terça-feira, 13 de setembro de 2022

Jean-Luc Godard

Cineasta Jean-Luc Godard, ícone da Nouvelle Vague, morre aos 91 anos

Diretor franco-suíço marcou a história do cinema com obras como 'Acossado' e 'Bando à Parte

Inácio Araujo, 13/09/2022, FSP

Ícone da Nouvelle Vague, o cineasta Jean-Luc Godard, morreu aos 91 anos nesta terça-feira (13). Jean-Luc Godard vem de uma família rica. Aliás, muito rica. Riquíssima. Família de banqueiros suíços. No entanto procurou afastar-se por completo dessa riqueza.

Foi com seu trabalho como operário que financiou seu primeiro curta-metragem. Mais tarde, já morando em Paris, ele roubou do avô um exemplar de um livro autografado por Paul Valéry especialmente para o avô, de quem era muito amigo. Godard podia ter pedido dinheiro em casa, mas preferiu o furto. Era sua forma de mostrar o desejo de independência.

Quando escreve seu primeiro artigo para a já mundialmente famosa revista "Cahiers du Cinéma", em 1952, deu ao seu texto o nome de "Defesa e Ilustração da Decupagem Clássica". Expunha ali as virtudes dos filmes feitos e montados à maneira clássica. Pois, como explicitaria quatro anos mais tarde, a montagem e a direção de um filme são a mesmíssima coisa.

O cineasta Jean-Luc Godard em 2010 - Christian Hartmann/Reuters

Isso ele fez na revista daquele que foi "o pai espiritual" dos jovens redatores da revista (Godard inclusive): André Bazin, o criador da teoria realista do cinema moderno, para quem a montagem era não mais do que uma trapaça. Jean-Luc Godard foi assim desde sempre: iconoclasta. Gostava de colocar tudo em questão, inclusive a si mesmo.

Em 1959, questionaria o cinema inteiro, com "Acossado" (1959), sua retumbante estreia. Tudo era improvisado. Não havia roteiro. Pela manhã, o diretor tomava as notas sobre o que pretendia filmar naquele dia. Encerrava as filmagens quando entendia que a inspiração tinha acabado.

A classe cinematográfica tradicional, tão atacada nos "Cahiers" pela turma da nouvelle vague, regozijava-se com aquele filme que, dizia-se, seria impossível de montar. Doce ilusão. Não só "deu montagem", como a mais moderna do mundo. Aquela em que cada "raccord" (o encontro entre dois planos) parecia desafiar os postulados do "bom cinema" e anunciar o futuro de sua arte.

Deste então mudaram os parâmetros da montagem. Mas também os da filmagem. Com seu fotógrafo, Raoul Coutard, criou um estilo de reportagem, cinema com câmera na mão, sem luz artificial, ou quase, captação das ruas ao vivo, longe dos estúdios, um tanto de ficção e um tanto de documentário no mesmo filme.

Breve: Godard libertou o cinema de todas as convenções que o prendiam a um determinado tipo de forma. Sacudiu a poeira da sua arte com tal ênfase que com um único filme tornou-se um diretor essencial para o conhecimento do cinema. Sua arte era "a verdade em 24 quadros por segundo", disse. Era também a mais próxima do homem, pois a única que o captava por inteiro em seu tempo e espaço, sem intermediários. Mestre das frases de efeito (mas não só de efeito), postulou, com seu amigo Eric Rohmer, a superioridade de sua arte: "O cinema é um pensamento que toma forma, bem como uma forma que permite pensar".

Godard gostava da liberdade. Inclusive da de mudar de filme para filme. Cada filme era um novo experimento. Gostava, por isso mesmo, do cinema mudo, aquele de um tempo "em que o cinema ainda não sabia o que era" e se buscava, filme após filme. Antes de ser arte ou modo de expressão, o cinema confundia-se então com a liberdade e a descoberta permanente.

Quando passou da crítica à direção, Godard desafiou todas as regras estabelecidas. Se as regras diziam que não se faz um primeiro plano com lente grande angular, ele fazia. Se diziam que não se pode usar branco para evitar o brilho, ele usava. Cada filme parecia ir em um sentido diferente do anterior. A contradição não deixa de ser uma forma de arte.

Além de Raoul Coutard, o fotógrafo, sua companheira nessa primeira fase foi a atriz dinamarquesa Anna Karina, por quem se encantou vendo um filme publicitário e com quem se casaria pouco depois, lançando-a, já, em "Uma Mulher É uma Mulher" (1961). O casamento duraria menos que a parceria. "Alphaville" (1965) é o primeiro filme que fazem depois da separação (e em não poucos momentos uma declaração de amor do cineasta por sua musa). Fariam ainda "Made in USA" (1966) juntos.

A única fidelidade de Godard, desde então e até agora, foi à atualidade: podemos vasculhar sua filmografia. É sempre do presente, de algo que o atrai ou inquieta que seus filmes estão falando. Entre outras coisas. No mais, permitiu-se sempre ser contraditório. A contradição atingiu também sua vida pessoal, como relata sua segunda ex-mulher, Anne Wiazemsky. Tão revolucionário na arte, podia ser doentiamente ciumento em casa. Casa que, por sinal, podia usar como locação, ao mesmo tempo em que morava lá. É Wiazemsky, de novo, quem relata a dureza de ser forçada a retomar pelo diretor, em cena, na manhã seguinte, a mesma discussão que tivera com ele, e no mesmo lugar, na noite anterior.

Para o bem e para o mau, assim construía sua arte. Seu amigo Eric Rohmer, também diretor, dizia que Godard era como um ladrão, que pilhava uma imagem aqui, uma citação literária ali, depois um trecho de música, depois a imagem de um outro filme, juntava tudo e transformava numa ideia própria. Assim montava seus painéis, colando pedaço a pedaço, às vezes desorientando o espectador que por vezes procurava ali uma profundidade que Godard mesmo nunca procurou. Sua arte era a do olhar, a da pele.

Era, também, do momento. Cada filme de Godard é uma espécie de documentário sobre o momento em que é feito: "O Pequeno Soldado", a Guerra da Argélia; "Alphaville", o totalitarismo informativo; "O Demônio das Onze Horas", a sociedade de consumo; "Weekend", a sociedade automobilística e seus congestionamentos-monstro; "A Chinesa" e a ascensão do maoísmo.

A esse último, por sinal, Godard aderiu nos idos de 1968. Renegou sua obra anterior, deixou o cinema comercial, passou a fazer filmes coletivos destinados à classe operária, que, verdade seja dita, não se sensibilizava muito com eles. Godard passou daí às séries em vídeo, quando nenhum cineasta ousava usar essa tecnologia. Que importa? Godard experimentava. Foi experimentando que chegou à TV, com as séries "Seis Vezes Dois" (1976) e "France, Tour, Détour, Deux Enfants" (1977).

A partir daí, seus filmes podem ser definidos, cada vez mais, por um novo gênero: o ensaio cinematográfico. Nem ficção, nem documentário, às vezes os dois, às vezes nenhum. Voltou ao circuito comercial com "Salve-se Quem Puder (A Vida)". Ora trouxe grandes estrelas (Johnny Halliday, Isabelle Huppert), ora lançou talentos (Marushka Detmers). Cada vez mais solitário, recolheu-se à sua casa na Suíça, e, não raro, apenas juntando pedaços de filmes de outros, soube impor, pela montagem, sua visão das coisas: falou das guerras na Europa, da ascensão do neoliberalismo, da América, do socialismo.

Desde "Acossado" até os mais recentes filmes-ensaio de Godard, pode-se gostar ou não de sua arte, pode-se "entender" ou não o que está lá, pode-se achar chato ou não, três coisas não se poderá negar: 1) contam-se nos dedos os artistas com a inteligência e a inquietude de Godard; 2) cada vez que ele colocou a câmera para filmar, combinou cores, moveu seus atores, produziu beleza; 3) desde que Godard começou a filmar o cinema nunca mais foi o mesmo.

O solo em que pisamos, quem o fecundou foi Godard. Com chatices e erros, mas também e sobretudo com gênio e grandeza.

Filmografia de Godard


Morre o ousado gênio da nouvelle vague, aos 91

Estadão Conteúdo Luiz Carlos Merten, especial para o Estadão, 14/09/2022 

Cannes o homenageou por duas vezes. O pôster do festival de 2016 ostenta uma imagem de O Desprezo, de 1963. O de 2018, a imagem de outro clássico de Jean-Luc Godard, Pierrot le Fou ou O Demônio das Onze Horas, de 1965. É estranho falar em "clássico" de Jean-Luc Godard. Ele foi, talvez, o maior revolucionário da linguagem - e da política - no cinema. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard inicia seu verbete sobre ele com duas interrogações: "Pergunta-se se Godard não foi o coveiro do cinema? Ou um gênio inovador?" A polêmica sempre acompanhou Godard. Resumidamente, o jovem de origem suíça que foi estudar em Paris, na Sorbonne, frequentou mais a Cinemateca do que a universidade, ligou-se a André Bazin e François Truffaut, com o pseudônimo de Hans Luca fez a crítica em Arts e na Cahiers du Cinéma, que foi o grande celeiro do movimento de renovação da cinematografia francesa conhecido como nouvelle vague.

NOVA ONDA

A nova onda veio, na segunda metade dos anos 1950, para sacudir as estruturas de um cinema que se fossilizara. Truffaut, num célebre artigo - Uma Certa Tendência do Cinema Francês -, investiu contra o que chamava de cinema de papai. Godard iniciou-se no curta. Opération Béton, Une Femme Coquette, Tous les Garçons sAppellent Patrick, Charlotte et Son Jules, Une Histoire dEau - este último em parceria com Truffaut. Foi ainda Truffaut quem lhe deu a história para seu primeiro longa, Acossado, de 1959. Unidos no começo, seguiram caminhos diferentes. Compartilharam o mesmo ator - Jean-Pierre Léaud. Truffaut morreu cedo, em 1984, aos 52 anos. Godard o ultrapassou em quase 40 anos. Morreu nesta terça, 13, aos 91 anos. Faria 92 em 3 de dezembro. Segundo o jornal Libération, ele teria optado pela eutanásia por sentir "cansaço".

Justamente a morte. Com exceção de Truffaut e Jacques Démy, que partiu aos 59 anos, os grandes da nouvelle vague foram quase todos longevos. Agnès Varda morreu a poucos meses de completar 91 anos, Eric Rohmer morreu faltando dois meses para 90 anos, Jacques Rivette, aos 88 anos, Claude Chabrol, aos 80. Por volta de 1960, os jovens futuros autores da nova onda reclamavam que a França era um país de velhos.

Há controvérsia. Alguns mantiveram a juventude na autoralidade, fazendo até o fim obras inovadoras, cheias de vigor. Justamente Truffaut virou o nó górdio. Fez filmes sobre o amor, baseados na observação cotidiana - uma tradição francesa, segundo Jean Tulard -, foi, ele sim, um clássico, para não dizer acadêmico.

DESCONSTRUÇÃO

Godard, não. Desde o começo questionou a linguagem. Acossado não deixa de ser um faroeste urbano; Um Homem, Uma Mulher é um musical sem canto nem dança. Mesmo quando parecia que ia fazer cinema de gênero, Godard, na verdade, desconstruía as formas. Sua obra foi se radicalizando ao longo dos anos 1960.

A radicalidade não estava só na forma. Masculino-Feminino, de 1965, é sobre sua geração, que Jean-Luc definia como filhos de Marx e da Coca-Cola, A Chinesa, de 1967, antecipa o célebre Maio de 68 ao colocar seus personagens dentro de um apartamento, dizendo palavras de ordem revolucionárias, Week-End à Francesa, de 1968, utiliza um engarrafamento de trânsito para filmar a derrocada do sistema.

Seguiu-se uma fase de militância, na qual o único filme comercial - nos termos de Godard - foi Tudo Vai Bem, com dois ícones da esquerda, Yves Montand e Jane Fonda. Longe de obter a unanimidade, Godard foi espinafrado pelos sindicatos. Em 2017, ele seria biografado por Michel Hazanavicius em O Formidável. Um recorte, apenas - Godard, interpretado por Louis Garrel, tenta ser aceito nos círculos mais radicais de Maio de 68, mas é rechaçado. O filme se baseia no relato da mulher de Godard na época, Anne Wiazemsky, que ele conheceu ao visitar o set de Au Hazard Balthazar/A Grande Testemunha, de Robert Bresson, de 1966.

AS MULHERES DE GODARD

Depois de transformar Jean Seberg em musa, em Acossado, e de subverter o mito de Brigitte Bardot em O Desprezo, Godard teve a sua fase Anna Karina, a fase Wiazemsky, até chegar a Anne-Marie Miéville. No Google, você encontra a definição: "Importante videomaker suíça". Por influência dela, ou não, Godard se volta ao vídeo e à TV, realiza Histoire(s) du Cinéma. O livro com esse título, História(s) do Cinema, foi editado no Brasil pela Círculo de Poemas.

Em matéria de colaborações, não se pode esquecer dos grandes papéis ofertados a Jean-Paul Belmondo, que morreu no ano passado, e até a Alain Delon. E se inicia a fase final. Carmen, Eu Vos Saúdo, Maria, Nouvelle Vague, Alemanha Nove Zero, Infelizmente para Mim, O Elogio ao Amor, Imagem e Palavra.

Por último, Godard recebeu a Palma de Ouro honorária em Cannes, em 2018, uma homenagem do festival. Ele venceu o Urso de Ouro, o Leão de Ouro, um César especial pelo conjunto da obra, outro prêmio honorário da Academia de Hollywood. A par de todas as homenagens - e a maioria ele nem se dignou a comparecer -, Godard foi extremamente importante. Marcou a segunda metade do centenário do cinema. Desde o fim dos anos 1950 é inimaginável a evolução do cinema sem as provocações desse gênio.


Godard, subversivo no mais puro sentido da palavra

Vítima da censura na ditadura e na Era Sarney, diretor foi rebelde

Sérgio Augusto, FSP, 17/09/2022

Duas eras chegaram ao fim este mês, com cinco dias de diferença: a era da rainha Elizabeth 2ª e a era de Jean-Luc Godard. Vi as duas nascerem, a primeira tão desinteressadamente quanto acompanhei seu desenrolar, a segunda com o entusiasmo juvenil de um cinéfilo já familiarizado com as ideias de Godard desde o tempo em que ele ainda assinava seus artigos na revista Cahiers du Cinéma e no semanário Arts com o pseudônimo de Hans Lucas.

Sua clássica definição de cinema como “a verdade 24 vezes por segundo” ganhou relevância oracular junto a cineastas do mundo inteiro. Mas de suas tiradas, entre as tantas, em geral peremptórias, que fez (“Nicholas Ray é o cinema”, por exemplo), as mais marcantes, para mim, foram sobre o estilo de Hitchcock (“ele filma caras como se fossem bundas e bundas como se fossem caras”) e o “maior equívoco” de Orfeu Negro. Por ele, Godard, Eurídice chegaria ao Rio não de barca, mas de avião, “aterrissando no aeroporto mais bonito do mundo”, o Santos Dumont de 64 anos atrás.

Para os cinéfilos cariocas, a Era Godard começou na noite de 24 de abril de 1961, quando da première de À Bout de Souffle (Acossado) no auditório da Maison de France.

O "enfant terrible" Godard com a atriz Anna Karina, na época (1960) sua esposa Foto: Mario Torrisi/AP

Saímos da sessão entre fascinados e aturdidos com a avassaladora exibição de inventividade, souplesse, e desrespeito aos cânones narrativos da época. E ainda ganhamos, além de um novo gênero (o film noir existencialista) e um novo anti-herói (Michel Poiccard/Jean-Paul Belmondo) decalcado em Jean Gabin e Humphrey Bogart, uma paixão para a eternidade, Jean Seberg. Acossado foi a Sagração da Primavera para a geração que logo a seguir amaria os Beatles e os Rolling Stones. Cidadão Kane, descobriu-se, não havia sido o primeiro grande baile do cinema moderno, como se acreditava, mas o último grande baile do cinema antigo. Foi Godard quem, a rigor, introduziu o cinema à modernidade, pervertendo o thriller, o musical, o drama de guerra, a ficção científica e outros gêneros formatados e consagrados por Hollywood.

Sabíamos tudo sobre Acossado e seus bastidores, identificávamos os locais das externas em Paris e até os intérpretes bem mais obscuros que o do diretor Jean-Pierre Melville, o paródico Parvulesco, cujo sonho é morrer e tornar-se imortal. Reproduzíamos entre amigos as falas, os calemburgos de Belmondo (“Maintenant, je fonce, Alphonse”), as gírias e os palavrões disparados em cena, noves fora as citações literárias (Faulkner, Dylan Thomas), que depois perceberíamos indissociáveis da estética godardiana.

O amor pela leitura, a devoção às palavras, eis o que, no fundo, mais aprecio nos filmes de Godard. Personagens que leem – e até comentam o que leram – são cada vez mais raros na tela, monopolizada por gente que no máximo lê jornal e revista. Até brigar com livros os personagens de Godard já brigaram; não atirando brochuras uns nos outros, mas agredindo-se verbalmente com os títulos de obras literárias colhidos a esmo numa estante, como Anna Karina e Jean-Claude Brialy fizeram em Uma Mulher é Uma Mulher.

Cena do filme Acossado, de Jean-Luc Godard, com Jean Seberg, Jean-Paul Belmondo e Daniel Boulanger  Foto: Zeta Filmes

Godard irritou à beça os nossos milicos, que o consideravam um perigoso subversivo. Era mesmo – no melhor sentido da palavra. A ditadura proibiu A Chinesa, depois liberado porque o coronel que chefiava a Polícia Federal não entendera patavina do que Jean-Pierre Léaud e seus amigos maoistas discutiam diante da câmera, embora falassem em francês, não em chinês. Em Masculino-Feminino, Léaud lia um manifesto contra a prisão de intelectuais pelo governo Castelo Branco. Claro que deu galho.

Consta que Godard ajudou financeiramente a Aliança Libertadora Nacional, de Marighella. No entanto, o mais rumoroso atrito entre a censura brasileira e o cineasta ocorreu já na Nova República, quando o governo Sarney baixou a crista para as lideranças católicas e proibiu Je Vous Salue, Marie. R.I.P., Jean-Luc.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

100 anos de rádio

Machado de Assis não conheceu o rádio, mas quando morreu (1908) Guglielmo Marconi (1874 – 1937) já patenteara o invento e se realizara em Berlim a primeira conferência radiotelegráfica internacional (1903). O ano da sua morte é também o da primeira emissão radiofônica, do alto da torre Eiffel, ouvida em posto militares da região e até em Marselha.

No ano seguinte a voz do tenor Enrico Caruso (1873 – 1021) foi transmitida do Opera House, em Nova York, mas foi preciso esperar o fim da primeira Grande Guerra (1914 - 1918) para nascerem emissoras regulares, o mais parecido com o que chamamos rádio: radiodifusão (não mais radiotelefonia, para comunicações pessoais) destinada a uma grande massa de ouvintes, munidos de aparelhos receptores produzidos em escala industrial, com programas regulares (de música, de notícias, de entrevistas, proclamações, radioteatro etc) previamente anunciados e veiculando publicidade privada. 

Aqui, a primeira emissão radiofônica foi a 7 de setembro de 1922, apenas dois anos após a norte-americana, sete meses após a Semana dos literatos e artistas (semana da arte moderna em São Paulo). A Westinghouse Eletric International, em parceria com a Companhia Telefônica Brasileira (e este fato é também significativo) transmitiu música e discurso do presidente Epitácio Pessoa para oitenta rádios (receptores) trazidos dos Estados Unidos. A Coca-Cola chegará depois (1941), os rádios Phillips (Figura 1), de válvula, chegaram antes. Os fílipes e os telefones: “Alô, boy, alô Johny, isto é conversa mole de telefone”, Noel Rosa ironizou. (Joel Rufino dos Santos, “Quem ama a literatura não estuda literatura”, p. 172, Rocco, 2008)

As faixas de frequência alocadas para a radiodifusão (broadcasting). FM: de 88 a 108 MHz e AM: de 530 a 1600 MHz. As faixas SW são as ondas curtas

“Todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão o conforto moral da ciência e da arte... pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, no espaço, silenciosamente as harmonias” dizia Roquette Pinto em 1923, otimista e exagerado, sobre o advento do rádio. Não mencionava a língua que as “ondas misteriosas” começariam unificar, mas se insinuava o projeto de concluir a nação por novos meios, que não a escola e o livro. 

Com o rádio era formada também a primeira comunidade nacional de informação. A notícia da proclamação da Independência chegara ao Rio dias depois, o tempo a cavalo de São Paulo – é de imaginar o que levou para chegar à Bahia, ao Pará. Já em 1865, quando estourou a guerra do Paraguai, a notícia correu rapidamente – fora inventado o telégrafo, o telegrama aparecia nos jornais do dia seguinte, lido pelas pouquíssimas pessoas que sabiam ler, depois corria de boca em boca. Com o rádio não se precisava ler. Em 1938, por exemplo, quando morreu Lampião, o Brasil inteiro soube imediatamente (Joel Rufino dos Santos)

Como os pioneiros (Roquette Pinto) sua vida é misto de história e estórias. De sua própria casa teria feito um estúdio. Toda manhã irradiava notícias de jornais e o poema “Caçador de Esmeralda” de Bilac: “Foi em março, ao findar da chuva...” Mandava também ao ar vozes de personalidades que visitassem o Rio como Einstein em 1925. Em pequenas cidades espalhadas pelo país, heróis da radiofonia irradiavam nesse esquema caseiro – locutores falando como fidalgos, Vossa Excelência pra cá, Vossa Excelência pra lá. De vez em quando se ouviam, no fundo, um cacarejo de galinhas, um coaxar de sapos. Os receptores, artesanais, se chamavam galenas (dentro de uma caixa de charutos se enfiava um cristal do metal galena, um improvisado regulador de contato, um indutor, um condensador de sintonia e fones de ouvido; como antena, um fio de cobre entre dois bambus, no quintal ou jardim) (Joel Rufino dos Santos)

A estimativa mais conservadora dá conta de que pelo menos 95 milhões de brasileiros ouvem rádio diariamente, 90,2% dos domicílios possuem rádio, o que equivale a 38 milhões e 400 mil casas com aparelhos de rádio. Enquanto o Ministério das Comunicações divulga o registro de 3.232 emissoras de radiodifusão na atualidade, mais de 20 milhões de automóveis da frota brasileira estão sintonizados no veículo de comunicação que um dia deslumbrou Edgard Roquete Pinto, o precursor da radiodifusão no Brasil. 

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Em tempo

Audiência da Rádio: No atual cenário da comunicação do Brasil, a rádio se diferencia pelo seu conteúdo e programação exclusiva. De acordo com uma pesquisa, realizada no Brasil, sobre audiência da rádio, afirma que ela é ouvida por 86 % da população. E 3 a cada 5 pessoas tem o costume de escutar todos os dias! BrasilStream, 04/06/2019 

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Em 1886, 22 anos após os trabalhos de Maxwell, Hertz observou que durante descargas de uma Garrafa de Leyden, centelhas secundárias foram observadas em um local afastado dentro do Laboratório, as quais não podiam ser explicadas pela indução clássica. Ele inferiu que estas descargas eram oscilatórias na freqüência aproximada de 80 MHz, que permitia a irradiação de energia em forma de ondas eletromagnéticas como predito por Maxwell. Hertz expôs suas descobertas na Academia de Berlin em 1887 e ganhou o prêmio Berlin. Seus experimentos mostraram que essas radiações recentemente descobertas, comportavam-se como a luz, sendo parte do mesmo espectro eletromagnético. Em experimentos subsequentes, Hertz provou que as ondas se propagavam com a velocidade da luz e que possuíam propriedades similares às da luz (reflexão, difração, polarização). Nas palavras do próprio Hertz: "The results are fatal to any and every theory which assumes that electric force acts across space independent of time. They mark a brilliant victory for Maxwell's Theory".

Já em 4 de outubro de 1957 no Cosmódromo de Baikonur, na URSS (a Rússia atual), é lançado Sputinik. O Sputnik era uma esfera de aproximadamente 50 cm e pesando 83,6 kg. Ele não tinha nenhuma função, a não ser transmitir um sinal de rádio, "beep" que podia ser sintonizado por qualquer radioamador. O satélite orbitou a Terra por seis meses antes de cair. 

MILTON JUNG X HERÓDOTO BARBEIRO | WEBSÉRIE COMEMORATIVA DOS 100 ANOS DE RÁDIO NO BRASIL 

domingo, 11 de setembro de 2022

A morte da rainha

1. 'Obsessão com morte de Rainha dá a real medida de nossa emancipação', Milly Lacombe, UOL, 11/09/2022; 2. 'Relação da monarquia britânica com suas ex-colônias do Caribe precisa mudar', Sylvia Colombo 11/09/2022 – FSP e 3. 'Rei Charles 3º, apenas abdique ao trono', DW, Zulfikar Abbany , 11/09/2022

1. Obsessão com morte de Rainha dá a real medida de nossa emancipação

Estamos acompanhando o minuto-a-minuto da morte da Rainha Elizabeth e talvez devessemos nos perguntar por que sua morte gera tanto interesse. A Rainha do Reino Unido não era exatamente conhecida por ser uma pessoa ligada a causas sociais, o que talvez justificasse o apego em relação a sua passagem.

 
Corpo da rainha Elizabeth é levado em caixão de carvalho. Imagem: Jeff J Mitchell / Equipe via getty

A Rainha, muito pelo contrário e para dizer o mínimo, foi uma pessoa que compactuou com o Apartheid, com a ditadura e com todos os horrores do colonialismo e da colonialidade que até hoje colocam nações inteiras como territórios a serem explorados e saqueados. Tendemos a simpatizar com pessoas que vivem muito, que envelhecem e adquirem um ar de delicadeza e de doçura, verdade. Tendemos a apreciar pessoas de gestos curtos, de poucas palavras, de vestimentas elegantes, outra verdade.

E, claro, tendemos a supervalorizar pessoas muito ricas por nenhum outro motivo que não seja sua riqueza, especialmente se elas podem legalmente ser chamadas de Rainha. Mas, olhada de perto, a Monarquia é em si um horror. Uma família que vive nababescamente e há séculos de rendas acumuladas por saques, guerras e exploração colonial.

Não temos, a rigor, nada a ver com a Rainha. Isso não nos desobriga de prestar solidariedade a quem de direito porque perder pessoas que amamos é sempre dolorido. Perdi minha avó aos 99 anos e devo dizer que, ainda assim, me pareceu inesperado e precoce que ela me deixasse. A morte de Diana talvez justificasse o frenesi midiático: jovem, ligada a causas sociais, um fim trágico.

Mas a da Rainha não precisaria de uma cobertura tão extensa, tão detalhada, tão colonizada. O papel da Inglaterra durante todos os anos em que o Brasil (ainda legalmente uma colônia portuguesa) foi explorado e saqueado não pode ser chamado de amigável ou de saudável. Nossas riquezas, fruto do incansável trabalho dos povos escravizados, eram extraídas para proveito da Inglaterra e de sua Monarquia.

O arrebatamento com a morte de uma pessoa que nunca fez nada para resgatar os povos oprimidos e explorados desse planeta, ainda que tivesse poder para isso, dá a real medida de nossa independência. Sete de setembro não significa grande coisa. A data, sequestrada por Jair Bolsonaro para celebrar sua suposta virilidade, é mais ou menos isso: uma data que, de tão irreal, é desprezível a ponto de ser sequestrável.

Um dia, quando virarmos uma nação de fato independente, derrubaremos todas as estátuas dos Bandeirantes, arrancaremos os nomes das ruas que homenageiam torturadores e encerraremos a comemoração de datas mentirosas. No lugar delas, colocaremos no calendário oficial os feriados do dia do nascimento de Carolina Maria de Jesus, o dia de Zumbi dos Palmares, de Dandara dos Palmares, de André Rebouças, de Marielle e de tantas e tantos outros. Nesse dia, teremos encontrado nossos reis e rainhas aqui mesmo.

Porque elas e eles estão aí, na luta do dia a dia, nos transportes públicos, nas fábricas, enterrando seus filhos sem direito a pedir justiça mas também nos terreiros, nas florestas, nas festas de rua e na violenta, ainda que silenciosa, luta por um Brasil de fato emancipado.

2. Relação da monarquia britânica com suas ex-colônias do Caribe precisa mudar

Jamaica, Belize e outros querem deixar de ter o monarca inglês como chefe de Estado

Sylvia Colombo 11/09/2022 - FSP

Era para ser um daqueles momentos em que William e Kate, agora príncipe e princesa de Gales, manejam tão bem. Diante das câmaras, são pura doçura e simpatia com o público. Porém, um encontro mal-arranjado na Jamaica quase destrói o esforço da família real de estreitar laços com suas ex-colônias caribenhas. Organizadores previram um encontro com jovens e crianças que estariam separados do casal real apenas por uma... grade.

A imagem acabou sendo um desastre, pois o público parecia engaiolado e acabou sendo uma referência clara e direta ao que foi o Caribe durante boa parte do Império Britânico, um local onde a escravidão causou imensos sofrimentos e ainda marca de modo negativo os índices sociais até hoje. Tudo isso para que países europeus, como o Reino Unido, vivessem em pujança econômica.

 
William e Kate em momento saia-justa na Jamaica, cumprimentando crianças negras por meio de uma grade - Chris Jackson/Reuters

Tanto a viagem de William e Kate, que passou por Jamaica, Belize e as Bahamas, em março, como a de Edward (irmão mais novo do agora rei Charles 3o) e sua mulher, Sophie, que visitou Santa Lucia, Saint Vincent & the Granadines, e Antigua & Barbuda, em abril, acabaram tendo resultados adversos para a Coroa. Na época, a ideia era estimular os festejos pelo Jubileu da Rainha, que comemorava 70 anos de reinado. Ambos os casais foram celebrados pelo público de um modo geral, mas também foram vistos em vários pontos pessoas carregando faixas dizendo "reparação agora", ou "Reino Unido, sua dívida conosco continua aberta".

Embora tenha havido festa, recepção calorosa e multidões carinhosas para receber os membros da família real, o gosto amargo ficou por conta das manifestações de grupos que desejam um pedido de desculpas público do Estado britânico pelos males causados pela colonização e que países continuem tendo a Coroa britânica, no caso agora o rei Charles 3o, como chefe de Estado, eliminem esse vestígio do passado. Isso já aconteceu em Barbados, em novembro do ano passado, quando o país removeu a figura de Elizabeth 2a do posto de chefe de Estado, transformando-se em uma república _e com uma mulher, a ex-juíza Sandra Mason, como presidente do país. Na cerimônia, estava o então príncipe Charles, que desejou sorte ao país.

Assim como em Barbados, o sentimento republicano já existe há tempos nos outros países caribenhos que, embora independentes, ainda mantêm a figura do monarca britânico como chefe de Estado. O movimento para livrar-se deste vestígio de um passado doloroso se acirrou, porém, com o assassinato de George Floyd nos EUA, em maio de 2020, e a ascensão do movimento Black Lives Matter.
Tanto o novo rei como o novo príncipe de Gales, em suas visitas recentes ao Caribe, referiram-se à escravidão como "uma aberração" e algo "que nunca deveria ter ocorrido". Além disso, o novo monarca e sua antecessora, a rainha Elizabeth 2a, afirmaram ver com bons olhos e apoiar as decisões das nações que desejem desvincular-se do Reino Unido.

Os gestos de boa-vontade, porém, são pouco para os grupos mais radicais que desejam, além de um corte de laços políticos, também uma reparação financeira. Isso poderá ser uma pedra no sapato do reinado de Carlos 3o e, obviamente, também ao recém-iniciado governo da conservadora Liz Truss, uma vez que este último item teria de ser aprovado pelo Parlamento britânico, se levado adiante.
A Jamaica é o país que avança de modo mais acelerado nessa direção. Na mesma viagem de William e Kate, o primeiro-ministro jamaicano, Andrew Holness, falou abertamente ao lado do príncipe sobre a necessidade de uma reparação financeira. O país já é independente desde 1962, mas agora tem um novo chefe de Estado, o rei Charles 3o, o que salta como uma anacrônica falta de lógica. William, em uma resposta educada, apenas celebrou a história de lutas dos jamaicanos, a independência, e a cultura locais, além de condenar a escravidão, mas não falou sobre dinheiro.

O Belize, independente desde 1981, embora geograficamente localizado na América Central, mas administrado durante o jugo britânico junto aos países caribenhos, também vem expressando a vontade de deixar de ser uma monarquia constitucional parlamentária vinculada ao Reino Unido. O Belize tem um ativo grupo de acadêmicos que trabalha na preparação de documentos e pesquisas sobre o processo de descolonização e deseja ser chamado a conversar sobre o tema com a Coroa.

Em Antigua e Barbuda, também independente desde 1981, o primeiro-ministro Gaston Browne pediu ao príncipe Edward que "ajudasse na mediação" com a Coroa e o governo britânico para a negociação de reparações financeiras. "Continuamos a ter a (então) rainha como chefe de Estado, mas aspiramos em virar uma República. Não quero envergonhá-lo em sua visita, apenas avisá-lo. Esperamos contar com sua influência diplomática para que tenhamos uma justiça reparatória com relação ao que ocorreu no passado". E acrescentou: "Nossa civilização deve entender e reconhecer as atrocidades que ocorreram durante a colonização, só assim vamos trazer balanço para relação e poderemos debater temas em comum abertamente". Edward nada disse, mas anotou o recado.

Embora a maioria dos ex-territórios britânicos no Caribe sejam hoje países independentes, não é o caso de cinco deles, que permanecem sob as asas do Reino Unido: Anguilla, as Ilhas Virgens Britânicas, as ilhas Cayman, Montserrat e Turks and Caicos. Seu futuro também permanece incerto.
Quando se fala da influência da monarquia britânica hoje, estamos falando muito mais de símbolos do que de política. Afinal, esta é manejada pelos governos. O que pedem os países caribenhos nos dias de hoje têm muito mais a ver com o atual governo britânico do que com o atual monarca. Ainda assim, em tempos em que imagens e figuras emblemáticas têm tanto peso na geopolítica mundial, o que diga o novo rei terá influência direta nos rumos do Caribe. Num primeiro momento, tanto Charles como sua família não parecem querer colocar obstáculos nas decisões desses países soberanos. Já reparações financeiras e desculpas em nome do Reino Unido terão de convocar também outras esferas do poder e da sociedade.

Os países caribenhos que foram colonizados pelos britânicos hoje têm enormes problemas de pobreza e desigualdade, e não há como não atentar para o fato de que são uma herança daquela época. Se a dívida moral já era visível antes, será ainda mais com a mudança do titular do trono britânico. Não se trata de um assunto que deveria continuar aberto.

A descolonização não é apenas uma saída de cena do país colonizador. Mas também um processo de muitas fases, que podem ou não envolver uma reparação financeira. Este será um papo essencial em algum vindouro chá entre Charles e Liz.


3. Opinião: Rei Charles 3º, apenas abdique ao trono

Zulfikar Abbany, DW, 11/09/2022

Um resultado melhor, no entanto, seria acabar com a monarquia britânica

A Casa de Windsor tem visto muitos membros relutantes e Charles, certamente, se encaixa neste perfil. Momento é o ideal para melhorar a democracia no Reino Unido, opina o jornalista da DW Zulfikar Abbany.

Dois dias depois de cumprimentar a primeira-ministra Liz Truss, no último ato como chefe de Estado e soberana de 15 nações ao redor do mundo, a rainha Elizabeth 2ª morreu. É um momento triste para muitos, sem dúvida, mas também pode ser uma oportunidade para o Reino Unido.

Não consigo deixar de pensar na época em que aquela outra importante integrante da realeza – não, não me refiro ao marido da rainha, Philip –, mas, Diana, morreu. Tal como acontece com a morte da rainha, Diana faleceu logo após uma mudança de poder no governo em Londres. A única diferença era que Diana era uma pessoa voltada para o futuro, assim como o então primeiro-ministro Tony Blair – não que eu fosse um fã de ambos.  

A rainha Elizabeth, por outro lado, era mais como um adorno oxidado. O mesmo vale para o restante da realeza e sua classe dominante e conservadora. Eles são guardiões de uma política e sociedade do passado e um lembrete constante – seja em moedas, selos ou pacotes de biscoitos e chá – de que somos seus súditos e estamos na parte inferior de uma hierarquia totalmente antidemocrática.

Mas os tempos mudaram, e eles também deveriam mudar.

Uma realeza relutante a mudanças

O príncipe – agora rei – Charles esperou toda a sua vida adulta, até o que deveria ser sua aposentadoria, para assumir o trono. Ao ser coroado, Charles deve sentir que não terá muito tempo para servir à monarquia. De fato, se algum de seus comportamentos nos últimos 35 anos pudesse ser tomado como evidência, eu sugiro que a última coisa que ele quer é ser rei. Sua esposa Camilla também não expressou muito interesse pelo posto de rainha consorte.

Expressar opiniões não é algo que cabe a realeza, e será que Charles não terá que aprender essa lição atrasado? Em junho, ele foi criticado por ter descrito os planos do governo de enviar migrantes para Ruanda como "deploráveis".

Parece que Charles é menos filho de sua mãe do que dita a linha de sucessão. E isso pode não ser ruim: Charles ainda pode entregar o reinado a seu filho mais velho, William. Afinal, ele é rei – e deveria ser capaz de fazer o que quiser. É mais difícil de avaliar William. Apesar de toda a antipatia anterior à realeza e aos males da mídia, o príncipe William e sua esposa, Catherine, duquesa de Cambridge, tornaram-se o epítome da realeza moderna – pelo menos externamente.

Ao contrário de seu irmão Harry e da sua esposa Meghan, que vivem nos Estados Unidos, e seu tio desonrado, o príncipe Andrew, William deu passos decisivos para subir ao trono. Poucos dias antes da morte de Elizabeth 2ª, William e Kate disseram que mudariam a casa da família para mais perto da residência da rainha.Assim, Charles pode abdicar e deixar os espólios para William e Kate. 

Um resultado melhor, no entanto, seria acabar com a monarquia britânica.

Chances reais de sobrevivência

A rainha era a patrona da minha escola secundária. Fundada em 1856, ela tinha um lema em latim — non sibi sed omnibus (não para um, mas para todos) – o que era uma mentira terrível, também, para uma instituição real.

Acredito que a rainha Elizabeth 2ª visitou a escola apenas uma vez, no ano em que nasci (1974), e nunca mais foi vista. Mas continuamos enviando cartões de aniversário para ela – quer dizer, pequenos atos de dever impensado. Ainda hoje, ouvimos pessoas nas ruas elogiarem um servo altruísta do povo, uma pessoa e uma família que formam o "tecido" da nação. Mas eu não sinto isso.

Naquele verão, quando Diana morreu, fui ao Palácio de Kensington por um capricho e para olhar a multidão. O palácio ficava do outro lado da rua da loja de roupas masculinas dos meus pais, então era bem perto. Lá encontrei com dois velhos amigos de escola que foram participar da vigília. Um deles, Michael, era do sul da Ásia, e eu lhe perguntei: "Por que você veio aqui com flores? Por que você honra essas pessoas que oprimiram o seu povo?" Ambos me olharam como se eu fosse um pária. A conversa parou ali, e nunca mais falamos sobre o assunto.

Ainda não conversamos sobre isso, porque somos súditos da monarquia – e cabe a nós ficarmos em silêncio e aceitar. Tenho sorte de estar agora na Alemanha, onde é possível criticar a monarquia. Mas, mesmo aqui, é preciso ter cuidado.

Os alemães amam a rainha como se ela tivesse sido a deles. Mas eles nunca viveram sob a monarquia como eu vivi – e muitos outros ainda vivem, ou como meu pai viveu no Quênia quando era ainda uma colônia. Mas nem ele fala sobre isso.

Tudo isso é uma tragédia para uma união democrática de nações, como o Reino Unido. Mas, agora, é a mãe de todas as oportunidades de mudança.

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Zulfikar Abbany é jornalista da DW. O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.


Festival de Veneza 2022

Zebra, 'All the Beauty and the Bloodshed' leva o Leão de Ouro em Veneza.

Documentário dirigido por Laura Poitras fala sobre a história da fotógrafa americana Nan Goldin e a queda da família Sackler.

Bruno Ghetti, 10/09/2022, FSP

O longa "All the Beauty and the Bloodshed", da americana Laura Poitras, levou o Leão de Ouro e foi o grande vencedor do Festival de Veneza 2022. Foi a premiação menos previsível em anos – o documentário conta a história da fotógrafa americana Nan Goldin, grande nome do underground nova-iorquino nos anos 1970 e 1980.

 
Retrato de Nan Goldin - Markus Jans/Divulgação

Mais recentemente, ela tem se dedicado a uma campanha contra a família Sackler, de bilionários que patrocinam museus importantes em todo mundo, mas que são donos de um laboratório que há décadas vende remédios altamente viciantes e que já causaram a morte, segundo o filme, de 400 mil pessoas

A fotógrafa Nan Goldin (à esquerda) e a diretora Laura Poitras no tapete vermelho de 'All the beauty and the bloodshed' no Festival de Veneza; longa foi o grande vencedor do evento. Tiziana Babi, 3set2022/AFP


O prêmio de melhor direção foi para Luca Guadagnino, por "Bones and All", que também levou o troféu Marcello Mastroianni, de melhor ator ou atriz em início de carreira, para a jovem Taylor Russell. Cate Blanchett foi eleita a melhor atriz, por sua brilhante performance como uma tirânica regente de orquestra, em "Tár", de Todd Field, enquanto o troféu de melhor ator foi para Colin Farrell, pelo papel de um homem que inicia uma briga contra o melhor amigo, em "The Banshees of Inisherin", de Martin McDonagh. Ambos já aparecem como nomes fortes para a disputa do Oscar do ano que vem nessas mesmas categorias.

Martin McDonagh, aliás, também levou o prêmio de melhor roteiro por "Banshees", configurando uma rara ocasião em que um mesmo filme levou mais de um prêmio no festival.
O Grande Prêmio do Júri, o segundo mais importante, foi para "Saint Omer", da franco-senegalesa Alice Diop. 

Cenas de 'Saint Omer" 

A diretora Alice Diop recebe o prêmio Leão do Futuro para o melhor filme de estreia por 'Saint Omer' no Festival de Veneza 2022. Tiziana Babi/AFP

O Prêmio Especial do Júri foi para "No Bears", do iraniano Jafar Panahi  – o cineasta não compareceu a Veneza porque está preso em seu país, cumprindo pena por protestar contra a prisão de colegas de profissão que haviam se pronunciado publicamente contra o governo do Irã.

O Brasil não teve produções em Veneza neste ano, mas o gaúcho Pedro Harres ganhou o Grande Prêmio do Júri na mostra paralela Venice Immersive, pelo curta de animação produzido na Alemanha "From the Main Square". Em seu discurso, criticou o governo Bolsonaro, dizendo que "não apenas é contra a democracia como também é contra o cinema".

sábado, 10 de setembro de 2022

Argentina

 Sérgio Augusto, 10/09/2021, O Estadão

E a Argentina, hein? Estamos, uma vez mais, sem moral para esnobá-la. Nosso porcentual de desempregados e famintos ainda é mais elevado, assim como nossa capacidade para produzir homicidas envenenados pelo fanatismo ideológico, cujo avatar mais recente por um triz não assassinou a vice-presidente Cristina Kirchner.

A história da Argentina é um contínuo banho de sangue, como a de tantos outros países, com uma particularidade: seu povo só parece encarar a morte com menos naturalidade que o mexicano. O primeiro rio que lá encontraram foi batizado de Matanza. A primeira narrativa nacional, escrita por Esteban Echeverría, intitulava-se El Matadero. Seus heróis são mais comemorados nos aniversários de morte. Acrescentem a essa tradição necrófila o sequestro do cadáver da primeira-dama Eva Perón. Nada disso, porém, abala a reverência que devemos à pátria de Jorge Luis Borges e Carlos Gardel, com a qual mantenho, desde menino, profundas relações culturais e afetivas.

'Houve tempo em que o ensino naqueles pampas superava em qualidade o de vários países europeus' Foto: Mariana Nedelcu/REUTERS

Shows de tango

Fui criado ao som dos tangos que minha mãe adorava, colecionava e cujas letras decorava lendo a revista portenha Sintonía. Quando a levei a Buenos Aires, dava gosto vê-la, nos shows de tango, identificar baixinho os músicos em cena: “Aquele bandoneonista começou na orquestra de Francisco Canaro”.

Depois, veio o futebol: Di Stéfano e os craques que atuaram nos gramados daqui, como José Poy e Oscar Basso (companheiro de Nilton Santos no Botafogo). E, por fim, sua poderosa literatura, seu cativante cinema (desde Leopoldo Torre Nilsson) e os quadrinhos criados por Oesterheld, Salinas, Quino, Breccia.

Coroa espanhola

Quando dom Pedro soltou aquele grito no Ipiranga, as Províncias Unidas do Rio da Prata já usufruíam seis anos de independência da coroa espanhola. Pouco menos de um século depois, o Produto Interno Bruto da Argentina já equivalia à metade do PIB da América do Sul.

Houve tempo em que o ensino naqueles pampas superava em qualidade o da maioria dos países europeus. Sexta potência econômica às vésperas da Grande Depressão, a Argentina desfrutava então de uma sólida classe média, havia praticamente zerado o analfabetismo, e tinha mais automóveis do que a França e mais linhas telefônicas do que o Japão. E muita carne. E muito trigo.

País do futuro

Não era, por supuesto, o “país do futuro”, como um que bem conhecemos e há quatro anos voltou à Idade Média, mas um país do presente - daquele bonançoso presente. Após a Segunda Guerra Mundial, a Argentina perdeu a tramontana. Seu Produto Interno Bruto e sua presença no comércio mundial despencaram, e ela adentrou este século como um país caro demais e de baixa relevância estratégica.

“Nós somos uma potência ou uma impotência, um destino ou um desatino, o pescoço do Terceiro Mundo ou o rabo do Primeiro?”, perguntou-se o escritor e jornalista Tomás Eloy Martinez, que morreu (em 2010) sem conhecer a resposta, ainda desconhecida de todos nós.

domingo, 4 de setembro de 2022

Dom Pedro 1º

Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim 

Dom Pedro 1º, rei trágico, foi salvador em Portugal e déspota no Brasil

Personagem contraditório, soberano ficou dividido entre Rio e Lisboa, liberalismo e absolutismo.

Lucia Maria Bastos Pereira das Neves

Professora titular de história da UERJ e pesquisadora do CNPq, autora de "Corcundas e Constitucionais: a Cultura Política da Independência"

Folha de São Paulo, 03/09/2022

[RESUMO] Personagem contraditório, herói libertador em Portugal e déspota no Brasil, dom Pedro 1º esteve mergulhado nos impasses de sua época, dividido entre as ideias liberais e o absolutismo. Por longo tempo foi retratado aqui apenas como figura autoritária, impulsiva e ignorante, sempre às voltas com aventuras amorosas, mas sua imagem vem sendo revista de forma mais nuançada, com destaque para sua formação intelectual, seu talento musical e sua compreensão do papel moderno do chefe de Estado.

Promovidas pelos militares, as comemorações do sesquicentenário da Independência, em 1972, trouxeram de volta ao Brasil as cinzas de Pedro 1º. Revestida a imagem do herói com algo de religioso, a antiga residência real no Rio de Janeiro expôs a relíquia. Em seguida, os despojos peregrinaram por todo o território nacional até alcançar o Museu do Ipiranga, onde ficaram depositados. O longo percurso cívico mostrou-se um sucesso de público. Faltava, porém, o coração.

Este, a pedido do próprio imperador em vida, permanecera na igreja da Lapa, no Porto, em Portugal. Nos dias que correm, às vésperas dos 200 anos da Independência, discute-se o controvertido retorno temporário desse coração. O corpo dividido aponta para as ambiguidades da figura de Pedro 1º: déspota entre nós, tornou-se, após a abdicação de 1831, o fundador do liberalismo português.

Nascido em 12 outubro de 1798, ele morreu, com quase 36 anos, em 24 de setembro de 1834, no mesmo quarto do Palácio de Queluz, em Portugal, cujos ornamentos e pinturas aludiam às aventuras de Dom Quixote, o personagem de Cervantes

 Tela "Primeiros Sons do Hino da Independência" (1922), de Augusto Bracet, mostra dom Pedro 1º, ao piano, e Evaristo Veiga compondo o hino, em 1822 - Romulo Fialdini Romulo Fialdini/

Filho segundo de dom João com Carlota Joaquina, Pedro de Alcântara (seguido de outros 15 nomes) tornou-se herdeiro do trono, em 1801, quando morreu o irmão mais velho. Em 1807, deixou Lisboa com a família real e passou a viver no Rio de Janeiro. Educado na América, não chegou a ter uma formação adequada à condição de futuro rei. Apesar disso, lia, falava e escrevia o francês, entendia o inglês, conhecia os sermões do padre Antônio Vieira, obras de Burke e de Benjamin Constant e até apreciava autores clássicos em latim, como atesta uma relação de livros da Biblioteca Real em seus aposentos.

Na tradição da dinastia Bragança, era apaixonado por música, revelando considerável talento nas diversas composições que deixou, em que se destacam os hinos da Maçonaria, da Independência do Brasil e, para Portugal, o da Carta, considerado até 1911 como o Hino Nacional de lá. Não foi, portanto, o semianalfabeto que alguns imaginaram.

Espírito irrequieto e ardente, gostava de viver ao ar livre e, mais tarde, de frequentar as tavernas da cidade, disfarçado como cidadão comum. Em uma dessas incursões noturnas, conheceu Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, que se tornaria seu secretário e fiel amigo

Em 1817, como futuro herdeiro do trono português, Pedro casou-se com Leopoldina, arquiduquesa austríaca, a fim de consolidar a aliança entre as duas monarquias. Dessa união, nasceram nove filhos, quatro dos quais não chegaram à idade adulta.

Se as aventuras amorosas não cessaram, as murmurações na Corte cresceram a partir de meados de 1822, quando conheceu Domitila de Castro, a futura marquesa de Santos. O romance passou a afetar a vida familiar e o comportamento político do monarca, embora, de seus diversos frutos, apenas Isabel Maria de Alcântara Brasileira tenha sido legitimada e elevada, como duquesa de Goiás, à mais alta dignidade da nobreza brasileira. Três anos após a morte de Leopoldina, o contrato de casamento de Pedro com dona Amélia, uma das mais belas princesas da Europa, exigiu o fim do relacionamento com Domitila em 1829.

Dom Pedro estreou na vida política em 26 de fevereiro de 1821, com a eclosão no Rio do movimento constitucionalista. Habilmente, ele evitou a pretendida implementação da Constituição espanhola e a formação de uma Junta Governativa de nomeação popular

Em abril, dom João 6º partiu para a Europa, deixando-o regente do Brasil, com amplos poderes. Contudo, faltavam recursos. O tesouro seguira para Portugal, e as províncias opunham-se ao envio da arrecadação dos impostos, pois o Rio perdera o prestígio de sediar a Corte do reino.  Ao longo do segundo semestre de 1821, as notícias das discussões nas Cortes de Lisboa tornavam cada vez mais claros os objetivos do movimento liberal português. Pretendia submeter o monarca ao controle do Congresso e restabelecer a supremacia europeia sobre o restante do império.

 As várias versões de Dom Pedro 1º na teledramaturgia e no cinema

Dom Pedro hesitou: ou conservava a sucessão ao trono, cujas atribuições julgava tolhidas pelos deputados, ou construía no Brasil um império de acordo com suas concepções políticas, em que assembleias soberanas não tinham lugar. Aproximou-se, então, da facção mais moderada e experiente da elite brasileira. Em geral, formavam essa elite aqueles indivíduos que haviam frequentado a Universidade de Coimbra, em Portugal, exercido funções na administração e que partilhavam a ideia de um único império nas duas margens do Atlântico.

No início de 1822, com o Dia do Fico, Pedro optou por permanecer no Brasil, repudiando a exigência das Cortes para que retornasse a Portugal. Justificava a atitude rebelde ao considerar o Congresso como responsável por reduzir seu pai ao papel de mero servidor do Poder Legislativo, argumentando que defendia os direitos inerentes à Coroa portuguesa e, sobretudo, aqueles do Brasil. Com isso, deixava de ser um usurpador do poder, à maneira dos libertadores da América espanhola, e passava a reunir em si a autoridade legítima de herdeiro da dinastia de Bragança.

A partir daí, as decisões que tomou não pretendiam conduzir a uma ruptura nem descartavam de todo a proposta de uma monarquia que mantivesse unidas as duas coroas. Mais que tudo, visavam evitar o esfacelamento do imenso território, ao assegurar um centro comum de poder no Rio de Janeiro.

Desse momento em diante, decisões tomadas de um lado e de outro do Atlântico só fizeram aprofundar o desentendimento. Por um lado, havia a insatisfação de Portugal, degradado à condição de colônia; por outro, o Brasil temia perder as vantagens que adquirira desde 1808.

Passo a passo da independência do Brasil

Nesse sentido, o Brasil declarou inimigas todas as tropas portuguesas que desembarcassem por aqui sem consentimento, concordou em convocar uma Assembleia Constituinte, publicou manifestos que exaltavam os laços de fraternidade entre os integrantes do Império português e em que a palavra independência aparecia no sentido exclusivo de autonomia política, sem implicar rompimento total.

Entretanto, para a maioria dos principais atores, a separação, embora parcial, já estava consumada. Assim, noticiado apenas em breve comentário no jornal fluminense O Espelho, em 20 de setembro, o célebre Grito do Ipiranga, proferido no 7 de setembro, encontrou pequena repercussão entre os contemporâneos

Por outro lado, na ótica da época, foi a grande festa cívica da aclamação de dom Pedro como imperador constitucional do Brasil, em 12 de outubro, com ampla participação da população nos festejos e reconhecimento das câmaras municipais, que estabeleceu os fundamentos do novo Império. Sem abrir mão da possibilidade de futuro governo dual sobre o conjunto dos domínios portugueses, dom Pedro soube explorar, daí em diante, as rivalidades no interior das elites brasileiras para assegurar que o governo central no Rio definisse uma identidade para o Império, de modo a obter credibilidade tanto interna quanto externa. Na linguagem do liberalismo, que prevalecia, isso significava o estabelecimento de uma Constituição. Todavia, os rumos dos trabalhos da Assembleia Constituinte, reunida em junho de 1823, deixaram o imperador insatisfeito, por pretenderem sobrepor a soberania da nação a seu poder pessoal.

Dom Pedro dissolveu-a pelas armas em novembro, mas, em ato característico de sua personalidade, em 25 de março de 1824 outorgou a primeira Constituição do país, que mandara redigir por um conselho de Estado e que fora referendada pela maioria das câmaras municipais. Tratava-se de uma Constituição, por conseguinte, que não emanava da representação da nação, mas vinha concedida pela "generosidade do soberano".

Estudo indica local exato da proclamação da Independência

De um lado, portanto, seu reinado não ignorou práticas autoritárias, sempre que seus objetivos políticos se mostrassem contrariados. De outro, percebeu a importância do conhecimento, da imprensa e da nascente opinião pública. Em função disso, soube recorrer ao escrito a favor do regime e de sua imagem: mandou divulgar proclamações oficiais, publicou curiosas intervenções como polemista nos jornais e subvencionou publicações que serviam a seu governo.

Contundente, criticava os defensores da democracia e aqueles que não haviam aderido à Independência e a seu governo, os "pés-de-chumbo", propondo-se a derretê-los "a cacete". Talvez com o propósito de amedrontar os proprietários de escravos, afastando-os dos liberais mais radicais, atribui-se-lhe uma carta de 1823, em que defendeu o fim do tráfico dos africanos

Por tais atitudes, Pedro 1º até pode ser considerado um liberal, ainda que jamais um democrata. O exercício do governo, apesar dos poderes que detinha pela Constituição, revelou-se cada vez mais difícil a partir de 1826, quando se reuniu a primeira Assembleia Legislativa, dominada pelos liberais. Desgastado pela independência da Cisplatina, o atual Uruguai, em 1828, e privado dos conselhos de dona Leopoldina, que falecera em 1826, além de ter a atenção dividida, após a morte do pai, entre a situação no Brasil e os problemas sucessórios em Portugal, ele não soube conviver com a atividade parlamentar regular.

Antecedentes do Dia do Fico

Sentia-se mais à vontade no espaço privado de poder, típico do Antigo Regime, formado pela Corte e ocupado por conselheiros e favoritos de origem predominantemente portuguesa. Em um ambiente cada vez mais hostil a Portugal, estimulou, assim, a desconfiança de tramar a reincorporação do Brasil à antiga metrópole. Diante das pressões, abdicou ao trono em 7 de abril de 1831, em favor do filho, o também Pedro de Alcântara, mas nascido no Brasil, o futuro Pedro 2º.

Afastado no Brasil como soberano intransigente, autoritário e, sobretudo, português, dom Pedro cruzou novamente o Atlântico a fim de resgatar a coroa da filha, usurpada por dom Miguel, seu irmão absolutista. Em 1832, partiu dos Açores para o Porto, retomando a violenta guerra civil em curso.

Com a derrota dos miguelistas em maio de 1834, Pedro restaurou a Carta Constitucional, que havia outorgado em 1826 ainda como Pedro 4º de Portugal, e, depois de abdicar da segunda coroa, assegurou o reconhecimento da filha como a rainha dona Maria 2º. Como resultado, ao morrer, ainda em 1834, dom Pedro assumiu o lugar de salvador da pátria no imaginário português, responsável pela vitória do liberalismo em Portugal.

Na perspectiva brasileira, por longo tempo considerado ignorante, sem caráter e absolutista, a historiografia o depreciou. Pedro 2º, o filho, foi o primeiro a tentar reabilitá-lo. De fato, embora ainda mesclasse a percepção ilustrada a concepções absolutistas do Antigo Regime, por inspiração napoleônica, ele soube compreender o papel moderno do chefe de Estado como agente e árbitro de vontades políticas.

Homem de seu tempo, nem plenamente liberal nem plenamente absolutista, português e brasileiro, Pedro 1º assumiu a dimensão trágica de uma personagem byroniana nos dois lados do Atlântico.

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Este texto integra série Perfis da Independência, que destaca nomes relevantes — muito conhecidos ou não — do período da emancipação do Brasil em relação a Portugal. O texto sobre a imperatriz Leopoldina deu início à série em fevereiro deste ano, seguido dos artigos sobre Hipólito da Costa, o aventureiro escocês Thomas Cochrane, Bárbara Pereira de Alencar, revolucionária e primeira presa política do Brasil, José Bonifácio, patriarca da Independência, e Urânia Vanério, autora de panfleto pró-Independência aos 10 anos, entre outros nomes.



quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Xingu solar

Sol ilumina as noites e muda a vida de 120 aldeias no Xingu

Para indígenas, sistemas fotovoltaicos levam luz e tecnologia às aldeias sem prejuízo à cultura e ao meio ambiente

Jovens do povo kisêdjê utilizam a internet no polo Wawi, na Terra Indígena Wawi, em Mato Grosso Lalo de Almeida/Folhapress 

Alexa Salomão, Lalo de Almeida, Folha de São Paulo, 01/09/2022

Parque Indígena do Xingu (MT). O domingo de 17 de julho foi agitado nas proximidades da entrada leste da Terra Indígena do Xingu, área do povo kisêdjê, na altura de Querência (MT). Logo cedo já era possível ouvir o rumor das máquinas operando na mata rente à reserva. À tarde, a preocupação foi o incêndio. Ele avançava havia três dias, dando trabalho aos brigadistas, e a fumaça engrossara.

Towayanin Kaiabi, o Velhinho, limpa placas solares que abastecem o polo Diauarum, no Xingu - Lalo de Almeida/Folhapress 

As imagens do desmatamento e do fogo foram registradas pelo drone de Kamikia Kisêdjê, 38, fotógrafo e cineasta indígena cujas câmeras monitoram os perímetros. Há dois anos, as terras limítrofes a uma fazenda de cultivo de grãos começaram a ser desmatadas ilegalmente. As fotos e vídeos de Kamikia viraram provas para que as autoridades fossem acionadas. O risco voltou, e a reação dele também.

A Terra Indígena no Xingu não está ligada ao sistema nacional de energia elétrica. Boa parte do abastecimento depende de geradores a diesel, que operam apenas algumas horas à noite. Uma ação com um drone, como essa, só é possível graças a um componente adicional, a oferta de energia solar. Atualmente, todas as 120 aldeias do território indígena têm algum sistema de geração fotovoltaica, com placas e baterias, o que garante abastecimento durante o dia e boa parte da noite, especialmente nos meses secos do inverno no Centro-Oeste.

Pelo menos 108 comunidades têm sistemas em áreas coletivas. Nas demais, é possível encontrar placas particulares, implantadas pelas próprias famílias.

Os esquipamentos costumam ser mais robustos nos chamados polos, os espaços comunitários onde ficam a escola e o posto de saúde. O estúdio de Kamikia está em um desses polos, o de Wawi, na terra do povo kisêdjê. Ele conta que foi um dos primeiros indígenas a usar um drone porque teve infraestrutura. "Uso energia solar para tudo. Para carregar celular, baterias, os computadores que fazem a edição de imagem. Tenho até um carregador solar portátil", diz.

Em todo o mundo, a energia solar hoje é vista com alternativa limpa e barata na transição energética, para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. No Brasil, essa fonte se tornou rentável e teve crescimento de 40% no primeiro semestre deste ano. Na Terra Indígena do Xingu, porém, além de aliada na preservação do ambiente, ela é vista como uma forma de manter sua cultura ancestral.

"De uns dez anos para cá, começamos a participar dos debates sobre mudanças climáticas e descobrimos que a nossa forma de viver contribui muito para o equilíbrio do ambiente e do clima. Para nós, o uso da energia é entendido nesse contexto", afirma Ianukula Kaiabi Suiá, 44, presidente da Atix (Associação Terra Indígena do Xingu).

Ianukula explica que a energia das hidrelétricas é limpa, mas traz uma contradição para os indígenas: as obras levam ao desmatamento de grandes áreas. Ainda está presente na memória dos moradores da região a batalha perdida contra a usina de Belo Monte, no rio Xingu. https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/belo-monte/

Aderir ao sistema nacional de energia também significaria permitir a instalação de linhas de transmissão nas terras indígenas, abrindo flanco para invasores. "A gente quer energia nas aldeias, mas não qualquer energia", afirma. Em anos recentes, as comunidades passaram a viver mudanças movidas pelo desejo de usar a energia do sol. O catalisador, ele conta, foi a pandemia da Covid. Com as aldeias fechadas, a troca de informações, a compra de suprimentos e até as assembleias de lideranças indígenas foram transferidas para plataformas digitais, o que exigiu a expansão da internet.

Kamihukalu Kamayura, 31, usa o celular sentada ao lado das baterias que são abastecidas por placas solares, em sua casa na aldeia Ngosoko, na Terra Indígena Wawi, no Xingu - Lalo de Almeida/Folhapress

"Até 2020, poucos lugares tinham internet, mas, durante o isolamento da Covid, as comunidades se organizaram para ampliar, e muita gente colocou até internet particular. Hoje, você encontra em praticamente todos os lugares", diz Ianukula. "Como internet precisa de energia permanente, cresceu junto o interesse pelos sistemas solares, já que não há como manter um gerador a diesel ligado o dia todo."

A reboque, o celular se popularizou nas aldeias, em especial entre os jovens. É cena corriqueira encontrá-los reunidos no entorno dos locais onde há sinal de internet, mergulhados nas telinhas. Segundo Mbepkonoro Kisêdjê, 15, eles conversam com amigos e parentes em outras aldeias ou com brancos com quem fizeram amizade em redes sociais. No Instagram, Mbepkonoro costuma publicar fotos trajando indumentárias da tradição kisêdjê.

O investimento pessoal para garantir energia solar, no entanto, não é baixo. Na aldeia Ngosoko, o professor Amto Suyá, 34, e sua esposa, Kamihukalu Kamayura, 31, desembolsaram R$ 9.000 para terem um sistema doméstico. Ele permite o uso regular de internet, TV, freezer, ralador de mandioca e uma máquina de lavar roupa do tipo tanquinho.

Com a rede, Kamihukalu, a quem todos chamam de Rita, usa o Instagram para vender os colares e pulseiras que produz.

Energia limpa mobiliza comunidades e ONGs

Também há iniciativas coletivas para implantar miniusinas solares, fenômeno mais comum em aldeias menores. Foi assim em Samaúma, uma aldeia kaiabi. A comunidade trabalha com tecelagem de bolsas e coleta de sementes para reflorestamento. Cerca de R$ 32 mil da receita dessas atividades foram compartilhados e revertidos na instalação de um sistema fotovoltaico para todos os 60 moradores.

Com a internet, os produtos locais passaram a ser vendidos também por Pix. A organização também garantiu energia à pequena Piyulewene, uma aldeia do povo waurá, onde as mulheres são maioria. O uso do gerador a gasolina havia virado um sacrifício. Os consertos e gastos com combustível drenavam as economias.

Para ter o sistema solar com a potência que desejavam foi preciso guardar R$ 23 mil ao longo de seis anos. Uma boa parte do dinheiro veio da venda de panelinhas artesanais de barro pintadas a mão. "Para ter tudo que queremos, ainda precisamos economizar para comprar mais quatro placas", diz Yakuwipu Waurá, 35. Uma das ambições é ter um torno elétrico para a produção do artesanato.

As ONGs foram fundamentais para levar energia limpa ao Xingu. As primeiras experiências foram feitas nos anos de 1990 pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), mas a instalação escalou mais recentemente com o ISA (Instituto Socioambiental). "Em 2009, já estava claro que era preciso ter uma fonte de energia mais estável, limpa e testamos diferentes opções, como biomassa, óleos vegetais de palmeiras, pequenas turbinas de lâmina d'água", lembra Marcelo Martins, que coordenou o trabalho de eletrificação do Xingu pelo ISA. "A com melhor desempenho foi a solar, e optamos pelas instalações a passos lentos, conforme os recursos ficassem disponíveis."

As irmãs Agamakumalu Waura (vestido roxo), 39, Meixula Waura (vestido vermelho), 26, e Kumesi Periru (vestido amarelo), 24, recolhem o polvilho de mandioca que secava ao sol na aldeia Piyulewene, no Xingu; aldeia economizou por seis anos para instalar um sistema solar que abastecesse todas as casas - Lalo de Almeida/Folhapress

O processo ganhou velocidade em 2015, quando a fundação americana Charles Stewart Mott doou US$ 1 milhão (cerca de R$ 5 milhões). Batizado de Xingu Solar, o projeto bancou sistemas completos, com placas, conversores e baterias. A implantação incluiu o treinamento de indígenas para atuarem na manutenção dos equipamentos.

Um dos formados no programa foi Towayanin Kaiabi, 43, o Velhinho, que cuida hoje dos sistemas de 49 comunidades do Baixo Xingu. Ele monitora os inversores, lava placas, troca fuzil e fiação. Como não havia dinheiro para atender todas as residências, a base do projeto foi dar energia para postos de saúde, escolas e centros comunitários com o suporte eventual dos geradores com combustível fóssil.

No início do projeto, havia 70 aldeias e todas seriam atendidas. Como o número foi crescendo e hoje chega a 120, a iniciativa conseguiu alcançar 108. "Posto de saúde sempre é prioridade, porque é preciso garantir refrigeração para medicamentos, nebulizador para as crianças e um atendimento a qualquer hora", diz Martins.

O maior sistema foi instalado em Diauarum, um dos polos mais tradicionais, que atende 39 aldeias. Suas imensas mangueiras, contam moradores, foram plantadas pelos irmãos Villas-Bôas, indigenistas que trabalharam pela demarcação do parque do Xingu, em 1961.

No pico da pandemia, Diauarum virou um centro médico regional e o seu sistema solar operou 24 horas por meses. As baterias colapsaram. A troca demanda ao menos R$ 50 mil, recurso inexistente no momento. "A gente sabia que isso teria um custo lá na frente, mas muitas vidas foram salvas", diz Kurapy Kaiabi, 40, representante local da Atix. Desde o início do ano, o gerador a diesel também parou. São necessários R$ 32 mil para o conserto. Agora, os medicamentos do posto são preservados com gelo.

À noite, apenas sistemas domésticos particulares operam hoje no polo. A família de Kurapy tem um deles. A sua esposa, Tekaty Kaiabi, 39, por exemplo, gosta de usar o horário noturno para tecer redes. "É mais sossegado à noite", diz ela. Para o casal Tximari Kayabi, 33, e Eliane Lemos Santos, 34, que também instalou o seu sistema, a oferta prolongada de energia beneficiou o pequeno comércio que eles mantêm em casa. "A gente traz até frango congelado, mas esse tem boa saída, nem dura muito tempo no freezer", conta Eliane.

A série de reportagens Energia na Amazônia foi produzida com apoio da Rede Energia e Comunidades.