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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

O porquê de Finoca

A Finoca do título é o apelido da Orípia Pereira de Carvalho, 98 (21/09/1922 – 25/11/2020), minha mãe. Escrevi sobre ela neste Blog quando ela fez 89 anos. Leia aqui 

Boa parte da cabeça da Finoca foi feita num colégio de freiras. Teve sua educação formal no Colégio Anjo da Guarda em Bebedouro (colégio interno) no período de 1932 a 1942. Foram 11 anos de colégio interno divididos em quatro de primário, cinco de ginásio e dois de escola normal. Lá estudou Latim, Francês, Português, Geografia, História, Matemática, Física, Educação Moral e Cívica, Música, Trabalhos Manuais, Desenho, Sociologia, Pedagogia e Prática Pedagógica. 

Casou-se com Sebastião Cardoso Carvalho Sobrinho, 66 (02/12/1919 – 11/03/1986), o Tatau. Orípia casou-se com Sebastião no dia 5 janeiro de 1946 e exonerou-se da escola durante o período de 1945 a 1948. Neste período tiveram Aluisio (1946) e Maria Cristina (1949). Sebastião pedira à esposa que ficasse em casa para cuidar dos filhos. Mas em 1949 Finoca voltou a trabalhar a contragosto do marido, para ajudar no sustento da família. Ela contrariou o pai para casar e agora contrariava o marido para voltar ao trabalho como professora. Isto na década de 1940. Ela seguiu a história de outras duas librinas porretas: Inácia Bernarda e Mariana Librina (tias-triavó de Finoca) sobre as quais já escrevi neste Blog. Leia sobre Mariana Librina aqui e sobre Inácia aqui.

Depois a caminhada de Finoca seguiu. Até hoje (em fevereiro de 2024) na árvore genealógica dela e Tatau têm 8 filhos (4 mulheres e 4 homens), 17 netos (12 mulheres e 5 homens) e 17 bisnetos (10 mulheres e 7 homens). 

Este texto tem a pretensão de resolver a seguinte questão. De onde veio o apelido da Orípia? Finoca apareceu quando e como?

Falhamos, nós ancestrais, em não perguntar sobre a origem do apelido quando viva Orípia estava.

Geralmente procuramos fontes de investigação sobre um tema em questão. No caso existem as correspondências (cartas) entre Orípia e Sebastião. São várias, mas até então não percebi pistas que respondessem à pergunta. De onde veio Finoca?

Hoje tenho uma hipótese.

Imperativo dizer que, face ao conteúdo pedagógico do Colégio Anjo da Guarda, Orípia e colegas leram, e muito, Machado de Assis.

Já que estamos falando dele vem a tona o conto “Pobre Finoca!”. Ei-lo aqui

Kilos de utencílios tipo panos de algodão, seda, cadarço, agulhas e muito mais. Era um armarinho da rua do Ouvidor. Finoca e Alberta, no conto do Machado, frequentavam com familiares. Neste armarinho encontraram o Macedo.

Lendo mais. Finoca, Alberta e Macedo formam um trio de personagens que se interagem. Em princípio Macedo se interessava por Finoca e Alberta tinha o papel de cupido. 

Mas aí que que vem um pedaço de pouco.

Não, Finoca não tinha atração por Macedo. Ela o considerava um idiota. — Eu não disse desprezível, acudiu Finoca. — Você disse idiota. — Sim; idiota…

O que Alberta não esperava foi a desilusão com seu namorado. Ele estava em São Paulo e se engraçou com outra menina por lá.

Para onde foi a estória?

Quando Alberta notou que as cartas tinham cessado de todo, sentiu em si indignação contra o vil, e desligou-se da promessa de casar com ele. Casou três meses depois com outro, com o Macedo — aquele Macedo — o idiota Macedo. Pessoas que assistiram ao casamento, dizem que nunca viram noivos mais risonhos nem mais felizes.

Resumo da ópera. Alberta com Macedo e Finoca aliviada.

Sem ficção agora. Orípia sempre falava das amigas do Colégio Anjo da Guarda. E estas amigas leram o conto do Machado. Não deu outra. Orípia se tornou Finoca.

Tudo a ver.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Finoca

Orípia, minha mãe, também conhecida como Finoca, nasceu em 21/09/1922 na cidade de Barretos. Estudou no Colégio Anjo da Guarda em Bebedouro até formar-se professora em 1942. Casou-se com Sebastião, o Tatau, barretense nascido em 02/12/1919. No embalo deste enlace surgiram quatro filhos e quatro filhas. A mãe, a esposa, a mulher e a professora sempre estiveram na mente e no coração da Finoca.

Finoca vem da família Marques, povoadores da cidade de Barretos, os librinas. A mãe da Finoca é a Maria Cândida e o pai, Joaquim Cândido, que nasceram em 1887. A avó da Finoca é Maria Cândida de Jesus (Mãe Cândia), casada (em 1874) com Jerônymo José Marques (Jerominho). Finoca é trineta de Simão Antônio, um dos fundadores de Barretos: é filha de Maria Cândida que era filha de Jerônymo José que era filho de Joaquim Simão Marques que era filho de Simão Antônio Marques. Até casar Finoca vivia na fazenda Córrego do Meio (mais popular como Córgo do Meio), em Barretos, propriedade de Joaquim Cândido e Maria Cândida.

A família de Maria Cândida e Joaquim Cândido se reunia em fins de semana, na fazenda, para fazer farinha de mandioca, fazer pamonha e matar porco. Filhos, filhas, netos, netas, agregados e agregadas se reuniam em mutirão. E toma arrancar, lavar, descascar, ralar, secar mandioca e torrar resultando na farinha e no polvilho que ainda hoje existe nas feiras de Barretos. Reproduzíamos o que os índios brasileiros já faziam nos idos de 1500, como relatado por Hans Staden.

 Córrego do Meio era uma fazenda antenada com o século XX. Tinha uma hidrelétrica que fornecia energia para iluminação da sede e para mover um moinho que produzia fubá. A água encanada do Córrego do Meio chegava até a sede através de uma bomba hidráulica. O gado bovino produzia leite e o queijo era produzido sob a coordenação da Maria Cândida. Tinha também a lavoura de milho e um belo pomar com jabuticaba, manga, banana, laranja, pitanga, amora e muitas outras frutas.

Finoca foi criada neste meio e teve filhos e filhas nele misturado. A netaiada de Maria Cândida se divertia neste ambiente integrado com a natureza. Hoje, em 2011, a família da Orípia e Sebastião está assim: 4 filhos, 4 filhas, 12 netas, 5 netos, 4 bisnetas e 5 bisnetos.

Orípia teve sua educação formal no Colégio Anjo da Guarda em Bebedouro (colégio interno) no período de 1932 a 1942. Foram 11 anos de colégio interno divididos em quatro de primário, cinco de ginásio e dois de escola normal. Lá estudou Latim, Francês, Português, Geografia, História, Matemática, Física, Educação Moral e Cívica, Música, Trabalhos Manuais, Desenho, Sociologia, Pedagogia e Prática Pedagógica. 

Professora formada, Finoca começou o magistério, em 1943, numa escola em Alberto Moreira, distrito de Barretos, como professora substituta efetiva. Esteve por lá até 1944. A rotina da Professora Orípia, quando em Alberto Moreira, era a seguinte: ia da fazenda dos pais a cavalo (chamado “Docinho”) até a fazenda do tio Rosa (Olintho Marques). Depois a pé, na companhia de alguns alunos, atravessava o Córrego da Mixórdia e caminhava até Alberto Moreira. Após as aulas o caminho de volta: a pé até a fazenda do Tio Rosa e depois no lombo do “Docinho” chegava em casa.

A rotina da Finoca não ficava só na escola. No sábado, de trem, fazia o trajeto Alberto Moreira - Barretos. Em Barretos ficava na casa dos pais (Avenida 21 entre as ruas 14 e 16) e no sábado ministrava aulas de catecismo na Catedral. Eram nestes fins de semana que Finoca se encontrava com o Tatau para namorar, meio que a contragosto do pai, Joaquim Cândido. Na segunda-feira estava ela de volta à rotina das aulas em Alberto Moreira.

Orípia casou-se com Sebastião no dia 5 janeiro de 1946 e exonerou-se da escola durante o período de 1945 a 1948. Neste período tiveram Aluisio (1946) e Maria Cristina (1949). Sebastião pedira à esposa que ficasse em casa para cuidar dos filhos. Mas em 1949 Orípia voltou a trabalhar a contragosto do marido, para ajudar no sustento da família. Finoca contrariou o pai para casar e agora contrariava o marido para voltar ao trabalho como professora. Isto na década de 1940. Ela seguiu a história de outras duas librinas porretas: Inácia Bernarda e Mariana Librina (tias-triavó de Finoca) sobre as quais já escrevi.

Nos anos de 1949 e 1950 Orípia trabalhou na Escola Antônio Olympo (1º Grupo), em Barretos como professora substituta efetiva. Efetivou-se em abril de 1951 e se mandou para Nova Granada para lecionar numa Escola Típica Rural. Nesta época Finoca já estava com o terceiro filho Edson (1950). Sem o marido e os outros dois filhos que ficaram em Barretos ela seguia seu destino de mãe e professora, amamentando e lecionando.

Um parêntesis: Edson formou-se em engenharia na década de 1970. Resolveu, na época, ser professor. Finoca não concordou. Um absurdo argumentava. Onde se viu, estuda engenharia cinco anos e vai para sala de aula. Edson bateu o pé e seguiu seu destino. O que ela queria? O cara nasce e praticamente vai do hospital direto para uma sala de aula acompanhar a mãe. Tinha ou não tinha que ser professor!

Em 1952, Orípia se transferiu para uma escola em Ibitú e por lá ficou até 1954. Em 1955 voltou para Barretos e trabalhou numa escola isolada situada no bairro Vila Nogueira.  Voltou para a Escola Antônio Olympio em 1957 e lá trabalhou até se aposentar. A mãe continuou sua lida: teve Cândida em 1955, Ana Maria em 1957, Clóvis em 1958, Cláudio em 1961 e Mônica em 1965.

Quando Finoca chegava na Santa Casa para ter nenê as freiras logo diziam: Ih, lá vem ela de novo!

Sebastião se formou em ciências contábeis na Escola de Comércio Álvares Penteado, em São Paulo. Ele trabalhava na serraria da família Cardoso Carvalho, mas teve passagem, como contador, pela prefeitura de Paulo de Faria e em Ibitú trabalhou na Socelis, empresa de bomba d’água. A seguir voltou à serraria a pedido do pai, João Cardoso de Carvalho. Finalmente Tatau passou a trabalhar como agricultor, no sítio herdado por Finoca. Nesta batida os dois criaram e educaram seus oito filhos e filhas. Sebastião faleceu no dia 11 de março de 1986 aos 66 anos, depois de 40 anos de casamento.

Orípia foi muito querida pelos alunos e colegas de trabalho. Reproduzo aqui um trecho da homenagem que recebeu de suas colegas em 1996.

“(...) Para falar de uma pessoa autêntica, cheia de simplicidade e valores seria preciso que pudéssemos traduzir mensagens que brotam diretamente de nossos corações. E para isso melhor do que pobres palavras basta que a Orípia olhe nossos sorrisos, que perceba a expressão sincera de ternura, amizade e admiração que todas nós temos em nossas faces. Então nossas palavras, nossas simples palavras, revelam o que está além das palavras, por mais expressivas que sejam. Orípia é assim, professora e mãe que nos dá a maior lição, a lição de viver. Professora exemplar durante 30 anos batalhou sempre pela educação dos alunos como se fossem seus próprios filhos. Mãe carinhosa de oito filhos: Aluisio, Maria Cristina, Edson, Cândida, Ana Maria, Clóvis, Cláudio e Mônica, que com seu exemplo e dedicação deu-lhes valores e qualidades para vencerem na vida. Que Deus lhe dê, Orípia, muita saúde para poder continuar a dar-nos sua lição de vida. Deus a conserve assim por muito tempo serena e feliz entre nós. Associação dos Professores Aposentados de Barretos – 1996”       

Atualmente Finoca vive por conta de cuidar da casa e acompanhar, junto com filhos e filhas, o crescimento de seus netos, netas, bisnetos e bisnetas. Além disso, têm as novelas, as músicas, as viagens para ver a família e para apreciar música em teatros, as plantas, os gatos e os cachorros... e a laranja depois do almoço.

Hoje, dia 21, Dona Orípia completa 89 anos.

Por tudo isso Finoca pode entrar em casa com dignidade.



Edson Pereira Cardoso, 21 de setembro de 2011

                                              


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Pobre Finoca!

Machado de Assis

Que é isso? Você parece assustada. Ou é namoro novo?

— Que novo? é o mesmo, Alberta; é o mesmo aborrecido que me persegue; viu-me agora passar com mamãe, na esquina da Rua da Quitanda, e, em vez de seguir o seu caminho, veio atrás de nós. Queria ver se ele já passou.

— O melhor é não olhar para a porta; conversa comigo.

Toda a gente, por menos que adivinhe, sabe logo que esta conversação tem por teatro um armarinho da Rua do Ouvidor. Finoca (o nome é Josefina) entrou agora mesmo com a velha mãe e foram sentar-se ao balcão, onde esperam agulhas; Alberta, que está ali com a irmã casada, também aguarda alguma coisa, parece que uma peça de cadarço. Condição mediana, de ambas as moças. Ambas bonitas. Os empregados trazem caixas, elas escolhem.

— Mas você não terá animado a perseguição, com os olhos? perguntou Alberta, baixinho.

Finoca respondeu que não. A princípio olhou para ele; curiosa, naturalmente; uma moça olha sempre uma ou duas vezes, explicava a triste vítima; mas daí em diante, não se importou com ele. O idiota, porém (é o próprio termo empregado por ela), cuidou que estava aceito e toca a andar, a passar pela porta, a esperá-la nos pontos dos bondes; até parece que adivinha quando ela vai ao teatro, porque sempre o acha à porta, ao pé do bilheteiro.

— Não será fiscal do teatro? aventou Alberta rindo.

— Talvez, admitiu Finoca.

Pediram mais cadarços e mais agulhas, que o empregado foi buscar, e olharam para a rua, de onde entravam várias senhoras, umas conhecidas, outras não. Cumprimentos, beijos, notícias, perguntas e respostas, troca de impressões de um baile, de um passeio ou de uma corrida de cavalos. Grande rumor no armarinho; falam todas, algumas sussurram apenas, outras riem; as crianças pedem isto ou aquilo, e os empregados curvados atendem risonhos à freguesia, explicam-se, defendem-se.

— Perdão, minha senhora; o metim era desta largura.

— Qual, sr. Silveira! — Deixe, que eu lhe trago amanhã os dois metros.

— Sr. Queirós!

— Que manda V. Excia.?

— Dê-me aquela fita encarnada de sábado.

— Da larga?

— Não, da estreita.

E o sr. Queirós vai buscar a caixa das fitas, enquanto a dama, que as espera, examina de esguelha outra dama que entrou agora mesmo, e parou no meio da loja. Todas as cadeiras estão ocupadas. The table is full, como em Macbeth; e, como em Macbeth, há um fantasma, com a diferença que este não está sentado à mesa, entra pela porta; é o idiota, perseguidor de Finoca, o suposto fiscal de teatro, um rapaz que não é bonito nem elegante, mas simpático e veste com asseio. Tem um par de olhos, que valem pela lanterna de Diógenes; procuram a moça e dão com ela; ela dá com ele; movimento contrário de ambos; ele, Macedo, pede a um empregado uma bolsinha de moedas, que viu à porta, no mostrador, e que lhe traga outras à escolha. Disfarça, puxa os bigodes, consulta o relógio, e parece que o mostrador está empoeirado, porque ele tira do bolso um lenço com que o limpa; lenço de seda.

— Olha, Alberta, vê-se mesmo que entrou por minha causa. Vê, está olhando para cá.

Alberta verificou disfarçadamente que sim; ao mesmo tempo que o rapaz não tinha má cara nem modos feios.

— Para quem gostasse dele, era boa escolha, disse ela à amiga.

— Pode ser, mas para quem não gosta, é um tormento.

— Isso é verdade.

— Se você não tivesse já o Miranda, podia fazer-me o favor de o entreter, enquanto ele se esquece de mim, e fico livre.

Alberta riu-se.

— Não é má idéia, disse; era assim um modo de tapar-lhe os olhos, enquanto você foge. Mas então ele não tem paixão; quer só namoro, passar o tempo…

— Pode ser isso mesmo. Contra velhaco, velhaca e meia.

— Perdão; duas velhacas, porque somos duas. Você não pensa, porém, em uma coisa; é que era preciso chamá-lo a mim, e não é coisa que se peça a uma amiga séria. Pois eu iria agora fazer-lhe sinais…

— Aqui estão as agulhas que V. Excia….

Interrompeu-se a conversação; trataram das agulhas, enquanto Macedo tratou das bolsinhas, e o resto da freguesia das suas compras. Sussurro geral. Ouviu-se um toque de caixa; era um batalhão que subia a Rua do Ouvidor. Algumas pessoas foram vê-lo passar às portas. A maior parte deixou-se ficar ao balcão, escolhendo, falando, matando o tempo. Finoca não se levantou; mas Alberta, com o pretexto de que Miranda (o namorado) era tenente de infantaria, não pôde resistir ao espetáculo militar. Quando ela voltou para dentro, Macedo, que espiava o batalhão por cima do ombro da moça, deu-lhe galantemente passagem. Saíram e entraram fregueses. Macedo, à força de cotejar bolsinhas, foi obrigado a comprar uma delas, e pagá-las; mas não a pagou com o preço exato, deu nota maior para obrigar ao troco. Entretanto, esperava e olhava para a esquiva Finoca, que estava de costas, tal qual a amiga. Esta ainda olhou disfarçadamente, como quem procura outra coisa ou pessoa, e deu com os olhos dele, que pareciam pedir-lhe misericórdia e auxílio. Alberta disse isto à outra, e chegou a aconselhar-lhe que, sem olhar para ele, voltasse a cabeça.

— Deus me livre! Isto era dar corda, e condenar-me.

— Mas, não olhando…

— É a mesma coisa; o que me perdeu foi isso mesmo, foi olhar algumas vezes, como já disse a você; meteu-se-lhe em cabeça que o adoro, mas que sou medrosa, ou caprichosa, ou qualquer outra coisa…

— Pois olhe, eu se fosse você olhava algumas vezes. Que mal faz? Era até melhor que ele perdesse as esperanças, quando mais contasse com elas.

— Não.

— Coitado! parece que pede esmolas.

— Você olhou outra vez?

— Olhei. Tem uma cara de quem padece. Recebeu o troco do dinheiro sem contar, só para me dizer que você é a moça mais bonita do Rio de Janeiro — não desfazendo em mim, já se vê.

— Você lê muita coisa…

— Eu leio tudo.

De fato, Macedo parecia implorar a amiga de Finoca. Talvez houvesse compreendido a confidência, e queria que ela servisse de terceira aos amores — a uma paixão do inferno, como se dizia nos dramas guedelhudos. Fosse o que fosse, não podia ficar na loja mais tempo, sem comprar mais nada, nem conhecer ninguém. Tratou de sair; fê-lo por uma das portas extremas, e caminhou em sentido contrário a fim de espiar pelas outras duas portas a moça dos seus desejos. Elas é que o não viram.

— Já foi? perguntou Finoca dali a instantes à amiga.

Alberta voltou a cabeça e percorreu a loja com os olhos.

— Já foi.

— É capaz de esperar-me na esquina.

— Pois você muda de esquina.

— Como? se não sei se ele desceu ou subiu?

E depois de alguns momentos de reflexão:

— Alberta, faz-me este favor!

— Que favor?

— O que lhe pedi há pouco.

— Está tola! Vamos embora…

— O tenente não apareceu hoje?

— Ele não vem às lojas.

— Ah! se ele desse algumas lições ao meu perseguidor! Vamos, mamãe?

Saíram todos e subiram a rua. Finoca não se enganara; Macedo estava à esquina da Rua dos Ourives. Disfarçou, mas fitou logo os olhos nela. Ela não tirou os seus do chão, e foram os de Alberta que receberam os dele, entre curiosa e piedosa. Macedo agradeceu o favor.

— Nem caso! gemeu ele consigo; a outra, ao menos, parece ter compaixão de mim.

Seguiu-as, meteu-se no mesmo bonde, que as levou ao Largo da Lapa, onde se apearam e foram pela Rua das Mangueiras. Nesta morava Alberta; a outra na dos Barbonos. A amiga ainda lhe deu uma esmola; a avara Finoca nem voltou a cabeça.

Pobre Macedo! exclamarás tu, ao invés do título, e realmente, não se dirá que esse rapaz ande no regaço da Fortuna. Tem um emprego público, qualidade já de si pouco recomendável ao pai de Finoca; mas, além de ser público, é mal pago. Macedo faz proezas de economia para ter o seu lenço de seda, roupa à moda, perfumes, teatro, e, quando há lírico, luvas. Vive em um quarto de casa de hóspedes, estreito, sem luz, com mosquitos e (para que negá-lo?) pulgas. Come mal para vestir bem; e, quanto aos incômodos da alcova, valem tanto como nada, porque ele ama — não de agora — tem amado sempre, é a consolação ou compensação das outras faltas. Agora ama a Finoca, mas de um modo mais veemente que de outras vezes, uma paixão sincera, não correspondida. Pobre Macedo!

Cinco ou seis semanas depois do encontro no armarinho, houve um batizado na família de Alberta, o de um sobrinho desta, filho de um irmão empregado no comércio. O batizado era de manhã, mas havia baile à noite — e prometia ser de espavento. Finoca mandou fazer um vestido especial; as valsas e quadrilhas encheram-lhe a cabeça, dois dias antes do aprazado. Encontrando-se com Alberta, viu-a triste, um pouco triste. Miranda, o namorado, que era ao mesmo tempo tenente de infantaria, recebera ordem de ir para S. Paulo.

— Em comissão?

— Não; vai com o batalhão.

— Eu, se fosse ele, fingia-me constipado, e ia no dia seguinte.

— Mas já foi!

— Quando?

— Ontem de madrugada. Segundo me disse, de passagem, na véspera, parece que a demora é pequena. Estou pronta a esperar; mas a questão não é essa.

— Qual é?

— A questão é que ele devia ser apresentado em casa, no dia do baile, e agora…

Os olhos da moça confirmaram discretamente a sinceridade da dor; umedeceram-se e verteram duas lágrimas pequeninas. Seriam as últimas? seriam as primeiras? Seriam as únicas? Eis ai um problema, que tomaria espaço à narração, sem grande proveito para ela, porque aquilo que se não acaba entendendo, melhor é não gastar tempo em explicá-lo. Sinceras eram as lágrimas, isso eram. Finoca tratou de as enxugar com algumas palavras de boa amizade e verdadeira pena.

— Fica descansada, ele volta; S. Paulo é aqui perto. Talvez volte capitão.

Que remédio tinha Alberta, senão esperar? Esperou. Enquanto esperava, cuidou do batizado, que, em verdade, devia ser uma festa de família. Na véspera as duas amigas ainda estiveram juntas; Finoca tinha um pouco de dor de cabeça, estava aplicando não sei que medicamento, e contava acordar boa. Em que se fiava, não sei; sei que acordou pior com uma pontinha de febre, e posto quisesse ir assim mesmo, os pais não o consentiram, e a pobre Finoca não estreou naquele dia o vestido especial. Tanto pior para ela, porque o pesar aumentou o mal; à meia-noite, quando mais acesas deviam estar as quadrilhas e valsas, a febre ia em trinta e nove graus. Creio que se lhe dessem a escolher, ainda assim dançaria. Para que a desgraça fosse maior, a febre declinou sobre a madrugada, justamente à hora em que, de costume, os bailes executam as últimas danças.

Contava que Alberta viesse naquele mesmo dia visitá-la e narrar-lhe tudo; mas esperou-a em vão. Pelas três horas recebeu um bilhete da amiga, pedindo-lhe perdão de não ir vê-la. Constipara-se e chovia; estava rouca; entretanto, não queria demorar-se em dar-lhe notícias da festa.

Esteve magnífica, escrevia ela, se é que alguma coisa pode estar magnífica sem você e sem ele. Mas, enfim, agradou a todos, e principalmente ao pais do pequeno. Você já sabe o que meu irmão é, em coisas desta ordem. Dançamos até perto de três horas. Estavam os parentes quase todos, os amigos de costume, e alguns convidados novos. Um deles foi a causa da minha constipação, e dou-lhe um doce se você adivinhar o nome deste malvado. Digo só que é um fiscal de teatro. Adivinhou? Não diga que é Macedo, porque então recebe mesmo o doce. É verdade, Finoca; o tal sujeito que te persegue apareceu aqui, ainda não sei bem como; ou foi apresentado ontem a meu irmão, e convidado logo por ele; ou este já o conhecia antes, e lembrou-se de lhe mandar convite. Também não estou longe de crer, que, qualquer que fosse o caso, ele tratou de se fazer convidado, contando com você. Que lhe parece? Adeus, até amanhã, se não chover.

Não choveu. Alberta foi visitá-la, achou-a melhor, quase boa. Repetiu-lhe a carta, e desenvolveu-a, confirmando as relações de Macedo com o irmão. Confessou-lhe que o rapaz, tratado de perto, não era tão desprezível como parecia à outra.

— Eu não disse desprezível, acudiu Finoca.

— Você disse idiota.

— Sim; idiota…

— Nem idiota. Conversado e muito atencioso. Diz até coisas bonitas. Eu lembrei-me do que você me pediu, e estou, quase não quase, a tentar prendê-lo; mas lembrei-me também do meu Miranda, e achei feio. Contudo, dançamos duas valsas.

— Sim?

— E duas quadrilhas. Você sabe, poucos dançantes. Muitos jogadores de solo e conversadores de política.

— Mas como foi a constipação?

— A constipação não teve nada com ele; foi um modo que achei de dar a notícia. E olha que não dança mal, ao contrário.

— Um anjo, em suma?

— Eu, se fosse você, não o deixaria ir assim. Acho que dá um bom marido. Experimente, Finoca.

Macedo saíra do baile um tanto consolado da ausência de Finoca; as maneiras de Alberta, a elegância do vestido, as feições bonitas, e um certo ar de tristeza que, de quando em quando, lhe cobria o rosto, tudo e cada uma dessas notas particulares era de fazer pensar alguns minutos antes de dormir. Foi o que lhe aconteceu. Vira outras moças; mas nenhuma tinha o ar daquela. E depois era graciosa nos intervalos de tristeza; dizia palavras doces, ouvia com interesse. Supor que o tratou assim só por desconfiar que ele gostava da amiga, isto é que lhe parecia absurdo. Não, realmente, era um anjo.

— Um anjo, disse ele daí a dias ao irmão de Alberta.

— Quem?

— D. Alberta, sua irmã.

— Sim, boa alma, excelente criatura.

— Pareceu-me isso mesmo. Para conhecer uma pessoa, bastam às vezes alguns minutos. E depois é muito galante — galante e modesta.

— Um anjo! repetiu o outro sorrindo.

Quando Alberta soube deste pequeno diálogo — contou-lho o irmão — sentiu-se um tanto lisonjeada, talvez muito. Não eram pedras que o rapaz lhe atirava de longe, mas flores — e flores aromáticas. De maneira que, quando no domingo próximo o irmão o convidou a jantar em casa dele, e ela viu entrar, pouco antes de irem para a mesa, a pessoa do Macedo, teve um estremecimento agradável. Cumprimentou-o com prazer. E perguntou a si mesma, por que é que Finoca desdenhava de um moço tão digno, tão modesto… Repetiu ainda este adjetivo. E que ambos teriam a mesma virtude.

Dias depois, dando notícia do jantar a Finoca, Alberta referiu novamente a impressão que lhe deixara o Macedo, e instou com a amiga para que lhe desse corda, e acabassem casando.

Finoca pensou alguns instantes:

— Você, que já dançou com ele duas valsas e duas quadrilhas, e jantou à mesma mesa, e ouviu francamente as suas palavras, pode ter essa opinião; a minha é inteiramente contrária. Acho que ele é um cacete.

— Cacete porque gosta de você?

— Há diferença entre perseguir uma pessoa e dançar com outra.

— É justamente o que eu digo, acudiu Alberta; se você dançar com ele, verá que é outro; mas, não dance, fale só… Ou então, volto ao plano que tínhamos: vou falar-lhe de você, animá-lo…

— Não, não.

— Sim, sim.

— Então brigamos.

— Pois brigaremos, contanto que façamos as pazes na véspera do casamento.

— Mas que interesse tem você nisto?

— Porque acho que você gosta dele, e, se não gostava muito nem pouco, começa a gostar agora.

— Começo? Não entendo.

— Sim, Finoca; você já me disse duas palavras com a testa franzida. Sabe o que é? É um bocadinho de ciúme. Desde que soube do baile e do jantar, ficou meia ciumenta — arrependida de não ter animado o moço… Não negue; é natural. Mas faça uma coisa; para que Miranda não se esqueça de mim, vá você a S. Paulo, e trate de fazer-me boas ausências. Aqui está a carta que recebi ontem dele.

Dizendo isto, desabotoou um pedaço do corpinho, e tirou uma carta, que ali trazia, quente e aromada. Eram quatro páginas de saudades, de esperanças, de imprecações contra o céu e a terra, adjetivada e beijada, como é de uso nesse gênero epistolar. Finoca apreciou muito o documento; felicitou a amiga pela fidelidade do namorado, e chegou a confessar que lhe tinha inveja. Foi adiante; nunca recebera de ninguém uma epístola assim, tão ardente, tão sincera… Alberta deu-lhe uma pancadinha na face com o papel, e releu-o depois, para si. Finoca, olhando para ela, disse consigo:

— Creio que também ela gosta muito dele.

— Se você nunca recebeu uma assim — disse-lhe Alberta — é porque não quer. O Macedo…

— Basta de Macedo!

A conversa voltou ao ponto de partida, e as duas moças andaram no mesmo círculo vicioso. Não tenho culpa se eram escassas de assunto e de idéias. Hei de contar a história, que é curta, tal qual ela é, sem lhe pôr mais nada, além da boa vontade e da franqueza. Assim, para ser franco, direi que a repulsa de Finoca não era talvez falta de interesse nem de curiosidade. A prova é que, naquela mesma semana, passando-lhe pela porta o Macedo, e olhando naturalmente para ela, Finoca afligiu-se menos que das outras vezes; é certo que desviou os olhos logo, mas sem horror; não deixou a janela, e, quando ele, ao dobrar a esquina, voltou a cabeça, e não a viu fitá-lo, viu-a fitar o céu, que é um refúgio e uma esperança. Tu concluirias assim, rapaz que me lês; Macedo não foi tão longe.

— Afinal, o melhor é não pensar mais nela, murmurou andando.

Entretanto, ainda pensou nela, de mistura com a outra, viu-as ao pé de si, uma desdenhosa, outra atenciosa, e perguntou por que é que as mulheres haviam de ser diferentes; mas, advertindo que os homens também o eram, convenceu-se que não nascera para os problemas morais, e deixou cair os olhos no chão. Não caíram no chão, mas nos sapatos. Mirou-os bem. Que lindos que eram os sapatos! Não eram recentes, mas um dos talentos do Macedo era saber conservar a roupa e o calçado. Com pouco dinheiro, fazia sempre bonita figura.

— Sim - repetiu ele, daí a vinte minutos, Rua da Ajuda abaixo - o melhor é não pensar mais nela.

E pôs mentalmente os olhos em Alberta, tão cheia de graça, tão elegante de corpo, tão doce de palavras — uma perfeição. Mas por que é que, sendo atenta com ele, furtava-se-lhe quando ele a mirava de certo modo? Zanga não era, nem desdém, porque daí a pouco falava-lhe com a mesma bondade, perguntava-lhe isto e aquilo, respondia bem, sorria, e cantava, quando ele lhe pedia que cantasse. Macedo animava-se com isto, arriscava outro daqueles olhares doces e ferinos, a um tempo, e a moça voltava o rosto, disfarçando. Eis aí outro problema, mas desta vez não fitou o chão nem os sapatos. Foi andando, esbarrou num homem, escapou de cair num buraco, quase não deu por nada, tão ocupado levava o espírito.

As visitas continuaram, e o nosso namorado universal parecia fixar-se de vez na pessoa de Alberta, apesar das restrições que ela lhe punha. Em casa desta, notavam a assiduidade de Macedo, e a boa vontade com que ela o recebia, e os que tinham notícia vaga ou positiva do namoro militar, não compreendiam a moça, e concluíam que a ausência era uma espécie de morte — restrita, mas não menos certa. 

E contudo ela trabalhava para a outra, não digo que com igual esforço nem continuidade; mas em achando modo de elogiá-la, fazia-o com prazer, embora já sem grande paixão. O pior é que não há elogios infinitos, nem perfeições que se não acabem de louvar, quando menos para não vulgarizá-las. Alberta temeu, além disso, a vergonha do papel que lhe poderiam atribuir; refletiu também que, se o Macedo gostasse dela, como entrava a parecer, ouviria o nome da outra com impaciência, senão coisa pior — e calou-o por algum tempo.

— Você ainda continua a trabalhar por mim? perguntou-lhe um dia Finoca.

Alberta, um tanto espantada da pergunta (não falavam mais naquilo) respondeu que sim.

— E ele?

— Ele, não sei.

— Esqueceu-me.

— Que se esquecesse não digo, mas você foi tão fria, tão cruel…

— A gente não vê, às vezes, o que lhe convém, e erra. Depois, arrepende-se. Há dias, vi-o entrar no mesmo armarinho em que estivemos uma vez, lembra-se? Viu-me, e não fez caso.

— Não fez caso? Então para que entrou lá?

— Não sei.

— Comprou alguma coisa?

— Creio que não… Não comprou, não; foi falar a um dos caixeiros, disse-lhe não sei quê, e saiu.

— Mas está certa que ele reparou em você?

— Perfeitamente.

— O armarinho é escuro.

— Qual escuro! Viu-me, chegou a tirar o chapéu disfarçadamente, como era costume…

— Disfarçadamente?

— Sim, era um gesto que fazia…

— E ainda faz esse gesto?

— Naquele dia fez, mas sem se demorar nada. Antigamente, era capaz de comprar ainda que fosse uma boneca, só para ver-me mais tempo.. Agora… E até já nem passa lá por casa!

— Talvez passe nas horas em que você não está à janela.

— Há dias, em que estou a tarde inteira, não contando os domingos e dias santos.

Calou-se, calaram-se. Estavam em casa de Alberta, e ouviram um som de caixa de rufo e marcha de tropa. Que coisa mais adequada que fazer uma alusão ao Miranda e perguntar quando voltaria? Finoca preferiu falar do Macedo, agarrando as mãos à amiga:

— É uma coisa que não posso explicar, mas agora gosto dele; parece-me, não digo que goste de verdade; parece-me…

Alberta cortou-lhe a palavra com um beijo. Não era de Judas, porque sinceramente Alberta quis assim pactuar com a amiga a entrega do noivo e o casamento. Mas quem descontaria aquele beijo, em tais circunstâncias? Verdade é que o tenente estava em S. Paulo, e escrevia; mas, como Alberta perdesse alguns correios e explicasse o fato pela necessidade de não descobrir a correspondência, ele já escrevia menos vezes, menos copioso, menos ardente, coisa que uns justificariam pelas cautelas da situação e pelas obrigações de ofício, outros por um namoro de passagem que ele trazia no bairro da Consolação.

Foi, talvez, este nome que levou o namorado de Alberta a frequentá-lo; achou ali uma menina, cujos olhos, mui parecidos com os da moça ausente, sabiam fitar com igual tenacidade. Olhos que não deixam vestígio; ele recebeu-os e mandou os seus em troca — tudo pela intenção de mirar a outra, que estava longe, e pela idéia de que o nome do bairro não era casual. Um dia escreveu-lhe, ela respondeu; tudo consolações! Justo é dizer que ele suspendeu a correspondência para o Rio de Janeiro — ou para não tirar o caráter consolador da correspondência local, ou para não gastar todo o papel.

Quando Alberta notou que as cartas tinham cessado de todo, sentiu em si indignação contra o vil, e desligou-se da promessa de casar com ele. Casou três meses depois com outro, com o Macedo — aquele Macedo — o idiota Macedo. Pessoas que assistiram ao casamento, dizem que nunca viram noivos mais risonhos nem mais felizes.

Ninguém viu Finoca entre os convidados, o que fez pasmar as amigas comuns. Uma destas observou que Finoca, desde o colégio, fora sempre muito invejosa. Outra disse que estava fazendo muito calor, e era verdade.


Texto-fonte: Publicado originalmente em A Estação, 31 de dezembro, 1891

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Pílulas 16

Graciliano Ramos e a fogueira

Um pedaço de pouco: série "Xógum: a gloriosa saga do Japão"

Entrevista é clássica com o grande Marlon Brando https://www.youtube.com/watch?v=rdmXB-OYnS4

Já viu DISCO de VINIL no MICROSCÓPIO? É IMPRESSIONANTE!

Renda no Maranhão é menos de 30% da registrada no DF; veja ranking das UFs

 O surrealismo foi um dos movimentos de vanguarda mais controversos e influentes do século passado - Sérgio Augusto

O porquê de Finoca


Graciliano Ramos e a fogueira
A 'sacanagem' com Graciliano Ramos e a fogueira como amiga leal

Rodrigo Casarin, Colunista de Splash, 21/02/2024

Só um tolo rirá da cara de alguém que colocar Franz Kafka como um dos maiores artistas dos últimos tempos. Em vida, o escritor publicou livros que ainda são lembrados ("Na Colônia Penal" e "Um Artista da Fome", por exemplo) e levou ao público uma das histórias mais marcantes da literatura no século 20: "A Metamorfose".

Mas o cara era inseguro. Desconfiava do próprio talento, não botava muita fé naquilo que escrevia. Largou histórias pela metade, queimou muitos dos seus rascunhos e engavetou outros tantos. Kafka deixou um pedido para Max Brod, seu grande amigo: quando se fosse deste mundo, que desse um fim em toda aquela papelada. Que ninguém fosse xeretar seus manuscritos.

Kafka partiu em 1924, aos 40 anos, após definhar por causa da tuberculose, um dos muitos tormentos de sua vida. Para alegria dos leitores, Brod ignorou o amigo morto. "O Castelo" e "O Processo", grandes romances, estavam entre os originais que deveriam ser destruídos caso a vontade do autor fosse respeitada. A literatura agradece a traição de Brod.
Se Kafka realmente desejava que ninguém lesse aquilo que escreveu e não publicou, por que, então, não destruiu a produção? Por outro lado, para um artista, como saber qual é o momento de abdicar da feitura de uma obra e, no lugar de engavetá-la para ter com ela uma segunda chance no futuro, simplesmente aniquilá-la? Ainda: não é legítimo que alguém, por mais genial que seja, possa escolher quais de suas criações deverão ser levadas ao público?

Poderia elencar dezenas de questões que emergem do caso de Kafka, provavelmente o mais famoso quando o assunto é publicação de livro à revelia do autor morto. O espólio deixado pelo tcheco e preservado por Brod virou quiproquó internacional. Em "O Último Processo" (Arquipélago, tradução de Rodrigo Breuning), Benjamin Balint conta a história das disputas em tribunais por parte do legado do judeu que nasceu na República Tcheca e escrevia em alemão.

Tem sido agitada a entrada da obra de Graciliano Ramos em domínio público. Com uma série de edições de clássicos como "Vidas Secas", "São Bernardo" e "Angústia", herdeiros encampam uma luta para que os escritos do velho Graça não sejam usados comercialmente sem que a família também ganhe alguma grana.

Junto disso, chega às livrarias um texto que Graciliano tinha pedido para que os responsáveis pelo seu espólio mantivessem longe dos leitores. "Os Filhos da Coruja" é um poema assinado por J. Calisto, pseudônimo do escritor que se via como um poeta sem grandes virtudes. Com a entrada em domínio público, sem precisar prestar satisfações a ninguém, a Todavia publicou uma edição dos versos por meio da Baião, seu selo de literatura infantil.

"Os Filhos da Coruja" foi escrito à mão em setembro de 1923, quase três anos depois de Graciliano ficar viúvo. "A Águia e o Mocho", do francês La Fontaine, é a principal inspiração para a breve história de tom fabuloso que se inicia com o encontro da comadre Coruja com o compadre Gavião, bichos de "vaga amizade".

O texto de Graciliano aparece inteiro numa espécie de encarte no centro do volume. O que segura o livro de pouco mais de 30 páginas são as ilustrações — bonitas, sem dúvidas — inspiradas no poema feitas por Gustavo Magalhães.

Em entrevista à Folha, Ricardo Ramos Filho, neto de Graça, considerou uma "sacanagem enorme" contrariarem o desejo de seu avô e publicarem o poema. Ricardo lembra: Graciliano costumava rabiscar os originais e até queimar palavras com a ponta do cigarro para que ninguém descobrisse o que resolvia cortar de seus textos.

Olhando para o que fizeram aqui em 2024, talvez devesse ter usado mais o cigarro contra as criações das quais não se orgulhava. Como Kafka deveria ter confiado mais na lixeira que em Max Brod para manter seus escritos em sigilo. A fogueira, sempre inimiga dos livros, é a companheira mais leal daqueles que não querem que seus textos sejam publicados.

Em todo caso, entre razões de cá e de lá, a literatura costuma agradecer quando o fogo não é aceso.


Os filhos da coruja, Graciliano Ramos, pinturas Gustavo Magalhães - 1ª edição, 2024

“Quem o feio ama, bonito lhe parece” foi a moral da história que Monteiro Lobato escolheu para finalizar sua versão da fábula “A águia e o mocho”, de La Fontaine, que também serviu de inspiração para o poema inédito de Graciliano Ramos. Publicado originalmente em 1923, Os filhos da coruja foi assinado por J. Calisto, um dos pseudônimos utilizados pelo escritor alagoano no início da carreira, e chega aos leitores neste ano em que sua produção entra em domínio público. O livro sai pelo Baião, selo infantil da editora Todavia, e integra a Coleção Graciliano Ramos — ao lado de clássicos como Angústia (1936) e Vidas Secas (1938) —, que tem pesquisa e organização de Thiago Mio Salla, um dos maiores especialistas na obra do autor. “Tu és sempre a coruja e os outros homens são gaviões” é a frase que encerra a versão da fábula escrita por Graciliano Ramos, em estilo inconfundível e bem menos pedagógico do que o adotado por Lobato. Nessa versão poética, o autor não poupa o leitor do fim trágico, tampouco da crítica ácida sobre a espécie humana, tão bem caracterizada no texto pela comadre coruja e pelo compadre gavião.  Cristiane Tavares 


Pinturas de Gustavo Magalhães para ‘Os filhos da coruja’ Divulgação

Os filhos da coruja, Graciliano Ramos

A comadre Coruja encontrou certo dia

O compadre Gavião.
Entre os dois existia uma vaga amizade,
Levara à pia
Daquele bicho fanfarrão
.....

Ao vê-lo, gritou logo:

- "Oh! meu belo compadre!
Que magnífico está! Tão garboso e gentil!
Que ótimas cores!
Que motivo tão forte o traz do imenso espaço
À terra escura e vil,
Onde a sorte acorrenta os bichos inferiores?
Aposto que fareja alguma festa."
- "Não.
Vou à caça, comadre",
Disse, estirando uma asa, o compadre Gavião.
"Aquilo lá por cima há muito tempo que que anda escasso.
Uma seca geral. É pior que o Nordeste.
Não há coisa comível,
E eu tenho - você sabe - o apetite terrível.
Sendo estação a estação ingrata
E não nos fornecendo o ar caça que preste,
A gente vai caçar à mata."
- "Vai à mata? Oh! meu Deus! Isto me dá cuidado.
Eu moro aqui assim por estas bandas. Tenho
Os rapazes em casa... e sós, longe de mim...
Não mos coma, senhor. Você conhece-os? Não?
É fácil conhecer. Por estes arredores
Não há outros assim.
São pequeninos
Lindos como um amores.
É num oco de pau que eu moro, meu adorado.
Não mos coma, valeu?"
- "Valeu, comadre. E então?
Pois eu sou lá capaz de comer-lhe os meninos?
Você sabe que eu venho
Como amigo."
- "Está bem, meu compadre, obrigada."
- "Lindos, hein?"
- "De encantar. Meu Deus! Se você visse!
É num oco de pau, não sei se disse."
- "Disse.
Pode estar descanssada.
Até mais logo. Adeus."
- "Sim, senhor. Passe bem. Dê lembranças aos seus."
.....

O Gavião foi à mata. E os primeiros viventes
Que por lá encontrou
Foram três animais miudinhos, pelados,
Feios como os pecados.
Três bicharocos repelentes.
Meteu, faminto, o bico agudo,
Feriu, espicaçou, matou, estrancinchou,
Fez em pedaços tudo.
.....

Homem que me escutaste
E não vês que tua alma é pequenina e feia;
Que imaginas, vaidoso, um fictício contraste
Entre a beleza dela e a fealdade alheia;
Que em vão tentas dourar a nódoa que te suja
E buscas transformar teus vícios em virtudes;
Como te iludes!
A que te expões!
- Tu és sempre coruja
E os outros homens são gaviões.

Os filhos da coruja, Graciliano Ramos, pinturas Gustavo Magalhães - 1ª edição, 2024

A águia e o mocho, La Fontaine, Jaime Pietor (Trad.)

 Um dia a águia disse ao mocho em ternas frases:
"O que lá vai, lá vai, é bom pormos-lhe ponto
E fazermos as pazes.
— Eu cá por mim, estou pronto".
Respondeu ele. — e os dois juraram, abraçados,
Respeitar um do outro os filhitos amados.
"Conheceis já os meus? — disse-lhe a ave da ciência.
— Não, respondeu a águia, e a ave da ciência
Disse: — Tanto pior. Se nada te resiste,
Como hão de, dize lá, contar os meus filhinhos
Com a tua clemência?

Não lhes queria estar na pele, coitadinhos!
Não, não me fio em ti, porque és rainha, e os reis
Sabem agora lá para que são as leis!
Vocês fazem o mal por um capricho reles.
Filhos do meu amor! Se acaso os vês, ai deles!
— Bem. Pinta-mos, então, e escusas de ter medo.
Que eu te prometo aqui não lhes tocar com um dedo".
O mocho respondeu: "Aqui tens os sinais:
São muito pequenitos,
Mimosos como a flor, esbeltos e bonitos
Como não achas mais;
Tão bem feitos, tão belos.

Que por este retrato hás de reconhecê-los.
Falta-me agora ver se tu és descuidada,
E me entra aí por casa a Parca amaldiçoada.
Hão de agradar-te, sei, mas faze a vista grossa
Bem sabes que sou pai e que os pais são assim.
E respeita-os por mim;
Ai! Quem meus filhos beija, a minha boca adoça!"

Deus dera prole ao mocho, e em noite desabrida,
Que ele batia mato a agenciar a vida,
A águia andando a corso avista de repente
Nuns velhos casarões, todos esburacados,
Uns monstrozinhos tais, de voz tão repelente,
Tão mal feitos de corpo e tão desengraçados,

Que ela disse consigo:
"Não há que recear; não são do nosso amigo".
E com um gesto guapo
A rainha gentil logo os meteu no papo.

Mas vem de volta o mocho, o mocho, que imagina
Ficar ali de vez,
Ao achar, pobre pai!, dos filhos só os pés.

Queixa-se, chora e pede aos deuses punição
Para ela, a assassina,
Que assim lhe veio encher de luto o coração!
"É tua a culpa, alguém então lhe disse, ou antes
É da lei que nos faz achar os semelhantes
A nós, só porque o são, amáveis, lindos, belos.
Por isso os filhos nós perdemos, nós os pais;
Se fizeste dos teus uns elogios tais,
Como podia, dize, a águia reconhecê-los?"

Fábulas de La Fontaine - Antologia, Vários tradutores


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Um pedaço de pouco

Assiti semana passada ao fime "Boy", 2010, do neozelandês Taika Waititi (Aliás, vale assistir dele o premiado "Jojo Rabbit", 2019). Conta a estória de um garoto, o Boy, que tem um pai maluco que, dentre outras coisas, é fanático pelos samurais. E qual a fonte? O livro "Shogum" que James Clavell escreveu em 1975.

Sine qua non, estou vendo a série "Xógum: a gloriosa saga do Japão", no Starplus, baseada no mesmo livro de Clavell. E qual o enredo? Trata da peleja colonialista estre portugueses, espanhois e ingleses no Japão do xogunato nos 1600. Aí leva junto a briga entre católicos e protestantes. Para os japoneses estes não nativos eram chamados de bárbaros. De resto o herói não nativo é ingles. Bom lembrar que James Clavell é australiano, mas se considerava ingles. Ninguém é de ferro, né.

Scorcese, no filme "Silèncio" de 2016, trata da severa perseguição de jesuitas pelos japoneses nos 1600.

Xógum: A Gloriosa Saga do Japão | Trailer Oficial | Star+

Silêncio, Silence, 2016, Martin Scorsese

No século XVII, dois padres jesuítas portugueses são enviados ao Japão à procura do seu mentor desaparecido. Com o país fechado ao exterior e o catolicismo proibido, eles enfrentarão perseguição em uma jornada de descobertas espirituais.
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Entrevista é clássica com o grande Marlon Brando

Qual filme você diria esse foi muito bom. Resposta de Brando: Burn (Queimada)

Entrevista completa com Marlon Brando (1994)

Quando Marlon Brando Foi ATERRADOR

  ASSIM MORREU O ATOR AMERICANO MARLON BRANDO (PODEROSO CHEFÃO) 

 
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Já viu DISCO de VINIL no MICROSCÓPIO? É IMPRESSIONANTE!


Você já viu como a música fica gravada no disco de vinil? Nesses tempos onde tudo é digital, é muito legal ver de perto como era na época da tecnologia analógica. Colocamos um disco antigo no microscópio para mostrar como ele era cheio de ranhuras. E o desenho delas é igual ao da onda sonora, que é exatamente o movimento que a caixa de som faz para reproduzir a música.
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Renda no Maranhão é menos de 30% da registrada no DF; veja ranking das UFs

 Rendimento em 2023
Valor nominal mensal domiciliar per capita, em R$

Distrito Federal     3.357
São Paulo     2.492
Rio de Janeiro     2.367
Rio Grande do Sul     2.304
Santa Catarina     2.269
Paraná     2.115
Mato Grosso do Sul     2.030
Goiás     2.017
Mato Grosso     1.991
Minas Gerais     1.918
Espírito Santo     1.915
Brasil     1.893
Tocantins     1.581
Rondônia     1.527
Amapá     1.520
Roraima     1.425
Rio Grande do Norte     1.373
Piauí     1.342
Paraíba     1.320
Pará     1.282
Sergipe     1.218
Amazonas     1.172
Ceará     1.166
Bahia     1.139
Pernambuco     1.113
Alagoas     1.110
Acre     1.095
Maranhão     945
Fonte: IBGE

O rendimento domiciliar per capita (por pessoa) da população do Maranhão equivale a menos de 30% do registrado no Distrito Federal, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira (28) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No estado nordestino, o valor mensal foi de R$ 945 em 2023. É o equivalente a 28,2% da renda per capita registrada no Distrito Federal: R$ 3.357.

Conforme o IBGE, o Maranhão tem o menor rendimento do país, enquanto o Distrito Federal responde pelo maior. No Brasil, o indicador foi calculado em R$ 1.893 por mês em 2023.
Os valores são publicados de forma resumida pelo IBGE em termos nominais (sem o ajuste pela inflação), o que dificulta uma comparação com anos anteriores.

O rendimento domiciliar per capita representa a razão entre o total das rendas domiciliares e o número de moradores. Nessa conta, o IBGE considera os recursos obtidos com o trabalho e outras fontes.

"Todos os moradores são considerados no cálculo, inclusive os pensionistas, empregados domésticos e parentes dos empregados domésticos", afirma o instituto.
A divulgação atende a uma lei complementar que estabelece os critérios de rateio do FPE (Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal). Os dados são repassados pelo IBGE para o TCU (Tribunal de Contas da União) anualmente.
Em 2022, o rendimento mensal domiciliar per capita havia sido calculado em R$ 1.625 no Brasil, também em termos nominais. Ou seja, ao chegar a R$ 1.893 no país em 2023, o indicador ficou 16,5% maior.

Sem considerar a inflação, o valor também aumentou nas unidades da federação de um ano para o outro. O Distrito Federal, conhecido por reunir servidores públicos com renda mais elevada, seguiu no topo do ranking, enquanto o Maranhão permaneceu na parte inferior da lista.

São Paulo é o segundo local com maior rendimento, alcançando R$ 2.492 em 2023. Rio de Janeiro (R$ 2.367), Rio Grande do Sul (R$ 2.304) e Santa Catarina (R$ 2.269) aparecem na sequência.

Entre os estados com rendimento menor, o predomínio é de integrantes do Nordeste e do Norte. Além do Maranhão (R$ 945), Acre (R$ 1.095), Alagoas (R$ 1.110), Pernambuco (R$ 1.113) e Bahia (R$ 1.139) também ocupam as últimas posições do levantamento.

.....

"Diga a si mesmo que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo" André Breton, Manifesto do Surrealismo

Quantos jovens sabem que o adjetivo ‘surreal’ deriva de um movimento centenário?

 O surrealismo foi um dos movimentos de vanguarda mais controversos e influentes do século passado

Sergio Augusto, O Estado, 25/02/2024

Quantos de nossos jovens saberão que o adjetivo “surreal”, por eles usado a torto e a direito para qualificar qualquer coisa que lhes pareça absurda, deriva de um dos movimentos de vanguarda mais controversos e influentes do século passado? Tão do século passado, que está fazendo 100 anos.
O surrealismo, fruto de uma época quase tão conturbada quanto a nossa e também assolada por uma pandemia (a gripe espanhola), nasceu oficialmente em 1924, impulsionado por um manifesto concebido por dois poetas franceses, André Breton e Philippe Soupault, sob influência de um terceiro (Apollinaire), morto seis anos antes.
Se não revolucionou, muito agitou a literatura, a poesia, as artes plásticas e cênicas, o cinema, o humor.
No tal manifesto, o primeiro de dois (o segundo sairia em 1930), Breton detonava o equilíbrio, o realismo (“hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral” e refúgio dos medíocres), proclamava a prevalência absoluta do sonho, do inconsciente, do instinto e do desejo, pregava a renovação de todos os valores filosóficos, morais, políticos e científicos, preconizando uma nova maneira radical de ver as artes, o mundo – e a vida. O artista surrealista por excelência seria aquele “capaz de visualizar um cavalo galopando sobre um tomate”.

 
Quadro de René Magritte 

”Não  é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio pau a bandeira da imaginação”, ameaçava Breton numa das melhores imprecações do manifesto, visceralmente antimilitarista (a Grande Guerra terminara seis anos antes) e anticlerical. Porém, esperançoso. Augurou que um dia a poesia decretasse o fim do dinheiro, utopia que a poesia não logrou, nem o Pix deverá consumar.
Um humor travesso, juvenil, perpassa suas criações, com relógios que se derretem, xícaras revestidas de pele animal, mas também lampejos que transcendem o onírico para “épater” de Salvador Dalí, o espertalhão do grupo, que Luis Buñuel rifou depois de Um Cão Andaluz.

Antecipando-se às celebrações do centenário na Europa, com Bélgica e Paris (Centro Pompidou) liderando a programação, a Yale University Press lançou mês passado um estudo de Mark Polizzotti sobre a relevância e o legado do movimento, Why Surrealism Matters. Os slogans pichados nos muros de Paris pela estudantada rebelde de Maio-68 tinham DNA surrealista, assim como os protestos anticolonialistas na França durante as guerras na Indochina e Argélia. Até nas reformas pedagógicas de Piaget e Montessori encontraram as digitais do surrealismo.

Os irmãos Marx, a poesia beat, o Teatro do Absurdo, Bob Dylan, Monty Python e David Lynch – todos estes, mais os brasileiros Ismael Nery, Cícero Dias, Tarsila do Amaral, Murilo Mendes, Roberto Piva e Sérgio Lima – nutriram-se da mesma seiva anárquica que nos premiou com as pinturas de Max Ernst e Magritte e os filmes de Buñuel, entre outros tesouros culturais. É muita relevância junta.


E mais
Surrealismo

O porquê de Finoca

A Finoca do título é o apelido da Orípia Pereira de Carvalho, 98 (21/09/1922 – 25/11/2020), minha mãe. Escrevi sobre ela neste Blog quando ela fez 89 anos. Leia aqui https://librinas.blogspot.com/search?q=Finoca

Boa parte da cabeça da Finoca foi feita num colégio de freiras. Teve sua educação formal no Colégio Anjo da Guarda em Bebedouro (colégio interno) no período de 1932 a 1942. Foram 11 anos de colégio interno divididos em quatro de primário, cinco de ginásio e dois de escola normal. Lá estudou Latim, Francês, Português, Geografia, História, Matemática, Física, Educação Moral e Cívica, Música, Trabalhos Manuais, Desenho, Sociologia, Pedagogia e Prática Pedagógica.

Casou-se com Sebastião Cardoso Carvalho Sobrinho, 66 (02/12/1919 – 11/03/1986), o Tatau. Orípia casou-se com Sebastião no dia 5 janeiro de 1946 e exonerou-se da escola durante o período de 1945 a 1948. Neste período tiveram Aluisio (1946) e Maria Cristina (1949). Sebastião pedira à esposa que ficasse em casa para cuidar dos filhos. Mas em 1949 Finoca voltou a trabalhar a contragosto do marido, para ajudar no sustento da família. Ela contrariou o pai para casar e agora contrariava o marido para voltar ao trabalho como professora. Isto na década de 1940. Ela seguiu a história de outras duas librinas porretas: Inácia Bernarda e Mariana Librina (tias-triavó de Finoca) sobre as quais já escrevi neste Blog. Só ler em Mariana Librina aqui e Inácia aqui

Depois a caminhada de Finoca seguiu. Até hoje (em fevereiro de 2024) na árvore genealógica dela e Tatau têm 8 filhos (4 mulheres e 4 homens), 17 netos (12 mulheres e 5 homens) e 17 bisnetos (10 mulheres e 7 homens).

Este texto tem a pretensão de resolver a seguinte questão. De onde veio o apelido da Orípia? Finoca apareceu quando e como?

Falhamos, nós ancestrais, em não perguntar sobre a origem do apelido quando viva Orípia estava.

Geralmente procuramos fontes de investigação sobre um tema em questão. No caso existem as correspondências (cartas) entre Orípia e Sebastião. São várias, mas até então não percebi pistas que respondem à pergunta. De onde veio Finoca?

Hoje tenho uma hipótese.

Imperativo dizer que, face ao conteúdo pedagógico do Colégio Anjo da Guarda, Orípia e colegas leram, e muito, Machado de Assis.

Já que estamos falando dele vem a tona o conto “Pobre Finoca!”. Ei-lo aqui

Lembrança importante. Orípia começou seus estudos com 10 anos e terminou 11 anos depois. Nas idas e vindas de Bebedouro a Barretos conheceu Sebastião e começou o namoro meio que a contragosto do pai. As cartas trocadas entre os dois documentam este idílio amoroso.

Mas voltando ao conto do Machado: Finoca, Alberta e Macedo formam um trio de personagens que se interagem. No princípio Macedo se interessava por Finoca e Alberta no papel de cupido.

Não, Finoca não tinha atração por Macedo. Ela o considerava um idiota. — Eu não disse desprezível, acudiu Finoca. — Você disse idiota. — Sim; idiota…

O que Alberta não esperava foi a desilusão com seu namorado. Ele estava em São Paulo e se engraçou com outra menina por lá.

Para onde foi a estória?

Quando Alberta notou que as cartas tinham cessado de todo, sentiu em si indignação contra o vil, e desligou-se da promessa de casar com ele. Casou três meses depois com outro, com o Macedo — aquele Macedo — o idiota Macedo. Pessoas que assistiram ao casamento, dizem que nunca viram noivos mais risonhos nem mais felizes.

Resumo da ópera. Alberta com Macedo e Finoca aliviada.

Sem ficção agora. Orípia sempre falava das amigas do Colégio Anjo da Guarda. E estas amigas leram o conto do Machado. Não deu outra. Orípia se tornou Finoca.

Tudo a ver.

 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O casarão da 4

Rua 4, nº 41, Praça São Sebastião, Barretos, SP. Neste endereço está o casarão do título. É o local da moradia de Orípia Pereira de Carvalho (1922 - 2020), a Finoca, minha mãe. A autoria do título acima é de uma amiga da família, Maria Aparecida S. Campos.

Finoca viveu nesta casa desde 1946, ano em que se casou com Sebastião Cardoso Carvalho Sobrinho (1919 - 1986). Foi lá que conviveu com 4 filhas, 4 filhos, 12 netas, 5 netos, 9 bisnetas e 6 bisnetos. Uma família de, por enquanto, com 40 pessoas, 25 mulheres e 15 homens. A ávore genealógica da família está apresentada abaixo, no formato cmap.

 

 Já comentei, neste espaço, um pouco da vida da Orípia num texto com o título "Finoca". Lá disse que a mãe, a esposa, a mulher e a professora sempre estiveram na mente e no coração da Finoca. 

Acompanhei de perto a vida desta mulher nos últimos 60 anos. Além da escola a professora tinha uma vida em outro território: o Casarão da 4.


A fachada do casarão

 

O quintal com o tamarindo e a palmeira de 20 metros de altura

A varanda em que Orípia ficava


 O alpendre com o lírio da Amazônia, que está lá desde 1946

Orípia faleceu no dia 25 de novembro de 2020 com 98 anos.


Virou estrela e está no céu. 


Aqui na terra viveu com dignidade.

Finoca (1922 - 2020)

Clóvis Pereira Cardoso (1958 - 2021) e Finoca, mãe e filho, figuras permanentes e inesquecíveis do Casarão da 4 
 
Em tempo: sobre o assunto em tela, Avô e



terça-feira, 18 de outubro de 2022

Pílulas 8

Baleias

Finoca 100

Mulheres que enfrentaram desafios pela liberdade

Otto Lara Resende ganha filme sensível em seu centenário - Sérgio Augusto

Série da HBO Max, 'Irma Vep' é um passeio pelos bastidores do cinema

Conversando sobre o faroeste italiano 


Baleias

Baleias encalham em praia na região de Tasmânia, na Austrália; autoridades estimam haver quase 230 animais no local e quase metade já está morta. NRE - 20 setembro de 2022 / Via Reuters

Mais de 200 baleias encalham na Austrália, e autoridades temem mortes

Quase 200 baleias-piloto morreram depois que ficaram encalhadas em uma praia na costa oeste da ilha australiana da Tasmânia, onde as equipes de resgate conseguiram salvar pouco mais de 30 animais.

Após um grande esforço em condições difíceis, as autoridades anunciaram que apenas 32 das 226 baleias-piloto encalhadas tinham força suficiente para um resgate. "Estamos trabalhando para levar as baleias que foram consideradas aptas de volta ao mar", declarou Sam Thalmann, biólogo marinho, à AFP. As imagens aéreas mostram dezenas de baleias ao longo da areia da praia Ocean.

Após a descoberta dos animais, os moradores da região cobriram as baleias com mantas e usaram baldes de água para mantê-las com vida. Mas na maioria dos casos isto não foi suficiente. "Infelizmente temos uma taxa elevada de mortalidade neste encalhe. Isto se deve principalmente às condições de exposição na praia Ocean", afirmou Brendon Clark, diretor de operações do departamento local de vida selvagem. "As condições ambientais, as ondas na costa oeste, certamente estão afetando os animais", acrescentou. Entre as tarefas também estava a retirada dos cadáveres dos animais para evitar atrair tubarões para a área.

Há dois anos, a região foi cenário do encalhe de quase 500 baleias-piloto, o maior já registrado no país. Mais de 300 morreram, apesar dos esforços de resgate. Clark disse que, na época, as condições eram menos severas para os cetáceos porque estavam "em águas muito mais resguardadas".

INVESTIGAÇÃO DAS CAUSAS

Os restos mortais das baleias serão submetidos a necropsias para tentar determinar o motivo do encalhe, muitas vezes desconhecido. Os cientistas sugerem que o fenômeno pode ser provocado por animais que perderam o rumo depois de procurar alimentos perto da costa.

As baleias-piloto,  que podem atingir seis metros, são muito sociáveis e costumam seguir os companheiros de grupo que entram em situações de perigo. Em algumas ocasiões, isto acontece quando baleias idosas, doentes ou feridas nadam até a costa e outras integrantes do grupo as seguem, em uma tentativa de responder aos sinais de socorro da baleia que ficou encalhada.

Alguns cientistas acreditam que praias levemente inclinadas como as da Tasmânia confundem o sonar dos cetáceos e os levam a pensar que estão em mar aberto. Esta semana também foram encontrados 14 cachalotes machos jovens mortos, encalhados em uma praia remota em King Island, entre a Tasmânia e a costa de Melbourne. A morte dos cetáceos poder ser um caso de "desventura", afirmou o biólogo da vida selvagem Kris Carlyon, da agência ambiental do governo, ao jornal local Mercury.

A Nova Zelândia também registra encalhes com relativa frequência. No país, quase 300 animais são encontrados encalhados por ano em média, de acordo com os números oficiais. Não é incomum observar grupos de 20 a 50 baleias-piloto encalhadas em uma praia.

Mas os números podem alcançar centenas, como em 2017, quando cerca de 700 baleias ficaram encalhadas.

O termo baleia-piloto é a designação comum aos mamíferos cetáceos do gênero Globicephala, que ocorrem nos oceanos de todo o mundo. Tais mamíferos chegam a medir até 8,5 metros de comprimento, de coloração negra, cabeça em forma de globo sem bico definido e dentes presentes. Também são chamados de globicéfalo, caldeirão e golfinho-piloto. https://pt.wikipedia.org/wiki/Baleia-piloto

Por que baleias e golfinhos encalham? Saiba mais

https://marsemfim.com.br/por-que-baleias-e-golfinhos-encalham-saiba-mais/

Beached Whales | World's Weirdest vídeo

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Finoca 100

Hoje, 21 de setembro de 2022, Finoca, minha mãe faz 100 anos. Ela ancestralizou-se no dia 25 de novembro de 2020. Viveu com dignidade e está estrela no céu. Salve Finoca.


Finoca

Casarão da 4

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Mulheres que enfrentaram desafios pela liberdade

 
Kijini Primary School students learn to float, swim and perform
                                                           rescues in the Indian Ocean off of Muyuni, Zanzibar.

https://www.annaboyiazis.com/finding-freedom-in-the-water

Fotos de mulheres que enfrentaram desafios pela liberdade são tema de exposição

Por Ubiratan Brasil, O Estado,13/10/2022

A presença de mulheres na arquibancada de estádios em jogos de futebol é corriqueira em muitas regiões do mundo, mas a imagem registrada em 2018 pela fotógrafa iraniana Alaei Forough, que mostra torcedoras iranianas assistindo a uma partida em um estádio em Teerã, é significativa: as leis do país não permitem o acesso feminino em estádios, mas, naquele dia, um grupo delas pôde assistir ao jogo entre Persépolis e o time japonês do Kashima Antlers.

A imagem captada por Alaei, mostrando a reação das torcedoras na arquibancada, tornou-se significativa como exemplo, ainda que fugaz, de liberdade. Tanto que foi uma das vencedoras do concurso da World Press Photo de 2019 com o título Crying for Freedom (Gritando por liberdade, em tradução livre). É justamente a intenção de mostrar tal força feminina diante de adversidades que inspira a exposição Resiliência - Histórias de Mulheres que Inspiram Mudanças, que abre nesta sexta, 14, no Instituto Artium de Cultura.

São retratos documentados por 17 fotógrafos, de 13 nacionalidades diferentes, entre 2000 e 2021 e que expressam, por meio das imagens, suas visões sobre questões como sexismo, violência contra mulher e direitos reprodutivos. “São exemplos de luta pela igualdade de gênero”, observa Wieneke Vullings, cônsul-geral do Reino dos Países Baixos, que organizou a mostra juntamente com a Fundação The World Press. “E é ainda mais significativo agora, quando vivemos o período pós-pandemia e que podemos sair de casa e voltarmos a nos preocupar com o que acontece ao redor do mundo.”

De fato, a imagem das torcedoras se expressando livremente no estádio iraniano revela uma forte carga de resistência: antes, quem se arriscasse era sumariamente encarcerada. Foi o que aconteceu em 2018, quando 35 mulheres foram presas depois de tentarem entrar em um estádio para acompanhar o jogo entre Persépolis e Esteghlal.

As mais determinadas, como Alaei Forough, chegaram a se disfarçar como homens para conseguirem acesso às arquibancadas. Foram momentos de tensão, pois houve hostilidade de alguns torcedores, mas também outros homens as apoiaram a seu modo, ou seja, ficando em silêncio mesmo sabendo que estavam ao lado de uma mulher.

A liberação para aquela partida contra o time japonês - que só veio depois de uma pressão da Fifa - foi como a explosão de um grito preso no peito. “Lembro que, quando passamos pelo portão e entramos no estádio, não consegui segurar as lágrimas por cerca de 10 minutos. Era tão humilhante quando você tinha de mudar seu rosto - nós até tivemos de enfaixar nossos seios para parecerem achatados como o dos meninos”, contou Alaei ao site Artistas No Musas, que defende os direitos femininos.

São momentos significativos como esse que marcam a exposição. Wieneke aponta outro exemplo de resiliência: o retrato Finding Freedom in the Water (Encontrando liberdade na água, em tradução livre), da fotógrafa Anna Boyiazis, compartilha a história de alunas da Escola Primária Kijini que aprendem a nadar e a realizar salvamentos, no Oceano Índico, na Praia de Muyuni, Zanzibar.

Tradicionalmente, as garotas do Arquipélago de Zanzibar são dissuadidas de aprender a nadar, muito por causa da falta de roupas de banho mais recatadas. “Sou mãe de uma menina de 4 anos, que frequenta livremente aulas de natação, portanto, essa imagem é particularmente forte para mim.”

Para ela, além do aspecto estético, as fotografias refletem um compromisso contra a violência contra mulheres, uma grave ameaça global.

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Otto Lara Resende ganha filme sensível em seu centenário

Compartilhávamos muito mais afeições e manias, além de torcer pelo Botafogo, do que supúnhamos

Sérgio Augusto, FSP, 15/10/2022

Os dois únicos Otto que tive o privilégio de desfrutar como amigos estão de volta ao noticiário cultural. O austríaco Carpeaux (Otto Maria) com a reedição, pela Faro Editorial, de sua História da Música, lançada 64 anos atrás, e o mineiro Lara Resende com um documentário, Otto, De Trás P/ Diante, dirigido por sua filha caçula, Helena, e Marcos Ribeiro, exibido esta semana no Festival de Cinema do Rio. Não conheci xarás que lhes fizessem sombra, nem me apontaram outro palíndromo de comparáveis grandezas. Verdade que o americano Otto Soglow, criador do Reizinho dos quadrinhos, nunca viveu entre nós.

Conheci, e até entrevistei, Rian, nom de plume adotado pela versátil Nair de Teffé, segunda esposa do presidente (e marechal) Hermes da Fonseca e nossa primeira mulher caricaturista. Vê-se que já fomos bem melhores também em matéria de primeira-dama. De marechais, nem tanto.

O simples, sensível e amoroso documentário da Heleninha, articulado em torno de cartas, bilhetes e outros escritos de seu grafomaníaco pai, lidos pela atriz Julia Lemmertz e pelo ator Rodolfo Vaz (um Otto muito mais do que convincente), tem o condão de despertar inveja naqueles que não conviveram com o biografado e seus três mais íntimos cupinchas mineiros e muita saudade naqueles que testemunharam o seu tempo, para ele encerrado em 28 de dezembro de 1992, dois dias antes, hélàs!, do impedimento do presidente Fernando Collor de Mello, pelo qual ansiava fervorosamente.

Quando há dias o ogro que nos governa ameaçou a República de, se reeleito, escalar Collor como ministro, fui, só de curiosidade, pesquisar o que Otto escreveu sobre ele, em suas crônicas na Folha entre 1991 e 1992. Elogiou-lhe a eloquência, e foi só. Abordou discretamente a polêmica em torno das acusações de plágio envolvendo o diplomata e ensaísta José Guilherme Merquior, e não se furtou a equiparar o plagiário presidente em fim de mandato a “um Napoleão de hospício”.

 
O crítico literário Antonio Candido e os escritores Fernando Sabino, ao centro, e Otto Lara Resende, à direita Foto: Instituto Moreira Salles

Otto foi meu inesperado guia por Lisboa na primeira vez em que a visitei, em 1969. Prestes a deixar seu posto de adido cultural em Portugal, encontrei-o na casa de Cláudio Mello e Souza, e ele me adotou, sem papel passado. Tive a honra de substituí-lo nas férias e folgas no espaço que lhe cabia na página 2 da Folha e de ter sido, também, o primeiro repórter a entrevistá-lo sobre a barba que, no auge de uma depressão, desempregado e sem planos para o futuro, decidiu cultivar em meio aos festejos do réveillon de 1984. “Se eu fosse um pouco mais burro, seria mais feliz”, foi um de seus primeiros desabafos com aquele new look meio Hemingway, meio Papai Noel, meio mendigo.

Compartilhávamos muito mais afeições, manias e idiossincrasias, além de torcer pelo Botafogo, do que a princípio supúnhamos. Apinhar de informações inúteis o cérebro, por exemplo. Vez por outra, altas horas, ele me ligava, intermediado pelo arquiteto Marcos de Vasconcellos, para tirar dúvidas sobre o nome de uma loja de eletrodomésticos famosa no centro do Rio dos anos 1950 ou como era mesmo que se chamava o personagem de Orson Welles em O Terceiro Homem. E se eu respondesse de primeira, no automático, resmungava: “Bandido!”

O que estaria achando e dizendo desse pandemônio em que nos meteram?, indagou-me um amigo em comum, ao final da sessão de Otto, Detrás P/ Diante. Fácil de prever, dado o proverbial ceticismo do personagem. Cético, porém propenso à ironia, talvez agradecesse não estar mais vivo para presenciar o grotesco espetáculo diuturnamente oferecido por Bolsonaro.

Em outro momento de crise nacional, embora não comparável ao atual, chegou a ameaçar “trancar sua matrícula de brasileiro”. Nos estertores do governo Collor, admitiu “não ter o direito de enjoar a bordo do Brasil”, reconhecendo afinal que, por ter assistido tantas vezes àquele filme, tinha, sim, o direito ao enjoo. Hoje é provável que estivesse vomitando a própria alma.

Ficção de Otto Lara Resende, à margem por décadas, é tesouro secreto da literatura brasileira

Crítica | Mais do queuma biografia, ‘Otto: de trás p/ diante’ fala sobre paixão por Literatura

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Série da HBO Max, 'Irma Vep' é um passeio pelos bastidores do cinema

Alicia Vikander vive a nova versão da protagonista na atração de Olivier Assayas que já foi tema de filmes no exterior e no Brasil

Helen Beltrame-Linné​, FSP, 14/10/2022

Roteirista e consultora de dramaturgia, foi diretora da Fundação Bergman Center, na Suécia, e editora-adjunta da Ilustríssima

Uma série de 2022 sobre um filme-seriado de 1915 que já havia sido objeto de um longa-metragem do mesmo diretor em 1996. Pode parecer confuso, mas "Irma Vep", criada por Olivier Assayas para a HBO Max, vale o mergulho metalinguístico.

Lançada no Festival de Cannes deste ano, a série é um passeio delicioso por Paris e pelos bastidores da indústria cinematográfica em toda sua complexidade.

Do drinque refinado no restaurante cinco estrelas para o café em copo de papelão no set de filmagem. Da elegância andrógina diante das câmeras das premières até a solidão dos quartos de hotel, passando pelos ataques histéricos de atores pouco convencionais. Em oito episódios, Assayas consegue revelar a mistura inusitada que compõe o fazer cinematográfico: glamour e tédio, fluidos corporais e instantes sublimes.

Uma série de 2022 sobre um filme-seriado de 1915 que já havia sido objeto de um longa-metragem do mesmo diretor em 1996. Pode parecer confuso, mas "Irma Vep", criada por Olivier Assayas para a HBO Max, vale o mergulho metalinguístico.

Lançada no Festival de Cannes deste ano, a série é um passeio delicioso por Paris e pelos bastidores da indústria cinematográfica em toda sua complexidade.

Do drinque refinado no restaurante cinco estrelas para o café em copo de papelão no set de filmagem. Da elegância andrógina diante das câmeras das premières até a solidão dos quartos de hotel, passando pelos ataques histéricos de atores pouco convencionais. Em oito episódios, Assayas consegue revelar a mistura inusitada que compõe o fazer cinematográfico: glamour e tédio, fluidos corporais e instantes sublimes.

 
Cartaz da série 'Irma Vep', criada por Olivier Assayas - Divulgação

Ainda que seja desnecessário para desfrutar a nova "Irma Vep", aproveito a chance para falar da obra que está na origem dos dois trabalhos homônimos de Assayas. "Os Vampiros", um "filme em série" composto de dez partes, foi criado na década de 1910 por Louis Feuillade, à época diretor artístico do respeitável estúdio Gaumont. No seu lançamento, a obra foi acusada de glorificar o crime e, inclusive, censurada por atentar contra os bons costumes.

Mas o sucesso de público viria em seguida, em muito capitaneado por Musidora, atriz que interpretava Irma Vep, uma personagem sedutora de moralidade dúbia que a consagraria como a grande vedete do cinema francês. Com os anos, viria também a consagração artística: "Os Vampiros" desenvolveu técnicas de suspense que seriam depois adotadas por mestres como Fritz Lang, Hitchcock e Buñuel, para citar alguns.

Irma Vep, por sua vez, tornou-se inspiração para diversas obras derivadas. No Brasil, muitos devem se lembrar da lendária comédia "O Mistério de Irma Vap", com Marco Nanini e Ney Latorraca nos papéis principais —que foi dirigida por Marília Pêra com base na peça homônima de Charles Ludlam e ficou em cartaz durante anos na década de 1980.

No filme homônimo dirigido por Assayas em 1996, Irma Vep era interpretada por Maggie Cheung, mais conhecida como musa de Wong Kar-wai, e que foi casada com Assayas.

Na nova série, o papel foi dado a Alicia Vikander, uma atriz talentosa que não era tão bem aproveitada desde seu papel em "A Garota Dinamarquesa", que lhe rendeu um Oscar em 2016. Sua presença em cena é cativante e vê-la deslizar pelos cenários com seu colant vampiresco é um prazer que recomendo ser desfrutado na tela grande.

Outra estrela inegável da série é Vincent Macaigne –ele próprio um premiado realizador de curtas na vida real–, que interpreta o diretor fictício René Vidal com um repertório surpreendente de tons e estados de espírito.

Os elogios podem ser estendidos a colaboradores regulares de Assayas que completam o elenco: Nora Hamzawi, extremamente hábil como a diretora-assistente Carla, que tenta navegar as águas turbulentas da filmagem; Jeanne Balibar como a figurinista charmosa e paqueradora Zoe; e Lars Eidinger no papel do repulsivo Gottfried, que toma a filmagem como um furação corrosivo.

A modelo Devon Ross é outra que merece menção, ao desempenhar com tranquilidade o papel de Regina, a assistente pessoal de Mira que é, acima de tudo, uma cinéfila e diretora principiante. A crença de sua personagem no cinema como magia vai permitir uma transição formal extremamente interessante para a série, que passa a explorar a distorção de imagens e a forma cinematográfica em todo o seu potencial imagético. É algo que, combinado com a trilha sonora de Thurston Moore, pode se tornar uma experiência sensorial inédita para muitos espectadores de streaming.

Outro ponto que se destaca na produção é a elegância absoluta da direção de Assayas. E não me refiro apenas ao excepcional figurino de Jürgen Doering ou à coreografia de cena do genial Angelin Preljocaj (que aparece em alguns episódios em ação fazendo o que faz de melhor: desenhando os movimentos de Irma Vep).

O cuidado de Assayas com detalhes se estende ao roteiro, que é extremamente bem decupado e revela um verdadeiro tour de force do francês para dar conta de todas as tramas e linhas paralelas que a série aborda. Ainda que, no nível das cenas, alguns diálogos incomodem por serem mera recapitulação didática de pontos da trama original do filme de 1915.

Incomodam porque os fatos pouco interessam. "Irma Vep" é uma obra sobre performance. Obviamente da atriz Mira, que faz isso profissionalmente e também nas suas horas vagas. Mas, especialmente, do diretor René Vidal, que é obrigado, ele mesmo, a desempenhar essa função no trato com seus atores e sua equipe –ainda que ele falhe ocasionalmente, deixando seu sofrimento profundo transbordar para fora da sala de terapia.

Para alguém que trabalha no audiovisual e se interessa profundamente pela forma pela qual se conta uma história, é muito interessante ver a inquietude de um artista como Olivier Assayas, que continua se desafiando e buscando alguma coisa que nem ele bem sabe o que é. "Irma Vep" é uma anomalia no mundo do streaming. Porque é difícil de classificar. Porque é cinema dividido em partes. Porque Assayas não presta contas para o mundo, mas para si mesmo. Porque ele, como, como declarou em Cannes, está perdido. E nós adoramos isso.

Helen Beltrame-Linné​, FSP 

Roteirista e consultora de dramaturgia, foi diretora da Fundação Bergman Center, na Suécia, e editora-adjunta da Ilustríssima

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13/10/22

Conversando sobre o faroeste italiano

Não se deve esquecer que o western corresponde não apenas à história dos Estados Unidos – para os europeus, representa à saga dos nibelungos. ('Afinal quem faz os filmes', Peter Bogdanovich, p. 234, Companhia das Letras, 2000).

No período de 1966 a 1970 o cinema italiano foi contaminado pelo faroeste. Já nos estertores do neorrealismo, apareceram estes filmes com uma cinematografia diferente do western USA. Aproveitavam-se da linguagem, mas queriam algo diferente do bem e mal, mocinho e bandido e ação pela ação. Inseriam as questões sociais, o existencialismo, o barroco e até o surrealismo. Almería, na Espanha, se tornou o cenário da roliudi do western com seus desertos e montanhas. O equivalente a Monument Valley dos faroestes de John Ford.

Alguns destaques relevantes desta onda de faroestes italianos: os três Sérgios – Corbucci, Leone e Sollima, Damiano Damiani, Enzo G. Castellari e outros

Abaixo, alguns filmes clássicos destes nibelungos italianos. Dicas para iniciar esta revisão: O Vingador Silencioso, Keoma, Corre Homem, Corre e Gringo, Quién sabe?

O Vingador Silencioso, Il grande silenzio, 1968, Sergio Corbucci

No iutubi aqui

Os Cruéis, I crudeli, 1967, Sergio Corbucci

O Especialista - O Vingador de Tombstone, Gli specialisti, 1969, Sergio Corbucci

Sobre Sergio Corbucci(1926–1990)

Keoma, 1970, Enzo G. Castellari

No iutubi aqui

 

Django, 1966, Sergio Corbucci

No iutubi aqui


Corre Homem, Corre, Corri uomo corri, 1968, Sergio Sollima

No iutubi aqui

 


Era uma Vez no Oeste, C'era una volta il West, 1968, Sergio Leone

Gringo, Quién sabe?, 1967, Damiano Damiani

No iutubi aqui ou aqui

E Deus Disse a Caim, E Dio disse a Caino...,1970, Antonio Margheriti

No iutubi aqui

Django Vem Para Matar, Se sei vivo spara, 1967, Giulio Questi

No iutubi aqui