segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dora


Doralina era tarumirinense. Nasceu em Tarumirim, região do Vale do Rio Doce em Minas Gerais. Tarumirim significa "céu pequeno".


Eu venho humildemente / De uma cidade do interior / Contando passo a passo
O chão que a sorte traçou / Trago a saudade no peito / E uma dor no coração
Que aos poucos virou canção.

Estrada velha, Amado Batista.

Provavelmente o nome Tarumim seja uma formação híbrida da palavra krenak: taru "céu" e o sufixo diminutivo tupi "pequeno". Os Krenak (crenaques) são um grupo indígena brasileirao que dominou parte do vale do Rio Doce (Minas Gerais e Espírito Santo) até o início do século XX. Os crenaques foram definitivamente desterrados e expulsos de sua reserva com a construção da EFVM (Estrada de Ferro Vitória-Minas) e atualmente estão confinados a pequenas reservas próximas do município de Resplendor, estado de Minas Gerais.

Dora era descendente dos crenaques. Neta de indígenas da parte de mãe e de branco da parte de pai.






Nas fotos acima estão duas descendentes krenak (1)



Dorinha viveu por lá, no "céu pequeno", até o ano 2000. Tarumim na época tinha não mais que 15 mil habitantes. Casou nova como era comum na época. Teve com Francisco, o marido, quatro filhas, sete filhos e de sobra três filhos adotados. Criou esta turma toda com muita dignidade e muito trabalho. Cuidava da casa, dos filhos e marido gerenciando a casa e educando os meninos e meninas. E, importante, ouvindo rádio ou disco vinil em sua pic-kup. E toma Amado Batista, Trio Parada Dura, Amiltom Lelo e outros.

Para início de conversa conto um caso que identifica nossa personagem. Marcos, um dos filhos de Dora, tinha 23 anos, 1,70 m, e na época já era casado. Ele gostava de umas pinga e quando voltava para casa tarde da noite, sai de baixo. A esposa tinha que segurar o bicho.

Um dia Dora ficou sabendo que Marcos tinha dado uns safanões na esposa depois de uma noitada regada a muita pinga. A mãe não teve dúvida. Na noite seguinte pegou um cabo de vassoura e foi parar no bar em que o filho estava. Ele e os amigos numa mesa e Dorinha, 1,55 metro , chega. Aí o bicho pegou.

Dora: Olha aqui, agora vou te mostrar como é bom bater em mulher, disse Dora ao filho.

E sentou o pau em Marcos que ficou assustado e também envergonhado com a muvuca.

Marcos:  Pera aí, mãe. Tá doida? Este escândalo na frente de todo mundo? Disse Marcos

E saiu correndo com a mãe dando cacete no lombo do filho. Já fora do bar.

Dora: E tem mais, se não quizer sua mulher, separe. Você aprende já e não bata em mulher nunca mais, senão te quebro de novo .

Chegou em casa doidão, e deu uns tapa na muié / A sogra rodou a saia, fez um baita carnaval / Foi lá no barraco dele e cobriu ele no pau / Homem que bate em mulher, merece levar castigo / Ele apanhou pra cacete bem feito foi merecido
E a sogra braba pra burro, vive dizendo pro povo / Se ele cantar de galo lhe quebra a cara de novo.
Quem não sabe nadar, Trio Parada Dura.

Doralina era uma dona de casa daquelas. Como boa costureira fazia a roupa dos filhos e marido. Cuidava das criações e plantas que davam sustento à casa. Repetia, e bem, o que aprendera com a mãe. E de quebra arrumava tempo para dançar nos forrós da cidade. Ela era uma dançarina de noite a dentro.

Eu não me importo que me chamem de boêmio / Somente Deus sabe a dor que estou sofrendo / É madrugada e eu ainda estou na rua / Vida noturna eu agora estou vivendo                                       

Vida Noturna, Amilton Lelo

Outra especialidade da Doralina: a culinária. Vamos ao frango à Dora. Ingredientes: Frango vivo, quiabo, sal, alho, cebola, pimenta do reino, tomate, coloral, coentro granulado, salsa, cebolinha. Modo de fazer: matar o frango e depenar em agua fervente; desossar e lavar os pedaços com limão e água. Coloque os pedaços numa vasilha e tempere com sal, pimenta do reino e alho e deixe descansar. Numa panela fritar o quiabo com pouco óleo. Noutra panela com óleo já fritando coloque o frango temperado e a seguir o coloral, tomate picado, o quiabo já frito, cebola, cebolinha e coentro granulado. Deixe cozinhar e se necessário coloque água. Lembrete: o coloral era feito com o urucum colhido no quintal e esfregado nas mãos com fubá e depois passado numa peneira. E taí o frango com quiabo à Dora que era servido com arrroz, feijão e salada de folhas e legumes salpicada com lâminas bem finas de giló.

Doralina teve uma vida de nômade. Com a família e os trecos de casa morou simplesmente em Conselheiro Pena, Galiléia, Resplendor, Aimorés, Tumiritinga, Coronel Fabriciano, Timóteo, Ipatinga, Governador Valadares, Belo Horizonte e finalmente em Vitória no Espírito Santo. Escreveu não leu Dora estava mudando.

Olhando no mapa veremos que a família de Dora sempre morou no entorno do Rio Doce e da Estrada de Ferro Vitória–Minas. Veja no mapa abaixo (2). Existe uma explicação: o marido, Francisco, trabalhava na empresa Vale do Rio Doce. O Rio Doce nasce em Ressaquinha (perto de Barbacena, MG) e desagua no oceano Atlântico em Regência, município de Linhares, ES. O tronco principal da Estrada de Ferro Vitória–Minas liga Belo Horizonte a Cariacica, ES.

A última moradia de Dora foi em Vitória. Nesta época já era viuva e nesta cidade morava alguns filhos, filhas e netos. Vivia mais tranquila sem a correria de Minas e com a filharada já criada. Uma coisa que ela não abandonava: a dança. Era comum Dora ir a um clube para dançar. Uma filha levava no início da noite e a buscava na madrugada. E dançava a noite toda sem parar.

Nestas andadas noturnas Doralina arrumou pretendentes, mas pelo que se sabe ela descartava.

Não me queixo desta vida / Apesar de viver só / A estrada é bem comprida
E um amor seria pior / Pode ser que alguém me siga / Mas depois queira voltar
Isso só vai complicar / Deixe o tempo correr...
Estrada velha, Amado Batista.

Dora faleceu aos 52 anos. Viveu muito e morreu com o dever cumprido. De mulher e mãe. Entrou no céu com dignidade.

Citações:

(1) krenak - Pesquisa Google, junho 2011
(2) O mapa da região em que viveu a família de Doralina.
 


               Atlas Mirador Internacional, Encyclopaedia Britânica do Brasil, 1976


                                                Edson Pereira Cardoso, julho de 2011.






quarta-feira, 6 de julho de 2011

República de bananas

Reproduzo aqui a coluna de Eliane Cantanhêde publicada na Folha de São Paulo em 05/07/2011.
Assim como cá, lá também a vida segue.
Repúblicas de bananas

BRASÍLIA - Um estrangeiro poderoso é acusado de estupro por uma mulher negra, jovem e bonita da Guiné, camareira num hotel de muitas estrelas na cidade mais cosmopolita do mundo.
A reação na potência onde tudo se passa e nos seus satélites, mais ou menos diretos, é de
euforia: um homem tão importante sucumbe diante da acusação de uma simples camareira. Já no país do réu impera a incredulidade.
O homem alega que foi sexo consentido, mas acaba exibido ao mundo como troféu da democracia e da justiça: preso, obrigado a pagar fiança de US$ 6 milhões, humilhado com uma tornozeleira eletrônica e posto em prisão domiciliar. Mais euforia na potência, mais esperneio no país do réu.
E eis que, num estonteante cavalo de pau, o réu passa a vítima, e a vítima, a ré. Na nova direção desse bólido policial-jurídico-político, a camareira é uma mentirosa que recebe sacos de dólares de bandidos.
E agora? O percurso está sendo refeito: Dominique Strauss-Kahn tira a tornozeleira, sai da prisão domiciliar, recebe os milhões da fiança de volta e evolui de vítima a ídolo na França, onde era -volta a ser?- pré-candidato à Presidência.
Nunca vai se saber exatamente o que ocorreu dentro daquele quarto de hotel, mas já se sabe o quão frágil é o limite entre justiça e injustiça mesmo em duas das democracias mais consolidadas do mundo.
As reações oscilam com os interesses de pessoas, corporações e países, e o dinheiro corre solto em nome da "justiça" (a camareira reclama US$ 5 milhões de indenização...), enquanto os votos dos eleitores, tal as decisões políticas de cúpula, ficam ao sabor do vento.
Culpado ou não, Strauss-Kahn perdeu irrecuperavelmente a direção do FMI para Christine Lagarde, que assume o cargo hoje. Só não perdeu a resoluta solidariedade da própria mulher, a milionária Anne. Talvez seja ela o grande personagem desse rali na lama.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Parcerias ou promiscuidade público-privada?

A notícia

O BNDES autorizou a injeção de R$ 3,9 bilhões numa operação de fusão que, se der certo, será majoritariamente francesa - do Carrefour e do Casino. Os franceses têm hoje, direta e indiretamente, 61% da empresa que resultará da fusão entre o Pão de Açúcar e a unidade brasileira do Carrefour, se o projeto for aprovado pelo Casino, que resiste à oferta sob a alegação de que não foi consultado. A presença francesa no Pão de Açúcar cresceu nesta semana, após o Casino comprar US$ 1 bilhão em ações da varejista. Uma das justificativas do BNDESPar, braço de investimentos em empresas do banco estatal, para entrar no negócio é que o aporte ajudaria a fortalecer a presença internacional de um grupo brasileiro, o Pão de Açúcar. (Folha de São Paulo, 01/07/2011)

O que se deve saber
A marca indelével dos governos FHC, Lula e Dilma são as chamadas PPP (Parcerias Público-Privada). Segundo seus defensores "é uma parceria entre a Administração Pública e a iniciativa privada, com o objetivo de fornecer serviços de qualidade à população, por um largo período de tempo".

É a face atual do neocapitalismo brasileiro. Ou melhor, as PPP correspondem uma saída à francesa das privatizações de serviços, infra-estrutura, compra de empresas privadas etc. Estas ações são ancoradas, principalmente, pelo BNDES. Vide os relacionamentos promíscuos com o setor privado na construção de infra-estrutura para a Copa de 2014 e Olimpíada de 2016 no Brasil. Para além do BNDES está a isenção de impostos dados pelos governos das três esferas públicas (Federal, Estadual e Municipal) na construção de obras para estes dois eventos.

Francisco de Oliveira em entrevista à Folha de São Paulo em 17/10/2010 disse: "Lula é mais privatista que FHC. As grandes tendências vão se armando e ele usa o poder do Estado para confirmá-las, não para negá-las. Então, nessa história futura, Lula será o grande confirmador do sistema. Ele não é nada opositor ou estatizante. Isso é uma ilusão de ótica. Ao contrário, ele é privatista numa escala que o Brasil nunca conheceu. Essa onda de fusões, concentrações e aquisições que o BNDES está patrocinando tem claro sentido privatista. Para o país, para a sociedade, para o cidadão, que bem faz que o Brasil tenha a maior empresa de carnes do mundo, por exemplo? Em termos de estratégia de desenvolvimento, divisão de renda e melhoria de bem-estar da população, isso não quer dizer nada".

Luciano Coutinho, atual presidente do BNDES, já foi consultor do grupo Pão de Açúcar de Abílio Diniz. Este último é membro da recém criada Câmara de Gestão do Governo. O grupo Casino socorreu o Pão de Açucar há tempos atrás com o compromisso de ficar com boa parte deste último em 2012. Entenderam a negociata embutida na notícia acima? Promiscuidade público-privada. Com patrimônio público.

Enquanto isso, o Brasil com seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) 70 - atrás de Chile, Argentina, Uruguai, Panamá, México, Trinidad Tobago, Costa Rica e Peru - continua com um dos piores sistemas educacionais do mundo.

Edson Pereira Cardoso, Julho de 2011.

sábado, 25 de junho de 2011

Qualquer semelhança não é mera coincidência

Pobre terra da Bruzundanga! (1) Velha, na sua maior parte, como o planeta, toda a sua missão tem sido criar a vida e a fecundidade para os outros, pois nunca os que nela nasceram, os que nela viveram, os que a amaram e sugaram-lhe o leite, tiveram sossego sobre o seu solo! (Lima Barreto)

Estamos em 2011. E vivemos num país em que diariamente somos bombardeados por noticias de corrupção perpetrada pelas elites governantes ou não. Será esta corrupção edêmica? Data venia, pode-se afirmar que a corrupção é antiga no Brasil. Lima Barreto escreveu Os Bruzundangas em 1917. O que se passa hoje, em 2011, 94 anos depois, é diferente de que se passava em 1917?

Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Reproduzo aqui o prefácio de Os Bruzundangas colado da versão da editora Martins Claret e da versão Domínio Público, (http://www.dominiopublico.gov.br/).


Na Arte de furtar (2), que ultimamente tanto barulho causou entre os eruditos, há um capítulo, o quarto, que tem como ementa esta singular afirmação: "Como os maiores ladrões são os que têm por oficio livrar-nos de outros ladrões."


Folha de São Paulo, 15 de maio de 2011
Palocci multiplicou por 20 patrimônio em quatro anos
Chefe da Casa Civil comprou apartamento de R$ 6,6 milhões antes de assumir.
Imóvel foi registrado em nome de empresa que ministro criou para dar consultoria quando era deputado federal


Não li o capítulo, mas abrindo ao acaso um exemplar do curioso livro, achei verdadeira a cousa e boa para justificar a publicação destas despretensiosas "Notas".

A "Bruzundanga" fornece matéria de sobra para livrar-nos, a nós do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos. Sua missão é, portanto, como a dos "maiores" da Arte, livrar-nos dos outros, naturalmente menores.

Bem precisados estávamos nós disto quando temos aqui ministros de Estado que são simples caixeiros de venda, a roubar-nos muito modestamente no peso da carne-seca, enquanto a Bruzundanga os tem que se ocupam unicamente, no seu ofício de ministro, de encarecerem o açúcar no mercado interno, conseguindo isto com o vendê-lo abaixo do preço da usina aos estrangeiros. Lá, chama-se a isto prover necessidades públicas; aqui, não sei que nome teria...


Terra.com.br, 24 de junho de 2011
RJ: agentes da PRF são condenados por tráfico e corrupção
Dois policiais rodoviários federais foram condenados pela 2ª Vara Federal de Campos (RJ) a 13 anos e 10 meses de prisão por receberem propina de traficantes de drogas para liberar um veículo carregado com drogas na cidade de Resende, a 146 km da capital do Estado do Rio de Janeiro.


E semelhante ministro daqueles "maiores" de que a Arte nos fala, destinados a ensinar-nos como nos livrar dos nossos modestos caixeiros de mercearias ministeriais. Não contente com ter dessas coisas, a Bruzundanga possui outras muitas que desejava enumerar todas, pois todas elas são dignas de apreço e portadoras de ensinamentos proveitosos.

Como não poderíamos aproveitar aquele caso de um doutor da Bruzundanga, ele mesmo açambarcador de cebolas, que vai para uma comissão, nomeada para estudar as causas da carestia da vida, e propõe que se adotem leis contra os estancadores de mercadorias?

É que este doutor dos "maiores" de que nos fala o célebre livrinho sabia perfeitamente que não estancava e tinha o hábito de reservas mentais. Não açambarcava, mas "aliviava" logo uma grande porção de mercadorias para o estrangeiro, por qualquer coisa, de modo que... Le pauvre homme! (pobre homem) Podia até iludir o nosso pobre Beckman!

Com este exemplo, os menores daqui poderão ser denunciados por este grandalhão de lá, tão generoso e desinteressado, e o nosso povo poderá livrar-se deles.


Folha de São Paulo, 27 de março de 2011
Laranjas compram rádios e TVs do governo federal
Donas de casa e cabeleireira são proprietárias de concessões milionárias. Por trás das empresas há igrejas, políticos e especuladores que, assim, conseguem ocultar a participação


Conheci na Bruzundanga um rapaz (creio que está nas "Notas"), de rabona de sarja e ares de familiar do Santo Ofício, mas tresandando a Comte, senão a anticlericalismo, que, de uma hora para a outra, se fez reitor do Asilo de Enjeitados, apandilhado com padres e frades, depois de ter arranjado um rico casamento eclesiástico, a fim de ver se, com o apoio da sotaina e do solidéu, se fazia ministro ou mesmo mandachuva da República. Que "maior" não acham?

E aquele que, tendo sido ministro do imperador da Bruzundanga e seu conselheiro, se transformou em açougueiro para vender carne aos vizinhos a dez réis de mel coado, graças às isenções que obteve com o prestígio do seu nome, dos seus amigos, da sua família e das suas antigas posições, enquanto os seus patrícios pagavam-lhe o dobro?

Quantos exemplos de lá, bem grandes, nos irão precaver contra. Quantos exemplos de lá, bem grandes, nos irão precaver contra os pequeninos de cá... A Arte fala a verdade...



Terra.com.br, 15 de junho de 2011
DF: MP denúncia Joaquim Roriz como chefe de esquema de corrupção
O Ministério Público do Distrito Federal denunciou o ex-governador Joaquim Roriz como chefe de um esquema de corrupção no Banco de Brasília (BRB). De acordo com informações do DFTV, Roriz teria utilizado o banco para desviar recursos públicos e lavar dinheiro.


Outra coisa curiosa da Bruzundanga, das grandes, das extraordinárias, é a sua "Defesa Nacional". Lá, como em toda a parte, se devia entender por isso a aquisição de armamentos, munições, equipamentos, adestramento de tropas, etc.; mas os doges do Kaphet (vide texto) entenderam que não; que era dar-lhes dinheiro, para elevar artificialmente o preço de sua especiaria. De que modo? Retendo o produto, proibindo-lhe a exportação desde certo limite, conquanto se houvessem tenazmente oposto a que semelhante medida fosse tomada no que toca às utilidades indispensáveis à nossa vida: cereais, carnes, algodão, açúcar, etc.

É preciso notar que tais utilidades, como já fiz notar, iam para o estrangeiro por metade do preço, menos até. Aprendamos por aí a conhecer os nossos "menores".

Poderia muito bem falar de outros grossos casos de lá, capazes de nos livrar dos tais pequenos daqui; mas, para quê? As páginas que se seguem vão revelá-los e eu me dispenso de narrá-los neste curto
prefácio, Pobre terra da Bruzundanga! Velha, na sua maior parte, como o planeta, toda a sua missão tem sido criar a vida e a fecundidade para os outros, pois nunca os que nela nasceram, os que nela viveram, os que a amaram e sugaram-lhe o leite, tiveram sossego sobre o seu solo!

(...)

LIMA BARRETO Todos os Santos, 2-9-17.


Edson Pereira Cardoso, junho de 2011




Citações
(1) Os Bruzundangas é um romance de Lima Barreto, escritor pré-moderno que fala da Bruzundanga é um país de ficção, localizado nas zonas tropical e subtropical, é um lugar muito parecido com o Brasil, onde se encontra, elites pouco cultas dominando e explorando o povo. Desta forma, o narrador que é um brasileiro que morou uns tempos nesse país, vai fazendo de forma satirizada uma crítica a todas as organizações institucionais e algumas pessoas desse país. http://pt.shvoong.com/books/romance/234788-os-bruzundangas/

(2) A arte de furtar prosa barroca, por muitos atribuída ao padre Manuel da Costa (1601-1667), que relaciona as diversas espécies de roubo e de ladrões denunciando um clima de corrupção generalizada na sociedade portuguesa à época do reinado de D. João IV.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Origens

O universo, segundo a ciência, teve a origem há 13 bilhões de anos (de 13,3 a 13,9) pela teoria do Big Bang. A terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos, dizem os da ciência. Os dinossauros viveram há mais ou menos 200 milhões de anos. A expectativa de vida do brasileiro, em 2009, era de 73 ANOS. Da brasileira, 77 ANOS. A terra é cerca de 64 milhões mais velha do que uma pessoa de 70 anos. Relativamente se a terra tem 1 dia de idade esta pessoa terá 1,35 milisegundo.


Mon ami, faisons toujours des contes…
Le temps se passe, et le conte de la vie s'achève, sans qu'on s'en aperçoive (Diderot) 

Mas a ficção é mais agradável que a ciência. Toda vez que penso em nossas origens lembro-me da gênese da Bíblia. Fui católico até a juventude, mas depois a literatura, a filosofia e Marx (o Karl) me desvirtuaram. Hoje se alguém me pergunta se acredito em Deus, respondo: yo paso ou digo que esta pergunta não existe. Agnóstico? Sei não, mas tenho o São Jorge como parceiro.

Eu andarei vestido e armado com as
armas de São Jorge para que meus inimigos,
tendo pés não me alcancem,
tendo mãos não me peguem, tendo
olhos não me vejam, e nem em
pensamentos eles possam me fazer mal  (Oração de S. Jorge).
São Jorge é o santo dos, entre muitos: ferrados, outsiders, prostitutas, indomáveis, das minorias discriminadas etc.
Voltando à Bíblia, vejam o que está no início do capítulo Gênesis (1).

No princípio, Deus criou a terra e o céu
A terra estava sem forma e vazia
As trevas cobriam o abismo
E um vento impetuoso soprava sobre as águas
Aí Deus criou a luz e a luz começou a existir.
E Deus viu que a luz era boa
E Deus separou a luz das trevas
À luz Deus chamou dia e às trevas chamou noite
Houve uma tarde e uma manhã
Foi o primeiro dia

A criação do mundo, segundo esse relato, marcou também a origem do tempo. Essa interpretação é sugerida, por exemplo, por Santo Agostinho, que escreveu que Deus criou o tempo juntamente com o cosmo. "Antes" da Criação, argumentou Santo Agostinho, não faz sentido (2).
O que Deus estava fazendo antes de criar o mundo? Estava criando o inferno para todos aqueles que fazem este tipo de pergunta, argumenta Santo Agostinho.


O mito assírio "Uma outra versão da criação do homem" (c. 800 a. C.) começa com cinco deuses, Anu, Enlil, Shamash, Ea e Anunnaki, discutindo a criação do mundo enquanto estão sentados no céu. Anu simboliza o poder do céu ou do ar, Enlil o poder da terra, Shamash o Sol ou fogo, Ea a água, e Anunnaki o destino. Para os assírios, a Criação ocorreu quando os quatro elementos e o tempo se combinaram para dar forma ao mundo e à vida (1).


Segundo Gleiser, para os índios Hopi, dos Estados Unidos (Arizona) existem duas personagens principais na criação do mundo: Taiowa (o Criador, representando o Ser) e Tokpela (o espaço infinito, representando o Não-Ser).



O primeiro mundo foi Tokpela. Mas antes, se diz, existia apenas o Criador, Taiowa. Todo o resto era espaço infinito. Não existia um começo ou um fim, o tempo não existia, tampouco formas materiais ou vida. Simplesmente um vazio incomensurável, com seu princípio e fim, tempo, formas e vida existindo na mente de Taiowa, o Criador. Então Ele, o infinito, concebeu o finito: primeiro Ele criou Sotuknang, dizendo-lhe:
"Eu o criei, o primeiro poder e instrumento em forma humana. Eu sou seu tio. Vá adiante e perfile os vários universos em ordem, para que eles possam trabalhar juntos, de acordo com meu plano". Sotuknang seguiu as instruções de Taiowa; do espaço infinito ele conjurou o que se manifestaria como substância sólida, e começou a moldar as formas concretas do mundo. Nesse mito, o Infinito cria o finito, dando forma concreta à matéria.

E minhas origens recentes?
Conheço a partir de meados do século XVIII. São portuguesas, mas no caminho houve uma mistura indígena, os caiapós (3).



Para os caiapós (referência Wik) há um mundo celeste do qual provém a humanidade. Os primeiros seres humanos que chegaram à Terra vieram de lá por uma longa corda, qual formigas por um tronco. Isto foi possível porque um homem viu um tatu e o seguiu até que entrou num buraco, que depois foi usado pelas pessoas para vir a este mundo. Também as plantas celestes baixaram do mundo celestial quando a filha da chuva brigou com a mãe, desceu a este mundo e foi acolhida por um homem, a quem entregou as plantas.

Nascido em 1950, sou filho de Orípia (1922- ), neto de Maria Cândida (1887-1965), bisneto de Jerônymo ( -1905), trineto de Joaquim ( -1874), tetraneto de Simão Antônio (1782-1873) e pentaneto de Manuel Antônio (1747-1801)...

Em nenhum lugar existe tempo algum (Mário Peixoto)

Edson Pereira Cardoso, junho de 2011



Citações


(1) O Gênesis da Bíblia em forma de mapas (http://cmap.ihmc.us/)






Clique sobre as figuras para ampliar


(2) Marcelo Gleiser, A dança do universo: dos mitos da criação ao big bang, Editora Schwarcz, 1997

(3) Nilson Cardoso de Carvalho, Os Marques Librinas de Barretos, 1999
"Antes da chegada desses "bandeirantes ao contrário" quem habitava esta imensidão de campos (região de Barretos, SP), florestas e cerrados eram as onças, veados, capivaras, jacarés, antas, pacas, macacos, tamanduás, guarás, catetus, queixadas e muitos outros bichos, perseguidos de vez em quando por seus caçadores de então, os índios caiapós em suas incursões anuais por seus domínios. Esse povo, que existe ainda e preserva vários traços culturais, habita hoje o sul do Pará, mas no passado seu território era muito mais extenso.
O território dos caiapós abrangia uma vasta região do Brasil Central, com sua base principal situada na foz do Rio Verde, afluente do Paraná, irradiando-se pelo Rio Pardo até suas cabeceiras vizinhas de Camapuã, onde tinham aldeia grande e ao norte pelas nascentes do Rio Verde, Serra do Caiapó, nascentes do Araguaia até Vila Boa, e ao sul faziam incursões por toda a trilha do Anhanguera.
Permaneciam nas aldeias durante a estação das chuvas e no período de estio faziam incursões por seu território, caçando, coletando frutos silvestres, recolhendo plantas medicinais e materiais para confecção de artefatos. Dormiam então sobre esteiras de palmeiras, ao relento ou debaixo de precários abrigos no interior da floresta. Durante essas expedições a comida era abundante; construiam dois ou três fornos de pedra, onde colocavam a assar grandes porções de anta, queixada, catetu e veado, assim como palmito em grande quantidade.
Os caiapós, assim como as outras tribos jês do Planalto Central, não fabricavam cerâmica e portanto não cozinhavam o alimento; assavam-no no "moquem", espécie de grelha de paus ou no forno já referido, chamado beraburu. Terminada a estação seca regressavam para as aldeias, onde passavam o período das águas cuidando de suas roças de mandioca, batata doce e inhame."



Lider Megaron de uma tribo caiapó (Scientific America Brasil Especial, nº14)


domingo, 19 de junho de 2011

Docência: uma profissão dividida

Quando revejo os resultados da minha atividade docente, no passado, as
consequências reais são as mesmas – ou produziram dano ou nada ocorreu.
Isto é francamente aflitivo (1).

A aflição presente no depoimento acima é simplesmente de Carl Rogers (1902 – 1987). Rogers foi um dos formuladores da abordagem pedagógica humanista. A abordagem em que aprendizagem é centrada na pessoa e o professor intervém como um facilitador da aprendizagem e não como aquele que transmite conhecimento.
Quando discutimos a profissionalização docente devemos considerar a conjuntura atual das transformações no mundo do trabalho. As profissões tradicionais, de uma forma geral, estão num período de redefinições e a profissão docente, devido às suas especificidades, não foge destas redefinições.

Os profissionais têm conhecimentos especializados adquiridos, normalmente, em universidades. Esses conhecimentos exigem autonomia e discernimento, além de uma parcela de improvisação e adaptação a situações novas. Exigem do profissional reflexão para que possa compreender o problema como também organizar e esclarecer os objetivos almejados e os meios a serem usados para atingi-los. Uma das tendências que discute a profissionalização do ofício docente objetiva desenvolver e implantar essas características no interior do ensino e formação de professores. Tardif (2).

Uma outra corrente nesta discussão trata o tema de forma diferente. Diz que "o conceito de profissionalidade docente está em permanente elaboração, devendo ser anlisado em função do momento histórico concreto e da realidade social que o conhecimento escolar pretende legitimar; em suma, tem de ser contextualizado" (3). Em função da dificuldade em obter uma definição exata do conceito de profissionalidade diz-se que a profissão docente é uma semi-profissão em comparação com as profissões liberais clássicas.

O ensino é uma prática social que reflete a cultura e contextos sociais contemporâneos. Para a compreensão da prática docente devemos entender as interações em três níveis ou contextos diferentes:
(a) o contexto pedagógico formado pelas práticas cotidianas da classe; (b) o contexto profissional elaborado por um comportamento de grupo que legitima a sua prática e (c) o contexto sócio-cultural que incorpora valores e conteúdos considerados relevantes. A prática profissional estará delimitada por estes contextos e em permanente mudanças já que os indivíduos no processo educativo interagem com o meio social e com a realidade histórica. Aqui o conceito de prática não está limitado ao domínio metodológico. Existe uma prática educativa anterior e paralela à escolaridade própria de uma determinada sociedade ou cultura. São as práticas institucionais que regulam o sistema educativo no geral e as condições de trabalho no particular.

Estas práticas nos remetem a uma questão importante a ser discutida que é a autonomia do professor. Esta autonomia está circunscrita a regras bem definidas que configuram as ações profissionais a uma acomodação à ordem vigente. A liberdade do professor se desenvolve no interior de um ambiente que só pode mudar parcialmente. O professor completamente autônomo não existe. Se for real a existência de múltiplas restrições e condicionalismos é também verdade que há espaços possíveis para a expressão da individualidade profissional.

Como conviver num ambiente escolar em que a proposta pedagógica privilegia o ensino centrado no professor e supõe a aprendizagem predominantemente em aulas presenciais? A resposta pode estar na insatisfação com esta ordem e na proposição de alternativas de transformação das práticas pedagógicas de aprendizagem. O professor não é um técnico que se limita a aplicar corretamente um conjunto de diretivas, mas um profissional que se interroga sobre o sentido e a pertinência de todas as decisões em matéria educativa.

Sacristan argumenta que a profissão docente não detém a responsabilidade exclusiva sobre a atividade educativa devido às influências políticas, econômicas e culturais além da desprofissionalização do professorado. Diz ainda que "do ponto de vista social a educação escolar e extra-escolar é entendida como um espaço cultural partilhado, que não é exclusivo de uma classe profissional concreta, ainda que se conceda uma certa legitimidade técnica à ação docente. Pode mesmo afirmar-se que, contrariamente a outros ofícios, a prática artesanal de ensino não codificou um saber especializado no seio da profissão."

Aspectos que se deve ressaltar nestas reflexões:

1. Apesar de elementos de uma profissão confusa (ou profissionalidade dividida) o professor tem que intervir em todos os domínios que influenciam a prática docente no sentido da emancipação profissional
2. Os programas de formação devem incidir em pelo menos quatro campos: o docente e a melhoria e mudança das condições de aprendizagem; o professor participando ativamente do desenvolvimento curricular; o docente participando e alterando as condições da escola e, finalmente, o docente participando nas mudanças da realidade social.
3. Uma proposta de profissionalização: que os docentes dominem a utilização de práticas profissionais em termos conscientes e com conhecimento da gramática e da sintaxe de sua atividade.


O certo é que existe no discurso pedagógico dominante uma hiper-responsabilização dos professores em relação à prática pedagógica e à qualidade do ensino, situação que reflete a realidade de um sistema escolar centrado na figura do professor como condutor visível dos processos institucionalizados de educação (3).

Quando penso na complexidade com o ser docente lembro-me das aflições de Carl Rogers e do filme/clip da banda Pink Floyd, Another brinck in the wall (4).


Edson Pereira Cardoso, junho de 2011



Citações
(1) In Mizukami, M. G. N., ENSINO: As abordagens do processo, EPU, 1986, p.51
(2) Tardif, Maurice, Saberes profissionais dos professores e conhecimentos universitários, Revista Brasileira de Educação, nº13, Jan/abr, 2000.
(3) Sacristan, S. Gimeno. Consciência e ação sobre a prática como libertação profissional dos professores. In Novoa, Antônio, Profissão professor, Porto Editora, 1995.
(4) Pink Floyd, Another brinck in the wall

               http://www.youtube.com/watch?v=t4SKL7f9n58 15/06/2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Palmas para os estudantes

 


Protesto de estudantes cancela Fórum Nacional da Reforma Eleitoral. O protesto, seguido de ocupação do Centro de Convenções de Vitória, cancelou o evento marcado para a noite de quarta-feira, dia 15/06/2011, em Vitória, ES. Para o evento estava confirmada a presença do vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), e o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande. No entanto, Michel Temer, que já havia desembarcado no Aeroporto de Vitória, cancelou sua participação no evento.
A foto acima ilustra bem a pretensão que darei ao texto. Para início de conversa, o que pretendem os estudantes?



Redução imediata da passagem para TODOS os capixabas
Aumento da frota do Sistema Transcol
Ônibus 24 horas
Exoneração da diretora-presidente da CETURBE, Denise Cadete
Desarquivamento da CPI do Transcol
Fim do conselho Tarifário – COTAR – e criação de um conselho Estadual de Transporte Público, com 50% de representação de usuários, 25% de trabalhadores rodoviários e 25% para governo e empresários
Mês de maio fixo para o reajuste tarifário. CHEGA de aumento no Reveillon!
Acesso irrestrito às tabelas de custos e lucros do Sistema Transcol
Conferência Estadual que debata com a população sobre mobilidade urbana
Modalidades alternativas de transporte (ciclovias, aquaviário, perueiros etc)
Fim do pedágio da Terceira Ponte
Extinção do Batalhão de Missões Espaciais – BME
Exoneração do Secretário Estadual de Segurança, Henrique Herkenhoff


As reivindições são de uma clareza estonteante. Cito algumas: tarifa menor para todos os capixabas (hoje é de R$2,30), ampliação da frota e democratização do Conselho Tarifário.
O Sistema Transcol transporta, em média, 15,4 milhões de passageiros por mês. Quem mora na Grande Vitória e é usuário ou usuária de transporte coletivo (provavelmente, mais de 90% da população) sabe que nos horários de pico, em torno das 8 e 18 horas, os ônibus se tornam navios negreiros. Isto mesmo: NAVIOS NEGREIROS.

A cobertura jornalística de eventos de cunho social, feita na Grande Vitória, representa bem o que é a "democracia" nos meios de comunicação no Brasil. O sistema Gazeta de jornal, TV e rádio não produz matérias jornalísticas imparciais dando a voz a todos protagonistas. Na verdade produz editorial e emite a opinião dos donos.

Apesar desta manipulação, recentemente, uma pesquisa de opinião (com seus ouvintes) da Rádio FM Super deu o seguinte resultado:


O que você acha da manifestação dos estudantes da Grande Vitória?
Sou contra. Pois atrapalham a rotina dos trabalhadores.
41.7%

Sou a favor. Somente com protestos as autoridades olham para a população.
58.2%
http://www.fmsuper.com.br/v1/




Não vejo outra saída: a população tem que se juntar aos estudantes e lutar pelo viver com dignidade.

Palmas para os estudantes


Edson Pereira Cardoso, junho de 2011