa, um punhado de pesquisas acadêmicas tenta mapear a relação real entre ódio e internet. Essa impressão de que a internet simplesmente deu voz a uma legião de imbecis (como disse Eco) não é mais completamente aceita. Existe uma possibilidade real de que seres humanos confinados em bolhas artificiais de algoritmos e trending topics (onde pessoas tendem a ler e conviver muito mais com pessoas que pensam e concordam com elas sobre os mais diversos assuntos) estejam de fato sendo levados a uma radicalização forçada do pensamento, levados a uma atrofia da faculdade de percepção da realidade. Somos todos Tay, portanto. Ou mais ou menos isso.
Eu que não tenho dignidade para ser offline, nem vegano, nem triatleta (mas tenho um respeito profundo aos três) estava aqui juntando três pontinhos soltos no espaço: a gentileza alienada desse meu amigo offline, o nazismo inesperado de um programa de inteligência artificial e a tal tese de que talvez a internet não tenha desvelado simplesmente os monstros guardados nos calabouços da alma; quem sabe ela tenha dado um sopro de vida para alguns desses monstros também.
Somos todos Tay e somos todos Frankenstein. Hashtag qualquer coisa aqui.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Elza
Olho pro meu corpo / Sinto a lava escorrer / Vejo o próprio fogo / Não a força para deter
Me derreto tonta / Toda pele vai arder / O meu peito em chamas / Solta a fera pra correr
Unhas cravadas / Em transe latejo / Roupas jogadas no chão / Pernas abertas / Te prendo num beijo / Sufoco a sofreguidão
Meu temporal me transforma em loba / Presa, você vai gemer / Feito um cordeiro entregue pra morte / Seu sussurrar a pedir
Pra fuder! Pra fuder! Pra fuder!
Esta é a letra da música Pra fuder de Kiko Dinucci, do último CD de Elza Soares "A mulher do fim do mundo", Natura Musical, 2015.
Elza não sossega.
Caminha para além do samba e bossa nova. Namora o modernismo paulistano e, não à toa, o disco inicia, a capela, com Coração do mar poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik. E tome samba, afro-beat, rock, rap, punk-samba, eletrônico, distorções e dissonâncias. Tem sexo, morte, drogas, negritude e violência doméstica dentre outros temas.
Elza bota pra fuder.
A ficha do disco:
01. Coração do Mar (Poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik)
02. Mulher do Fim do Mundo (Romulo Fróes / Alice Coutinho)
03. Maria da Vila Matilde (Douglas Germano)
04. Luz Vermelha (Kiko Dinucci / Clima)
05. Pra Fuder (Kiko Dinucci)
06. Benedita (Celso Sim / Pepê Mata Machado / Joana Barossi / Fernanda Diamant) Part. Celso Sim
07. Firmeza?! (Rodrigo Campos) Part. Rodrigo Campos
08. Dança (Cacá Machado / Romulo Fróes) Part. Romulo Fróes
09. O Canal (Rodrigo Campos)
10. Solto (Marcel Cabral / Clima)
11. Comigo (Romulo Fróes / Alberto Tassinari)
Ficha Técnica: Produção Musical: Guilherme Kastrup
Fotos: Alexandre Eça
Um Projeto Natura Musical
Elza é de 1937 para algumas fontes. Para outras, 1930. Casou, obrigada pelo pai, aos 12 anos e ficou viúva aos 21. Com quatro filhos e uma filha.
Nos seus 78 (ou 85) anos Elza comeu o pão que o diabo amassou.
Em 2007 assisti a um show de Elza num galpão portuário em Vitória (ES). Galpão lotado e agitação total durante 2 horas de espetáculo. Quase o fim do mundo!
A Mulher do Fim do Mundo é uma corda esticada sobre um precipício por onde caminha tensa e decidida. Aos declarados 78 anos de idade, com a dor das costas operadas limitando seus passos e o desespero da recente perda de um filho ainda tomando o peito, Elza, mais do que cantar, precisa do grito. (1)
Eu sou, eu vou / até o fim / cantar.
(1) http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,elza-soares-lanca-seu-primeiro-album-de-ineditas-desafiada-por-um-novo-conceito,1772047 em 07/12/2015
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Super-ricos
Um
episódio relatado por John Kenneth Galbraith. No início dos anos 60, Ted
Kennedy, o caçula da família, enfrentava a sua primeira disputa eleitoral. Ted
acordou cedo para fazer campanha na porta de uma fábrica. Um trabalhador mais
velho se aproximou dele e disse: "Teddy, meu menino, eu ouvi dizer que
você nunca trabalhou nem um dia sequer na vida". Era realmente o ponto
mais vulnerável do candidato e ele se preparou para responder com cuidado. Mas
o velho não esperou: "Deixe eu lhe dizer, rapaz. Você não perdeu
absolutamente nada".
Deu em Carta Capital, 01/09/2015
Conheça os super-ricos - e saiba como você financia a fortuna deles
Os ricos do Brasil são muito mais ricos do que você imagina. São super-ricos. E ficam mais e mais ricos a cada dia que passa. Existem duas razões principais para isso. Os impostos da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos. E os ricos pagam menos imposto que a classe média e os pobres.
Só agora a gente está entendendo quem são os super-ricos do Brasil. A análise tradicional, feita com as pesquisas do IBGE, não dão conta da realidade. Um novo estudo realizado pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), chega mais perto. Eles analisaram os dados das declarações de imposto de renda das pessoas físicas. As conclusões são chocantes.
Segundo o IBGE, a renda média do 1% mais rico do país foi de R$ 214 mil em 2012. Mas segundo o estudo do IPEA, a renda anual do 1% mais rico é aproximadamente R$ 575 mil. Explicação: o IBGE não capta toda a renda das pessoas mais ricas, que tem muitas rendas provenientes do capital (como aplicações financeiras, aluguéis, lucros e dividendos).
R$ 575 mil já é uma boa grana: mais de R$ 40 mil por mês. Mas esses 1% ainda não são a elite. Os super-ricos do Brasil ganham acima de 160 salários mínimos por mês. São 0,05% da população economicamente ativa.
Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.
E em 2015? Não sabemos, mas é seguro dizer que estão bem mais ricos que em 2014. Quem tem muito capital investe e recebe rendimentos financeiros enormes. Os juros no Brasil são sempre muito altos, mas agora estão estratosféricos. Trabalhar não tem nada a ver com a fortuna crescente dessa turma. Neste nível de renda, trabalha quem quer, não porque precisa.
Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo. Se você tem muita grana, não precisa de criatividade para enriquecer mais e mais. Basta comprar títulos públicos do governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. E de onde vem esse dinheiro para pagar os juros? Do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam.
Mas alguns pagam mais que outros. O detalhe mais cruel sobre a desigualdade brasileira está aí. Os super-ricos brasileiros, esses que ganham mais de 160 salários mínimos por mês, pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o estudo do IPEA.
Como isso é possível? É que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros. Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social no Brasil. É garantia de injustiça, ignorância, violência. E até de atraso em outros campos. Se fala muito que o Brasil tem pouca inovação tecnológica, mas quem vai arriscar capital investindo em inovação, se você pode faturar com juros altos e não pagar quase nada de imposto?
Essa bizarria cruel é criação brasileira. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.
O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmidade social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. Agora, como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos.
Os super-ricos pagam o mesmo imposto sobre produtos que você, eu ou a vovó que recebe Bolsa Família. Pagam o mesmo imposto pelo arroz, o café, o remédio, o fogão. Isso significa que proporcionalmente o pobre paga muito mais imposto a classe média. E infinitamente mais que a elite.
Os super-ricos não são os vilões dessa história. As regras estão aí para beneficiá-los. Não é ilegal. Certamente há na elite gente que topa abrir mão de suas vantagens, em benefício de quem mais precisa... Mas, como era de se esperar, existem super-ricos que atuam diretamente para que esse estado de coisas continue exatamente assim: juros altíssimos e taxação mínima. Basta isso para os donos do capital ficarem mais e mais ricos a cada ano que passa, sem trabalho, sem esforço, sem contribuir para o país.
Os super-ricos têm muito poder. Influenciam muito no debate político e econômico. Abundam na imprensa argumentos a favor de que as coisas se mantenham como são. E são super-ricos os financiadores das campanhas da maioria dos políticos, claro.
A recessão radicaliza a injustiça. Penaliza o trabalhador e o empreendedor, o importador e o exportador, o estudante e o aposentado. Esta recessão não veio do espaço sideral. Foram tomadas decisões erradas no passado? Claro, muitas, desde 1500. Mas não dá para mudar o passado. O futuro felizmente está ao nosso alcance.
Esse ano e os próximos serão muito difíceis. O cenário internacional é hostil. O cobertor está curto. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de 2015 e dos próximos anos. O resto é resto.
http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FConheca-os-super-ricos-e-saiba-como-voce-financia-a-fortuna-deles-%2F7%2F34390
Os impostos
da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos e 65,8% da renda total
dos super-ricos são considerados isentos pela legislação.
André Forastieri - R7 (via Jornal GGN) Os ricos do Brasil são muito mais ricos do que você imagina. São super-ricos. E ficam mais e mais ricos a cada dia que passa. Existem duas razões principais para isso. Os impostos da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos. E os ricos pagam menos imposto que a classe média e os pobres.
Só agora a gente está entendendo quem são os super-ricos do Brasil. A análise tradicional, feita com as pesquisas do IBGE, não dão conta da realidade. Um novo estudo realizado pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), chega mais perto. Eles analisaram os dados das declarações de imposto de renda das pessoas físicas. As conclusões são chocantes.
Segundo o IBGE, a renda média do 1% mais rico do país foi de R$ 214 mil em 2012. Mas segundo o estudo do IPEA, a renda anual do 1% mais rico é aproximadamente R$ 575 mil. Explicação: o IBGE não capta toda a renda das pessoas mais ricas, que tem muitas rendas provenientes do capital (como aplicações financeiras, aluguéis, lucros e dividendos).
R$ 575 mil já é uma boa grana: mais de R$ 40 mil por mês. Mas esses 1% ainda não são a elite. Os super-ricos do Brasil ganham acima de 160 salários mínimos por mês. São 0,05% da população economicamente ativa.
Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.
E em 2015? Não sabemos, mas é seguro dizer que estão bem mais ricos que em 2014. Quem tem muito capital investe e recebe rendimentos financeiros enormes. Os juros no Brasil são sempre muito altos, mas agora estão estratosféricos. Trabalhar não tem nada a ver com a fortuna crescente dessa turma. Neste nível de renda, trabalha quem quer, não porque precisa.
Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo. Se você tem muita grana, não precisa de criatividade para enriquecer mais e mais. Basta comprar títulos públicos do governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. E de onde vem esse dinheiro para pagar os juros? Do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam.
Mas alguns pagam mais que outros. O detalhe mais cruel sobre a desigualdade brasileira está aí. Os super-ricos brasileiros, esses que ganham mais de 160 salários mínimos por mês, pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o estudo do IPEA.
Como isso é possível? É que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros. Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social no Brasil. É garantia de injustiça, ignorância, violência. E até de atraso em outros campos. Se fala muito que o Brasil tem pouca inovação tecnológica, mas quem vai arriscar capital investindo em inovação, se você pode faturar com juros altos e não pagar quase nada de imposto?
Essa bizarria cruel é criação brasileira. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.
O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmidade social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. Agora, como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos.
Os super-ricos pagam o mesmo imposto sobre produtos que você, eu ou a vovó que recebe Bolsa Família. Pagam o mesmo imposto pelo arroz, o café, o remédio, o fogão. Isso significa que proporcionalmente o pobre paga muito mais imposto a classe média. E infinitamente mais que a elite.
Os super-ricos não são os vilões dessa história. As regras estão aí para beneficiá-los. Não é ilegal. Certamente há na elite gente que topa abrir mão de suas vantagens, em benefício de quem mais precisa... Mas, como era de se esperar, existem super-ricos que atuam diretamente para que esse estado de coisas continue exatamente assim: juros altíssimos e taxação mínima. Basta isso para os donos do capital ficarem mais e mais ricos a cada ano que passa, sem trabalho, sem esforço, sem contribuir para o país.
Os super-ricos têm muito poder. Influenciam muito no debate político e econômico. Abundam na imprensa argumentos a favor de que as coisas se mantenham como são. E são super-ricos os financiadores das campanhas da maioria dos políticos, claro.
A recessão radicaliza a injustiça. Penaliza o trabalhador e o empreendedor, o importador e o exportador, o estudante e o aposentado. Esta recessão não veio do espaço sideral. Foram tomadas decisões erradas no passado? Claro, muitas, desde 1500. Mas não dá para mudar o passado. O futuro felizmente está ao nosso alcance.
Esse ano e os próximos serão muito difíceis. O cenário internacional é hostil. O cobertor está curto. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de 2015 e dos próximos anos. O resto é resto.
http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FConheca-os-super-ricos-e-saiba-como-voce-financia-a-fortuna-deles-%2F7%2F34390
sábado, 8 de agosto de 2015
Deixe os mortos enterrarem seus mortos
Juca Kfouri, 07/08/2015
POR VLADIMIR SAFATLE, hoje na “FOLHA”
A Nova República acabou. Qualquer análise honesta da situação brasileira
atual deveria partir dessa constatação. O modelo de redemocratização
brasileiro, que perdurou 30 anos, baseava-se em um certo equilíbrio produzido
pelo imobilismo.
Desde o momento em que FHC se sentou com ACM e o PFL para estabelecer a
“governabilidade”, a sorte da Nova República estava selada. Frentes
heteróclitas de partidos deveriam ser montadas acomodando antigos trânsfugas da
ditadura e políticos vindos da oposição em um grande pacto movido por barganhas
fisiológicas, loteamento de cargos e violência social brutal.
O resultado foi um sistema de freios que transformou os dois maiores
grupos oposicionistas à ditadura (o PT e o núcleo mais consistente do PMDB, a
saber, o que deu no PSDB) em gestores da inércia. Com uma “governabilidade”
como essa, as promessas de mudanças só poderiam gerar resultados bem menores do
que as expectativas produzidas.
Mas a Nova República tinha também um certo princípio de contenção por
visibilidade. No auge da era FHC, José Arthur Giannotti cunhou a expressão
“zona cinzenta de amoralidade” para falar do que ele entendia ser um espaço
necessário de indeterminação das regras no interior da dita democracia com sua
“gestão de recursos escassos”.
Essa zona de amoralidade, mesmo tacitamente aceita, deveria saber
respeitar uma certa “linha de tolerância”, pressuposta na opinião pública.
Havia coisas que não poderiam aparecer, sob pena de insuflar a indignação
nacional.
Giannotti acreditava falar da essência da democracia, mas estava, na
verdade, a fornecer involuntariamente o modo de funcionamento das misérias da
Nova República: um acordo fundado sobre uma zona cinzenta de amoralidade
resultante de disfunções estruturais e democratização limitada.
Mesmo isso, no entanto, é coisa do passado. O primeiro sintoma do fim da
Nova República é a pura e simples gangsterização da política e a brutalização
das relações sociais. Não há mais “linha de tolerância” a respeitar, pois não é
mais necessário um “pacto pelo imobilismo”.
Pacto pressupõe negociação entre atores que têm força e querem coisas
distintas. Mas todos os principais atores políticos da Nova República já estão
neutralizados em seu risco de mudança. Os que não querem a mesma coisa não têm
mais como transformar seu desejo em ação.
Assim, como não há mais linha de tolerância a respeitar, o outrora
impensável pode ser mostrado, desde que sirva para desestabilizar o governo de
plantão.
Por exemplo, foi como um sindicato de gângsteres que o Congresso
Nacional e seu presidente agiram na semana passada ao convocar, para uma CPI de
fantasia, a advogada de defesa de denunciantes da Operação Lava Jato, a fim de
intimidá-la.
De toda forma, só uma política gangsterizada pode aceitar que o
presidente da Câmara seja um indiciado a usar seu cargo para, pura e
simplesmente, intimidar a Justiça, como se estivesse na Chicago dos anos 1930.
Dilma acreditava ainda estar na Nova República ao rifar seu governo para
economistas liberais. Seu cálculo era: “Se eu garantir que não haverá nenhuma
mudança drástica de rota, serei preservada no governo”. Esse raciocínio, no
entanto, não serve mais.
Como é, atualmente, indiferente saber quem está no governo, pois todos
sabem que nenhuma mudança drástica de rota virá, a rifa de Dilma não garantirá
sua sobrevida.
Em um contexto de crise dessa natureza (e, antes de ser econômica, a
crise brasileira é política, é a marca do fim de uma era política) a única
solução realmente possível é caminhar ao que poderíamos chamar de “grau zero da
representação”.
Não há, hoje, mais atores políticos no Brasil. Os principais foram
testados e falharam, e é desonestidade intelectual acreditar que uma simples
troca de presidente mudará algo. Por isso, o poder instituinte precisa se
apresentar diretamente, com o mínimo de representação possível. Ao
apresentar-se enquanto tal, o poder instituinte pode impulsionar um processo de
constituição de novos atores e novas formas.
O parlamentarismo tem a possibilidade de convocação de eleições em
situações de crise. O presidencialismo brasileiro precisaria de tal
flexibilidade para, no caso, convocar eleições gerais, tendo em vista, entre
outros objetivos, a dissolução deste Congresso e a convocação de uma assembleia
constituinte capaz de refundar a institucionalidade política nacional.
Assembleia para a qual poderiam se apresentar candidatos independentes,
fora de partidos políticos, com controle estrito do poder econômico. A saída da
crise não se dará por meio de conchavos de bastidores, mas pela radicalização
da democracia. Como já se disse antes, há horas que você precisa deixar os
mortos enterrarem seus mortos e seguir outro caminho.
http://blogdojuca.uol.com.br/2015/08/deixe-os-mortos-enterrarem-seus-mortos/ quarta-feira, 22 de julho de 2015
Boca do lixo
Corte temporal
O chefe da censura em Brasília proibiu o filme. O produtor implorou pela liberação. O censor impôs uma condição: o Zé do Caixão deveria no final falar como se estivesse arrependido pelas maldades feitas durante a estória. O censor escreveu o que deveria ser dito:
Barbosa; Augusto e
Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Este
foi o time da seleção brasileira de futebol vice-campeã em 1950. Na final
realizada no Maracanã, em 16 de julho de 1950, perdemos para o Uruguai por 2x1.
O Uruguai de Máspoli; Matías Gonzalez e Tejera; Gambetta, Obdulio Varela e
Rodríguez Andrade; Ghiggia, Julio Perez, Miguez, Schiaffino e Morán. Ghiggia
(falecido, aos 88 anos, em 17 de julho de 2015) marcou o gol de desempate aos
34 minutos de segundo tempo e sacramentou a derrota. Uma tragédia presenciada
por 173.850 presentes ao Maracanã. Uma decepção nacional apenas superada pelo
vergonhoso 7x1 para a Alemanha em 2014.
Boca do lixo
A Boca do Lixo foi um
polo cinematográfico importante no centro da cidade de São Paulo. O cinema
independente nacional teve seu auge nas décadas de 1960, 70 e 80. Nesta época a
região das ruas Triunfo, Aurora e Vitória respirava cinema. No início, as
chanchadas; no auge, pornochanchadas, faroestes e cinema marginal e na
decadência, pornô-eróticos. Além da chanchada e pornochanchada são da época na
Boca, dentre outros os filmes: O bandido
da luz vermelha – 1968 de Rogério Sganzerla, A margem – 1967 de Ozualdo Candeias e Lilian M: relatório confidencial - 1975 de Carlos Reichenbach. Os
filmes famosos do Zé do Caixão (José Mojica Marins) foram produzidos por lá.
Para o crítico e diretor de
cinema Alfredo Sternheim “a Boca foi muito estigmatizada e eu,
pessoalmente, levei muita pedrada ao longo dos anos. Para mim, no entanto, o
saldo é positivo. A Boca mostrou que é possível fazer cinema no Brasil com
diversidade de temas e autofinanciamento, sem leis de renúncia fiscal. Sabíamos
economizar tudo e fazer os recursos renderem o máximo. Vale lembrar que saiu da
Boca O pagador de promessas (1962)
de Anselmo Duarte, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em
Cannes. Também são de lá outros filmes brasileiros importantes, como Independência
ou morte (1972) de Carlos Coimbra e A moreninha (1970) de Glauco Mirko Laurelli”.
[1]
Magnífica 70
A série da HBO exibida
atualmente tem como pano de fundo a Boca do Lixo. A personagem central é um
censor de filmes na época da ditadura militar. Vicente (Marcos Winter), o
censor, de tanto ver filmes se torna um cinéfilo e se mete a dar palpite nos
filmes em que lhe é designado. No primeiro episodio ele ameaça a proibição
total do filme “A devassa da estudante” que tem como personagem central a atriz
Dora (Simone Spoladore). Atraído pela atriz, Vicente propõe ao produtor Manolo
(Adriano Garib) uma alternativa ao veto total do filme: rodar um novo final
para o filme. Nela a personagem tem que se arrepender de seus pecados. Fica mais ou menos assim:
Quando
viva, pequei. Me deitei com homens e mulheres. Usei meu corpo para sobreviver.
Tive orgulho disso. Errei, admito e aprendi. Todos erram um dia por descuido,
inocência ou maldade. Assumo os meus erros e passarei a eternidade vivendo com
eles. E ao fazer isto observo algo que me faz lembrar de ti.
Vicente dirigiu a cena final
modificada e o filme foi liberado pela censura.
Esta Noite Encarnarei
no Teu Cadáver
A parte final do 1º episódio de Magnífica 70 foi claramente
baseada no que ocorreu com a liberação pela censura do filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver –
1967 de José Mojica Marins - https://www.youtube.com/watch?v=xKE3lfwMb1Y.
O chefe da censura em Brasília proibiu o filme. O produtor implorou pela liberação. O censor impôs uma condição: o Zé do Caixão deveria no final falar como se estivesse arrependido pelas maldades feitas durante a estória. O censor escreveu o que deveria ser dito:
Deus, Deus... Sim, Deus é a verdade...
Eu creio em tua força... Salvai-me!
A cruz, a cruz, padre...
A cruz, o símbolo do filho!
Eu creio em tua força... Salvai-me!
A cruz, a cruz, padre...
A cruz, o símbolo do filho!
E
assim ficou e até hoje o filme tem este final [2]. Desconheço uma versão do
diretor.
E
quem era este censor que adulterou o filme Esta Noite Encarnarei
no Teu Cadáver? Augusto
da Costa (1920-2004), o Augusto, zagueiro e capitão da seleção brasileira no
final da Copa de 1950.
Coisas do Brasil, brasileiro.
Referências
1. http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/05/24/internas_viver,577974/o-ambiente-da-boca-do-lixo-era-familia.shtml 20/07/2015.
2. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, André Barcinski, Ivan Finotti, Editora 34, 1998
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