domingo, 13 de setembro de 2026

Festival de Veneza 2026

Festival de Veneza 2026 - “Woman Unknown” venceu o Leão de Ouro e a mulher que Veneza quase não tinha 

EPA/ETTORE FERRARI

José Vieira Mendes, Visão, 13.09.2026

PALMARÉS — 83.º FESTIVAL DE CINEMA DE VENEZA 

Venezia 83 — Competição 

Leão de Ouro — Melhor Filme: Woman Unknown, de May el-Toukhy 

Leão de Prata — Grande Prémio do Júri: Possible Love, de Lee Chang-dong 

Leão de Prata — Melhor Realização: Ilya Khrzhanovsky, por DAU 

Prémio Especial do Júri: NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor 

Melhor Argumento: Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce, por Un bon petit soldat 

Coppa Volpi — Melhor Ator: John Malkovich, por Wild Horse Nine 

Coppa Volpi — Melhor Atriz: Mathilde Arcel, por Woman Unknown 

Prémio Marcello Mastroianni — Jovem Actor ou Actriz Revelação: Malou Khebizi, por 15/18 


Leão do Futuro — Prémio Luigi De Laurentiis 

Melhor Primeira Obra: House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu 


Orizzonti 

Melhor Filme: Diane in the Loop, de Ann Sirot e Raphaël Balboni 

Melhor Realização: Jacqueline Lentzou, por A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra 

Prémio Especial do Júri: House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu 

Melhor Ator: Riccardo Scamarcio, por The Children of the Monkey 

Melhor Atriz: Laleh Marzban, por Falling House 

Melhor Argumento: Tommaso Landucci e Damiano Femfert, por The Children of the Monkey 

Melhor Curta-Metragem: Quelques instants de bonheur, de Shaden Safieddine Tazi 


Venice Spotlight 

Prémio do Público Armani Beauty: I Matter, de Alina Șerban 


Venice Classics 

Melhor Filme Restaurado: Long Night of 1943, de Florestano Vancini 


Venice Immersive 

Grande Prémio: The Pigeon Ring, de Shixin Tao e Yuqi Zhang 

Prémio Especial do Júri: Out of the Ashes, de Rory Mitchell e Nonny de la Peña 

Achievement Prize: Empire at Sea, de Peter Flaherty 

Leões de Ouro de Carreira 

George Clooney 

Ellen Burstyn 

...

O Festival de Veneza fechou a 83.ª edição (2 a 12 de setembro) com uma surpresa daquelas que ainda justificam esperar pela abertura dos envelopes. Woman Unknown, de May el-Toukhy, roubou o Leão de Ouro aos favoritos e transformou o último ato da Mostra numa inesperada vitória do cinema e das mulheres-realizadoras sobre as previsões.

A realizadora dinamarquesa May el-Toukhy e o seu filme Woman Unknown não estavam nas contas nem nas apostas. E a sua atriz Mathilde Arcel também não. Porém, saíram ambas da noite de gala dos prémios e da Sala Grande, uma com o Leão de Ouro de Melhor Filme e a outra com a Coppa Volpi de Melhor Atriz, enquanto o favorito Possible Love, do coreano Lee Chang-dong, teve de se contentar com a prata. Mas o palmarés desta 83.ª Mostra diz bastante mais sobre algumas das grandes inquietações do cinema contemporâneo: premiou a desigualdade social, a loucura soviética de DAU, a denúncia devastadora de NAZA, a ditadura empresarial de Stéphane Brizé, um extraordinário John Malkovich e a juventude ferida de Malou Khebizi. Veneza começou a discutir porque tinha tão poucas mulheres na Competição e acabou entregando o Leão precisamente a uma delas. Às vezes os júris ainda servem, felizmente, para estragar as tabelas de estrelas. 

Da diversidade do cinema contemporâneo 

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Veneza terminou com uma bela piada involuntária. Durante onze dias discutiu-se cinema, Gaza, Musk, Inteligência Artificial, bilionários, bunkers, Rupert Murdoch, CIA, ditaduras, corpos, guerras, memória e poder e, logo no arranque, uma questão bastante mais simples: onde estavam as mulheres realizadoras? Eram praticamente duas na Competição: May el-Toukhy, única mulher a assinar sozinha uma longa-metragem, Woman Unknown, e Rachel Szor, co-realizadora com Yuval Abraham do documentário NAZA. Maggie Gyllenhaal, presidente do júri, logo no início, não fugiu à pergunta nem tentou embrulhá-la naquele celofane diplomático que os festivais adoram. Existe um problema sistémico, disse, porque as mulheres continuam a ter maior dificuldade em financiar filmes e porque aquilo que querem contar nem sempre é reconhecido pelos mesmos senhores que durante décadas decidiram o que merece a nobre classificação de “grande cinema”. Onze dias depois, o Leão de Ouro foi parar às mãos de May el-Toukhy, realizadora dinamarquesa de origem egípcia, e, para completar a ironia, Mathilde Arcel levou também a Coppa Volpi. Duas mulheres, dois dos grandes prémios da noite e um filme que praticamente ninguém colocava no topo das apostas. O Leão, pelos vistos, não consultou as tabelas da crítica antes de sair da jaula. 

Woman Unknown também não parece material fabricado em laboratório para ganhar festivais. Passa-se na Dinamarca do verão de 1945, terminado o pesadelo da ocupação nazi, quando a euforia da libertação rapidamente descobre a sua própria capacidade para produzir vingança, humilhação e hipocrisia. Marie, interpretada por Mathilde Arcel, é uma criada prestes a casar com o patrão, um viúvo mais velho e abastado. Só que o passado recusa-se a obedecer às ordens da História. Marie manteve uma relação com um soldado alemão e, numa Dinamarca que persegue, rapa o cabelo e expõe publicamente as mulheres acusadas de confraternizarem com o inimigo, o corpo feminino volta a ser território ocupado. Primeiro pela guerra, depois pela moral dos vencedores. Mudam-se os uniformes e as bandeiras, permanece aquela irresistível tentação masculina de decidir o que uma mulher pode fazer com o próprio corpo. 

May el-Toukhy consegue assim fazer um drama histórico chegar violentamente ao presente. Falou esta noite de mulheres invisíveis, sem voz, e do corpo feminino como campo de batalha. Mathilde Arcel, na sua primeira protagonista no cinema, recusa transformar Marie numa santa pronta a caber num cartaz militante. Dá-lhe medo, desejo, culpa, cálculo, vergonha e instinto de sobrevivência. A sua Coppa Volpi não é um prémio de acompanhamento do Leão: é uma das razões pelas quais o Leão existe. 

A prata coreana, o laboratório soviético e o horror convertido em algoritmo 

A surpresa torna-se maior porque o campeonato das previsões parecia relativamente resolvido. Possible Love, o regresso de Lee Chang-dong oito anos depois de Burning, chegava à cerimónia com aquele ar de vencedor antecipado, reforçado pelo Prémio FIPRESCI da crítica internacional. Foi um dos filmes mais unanimemente elogiados da Mostra e um daqueles que provavelmente continuarão connosco depois de desaparecer todo o show off dos festivais. Lee cruza dois casais de classes sociais opostas: Ho-seok e Mi-ok, feridos pelo desemprego e pela precariedade; Ye-ji, documentarista abastada que decide filmá-los, e o marido, Sang-woo, pertencente ao universo onde os problemas económicos são normalmente coisas que acontecem aos outros. A partir daí entra numa zona moral muito mais perigosa: quem observa quem, quem utiliza quem e até onde pode alguém transformar a miséria alheia em matéria artística? Lee Chang-dong não precisa de pôr Karl Marx a sair de trás de uma porta. Basta-lhe uma sala, uma mesa, dois casais e as pequenas humilhações que o dinheiro introduz numa relação aparentemente igual. Possible Love parecia o Leão de Ouro lógico. Recebeu o Leão de Prata — Grande Prémio do Júri. Perdeu o ouro, mas não saiu derrotado. 

Já o Leão de Prata de Melhor Realização para Ilya Khrzhanovsky por DAU talvez seja o prémio que melhor leva a palavra “realização” até às últimas consequências. Foram cerca de vinte anos de um projeto que deixou há muito de parecer uma produção cinematográfica normal para se transformar numa espécie de Estado paralelo com câmaras. Khrzhanovsky reconstruiu um universo soviético, instalou pessoas lá dentro, filmou milhares de horas e criou filmes, instalações, experiências e polémicas em torno do físico Lev Landau, da ciência submetida ao poder e daquela velha tendência dos Estados totalitários para adorarem cientistas desde que descubram exatamente aquilo que o Estado deseja. São mais de três horas de física, Stalin, medo, desejo, sexo, ciência e opressão. Pode discutir-se quase tudo em DAU, incluindo os métodos do próprio Khrzhanovsky, mas poucas obras desta Competição tiveram tamanha vertigem, ambição e loucura cinematográfica. Melhor Realização? Talvez fosse preciso inventar o prémio para Melhor Obsessão. 

E depois apareceu NAZA, já perto do fim, quando começávamos a fechar balanços e escolher favoritos. Mudou o ar da sala. Depois de Musk, foi provavelmente a sessão mais inquietante desta Veneza 83, mas por razões ainda mais brutais. Alex Gibney mostrava-nos um homem com um poder tecnológico assustador; Yuval Abraham e Rachel Szor fizeram algo mais perturbador: perante vítimas tantas vezes silenciadas, puseram os homens do sistema a falar. O documentário constrói-se a partir dos depoimentos de 24 militares e agentes israelitas e mostra o que acontece quando tecnologia, algoritmos, Inteligência Artificial e poder militar deixam de pertencer à ficção científica e passam a decidir, a quilómetros de distância, quem pode morrer. Não precisa de exibir continuamente corpos. Mostra o mecanismo que os produz: dados, percentagens, autorizações, coordenadas, margens aceitáveis de vítimas civis. Uma guerra transformada numa folha de Excel com mísseis. O Prémio Especial do Júri foi uma das decisões politicamente mais fortes deste palmarés. Um prémio não trava uma bomba, evidentemente, mas Veneza colocou oficialmente entre os vencedores um filme que acusa um sistema de ter industrializado a desumanização. 

Recursos Humanos, CIA e outras formas civilizadas de violência 

O prémio de Melhor Argumento para Stéphane Brizé, Coralie Amédéo e Olivier Gorce por Un bon petit soldat também faz todo o sentido. Brizé regressa ao território que conhece bem: a empresa contemporânea como pequena ditadura onde ninguém é oficialmente carrasco porque todos estão apenas a cumprir procedimentos. Alba Rohrwacher interpreta Carla Moretti, nova responsável de Recursos Humanos de uma grande companhia de seguros. Recursos Humanos: duas palavras maravilhosas, sobretudo porque significam frequentemente que alguém deixou de ser pessoa e passou a recurso. Carla chega com boas intenções, vontade de corrigir abusos e aquela ingenuidade profissional de quem ainda acredita que um código de ética serve para alguma coisa quando começa a incomodar os lucros. Encontra chefias abusivas, discursos progressistas para consumo externo, hierarquias, interesses e a necessidade permanente de proteger a empresa da realidade da própria empresa. Ninguém precisa de gritar “viva a ditadura”. Basta perguntar se uma decisão moral poderá afetar os resultados trimestrais. Há cartões de identificação, departamentos jurídicos, PowerPoints e reuniões de avaliação. Muito mais civilizado. O argumento transforma assim um conflito laboral numa anatomia da obediência. 

A Coppa Volpi de Melhor Ator para John Malkovich por Wild Horse Nine era, ao contrário do Leão de Ouro, uma surpresa bastante menor. Desde que Martin McDonagh apresentou o filme, Malkovich ficou imediatamente na zona dos premiáveis. Ao lado de Sam Rockwell, regressa ao universo que McDonagh domina como poucos: homens moralmente estragados, diálogos que parecem granadas com temporizador, violência absurda, culpa e amizades masculinas que só conseguem exprimir sentimentos através do insulto. A CIA, o Chile, a sombra de Allende e a Ilha da Páscoa servem de cenário a uma comédia negra sobre homens que passaram demasiado tempo a matar em nome de causas que talvez nunca tenham compreendido inteiramente. Malkovich interpreta um veterano que começa a fazer contas à vida precisamente quando já há poucas contas para fazer. É divertido, venenoso, cansado, cruel e inesperadamente comovente. Consegue parecer que está a gozar com a personagem e a sofrer por ela ao mesmo tempo. Não esteve na Sala Grande — enviou uma mensagem gravada porque está a filmar em Toronto —, mas saiu de Veneza com uma bela rampa de lançamento para a corrida aos Oscars. 

O Prémio Marcello Mastroianni para Malou Khebizi por 15/18 (A Place to Heal) é, pelo contrário, daqueles que parecem pequenos quando se lê rapidamente o palmarés e podem tornar-se enormes para quem os recebe. Cédric Kahn instala a câmara numa unidade pública de psiquiatria para adolescentes entre os 15 e os 18 anos e recusa transformar aqueles jovens numa coleção de diagnósticos. Malou Khebizi, como Lucia, ocupa o centro emocional desse pequeno caos: desafiante, sexualizada, furiosa, vulnerável, carregando marcas de abuso e a necessidade permanente de atacar antes de voltar a ser atacada. Kahn filma-a sem piedade sentimental e sem a reduzir à “jovem problemática” de um relatório clínico. Num festival carregado de Malkovich, Bardem, Cruz, Pattinson, Clooney e Rockwell, é saudável que um dos prémios principais vá parar às mãos de alguém que ainda agora começou. 

A Maggie tinha avisado 

É aqui que regressamos a Maggie Gyllenhaal. Dos 21 filmes da Competição, apenas Woman Unknown era exclusivamente realizado por uma mulher; NAZA tinha Rachel Szor como co-realizadora com Yuval Abraham. Não foi propriamente uma invasão feminina ao Lido. Gyllenhaal lembrou desde o início que o problema começa muito antes de Alberto Barbera escolher os filmes: em quem consegue dinheiro para filmar, quem recebe confiança para dirigir produções, que histórias são consideradas universais e quais continuam arrumadas na gaveta dos chamados “assuntos de mulheres”. 

Também não vale transformar agora o júri numa conspiração de saias. Eram sete jurados: Maggie Gyllenhaal, Kaouther Ben Hania e Shahrbanoo Sadat, três mulheres; Johnnie To, Xavier Giannoli, Daniel Blumberg e Francesco Casetti, quatro homens. Quase ela por ela. Woman Unknown não foi escolhido por um “júri feminino”. Foi escolhido por um júri internacional presidido por uma mulher numa Competição que quase não lhe deu outras realizadoras para avaliar. Na verdade, trata-se de um palmarés sobre o poder. E talvez seja isso que o torna mais interessante do que uma simples lista de vencedores. O júri recusou concentrar tudo num filme ou confirmar obedientemente as tabelas da crítica. Deu o ouro à surpresa dinamarquesa, a prata ao favorito coreano, a realização à experiência soviética de Khrzhanovsky, o prémio especial ao documentário mais explosivo da Mostra, o argumento à dissecação empresarial de Brizé, as Coppa Volpi a uma actriz praticamente desconhecida e a um ator que conhecemos há quarenta anos, e o prémio de revelação a uma jovem francesa perdida numa instituição psiquiátrica. Há, aliás, uma curiosa linha subterrânea a unir quase todos estes vencedores: o poder. Woman Unknown fala do poder da sociedade sobre o corpo feminino; Possible Love, do dinheiro e da classe; DAU, do Estado; NAZA, da máquina militar e tecnológica; Un bon petit soldat, da empresa; Wild Horse Nine, das ruínas deixadas pelo poder político; A Place to Heal, das instituições perante jovens que já chegaram feridos. Talvez o júri não tenha deliberadamente construído este mapa. Melhor ainda. Os bons palmarés dizem por vezes coisas que os próprios jurados não planearam dizer. E fica finalmente a ironia perfeita do título. A “mulher desconhecida” chegou ao Lido fora do pelotão dos favoritos, entre grandes autores, estrelas de Hollywood, filmes intermináveis e aquela bolsa de valores crítica que todos fingimos desprezar enquanto consultamos religiosamente as cotações. Sai como a mulher mais conhecida da noite. Um Leão de Ouro não resolve a desigualdade nem corrige uma indústria. Mas deixa uma imagem bastante boa para fechar Veneza 2026: May el-Toukhy com o Leão, Mathilde Arcel com a Coppa Volpi e um filme chamado Woman Unknown no lugar mais visível da fotografia. Depois de onze dias a perguntar onde estavam as mulheres, uma delas acabou no palco. E levou o Leão  de Ouro consigo para casa. 

NB: os link ocultos (nos filmes) são deste que vos fala

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