segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dora


Doralina era tarumirinense. Nasceu em Tarumirim, região do Vale do Rio Doce em Minas Gerais. Tarumirim significa "céu pequeno".


Eu venho humildemente / De uma cidade do interior / Contando passo a passo
O chão que a sorte traçou / Trago a saudade no peito / E uma dor no coração
Que aos poucos virou canção.

Estrada velha, Amado Batista.

Provavelmente o nome Tarumim seja uma formação híbrida da palavra krenak: taru "céu" e o sufixo diminutivo tupi "pequeno". Os Krenak (crenaques) são um grupo indígena brasileirao que dominou parte do vale do Rio Doce (Minas Gerais e Espírito Santo) até o início do século XX. Os crenaques foram definitivamente desterrados e expulsos de sua reserva com a construção da EFVM (Estrada de Ferro Vitória-Minas) e atualmente estão confinados a pequenas reservas próximas do município de Resplendor, estado de Minas Gerais.

Dora era descendente dos crenaques. Neta de indígenas da parte de mãe e de branco da parte de pai.






Nas fotos acima estão duas descendentes krenak (1)



Dorinha viveu por lá, no "céu pequeno", até o ano 2000. Tarumim na época tinha não mais que 15 mil habitantes. Casou nova como era comum na época. Teve com Francisco, o marido, quatro filhas, sete filhos e de sobra três filhos adotados. Criou esta turma toda com muita dignidade e muito trabalho. Cuidava da casa, dos filhos e marido gerenciando a casa e educando os meninos e meninas. E, importante, ouvindo rádio ou disco vinil em sua pic-kup. E toma Amado Batista, Trio Parada Dura, Amiltom Lelo e outros.

Para início de conversa conto um caso que identifica nossa personagem. Marcos, um dos filhos de Dora, tinha 23 anos, 1,70 m, e na época já era casado. Ele gostava de umas pinga e quando voltava para casa tarde da noite, sai de baixo. A esposa tinha que segurar o bicho.

Um dia Dora ficou sabendo que Marcos tinha dado uns safanões na esposa depois de uma noitada regada a muita pinga. A mãe não teve dúvida. Na noite seguinte pegou um cabo de vassoura e foi parar no bar em que o filho estava. Ele e os amigos numa mesa e Dorinha, 1,55 metro , chega. Aí o bicho pegou.

Dora: Olha aqui, agora vou te mostrar como é bom bater em mulher, disse Dora ao filho.

E sentou o pau em Marcos que ficou assustado e também envergonhado com a muvuca.

Marcos:  Pera aí, mãe. Tá doida? Este escândalo na frente de todo mundo? Disse Marcos

E saiu correndo com a mãe dando cacete no lombo do filho. Já fora do bar.

Dora: E tem mais, se não quizer sua mulher, separe. Você aprende já e não bata em mulher nunca mais, senão te quebro de novo .

Chegou em casa doidão, e deu uns tapa na muié / A sogra rodou a saia, fez um baita carnaval / Foi lá no barraco dele e cobriu ele no pau / Homem que bate em mulher, merece levar castigo / Ele apanhou pra cacete bem feito foi merecido
E a sogra braba pra burro, vive dizendo pro povo / Se ele cantar de galo lhe quebra a cara de novo.
Quem não sabe nadar, Trio Parada Dura.

Doralina era uma dona de casa daquelas. Como boa costureira fazia a roupa dos filhos e marido. Cuidava das criações e plantas que davam sustento à casa. Repetia, e bem, o que aprendera com a mãe. E de quebra arrumava tempo para dançar nos forrós da cidade. Ela era uma dançarina de noite a dentro.

Eu não me importo que me chamem de boêmio / Somente Deus sabe a dor que estou sofrendo / É madrugada e eu ainda estou na rua / Vida noturna eu agora estou vivendo                                       

Vida Noturna, Amilton Lelo

Outra especialidade da Doralina: a culinária. Vamos ao frango à Dora. Ingredientes: Frango vivo, quiabo, sal, alho, cebola, pimenta do reino, tomate, coloral, coentro granulado, salsa, cebolinha. Modo de fazer: matar o frango e depenar em agua fervente; desossar e lavar os pedaços com limão e água. Coloque os pedaços numa vasilha e tempere com sal, pimenta do reino e alho e deixe descansar. Numa panela fritar o quiabo com pouco óleo. Noutra panela com óleo já fritando coloque o frango temperado e a seguir o coloral, tomate picado, o quiabo já frito, cebola, cebolinha e coentro granulado. Deixe cozinhar e se necessário coloque água. Lembrete: o coloral era feito com o urucum colhido no quintal e esfregado nas mãos com fubá e depois passado numa peneira. E taí o frango com quiabo à Dora que era servido com arrroz, feijão e salada de folhas e legumes salpicada com lâminas bem finas de giló.

Doralina teve uma vida de nômade. Com a família e os trecos de casa morou simplesmente em Conselheiro Pena, Galiléia, Resplendor, Aimorés, Tumiritinga, Coronel Fabriciano, Timóteo, Ipatinga, Governador Valadares, Belo Horizonte e finalmente em Vitória no Espírito Santo. Escreveu não leu Dora estava mudando.

Olhando no mapa veremos que a família de Dora sempre morou no entorno do Rio Doce e da Estrada de Ferro Vitória–Minas. Veja no mapa abaixo (2). Existe uma explicação: o marido, Francisco, trabalhava na empresa Vale do Rio Doce. O Rio Doce nasce em Ressaquinha (perto de Barbacena, MG) e desagua no oceano Atlântico em Regência, município de Linhares, ES. O tronco principal da Estrada de Ferro Vitória–Minas liga Belo Horizonte a Cariacica, ES.

A última moradia de Dora foi em Vitória. Nesta época já era viuva e nesta cidade morava alguns filhos, filhas e netos. Vivia mais tranquila sem a correria de Minas e com a filharada já criada. Uma coisa que ela não abandonava: a dança. Era comum Dora ir a um clube para dançar. Uma filha levava no início da noite e a buscava na madrugada. E dançava a noite toda sem parar.

Nestas andadas noturnas Doralina arrumou pretendentes, mas pelo que se sabe ela descartava.

Não me queixo desta vida / Apesar de viver só / A estrada é bem comprida
E um amor seria pior / Pode ser que alguém me siga / Mas depois queira voltar
Isso só vai complicar / Deixe o tempo correr...
Estrada velha, Amado Batista.

Dora faleceu aos 52 anos. Viveu muito e morreu com o dever cumprido. De mulher e mãe. Entrou no céu com dignidade.

Citações:

(1) krenak - Pesquisa Google, junho 2011
(2) O mapa da região em que viveu a família de Doralina.
 


               Atlas Mirador Internacional, Encyclopaedia Britânica do Brasil, 1976


                                                Edson Pereira Cardoso, julho de 2011.






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