Meu problema são os homens. Digo que não cairei, mas então ouço violões suaves sob as estrelas. Tento a sorte outra vez.
Ofélia disse essa pérola para Oscar numa praça de Roda D’Água, bairro de Cariacica.
Mas a danada estava representando.
E o texto não era dela. Deve ter visto várias vezes o filme Madrugada da traição (The naked dawn) de Edgar G. Ulmer, 1955. É de lá que tirou que seu problema eram os homens até ouvir violões suaves. No filme o texto é de uma música cantada por Charlita, atriz e cantora.
E não sabemos o quanto de verdade existe nos violões suaves. Mas pergunte para Ofélia o que é verdade. Vai responder assim: não sei!
Orson Welles já disse que somos todos atores neste mundo. Conversar é representar. O homem como animal social é um ator. Tudo o que fazemos envolve uma espécie de representação. Já li declarações de diretores, atores e atrizes de cinema em que se surpreendem com a atuação de atores e atrizes não profissionais. Confirmam Orson.
Ofélia é professora profissional do ensino médio. Uma atividade que representamos. Sala de aula seria um palco? Para Ofélia, sim.
Da confissão de Ofélia à nossa estória.
Ela estava, no momento, recém-saída do terceiro casamento de quatro anos.
Às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem.
Oscar pensou com ele mesmo: representando de novo Ofélia? Além de cinéfilo ele conhecia tudo de Clarice Lispector e o abismo da desordem está na crônica Legião estrangeira. Ele é professor de literatura.
Pelo visto os dois são contaminados pelo cinema e Clarice.
Essa contaminação foi o suficiente para rolar um clima de sedução entre Ofélia e Oscar. Sai violões suaves entre as estrelas e no lugar entra cinema e Clarice.
Depois de um tempo resolveram juntar os cacos. Vejam o que Oscar disse a Ofélia uma semana antes de decidirem pelos cacos comuns.
Se você quisesse a lua eu tentaria pegá-la, mas prefiro que aceite o meu coração.
Oscar não é de muito representar, mas esta declaração de amor é do filme Ao mestre com carinho (To Sir with love) de James Clavell, 1967. Da música com o mesmo título do filme interpretada por Lulu, cantora e atriz.
Ofélia e Oscar moram numa casa que fica no sopé de um morro em Roda D’Agua.
Ofélia continua representando, mas há algum tempo não ouve violões suaves.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
A casa-grande surta quando a senzala vira médica
Negra, pobre e da rede pública passa em primeiro lugar em Medicina da USP
por Redação RBA publicado 06/02/2017 12h00
Revista Fórum - Saímos de uma semana triste e especialmente desoladora para a, medicina quando alguns médicos sujaram profissão tão nobre tripudiando da doença de Dona Marisa chegando até a sugerir a sua morte. Mas hoje voltamos a festejar o futuro: "A casa-grande surta quando a senzala vira médica". Esta é a frase que abre a conta do Facebook de Bruna Sena, primeira colocada em medicina na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, a vaga mais concorrida da Fuvest 2017, o vestibular mais concorrido do país.
Negra, pobre, tímida, estudante de escola pública, Bruna será a primeira da família a interromper o ciclo de ausência de formação superior em suas gerações. Fez em grande estilo, passando em uma das melhores faculdades médicas do país.
O apelo da mãe, entre a felicidade e o espanto, é ainda mais dramático: "Por favor, coloque no jornal que tenho medo dos racistas. Ela vai ser o 1% negro e pobre no meio dos brancos e ricos da faculdade". Abandonada pelo marido, Dinália Sena sustenta a menina Bruna desde que ela tinha 9 anos, com um salário de R$ 1.400 como operadora de caixa de supermercado.
Bruna acredita que será bem recebida pelos colegas e tem na ponta da língua a defesa de sua raça, de cotas sociais e da necessidade de mais oportunidades para os negros no Brasil. "Claro que a ascensão social do negro incomoda, assim como incomoda quando o filho da empregada melhora de vida, passa na Fuvest. Não posso dizer que já sofri racismo até porque não tinha maturidade e conhecimento para reconhecer atitudes racistas", diz a caloura.
"Alguns se esquecem do passado, que foram anos de escravidão e sofrimento para os negros. Os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidades de vida iguais."
Para enfrentar a concorrência de 75,58 candidatos do vaga, Bruna fez o básico: se preparou muito, ao longo de toda sua vida escolar. "Ela só tirava notas 9 ou 10. Uma vez, tirou um 7 e fui até a escola para saber o que tinha acontecido. Não dava para acreditar. Falei com o diretor e ele descobriu que tinham trocado a nota dela com um menino chamado Bruno", orgulha-se a mãe.
George Orwell, autor do clássico "A Revolução dos Bichos", fábula que conta a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos, está entre os favoritos da garota, que também gosta de romance e comédia e é fã da série americana "Grey’s Anatomy", um drama médico.
No último ano do ensino médio, que cursou pela manhã na escola estadual Santos Dumont, conseguiu uma bolsa de estudos em um cursinho popular tocado por estudantes da própria USP, para onde ia à noite. "Minha escola era boa, mas, infelizmente, tinha todas as dificuldades da educação pública, que não prepara o aluno para o vestibular. Falta conteúdo, preparo de alguns professores. Sem o cursinho, não iria conseguir." Segundo Bruna, que mora em um conjunto habitacional na periferia de Ribeirão Preto, vários de seus colegas de escolas nem "nem sabem que a USP é pública e que existe vestibular para passar".
Com ajuda financeira de amigos e parentes, Bruna fazia kumon de matemática, mas o dinheiro não deu para seguir com o curso de inglês. "Tudo na nossa vida foi com muita luta, desde que ela nasceu, prematura de sete meses, e teve de ficar internada por 28 dias. Não tenho nenhum luxo, não faço minhas unhas, não arrumo meu cabelo. Tudo é para a educação dela", declara a mãe.
Ainda segundo Dinália, "alguns conhecidos ajudaram. Uma amiga minha sempre dava livros para ela. Uma vez, essa amiga colocou R$ 10 dentro de um livro para comprarmos comida e escreveu: ‘Bruna, vence a vida, não deixe que ela te vença, estude'".
A opção pela medicina aconteceu há cerca de um ano, por influência de professores do cursinho popular que frequentou o CPM, ligado à própria Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão. "Claro que não sei ainda qual especialidade pretendo seguir, mas sei que quero atender pessoas de baixa renda, que precisam de ajuda, que precisam de alguém para dar a mão e de saúde de qualidade", declara.
Engajada na defesa de causas sociais como o feminismo, o movimento negro e a liberdade de gênero, a adolescente orgulha-se do cabelo crespo e de sua origem, mas é restrita nas palavras sobre o pai, que não paga pensão e não a vê há anos. "Minha mãe ralou muito para que eu tivesse esse resultado e preciso honrar isso. Sou grata também a minha escola, ao cursinho. Do meu pai, nunca entendi o desprezo, me incomoda um pouco, mas agora é hora de comemorar e ser feliz."
http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2017/02/negra-pobre-e-da-rede-publica-passa-em-primeiro-lugar-em-medicina-da-usp
em 08/02/2017
Existem dez mil choupanas para um palácio. Existe probabilidade a que a inteligência, as virtudes, se instalem mais nas choupanas do que nos castelos. (Denis Diderot, 1713 - 1784)
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Inventando mulheres
Vem não. Não estou questionando meu casamento. Apenas quero que você entenda a minha condição de mulher independente e livre.
Era Julia quase
com o dedo em riste em minha direção. Julia é minha amiga de há muito.
Retruquei.
Tá bom então
você está seguindo Adriana Falcão : inventa uma mulher e se incorpora a ela. É
isto?
É mais ou menos isto. E daí? Qual o problema?
Ah! Então é
isto. Vamos dizer que a mulher inventada chama-se Clarice. Liberdade e
independência Clarice tem. Júlia não.
Julia é casada há 20 anos com filhos e muito feliz com o
marido. Vive este casamento nos limites das fronteiras dos jardins da razão
(Chico Science). Impossível questionar meu casamento. Júlia é Júlia. Clarice é
Clarice. São dois mundos diferentes.
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Em tempo
De acordo com o site Hypescience, um grupo de
cientistas nos EUA, descobriu que o cérebro dos apaixonados é diferente do das
pessoas que estão em um longo relacionamento. Existem sinais científicos bem
claros que demonstram que você está em uma fase apaixonada. Cito alguns: 1. Você sente que a outra pessoa é única: Pessoas apaixonadas tendem a acreditar que a outra é "a escolhida" e até mesmo a "alma gêmea". Este sentimento se dá pelos níveis elevados de dopamina, substância ligada à atenção e foco.
2. Desastre emocional: O amor leva à instabilidade emocional e fisiológica, comportamento semelhante dos viciados em drogas. Segundo a pesquisa, a culpa é do fato de a mesma região do cérebro ser ativada nos dois casos.. Ou seja, o amor é uma droga
3. Sexo não é tudo: 64% das pessoas apaixonadas (homens e mulheres) discordaram da afirmação: “O sexo é a parte mais importante do meu relacionamento”, diz um estudo.
----------------------------------------
Citei estas conclusões sobre pessoas apaixonadas para Julia (ou Clarice?).
Coisas de universidade ianque de meia tigela que não tem o que fazer.
Amor é uma droga? A merda com esta conclusão. Amor é prazer.
Desastre emocional? Conclusão de quem nunca se apaixonou.
Retruquei.
Clarice, o prazer da droga. E paixão desequilibra, não?
Já sei aonde você quer chegar senhor psicólogo. Esquizofrenia. Apaixonados vivem noutro mundo. Vivem num mundo paralelo. Esquizofrênicos. Drogados... Só faltava isto.
Esta conversa foi num bar e terminou quando chegou um homem bonito de meia idade. Segundo Julia um amigo. Cumprimentaram-se com um beijo. Penso que este beijo foi em Clarice.
Pelo que vi e ouvi Clarice estava numa fase de viciada em amor e sexo. Para ela não existe sexo sem amor. Sexo é uma manifestação muito íntima é só se realiza bem com amor e paixão.
Quatro anos nos separaram sem contato algum. Revi Julia mais alegre, mais bonita e com ares de mudanças em sua vida.
Não deu cara! Mudei. Não suportei os limites dos jardins da razão. Atropelei estes limites. Viver outras mulheres não combina com a razão. É delírio e razão.
E aí o que aconteceu?
Estou mais no chão. Sinto mais a pele. Menos culpa. Mais liberdade. Mais emoção.
Inventou mais mulheres?
Hoje sou três. Apaixonadas por três homens que me servem como uma luva.
Poli amor?
Sei lá que nome tem.
Vivo o amor e sexo.
Deliciosamente iluminada.
Como uma estrela.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Um conto de Natal Brasileiro
O assassinato do ambulante Luiz no metrô: um conto de Natal Brasileiro
Leonardo Sakamoto
27/12/2016 09:33
O vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas foi espancado até a morte por dois homens após, segundo a polícia, tentar defender duas travestis em situação de rua que estavam apanhando deles no centro de São Paulo. Chegou a correr para a dentro da estação de metrô Pedro II, mas foi perseguido, derrubado e levou socos e pontapés por um minuto e meio.
Tudo nessa história converge para chocar: o espancamento de um homem de 54 anos por dois jovens de 26 e 21; a morte ter ocorrido dentro de uma estação de metrô; a falta de preocupação dos rapazes de fazerem isso em um local em que certamente seriam identificados; não ter aparecido nenhum segurança para impedir; câmeras terem gravado as imagens que, mostradas pela imprensa, viralizaram pela rede; uma pessoa já discriminada socialmente (um vendedor ambulante) ter morrido porque tentou defender outras pessoas que também são (travestis); ser noite de 25 de dezembro, Natal.
É a mistura da banalização da violência, da sensação de onipotência e de invencibilidade, do ódio profundo a algo.
A banalização da violência causada por uma sociedade que transforma a violência em produto e a vende diariamente, na forma de programas sensacionalistas na TV, de jogos para computador ou videogame. Uma sociedade incapaz de refletir sobre a importância do diálogo e não da força na resolução de conflitos.
Há quem se sinta onipotente por fazer parte de um grupo tido como hegemônico (homens, héteros…) Pensa que, com isso, os outros lhes devem algum tributo. O sentimento sempre esteve presente em nossa história e a violência e as mortes impunes decorrentes dele também. Mas acredito que essa sensação foi potencializada após certas visões ultraconservadoras terem saído do armário diante do contexto favorável nos últimos anos. Perdeu-se o pudor de não ter pudor.
Isso sem contar o ódio profundo. Prega-se em púlpitos, em plenários, na TV, em reuniões com amigos, que o mal precisa ser extirpado. Que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser eliminados. Quantas vezes não lemos nas redes sociais comentários como ''ele é um câncer que precisa ser extirpado'' ou ''tal pessoa merece a morte''? Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo do desconhecido e do diferente e, portanto, à ignorância sobre o outro.
Nesse ponto, vale ir mais a fundo.
Ao assistir às imagens chocantes do assassinato de Luiz, lembrei-me de um depoimento que me foi dado por Maria Aparecida Costa, que militou contra a última ditadura civil militar. Ela ficou presa por três anos e meio, dos quais dois meses sendo torturada no DOI-Codi, na rua Tutóia, em São Paulo, local onde hoje fica o 36o Distrito Policial. Paus-de-arara, eletrochoques, ''cadeiras do dragão'' e tantos outros métodos criativos aplicados na resistência por militares e policiais tinham lugar por lá.
''O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio.''
A dúvida de Maria Aparecida tem mais de 40 anos, mas bem caberia na polarização tacanha de hoje, em que muitos não reconhecem os outros como seus semelhantes simplesmente porque esses pensam diferentes ou são fisicamente diferentes. Enxergamos inimigos em cada esquina.
A tortura, naquela época, firmava-se como arma de uma disputa. Era necessário ''quebrar'' a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também uma visão de mundo, uma ideia.
Há um incômodo paralelo entre as mortes ocorridas no DOI-Codi e a morte de Luiz Carlos. O que Luiz sofreu antes de morrer foi uma sessão de tortura pelo que ele era, pelo que representava e pelo que defendeu.
É inominável a sensação de que isso não acontece apenas nos porões, nos becos, no escuro, mas na frente de câmeras de segurança e de centenas de pessoas. Esqueça a questão ética, que nem está presente. A morte foi praticamente uma encenação da estética da violência reprimida e que, agora no Brasil do caos, ganha a liberdade. E, portanto, uma declaração pública, inconsciente ou não.
Ainda hoje, Cida tenta entender o que ocorreu. ''Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa. Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar.'' Talvez o ódio surgia, como ela lembra, da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.
Luiz não deveria ter dito ''Não faz isso com o rapaz'', quando eles agrediam uma das travestis. Mas agiu com justiça e disse e, ousando sair de sua invisibilidade e pagando um preço caro por isso.
Dizem que carrascos não podem pensar muito no que fazem sob o risco de enlouquecerem. Mas também dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano.
A certeza do ''tudo pode'' provoca vítimas nas periferias das grandes cidades, entre a população LGBT ou em situação de rua, entre os jovens negros e pobres, grupos cuja vida, para nós, vale muito pouco. Eles sempre sofreram e morreram, mas sem que as imagens corressem pela internet.
O problema é que ódio não surge de geração espontânea. É cultivado.
Como já escrevi aqui, pastores e padres de certas igrejas inflamam seus fieis contra aquilo que consideram um desrespeito às leis de seu deus. Quando um grupo espanca um gay ou uma travesti, esses pastores e padres dizem que não têm nada a ver com isso.
Figuras públicas da TV inflamam a população contra a degradação da civilização e das famílias de bem. Quando um grupo resolve amarrar alguém em um poste e linchar até a morte, essas figuras públicas dizem que não têm nada a ver com isso.
Certas famílias inflamam seus filhos contra o público LGBT, contra jovens negros e pobres da periferia e contra pessoas em situação de rua, dizendo que são uma ameaça à vida nas grandes cidades e não valem nada. Quando um grupo resolve despejar preconceito ou dar pauladas e por fogo nessas pessoas, as famílias dizem que não têm nada a ver com isso.
Políticos, de governo e oposição, inflamam seus eleitores, desumanizando o adversário e transformando o jogo democrático em uma luta do bem contra o mal. Quando um grupo passa a agredir fisicamente o outro, os políticos dizem que não têm nada a ver com isso.
Hordas de guerrilheiros digitais sob perfis falsos inflamam seus leitores, repassando conteúdo violento e falso. Quando um grupo passa a assediar, de forma injusta, pessoas ou instituições com base nesse conteúdo, há quem diga que as pessoas por trás desses perfis e páginas nas redes sociais não têm nada a ver com isso.
Talvez, no fundo, todos estejam certos.
Culpado mesmo era o Luiz.
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/12/27/o-assassinato-do-ambulante-luiz-no-metro-um-conto-de-natal-brasileiro/ 28/12/2016
Leonardo Sakamoto
27/12/2016 09:33
O vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas foi espancado até a morte por dois homens após, segundo a polícia, tentar defender duas travestis em situação de rua que estavam apanhando deles no centro de São Paulo. Chegou a correr para a dentro da estação de metrô Pedro II, mas foi perseguido, derrubado e levou socos e pontapés por um minuto e meio.
Tudo nessa história converge para chocar: o espancamento de um homem de 54 anos por dois jovens de 26 e 21; a morte ter ocorrido dentro de uma estação de metrô; a falta de preocupação dos rapazes de fazerem isso em um local em que certamente seriam identificados; não ter aparecido nenhum segurança para impedir; câmeras terem gravado as imagens que, mostradas pela imprensa, viralizaram pela rede; uma pessoa já discriminada socialmente (um vendedor ambulante) ter morrido porque tentou defender outras pessoas que também são (travestis); ser noite de 25 de dezembro, Natal.
É a mistura da banalização da violência, da sensação de onipotência e de invencibilidade, do ódio profundo a algo.
A banalização da violência causada por uma sociedade que transforma a violência em produto e a vende diariamente, na forma de programas sensacionalistas na TV, de jogos para computador ou videogame. Uma sociedade incapaz de refletir sobre a importância do diálogo e não da força na resolução de conflitos.
Há quem se sinta onipotente por fazer parte de um grupo tido como hegemônico (homens, héteros…) Pensa que, com isso, os outros lhes devem algum tributo. O sentimento sempre esteve presente em nossa história e a violência e as mortes impunes decorrentes dele também. Mas acredito que essa sensação foi potencializada após certas visões ultraconservadoras terem saído do armário diante do contexto favorável nos últimos anos. Perdeu-se o pudor de não ter pudor.
Isso sem contar o ódio profundo. Prega-se em púlpitos, em plenários, na TV, em reuniões com amigos, que o mal precisa ser extirpado. Que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser eliminados. Quantas vezes não lemos nas redes sociais comentários como ''ele é um câncer que precisa ser extirpado'' ou ''tal pessoa merece a morte''? Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo do desconhecido e do diferente e, portanto, à ignorância sobre o outro.
Nesse ponto, vale ir mais a fundo.
Ao assistir às imagens chocantes do assassinato de Luiz, lembrei-me de um depoimento que me foi dado por Maria Aparecida Costa, que militou contra a última ditadura civil militar. Ela ficou presa por três anos e meio, dos quais dois meses sendo torturada no DOI-Codi, na rua Tutóia, em São Paulo, local onde hoje fica o 36o Distrito Policial. Paus-de-arara, eletrochoques, ''cadeiras do dragão'' e tantos outros métodos criativos aplicados na resistência por militares e policiais tinham lugar por lá.
''O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio.''
A dúvida de Maria Aparecida tem mais de 40 anos, mas bem caberia na polarização tacanha de hoje, em que muitos não reconhecem os outros como seus semelhantes simplesmente porque esses pensam diferentes ou são fisicamente diferentes. Enxergamos inimigos em cada esquina.
A tortura, naquela época, firmava-se como arma de uma disputa. Era necessário ''quebrar'' a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também uma visão de mundo, uma ideia.
Há um incômodo paralelo entre as mortes ocorridas no DOI-Codi e a morte de Luiz Carlos. O que Luiz sofreu antes de morrer foi uma sessão de tortura pelo que ele era, pelo que representava e pelo que defendeu.
É inominável a sensação de que isso não acontece apenas nos porões, nos becos, no escuro, mas na frente de câmeras de segurança e de centenas de pessoas. Esqueça a questão ética, que nem está presente. A morte foi praticamente uma encenação da estética da violência reprimida e que, agora no Brasil do caos, ganha a liberdade. E, portanto, uma declaração pública, inconsciente ou não.
Ainda hoje, Cida tenta entender o que ocorreu. ''Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa. Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar.'' Talvez o ódio surgia, como ela lembra, da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.
Luiz não deveria ter dito ''Não faz isso com o rapaz'', quando eles agrediam uma das travestis. Mas agiu com justiça e disse e, ousando sair de sua invisibilidade e pagando um preço caro por isso.
Dizem que carrascos não podem pensar muito no que fazem sob o risco de enlouquecerem. Mas também dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano.
A certeza do ''tudo pode'' provoca vítimas nas periferias das grandes cidades, entre a população LGBT ou em situação de rua, entre os jovens negros e pobres, grupos cuja vida, para nós, vale muito pouco. Eles sempre sofreram e morreram, mas sem que as imagens corressem pela internet.
O problema é que ódio não surge de geração espontânea. É cultivado.
Como já escrevi aqui, pastores e padres de certas igrejas inflamam seus fieis contra aquilo que consideram um desrespeito às leis de seu deus. Quando um grupo espanca um gay ou uma travesti, esses pastores e padres dizem que não têm nada a ver com isso.
Figuras públicas da TV inflamam a população contra a degradação da civilização e das famílias de bem. Quando um grupo resolve amarrar alguém em um poste e linchar até a morte, essas figuras públicas dizem que não têm nada a ver com isso.
Certas famílias inflamam seus filhos contra o público LGBT, contra jovens negros e pobres da periferia e contra pessoas em situação de rua, dizendo que são uma ameaça à vida nas grandes cidades e não valem nada. Quando um grupo resolve despejar preconceito ou dar pauladas e por fogo nessas pessoas, as famílias dizem que não têm nada a ver com isso.
Políticos, de governo e oposição, inflamam seus eleitores, desumanizando o adversário e transformando o jogo democrático em uma luta do bem contra o mal. Quando um grupo passa a agredir fisicamente o outro, os políticos dizem que não têm nada a ver com isso.
Hordas de guerrilheiros digitais sob perfis falsos inflamam seus leitores, repassando conteúdo violento e falso. Quando um grupo passa a assediar, de forma injusta, pessoas ou instituições com base nesse conteúdo, há quem diga que as pessoas por trás desses perfis e páginas nas redes sociais não têm nada a ver com isso.
Talvez, no fundo, todos estejam certos.
Culpado mesmo era o Luiz.
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/12/27/o-assassinato-do-ambulante-luiz-no-metro-um-conto-de-natal-brasileiro/ 28/12/2016
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
Balanço das Eleições 2016 por Sakamoto
Leonardo
Sakamoto
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/ em 31/10/2016
30/10/2016 22:44
Como dizia um sábio
professor, o pós-eleição é o momento em que nós jornalistas de política e
sociedade matamos nossa inveja dos colegas que cobrem esporte e organizamos
nossos bate-bolas, fazendo contextualizações, análises e previsões. Nós sabemos
e vocês também sabem que o Brasil não respeita previsões e, portanto, boa parte
disso será letra morta em breve.
Tendo
isso em vista, faço algumas considerações sobre os resultados deste segundo
turno sob a ótica da esquerda:
1)
O PT foi (mesmo) o grande derrotado das eleições municipais, como era de se
esperar após a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma, o noticiário
amplamente desfavorável e, principalmente, a crise econômica e o aumento do
desemprego. Não há resquício de esperança para se agarrar. Se o partido não
cair na real, parar de culpar os outros e fazer a autocrítica, não voltará a
disputar a narrativa.
2)
Certamente, houve uma onda conservadora, como já tratei no post sobre os
resultados do primeiro turno. Mas não afirmaria que o país deu uma guinada para
a direita, uma vez que nunca conseguiu-se implementar por aqui um projeto social,
econômico e político de esquerda. Apenas aproximações bem questionáveis. O
orignalmente trabalhista PT aliou-se a coisas mais estranhas que ele em nome da
governabilidade. Reforma agrária, reforma tributária democrática, reforma
política, reforma urbana, garantia de direitos humanos? Ninguém sabe, ninguém
viu.
3)
Interessante como mesmo políticos de esquerda que sempre tiveram um
posicionamento crítico ao modelo de desenvolvimento do PT foram colocados no
mesmo saco e punidos pelo eleitor. Sim, boa parte da esquerda foi levada junto
para o buraco, mesmo que tenha reclamado do governo Dilma o tempo inteiro. Um
exemplo disso é Crivella, que foi ministro dela e membro de sua base de
sustentação durante um bom tempo. Ele não foi tão identificado com ela quanto
Freixo foi – apesar do PSOL ter se posicionado contra o governo do PT.
4)
Com Marcelo ''Universal'' Crivella, o neopentecostalismo televisivo dá um salto
para a implementação de seu projeto de poder. Desconfio que o Brasil terá um
presidente assumidamente evangélico neopentecostal antes de ter um presidente
assumidamente ateu. Para isso, certamente acabará se distanciando de
extremistas, como Silas Malafaia – que surtou, no Twitter, na noite deste
domingo, xingando a Globo, a Veja, o PT, o PSOL, Freixo, a esquerda, e bradando
''Chora Capeta'' – assim, sem vírgula separando o vocativo.
5)
Marcelo Freixo teve 1.163.662 votos no Rio de Janeiro, maior do que sua última
votação para prefeito em 2012. Considerando que sua campanha foi feita com
poucos recursos financeiros e sem máquina partidária, isso é um feito
considerável. Por isso, não acho que ele sai derrotado. Pelo contrário, Freixo
se cacifa como uma das lideranças políticas da esquerda nesse momento em que o
campo progressista terá que se reinventar.
6)
Com os resultados do segundo turno das eleições, pode-se dizer que a esquerda
foi abandonada pela periferia das duas maiores cidades do país. De certa forma,
o cenário lembrou as votações majoritárias do PT durante a década de 90. Vale
lembrar que o partido levou anos, em um lento trabalho de base, com uma
militância engajada, para que a periferia ''comprasse'' a sua narrativa. Claro
que a periferia que votou em Lula em 2002 também estava cansada da crise do
segundo governo FHC e queria mudança. Mas depois ficou ao lado do partido por
conta do crescimento econômico, do aumento do salário mínimo, da diminuição da
fome, do Bolsa Família e da melhoria na qualidade de vida. Quando o cenário
muda, alterado pela crise econômica, da qual o PT tem culpa, o povão procura
outra saída.
7)
E vendo a estratificação dos bairros em que Freixo e Haddad foram os mais
votados, a esquerda vai ter que suar – e muito – para reencontrar-se com o
discurso de mudança, saber disputar o simbólico e reconquistar a periferia.
Haddad foi melhor votado, em porcentagem, em Pinheiros – bairro onde se reúne
boa parte da esquerda classe média alta paulistana, cercada de um lado pela
PUC-SP e pelo outro pelo campus da USP. Há alguns anos, o centro de São Paulo
era do PSDB e todo o gigante entorno populacional era PT. Enquanto isso, Freixo
levou os bairros mais próximos do Centro e Crivella ficou com a maior parte da
periferia.
Em
Belém, Edmilson (PSOL), que teve 47,67% contra os 52,33% de Zenaldo
Coutinho, ao contrário, tem entrada forte na periferia. Já foi prefeito, tem
recall, estabelece um diálogo. Resta saber se a Justiça Eleitoral irá cassar a
candidatura do vencedor por uso da máquina, como se discutia durante a
campanha.
8)
É cedo para decretar a morte do PT. Os eleitores mandaram um recado através do
voto. Parte da esquerda foi desalojada das Prefeituras e realocada nos
parlamentos municipais para cumprir o papel de oposição. Parte, desalojada
também das Câmaras de Vereadores, deverá ir para as ruas, de onde saiu na
década de 80. De um ponto de vista muito otimista, o retorno às ruas pode levar
o PT e os movimentos sociais a ele relacionados fazerem sua autocrítica. Isso
será um processo bem doloroso e longo, em que os diferentes grupos e movimentos
da esquerda irão bater bastante cabeça entre si, como foi na década de 70
durante a ditadura. Aliás, isso acontece nesta noite, com gente do PT e do PSOL
quebrando o pau nas redes sociais. Particularmente, não acredito que parte da
esquerda conseguirá fazer essa autocrítica. Mas isso já é outra historia
9)
Em Fortaleza, o candidato de Ciro e Cid Gomes, Roberto Cláudio (PDT), foi
reeleito. Não sei se isso fortalece as pretensões presidenciais de Ciro, mas,
ao menos, não as derruba antecipadamente. Clécio Luís (Rede) também foi
reeleito prefeito de Macapá (AP) – isso não ajuda muito as pretensões de Marina
Silva, que segue não imprimindo uma marca ao partido. O governador Flávio Dino
(PC do B), cujo partido havia eleito muitos prefeitos no primeiro turno no
Maranhão, viu o candidato em quem declarou voto (Edivaldo Holanda Jr) vencer a
capital São Luís. Apesar, é claro, do outro candidato, Eduardo Braide, também
ter disputado o apoio de Dino. Seu correligionário Edvaldo Nogueira venceu em
Aracaju (SE). Isso pode mexer com a correlação de forças entre PT e PC do B.
Será que chegou a hora dos comunistas saírem da órbita do partido do ABC e
exigir o protagonismo dessa dupla?
10)
O PSDB cresceu significativamente. Mas um rosário de partidos menores
conquistou importantes cidades e capitais. Não é possível saber o que o
fortalecimento de siglas menores fará com o já fragmentado Congresso Nacional.
Mas ainda acho que não há um grande vencedor nestas eleições. Como já escrevi
aqui, a classe política é responsável pela situação a que chegamos, com toda a
corrupção, incompetência e ignorância que minou a credibilidade de
instituições. Compra da Reeleição, Mensalões, Trensalões, Lavas-Jato e a
maioria dos escândalos, que permanece longe dos olhos do grande público. A
democracia representativa tradicional e seus vícios se mostraram insuficientes
para as demandas da população.
Ao
mesmo tempo, políticos, mídia, empresários e parte da sociedade conseguiram a
proeza de dar espaço aos que defendem que ''fazer política é escroto''. Ou
seja, ao invés de tentarmos melhorar a política, reinventar a democracia, a
saída é negar tudo o que ela representa e buscar saídas rápidas, vazias e, não
raro, autoritárias. Daí, surgiram candidatos que estufaram o peito e mentiram,
com orgulho, que não são políticos e não fazem política. Isso abre portas para
que pessoas que se colocam como ''salvadores da pátria'' ganhem espaço a fim de
nos ''tirar das trevas'' sem o empecilho da ''política''.
E
é neste momento, como nunca, que precisaremos da política
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/ em 31/10/2016
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Chicago e a violência. E nóis?
Deu no UOL (http://www.uol.com.br/) em 25/09/2016
O correspondente da BBC Ian Pannell já conheceu muitos locais assolados pela violência. Ele cobriu guerras no Iraque, Afeganistão e Síria. Mas, baseado atualmente em Washington, Estados Unidos, ele não teve que ir muito longe para fazer uma nova reportagem sobre conflitos: Pannell retratou o que está por trás das impressionantes taxas de violência de Chicago, que atingiram o seu patamar mais alto dos últimos 20 anos.
O jornal Chicago Tribune reportou que, no início de setembro, a cidade registrou seu 500º homicídio de 2016, mantendo uma tendência de alta nesse tipo de crime iniciada em 2014, atribuída à guerra entre gangues rivais, à proliferação de armas e à exclusão socioeconômica de parte da população. Apesar de haver diferenças brutais entre zonas de guerra da Síria e as ruas de bairros como Englewood ou Austin, Pannell diz reconhecer algumas similaridades. Desde 2001, 7.916 pessoas foram assassinadas em Chicago. A perda de vidas americanas foi maior do que nas guerras do Iraque (4.504) e Afeganistão (2.385) juntas. Uma conta rápida: para Chicago em 2016 a taxa de homicídios por 100 mil habitantes será 500/2.695.598/100 mil = 18,5 até início de setembro. Estima-se, na pior das hipóteses, 24,5 para este índice em 2016.
E nóis?
Diferente da terra de Alphonse Gabriel "Al" Capone (1889-1947), entre os seis municípios com maiores índices da região sudeste, três são capixabas (dados de 2014). São eles: Serra-ES (72,4), Cabo Frio-RJ (67,5), Nova Iguaçu-RJ (58,3), Cariacica-ES (57,5), Betim-MG (49,2) e Vila Velha-ES (49,2).
O Espírito Santo foi o estado com a maior taxa de homicídios da região Sudeste e também registrou a quinta maior taxa do Brasil em 2014. Foram 1528 homicídios durante todo o ano um índice de 39,3 vítimas a cada 100 mil habitantes. Dados: Mapa da violência – 2016. http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2016/Mapa2016_armas_web.pdf
E mais...
"Não vamos abaixar a guarda" diz André Garcia. Manchete de "A Tribuna" de 01/10/2016. Este senhor é o Secretário de Segurança de Estado do Espírito Santo. E o motivo para não abaixar a guarda: segundo a SESP - Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social – "de janeiro até 29/09/2016 foram assassinadas 77 mulheres" ou 8,5 mulheres assassinada por mês. Em 2015 foram 105 ou 8,7 assassinatos por mês. O Espírito Santo está em 4º lugar em assassinatos de mulheres.
Epílogo
Ianques, brasileiros e brasileiras têm motivos de sobra para não se orgulharem no quesito violência. Mas o Brasil é mais violento. É escabrosa, entre nós, a violência contra a mulher.
Não estamos em paz, estamos em guerra.
O correspondente da BBC Ian Pannell já conheceu muitos locais assolados pela violência. Ele cobriu guerras no Iraque, Afeganistão e Síria. Mas, baseado atualmente em Washington, Estados Unidos, ele não teve que ir muito longe para fazer uma nova reportagem sobre conflitos: Pannell retratou o que está por trás das impressionantes taxas de violência de Chicago, que atingiram o seu patamar mais alto dos últimos 20 anos.
O jornal Chicago Tribune reportou que, no início de setembro, a cidade registrou seu 500º homicídio de 2016, mantendo uma tendência de alta nesse tipo de crime iniciada em 2014, atribuída à guerra entre gangues rivais, à proliferação de armas e à exclusão socioeconômica de parte da população. Apesar de haver diferenças brutais entre zonas de guerra da Síria e as ruas de bairros como Englewood ou Austin, Pannell diz reconhecer algumas similaridades. Desde 2001, 7.916 pessoas foram assassinadas em Chicago. A perda de vidas americanas foi maior do que nas guerras do Iraque (4.504) e Afeganistão (2.385) juntas. Uma conta rápida: para Chicago em 2016 a taxa de homicídios por 100 mil habitantes será 500/2.695.598/100 mil = 18,5 até início de setembro. Estima-se, na pior das hipóteses, 24,5 para este índice em 2016.
E nóis?
Diferente da terra de Alphonse Gabriel "Al" Capone (1889-1947), entre os seis municípios com maiores índices da região sudeste, três são capixabas (dados de 2014). São eles: Serra-ES (72,4), Cabo Frio-RJ (67,5), Nova Iguaçu-RJ (58,3), Cariacica-ES (57,5), Betim-MG (49,2) e Vila Velha-ES (49,2).
O Espírito Santo foi o estado com a maior taxa de homicídios da região Sudeste e também registrou a quinta maior taxa do Brasil em 2014. Foram 1528 homicídios durante todo o ano um índice de 39,3 vítimas a cada 100 mil habitantes. Dados: Mapa da violência – 2016. http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2016/Mapa2016_armas_web.pdf
E mais...
"Não vamos abaixar a guarda" diz André Garcia. Manchete de "A Tribuna" de 01/10/2016. Este senhor é o Secretário de Segurança de Estado do Espírito Santo. E o motivo para não abaixar a guarda: segundo a SESP - Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social – "de janeiro até 29/09/2016 foram assassinadas 77 mulheres" ou 8,5 mulheres assassinada por mês. Em 2015 foram 105 ou 8,7 assassinatos por mês. O Espírito Santo está em 4º lugar em assassinatos de mulheres.
Epílogo
Ianques, brasileiros e brasileiras têm motivos de sobra para não se orgulharem no quesito violência. Mas o Brasil é mais violento. É escabrosa, entre nós, a violência contra a mulher.
Não estamos em paz, estamos em guerra.
domingo, 11 de setembro de 2016
O golpe parlamentar e empresarial
A DESESTABILIZAÇÃO, O GOLPE E A "SOCIEDADE CIVIL GELATINOSA" DO GOLPISMO
Francisco Fonseca
(prof. de ciência política da FGV/Eaesp e PUC/SP)
09/09/2016 22:56
http://cartamaior.com.br/
O golpe parlamentar efetivado em 31 de agosto foi o resultado de diversos fatores conjugados voltados à desestabilização política, institucional, social, informativa, ideológica e moral do Governo Dilma. Abaixo alguns dos principais personagens, fatores e fenômenos desse longo processo de golpeamento da democracia e de incriminação fascista de um governo e de um partido político. A forma abaixo apresentada não é necessariamente hierárquica ou cronológica, uma vez que vários dos processos elencados ocorreram de forma simultânea:
-Setores majoritários da Câmara dos Deputados, a partir da ascensão do deputado Eduardo Cunha como seu presidente, que ostensivamente, por meio das chamadas "pautas bombas" e do bloqueio de todas as iniciativas do Executivo, atuou no sentido de impedir toda e qualquer iniciativa política, econômica e administrativa do Governo Dilma;
-Tendo como mote o não reconhecimento da derrota eleitoral em 2014, o golpismo dos partidos políticos derrotados – PSDB, DEM e PPS –, paulatinamente secundados pelo PSB e, mais adiante, pelos pequenos e médios partidos de centro-direita reunidos em torno do chamado "Centrão".
-A conspiração de segmentos empresariais internacionais e nacionais vinculados ao rentismo e a cadeias internacionais de produção, cujo objetivo era a fragilização do G-20 – e consequentemente do banco e do fundo recentemente criados – e a desestruturação do Mercosul, cujo vetor é a desconstrução da política exterior Sul/Sul.
-A quase totalidade dos empresários nacionais desejosos, desde sempre – isto é, mesmo a burguesia nacional privilegiada pelos governos petistas –, da derrogação dos direitos trabalhistas, prioritariamente, e também dos direitos sociais, com vistas a estabelecer "ambiente de negócios" atrativo ao Capital: nacional e estrangeiro, uma vez que cada vez mais interligados.
-As classes médias superiores, composta por profissionais liberais, pequenos burgueses, rentistas médios e todos aqueles que não vivem apenas ou necessariamente de salários, uma vez que desgostosas das políticas de ascensão social promovidas pelos governos petistas. Como se sabe, trata-se de resistência à percepção, mesmo que irreal, da perda de prestígio e privilégios, caso do acesso à universidade e a bens de consumo e serviços aos pobres.
-Setores ascendentes das classes médias baixas – aquilo que se chamou de "a nova classe média" –, cuja ascensão se deu justamente pelas políticas públicas inclusivas de Lula e Dilma, que foram, contudo, seduzidas pelo discurso ideológico da "meritocracia individual", pendendo ao conservadorismo. Também segmentos de "inocentes úteis", que serão fortemente penalizados pela política econômica e antissocial de Temer, caíram na armadilha ardilosa e fascista do discurso do "combate à corrupção" e passaram a apoiar, mesmo que passivamente, a desestabilização.
-A grande mídia comercial (emissoras de tvs e rádios, jornais e revistas e grandes portais da internet) que, aproveitando-se da mais completa desregulação e desregulamentação do Estado brasileiro, desde sempre, e turbinada – curiosa e paradoxalmente – por polpudos recursos publicitários dos governos petistas, lançarem-se na lancinante campanha golpista. Sua atuação desestabilizadora e golpista encontra-se em posição oposta à sua credibilidade, embora ainda com grande repercussão entre a maioria dos brasileiros. Deve-se ressaltar o papel decisivo e primordial do Sistema Globo nesse processo, voltado à desestabilização e ao golpismo, desde sempre e particularmente neste momento.
-A ação inconstitucional – portanto fartamente ilegal –, seletiva, persecutória e articulada à grande mídia comercial da Operação LavaJato, cujo objetivo passou a ser fundamentalmente destruir política e eleitoralmente o Governo Dilma, o PT e Lula. A Operação LavaJato atenta ostensiva e vigorosamente contra o Estado de Direito Democrático. O discurso moralista do suposto combate à corrupção, catalisado pelo juiz Sérgio Moro – cuja atuação é militantemente política e extra-legal, reitere-se –, representou a porta de entrada para todo tipo de oportunismo político: jurídico, político/eleitoral, informacional, parlamentar, social e ideológico.
-A leniência do STF e da PGR aos atentados ao Estado de Direito Democrático desfechados pela Operação LavaJato, tornando-se consorciados a esta Operação num complexo continuum.
-A ação da Polícia Federal, componente da Operação LavaJato, com os mesmos propósitos referidos desta, e sem que o Ministério da Justiça – ao qual está submetida – no Governo Dilma, comandado por José Eduardo M. Cardoso, nada fizesse para contê-la no sentido de circunscrever sua atuação nos marcos constitucionais e republicanos.
-Os think-tanks, e seus financiadores, internacionais (irmãos Koch, por exemplo) e nacionais (Instituto Millenium, entre tantos outros), voltados à propaganda ideológica que instrumentalizou – e financiou – grupos como MBL, Vem pra Rua e Revoltados On Line, entre outros. Grupos empresariais igualmente participaram dessa campanha ideológica (com financiamento) antipetista, anti-governo, anti-Lula e anti-direitos sociais, trabalhistas, políticos e civis.
-Na reta final do processo – no sentido kafkaniano – do impeachment, o Senado passou a atuar de forma golpista, produzindo verdadeira peça de ficção (verdadeiro "faz-me-rir" supostamente jurídico) quanto ao suposto "crime de responsabilidade" da presidente Dilma.
-As próprias debilidades do Governo Dilma, por meio da incapacidade de controlar republicanamente a PF, como se disse, assim como de escolher um Procurador Geral da República defensor do Estado de Direito Democrático, cuja lista tríplice se deu no ano passado, em meio à crise, e cuja escolha recaiu na recondução de Rodrigo Janot, que claramente voltara-se à desestabilização. Também a escolha do ministro do STF, Luiz Fachin, mostrou-se nula do ponto de vista de anteparos à desestabilização. Trata-se de três fatores essenciais à debilidade do Governo Dilma, que contribuíram decisivamente para sua queda. Não bastasse isso, a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda com vistas ao "ajuste fiscalista" conservador e neoliberal afastou vigorosamente o Governo Dilma dos movimentos sociais, dos progressistas e da esquerda. Em meio a tudo isso, a própria personalidade política da presidente e de seu Governo contribuíram para a fragilização governamental, tendo em vista um certo isolamento arrogante, o distanciamento dos movimentos sociais, a incapacidade sistêmica de articulação junto ao Congresso Nacional e a outros atores relevantes, e mesmo ao não enfrentamento – naquilo que poderia enfrentar – de polos de poder, caso da mídia, como se disse.
-O não enfrentamento dos grandes polos de poder e de constrangimentos às políticas progressistas, casos notórios da reforma política e do enquadramento democrático da mídia.
-A perda de hegemonia do PT levou às seguintes rupturas: o desfazimento do amplo campo de centro-esquerda, em que o PSB, o PDT e outros partidos menores ocupavam papel importante na arena partidária e parlamentar; a saída da Força Sindical (de centro-direita no espectro ideológico) e de outras centrais sindicais menores da base de apoio social e governamental, tornando-se golpistas e portanto desestabilizadoras; a ascensão da direita ideológica e raivosa em todos os setores sociais – processo advindo desde junho de 2013 – que, "saindo do armário", passou a pautar e encurralar as ideias progressistas e de esquerda, tendo encontrado farta recepção entre os meios de comunicação e entre partidos que nasceram originalmente com bandeiras "modernas": caso do PSDB, que se tornou cada vez mais parecido com as velhas oligarquias, mesmo atuando nos grandes centros urbanos, e cuja atuação é marcada pela corrupção endêmica, aparelhamento partidário sistêmico, autoritarismo policial, políticas elitistas e neoliberais, opacidade quanto aos recursos públicos e tantos outros atributos antidemocráticos, cujos exemplos notáveis são os Governos Alckmin e Richa.
-A crise econômica internacional, provinda do crash de 2008 e não resolvida até os dias de hoje, mas que fora postergada acertadamente pelo Governo Dilma – embora com doses por vezes acima do recomendável – por meio das chamadas "políticas anticíclicas". Tais políticas se esgotaram, uma vez que têm validade limitada no capitalismo. Seu esgotamento levou também ao fim da "aliança de classes" perseguida pelo Governo Lula desde a "Carta ao Povo Brasileiro" e pelo híper realismo governamental dos estrategistas dos governos petistas: o próprio Lula, conciliador desde sempre, José Dirceu, José Genuíno, entre outros. Consequentemente ruiu o – tomado como mantra – "presidencialismo de coalizão" sem que o governo e o PT conseguissem minimamente rever suas estratégias perante a nova realidade.
-Por fim, o modelo contemporâneo de acumulação capitalista – tema de meu próximo artigo –, baseado na flexibilização do capital (combinação do capital produtivo com o especulativo, com predominância deste), do consumo (obsolescência programada, produção por lotes, just in time) – ambos em pleno desenvolvimento no Brasil –, e da força de trabalho: a ser atacada nesse momento. Tudo isso num contexto de profunda interconexão internacional. Trata-se de exigência desse modelo flexível de acumulação a redução substantiva do "custo" do trabalho – tratado ideologicamente de "custo Brasil" – e da criação de "ambiente de negócios propício", que implicaria a vinda profusa do capital estrangeiro, com supostos "benefícios" a países que, na divisão internacional do trabalho, não teriam como "competir" pela produção tecnológica e pela exportação de produtos com valor agregado, caso do Brasil (perspectiva essa já demonstrada nos Governos FHC). Os programas "Uma ponte para o futuro" e "Travessia Social", do PMDB, publicados nos últimos meses, são peças primorosas dessa concepção retrógrada, antissocial e afinada ao rentismo e à concepção de perda daquilo que se chama "soberania nacional" e de "sociedade civilizada". O modelo de acumulação capitalista, encarnado por capitalistas, ideólogos, think tanks, meios de comunicação, financiadores e tantos outros é uma força internacional, com conexões claras no Brasil, necessita ser analisado com acuidade, para além das análises institucionalistas de parte significativa da ciência política e econômica brasileiras que apenas "explicam" o "epifenômeno da superestrutura".
De forma articulada, num verdadeiro consórcio desestabilizador com vistas ao golpe, que foi se formando ao longo dos governos petistas e se avolumando desde 2013, mas particularmente desde a reeleição da presidente Dilma, esses atores formaram uma grande coalizão. Mesmo sem um centro articulador vertical de todas as peças, a Operação LavaJato em articulação com a mídia, empresários e think tanks conseguiu ter capacidade de direção que deu musculatura ao golpe parlamentar formal, encurralando setores progressistas nas ruas e nas instituições. Nestas últimas, a submissão de ministros progressistas e "liberais" do STF – casos de Barroso, Marco Aurélio Mello e mesmo Teóri, sem contar Dias Tóffoli – a "ministros" militantes e retrógrados, como Gilmar Mendes e Celso de Mello, trouxe grande parte de ministros do "centro" para a anuência à conspiração e ao golpe. Mesmo Rodrigo Janot fez forte guinada à desestabilização e passou a atuar em conjunto com Sérgio Moro, como tem demonstrado brilhantemente Luís Nassif em suas análises sobre os vários jogos de "xadrez" da crise política.
Assim o golpe foi desfechado. Seus elementos simbólicos combinam processo kafkaniano com ópera bufa, num ambiente nonsense e bizarro: a figura gangsteriana de Eduardo Cunha; o show de horrores da "bandidagem" parlamentar, como seu viu na votação do impeachment na Câmara de Deputados; o histerismo bizarro de Janaína Paschoal; o "faz-me-rir" supostamente jurídico da "peça" acusatória; o "machistério" ignóbil de Temer; o apoio de figuras públicas típicas da ignorância nacional ao golpe; a imagem modorrenta e "mordômica" (com o perdão do neologismo) de Michel Temer, cuja trajetória política se fez nas sombras e agora sobe à ribalta, tal como Cunha, a desempenhar um papel que jamais esteve à altura; as nomeações e "des"nomeações de ministros e auxiliares, as idas e vindas políticas e administrativas – todas típicas de fim de governo – se apresentam logo nos primeiros dias do "novo" governo, confirmando à exaustão a bizarrice do golpe (à paraguaia) e a desconexão da direita agora no poder com a "sociedade civil".
Deve-se entender "sociedade civil" como o conjunto de organizações que conflitam de forma orgânica e representativa nas arenas política, intelectual, ideológica, jurídica, institucional e outras, e que, dessa forma, representam grupos sociais, opiniões e interesses. Pois bem, a forma e o conteúdo do golpe e do "governo" Temer, dadas suas ilegalidades, ilegitimidades, imoralidades e simbologias negativas, os distanciam vigorosamente de segmentos sociais, grupos, classes e frações de classes sociais as mais distintas: da direita à esquerda, o que implica a perda substantiva do que se chama de centro.
A sustentação ideológica do "governo" Temer se dará, portanto, por duas camadas sociais: as classes médias superiores e parte significativa do Capital, ambas absolutamente minoritárias; e politicamente pela institucionalidade do Congresso Nacional, por meio de maioria na Câmara e no Senado, mas com inúmeras contradições, como se viu na não cassação dos direitos políticos da presidente Dilma.
No mais, terá oposição cerrada dos trabalhadores organizados e mesmo não organizados, dos jovens, dos que têm em mira a aposentadoria, dos pobres que se beneficiam, notadamente a partir do Governo Lula, dos serviços públicos de saúde, assistência social e educação; de grande parte dos segmentos intelectualizados das classes médias, dos servidores públicos, das esquerdas, dos progressistas, dos liberais que se pautam pelo Estado de Direito Democrático (o que inclui parte substantiva do Poder Judiciário); de um sem número de artistas, esportistas, personalidades das mais diversas áreas; entre inúmeros outros. O "Fora Temer" já se tornou bordão popular entoado nos quatro cantos e ganha apoio internacional profundo: grande imprensa estrangeira respeitada; defensores e entidades de Direitos Humanos (lembrando que o Brasil é signatário de inúmeros tratados nesse campo); personalidades internacionais das mais diversas áreas; parlamentos de inúmeros países e instituições internacionais (OEA, Corte Interamericana de Direitos Humanos, Unasul etc); diplomacias de vários países; a figura eloquente e renovadora do Papa Francisco; o G-20 e os Brics; entre outros.
Portanto, o pós-golpe só poderá, em última instância, se sustentar na violência policial e no apoio da grande mídia carcomida, cuja credibilidade e sustentabilidade financeira decaem como a água fétida – que representam – que desce ao ralo.
As reformas neoliberais – que fracassaram no mundo todo e são espécie de fantasma que se tenta ressuscitar – e conservadoras, derrotadas nas últimas quatro eleições presidenciais, beneficiam, se tanto, 10% dos brasileiros. Encontrarão, como estão encontrando desde já, maciça oposição: de rua, parlamentar, judicial, simbólica, ideológica e social. Tudo isso tende a influenciar e pressionar as instituições, hoje circundantes ao redor da hegemonia conservadora que, contudo, sustenta-se – o golpismo – numa "sociedade civil gelatinosa", elitista, nada representativa. Mesmo com o empenho da mídia e a violência policial intimidatória, a história nos ensina que "não passarão", como entoado por muitos.
Não se trata de perspectiva otimista, muito ao contrário. E sim da tentativa de compreender as causas e consequências da desestabilização política artificialmente forjada por atores que conspiraram contra o PT, o Governo Dilma, e a sociedade civilizada de direitos; o processo fraudulento de cassação dos votos de mais de cinquenta e quatro milhões de brasileiros; e a fragilidade das bases sociais de sustentação do golpismo de uma sociedade que viu os direitos crescerem desde 1988.
A aventura conspiratória e golpista de todos que nela se envolveram potencialmente custará caro, em várias dimensões, a cada um deles. A história, que já está em andamento, provará, como provou em tempos de outrora. Embora uma aposta analítica, uma vez que o aparato ideológico da mídia e policial do Estado estarão operando em consórcio, o passado assim o demonstrou, como foi o ocaso da ditadura de 1964. Curiosamente há atores semelhantes ontem e hoje.
A complexidade e diferenciação da sociedade brasileira, cujo grau de organização política e social é substantivo está demonstrando que as chances do golpismo prosperar são mínimas, reitere-se. A não ser que adentremos a uma nova ditadura militar, o que não parece plausível, nesse momento.
Talvez um "novo" país ressurja saído das cinzas, como Fênix, dessa tragédia!
Francisco Fonseca
(prof. de ciência política da FGV/Eaesp e PUC/SP)
09/09/2016 22:56
http://cartamaior.com.br/
O golpe parlamentar efetivado em 31 de agosto foi o resultado de diversos fatores conjugados voltados à desestabilização política, institucional, social, informativa, ideológica e moral do Governo Dilma. Abaixo alguns dos principais personagens, fatores e fenômenos desse longo processo de golpeamento da democracia e de incriminação fascista de um governo e de um partido político. A forma abaixo apresentada não é necessariamente hierárquica ou cronológica, uma vez que vários dos processos elencados ocorreram de forma simultânea:
-Setores majoritários da Câmara dos Deputados, a partir da ascensão do deputado Eduardo Cunha como seu presidente, que ostensivamente, por meio das chamadas "pautas bombas" e do bloqueio de todas as iniciativas do Executivo, atuou no sentido de impedir toda e qualquer iniciativa política, econômica e administrativa do Governo Dilma;
-Tendo como mote o não reconhecimento da derrota eleitoral em 2014, o golpismo dos partidos políticos derrotados – PSDB, DEM e PPS –, paulatinamente secundados pelo PSB e, mais adiante, pelos pequenos e médios partidos de centro-direita reunidos em torno do chamado "Centrão".
-A conspiração de segmentos empresariais internacionais e nacionais vinculados ao rentismo e a cadeias internacionais de produção, cujo objetivo era a fragilização do G-20 – e consequentemente do banco e do fundo recentemente criados – e a desestruturação do Mercosul, cujo vetor é a desconstrução da política exterior Sul/Sul.
-A quase totalidade dos empresários nacionais desejosos, desde sempre – isto é, mesmo a burguesia nacional privilegiada pelos governos petistas –, da derrogação dos direitos trabalhistas, prioritariamente, e também dos direitos sociais, com vistas a estabelecer "ambiente de negócios" atrativo ao Capital: nacional e estrangeiro, uma vez que cada vez mais interligados.
-As classes médias superiores, composta por profissionais liberais, pequenos burgueses, rentistas médios e todos aqueles que não vivem apenas ou necessariamente de salários, uma vez que desgostosas das políticas de ascensão social promovidas pelos governos petistas. Como se sabe, trata-se de resistência à percepção, mesmo que irreal, da perda de prestígio e privilégios, caso do acesso à universidade e a bens de consumo e serviços aos pobres.
-Setores ascendentes das classes médias baixas – aquilo que se chamou de "a nova classe média" –, cuja ascensão se deu justamente pelas políticas públicas inclusivas de Lula e Dilma, que foram, contudo, seduzidas pelo discurso ideológico da "meritocracia individual", pendendo ao conservadorismo. Também segmentos de "inocentes úteis", que serão fortemente penalizados pela política econômica e antissocial de Temer, caíram na armadilha ardilosa e fascista do discurso do "combate à corrupção" e passaram a apoiar, mesmo que passivamente, a desestabilização.
-A grande mídia comercial (emissoras de tvs e rádios, jornais e revistas e grandes portais da internet) que, aproveitando-se da mais completa desregulação e desregulamentação do Estado brasileiro, desde sempre, e turbinada – curiosa e paradoxalmente – por polpudos recursos publicitários dos governos petistas, lançarem-se na lancinante campanha golpista. Sua atuação desestabilizadora e golpista encontra-se em posição oposta à sua credibilidade, embora ainda com grande repercussão entre a maioria dos brasileiros. Deve-se ressaltar o papel decisivo e primordial do Sistema Globo nesse processo, voltado à desestabilização e ao golpismo, desde sempre e particularmente neste momento.
-A ação inconstitucional – portanto fartamente ilegal –, seletiva, persecutória e articulada à grande mídia comercial da Operação LavaJato, cujo objetivo passou a ser fundamentalmente destruir política e eleitoralmente o Governo Dilma, o PT e Lula. A Operação LavaJato atenta ostensiva e vigorosamente contra o Estado de Direito Democrático. O discurso moralista do suposto combate à corrupção, catalisado pelo juiz Sérgio Moro – cuja atuação é militantemente política e extra-legal, reitere-se –, representou a porta de entrada para todo tipo de oportunismo político: jurídico, político/eleitoral, informacional, parlamentar, social e ideológico.
-A leniência do STF e da PGR aos atentados ao Estado de Direito Democrático desfechados pela Operação LavaJato, tornando-se consorciados a esta Operação num complexo continuum.
-A ação da Polícia Federal, componente da Operação LavaJato, com os mesmos propósitos referidos desta, e sem que o Ministério da Justiça – ao qual está submetida – no Governo Dilma, comandado por José Eduardo M. Cardoso, nada fizesse para contê-la no sentido de circunscrever sua atuação nos marcos constitucionais e republicanos.
-Os think-tanks, e seus financiadores, internacionais (irmãos Koch, por exemplo) e nacionais (Instituto Millenium, entre tantos outros), voltados à propaganda ideológica que instrumentalizou – e financiou – grupos como MBL, Vem pra Rua e Revoltados On Line, entre outros. Grupos empresariais igualmente participaram dessa campanha ideológica (com financiamento) antipetista, anti-governo, anti-Lula e anti-direitos sociais, trabalhistas, políticos e civis.
-Na reta final do processo – no sentido kafkaniano – do impeachment, o Senado passou a atuar de forma golpista, produzindo verdadeira peça de ficção (verdadeiro "faz-me-rir" supostamente jurídico) quanto ao suposto "crime de responsabilidade" da presidente Dilma.
-As próprias debilidades do Governo Dilma, por meio da incapacidade de controlar republicanamente a PF, como se disse, assim como de escolher um Procurador Geral da República defensor do Estado de Direito Democrático, cuja lista tríplice se deu no ano passado, em meio à crise, e cuja escolha recaiu na recondução de Rodrigo Janot, que claramente voltara-se à desestabilização. Também a escolha do ministro do STF, Luiz Fachin, mostrou-se nula do ponto de vista de anteparos à desestabilização. Trata-se de três fatores essenciais à debilidade do Governo Dilma, que contribuíram decisivamente para sua queda. Não bastasse isso, a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda com vistas ao "ajuste fiscalista" conservador e neoliberal afastou vigorosamente o Governo Dilma dos movimentos sociais, dos progressistas e da esquerda. Em meio a tudo isso, a própria personalidade política da presidente e de seu Governo contribuíram para a fragilização governamental, tendo em vista um certo isolamento arrogante, o distanciamento dos movimentos sociais, a incapacidade sistêmica de articulação junto ao Congresso Nacional e a outros atores relevantes, e mesmo ao não enfrentamento – naquilo que poderia enfrentar – de polos de poder, caso da mídia, como se disse.
-O não enfrentamento dos grandes polos de poder e de constrangimentos às políticas progressistas, casos notórios da reforma política e do enquadramento democrático da mídia.
-A perda de hegemonia do PT levou às seguintes rupturas: o desfazimento do amplo campo de centro-esquerda, em que o PSB, o PDT e outros partidos menores ocupavam papel importante na arena partidária e parlamentar; a saída da Força Sindical (de centro-direita no espectro ideológico) e de outras centrais sindicais menores da base de apoio social e governamental, tornando-se golpistas e portanto desestabilizadoras; a ascensão da direita ideológica e raivosa em todos os setores sociais – processo advindo desde junho de 2013 – que, "saindo do armário", passou a pautar e encurralar as ideias progressistas e de esquerda, tendo encontrado farta recepção entre os meios de comunicação e entre partidos que nasceram originalmente com bandeiras "modernas": caso do PSDB, que se tornou cada vez mais parecido com as velhas oligarquias, mesmo atuando nos grandes centros urbanos, e cuja atuação é marcada pela corrupção endêmica, aparelhamento partidário sistêmico, autoritarismo policial, políticas elitistas e neoliberais, opacidade quanto aos recursos públicos e tantos outros atributos antidemocráticos, cujos exemplos notáveis são os Governos Alckmin e Richa.
-A crise econômica internacional, provinda do crash de 2008 e não resolvida até os dias de hoje, mas que fora postergada acertadamente pelo Governo Dilma – embora com doses por vezes acima do recomendável – por meio das chamadas "políticas anticíclicas". Tais políticas se esgotaram, uma vez que têm validade limitada no capitalismo. Seu esgotamento levou também ao fim da "aliança de classes" perseguida pelo Governo Lula desde a "Carta ao Povo Brasileiro" e pelo híper realismo governamental dos estrategistas dos governos petistas: o próprio Lula, conciliador desde sempre, José Dirceu, José Genuíno, entre outros. Consequentemente ruiu o – tomado como mantra – "presidencialismo de coalizão" sem que o governo e o PT conseguissem minimamente rever suas estratégias perante a nova realidade.
-Por fim, o modelo contemporâneo de acumulação capitalista – tema de meu próximo artigo –, baseado na flexibilização do capital (combinação do capital produtivo com o especulativo, com predominância deste), do consumo (obsolescência programada, produção por lotes, just in time) – ambos em pleno desenvolvimento no Brasil –, e da força de trabalho: a ser atacada nesse momento. Tudo isso num contexto de profunda interconexão internacional. Trata-se de exigência desse modelo flexível de acumulação a redução substantiva do "custo" do trabalho – tratado ideologicamente de "custo Brasil" – e da criação de "ambiente de negócios propício", que implicaria a vinda profusa do capital estrangeiro, com supostos "benefícios" a países que, na divisão internacional do trabalho, não teriam como "competir" pela produção tecnológica e pela exportação de produtos com valor agregado, caso do Brasil (perspectiva essa já demonstrada nos Governos FHC). Os programas "Uma ponte para o futuro" e "Travessia Social", do PMDB, publicados nos últimos meses, são peças primorosas dessa concepção retrógrada, antissocial e afinada ao rentismo e à concepção de perda daquilo que se chama "soberania nacional" e de "sociedade civilizada". O modelo de acumulação capitalista, encarnado por capitalistas, ideólogos, think tanks, meios de comunicação, financiadores e tantos outros é uma força internacional, com conexões claras no Brasil, necessita ser analisado com acuidade, para além das análises institucionalistas de parte significativa da ciência política e econômica brasileiras que apenas "explicam" o "epifenômeno da superestrutura".
De forma articulada, num verdadeiro consórcio desestabilizador com vistas ao golpe, que foi se formando ao longo dos governos petistas e se avolumando desde 2013, mas particularmente desde a reeleição da presidente Dilma, esses atores formaram uma grande coalizão. Mesmo sem um centro articulador vertical de todas as peças, a Operação LavaJato em articulação com a mídia, empresários e think tanks conseguiu ter capacidade de direção que deu musculatura ao golpe parlamentar formal, encurralando setores progressistas nas ruas e nas instituições. Nestas últimas, a submissão de ministros progressistas e "liberais" do STF – casos de Barroso, Marco Aurélio Mello e mesmo Teóri, sem contar Dias Tóffoli – a "ministros" militantes e retrógrados, como Gilmar Mendes e Celso de Mello, trouxe grande parte de ministros do "centro" para a anuência à conspiração e ao golpe. Mesmo Rodrigo Janot fez forte guinada à desestabilização e passou a atuar em conjunto com Sérgio Moro, como tem demonstrado brilhantemente Luís Nassif em suas análises sobre os vários jogos de "xadrez" da crise política.
Assim o golpe foi desfechado. Seus elementos simbólicos combinam processo kafkaniano com ópera bufa, num ambiente nonsense e bizarro: a figura gangsteriana de Eduardo Cunha; o show de horrores da "bandidagem" parlamentar, como seu viu na votação do impeachment na Câmara de Deputados; o histerismo bizarro de Janaína Paschoal; o "faz-me-rir" supostamente jurídico da "peça" acusatória; o "machistério" ignóbil de Temer; o apoio de figuras públicas típicas da ignorância nacional ao golpe; a imagem modorrenta e "mordômica" (com o perdão do neologismo) de Michel Temer, cuja trajetória política se fez nas sombras e agora sobe à ribalta, tal como Cunha, a desempenhar um papel que jamais esteve à altura; as nomeações e "des"nomeações de ministros e auxiliares, as idas e vindas políticas e administrativas – todas típicas de fim de governo – se apresentam logo nos primeiros dias do "novo" governo, confirmando à exaustão a bizarrice do golpe (à paraguaia) e a desconexão da direita agora no poder com a "sociedade civil".
Deve-se entender "sociedade civil" como o conjunto de organizações que conflitam de forma orgânica e representativa nas arenas política, intelectual, ideológica, jurídica, institucional e outras, e que, dessa forma, representam grupos sociais, opiniões e interesses. Pois bem, a forma e o conteúdo do golpe e do "governo" Temer, dadas suas ilegalidades, ilegitimidades, imoralidades e simbologias negativas, os distanciam vigorosamente de segmentos sociais, grupos, classes e frações de classes sociais as mais distintas: da direita à esquerda, o que implica a perda substantiva do que se chama de centro.
A sustentação ideológica do "governo" Temer se dará, portanto, por duas camadas sociais: as classes médias superiores e parte significativa do Capital, ambas absolutamente minoritárias; e politicamente pela institucionalidade do Congresso Nacional, por meio de maioria na Câmara e no Senado, mas com inúmeras contradições, como se viu na não cassação dos direitos políticos da presidente Dilma.
No mais, terá oposição cerrada dos trabalhadores organizados e mesmo não organizados, dos jovens, dos que têm em mira a aposentadoria, dos pobres que se beneficiam, notadamente a partir do Governo Lula, dos serviços públicos de saúde, assistência social e educação; de grande parte dos segmentos intelectualizados das classes médias, dos servidores públicos, das esquerdas, dos progressistas, dos liberais que se pautam pelo Estado de Direito Democrático (o que inclui parte substantiva do Poder Judiciário); de um sem número de artistas, esportistas, personalidades das mais diversas áreas; entre inúmeros outros. O "Fora Temer" já se tornou bordão popular entoado nos quatro cantos e ganha apoio internacional profundo: grande imprensa estrangeira respeitada; defensores e entidades de Direitos Humanos (lembrando que o Brasil é signatário de inúmeros tratados nesse campo); personalidades internacionais das mais diversas áreas; parlamentos de inúmeros países e instituições internacionais (OEA, Corte Interamericana de Direitos Humanos, Unasul etc); diplomacias de vários países; a figura eloquente e renovadora do Papa Francisco; o G-20 e os Brics; entre outros.
Portanto, o pós-golpe só poderá, em última instância, se sustentar na violência policial e no apoio da grande mídia carcomida, cuja credibilidade e sustentabilidade financeira decaem como a água fétida – que representam – que desce ao ralo.
As reformas neoliberais – que fracassaram no mundo todo e são espécie de fantasma que se tenta ressuscitar – e conservadoras, derrotadas nas últimas quatro eleições presidenciais, beneficiam, se tanto, 10% dos brasileiros. Encontrarão, como estão encontrando desde já, maciça oposição: de rua, parlamentar, judicial, simbólica, ideológica e social. Tudo isso tende a influenciar e pressionar as instituições, hoje circundantes ao redor da hegemonia conservadora que, contudo, sustenta-se – o golpismo – numa "sociedade civil gelatinosa", elitista, nada representativa. Mesmo com o empenho da mídia e a violência policial intimidatória, a história nos ensina que "não passarão", como entoado por muitos.
Não se trata de perspectiva otimista, muito ao contrário. E sim da tentativa de compreender as causas e consequências da desestabilização política artificialmente forjada por atores que conspiraram contra o PT, o Governo Dilma, e a sociedade civilizada de direitos; o processo fraudulento de cassação dos votos de mais de cinquenta e quatro milhões de brasileiros; e a fragilidade das bases sociais de sustentação do golpismo de uma sociedade que viu os direitos crescerem desde 1988.
A aventura conspiratória e golpista de todos que nela se envolveram potencialmente custará caro, em várias dimensões, a cada um deles. A história, que já está em andamento, provará, como provou em tempos de outrora. Embora uma aposta analítica, uma vez que o aparato ideológico da mídia e policial do Estado estarão operando em consórcio, o passado assim o demonstrou, como foi o ocaso da ditadura de 1964. Curiosamente há atores semelhantes ontem e hoje.
A complexidade e diferenciação da sociedade brasileira, cujo grau de organização política e social é substantivo está demonstrando que as chances do golpismo prosperar são mínimas, reitere-se. A não ser que adentremos a uma nova ditadura militar, o que não parece plausível, nesse momento.
Talvez um "novo" país ressurja saído das cinzas, como Fênix, dessa tragédia!
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