segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Grande sertão: veredas - Cap. 4

Grande sertão: veredas - "O diabo na rua, no meio do redemoinho" - Edição especial 70 anos, João Guimarães Rosa, p. 523, Companhia das Letras, 2026.

Continuação de Grande sertão: veredas - Cap. 3 ( ver aqui

NB: Entre colchetes [ ] as páginas do livro.

Com ele (Alaripe) a gente desproduzia qualquer remorso

Joaquim Beijú e o Quipes ainda foram na cozinha, cortar um de-comer, arranjar matula. Por essa volta, o Jacaré mesmo combatia também, às vezes em que não estava cozinhando, e vinha atirar, da beira duma janela, com o Mijafogo. A noite breava própria; o mais escuro ia ser regulando em antes das dez horas, que quando depois podia subir um caco de lua. Aos poucos, foi dando um tão respeitável silêncio, não se atirava de parte nem de outra, a gente mesma ficava na cautela de não se fabricar rumor nenhum, de não se pautear sem necessidade. De noite, o clarão das pólvoras marca denúncia do lugar do atirador. - "Noite é p'ra surpresas de estratagemas, noite é de bicho no usável..." - o Alaripe baixo falou. O cearense bom: esse permanecia em tudo igual, com ele a gente desproduzia qualquer remorso, o brigar parava sendo obrigação de vivente, conciso dever de homem. Por uns assim, eu punia. Por uns, assim, eu devia de ser inteiro leal, eu mesmo. Mas, então, eu carecia de encostar Zé Bebelo, o espremer na franca fala. A que ele soubesse de minha lei: a que ele sem um aviso não se desgraçasse. Mesmo por causa da gente - porque Zé Bebelo era a perdição, mas também só ele podia ser a salvação nossa. Então, com ele eu ia falar, o quieto desafio. Adiantava? Ai não adiantasse. Mas, então, eu carecia de armar um poder, carecia de subir para clma daquele homem. Eu tinha de encher de medo as algibeiras de Ze Bebelo. Số isso era o que valia. [251]

Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio.

Mas, então, a soldadesca tinha vindo, alcançada, estavam chegando? Era. Era! Remexendo um rebuliço, de nós todos, mesmo porque os mais não conheciam aquele motivo, de nada não soubessem o tencionado. Os praças? O tiroteio deles, pegando os hermogenes de supetão, surpresa bruta, de retaguarda. Os tiros, que eram: .. a bala, bala, bala... bala, bala, bala... a bala: bá!.. desfechavam com metraIhadora. Aí arrejàrrajava, feito um capitão de vento. Até destroçavam também nas custas da Casa? - "Apre, meninos, faz mal não. A vantagem do valente é o silêncio do rumor.." -- Zé Bebelo sentenciava. Zé Bebelo trepava em altas serras. Duvidava de nada. Que vencia! Quem vence, é custoso não ficar com a cara de demônio. [257]

No assim simples eles obedeceram

Depois, um sujeito apareceu, do capim, e veio, devia de ter passado por um rombo feito na cerca. A certa distância estava, no eirado, e um dos nossos disse, reconhecendo: -"Ah, é o Rodrigues Peludo, homem devoto do Ricardão..." Que era, que era - os outros companheiros concordaram. Atrás desse, meio engatinhando também, surgiu mais um: - "E o Lacrau!" E o Rodrigues Peludo virava para trás, falava qualquer coisa, parecia que estava mandando o Lacrau ir sembora. Mas o Lacrau teimava, seguia acompanhando o outro. - "Xente, dond' é que está se comparecendo esse Lacrau? Faz tempo que não se tinha ciência nenhuma dele." O qual era dos Gerais do Bolôr, terra jequitinhonha, e homem de certa valia. Caboclo claro. E que, ele sendo réu, tinha esfaqueado na sala de juúri um promotor, em outroras. De ver os dois, perto, assim pessoas, escada acima, e presentes em pé, diante da gente, nas decididas condições, achei muita esquisitice. Rodrigues Peludo levantou os olhos, feito se a gente estivesse no céu, e saudou normal. Daí disse:

- "Seô Chefe.."

"Homem, te vira de costa!" - Zé Bebelo regrou.

No assim simples eles obedeceram, tanto um, tanto o outro. Mas estavam muito armados. Momentos que foram, eu louvei a coragem calma daqueles dois. que de qualquer longe recanto um soldado talvez estivesse em poder de derrubar por belprazer. Porque os soldados não pertenciam nessa cerimônia. Afiguro o que pensei.

E Zé Bebelo perguntou, impondo ordem de resposta: que mandatela eles traziam? Do lado meu, o Diodôlfo chiava boca num dente, conforme sestro dele, e o José Gervásio sussurrou: "Tramoia..." Mas Zé Bebelo regia tudo, mão em revólver. Um homem falar seu recado, de costas, no meio dos contrários, na boca de tantas armas - o senhor já presenciou essas circunstâncias? Assim o Rodrigues Peludo deu conta, sem rasgo de tremor na voz:

"Com sua licença dada, e nos usos, estou trazendo estas palavras, Seô Chefe, que para repetir ao senhor fui mandado: - Que, em vistas desses soldados, e do mais, que é contra todos, se não era mais aproveitável, para uma parte e outra, de se fazer trato de paz, por uns tempos.. E por essa oferta é que venho, por ordens. Que - se serve, ou valor tem, o dito - pergunta faço; e se o senhor há de estar ou não de acordo, me dando a resposta que queira dar, para eu levar para os meus chefes..."

"Que chefes?" - Zé Bebelo indagou, sem tom de nenhuma malícia.

Rodrigues Peludo demorou um ponto, fazendo menção de virar o rosto, mas ○ que deixou em tempo de fazer. E contestou:

- "Nhô Ricardão. E seô Hermógenes..."

- "E eles então estão querendo paz?" "Estão propondo um acordo correto... [259-260]

Com os vivos é que a gente esconde os mortos

Mas isto tudo, que conto ao senhor, se compartiu de caber em pouquinhos minutos instantes. E do modo de um prosseguir sem partes. Porque Zé Bebelo, as mãos na cinta, se encurtava frio em siso, feito uma a cobra. O que disse, o quanto:

- "Homem, e o que mais?" 

- "Era tudo o que eu já falei, Chefe, seó. Ao que peço vossa resposta, para conduzir. E em caso de algum acordo, que é de bom respeito, as ordens tenho para com meu juramento fechar trato..." foi a resposta de Rodrigues Peludo, com a clara voz de quem está mais cumprindo do que querendo. Até inveja eu tive dele: porque, para viver um punhado completo, só mesmo em instâncias assim.

- "Antes bem" Zé Bebelo glosou, "quem é que está rodeando e vexando os outros, e atacando?"

"O em usos...-- é a gente... Isto é ..." - o Rodrigues Peludo compôs o con- fessar.

- "Ah. Isto era. Ah, e então?!"

- "Ao que vim ajustar é propostas. Ao para salvo e lucro das nulas partes. As ambas. Caso se Ossa Seoria se concorde." 

Somenos aprumo, nem o tom. Mas, de tudo seja, também, o que gravei, aí, desse Rodrigues Peludo, foi um ter-tem de existidas lealdades. Assim que, inimigo, persistia só inimigo, surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o desleixo de si. E que podia conceber sua outra razão, também. Assim que, então, os de lá - os judas - não deviam de ser somente os cachorros endoidecidos; mas, em tanto, pessoas, feito nós, jagunços em situação. Revés - que, por resgate da morte de Joca Ramiro, a terrível que fosse, agora se ia gastar o tempo inteiro em guerras e guerras, morrendo se matando, aos cinco, aos seis, aos dez, os homens todos mais valentes do sertão? Uma poeira dessa dúvida empoou minha ideia - como a areia que a mais fininha há: que é a que o rio Urucuia rola dentro de suas largas aguas, quando as chuvaradas do inverno. 

Ali, dos meus companheiros, tantos mortos. Acaso, que companheiros eram; e agora o que se depositava deles era o assunto de lembranças, e aquele amassado e envelhecido feder, que as horas repontava. Constado que produziam isso, mesmo estando amontoados no cômodo soturno, entrapadas as frestas da porta, e cá fora se torrando couros com folhas polvreadas. 

Mediante os estoques desse mau-cheiro, por certo Rodrigues Peludo e o Lacrau iam orçar a boa conta de nossos mortos, afora os feridos, leves graves 

Mas Ze Bebelo anteteve de mandar chamar Marcelino Pampa, João Concliz e muitos diversos outros, e o apinho e apessoar, nosso, ombros em ombros, aprazava efeito de bando signilicado, numeroso. Com os vivos é que a gente esconde os mortos. [260-261]

Uma tristeza meiga, muito definitiva

- "... Você se casa, Riobaldo, com a moça da Santa Catarina. Voces vão casar sei de mim, se sei; ela é bonita, reconheço, gentil moça paçã, peço a Deus que ela te tenha sempre muito amor... Estou vendo vocês dois juntos, tão juntos, prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Ah, o que as mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca, com muitas rendas.. A noiva, com o alvo véu de filó ..."

Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Melar mel de flôr. E me embebia - o que estava me ensinando a gostar da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho, se sonsom, teito se imaginasse sempre, a ío razoável de cada dia, no estar Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-amores para que minhas mãos gostassem deles mais. E Otaciia tomando conta da casa, de nossos filhos, que decerto íamos ter. Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em camisola fina de ló. Otacília indo por meu braço as festas da cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em seu vestido novo de molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse. De meu juízo eu perdi o que tinha sido começo da nossa discussão, agora só ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez alguma causa que ele até de si guardava e que eu não podia inteligir. Uma tristeza meiga, muito definitiva. [272]

A gente só sabe bem aquilo que não entende

No tempo, não apareci no meio daquilo. Assim foi que foi. Até que vieram uns companheiros, com João Concliz, Sidurino e João Vaqueiro, que ajuntaram lenhas e armaram um fogo bem debaixo do paratudo. Ao relançar das labaredas, e o refreixo das cores dando la acima nos galhos e folhas, essas trocavam tantos brilhos e rebriIhos, de dourado, vermelhos e alaranjado as brasas, essas esplendências, com mais realce que todas as pedras de Arassuaí, do Jequitinhonha e da Diamantina. Era dia-de-anos daquela árvore? Ao quando bem anoiteceu, foi assim. A gente só sabe bem aquilo que não entende.

O senhor veja: eu, de Diadorim, hoje em dia, eu queria recordar muito mais coisas, que valessem, do esquisito e do trivial; mas não posso. Coisas que se deitaram, esqueci fora do rendimento. O que renovar e ter eu não consigo, modo nenhum. Acho que é porque ele estava sempre tão perto demais de mim, e eu gostava demais dele. [272-273]

O que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma

A hora tinha de ser o comeco de muita aflição, eu pressentia. Raça daqueles homens era diverseada distante, cujos modos e usos, mal ensinada. Esses, mesmo no trivial, tinham capacidade para um ódio tão grosso, de muito alcance, que não custava quase que esforço nenhum deles; e isso com os podêres da pobreza inteira e apartada; e de como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio regedor eles nem divulgavam. Só o mau fato de se topar com eles, dava soloturno sombrio. Apunha algum quebranto. Mas mais que por conosco não avirem medida, haviam de ter rogado praga. De pensar nisso, eu até estremecia; o que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma. Aqueles homens eram orelhudos, que a regra da lua tomava conta deles, e dormiam farejando. E para obra e maleficios tinham muito governo. Aprendi dos antigos. Capatazia de soprar quente qualquer ódio nas folhas, e secar a árvore; ou de rosnar palavras em buraco pequeno que abriam no chão, tapando depois: para o caminho esperar a passagem de alguém, e a ele fazer mal; ou guardavam um punhado de terra no fechado da mão, no prazo de três noites e três dias, sem abrir, sem largar: e quando jogavam fora aquela terra, em algum lugar, nele com data de três meses ficava sendo uma sepultura... 

De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea. Numa o senhor põe ouro, na outra prata; depois, para ninguém não ver, elas o senhor fecha bem. E foi o que eu pensei. [280]

Eu comecei a tremeluzir em mim

E aquele lugar, o Valado, eu aceitei - senhor preste atenção! - ; para ficar, uns meus tempos, ali, ainda me valia. Senti assim, meu destino. Dormindo con um pano molhado em cima dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca, de noite o destino da gente as vezes conversa, sussurra, explica, até pede para não se atrapalhar o devido, mas ajudar. Crendice? Mas coração não é meio destino? Permanecer, ao menos ali, eu quis. Mas Zé Bebelo duvidou de ficar. Ze Bebelo suscitado determinou, que a gente fosse mais para adiante. Ele concebia medo. Conheci. Estava.

Zé Bebelo pegou a principiar medo! Por que? Chega um dia, se tem. Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiu podiam ter trazido o mau-ar, e que mesmo o Sucruiu ainda demeava vizinho justo demais. Tanto ri. Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo. Assim mesmo, em errei; disso não sabia. Mas o cabedal é um só, do misturado viver de todos, que mal varêia, e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se suprira certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim. [288]

Me ensina o que eu sabia

E ali, redizendo o que foi meu primeiro pressentimento, eu ponho que era por minha sina o lugar demarcado, começo de um grande penar em grandes pecados terríveis. Ali eu não devia nunca de me ter vindo; lá eu não devia de ter ficado. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse, no avistar o redondo daquilo e a velhice da casa. Que mesmo como coruja era - mas da orelhuda, mais mor, de tristes gargalhadas; porque a suindara é tão linda, nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma, por cima de riscas sedas de brancura. E aquele situado lugar não desmentia nenhuma tristeza. A vereda dele demorava uma aguinha chorada, demais. Até os buritís, mesmo, estavam presos. O que é que burití diz? Me ensina o que eu sabia... Bobice de todos. Só esta coisa o senhor guarde: meia-légua dali, um outro córgo-vereda, parado, sua água sem-cor por sobre de barro preto. Essas veredas eram duas uma perto da outra; e logo depois, alargadas, formavam um tristonho brejão, tão fechado de môitas de plantas, tão apodrecido que em escuro: marimbús que não davam salvação. Elas tinham um nome conjunto - que eram as Veredas-Mortas. [289]


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