quarta-feira, 22 de julho de 2015

Boca do lixo

Corte temporal

Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Este foi o time da seleção brasileira de futebol vice-campeã em 1950. Na final realizada no Maracanã, em 16 de julho de 1950, perdemos para o Uruguai por 2x1. O Uruguai de Máspoli; Matías Gonzalez e Tejera; Gambetta, Obdulio Varela e Rodríguez Andrade; Ghiggia, Julio Perez, Miguez, Schiaffino e Morán. Ghiggia (falecido, aos 88 anos, em 17 de julho de 2015) marcou o gol de desempate aos 34 minutos de segundo tempo e sacramentou a derrota. Uma tragédia presenciada por 173.850 presentes ao Maracanã. Uma decepção nacional apenas superada pelo vergonhoso 7x1 para a Alemanha em 2014.

Boca do lixo

A Boca do Lixo foi um polo cinematográfico importante no centro da cidade de São Paulo. O cinema independente nacional teve seu auge nas décadas de 1960, 70 e 80. Nesta época a região das ruas Triunfo, Aurora e Vitória respirava cinema. No início, as chanchadas; no auge, pornochanchadas, faroestes e cinema marginal e na decadência, pornô-eróticos. Além da chanchada e pornochanchada são da época na Boca, dentre outros os filmes: O bandido da luz vermelha – 1968 de Rogério Sganzerla, A margem – 1967 de Ozualdo Candeias e Lilian M: relatório confidencial - 1975 de Carlos Reichenbach. Os filmes famosos do Zé do Caixão (José Mojica Marins) foram produzidos por lá.

Para o crítico e diretor de cinema Alfredo Sternheim  “a  Boca foi muito estigmatizada e eu, pessoalmente, levei muita pedrada ao longo dos anos. Para mim, no entanto, o saldo é positivo. A Boca mostrou que é possível fazer cinema no Brasil com diversidade de temas e autofinanciamento, sem leis de renúncia fiscal. Sabíamos economizar tudo e fazer os recursos renderem o máximo. Vale lembrar que saiu da Boca O pagador de promessas (1962) de Anselmo Duarte, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Também são de lá outros filmes brasileiros importantes, como Independência ou morte (1972) de Carlos Coimbra e A moreninha (1970) de Glauco Mirko Laurelli”. [1]

Magnífica 70

A série da HBO exibida atualmente tem como pano de fundo a Boca do Lixo. A personagem central é um censor de filmes na época da ditadura militar. Vicente (Marcos Winter), o censor, de tanto ver filmes se torna um cinéfilo e se mete a dar palpite nos filmes em que lhe é designado. No primeiro episodio ele ameaça a proibição total do filme “A devassa da estudante” que tem como personagem central a atriz Dora (Simone Spoladore). Atraído pela atriz, Vicente propõe ao produtor Manolo (Adriano Garib) uma alternativa ao veto total do filme: rodar um novo final para o filme. Nela a personagem tem que se arrepender de seus pecados.  Fica mais ou menos assim:
Quando viva, pequei. Me deitei com homens e mulheres. Usei meu corpo para sobreviver. Tive orgulho disso. Errei, admito e aprendi. Todos erram um dia por descuido, inocência ou maldade. Assumo os meus erros e passarei a eternidade vivendo com eles. E ao fazer isto observo algo que me faz lembrar de ti.
Vicente dirigiu a cena final modificada e o filme foi liberado pela censura.

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver
A parte final do 1º episódio de Magnífica 70 foi claramente baseada no que ocorreu com a liberação pela censura do filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver – 1967 de José Mojica Marins - https://www.youtube.com/watch?v=xKE3lfwMb1Y.
O chefe da censura em Brasília proibiu o filme. O produtor implorou pela liberação. O censor impôs uma condição: o Zé do Caixão deveria no final falar como se estivesse arrependido pelas maldades feitas durante a estória. O censor escreveu o que deveria ser dito:

Deus, Deus... Sim, Deus é a verdade...
Eu creio em tua força... Salvai-me!
A cruz, a cruz, padre...
A cruz, o símbolo do filho!

E assim ficou e até hoje o filme tem este final [2]. Desconheço uma versão do diretor.
E quem era este censor que adulterou o filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver? Augusto da Costa (1920-2004), o Augusto, zagueiro e capitão da seleção brasileira no final da Copa de 1950.

Coisas do Brasil, brasileiro.

Referências


2.    Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, André Barcinski, Ivan Finotti, Editora 34, 1998
 

 

sábado, 11 de abril de 2015

Casmurro


Autran Dourado um dia disse: "Todo ano releio três livros de Machado de Assis: Dom Casmurro, Quincas Borba, e Memórias póstumas de Brás Cubas, para limpar a língua que fica suja das leituras estrangeiras".

Com a inspiração em Autran e Machado passo a contar a estória de Belmiro. 

Um "doutor" renegado


Belmiro é carioca, aposentado e divorciado. Hoje vive só. Do casamento tem um filho. Foi casado com Carmem e é pai de Enrique. A estória deste casamento é o motivo desta conversa.
Sua formação universitária foi o direito. Depois da graduação e com pouco tempo no exercício da advocacia percebeu a opção errada pelo direito. Mudou após uma feroz discussão com a mãe. Coitada, lutou tanto para que o filho fosse um "doutor". Um ingrato! É isto que você é, seu merda! Disse dona Graça, a mãe, quando da decisão de Belmiro. Não teve jeito, fez concurso na Eletrobrás e ficou por lá durante 35 anos. Mas a dona Graça merece um espaço a parte.

Dona Graça


A mãe, dona Graça, tem um quê da Manuela do filme Tudo sobre minha mãe do Almodóvar. Um quê, pois Manuela tem mais ternura. Graça, apesar de dar a vida pelo filho, era mais autoritária. No filme o filho Esteban pergunta à mãe: seria capaz de se prostituir por mim? A resposta de Manuela: já fui capaz de fazer qualquer coisa por você. Para a mesma cena qual seria a resposta da Graça para Belmiro? Ô moleque deixa de ser besta! Era assim a mãe do Belmiro. Tinha momentos de ternura, mas tinha o chicote em períodos interinos.

Carmem


Eu, você e ninguém mais. É o que espero meu bem. Estes foram os dizeres escritos num cartão enviado por Carmem. Eram jovens apaixonados. Promessas de amor eterno; juramentos de juntos até a morte e um vislumbre cego do paraíso. Carmem era a combinação da inocência com sexo, da ingenuidade com alegria. Sem dúvida foi a mulher da vida do filho da Dona Graça.
A relação com Carmem, na época do namoro e noivado, teve uma sombra presente: a mãe. No início com o argumento de que atrapalhava os estudos e no fim um transparente ciúme do filho. Esta mulher é uma sirigaita, mais tarde você verá. Era Dona Graça com o chicote.

As algemas


Belmiro casou com Carmem numa tarde de verão. Na época o sentimento que contaminava era o de um algemado pela paixão. Um condenado que se sentia feliz como tal. Tiveram dois anos maravilhosos vivendo boas passagens. Ainda com aquela impressão de que tinha feito a opção certa na hora certa: a opção Carmem. O trabalho e a vida social deixavam o casal ocupados e bem alimentados de prazeres e inutilidades perenes. Até o aparecimento do Enrique, o filho e a personagem emblemática chamada Álvaro.

Álvaro


Colega de trabalho, bom vivant, bonito e boêmio. Assim era o Álvaro. Conversa de boteco: Belmiro por favor, não reclama da vida. Tens um bom emprego, é casado com uma bela mulher, não paga aluguel e mora na cidade maravilhosa. Você quer mais o quê?
Sei não, Álvaro, tenho uma ideia atravessada sobre Carmem. Um grilo. Ela se passa por uma esposa dispersa, sem foco no casamento. Independente demais pro meu gosto.
Ideia sem braço, Belmiro. Hoje as coisas mudaram. A mulher mudou e nós, homens, não. Mulher trabalha, tem salário. Mulher também vota nessa tralha que elegemos para deputado, senador, presidente, governador, prefeito, vereador. Mulher às vezes é mãe e pai.

Álvaro, bom vivant, bonito, boêmio e dissimulado, esperto. Depois de um tempo começou a desconfiança. Belmiro não gostava de como ele olhava para Carmem.

O ciúme


Carmem, no inicio me sentia algemado por você. Hoje me sinto corrompido.
Belmiro, és um implicante, um cabeçudo. Já te falei mil vezes: tira da cabeça que tenho alguma coisa com o Álvaro. É uma ideia sem pernas, ô cara!
Mas a ação de Carmem não correspondia à intensão. Não convencia o marido.
Tome cuidado com seus desejos. Você nunca estará seguro nas mãos de uma mulher, seja ela quem for. Lembrou deste diálogo de um filme. Considerou a hipótese de que não confiava mais em Carmem. Depois de um tempo a hipótese virou tempestade.

Previsão do tempo: tempestade

Meu filho, sabes minha opinião sobre Carmem, mas tenha calma, esvazia a cabeça; tens uma família e um casamento a serem mantidos.
Sei não mãe o que me atormenta é a desconfiança; odeio fingir. Agora te conto a última: o Enrique adora o Álvaro. Domingo passado nos encontramos num restaurante e os dois conversaram o tempo todo.
Ai! Cacete, taí o Otelo falando. O Otelo ensimesmado e onisciente; e burro! Dúvidas traidoras de Shakespeare. A continuar assim o inferno está próximo e você vai para o buraco. Só faltava esta: dúvida sobre a paternidade. Poupe-me Belmiro!
A mãe tinha razão; Belmiro estava a meio caminho do inferno.

Inferno

A desconfiança se concretizou num dia em que chegou em casa e quem encontrou? Álvaro, Carmem e Enrique.
Aí perdeu a paciência e o pau comeu. Ô! calma Belmiro, deixa eu explicar. Vim aqui para trazer um presente para o Enrique. O cínico do Álvaro não convenceu. Olha aqui, seu puto, a merda você e vá botar chifre em tua mãe, seu canalha. Desabafou e logo a seguir lhe deu um safanão daqueles. Álvaro desabou por trás do sofá com a boca sangrando. Você está louco varrido. Ele é teu amigo; e meu também! Era Carmem furiosa segurando o Enrique, que chorava. O "e meu também" irritou o ciumento mais ainda. Sua puta! Traíra isto sim, é o que você é. Eu devia te matar sua filha da puta. A resposta de Carmem: ah! você não faria isto, sabe porque? porque você é um bosta e me enoja. Que tristeza ter casado com um filhinho da mãe!
Depois do acontecido houve a separação e Belmiro passou a morar sozinho. Enrique, hoje, é jovem e engenheiro eletricista. Álvaro, que também é engenheiro eletricista, mora em Natal, Rio Grande do Norte. Carmem vive com o filho e pelos boatos tem um namorado rico.

A leitora poderá inquirir Belmiro: e o teste de DNA, porque não fez? Porque não quero saber. Enrique é meu filho, tá no registro.

"O amor na sociedade é a troca de duas fantasias e o contato de duas epidermes"  La regle du jeu (A regra do jogo), filme da Jean Renoir, 1939.




 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O nó górdio do século



Tempos modernos

A foto acima é de um aeroporto no Brasil (Confins, 01/03/2015). São os acessos para energia elétrica de carregamento, principalmente, de celulares tipos smarthphone e iphone que tem autonomia, em média, de 24 horas quando muito utilizados.


A grande questão do século XXI: a autonomia das baterias para celulares, carro elétrico e células de energia em geradores solares e eólicos.

Goodenough pode ajudar a resolver o problema.
 
 
 
 
Aos 92 anos, criador da bateria de íon-lítio trabalha em nova ideia

John B. Goodenough é pouco conhecido fora da academia, mas seu invento está em praticamente todos os eletrônicos portáteis já produzidos
 
O Globo 11/02/2015 13:30




John B. Goodenough não ganhou royalties pelo seu invento

e até hoje trabalha diariamente na Universidade do Texas - Reprodução/Universidade do Texas

RIO — Apesar de pouco conhecido fora do ambiente acadêmico, John Bannister Goodenough é um dos principais responsáveis pela revolução tecnológica vivida nos últimos 30 anos. Sem o seu trabalho, notebooks, smartphones e tablets seriam um delírio inalcançável. Inventor da bateria de íon-lítio, o físico americano ampliou as possibilidades da indústria de tecnologia e sua criação está em praticamente todos os equipamentos eletrônicos portáteis já vendidos no mundo. Hoje, aos 92 anos, trabalha em sua última grande ideia.

Todos os dias Goodenough vai ao seu pequeno escritório na Universidade do Texas, em Austin, para dar continuidade às suas pesquisas. 35 anos após sua grande invenção, os carros elétricos ainda não conseguem competir com os motores de combustão interna em termos de custo. A duração da varga dos smartphones é o ponto fraco do equipamento. É preciso dar um passo além, inventar uma super bateria.
 
— Eu quero resolver o problema antes de jogar as minhas fichas — disse, em entrevista ao site "Quartz". — Eu só tenho 92. Ainda tenho tempo para conseguir.

Em 1980, quando tinha 57 anos, Goodenough inventou o catodo de óxido de cobalto, considerado o coração das baterias de íon-lítio. Com outras contribuições, a tecnologia chegou ao mercado em 1991 pela Sony, que lançou as primeiras pilhas recarregáveis do mercado, direcionadas para as filmadoras de mão.

Apesar do feito, Goodenough não ganhou dinheiro com sua criação, tampouco o reconhecimento de um Prêmio Nobel.

Crescido em New Haven, no estado americano de Connecticut, Goodenough teve uma infância difícil, não por questões financeiras, mas no relacionamento com os pais. Aos 12 anos, foi enviado para um colégio interno e praticamente perdeu contato com a família. Sua mãe só lhe enviou uma carta quando ele já era adulto.

Quando criança, sofria de dislexia numa época em que o problema era pouco compreendido, mas Goodenough superou os contratempos e conseguiu uma bolsa de estudos em Yale, onde cursou matemática. Após se graduar, foi lutar na Segunda Guerra Mundial, e, aos 24 anos, quando servia como capitão do exército em um arquipélago na costa de Portugal, recebeu um inusitado convite: retornar aos EUA para continuar os estudos.

Em 1952, obteve seu doutorado em Física pela Universidade de Chicago e foi trabalhar em um laboratório no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Na metade da década de 1970, Goodenough se viu desafiado pela crise do petróleo e, em 1976, migrou para a Universidade Oxford para se dedicar às pesquisas com energia.

Na mesma época, o químico britânico Stan Whittingham anunciou a descoberta do uso dos íons de lítio nas baterias, que poderiam criar a bateria recarregável que conhecemos hoje, mas o invento tinha um problema: quando sobrecarregada, a pilha explodia. É nesse ponto que entra a contribuição de Goodenough.

No invento de Whittingham, o catodo era de sulfeto de titânio, e esse era o ponto que o físico americano pretendia mudar. Em 1980, quatro anos após sua chegada em Oxford, ele chegou ao catodo de óxido de cobalto, mais estável e com maior capacidade que qualquer outra tecnologia existente.

Em 1991, a Sony pegou o invento de Goodenough e lançou a primeira bateria de íon-lítio recarregável do mercado, sendo logo copiada por outras fabricante. Comparada às pilhas anteriores, de zinco carbono e níquel cádmio, os ganhos eram evidentes.

Apesar de sua contribuição central no desenvolvimento das baterias de íon-lítio, Goodenough não recebeu royalties pela sua criação. A Universidade Oxford se recusou a patentear o catodo de óxido de cobalto, porque não via vantagens em possuir propriedades intelectuais.

Quase todos os anos Goodenough é indicado ao Prêmio Nobel, mas nunca foi agraciado. Em 2009, recebeu o prêmio Enrico Fermi, e, em 2013, a Medalha Nacional de Ciências. Sua contribuição é tão importante que, em 2009, a Sociedade Real de Química do Reino Unido criou o prêmio John B. Goodenough.

Mas Goodenough não está atrás de honrarias para o fim de sua carreira, ele quer uma última grande invenção: a super bateria, que seja capaz de tornar os carros elétricos mais baratos que os de combustão interna e facilite o armazenamento de energia em usinas eólicas e solares.
http://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/aos-92-anos-criador-da-bateria-de-ion-litio-trabalha-em-nova-ideia-15307397 12/02/2015



 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O "alto" índice de criminalidade em Barretos

Índice de criminalidade em Barretos continua alto
De acordo com dados estatísticos divulgados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública do Estado (SP), o índice de criminalidade em Barretos em comparação com 2013 continua alto. Os casos de homicídio na cidade tiveram uma queda de quase 50%, caindo de onze para seis, mas os casos de tentativa de homicídio subiram de 17 para 19 e os casos de lesão corporal dolosa aumentaram de 714 em 2013 para 775 este ano (2014). [Jornal de Barretos, 28/12/2014]
Mais detalhes no quadro abaixo:

Uma análise da notícia
O índice que mede a violência das cidades e países é o numero de homicídios para cada 100 mil habitantes. No Brasil este índice foi de 25,2 em 2012. Nas capitais mais violentas: Maceió - 79,76; Fortaleza - 72,81; João Pessoa - 66,92; Natal - 57,62; Salvador - 57,51; Vitória - 57,39; São Luís - 57,04; Belém - 48,23; Campina Grande - 46; Goiânia - 44,56; Cuiabá - 43,95; Manaus - 42,53; Recife - 36,82; Macapá - 36,59; Belo Horizonte - 34,73 e Aracaju- 33,36. [ http://oglobo.globo.com de 10/04/2014]

Barretos tem cerca de 120 mil habitantes. Numa continha rápida, em 2014, ocorreram 5 homicídios para cada 100 mil habitantes. Em países como França, Holanda, Itália e Austrália este índice é de 0,9 homicídios para cada 100 mil habitantes (dados de 2012).
Conclusão: quem escreveu a matéria para o Jornal de Barretos estava num destes países.

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Terra inacabada 4: a agonia do rio Madeira


Cayahuari Yacu, the jungle Indians call this country, the land where God did not finish creation. They believe only after man has disappeared will He return to finish His work. (do filme Fitzcarraldo)


A questão do complexo hidrelétrico do rio Madeira continua dando muito pano para manga. Com a cheia de março de 2014 veio à tona os problemas de um planejamento incompetente para não dizer irresponsável.

A modesta contribuição sobre o tema neste blog está em
http://librinas.blogspot.com.br/2011/11/terra-inacabada.html. (Terra inacabada 1)

http://librinas.blogspot.com.br/2012_03_01_archive.html (Terra inacabada 2)

http://librinas.blogspot.com.br/2014_03_01_archive.html (Terra inacabada 3)

Neste último texto, já pós-enchente de 2014, é apresentado uma análise de Telma Monteiro, ativista ambiental, pesquisadora independente, especializada em análises de processos de licenciamento ambiental de hidrelétricas na Amazônia. Nele a autora finaliza: "No Brasil, para conceber e construir projetos como os do Rio Madeira ou Belo Monte, não é preciso ter conhecimento técnico apenas, tem que saber enganar bem, fornecer dados inconsistentes. Saber manipular informações, números, valores, desconstruir laudos de especialistas internacionais, estatísticas, convencer autoridades e, principalmente, bancar muitas campanhas eleitorais. Se fosse possível conceder um prêmio de manipulação ele seria dividido entre os idealizadores do projeto Madeira e o governo Lula".

Recentemente foram apresentadas novas análises dos efeitos da cheia de 2014 no rio Madeira. Vejam o documentário: Entre a cheia e o vazio: A cheia histórica do Rio Madeira em 2014 e seus nexos com as UHEs Santo Antônio e Jirau

http://www.youtube.com/watch?v=IFEputOFFqQ&feature=youtu.be 13/11/2014

Direção: Lou-Ann Kleppa
Realização: Mapeamento Social como Instrumento de Gestão Territorial contra o Desmatamento e a Devastação – Núcleo Rondônia e Universidade Federal de Rondônia – UNIR.
Apoio: Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia – UEA. Roteiro: Luis Fernando Novoa Garzon.

Segundo Garzon "O documentário Entre a Cheia e o Vazio é um recorte de uma batalha de sentidos em torno dos efeitos de larga escala produzidos pelas Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, o afluente mais caudaloso do Amazonas. Batalha que se intensificou com a chamada "cheia histórica" de 2014, ampliada pela retenção de água nos dois reservatórios, e que prossegue nesse exato momento em que estudos preliminares indicam que os elevados níveis de assoreamento do rio podem resultar, em 2015, numa cheia de proporções similares, ainda que com menor volume de precipitações. As consequências do duplo barramento (e que pretende ser triplo com o aproveitamento da Cachoeira de Ribeirão - Guajará Mirim) de um rio com tamanha descarga sólida, em períodos muito concentrados de tempo, só estão sendo avaliadas a posteriori e muito limitadamente. Além de expropriarem o rio e seus usos sociais, procuram expropriar a capacidade de percepção e inteligibilidade do território recriado". [1]

O rio modificado pelas barragens é mostrado na figura abaixo [2].

 


 
A região do Médio e Alto Madeira e seus tributários vai se convertendo em um corredor de exportação (inter-regional a princípio) de energia enquanto commodity; a gerar lotes de energia pré-negociados, cotados no "mercado livre" de energia que norteia, ponta-cabeça, o "mercado regulado" que deveria servir à nação. Nesse quadro de privatização crescente de todos os setores de infraestrutura, as concessões elétricas trazem embutidas cessões territoriais, para as quais concorrem outros setores com uso intensivo de recursos naturais, como a mineração e o agronegócio. Nesse reembaralhamento das posses e das jurisdições, os desastres técnico-ambientais sempre serão apresentados como "naturais" e "inevitáveis".[1]

E a responsabilização dos estragos feitos pela cheia? O governo do estado de Rondônia e representantes das UHE falam em desastre natural. Claro que não dizem do desconhecimento da bacia e dos efeitos da cadeia de lagos em que se tornou o rio. E não se cogita na existência de falhas.

 
Pode-se notar, nas falas cruzadas dos gerentes das duas usinas, o desconcerto deles elidindo ou transferindo "erros" de uma para outra. A acoplagem dos depoimentos desses dirigentes que tiveram a vazão do rio sob seu controle durante a cheia foi equivalente a uma acareação recheada de atos falhos.[1]

E agora? Será que agora vão conhecer o rio e providenciar estudos de impactos ambientais depois do que já está feito?

E a quem serve a energia elétrica produzida no Brasil? Segundo Célio Bermann (USP) a grande demanda por energia elétrica no país são definidas por seis setores industriais: cimento, siderúrgia (aço), metais não ferrosos (alumínio), ferro-ligas, papel celulose e petroquímica. É para isto que a energia produzida pelo rio Madeira já está chegando ao sudeste do país.

E aos milhares de desabrigados? E a devastação ambiental? Uma banana para eles.

 

Referências

[1] http://www.altinomachado.com.br/2014/11/documentario-mostra-danos-causados-no.html  11/11 2014

[2] http://resistir.info/brasil/rebeliao_amazonia.html 13/11/2014

[3] http://cptrondonia.blogspot.com.br/2013/02/insistem-na-usina-de-ribeirao-em.html 10/11/2014



 

 

 

 

 
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A ditadura não acabou

 Deu no Terra http://www.terra.com.br/ 05 de novembro de 2014

Débora Melo, direto de São Paulo
Mães de Maio:
negro e pobre já vivem sob intervenção militar

A ativista Débora Maria da Silva, coordenadora do movimento Mães de Maio durante evento na PUC-SP
Foto: Débora Melo / Terra
"Nós temos que mostrar que a ditadura não acabou. Ela só vai acabar quando a gente desmilitarizar a polícia. Esse nome ‘militar’ está presente 24 horas na nossa periferia", disse Débora Maria da Silva, 54 anos, coordenadora do movimento Mães de Maio, durante debate sobre a ditadura militar (1964-1985) no Brasil, nesta quarta-feira, em São Paulo.

Aos manifestantes que no último sábado pediram "intervenção militar" em um ato pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), Débora dirigiu poucas palavras. "Esse pessoal precisa reconhecer que os pobres e os negros são vítimas da ditadura continuada. A ditadura não acabou. Esse passado está muito presente para nós", afirmou à reportagem.

O Mães de Maio é um movimento formado por 17 mães de mortos e desaparecidos nos confrontos que ficaram conhecidos como "crimes de maio", ocorridos em 2006. De acordo com entidades de direitos humanos como o Tortura Nunca Mais, os crimes foram uma resposta de grupos de extermínio - com a participação de PMs - aos ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) que resultaram na morte de 43 agentes públicos. Em represália, ao menos 493 pessoas foram assassinadas, sendo que a grande maioria das vítimas era de jovens negros, moradores das periferias.

"Nós não aceitamos que tenhamos um País dividido, onde os negros e os nordestinos têm de ser separados da elite, de uma minoria da classe racista que temos em nosso País. Nós não temos um País igualitário", disse Débora. O depoimento da ativista foi dado em painel do Congresso Internacional Memória: Alicerce da Justiça de Transição e dos Direitos Humanos, realizado desde domingo no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Tuca) para debater a importância da memória no processo de transição da ditadura para a democracia.

Falsa democracia
Para Débora, o que temos hoje no Brasil é uma "falsa democracia". "Precisamos exigir de nossos políticos verdadeiras políticas sociais. Não à redução da maioridade penal, não ao encarceramento em massa, que são respostas quando não podem tratar do problema. Eles jogam o problema para nós, mas o problema não somos nós: o problema é o sistema corrupto que existe no nosso País. A corrupção é a mazela que mata e que encarcera. Nós temos que lutar", afirmou a ativista.

Os "crimes de maio" foram arquivados sem que muitos casos fossem esclarecidos. Além disso, a primeira condenação de policial militar envolvido nos episódios ocorreu somente em julho de 2014: o PM Alexandre André Pereira Silva foi condenado a 36 anos de prisão em regime fechado pela morte de três homens em um lava-rápido na zona norte de São Paulo.

"Nós exigimos, e o País tem que dar uma resposta. Foi um massacre (...). Os crimes de maio foram arquivados. É falta de eficiência por parte da Segurança Pública, mas nós também temos a certeza de que é difícil polícia investigar polícia", afirmou Débora. "É difícil. Eu posso sair e ser executada. Mas eu não tenho medo da bala. As Mães de Maio não têm medo, porque se tivessem não estariam na luta. Nosso medo era perder nossos filhos, e nós perdemos", continuou a ativista.




 

domingo, 2 de novembro de 2014

Lobo Solitário

 
 
O mangá Lobo Solitário de Kazuo Koike e Goseki Kojima apareceu no Japão na década de 1970. No Brasil é distribuído no final da década de 1980. A coleção completa da saga Ogami tem 28 volumes e ainda está disponível na Estante Virtual (http://www.estantevirtual.com.br/ em 02/11/2014) e outra livrarias virtuais.

Vítima de uma conspiração do clã Yagyu o samurai Itto Ogami, executor oficial do Xogum, tem a esposa assassinada e cai em desgraça, acusado de traição. A o lado do filho Daigoro Ogami sai em busca da vingança tornando o mercenário Lobo Solitário. Itto Ogami (com o seu conhecimento de esgrima suio), agora como ronin, segue a trilha do assassino na estrada do inferno.




Ogami: Daigoro, você deve escolher uma trilha para si mesmo. Se escolher o temari (bola) você irá se unir à sua mãe que nos aguarda em Yomi, a terra dos espíritos. Se escolher a espada juntos nós percorreremos a trilha do assassino.
Daigoro, ainda engatinhando, escolhe a espada.
Ogami: você seria mais feliz ao lado da sua mãe. Um assassino com um bebê. Pois que assim seja, Daigoro. Este é o nosso destino.



Ogami: A morte caminha no vento e eu sou apenas uma folha. Meu corpo deve trilhar os seis caminhos: o do paraíso, do humano, do assassinato, da besta-fera, do demônio e do inferno. Ou deve passar através das quatro vidas: a semente, o ovo, o útero e a reencarnação. Para unir os opostos de Mu (vazio)

 
Daigoro, nós vamos entrar pelas portas do inferno.



Lobo solitário, samurais e ronins no cinema
 
Itto Ogami e Daigoro [1]
 
A estória de Kazuo Koike e Goseki Kojima aparece em seis versões cinematográficas listadas a seguir.
Lobo solitário:
A espada da vingança, Kozure Ôkami - Ko Wo Kashi Ude, 1972, direção: Kenji Misumi 
O andarilho do rio Sanzu, Kozure Ôkami - Ko Wo Kashi Ude, 1972 direção: Kenji Misumi 
 
Contra os ventos da morte, Kozure Ôkami: Shinikazeni mukau ubaguruma, 1972, direção: Kenji Misumi
Coração de pai, coração de filho, Kozure Ôkami: Oya no kokoro ko no kokoro, 1972, direção: Takechi Saitô
Na terra dos demônios, Kozure Ôkami: Meifumadô, 1973, direção: Kenji Misumi 
Paraíso branco no inferno, Kozure ôkami: Jigoku e ikuzo! Daigorô, 1974, Direção: Yoshiyuki Huroda
Estes filmes estão disponíveis na Versátil Home Vídeo (2013) [2]. Em inglês são identificados como Lone wolf and cub de 1 a 6.


As personagens principais nestes filmes foram interpretados por Tomisaburô Wakayama (Itto Ogami) e Akihiro Tomikawa (Ogami Daigoro).

Tomisaburô Wakayama (1929 – 1992) nasceu e faleceu em Tokyo. De 1955 a 1992 participou de 158 filmes (e trabalhos em TV) (http://www.imdb.com/name/nm0423663/ ). Esteve no filme Chuva negra (Black rain), 1989, de Ridley Scott, disponível em DVD pela Paramount - AMZ. Neste filme interpreta Sugai, um chefão da Yakuza (máfia japonesa).



Tomisaburô Wakayama como Sugai em Chuva negra, 1989.

Akihiro Tomikawa nasceu em 1968 e sua participação no cinema ficou restrita ao papel de Daigoro.

O samurai no cinema tem como referências clássicas, dentre várias, os filmes sobre os 47 ronins. A Versátil Home Vídeo distribui três versões desta estória baseada em fatos históricos (nos idos de 1700) que se tornou lenda no Japão. São eles: A vingança dos 47 ronins (Genroku chushingura), 1941, com direção de Kenji Mizogushi; Os 47 ronins (Chushingura), 1958, de Kunio Watanabe e Os vingadores(Chushingura: hana no maki), 1962 de Hiroshi Inagaki.

Sinopse de 47 ronins: Lorde Asano resiste a uma tentativa de suborno por um membro da corte do Shogun (Lorde Kira). Sua honestidade, no entanto, é inútil contra a corrupção da administração, e ele é forçado a cometer haraquiri (seppuku). Sua comitiva de samurais é então dispersa, como ronins sem mestre. O líder dos samurais, Oichi, trama com um bando de ronin leais em busca de vingança pela desonra de seu mestre. A vingança é realizada, mas todos os 47 ronins são condenados a cometer o haraquiri. São as regras do Xogun e a honra samurai.
Samurai quer dizer ficar ao lado, servir, guardar. Designa um guarda profissional da casta militar dos Bushi vinculada ao serviço de um senhor Daimiô, dono do feudo. Um samurai que foi destituído por qualquer motivo é chamado ronin  que quer dizer "homem que flutua no vento" ou "homem da onda". Em outras palavras um guerreiro sem vínculo, um samurai errante (De L’histoire de 47 Ronins à Mizoguchi, Charles Tesson e Christophe Gans, DVD 2 da Versátil).


47 Ronins distribuído pela Versátil [2]



A estória de Itto Ogami (Lobo solitário) é diferente de 47 Ronnins. Ogami era samurai e depois, como ronin, se propôs à vingança solitariamente. Já em 47 ronnins a vingança foi de um grupo organizado de ronins que como samurais serviam a Asano.

O que é comum nestas duas estórias? A MORTE.
A ideia de morte que nos é passada geralmente está vinculada à escuridão, à tristeza e acabamos por associá-la sempre a imagens negativas, ruins e ao fim de tudo. Na visão budista a morte é considerada como um dos aspectos da vida. A vida é eterna e ela não acaba com a morte. É o conceito de impermanência (Hi eizoku-sei). Nada é permanente mesmo quando se retira o conceito de tempo [3] e [4].