domingo, 28 de agosto de 2022

Marte um

"Marte um" é um filme sensível sobre sonhos

Luiz Carlos Merten, 28/08/2022 O Estadão

Cinéfilo de carteirinha não esquece a frase final de Quanto Mais Quente Melhor, quando Jack Lemmon se revela como homem para Joe E. Brown e o eterno Boca Larga lhe diz: "Ninguém é perfeito". A frase tornou-se emblemática do cinema do grande Billy Wilder. No desfecho de Marte Um, face ao que parece uma dificuldade intransponível, o pai, feliz de haver reencontrado a família, diz algo como: "A gente dá um jeito". Dar um jeito está na vocação de vida do brasileiro, não importam as dificuldades. Com afeto, tudo se torna possível. Marte Um!

O GAROTO E O FUTEBOL. Tudo começou com uma imagem a perseguir o diretor Gabriel Martins. Um garoto, num campo de futebol, olhando para o céu. Parece pouco para dar origem a um filme tão rico e emocionante, mas foi assim. O garoto que tenta carreira no futebol, o pai e a mãe, a irmã. Foram crescendo - a história e o roteiro.

De fundo, logo no início, a eleição de Jair Bolsonaro. Marte Um estreou nesta quinta-feira, 25, nos cinemas brasileiros, depois de passar pelos festivais de Sundance, em janeiro, e Toulouse, em março e abril. Desde o debate no Festival de Brasília, quando o repórter levantou publicamente a questão, já se falava em Marte Um como um candidato do Brasil a uma vaga no Oscar de melhor filme internacional de 2023.

CONTAGEM NO MUNDO. A empresa mineira Filmes de Plástico colocou Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, no mapa do cinema mundial. O dinheiro é curto, a criatividade, imensa. Desde a boa acolhida a Marte Um em Sundance, a ideia era chegar logo às salas.

"Queríamos que o filme fosse lançado antes do acirramento do processo eleitoral. Daqui a pouco não vai se falar em outra coisa no Brasil. A polarização arrisca a parar tudo. O 25 de agosto pareceu a data ideal", explica o produtor Thiago Macêdo Correia. Em Gramado, muito se falou sobre o humor do filme. Mas não se trata de uma comédia rasgada. Talvez uma dramédia. O elemento melodramático é muito forte.

Havia gente chorando - monte de gente - no final da apresentação oficial do filme no festival. "Superou a expectativa. É um filme sobre sonhos e o nosso era trazer o filme a Gramado. Já havíamos escolhido a data de estreia antes mesmo de saber que Marte Um estaria na seleção", explica o diretor-roteirista. "Histórias de família podem ser universais e esse é o nosso jeito de contar história, com personagens diferentes e uma família potente", acrescenta Martins.

Resumindo: a família é preta, periférica. O pai, ex-alcoólatra, é porteiro de um prédio de classe média alta; a mãe é doméstica e, vítima de uma pegadinha, passa a agir como se tivesse perdido o eixo. A filha está embarcando numa relação que não é a sonhada pelos pais e o filho - o garoto - está dividido.

O desejo de ser astro de futebol - no Cruzeiro! - é do pai, não de Deivinho. Seu sonho é ser astrofísico, para embarcar num programa da Nasa - o Marte Um - que promete levar terráqueos ao chamado Planeta Vermelho. Qual é a chance de isso ocorrer com um garoto brasileiro e periférico? "A chave do filme é a empatia, e a potência vem da possibilidade de identificação, que já testamos com as plateias de Sundance, Toulouse e Gramado. Eu adoro o cinema iraniano, conheço a periferia de várias cidades e países através do cinema e, apesar das diferenças culturais enormes, consigo entender e me identificar com esses personagens distantes só pelo olhar deles sobre as coisas."

É o primeiro longa solo de Gabriel, após No Coração do Mundo, que fez com Maurílio Martins. Ele credita a empatia de Marte Um ao próprio roteiro - "É feito de muitos detalhes que vão construindo com solidez a história da família, mas não seria a mesma coisa sem o nosso elenco. Os atores foram muito inteligentes na forma de comunicar as emoções".

Num festival marcado por mães sofredoras, de filhos desaparecidos ou jurados de morte - em A Mãe, de Cristiano Burlan, e Noites Alienígenas -, o afeto que emerge de Marte Um, a esperança, levou a que muita gente torcesse por Carlos Francisco e Rejane Vieira, o Wellington e a Tércia. Nenhum dos dois ganhou o Kikito, mas vão ficar na memória do público que vir o longa mineiro. Cícero Luca e Camilla Damião, que fazem os irmãos, não são menos admiráveis. E se o filme realmente for para o Oscar? "Daremos um jeito", palavra do produtor. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Marte Um | Trailer Exclusivo vídeo

Oscar 2023: Brasil pode quebrar tabu de 24 anos com Marte Um; entenda

Filme nacional foi escolhido para representar o país na maior premiação do cinema, mas Brasil não emplaca indicado desde 1999

André Zuliani, 06.09.2022

Representante do Brasil no Oscar 2023, Marte Um (2022) pode quebrar um tabu que assombra o país tupiniquim há mais duas décadas. Desde 1999, com Central do Brasil (1998), o brasileiro não torce por um título nacional na maior premiação da indústria do cinema. Na ocasião, o longa dirigido por Walter Salles fez história. Não apenas Central do Brasil foi indicado a melhor filme internacional, como Fernanda Montenegro (A Vida Invisível) se tornou a primeira atriz latino-americana a ser lembrada na categoria de melhor atriz.

Caso Marte Um esteja entre os cinco títulos que vão disputar a estatueta dourada de melhor filme internacional do ano que vem, o longa dirigido pelo mineiro Gabriel Martins irá quebrar um tabu de 24 anos. Uma meta difícil, mas não impossível. A longa “seca”, no entanto, corresponde apenas à categoria de melhor filme internacional. No Oscar 2004, Cidade de Deus (2002) também fez história ao conquistar nada menos do que quatro indicações: diretor, roteiro adaptado, fotografia e edição.
Em 2016, o elogiadíssimo O Menino e o Mundo (2013) esteve entre os nomeados a melhor animação, enquanto Democracia em Vertigem (2019), de Petra Costa, foi indicado a melhor documentário em 2020. O segundo, inclusive, está disponível na Netflix.

Brasil no Oscar

Em toda a história do Oscar, o Brasil emplacou apenas quatro títulos na disputa pela estatueta dourada de melhor filme internacional. O primeiro foi o clássico O Pagador de Promessas (1962), longa comandado por Anselmo Duarte (1920-2009) e única produção nacional a vencer a cobiçada Palma de Ouro no Festival de Cannes.

A segunda indicação veio apenas 33 anos depois, com O Quatrilho (1995). Dirigido por Fábio Barreto, o longa tinha no elenco nomes como Gloria Pires, Patricia Pillar, José Lewgoy (1920-2003), Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), Cláudio Mamberti (1940-2001), Cecil Thiré (1943-2020) e Bruno Campos, brasileiro que fez carreira em Hollywood com trabalhos em Nip/Tuck (2003-2010), A Princesa e o Sapo (2009) e Plantão Médico (1994-2009).

Já a terceira aconteceu em 1998, quando O Que É Isso, Companheiro? (1997), de Bruno Barreto, foi escolhido para buscar a glória no Oscar. A história do embaixador norte-americano sequestrado por guerrilheiros brasileiros em plena Ditadura Militar (1964-1985) tinha o astro Alan Arkin (Pequena Miss Sunshine) no elenco, além de Selton Mello, Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Matheus Nachtergaele, Cláudia Abreu e Marco Ricca. 

Além dos títulos citados, há algumas produções internacionais que disputaram –e até venceram– prêmios no Oscar e tinham sangue brasileiro nos bastidores. Orfeu do Carnaval (1959), longa francês que levou a estatueta de melhor filme internacional em 1960, se passa no Rio de Janeiro, conta com trilha sonora de Tom Jobim (1927-1994) e Luiz Bonfá (1922-2001) e é inspirado em uma peça de Vinícius de Moraes (1913-1980).

Já o clássico O Beijo da Mulher-Aranha (1986) é uma coprodução entre EUA e Brasil indicada a quatro estatuetas –inclusive melhor filme. Dirigido por Hector Babenco (1946-2016), cineasta argentino e naturalizado brasileiro, o longa rendeu o Oscar de melhor ator a William Hurt (1950-2022) e tinha no elenco nomes como Herson Capri, Milton Gonçalves (1933-2022) e Sonia Braga. A atriz não disputou uma estatueta dourada, mas esteve entre as indicadas ao Globo de Ouro do mesmo ano.

Marte Um Adorocinema


terça-feira, 23 de agosto de 2022

Vida Saudável

Obesidade e hipertensão entre funcionários mobilizam universidades públicas

Entidades retomam estudos e programas para combater doenças crônicas

Emerson Vicente, 21/08/2022, FSP

Universidades públicas estão retomando estudos e programas de saúde voltados a seus funcionários, especialmente aqueles direcionados à qualidade de vida. O combate às doenças crônicas, como obesidade, diabetes e hipertensão, sempre esteve no centro das atenções, mas ganhou força durante a pandemia com o incremento de casos.

Na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), metade dos cerca de 7.000 servidores estão com algum grau de sobrepeso e obesidade, de acordo com o médico André Gustavo Pires de Sousa, da Divisão de Atenção à Saúde do Servidor da instituição. "Quando a obesidade passou a ser encarada como um fator de risco principal para formas graves de Covid, chamou muito a atenção para o problema. Algumas pessoas procuram ajuda para modificar hábitos", diz Sousa.

A universidade contava com programa de enfrentamento à questão, que foi suspenso durante a pandemia e está sendo reestruturado. A instituição também está fazendo uma pesquisa com os servidores obesos. O objetivo é entender e conhecer o perfil dos técnicos administrativos e sua relação com saúde, conforto, segurança e eficiência no trabalho

De acordo com a plataforma Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), do Ministério da Saúde, 22,4% dos adultos das capitais e do Distrito Federal são obesos, e 57,2% estão com excesso de peso. O número bate com a pesquisa realizada em 2018 com 223 servidores de duas universidades públicas de Manaus — Universidade Federal do Amazonas e Universidade Estadual do Amazonas. A pesquisa apontou que 58,3% do público analisado estava com algum tipo de obesidade.

Mas o que chamou mais a atenção das pesquisadoras foi a prevalência de pessoas com diabetes (25%) e hipertensão (41,7%). "O estudo tinha o objetivo de verificar a eficácia dos aparelhos de pressão. O dado da prevalência de hipertensão foi um dado secundário, mas como foi muito elevado, chamou a nossa atenção", diz Noeli Neves Toledo, da Federal do Amazonas e doutora em ciências da saúde.

Uma nova pesquisa começará a ser desenvolvida pela universidade, com uma amplitude maior, envolvendo alunos e servidores. "A ideia é ter um diagnóstico não só dos ambientes, mas também dos alunos e dos servidores para que a gente possa pensar em novas propostas, novas necessidades", afirma Noeli.

Laura Cordeiro Rodrigues, doutoranda em Saúde Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entende que o pós-pandemia deverá causar grandes reflexos nos apontamentos sobre o avanço das doenças crônicas. Ela conduziu um estudo na universidade sobre o aumento da obesidade e do sobrepeso com idosos no Brasil.

Com dados de 200 mil indivíduos com 60 anos ou mais, das 26 capitais e do Distrito Federal, provenientes da plataforma Vigitel, entre 2006 e 2019, Laura apontou uma evolução de 53% para 61,4% no número de pessoas do grupo analisado com sobrepeso, e de 16,1% para 23% na obesidade.

"Vem aumentando em todos os extratos que observamos, tanto homens quanto mulheres, de todas as escolaridades, de todas as idades, com ou sem doença crônica, nas regiões mais desenvolvidas e nas menos desenvolvidas do país. Já tem estudos da população adulta mostrando que [a pandemia] teve impacto", diz Laura.

Para Leandro Rezende, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, os grandes fatores que contribuíram para o aumento da prevalência da obesidade na população são relacionados à mudança no sistema alimentar, na disponibilidade de alimentos de alto teor calórico e na composição de alimentos, que levou ao aumento do consumo de alimentos ultraprocessados. "Apesar de reconhecer alimentos ultraprocessados como grande problema de saúde pública, grande causa da obesidade, nosso país ainda dá isenção fiscal para bebidas açucaradas. É um contraditório dentro das políticas públicas."


Participantes do programa Vida Saudável, oferecido pelo Centro de Educação Física e Desporto (CEFD) da Universidade Federal do Espírito Santo, acompanham palestras. André Soares Leopoldo / Arquivo pessoal

Participantes do programa Vida Saudável, oferecido pelo Centro de Educação Física e Desportos (CEFD) da Universidade Federal do Espírito Santo - André Soares Leopoldo/Arquivo pessoal

Programa Vida Saudável (CEFD-UFESAtividade no campus. André Soares Leopoldo / Arquivo pessoal

Programa Vida Saudável (CEFD-UFES) - Atividade na quadra do campus. André Soares Leopoldo / Arquivo pessoal

Programa Vida Saudável (CEFD-UFES) Participantes do programa. André Soares Leopoldo / Arquivo pessoal

Na Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) o programa Vida Saudável tenta enfrentar o problema de obesidade dentro da comunidade universitária. "Promovemos a prevenção e controle de doenças por meio de intervenção física, acompanhamento nutricional, palestras e seminários. Além disso, também fazemos ações de combate a obesidade", explica André Soares Leopoldo, professor do Centro de Educação Física e Desportos da Ufes.

A maioria dos participantes do programa é de servidores da universidade. Eles realizam de três a cinco vezes por semana as atividades físicas e o acompanhamento nutricional. São avaliados antes do início das atividades e após três meses. https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2022/07/como-perder-peso-e-nao-recuperar-veja-o-que-diz-a-ciencia.shtml Segundo o professor, cerca de 300 pessoas já passaram pelo programa. "A ideia do projeto e da proposta é que eles adquiram hábitos de vida mais saudáveis. A partir disso, eles conseguem reverter uma série de problemas relacionados a doenças crônicas."

A professora Gilsirene Scantelbury de Almeida, docente da Universidade Federal do Amazonas e doutora em fisiopataologia entende que ainda existem lacunas nas políticas públicas no combate às doenças crônicas. "Existem fatores de risco que são associados à elevação da pressão que são modificados, a questão da obesidade, do sedentarismo, do tabagismo, do alcoolismo. Mas tem um que não é modificado, que é a hereditariedade. A raça negra geralmente tem um fator de associação com a pressão elevada. Então, há a necessidade de uma maior atenção de políticas públicas para esse grupo."


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

A inteligência artificial é burra

A máquina faz coisas por conta própria, mas quem paga a conta é você

Ruy Castro, FSP, 21/08/2022

Deu nos jornais. Descobriu-se que "assistentes virtuais", como Alexa, da Amazon, e Siri, da Apple —sistemas eletrônicos domésticos programados para executar certas tarefas ao comando de voz do usuário —, estão tomando decisões por conta própria  como se fossem as donas da casa. E essas decisões não se limitam a acender ou apagar luzes, botar essa ou aquela música para tocar e responder a perguntas simples como "Alexa, quem subiu hoje na Bolsa e a quantas andam minhas ações preferenciais da Petrobras depois das declarações insanas do Bolsonaro?".

Parece que Alexa ou Siri, uma delas, andou fazendo encomendas à revelia da dona, como comprar pratos, caçarolas e demais artigos de casa. Não por acaso, uma compra igual à que ela fizera um mês antes. Como a pessoa fazia certas compras todo mês, a máquina deduziu que tal regularidade também se aplicava ao enxoval do apartamento e pediu tudo de novo. Comprou-lhe também uma passagem na Ponte Aérea para um voo que a moça não ia fazer, mas, por coincidência, fizera um mês antes. O resultado foi uma despesa no cartão que ela não esperava. E há outros casos do gênero.

Este é o problema da inteligência artificial: é burra. Como aprende a executar tarefas por repetição, a chamada IA acha que os seres humanos, por fazerem algo duas vezes, também têm de continuar fazendo-as e ao mesmo intervalo. Imagine se, por ter ido ao dentista duas vezes naquele mês, o sujeito terá de fazer isto de 15 em 15 dias para sempre.

E há os agentes alienígenas. Ouvi dizer que, há dias, o Kindle de uma leitora do DF foi invadido por cerca de mil formigas vermelhas. Elas entraram nele, acionaram alguma coisa lá dentro e, talvez por serem fãs de ficção científica, encomendaram um ebook de Isaac Asimov.

Ainda não uso Kindle, mas, se um dia tiver um, espero que, em matéria de ficção científica, minhas formigas prefiram Robert Heinlein.

Livros de Robert Heinlein (1907-88), autor americano de ficção científica - Heloisa Seixas

Em tempo

Lembrei do episódio Automated Customer Service  - Season 02 (If your home-cleaning unit is attempting to murder you, please press 3) em que as máquinas de aspirar pó se rebelam, em rede, contra as donas de casa.

Está na espetacular Love, Death & Robots, Série de TV, 2019 -  Tim Miller (Netflix)



Capitalismo racial

Está tudo dominado. Filósofo diz que elites se apropriaram de luta contra o racismo

Hélio Schwartsman, 20/08/2022, FSP

"Elite Capture", do filósofo nigeriano-americano Olúfémi O. Táíwò, é um livro interessante. O texto é daqueles bem militantes, contrastando um pouco por minha preferência por obras mais analíticas. Mas Táíwò, que é professor na Universidade Georgetown, levanta problemas relevantes, que frequentemente passam despercebidos.

Para Táíwò, está tudo dominado. Para início de conversa, as estruturas sociais são desenhadas para sempre favorecer as elites. É o que ele chama de capitalismo racial. Mas, como se isso não bastasse, vemos agora essas mesmas elites se apropriando da política de identidade, originalmente um movimento de resistência, para fazer avançar seus interesses, num fenômeno que o autor batizou de política de deferência.

Hoje, a fina flor do capitalismo mundial, isto é, grandes bancos e "big techs", não só encampa o discurso identitário como também promove a elite dos grupos marginalizados a posições privilegiadas. Os diretamente envolvidos ganham. Os empresários sinalizam sua virtude, os promovidos ficam com a promoção, mas a maior parte dos marginalizados continua marginalizada. No Brasil, as cotas em universidades fazem um pouco isso. A sociedade fica com a sensação de dever cumprido por ter instituído essa política e os bons estudantes negros ganham vagas em boas escolas. Mas os mais discriminados, isto é, o garoto negro que não consegue concluir o ensino fundamental e acaba em subempregos ou no crime, continua quase tão discriminado quanto seus trisavós escravizados.

O que me incomodou no livro é que Táíwò não deixa muito espaço para respostas que difiram da sua. Precisamos necessariamente ver os empresários como cínicos tentando faturar em cima dos movimentos identitários? Não dá para imaginar que um "capitalista" considere o racismo imoral e esteja disposto a agir contra ele, embora sem deflagrar um movimento revolucionário, que é o que o autor cobra? 

Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman de 22.ago.2022 - Annette Schwartsman

sábado, 20 de agosto de 2022

Ayahuasca contra a dependência

 Nhanderu usa ayahuasca na cracolândia contra dependência

Adriano e Tuca buscam redução de danos com chá e rapé no centro paulistano 

Marcelo Leite 20/08/2022 FSP

Tuca Fontes e Adriano de Camargo em salão do Instituto Nhanderu na cracolândia - Marcelo Leite

À primeira vista, parece contrassenso: utilizar uma droga psicodélica para tirar dependentes da fissura por cocaína e crack. No Instituto Nhanderu, que tem sede em plena cracolândia paulistana, usar drogas nunca foi problema e a ayahuasca, ali, entra na condição de "medicina da floresta", assim como o rapé.

Na liderança da instituição religiosa, que tem 62 associados contribuintes, se destaca o casal Adriano de Camargo e Sebastiana da Silva Fontes, a Tuca, ambos com 44 anos. Ela, socióloga piauiense especializada em direitos humanos e população de rua. Ele, neto de guaranis, ex-detento que já morou nas calçadas do centro de São Paulo e se formou professor na cadeia. "A ayahuasca salvou a nossa vida, não é exagero", diz Tuca. "Entramos na rota da ayahuasca juntos, para nos curar."

Na realidade, ela chegou um pouco antes. Adriano estava no final da caminhada para abandonar o uso abusivo de álcool e outras drogas e receava tomar qualquer coisa. Tuca vinha de anos de tratamento para depressão e remédios como o antidepressivo fluoxetina e o hipnótico zolpidem. Sentia-se escravizada. "Vou tomar isso a vida inteira? Quando a ayahuasca chegou, me senti libertada."

A assistente social já vinha ouvindo falar do chá e de como frequentadores de rituais ayahuasqueiros pareciam ter menor incidência de transtornos psíquicos. Um dia um amigo de Sorocaba apontou a garrafa que mantinha em casa e lhes perguntou se queriam. Adriano respondeu por Tuca: "Eu não, mas ela quer".

"Foi uma experiência muito marcante, limpeza total, alívio imediato", conta hoje Tuca. "Só eu e a força, sem música. Me senti mais inteligente." Ela ainda tomaria os medicamentos por um ano, mas livrou-se deles de vez.

"Força" é um nome comum entre adeptos da ayahuasca para os efeitos psicodélicos do chá. Ele contém dimetiltriptamina (DMT), substância psicoativa das folhas do arbusto chacrona, um dos ingredientes do sacramento em igrejas como Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha.

Adriano só aderiu à bebida psicodélica mais à frente, quando começaram a frequentar a casa de um psicólogo, Bruno Ramos Gomes, que trabalhava com população de rua e dependentes. Também em seu caso foi transformador. "Minha vida, e a da Tuca, está pautada no cuidado de pessoas em condição de vulnerabilidade social", diz o líder do Nhanderu. "A ayahuasca veio depois, como mais um elemento no nosso cinto de utilidades. É uma ferramenta."

Altar em salão do Instituto Nhanderu, que faz redução de danos na região da cracolândia paulistana - Marcelo Leite

Foi trabalhando nas ruas que eles se reencontraram, anos depois de terem um caso. Tuca, formada em Ciências Sociais na Fundação Santo André, tinha prestado concurso para a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social e assumira a coordenação de tendas de atendimento em bairros paulistanos centrais como Santa Cecília e Barra Funda.

Adriano, após seguidas internações em clínicas e comunidades terapêuticas, formou-se professor em Letras pela Anhanguera Educacional. Trabalhou em projeto de reinclusão que usava o futebol como ponto de partida para criar vínculos e foi orientador no núcleo de convivência ligado à tenda de Santa Cecília, onde topou com Tuca. Namoraram de novo e logo se casaram.

Como a mulher, ele entrou para a Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (Abramd). Ali aprendeu sobre o conceito de redução de danos, que de pronto associou com os benefícios da ayahuasca. "Essa medicina vai reduzir dez anos de terapia em uma sessão", conta ter ouvido do psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp, um estudioso da ayahuasca e outros psicodélicos. "Outro universo se abriu para mim. Por que não levar isso para outras pessoas?"

Adriano conta que foi estudar e se informar mais. Fez cursos de psicanálise. Retomou contato com sua ascendência guarani, os avós da etnia Mbya no litoral paulista (Nhanderu quer dizer algo como "Criador", em sua língua). Fez várias viagens ao Acre para aprender o feitio de ayahuasca com povos tradicionais, como os Noke Koi (Katukina).

Tuca e ele estavam cansados de lidar, nas tendas, com o atendimento de 500, 600 pessoas. Queriam começar um trabalho mais sustentável, em ponto pequeno, baseado em redução de danos, criação de vínculo com rituais, terapia de substituição e cuidado continuado, por meio de acompanhamento psicológico.

No Nhanderu, fundado em 19 de abril de 2018 com ajuda de amigos, não se exige abstinência, por exemplo. "Usar droga não é errado", defende Adriano. "Pode usar sem se destruir."

O instituto nasceu em uma salinha comercial da rua Conselheiro Nébias, em meio à cracolândia. Hoje ocupa dois andares, incluindo a loja de produtos e acessórios que figura como maior fonte de recursos para o Nhanderu, rendendo em média R$ 6.000 mensais. Os 62 associados contribuem com mensalidades a partir de R$ 60 para pagar as contas.

Loja de objetos xamânicos no Instituto Nhanderu, centro de São Paulo - Marcelo Leite

A porta de entrada para dependentes e moradores de rua são as rodas de rapé, às quintas-feiras. Usuários de cocaína, por exemplo, se adaptam bem ao pó soprado nas narinas por meio de tipis (instrumento com um caniço oco). O impacto do rapé é fortíssimo, mais físico que psíquico, mas nada que derrube quem está habituado a drogas mais pesadas.

Com o passar do tempo, o frequentador pode ser convidado para as cerimônias de cura com ayahuasca e rapé que acontecem aos domingos. O salão tem um pequeno altar com velas, santos, plantas e outros objetos xamânicos, rodeado por colchonetes, cobertores e almofadas. Após ouvir breve preleção e tomar o chá, os participantes se acomodam e passam horas escutando música. Quando o efeito começa a passar, abre-se uma roda de conversa em que se ouvem relatos tocantes de superação de traumas e abusos. O encontro termina com uma ceia, compartilhando as comidas trazidas por todos.

O cuidado prossegue com atendimento por terapeutas, às terças-feiras. A ideia de Tuca e Adriano é usar a espiritualidade para reconectar a pessoa com uma vida mais serena e produtiva – espiritualidade, e não esta ou aquela religião, Adriano ressalva. Nas paredes do salão onde ocorre o ritual dominical há um pouco de tudo, de Jesus a Ganesh e Iemanjá. Para os recém-chegados, Adriano pede que os dotados de mediunidade se abstenham de incorporar entidades, para não incomodar os que não são seus crentes.

Adriano de Camargo prepara rapé no Instituto Nhanderu - Marcelo Leite

O ecletismo neoxamânico é a marca do Nhanderu: "Pode acreditar em Jesus, Buda, fogo ou água, em energias", explica Adriano. "Não é como igreja evangélica, nunca digo que a salvação está aqui ou ali."

"O desafio de conduzir e sustentar esse trabalho por anos a fio é enorme", elogia Lucas Maia, pesquisador de DMT no Instituto do Cérebro da UFRN, que já trabalhou com Adriano na Unifesp. "Tiro o meu chapéu para o serviço que Adriano, sua esposa Tuca e toda a equipe de colaboradores do Instituto Nhanderu estão realizando."

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Para saber mais sobre a história e novos desenvolvimentos da ciência nessa área, inclusive no Brasil, procure meu livro "Psiconautas - Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira". 

Não deixe de ver também as reportagens da série A Ressurreição da Jurema:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/07/reporter-conta-experiencia-de-inalar-dmt-psicodelico-em-teste-contra-depressao.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/07/da-caatinga-ao-laboratorio-cientistas-investigam-efeito-antidepressivo-de-psicodelico.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/07/cultos-com-alucinogeno-da-jurema-florescem-no-nordeste.shtml

Sempre cabe lembrar que psicodélicos ainda são terapias experimentais e, certamente, não constituem panaceia para todos os transtornos psíquicos, nem devem ser objeto de automedicação. Fale com seu terapeuta ou médico 

Gore Vidal e Billy Wilder

Mudando de assunto 

No Rio, Gore Vidal tornou nossa festa do Oscar mais animada do que a do Dorothy Chandler Pavilion

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo, 30 de julho de 2022 

Todos os anos, o jornalista e crítico de cinema Nelson Hoineff juntava os amigos mais chegados em seu apartamento na Av. Atlântica para assistir à entrega dos Oscars. A plateia se dividia entre os televisores do living e do escritório do anfitrião. Na noite de 30 de março de 1987, com a cerimônia ainda nos salamaleques iniciais, a campainha da entrada social tocou, e o conviva mais próximo à porta, ao abri-la, espantou-se com o que viu.  “Nelson”, comunicou o estupefato conviva ao dono da casa, “sabe quem acabou de chegar? O Gore Vidal.”  

Escritor Gore Vidal na '2005 Literary Awards'.  Foto: Mario Anzuoni/Reuters/Arquivo

Entregue ao meu ciceronato no Rio, quando veio ao Brasil lançar a coletânea de ensaios De Fato e de Ficção, Vidal não pensou duas vezes ao ser convidado para assistir à festa do Oscar daquele prédio na mesma calçada do Copacabana Palace, em cuja suíte 217 ele e o companheiro Howard Austen estavam hospedados. Hoineff esquecera-se de informar aos amigos da possível passada do escritor, que não só passou como ficou até o fim da festa, e mais um pouco.

Por que estou a lembrar de Vidal? Porque amanhã faz dez anos que ele morreu e falar de um morto da sua estatura é mais prazenteiro e profícuo que falar, outra vez, do vivo mais vil desta republiqueta - sim, ele.

Com seu formidável repertório de fofocas dos bastidores de Hollywood, onde viveu, trabalhou como roteirista e morreria (de pneumonia) 25 anos depois, Vidal tornou a nossa festa do Oscar mais animada do que a montada no palco do Dorothy Chandler Pavilion. Sua infrene maledicência só baixou a guarda na premiação de “melhor ator”: Paul Newman, por A Cor do Dinheiro. Newman foi um dos maiores amigos do escritor e também seu afilhado de casamento com a atriz Joanne Woodward.

Era madrugada quando, em meio às despedidas entre as mesas externas de um restaurante adormecido, o ilustre visitante improvisou um show privado e a capela de Mr. Austen: boa voz e uma espantosa memória do cancioneiro popular americano. A calçada da Fiorentina jamais serviu de palco a tão inusitada performance. 

Vidal e Howard viveram juntos 53 anos, numa relação a mais aberta imaginável. Nada de sexo entre eles ou com amigos comuns; dormiam em quartos separados e não se referiam mutuamente como “marido” ou “parceiro”. Contudo foram, a seu modo, afetivamente fiéis e inseparáveis até que a morte, esta infiel, os separou. 

Um tumor cerebral levou Howard em 2003. “Não era isso o combinado”, confessou Vidal, a quem horrorizava a hipótese de “ficar sozinho”. Nove anos depois, o escritor recuperou a companhia: lado a lado, nos túmulos que reservara no Cemitério de Rock Green, em Washington, meticulosamente colados ao do historiador Henry Adams, talvez a maior admiração intelectual de Vidal. 

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Billy Wilder foi maior presente que jornalismo deu a Hollywood 

Entre suas entrevistas estão Arthur Schnitzler e Richard Strauss

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo, 20 de agosto de 2022

Um dos diretores mais admirados do cinema falado – sobretudo pelas falas de seus filmes e dos que roteirizou para outros cineastas, notadamente para seu mestre Ernst Lubitsch – Billy Wilder (1906-2002) foi o maior presente que o jornalismo deu a Hollywood. 

Nascido austro-húngaro, numa cidade há tempos polonesa, Billy primeiro foi Billie, mas desde sempre Wilder (ou “Vílder”, na pronúncia em alemão). Foi como Billie Wilder que ele, bem jovem, fez carreira em jornais e revistas do eixo Viena-Berlim nas décadas de 1920 e 1930, entrevistando celebridades e escrevendo artigos, notinhas, críticas de filmes e até horóscopo e palavras cruzadas. Com a mesma verve que depois levaria para o cinema. 

Billy Wilder foi jornalista antes de dirigir 'A Montanha dos Sete Abutres' Foto: IMDB

 Como ter acesso ao jornalismo wilderiano, bem pessoal e moderno, diga-se, com tanta terra por cima? Noah Isenberg, pesquisador da Universidade do Texas, cuidou disso. A edição brasileira dessa façanha arqueológica (Billy Wilder: Um Repórter em Tempos Loucos) sai no fim do mês editado pela DBA. A tradução, de Tanize Mocellin Ferreira, embora no geral correta, me irritou um pouco pelo uso reiterado do verbo “gravar” no lugar de “filmar” ou “rodar”. Wilder só fez filmes na era analógica, com película, sem pixels.

Seu primeiro grande feito como repórter foi cobrir a badalada turnê da banda jazzística de Paul Whiteman a Viena, em 1926. Whiteman era, na época, o homem mais famoso na América depois de Chaplin. Billie amarrou-se no bigodinho (“esplêndido, inigualável, divino, fantástico”) do bandleader. 

Sua maior proeza teria sido uma entrevista surpresa com o morador do número 19 da rua Berggasse, em Viena, em dezembro de 1935. Mas Sigmund Freud, com um guardanapo pendurado no pescoço, recusou-se a interromper o almoço para recebê-lo e revelar como via a montante do fascismo na Europa.

Infelizmente, não há vestígio algum desse frustrado encontro no livro, nem do que sobre a onda fascista lhe responderam o psicanalista Alfred Adler, o músico Richard Strauss e o escritor Arthur Schnitzler, também pautados para a enquete. O piche que ele deu na Coca-Cola, debutante no mercado europeu em 1929, comparando seu sabor ao de um pneu queimado, me trouxe à lembrança o atarantado executivo da Coca-Cola vivido por James Cagney em Cupido Não Tem Bandeira. 

Seus dois filmes sobre jornalismo marrom (A Montanha dos Sete Abutres e A Primeira Página) e a banda feminina de Quanto Mais Quente Melhor também parecem tributários daquele período e daquelas loucas experiências. E que chegaram ao fim quando o êxodo dos judeus forçado por Hitler e a vontade de fazer cinema levaram Billie até Paris e, em 1934, ao exílio permanente em Hollywood, onde pôde finalmente virar Billy e ser abraçado pelo mundo.

Quando crítico, Wilder foi implacável com a megalomania de Erich von Stroheim e fez restrições a Ouro e Maldição (“desequilibrado e cheio de símbolos sem sentido”). Não sei se houve algum mal-estar no encontro dos dois, 15 anos depois, nos estúdios da Paramount, antes das filmagens de Cinco Covas no Egito, em que Stroheim fez o papel de Rommel, a “raposa do deserto” nazista. O ator diretor não só não passou recibo como ainda topou encarnar um ersatz seu em O Crepúsculo dos Deuses. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

'O Poço e o Pêndulo', Edgar Allan Poe

Eu estava extenuado — extenuado até à morte, por aquela longa agonia. E quando eles, afinal, me desacorrentaram e me foi permitido sentar, senti que ia perdendo os sentidos. A sentença — a terrível sentença de morte — foi a última frase distintamente acentuada que me chegou aos ouvidos.

Depois disto, o som das vozes dos inquisidores pareceu mergulhar num zumbido fantástico e vago. Trazia-me à alma a ideia de rotação, talvez por se associar, na imaginação, com mó de uma roda de moinho. Mas isto durou apenas pouco tempo, pois logo nada mais ouvi. Contudo, durante algum tempo, eu via — porém com que terrível exagero! — eu via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que as folhas de papel sobre as quais estou traçando estas palavras, e grotescamente delgados; mais adelgaçados ainda pela intensidade de sua expressão de firmeza, de imutável resolução, de rigoroso desprezo pela dor humana.

Eu via os decretos do que, para mim, representava o Destino, saírem ainda daqueles lábios. Via-os torceram-se, com uma frase letal. Via-os articularem as sílabas do meu nome. E estremecia, por não ouvir nenhum som em seguida. Via, também, durante alguns minutos de delirante horror, a ondulação leve e quase imperceptível dos panos negros que cobriam as paredes da sala. E, depois, meu olhar caiu sobre as sete grandes tochas em cima da mesa. A princípio, elas tomaram o aspecto da Caridade e pareciam anjos brancos e esbeltos, que me deviam salvar; mas depois, repentinamente, inundou-me o espírito uma náusea mais mortal e senti todas as fibras de meu corpo vibrarem, como se eu tivesse tocado o fio de uma pilha galvânica, enquanto os vultos angélicos se tornavam espectros insignificantes, com cabeças de chama, e via bem que deles não teria socorro. E, então, introduziu-se na minha imaginação, como rica nota musical, a ideia do tranquilo repouso, que deveria haver na sepultura. Essa ideia chegou doce e furtivamente, e parece ter-se passado muito tempo até que pudesse ser completamente percebida.

Mas, no momento mesmo em que o meu espírito começava, enfim, a sentir propriamente e a acarinhar essa ideia, os vultos dos juízes desapareceram, como por mágica, de minha frente; as altas tochas se foram reduzindo a nada; suas chamas se extinguiram por completo; o negror das trevas sobreveio. Todas as sensações pareceram dar um louco e precipitado mergulho, como se a alma se afundasse no Hades. E o universo não foi mais do que noite, silêncio e imobilidade.

Eu tinha desmaiado; no entanto, não direi, que havia perdido por completo a consciência. Não tentarei definir o que dela ainda permanecia, nem mesmo procurarei descrevê-lo. Todavia, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo — não! No delírio — não! No desmaio — não! Na morte — não! Nem mesmo no túmulo tudo está perdido. De outra forma, não haveria imortalidade para o homem. Ao despertar do mais profundo sono, quebramos a teia delgada de algum sonho. Entretanto, um segundo depois, por mais fraca que tenha sido essa teia, não nos lembramos de ter sonhado. No voltar de um desmaio à vida, há duas fases: a primeira, é o sentimento da existência mental ou espiritual, a segunda o sentimento da existência física. Parece provável que se, ao atingir a segunda fase, pudéssemos evocar as impressões da primeira, poderíamos encontrá-las ricas em recordações do abismo transposto. E esse abismo — que é? Como, pelo menos, distinguiremos suas sombras das sombras do túmulo? Mas se as impressões daquilo que denominei a primeira fase não são reevocadas à vontade, todavia, depois de longo intervalo, não aparecem elas espontaneamente, enquanto indagamos, maravilhados, donde poderiam ter vindo? Aquele que nunca desmaiou é quem não descobre palácios estranhos e rostos esquisitamente familiares em brasas ardentes, é quem não percebe a flutuar, no meio do espaço, as tristes visões que a maioria não pode distinguir; é quem não medita sobre o perfume de alguma flor desconhecida: é quem não tem o cérebro perturbado pelo mistério de alguma melodia que, até então, jamais lhe detivera a atenção.

Entre as frequentes e intensas tentativas de recordar, entre as lutas encarniçadas para recolher alguns vestígios daquele estado de aparente aniquilamento, no qual a minha alma havia mergulhado, momentos houve em que eu sonhava ser bem-sucedido; houve períodos breves, bastante breves, em que evoquei as altas figuras que, arrebatando e carregando, em silêncio, recordações, a lúcida razão de uma época posterior me assegura se relacionarem, apenas, àquela condição de aparente inconsciência. Essas sombras de memória falam, indistintamente, para baixo... para baixo, cada vez mais baixo, até que uma horrível vertigem me oprimiu, a simples ideia daquela descida sem fim. Falam-me, também, de um vago horror no coração, por causa mesma daquele sossego desnatural do coração. Depois, sobrevêm uma sensação de súbita imobilidade em todas as coisas; como se aqueles que me transportavam (cortejo espectral) houvessem ultrapassado, na sua descida, os limites do ilimitado e se houvessem detido, vencidos pelo extremo cansaço da tarefa. Depois disso, reevoco a monotonia e a umidade; e, depois, tudo é loucura; a loucura de uma memória que se agita entre coisas repelentes.

Bem de súbito, voltaram à minha alma o movimento e o som — o tumultuoso movimento do coração e, aos meus ouvidos, o rumor de suas pancadas. Depois, uma pausa em que tudo desaparece. Depois, novamente o som, o movimento e o tato — uma sensação formigante invadindo-me o corpo. Depois, a simples consciência da existência, sem pensamento, situação que durou muito tempo. Depois, bem de repente, o pensamento, e um terror arrepiante, e um esforço ardente de compreender meu verdadeiro estado. Depois, um forte desejo de recair na insensibilidade. Depois, uma precipitada revivescência da alma, e um esforço bem-sucedido de mover-me. E, agora, a plena lembrança do processo, dos juízes, dos panos negros, da sentença, do mal-estar, do desmaio. Por fim, inteiro esquecimento de tudo que se seguiu; de tudo que um dia mais tarde acurados esforços me habilitaram a vagamente recordar.

Até aqui não tinha aberto os olhos. Sentia que estava deitado de costas, desamarrado. Estendi a mão e ela caiu, pesadamente, sobre algo de úmido e duro. Deixei que ela ficasse alguns minutos, enquanto me esforçava por adivinhar onde poderia estar e o que me acontecera. Desejava ardentemente, mas não o ousava, servir-me dos olhos. Receava o primeiro olhar para os objetos que me cercavam; não que eu temesse olhar para coisas horríveis, mas porque empalidecia, temendo que nada houvesse para ver. Por fim, com selvagem desespero no coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. Cercava-me o negror da noite eterna. Fiz um esforço para respirar. A espessa escuridão parecia oprimir-me e sufocar-me. A atmosfera estava extraordinariamente confinada. Conservei-me ainda tranquilamente deitado, fazendo esforços para exercitar minha razão. Recordei os processos inquisitoriais e tentei, a partir deste ponto, deduzir minha verdadeira posição. A sentença fora pronunciada e me parecia que bem longo intervalo de tempo havia, desde então, decorrido. Contudo, nem por um instante supus que estivesse realmente morto. Tal suposição, a despeito do que lemos em romances, é completamente incompatível com a existência real. Mas, onde estava eu e em que situarão me encontrava? Sabia que os condenados à morte pereciam, ordinariamente, em autos de fé e se realizara um destes, na mesma noite do dia do meu julgamento. Tinha eu sido reenviado para o meu calabouço à espera da próxima execução, que só se realizaria daí a muitos meses? Vi logo que não podia ser isto. As vítimas haviam sido requisitadas imediatamente. Além disso, meu cárcere, como todas as celas dos condenados em Toledo, tinha soalhos de pedra, e a luz não era inteiramente excluída.

Uma terrível ideia lançou-me, de súbito, o sangue em torrentes, ao coração e, durante breve tempo, mais uma vez recaí no meu estado de insensibilidade. Voltando a mim, pus-me de pé, dum salto, tremendo convulsivamente em todas as fibras. Estendi desordenadamente os braços acima e em torno de mim, em todas as direções. Não sentia nada. No entanto, temia dar um passo, no receio de embater-me com as paredes de um túmulo. Transpirava por todos os poros e o suor se detinha, em grossas bagas, na minha fronte. A agonia da incerteza tornou-se, afinal, intolerável e, com cautela, movi-me para diante, com os braços estendidos. Meus olhos como que saltavam das órbitas, na esperança de apanhar algum débil raio de luz. Dei vários passos, mas tudo era ainda escuridão e vácuo. Respirei mais livremente. Parecia evidente que minha sorte não era, pelo menos, a mais horrenda.

E então, como continuasse ainda a caminhar, cautelosamente, para diante, vieram-me, em tropel, à memória, mil vagos boatos a respeito dos horrores de Toledo. Narravam-se estranhas coisas dos calabouços, que eu sempre considerara como fábulas, coisas, no entanto, estranhas e demasiado espantosas para serem repetidas, a não ser num sussurro. Ter-me-iam deixado para morrer de fome no mundo subterrâneo das trevas? Ou que sorte, talvez mesmo mais terrível, me esperava? Conhecia muito bem o caráter de meus juízes para duvidar de que o resultado seria a morte, e morte de insólita acritude. O modo e a hora era tudo o que me preocupava e perturbava.

Minhas mãos estendidas encontraram, afinal, um sólido obstáculo. Era uma parede, que parecia construída de pedras, muito lisa, viscosa e fria. Fui acompanhando-a, caminhando com toda a cuidadosa desconfiança que certas narrativas antigas me haviam inspirado. Este processo, porém, não me proporcionava meios de verificar as dimensões de minha prisão, pois eu podia fazer-lhe o percurso e voltar ao ponto donde partira, sem dar por isso, tão perfeitamente uniforme parecia a parede. Por isso é que procurei a faca, que estava em meu bolso quando me levaram à sala inquisitorial, mas não a encontrei. Haviam trocado minhas roupas por uma camisola de sarja grosseira. Pensara em enfiar a lâmina em alguma pequena fenda da parede, de modo a identificar meu ponto de partida. A dificuldade, não obstante, era apenas vulgar, embora, na desordem de minha mente parecesse a princípio insuperável. Rasguei uma parte do debrum da roupa e coloquei o fragmento bem estendido em um ângulo reto com a parede. Tateando meu caminho em torno da prisão, não podia deixar de encontrar aquele trapo, ao completar o circuito. Assim, pelo menos, pensava eu, mas não tinha contado com a extensão da masmorra ou com minha própria fraqueza. O chão estava úmido e escorregadio. Caminhava cambaleando para a frente, durante algum tempo, quando tropecei e caí. Minha excessiva fadiga induziu-me a permanecer deitado e logo o sono se apoderou de mim naquele estado.

Ao despertar e estender um braço achei, a meu lado, um pão e uma bilha d´água. Estava demasiado exausto para refletir naquela circunstância, mas comi e bebi com avidez. Logo depois, recomecei minha volta em torno da prisão e, com bastante trabalho, cheguei, afinal, ao pedaço de sarja. Até o momento em que caí, havia contado cinquenta e dois passos e, ao retomar meu caminho, contara quarenta e oito mais, até chegar ao trapo. Havia, pois ao todo, uns cem passos. E, admitindo dois passos para uma jarda, presumi que o calabouço teria umas cinquenta jardas de circuito. Encontrara, porém, muitos ângulos na parede e, desse modo, não me era possível conjeturar qual fosse a forma do sepulcro, pois sepulcro não podia deixar eu de supor que era.

Não tinha grande interesse — nem certamente esperança — naquelas pesquisas, mas uma vaga curiosidade me impelia a continuá-las. Deixando a parede, resolvi atravessar a área do recinto. A princípio, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora parecesse de material sólido, era traiçoeiro e lodoso. Afinal, porém, tomei coragem e não hesitei em caminhar com firmeza, tentando atravessar em linha tão reta quanto possível. Havia avançado uns dez a doze passos desta maneira, quando o resto do debrum rasgado de minha roupa se enroscou em minhas pernas. Pisei nele e caí violentamente de bruços.

Na confusão que se seguiu à minha queda não apreendi uma circunstância um tanto surpreendente, que, contudo, poucos segundos depois, e enquanto jazia ainda prostrado, reteve minha atenção. Era o seguinte: meu queixo pousava sobre o chão da prisão, mas meus lábios e a parte superior de minha cabeça, embora parecendo a menor elevação que o queixo, nada tocavam. Ao mesmo tempo, minha testa parecia banhada dum vapor viscoso e o cheiro característico de fungos podres subiu-me às narinas. Estendi o braço e estremeci, ao descobrir que havia caído à beira dum poço circular, cuja extensão, sem dúvida, não tinha meios de medir no momento. Tateando a alvenaria, justamente abaixo da borda, consegui deslocar um pequeno fragmento e deixei-o cair dentro do abismo. Durante muitos segundos prestei ouvidos a suas repercussões, ao bater de encontro aos lados da abertura, em sua queda. Por fim, ouvi um lúgubre mergulho n´água, seguido de ruidosos ecos. No mesmo instante ouviu-se um som semelhante ao duma porta, tão depressa aberta quão rapidamente fechada, acima de minha cabeça, enquanto um fraco clarão luzia, de repente, em meio da escuridão e com a mesma rapidez desaparecia.

Vi, claramente, o destino que me fora preparado e congratulei-me com o acidente oportuno que me salvara. Um passo a mais e o mundo não mais me veria. E a morte, justamente evitada, era daquela mesma natureza que olhara como fabulosa e absurda nas histórias a respeito da Inquisição. Para as vítimas de sua tirania, havia a escolha da morte com suas mais cruéis agonias físicas, ou da morte com suas mais abomináveis torturas morais. Tinham reservado para mim esta última. O longo sofrimento havia relaxado meus nervos, a ponto de fazer-me tremer ao som de minha própria voz e me tornara, a todos os aspectos, material excelente para as espécies de tortura que me aguardavam. Com os membros todos a tremer, arrepiei caminho, tateante, até a parcele, resolvido a perecer antes que arriscar-me aos terrores dos poços, que minha imaginação agora admitia que fossem muitos, espalhados em todas as direções, no calabouço. Em outras condições de pensamento, poderia ter tido a coragem de dar fim imediato às minhas desgraças, deixando-me cair dentro de um daqueles abismos. Mas, então, era eu o mais completo dos covardes. Nem podia, tão pouco, esquecer o que lera a respeito daqueles poços: que a súbita extinção da vida não estava incluída nos mais horrendos planos dos inquisidores.

A agitação do espírito conservou-me desperto por muitas horas, mas, afinal, mergulhei de novo no sono. Ao despertar, encontrei a meu lado, como antes, um pão e uma bilha d´água. Sede ardente me devorava e esvaziei a vasilha dum trago. Deveria estar com alguma droga, porque, logo depois de beber, fui tomado dum torpor irresistível. Um sono profundo se apoderou de mim — sono semelhante ao da morte. Quanto tempo durou isso, não me é possível dizê-lo, mas quando, mais uma vez, descerrei os olhos, os objetos que me cercavam estavam visíveis. Graças a uma luz viva e sulfúrea, cuja origem não pude a princípio determinar, consegui verificar a extensão e o aspecto da prisão.

Tinha-me enganado grandemente a respeito de seu tamanho. Todo o circuito de suas paredes não excedia de vinte e cinco jardas. Durante alguns minutos, este fato causou-me um mundo de inútil perturbação; inútil, de fato, porquanto que coisas havia de menor importância, nas terríveis circunstâncias que me cercavam, que as simples dimensões de minha masmorra? Mas minha alma interessava-se, com ardor, por bagatelas, e ocupei-me em tentar explicar o erro que havia cometido nas minhas medidas, A verdade, afinal jorrou, luminosa. Na minha primeira tentativa de exploração, havia eu contado cinquenta e dois passos, até o momento em que caí. Deveria achar-me, então, à distância dum passo, ou dois, do pedaço da sarja. De fato, havia quase realizado o circuito da cava. Foi então que adormeci e, ao acordar, devo ter refeito o mesmo caminho, supondo, assim, que a volta da prisão era quase o duplo do que é na realidade. Minha confusão de espírito impediu-me de observar que começara minha volta com a parede à esquerda e a acabara com a parede à direita.

Enganara-me, também, a respeito da forma do recinto. Ao tatear meu caminho, descobrira muitos ângulos e daí deduzi a ideia de grande irregularidade, tão poderoso é o efeito da escuridão absoluta sobre alguém que desperta do letargo ou do sono. Os ângulos eram apenas os de umas poucas e ligeiras depressões, ou nichos, a intervalos desiguais. A prisão era, em geral, quadrada. O que eu tinha tomado por alvenaria parecia, agora, ser ferro, ou algum outro metal, em imensas chapas, cujas suturas, ou juntas, causavam aquelas depressões. Toda a superfície daquele recinto metálico estava grosseiramente brochada com os horríveis e repulsivos emblemas a que a superstição sepulcral dos monges tem dado origem. Figuras de demônios, em atitudes ameaçadoras, com formas de esqueletos, e outras imagens mais realisticamente apavorantes, se espalhavam por todas as paredes, manchando-as. Observei que os contornos daqueles monstros eram bem recortados, mas que as cores pareciam desbotadas e borradas, por efeito, talvez, da atmosfera úmida. Notei, então, o chão, que era de pedra. No centro, escancarava-se o poço circular, de cujas fauces havia eu escapado, mas era o único que se achava no calabouço.

Vi tudo isto indistintamente e com bastante esforço, pois minha condição física tinha grandemente mudado, durante meu sono. Encontrava-me agora de costas e bem espichado, numa espécie de armação de madeira, muito baixa. Estava firmemente amarrado a ela por uma comprida correia dupla. Enrolava-se em várias voltas em torno de meus membros e de meu corpo, deixando livre apenas a cabeça e o braço esquerdo, até o ponto apenas de poder, com excessivo esforço, suprir-me de comida em um prato de barro, que jazia a meu lado no chão. Vi, com grande horror, que a bilha d´água tinha sido retirada. Digo com grande horror, porque intolerável sede me abrasava. Parecia ser intenção de meus perseguidores exacerbar essa sede, pois a comida do prato era uma carne fortemente temperada.

Olhando para cima, examinei o forro de minha prisão. Tinha uns trinta ou quarenta pés de altura e era do mesmo material das paredes laterais. Em um de seus painéis, uma figura bastante estranha absorveu-me toda a atenção. Era um retrato do Tempo, tal como e comumente representado, exceto que, em lugar duma foice, segurava ele aquilo que, ao primeiro olhar, supus ser o desenho dum imenso pêndulo, dos que vemos nos relógios antigos. Havia algo, porém, na aparência daquela máquina, que me fez olhá-la mais atentamente. Enquanto olhava diretamente para ela, lá em cima (pois se achava bem por cima de mim), pareceu-me que se movia. Um instante depois vi isso confirmado. Seu balanço era curto e sem dúvida vagaroso. Estive a observá-lo alguns minutos, mais maravilhado que mesmo amedrontado. Cansado afinal de examinar-lhe o monótono movimento, voltei os olhos para os outros objetos que se achavam na cela.

Leve rumor atraiu-me a atenção e, olhando para o chão, vi vários ratos enormes, que por ali andavam. Haviam saído do poço, que se achava bem à vista, à minha direita. No mesmo instante, enquanto os observava, subiram aos bandos, apressados, com olhos vorazes, atraídos pelo cheiro da carne. Era-me preciso muito esforço e atenção para afugentá-los.

Talvez se houvesse passado uma meia hora, ou mesmo uma hora (pois só podia medir o tempo imperfeitamente), quando ergui de novo os olhos para o forro. O que vi, então, encheu-me de confusão e de espanto. O (balanço do pêndulo tinha aumentado de quase uma jarda de extensão. Como consequência natural, sua velocidade era, também, muito maior. Mas o que sobretudo me perturbou foi a ideia de que ele havia imperceptivelmente descido. Observava agora — com que horror é desnecessário dizer — que sua extremidade inferior era formada por um crescente de aço, cintilante, tendo cerca de um pé de comprimento, de ponta a ponta; as pontas voltavam-se para cima e a borda de baixo era evidentemente afiada como a folha de uma navalha. Como uma navalha, também, parecia pesado e maciço, estendendo-se para cima, a partir do corte, numa sólida e larga configuração. Estava ajustado a uma pesada haste de bronze, e o conjunto assoviava ao balançar-se no ar.

Não pude duvidar, por mais tempo, da sorte para mim preparada pela habilidade monacal em torturas. Minha descoberta do poço fora conhecida dos agentes da Inquisição -, o poço cujos horrores tinham sido destinados para um rebelde tão audacioso como eu; — o poço, figura do inferno, e, considerado pela opinião pública, como a Última Thule (a Última Thule foi o último refúgio pagão dos povos teutônicos, no extremo norte da Terra) de todos os seus castigos! Pelo mais fortuito dos incidentes, tinha eu evitado a queda dentro do poço e sabia que a surpresa ou armadilha da tortura formava parte importante de todo o fantástico daquelas mortes em masmorras. Não tendo caído, deixava de fazer parte do plano demoníaco atirar-me no abismo e dessa forma, não havendo alternativa, uma execução mais benigna e diferente me aguardava. Mais benigna! Quase sorri na minha angústia quando pensei no uso de tal termo.

De que serve falar das longas, das infindáveis horas de horror mais que mortal, durante as quais contei as precipitadas oscilações da lâmina? Polegada a polegada, linha a linha, com uma descida somente apreciável a intervalos que pareciam séculos, descia sempre, cada vez mais baixo, cada vez mais baixo! Dias se passaram — pode ser que se tenham passado muitos dias — até que ele se balançasse tão perto de mim que me abanasse com seu sopro acre. O odor da lâmina afiada entrava-me pelas narinas. Roguei aos céus, fatiguei-os com as minhas preces, para que mais rápida a lâmina descesse. Tornei-me freneticamente louco e forcejei por erguer-me contra o balanço da terrível cimitarra. Mas depois acalmei-me de repente e fiquei a sorrir para aquela morte cintilante, como uma criança diante de algum brinquedo raro.

Houve outro intervalo de completa insensibilidade. Foi curto, pois voltando, de novo à vida, não notei descida perceptível no pêndulo. Mas pode ter sido longo, pois eu sabia que havia demônios que tomavam nota de meu desmaio e que podiam, à vontade, ter detido a oscilação. Voltando a mim, sentia-me também bastante doente e fraco — oh, de maneira inexprimível! — como em consequência de longa inanição. Mesmo em meio das angústias daquele período, a natureza humana implorava alimento. Com penoso esforço, estendi o braço esquerdo, o mais longe que os laços permitiam, e apoderei-me do pequeno resto que me tinha sido deixado pelos ratos. Ao colocar um pedaço de alimento na boca, atravessou-me o espírito uma imprecisa ideia de alegria... de esperança. Todavia, que havia de comum entre mim e a esperança? Era, como eu disse, uma ideia imprecisa, dessas muitas que todos têm e que nunca se completam. Senti que eia de alegria... de esperança, essa ideia; mas também senti que perecera ao formar-se. Em vão eu lutava para aperfeiçoá-la, para recuperá-la. O prolongado sofrimento quase aniquilara todas as minhas faculdades comuns do pensamento. Eu era um imbecil... um idiota.

A oscilação do pêndulo fazia-se em ângulos retos com meu comprimento. Vi que o crescente estava disposto para cruzar a região de meu coração. Desgastaria a sarja de minha roupa... voltaria e repetiria suas operações, de novo... ainda outra vez. Não obstante sua oscilação, terrivelmente larga (de trinta pés ou mais), e a força sibilante de sua descida, suficiente para cortar até mesmo aquelas paredes de ferro, o corte de minha roupa seria, não obstante, tudo quanto durante alguns minutos ele faria. Ao pensar nisto, fiz uma pausa. Não ousava passar além dessa reflexão. Demorei-me nela com uma atenção pertinaz como se, assim fazendo, pudesse deter ali a descida da lâmina. Obriguei-me a meditar sobre o som que o crescente produziria, ao passar através de minha roupa... na característica e arrepiante sensação que a fricção do nano produz sobre os nervos. Meditava em todas estas bagatelas, até me doerem os dentes. Mais baixo... cada vez mais baixo, ele descia. Sentia um frenético prazer em comparar sua velocidade, de alto a baixo, com sua velocidade lateral. Para a direita... para a esquerda, para lá e para cá, com o guincho de um espírito danado! Para o meu coração, com o passo furtivo do tigre! Eu ora ria, ora urrava, à medida que uma ou outra ideia se tornava predominante. Para baixo... seguramente, inexoravelmente para baixo! Oscilava a três polegadas de meu peito! Debatia-me violentamente, furiosamente, para libertar meu braço esquerdo, que só estava livre do cotovelo até a mão. Podia apenas levar a mão à boca, desde o prato que estava ao meu lado, com grande esforço, e nada mais. Se tivesse podido quebrar os liames, acima do cotovelo, teria agarrado e tentado deter o pêndulo. Seria o mesmo que tentar deter uma avalanche!

Para baixo, incessantemente para baixo, inevitavelmente para baixo! Eu ofegava e debatia-me a cada oscilação. Encolhia-me convulsivamente a cada balanço. Meus olhos acompanhavam seus vaivéns, para cima e para baixo, com a avidez do mais insensato desespero; fechavam-se os meus olhos espasmodicamente, no momento da descida, embora a morte viesse a ser para mim um alívio, e oh, que inexprimível alívio! Entretanto, todos os meus nervos tremiam ao pensar que bastava uma simples descaída da máquina para precipitar aquele machado agudo e cintilante sobre meu peito. Era a esperança que fazia assim tremerem os meus nervos, que assim me dava calafrios ao corpo. Era a esperança... a esperança que triunfa, mesmo sobre o cavalete de tortura, a esperança que sussurra aos ouvidos do condenado à morte, até mesmo nas masmorras da Inquisição!

Vi que cerca de dez ou doze oscilações poriam a lâmina em contato com minhas roupas, e a essa observação, subitamente, me veio ao espírito toda a aguda e condensada calma do desespero. Pela primeira vez, durante muitas horas — ou mesmo dias — pensei. Ocorreu-me então que a correia que me cingia era uma só. Não estava amarrado por cordas separadas. O primeiro atrito do crescente navalhante, com qualquer porção da correia, a cortaria, de modo que eu poderia depois desamarrar-me com a mão esquerda. Mas quão terrível era, nesse caso, a proximidade da lâmina. Quão mortal seria o resultado do mais leve movimento! Seria verossímil, aliás, que os esbirros do inquisidor não tivessem previsto e prevenido essa possibilidade? Seria provável que a correia cruzasse o meu peito no percurso do pêndulo? Receando ver frustrada minha fraca e, ao que parece, última esperança, elevei a cabeça o bastante, para conseguir ver distintamente o meu peito. A correia envolvia meus membros e meu corpo, em todas as direções, exceto no cantinho do crescente assassino.

Mal deixara cair a cabeça na sua posição primitiva, reluziu em meu espírito algo que eu não saberia melhor definir, senão como a metade informe daquela ideia de libertação, a que já aludi, anteriormente, e da qual apenas uma metade flutuava, de modo vago, em meu cérebro ao levar a comida aos meus lábios abrasados. A ideia inteira estava agora presente — fraca, apenas razoável, apenas definida, mas mesmo assim inteira. Pus-me imediatamente a tentar executá-la, com a nervosa energia do desespero.

Durante muitas horas, a vizinhança imediata da baixa armação de madeira, sobre a qual eu jazia, estivera literalmente fervilhando de ratos. Eram ferozes, audaciosos, vorazes. Seus olhos vermelhos chispavam sobre mim, como se esperassem apenas uma parada de movimentos de minha parte para fazerem de mim sua presa. "A que espécie de alimento — pensei eu — estão eles acostumados neste poço?"

A despeito de todos os meus esforços para impedi-los, tinham devorado tudo, exceto um restinho do conteúdo do prato. Minha mão contraíra um hábito de vaivém ou de balança, em torno do prato e, afinal, a uniformidade inconsciente do movimento privou-o de seu efeito. Na sua voracidade, a bicharia frequentemente ferrava as agudas presas nos meus dedos. Com as migalhas da carne gordurosa e temperada, que ainda restavam, esfreguei toda a correia, até onde podia alcançar. Depois erguendo a mão do chão, fiquei imóvel, sem respirar.

A princípio, os vorazes animais se espantaram, terrificados com a mudança, com a cessação do movimento. Fugiram, alarmados; muitos regressaram ao poço. Mas isso foi só por um momento. Eu não contara em vão com sua voracidade. Observando que eu ficava sem mover-me, um ou dois dos mais audazes pularam sobre o cavalete e farejaram a correia. Parece que isto foi o sinal para uma corrida geral. Do poço precipitaram-se tropas frescas. Subiram pela madeira, correram sobre ela e saltaram, às centenas, por cima de meu corpo. Absolutamente não os perturbou o movimento cronométrico do pêndulo. Evitando-lhe a passagem, trabalhavam sobre a correia besuntada de gordura. Precipitavam-se, formigavam sobre mim, em pilhas sempre crescentes. Torciam-se sobre minha garganta; seus lábios frios tocavam os meus; eu estava semissufocado pelo peso dessa multidão. Um nojo, para que o mundo não tem nome, arfava-me o peito e me enregelava o coração com pesada viscosidade. Mais um minuto, porém, e compreendi que estaria terminada a operação. Claramente percebi o afrouxamento da correia. Sabia que em mais de um lugar ela ia deveria estar cortada. Com resolução sobre-humana, permaneci imóvel.

Nem errara em meus cálculos, nem havia suportado tudo aquilo em vão. Afinal, senti que estava livre. A correia pendia de meu corpo, em pedaços. Mas o movimento do pêndulo já me comprimia o peito. Dividira a sarja de minha roupa. Cortara a camisa por baixo. Duas vezes, de novo, oscilou e uma aguda sensação de dor atravessou todos os meus nervos. Mas chegara o momento de escapar-lhe. A um gesto de minha mão, meus libertadores precipitaram-se, tumultuosamente, em fuga. Com um movimento firme — prudente, oblíquo, encolhendo-me, abaixando-me — deslizei para fora dos laços da correia e do alcance da cimitarra. Por enquanto, ao menos, eu estava livre.

Livre! E nas garras da Inquisição! Mal descera de meu cavalete de horror, para o chão de pedra da prisão, o movimento da máquina infernal cessou e vi que alguma força invisível a arrastava, suspendendo-a através do forro. O conhecimento desse fato me abateu desesperadamente. Cada movimento meu era sem dúvida vigiado. Livre! Eu apenas escapara de morrer numa forma de agonia, para ser entregue a qualquer outra forma pior do que a morte. Com tal pensamento, girei os olhos nervosamente, em volta, sobre as paredes de aço que me circundavam. Qualquer coisa incomum, certa mudança que, a princípio, não pude perceber distintamente, era óbvio, se produzira no aposento. Durante vários minutos de sonhadora e tremente abstração, entreguei-me a vãs e desconexas conjecturas. Nesse período certifiquei-me, pela primeira vez, da origem da luz sulfurosa, que iluminava a cela. Procedia de uma fenda, de cerca de meia polegada de largura, que se estendia completamente em volta da prisão, na base das paredes, as quais assim pareciam que, de fato, eram inteiramente afastadas do solo. Tentei, mas sem dúvida inutilmente, olhar por essa abertura.

Ao erguer-me da tentativa, o mistério da alteração do aposento revelou-se logo à minha inteligência. Eu observara que, embora os contornos das figuras nas paredes fossem suficientemente distintos, suas cores, contudo, pareciam manchadas e indecisas. Tais cores passaram a tomar, e a cada momento tomavam, um brilho apavorante e mais intenso, que dava às espectrais e diabólicas imagens um aspecto capaz de fazer tremerem nervos, mesmo mais firmes que os meus. Olhos de demônio, de vivacidade selvagem e sinistra, contemplavam-me, vindos de mil direções, onde antes nada fora visível, e cintilavam com o lívido clarão de um fogo, que eu não podia forçar a imaginação a considerar como irreal.

Irreal! Mesmo quando respirei, veio-me às narinas o bafo do vapor de ferro aquecido! Um odor sufocante espalhou-se pela prisão! Um fulgor mais profundo se fixava a cada instante nos olhos que contemplavam minhas agonias! Uma coloração, sempre mais intensamente carmesim, difundia-se sobre as horrendas pinturas de sangue! Ofeguei! Esforcei-me para respirar! Não podia haver dúvidas sobre os desígnios de meus atormentadores, oh!, os mais implacáveis, os mais demoníacos dos homens! Fugi do metal ardente, para o centro da cela. Entre as ideias da destruição pelo fogo, que impendia sobre mim, o pensamento do frescor do poço caiu em minha alma como um bálsamo. Atirei-me para suas hordas mortais. Lancei para o fundo os olhares ansiosos. O brilho do teto inflamado iluminava seus mais recônditos recessos. Contudo, por um momento desordenado, o espírito recusou-se a compreender a significação do que eu via. Afinal, obriguei-o a compreender — lutei para que isso penetrasse em minha alma — e isso se gravou em brasa na minha mente trêmula. Oh! Ter uma voz para falar! Oh! Horror! Oh! Qualquer horror, menos esse! Com um grito, fugi da margem e sepultei a face nas mãos, chorando amargamente.

O calor aumentava com rapidez e ainda uma vez olhei para cima, a tiritar, como num acesso de febre. Segunda alteração se verificara na cela... e agora a mudança era, evidentemente, na forma. Como antes, foi em vão que tentei, a princípio, perceber ou compreender o que ocorria. Mas não fui deixado em dúvida muito tempo. A vingança inquisitorial fora apressada pela minha dupla fuga a ela, e não havia mais meio de perder tempo com o Rei dos Terrores. O quarto fora quadrado. Eu notava que dois de seus ângulos de ferro eram agora agudos e dois, em consequência, obtusos. A terrível diferença velozmente aumentava, com um grave rugido, ou um gemido surdo. Em um instante o aposento trocara sua forma pela de um losango. Mas a alteração não parou aí nem eu esperei ou desejei que ela parasse. Eu poderia ter aplicado as paredes rubras ao meu peito, como um vestuário de eterna paz. "A morte!" — disse eu — "Qualquer morte, porém não a do poço!"

Louco! Não havia compreendido que o objetivo dos ferros ardentes era impelir-me para dentro do poço? Poderia eu resistir a seu fulgor? Ou, mesmo que o conseguisse, poderia suportar sua pressão? E então, mais e mais se achatou o losango, com uma rapidez que não me dava tempo para refletir. Seu centro e, naturalmente, sua maior largura, ficaram mesmo sobre o abismo escancarado. Fugi... mas as paredes, a apertar-se, impeliam-me irresistivelmente para diante. Afinal, para meu corpo queimado e torcido, não havia mais de uma polegada de solo firme, no soalho da prisão. Não lutei mais, a agonia de minha alma, porém, se exalou num grito alto, longo e final de desespero. Senti que oscilava sobre a borda... Desviei os olhos...

Houve um ruído discordante de vozes humanas! Houve um elevado toque, como o de muitas trombetas! Houve um rugido áspero, como o de mil trovões! Precipitadamente, recuaram as paredes em brasa. Um braço estendido agarrou o meu, quando eu caía, desfalecido, no abismo. Era o do General Lasalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição caíra nas mãos de seus inimigos.

Edgar Allan Poe 1842  The Pit and the Pendulum 

O Poço e o Pêndulo (1964) filme