domingo, 17 de julho de 2022

Anitta

 Anitta entra no jogo político desarticulando desejos e expectativas.

 Milly Lacombe, 16/07/2022, UOL

Anitta declarou apoio a Lula e a campanha do petista sentiu o poder de engajamento da estrela. Dias depois, parece que Anitta entendeu que o PT estava tentando assumir o controle sobre o apoio, explorando sua imagem como achava de que devia em nome de amplificar o engajamento.

Anitta não gostou e foi ao Twitter deixar claro. Escreveu em um fio: "Atenção candidatos do PT, atenção partido PT. Eu NÃO SOU uma apoiadora do PT e NÃO SOU petista. "Não autorizo o uso da minha imagem para promover este partido e seus candidatos. Minha escolha nessas eleições foi de trazer engajamento e mídia para a pessoa que tem maiores chances de vencer voldemort nessas eleições.

"Depois de muitas pesquisas a conclusão é de que essa pessoa é o Lula. E o que vou fazer daqui em diante é usar minhas plataformas no que eu puder ajudar para trazer mais visibilidade a ele com a propósito de não termos novamente voldemort na presidência. "Que isso fique bem claro. Meus ideais políticos e as coisas que eu acredito ficaram para as próximas eleições. Este ano meu foco é fazer minha parte para não dar brecha a esse possível pesadelo de reeleição.

"NÃO USEM MEU NOME e minha imagem para promover a candidatura e o partido de vcs por q quem usar vai tomar logo um forão. E pode me xingar a vontade q eu não sou de ir junto com a manada não. "Eu só faço o q eu quero a hora q eu quero. Depois vou estudar os candidatos a governador, deputados etc, e tirar minhas próprias conclusões".

Está certa Anitta. 

É uma lógica que ela defende desde sempre em sua carreira: se eu desejar, coloco a minha bunda na sua cara. Mas, sem meu consentimento, você não coloca a sua cara na minha bunda. É disso que se trata, em uma linha, a potência do feminismo. O poder erótico (intelectual, emocional, físico etc) de uma mulher usado por ela como ela desejar.

Anitta está dizendo ao PT: vamos juntos, mas nos meus termos. Nas redes, muita gente começou a questionar Anitta alegando que ela mesma deu mole ao postar uma imagem sensual vestida de PT. Numa sociedade tão machista é mesmo difícil entender o que ela está exigindo: o controle sobre o corpo dela e sobre o que ela faz com ele é dela.

Mas certamente vão cair em cima. Bobagem. Eu argumentaria, aliás, que o apoio dela ficou ainda mais valioso. Anitta vai se comunicar com quem não é petista, nunca foi, mas considera votar em Lula para se livrar do horror que está aí. É uma aliança poderosa que, da forma como entendo, tem ainda mais valor do que se ela dissesse: virei petista.

Aos que resolverem criticá-la pelo posicionamento eu sugeriria, por exemplo, deixar Anitta em paz e ir cobrar de Roberto Carlos, ou de outros artistas famosos que estão em silêncio, uma manifestação contra a candidatura do homem que dissemina o ódio e pulsão de morte por aí.

A mulher que faz alguma coisa contra o tenebroso futuro político que se anuncia acaba sendo mais criticada do que o homem que não faz nada. "Não apoiou o suficiente", "Não apoiou certo", "Devia ter falado que é importante escolher os deputados", "faz três dias que não posta seu apoio", "Vou te explicar como você deve apoiar corretamente"... Em 2018, fomos às ruas berrar "Ele Não" e, ao final, acabamos sendo responsabilizadas pela vitória do atual presidente em escala infinitamente maior do que os covardes que calaram.

Anitta diz sim e Anitta diz não. É um direito inalienável. Dela e de todas nós.

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Anitta @Anitta

Atenção candidatos do PT, atenção partido PT. Eu NÃO SOU uma apoiadora do PT e NÃO SOU petista. Não autorizo o uso da minha imagem para promover este partido e seus candidatos. Minha escolha nessas eleições foi de trazer engajamento e mídia para a pessoa que tem maior chances de

5:28 PM · 16 de jul de 2022

Anitta @Anitta

vencer voldemort nessas eleições. Depois de muitas pesquisas a conclusão é de que essa pessoa é o Lula. E o que vou fazer daqui em diante é usar minhas plataformas no que eu puder ajudar para trazer mais visibilidade a ele com a propósito de não termos novamente voldemort na

5:29 PM · 16 de jul de 2022

Anitta @Anitta

presidência. Que isso fique bem claro. Meus ideais políticos e as coisas que eu acredito ficaram para as próximas eleições. Este ano meu foco é fazer minha parte para não dar brecha a esse possível pesadelo de reeleição. NÃO USEM MEU NOME e minha imagem para promover a

5:31 PM · 16 de jul de 2022

Anitta @Anitta

candidatura e o partido de vcs por q quem usar vai tomar logo um forão. E pode me xingar a vontade q eu ñ sou de ir junto com a manada não. Eu só faço o q eu quero a hora q eu quero. Depois vou estudar os candidatos a governador, deputados etc, e tirar minhas próprias conclusões

5:35 PM · 16 de jul de 2022

sexta-feira, 15 de julho de 2022

13

Treze (confirma)
Repetir assunto é um tema constante na minha vida

Tati Bernardi, FSP, 14/07/2022

Na maior parte dos lugares em que eu trabalho, é educado não declarar voto. Por isso selecionei aqui 13 assuntos que nada têm a ver com política.
O pedido (para que eu não declare meu voto no Lula) vem em forma de um email simpaticão ou até durante uma conversa informal, almoçando com alguém que poderia me demitir ou me dar um aumento. (Não gosto de chamar essa pessoa de chefe, porque trabalho de casa e a única pessoa que entra aqui o dia todo pra me dar broncas é a minha filha.)

Meu analista pessoal, que vai votar no Lula, minha antiga analista de casal, que vai votar no Lula, e a analista da minha filha, que vai votar no Lula, deixam sempre muito claro que é nocivo para o desenvolvimento de uma criança que ela mande na progenitora (e que essa mãe não vote no Lula). O máximo que eu consigo fazer com essa informação é dizer a esse serzinho (gigantesco, que tanto venero), cheia de medo, talvez ajoelhada, com seis presentes em cada braço: "Quer um abraço?".
Mas vamos ao terceiro assunto: fazendo uma tomografia pós-Covid, descobri um tumor no esterno. O médico pareceu preocupado e pediu pra investigarmos se era "agressivo". As pessoas não falam "câncer", e eu entendo. Resolvi então chamar a pior hipótese de "Bolsonaro", e foram cinco dias numa expectativa terrível, com medo de que a ressonância desse Bolsonaro no primeiro turno. Mas ontem descobri que era Lula na cabeça.

Vocês sabiam que, no mundo inteiro, existem canais de internet e programas de TV só sobre espinhas sendo espremidas? Que tesão bizarro é esse? Seria a espinha um pequenino pênis que ejacula após a manipulação? Não acredito que a predileção por pus diga se alguém é sociopata, mas votar no Bolsonaro, sim.

Meu namorado quer que eu fique seis horas dentro de um carro. Eu pergunto se não tem um lugar mais perto. Ele responde que está procurando um lugar mais longe, que o ideal mesmo seria ficarmos 15 horas dentro de um carro. Ele ama viajar —sobretudo quando demora pra chegar. Eu sou do tipo que escolhe apartamento pela distância em relação a uma boa farmácia, de preferência uma que entregue remédios pra enxaqueca em casa. Mas combinamos de ir escutando o podcast "Mano a Mano", e eu topei. Aliás, as entrevistas do Mano Brown com a Sueli Carneiro, o Sidarta, o Henrique Vieira, a Djamila Ribeiro e o Lula são as melhores coisas do ano todinho. E aqui já foram seis assuntos em um parágrafo só. E todos votam em Lula no primeiro turno.

Há mais de dez anos, meu pai foi demitido do trabalho, sem justa causa, e jamais recebeu a rescisão. Ele procurou um advogado que o defendesse. O advogado ofereceu R$ 15 mil para que ele "assinasse um documento passando todo o valor a ser recebido para o advogado, uma vez que esse dinheiro demoraria demais pra sair e meu pai já tinha idade". O "doutor" quis comprar do meu pai os direitos por 20 anos de trabalho. E isso é crime? Aparentemente, não. Tem cada coisa neste país, meu amigo. Adivinha em quem o advogado vota?
Recentemente uma pessoa me xingou no Twitter porque fiz uma crônica dizendo que simpatizo com o ayurveda. Sou obrigada a dizer, com todo o respeito, que essa pessoa deveria desconfiar é da quantidade de toxina botulínica que sua dermatologista prescreve. Com gente preferindo arma a livro, podiam me deixar em paz se quero pingar cúrcuma no nariz.

E agora minha filha entrou aqui querendo minha atenção. Só me resta obedecer —até porque ela está usando um boné vermelho com estrela. Repetir assunto é um tema constante na minha vida. Por exemplo: voto no mesmo partido há quase 30 anos.


quinta-feira, 14 de julho de 2022

Tenório Jr

Justiça, talvez, por Tenório

Dez criminosos da ditadura argentina vão à prisão perpétua 

Ruy Castro, 10/07/2022, FSP

O pianista brasileiro Francisco Tenorio Cerqueira Júnior, que desapareceu em 1976 em Buenos Aires, seis dias antes do golpe militar que derrubou a presidente Isabelita Perón, na Argentina - Reprodução

Há dias, a Justiça da Argentina condenou dez ex-militares à prisão perpétua por crimes cometidos durante a ditadura (1976-1983) naquele país. Alguns desses crimes foram de sequestro, tortura e homicídio, este muitas vezes o "voo da morte" —a prática de atirar prisioneiros políticos no mar, de avião. O centro desses torturadores era uma base militar perto de Buenos Aires. Por ali podem ter passado 5.000 pessoas. Uma delas, o pianista brasileiro Tenorio Jr. 

Tenorio tinha 33 anos, quatro filhos e sua mulher, no Rio, esperava o quinto. Fora uma das grandes revelações do samba-jazz e seu LP "Embalo", lançado em 1964, é um dos três ou quatro discos decisivos do gênero — a edição original, pela RGE, chega hoje a alguns milhares de reais nos leilões.

Tenório Jr. ‎/ Embalo / 1964 / full album  ou aqui

Em 1976, Tenório era o pianista de Vinicius de Moraes e Toquinho, que se apresentavam em Buenos Aires. Na noite de 18 de março, ele saiu do hotel Normandie para dar uma volta. Deixou um bilhete na recepção dizendo "Volto logo". Mas não voltou. Foi um dos primeiros "desaparecidos" do golpe que dali a dias deporia a presidente Isabelita Perón.

Tenório só pensava em música. Não se interessava por política. Presume-se que tenha sido preso por engano na avenida Corrientes, confundido pelos óculos e barba com um ativista que os golpistas queriam neutralizar. Levado à tortura e sem saber o que dizer, foi espancado de tal forma que, mesmo constatado o engano — confirmado, segundo dizem, por funcionários da embaixada brasileira, militantes da nossa própria ditadura —, estava machucado demais para ser devolvido. O jeito era jogá-lo do avião, não se sabe se vivo ou morto. Seu corpo nunca foi encontrado.

Há hoje uma placa com seu nome na fachada do hotel. E, agora, quase meio século depois, dez dos responsáveis por esse tipo de crime chegaram à Justiça. Têm entre 79 e 98 anos. Mas nunca é tarde para pagar.

Animação revisita história de pianista da bossa nova que desapareceu na Argentina

Em 'They Shot The Piano Player', Jeff Goldblum dá voz a jornalista que investiga o sumiço do músico Tenório Jr. 

Manoella Smith, 19/11/2019

O pianista Francisco Tenório Jr., músico da banda de Vinicius de Moraes e Toquinho, desapareceu em março de 1976, em Buenos Aires, durante uma temporada de shows da dupla. A Argentina estava às vésperas de um golpe militar. Tenório Jr. nunca mais apareceu. Ele tinha 35 anos.

O caso será revisitado pela animação musical “They Shot The Piano Player” (eles atiraram no pianista). O ator Jeff Goldblum ("Jurassic Park") dará voz ao protagonista, um jornalista musical de Nova York que investiga o desaparecimento de Tenório Jr. 

Ainda em pré-produção, o filme será dirigido por de Fernando Trueba e Javier Mariscal, da animação  "Chico e Rita", indicada ao Oscar de 2012. 

A produtora britânica Film Constellation descreveu o filme como "uma história comemorativa de origem da bossa nova que captura um tempo fugaz repleto de liberdade criativa em um momento decisivo na história da América Latina nas décadas de 1960 e 1970, pouco antes de o continente ser tomado por regimes totalitários".

Músicos como João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinicius de Moraes e Paulo Moura também devem aparecer na obra.


Pianista brasileiro foi assassinado por ditadura argentina

DE BUENOS AIRES

 07 de novembro de 2011

"Vou sair pra comprar cigarros e um remédio. Volto logo."

Depois de deixar esse bilhete aos parceiros Vinicius de Moraes e Toquinho, com quem fazia uma temporada de shows, o pianista Francisco Tenório Jr. deixou o hotel Normandie, em Buenos Aires, e nunca mais reapareceu. O músico foi confundido com um guerrilheiro de esquerda e levado por repressores para um centro de detenção.

A Argentina estava às vésperas de um golpe militar que imporia uma ditadura no país -o sequestro ocorreu no dia 18 de março de 1976, os militares tomaram o poder no dia 24. Segundo um oficial da Marinha que diz ter sido testemunha do ocorrido, quando se deram conta do equívoco, era tarde demais. Tenório estava muito machucado e teria visto o rosto de seus algozes. Foi então assassinado. Tinha 35 anos.

DEDICATÓRIA

No próximo dia 16, a legislatura da cidade de Buenos Aires fará uma homenagem ao artista brasileiro, dedicando a ele uma placa, que será colocada na frente do hotel. Na avaliação do escritor e colunista da Folha Ruy Castro, a história da música popular brasileira poderia ter sido outra e mais variada se Tenório não tivesse morrido naquela noite. Além da homenagem na capital argentina, Tenório está sendo celebrado por meio de um documentário do cineasta espanhol Fernando Trueba ("El Embrujo de Shangai"), em fase de edição.

A filha mais velha de Tenório, Elisa Cerqueira, conta que foram encontrados arquivos inéditos do músico, que serão editados junto com o filme. "Ele ficaria muito feliz de saber dessas homenagens. É uma pena, porém, o fato de que eu, meus irmãos e minha mãe não tenhamos ficado sabendo nunca o que aconteceu de verdade com ele", diz Elisa.

Elisa conta que, até 1986, os familiares ainda acreditavam que ele pudesse estar apenas desaparecido e que um dia "poderia tocar a campainha da porta". Quando surgiu a versão do oficial da Marinha, porém, eles perderam as esperanças. A homenagem portenha é mais um acontecimento na série de reparações que a Argentina tem feito com relação aos crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura.

A família do músico já havia sido indenizada pelo governo local. (SYLVIA COLOMBO)

David Cronenberg

Crítica: 'Crimes of the Future' soa como indagação sobre futuro dos humanos

Tudo é sombrio. O corpo do herói desenvolve órgãos estranhos que são extirpados

Luiz Carlos Merten, 14 julho 2022 O Estado

Havia grande expectativa pelo retorno de David Cronenberg à competição de Cannes, oito anos após a premiação de Mapas para as Estrelas. No ano passado, Julia Ducournau venceu a Palma de Ouro com o esquisito Titane, indiscutivelmente conectado ao cronenbergiano Crash - Estranhos Prazeres. Este ano, ele próprio voltou à liça. Depois da discípula, o mestre venceria a Palma? Crimes of the Future dividiu a crítica.

No quadro de cotações do festival, muitas estrelas e algumas carinhas, tipo emojis, de decepção. O filme tem o mesmo título e até o tema - as mutações provocadas por materiais sintéticos no corpo humano -, mas não é o remake do segundo longa do autor, de 1970. Há 52 anos!

Nesse tempo todo, Cronenberg fez filmes que celebram o corpo como única verdade, e até realidade. Crimes of the Future parece uma súmula da vertente de ficção científica de seu cinema. Passa-se, presumivelmente, no futuro, contando a história desse homem, Viggo Mortensen, que promove a extração de seus tumores, assistido por Léa Seydoux, em cirurgias que se transformam em performances artísticas, com direito a público e tudo. Em Cannes, colou-se ao filme o título da matéria - O Crepúsculo dos Órgãos - que a revista Cahiers du Cinéma colocou na capa, apostando em Cronenberg para a Palma de Ouro, que ele não ganhou - aliás, não ganhou nada.

Crimes of the Future | Trailer Oficial

Quem segue o diretor sabe de sua atração pela mutação dos corpos. Os próprios personagens operam as mudanças que os transformam em aberrações aos olhos de seus semelhantes. Dessa vez, Cronenberg foi mais bizarro. O corpo de Mortensen, em seu quarto filme com o diretor, desenvolve os órgãos estranhos que são extirpados, sob o controle do tal Birô Nacional do Registro de Órgãos. Tudo é crepuscular, noturno, sombrio. Difícil não ver uma indagação sobre o futuro da humanidade no mundo tóxico que a busca do lucro desenfreado construiu.

Viggo Mortensen, o rosto sofrido, atua certo de que aquilo que as pessoas, muitas vezes, têm medo de ver, a beleza do interior do corpo, é arte. O nó górdio é Léa Seydoux. Para o jornal Figaro, ela foi a pior atriz de Cannes, em 2022. Por decepcionante que seja, o filme tem um final perturbador - e enigmático. Aquilo é prazer ou sofrimento?

CRIMES OF THE FUTURE - UM FILME SÁDICO, REPULSIVO E DECEPCIONANTE Vídeo

Imperdível de Cronenberg

Marcas da Violência, A History of Violence, 2005

domingo, 10 de julho de 2022

Uma noite histórica na Cinemateca Brasileira

Com ‘Deus e o Diabo’, uma noite histórica na Cinemateca Brasileira

Luiz Zanin Oricchio, 07 de julho de 2022, O Estado

Foi uma noite para ser lembrada. No telão da parte externa da Cinemateca foi projetada a cópia restaurada em 4K do clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Até então não tínhamos uma cópia à altura desse filme fundamental, tal qual ele foi exibido a partir de 1964. A exibição foi precedida por um debate com os restauradores da obra – José Luiz Sasso, Rodrigo Mercês, Paloma Rocha e Lino Meirelles. 

Detalhes técnicos à parte, fica o registro de que tanto o debate como a sessão foram sucessos absolutos, com as salas lotadas e cheias de gente jovem. É o renascimento da Cinemateca que devemos comemorar, após dois anos de obscurantismo que a deixaram fechada e sujeitas a incêndios, inundações e outras intempéries. 

Sobre Deus e o Diabo, quero dizer que nunca havia visto o filme sob essas condições ideais. A obra brilha na tela em toda a grandiosidade que foi concebida. Todos os diálogos são inteligíveis. A música – de Sérgio Ricardo a Villa-Lobos – ressoa com todo o seu corpo sonoro. É uma experiência impactante, para o crítico como para o público. Foi muito aplaudido no final.

Abaixo, um dos vários textos que escrevi sobre o filme, ao longo da vida: 

Há um fato interessante a respeito de Deus e o Diabo na Terra do Sol. O filme foi apresentado à imprensa dia 13 de março de 1964. Nesse mesmo dia houve o famoso Comício da Central do Brasil, no qual o presidente João Goulart defendia as Reformas de Base. O comício, incendiário, foi estopim para o golpe de Estado que derrubaria o presidente duas semanas depois, em 1.º de abril, dando início a uma ditadura de 21 anos.

O quadro histórico é importante, pois Glauber, em Deus e o Diabo, expressa um programa de geração. Mais que um filme, é um manifesto. Mais que manifesto, é todo projeto para um futuro que não se cumpriria. De qualquer forma, Glauber exprime a fé revolucionária e a sua confiança jovem de 20 e poucos anos de que o homem deve se assumir senhor do seu destino, sujeito da sua história, como então se dizia.

O trajeto é exemplar. O vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey), depois de matar o patrão, vaga sem rumo pelo sertão. Conhece primeiro o “Deus Negro”, Sebastião (Lídio Silva) em Monte Santo. É a fase mística. Que, superada, passa à fase seguinte, no encontro com o cangaceiro Corisco (Othon Bastos), até que este caia nas mãos de Antonio das Mortes (Maurício do Valle). No trecho final, Manuel corre em direção ao mar, obviamente aqui significando a esperança de transformação. Esse é o tom otimista. Manuel, essa consciência alienada, supera a fase mística com o beato, a violência sem direção do cangaço, para assumir-se por fim, livre e só, para construir o seu futuro.

Era o clima vigente na época, pouco antes do golpe. Muito diferente, por sinal, daquele expresso no filme seguinte de Glauber, outra obra-prima, Terra em Transe (1967), de certa forma a reflexão de por que as esperanças exibidas em Deus e o Diabo haviam naufragado. Entre outras hipóteses, que podem ser lidas na própria obra de Glauber, mas também fora dela, porque o “progresso” humano não se faz em linha reta, evolutiva. Nem mesmo através das contradições hegelianas, como pode ser intuído no filme. É tortuoso, errático e misterioso. Recua quando parece avançar e vice-versa. Mas, numa época de euforia revolucionária, a racionalidade do progresso e a iminência da libertação parecem fatos evidentes.

Deus e o Diabo na Terra do Sol está disponível numa excelente cópia em DVD, fruto da parceria entre Versátil, Riofilme e Tempo Glauber. São dois discos. Um com o filme, outro apenas reservado aos extras, com depoimentos, músicas, trailer, etc. É uma das obras-primas incontestes do cinema brasileiro. 

Ainda não sabemos de outras oportunidades em que esta obra (“uma catedral do cinema brasileiro” na expressão de Lino Meireles) poderá ser vista. Está sendo negociada com exibidores. Mas também é preciso registrar que a mostra de que faz parte – Espetáculo Polêmica Cultura – prossegue até domingo, com super atrações para os cinéfilos. Vejam a programação abaixo, lembrando que os ingressos são gratuitos.  

Quinta-feira, 07 de julho

17:00 – A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA 

Brasil, 1965, 106 min, p&b, digital, 14 anos

Direção: Roberto Santos 

Elenco: Leonardo Villar, Joffre Soares, Maria Ribeiro, Maurício do Valle, Flávio Migliaccio 

Sinopse: Augusto Matraga é um fazendeiro violento que, traído pela esposa e emboscado por inimigos, é massacrado a pauladas e dado como morto. Salvo por um casal de negros humildes, enfrenta um longo período de total incapacidade física. Por influência do casal, volta-se para a religiosidade, convencendo-se de que está pagando pelos erros cometidos. Quando ele conhece Joãozinho Bem-Bem, o famoso chefe de jagunços, Matraga oscila entre seu desejo por vingança e a bondade que não consegue mais abandonar.  

19:00 – O ANJO EXTERMINADOR (El Ángel Exterminador)

México, 1962, 95 min, p&b, digital, 12 anos

Direção: Luis Buñuel 

Elenco: Silvia Pinal, Jacqueline Andere, Enrique Rambal, José Baviera, Augusto Benedico, Luis Beristáin, Antonio Bravo, Claudio Brook, César del Campo, Rosa Elena Durgel 

Sinopse: Um casal da convida um grupo de amigos para um jantar em sua mansão. Depois do evento, eles começam a se despedir, mas não conseguem sair da sala em que se encontram. Apesar de não haver nada concreto impedindo-os de ir embora, ninguém se atreve a dar um passo além da porta, estão presos. Os dias passam e os anfitriões e convidados abandonam as regras sociais, revelando os lados mais primitivos de cada um. 

21:00 – ESSES MARIDOS (Mariti in Città) 

Itália, 1957, 95 min, p&b, digital, 12 anos

Direção: Luigi Comencini  

Elenco: NinoTaranto, Renato Salvatori, Memmo Carotenuto, Richard McNamara, Giorgia Moll, Irene Cefaro

Sinopse: Enquanto suas esposas e crianças passam as férias de verão na praia, os maridos ficam em casa trabalhando e buscando aventuras amorosas que nem sempre dão certo.

Sexta-feira, 08 de julho

17:00 – Palestra – História do conceito “Cinema de Arte” com o pesquisador, crítico e professor de cinema Ismail Xavier

19:00 – OS SUBVERSIVOS (I Sovversivi) 

Itália, 1967, 93 min, p&b, 35mm, livre

Direção: Paolo Taviani, Vittorio Taviani 

Elenco: Giorgio Arlorio, Giulio Brogi, Pier Paolo Capponi, Maria Cumani Quasimodo, Lucio Dalla, Ferruccio De Ceresa 

Sinopse: As histórias de quatro personagens impactadas pela morte do líder comunista Palmiro Togliatti. Um venezuelano que abandona a rica mulher italiana que ele ama para lutar em seu país. Um cineasta que entende que a arte não é o bastante. Uma mulher que começa um relacionamento com a antiga amante de seu marido. E um filósofo que quer se desvincular de seu passado.  

21:00 – OS AMANTES DE FLORENÇA (Cronache di Poveri Amanti) 

Itália, 1954, 107 min, 35mm, p&b

Direção: Carlo Lizzani

Elenco: Anna Maria Ferrero, Cosetta Greco, Antonella Lualdi, Marcello Mastroianni, Bruno Berellini, Irene Cefaro

Sinopse: 1925. Um jovem tipógrafo de Florença muda de cidade paraficar próximo de sua namorada. Lá, ele se aproxima de um grupo antifascista e se apaixona por uma mulher casada. O conflito com os fascistas e seu amorproibido transformarão sua vida para sempre.

Sábado, 09 de julho

16:00 – OS CAFAJESTES 

Brasil, 1962, 93 min, p&b, 35 mm, 14 anos

Direção: Ruy Guerra

Elenco: Jece Valadão, Norma Bengell, Daniel Filho, Hugo Carvana, Lucy de Carvalho, Glauce Rocha 

Sinopse: Jandir, um rapaz de origem pobre, e seu amigo Vavá, um playboy, vivem no submundo de drogas e sexo de Copacabana. Quando o pai de Vavá vai a falência, eles arquitetam um plano para conseguir dinheiro: extorquir o tio rico de Vavá com fotos comprometedoras de sua amante, Leda. O plano não dá certo e os amigos escolhem sua próxima vítima, Vilma, filha do tio de Vavá por quem ele está secretamente apaixonado. 

18:00 – A PASSAGEIRA (Pasazerka) 

Polônia, 1963, 62 min, colorido, digital

Direção: Andrzej Munk e Witold Lesiewicz 

Elenco: Aleksandra Slaska, Anna Ciepielewska, Jan Kreczmar, Marek Walczewski, Irena Malkiewicz, Barbara Horawianka, Anna Jaraczówna, Leon Pietraszkiewicz 

Sinopse: Voltando de navio com seu marido para a Europa, a alemã Liza relembra seu passado como guarda de um campo de concentração quando reconhece Marta, que fora prisioneira em Auschwitz. Enquanto Liza conta sua versão da história ao seu marido, assistimos às cenas brutais do que realmente aconteceu, revelando a crueldade de Liza e a coragem de Marta. Filme inacabado de Andrzej Munk. 

20:00 – HARAKIRI (Seppuku) 

Japão, 1962, 133 min, p&b, digital, 14 anos 

Direção: Masaki Kobayashi 

Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Ishihama, Shima Iwashita, Tetsurô Tanba,Masao Mishima, Ichirô Nakatani

Sinopse: No pacificado Japão do século XVII, samurais já não possuem o mesmo prestígio e utilidade como na época da guerra. Um ronin (samurai sem mestre) solicita permissão para realizar um ritual de suicídio na propriedade de um senhor feudal já que sua vida não tem mais propósito. Desconfiado de que o pedido do ronin é um golpe para conseguir dinheiro, o senhor feudal conta a trágica história de outro samurai que tentou o mesmo estratagema. Honra e sobrevivência se tornam pólos de um dilema que culmina em uma das melhores cenas de luta da história do cinema.  

Domingo, 10 de julho

16:00 – GARRINCHA, ALEGRIA DO POVO 

Brasil, 1962, 61 min, p&b, digital, livre

Direção: Joaquim Pedro de Andrade 

Elenco: Manoel Francisco dos Santos (Garrincha), Nair dos Santos, João Paulo Câmara, Juscelino Kubitschek 

Sinopse: A trajetória do grande astro do futebol brasileiro, Mané Garrincha. A paixão ardorosa do povo pelo futebol. O lado catártico do esporte em que o torcedor esvai aos berros seus anseios e frustrações acumulados durante a semana. A lenda do ídolo querido e amado é posta em xeque. E as mazelas dos contratos profissionais que subjugam o ser humano ao clube, preso à concentração, são expostas. 

18:00 – O CRIME DA ALDEIA VELHA 

Portugal, 1964, 105 min, p&b, 35 mm, 16 anos

Direção: Manuel Guimarães 

Elenco: Barbara Laage, Rogério Paulo, Mário Pereira, Rui Gomes, Alma Flora, Maria Olguim 

Sinopse: Baseado em fatos reais, o filme conta a história de um crime ocorrido nos anos 1930 em uma aldeia serrana. Os seus habitantes perseguem uma jovem que acreditam estar possuída pelo demônio. Quando finalmente percebem que cometeram um grave erro, é tarde demais. 

20:00 – A PAIXÃO DE JOANA D’ ARC (La passion de Jeanne d’Arc) 

França, 1928, 114 min, p&b, digital, 14 anos

Direção: Carl Theodor Dreyer 

Elenco: Maria Falconetti, Eugene Silvain, André Berley, Maurice Schutz, AntoninArtaud, Michel Simon 

Sinopse: A prisão, tortura, julgamento e execução de Joana D’Arc, condenada por heresia pela igreja católica. Apesar das táticas inumanas das autoridades eclesiásticas para fazê-la mudar a sua história, Joana D’Arc se mantém fiel às suas crenças. Seu castigo brutal lhe aufere martírio perpétuo. 


NB: os cartazes dos filmes e os link imdb são acréscimos deste blog.

Cânticos LGBTfóbicos nos estádios

Não acredito que a discriminação nos estádios se supere com punições

Amara Moira, UOL, 10/07/2022

Num momento em que tanta gente tem se manifestado a favor de punições mais duras com relação aos cânticos LGBTfóbicos nos estádios, talvez cause surpresa a minha posição de desconfiar desse tipo de medida. Não que eu não ache que seja preciso enfrentar a discriminação que vem dos estádios, só não acredito que essa é a melhor maneira, ou mesmo que essa maneira resolva alguma coisa, aliás.

O preconceito nos estádios é sintoma de algo maior, de algo anterior, que é o preconceito que molda as nossas subjetividades desde que nos entendemos por gente. Na infância, o menino é ensinado a não querer ser "viadinho" em hipótese nenhuma e a chamar o amigo de "viadinho" quando este não se comporta conforme os ditames da masculinidade hegemônica. Às vezes, vai chamar o amigo de "viado" só de zoeira, mesmo que este não tenha feito nada de mais. E, mesmo que nenhum deles ache que está sofrendo preconceito, o que é comum que aconteça ("é só uma brincadeira!", podem dizer ambos), é importante termos em mente que a cada vez que a palavra "viado" é utilizada como xingamento se se reforça a ideia de que ser viado é terrível... e aí vocês já podem imaginar o tanto de obstáculos que alguém terá pela frente ao se descobrir e ao se assumir LGBTQIA+.

Acredito profundamente que, se fomos capazes de aprender práticas discriminatórias (e fomos, porque elas não vêm nos nossos genes), somos também capazes de desaprendê-las. Esse desaprendizado e reaprendizado, no entanto, não é algo simples. Como costuma dizer a Amanda Palha, uma das travestis mais brilhantes que conheci, a gente gosta de falar em desconstrução, mas acha que desconstrução é brincar de lego, quando a metáfora mais apropriada talvez fosse modificar um edifício. Imagina o trabalho que dará e o cuidado com que deve ser feita qualquer tentativa de mudança estrutural. Desconstrução não é uma pecinha que a gente tira e coloca em outro lugar.

Sempre me lembro de um dia em que quase fui atropelada na rua e, na hora de xingar o motorista, soltei logo um "seu cuzão filho da puta". Vejam bem, eu sou travesti e já exerci o trabalho sexual, sou uma militante putafeminista inclusive, mas nada disso impediu que, num momento de descontrole, eu soltasse um xingamento que remetesse ao tamanho do ânus do cidadão e que sugerisse que a mãe dele é puta. Por mais que tenhamos anos de estrada na militância, anos de desconstrução, aqui e ali vão acabar vindo à tona reflexos desse adestramento discriminatório que recebemos desde o berço.

Sem contar que, se o objetivo é xingar, ofender, fazer com que a pessoa se doa, então é preciso utilizar expressões que a desestabilizem. Chamar de bobo, feio, trapalhão não funciona. Uma situação engraçada que me ocorreu foi quando, quinze anos atrás, bem antes de existir como travesti, tive um conflito com uma portuguesa e ela me chamou de "gaudério". Dava para ver que era um xingamento, mas como eu não fazia ideia do que aquilo significava, eu achei graça e ri, deixando ela ainda mais possessa.

Xingamentos têm que existir? É possível acabar com eles? Existe xingamento que não se baseie, em alguma instância, em discursos discriminatórios? São discussões que precisam ser feitas. Estamos querendo proibir manifestações racistas e LGBTfóbicas nos estádios, mas o machismo segue perfeitamente aceitável. Ou será que vão instituir punições para cada vez que "filho da puta" e afins forem gritados nos estádios?

De qualquer forma, não acredito que a superação desse tipo de situação ocorra com proibições e multas. Proibir pode evitar que o preconceito se manifeste por um tempo, mas ele fica lá represado só à espera de um contexto em que possa voltar à tona. Como o que estamos vendo com essa onda de extremistas de direita ganhando voz no Brasil e no mundo.

Proibir seu filho de chamar o amiguinho de viado, ou colocá-lo de castigo, nada disso vai fazer com que ele mude sua forma de pensar. Nunca mudou a minha, pelo menos. Castigos e proibições só nos obrigam a inventar maneiras mais sutis de continuar reproduzindo as mesmas práticas, e essa sutileza pode deixar a coisa ainda mais difícil de ser combatida. O que você faria para tentar mudar a cabeça do seu filho? O que você gostaria que fizessem para mudar o seu comportamento, se esse filho fosse você?

Amara Moira

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Congresso derruba 13 vetos do presidente Bolsonaro

Congresso derruba 13 de 26 vetos de Bolsonaro em uma única sessão

Congresso em Foco, 06/07/2022 

O Congresso Nacional derrubou 13 dos 26 vetos analisados em sessão conjunta nessa terça-feira (5). As decisões alcançam desde projetos de incentivo à cultura, como as leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2, a propostas de busca e apreensão em escritórios de advocacia e regras de certificação de entidades beneficentes. Os vetos totais serão publicados como lei, e os trechos de vetos parciais serão incorporados às leis existentes. Para a derrubada de um veto, são necessários os votos contrários de 257 deputados e de 41 senadores, no mínimo.

Na sessão da próxima sexta-feira (8), deverão ser analisados os vetos ao PL 7535/17, que cria incentivos à indústria da reciclagem; ao PL 5829/19, sobre o marco regulatório da micro e minigeração distribuída de energia elétrica; e ao PL 3754/21, sobre novos modelos de exploração de ferrovias.

Na área da cultura, foram derrubados nesta terça-feira os vetos totais à proposta da Lei Aldir Blanc 2 (PL 1518/21) e ao projeto da Lei Paulo Gustavo (PLP 73/21).  A votação foi viabilizada após um acordo costurado pelo líder do governo, senador Eduardo Gomes (PL-TO), com vários líderes partidários. O movimento também contou com a participação de artistas que pressionaram os parlamentares pela derrubada dos vetos presidenciais.

Do projeto que limita a busca e apreensão em escritórios de advocacia (PL 5284/20), os parlamentares derrubaram vários dispositivos vetados para incorporá-los à Lei 14.365/22, como os que proíbem a concessão de medida cautelar para busca e apreensão em escritórios ou locais de trabalho de advogados (em casa, por exemplo) com base somente em declarações de delação premiada sem confirmação por outros meios de prova. Outro trecho a ser publicado como lei prevê que, nas sociedades de advogados, a escolha do sócio-administrador poderá recair sobre advogado que atue como servidor da administração direta, indireta e fundacional se ele não estiver sujeito ao regime de dedicação exclusiva.

Já a sociedade de advogados e a sociedade unipessoal de advocacia deverão recolher seus tributos sobre a parcela da receita que ficar com elas, excluindo-se aquela transferida a outros advogados ou a sociedades que atuem em forma de parceria para o atendimento do cliente.

O Parlamento rejeitou ainda veto a trechos que exigem a presença de representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no momento da busca e apreensão e conferem a ele o dever de impedir retirada ou análise e registro fotográfico de documentos, mídias e objetos não relacionados à investigação. Com a rejeição do veto, o advogado investigado terá o direito de acompanhar a análise do material apreendido, como documentos, computadores e outros dispositivos.

Em relação ao Projeto de Lei Complementar (PLP) 134/19, que regulamenta a certificação de entidades beneficentes (Lei Complementar 187/21), foram derrubados itens como o que permitia às entidades beneficentes da área de educação compensarem, no exercício seguinte, a quantidade de bolsas que deveriam ter ofertado em um determinado ano.

Em relação ao atendimento ao idoso em casas de longa permanência, será incorporado à lei dispositivo que permite eventual cobrança de participação do idoso em patamar superior a 70% do benefício previdenciário que ele receber, se existir um termo de curatela.

Um dos projetos que será convertido em lei é o Projeto de Lei 9262/17, que inscreve o nome da psiquiatra Nise Magalhães da Silveira no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Ao vetar a matéria, o presidente Jair Bolsonaro argumentou que “não é possível avaliar a envergadura dos feitos da médica e o impacto deles no desenvolvimento da Nação”. A médica Nise da Silveira (1905-1999) é reconhecida internacionalmente pela contribuição para a psiquiatria, tendo introduzido no país a psicologia junguiana (ou analítica), que enfatiza, entre outros itens, o inconsciente pessoal e coletivo.

A partir da conversão em lei do PL 5466/19, da deputada Joenia Wapichana (Rede-RR), o Dia do Índio, celebrado em 19 de abril, passará a ser nominado como Dia dos Povos Indígenas. Ao vetar integralmente o projeto, Bolsonaro argumentou que não haveria interesse público na alteração porque a Constituição adota a expressão “Dos Índios”.

Outro projeto com veto total que virará lei é o PL 4261/12, que denomina Rodovia Presidente João Goulart o trecho da rodovia BR-153 entre o município de Cachoeira do Sul (RS) e o município de Marabá (PA).

Na Lei 14.232/21, que cria a Política Nacional de Dados e Informações relacionadas à Violência contra as Mulheres (Pnainfo), será incorporado trecho vetado do PL 5000/16 prevendo a criação de um comitê federal formado por representantes dos três Poderes para acompanhar a implantação da política, com coordenação de órgão do Executivo federal.

De vários itens vetados no Projeto de Lei 1162/07, sobre requisitos mínimos de segurança para piscinas, será incorporado à Lei 14.237/22 apenas o que exige dos donos de piscinas a instalação de dispositivos para evitar o turbilhonamento, que pode provocar o enlace de cabelos e a sucção de partes do corpo humano.

Também com veto total derrubado, o PL 4157/19 será publicado como lei para anistiar as infrações e anular as multas aplicadas a empresas por atraso na entrega da Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (Gfip). A justificativa para o veto havia sido que a renúncia fiscal contrariaria o teto de gastos e a Lei de Responsabilidade Fiscal por não prever aumento de receita ou corte de despesas a fim de compensar a renúncia.

Objeto de veto total, o Projeto de Lei 2753/21 será convertido em lei para garantir os repasses financeiros às entidades prestadoras do Sistema Único de Saúde (SUS), dispensando-as do cumprimento das metas em razão da pandemia. A dispensa atingirá as metas quantitativas e qualitativas dos contratos até 30 de junho de 2022.

Na área tributária, foi derrubado veto integral ao PL 1559/15, que define o termo “praça” para efeito de tributação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Pelo texto, “praça” é o município onde está situado o estabelecimento do remetente do produto. Em 2019, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) definiu que o conceito de “praça” não se limita, necessariamente, ao de município, com a possibilidade de abranger também regiões metropolitanas.

Mais um dos projetos com veto total derrubado, o PL 9438/17 cria um documento de identidade específico para notários, registradores e escreventes de cartório a ser emitida pela Confederação Nacional de Notários e Registradores (CNR), com validade para todo o território nacional como prova de identidade. (Com informações da Agência Câmara)