quinta-feira, 21 de abril de 2022

Pentecostalismo

Estude os pentecostais ou feche o seu negócio

Visto como retrógrado e fundamentalista, o pentecostalismo promoveu a igualdade racial e de gênero muito antes de legislações modernas

Juliano Spyer. FSP, 20/04/2022

O pentecostalismo é o único ramo do cristianismo, https://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/2001-religiao-cristianismo.shtml em mais de 2.000 anos de história, fundado por um afrodescendente. Ao emergir em 1906 nos EUA, seus representantes estabeleceram relações igualitárias entre homens e mulheres nas igrejas, 14 anos antes de as mulheres estadunidenses conquistarem o direito ao voto. E reuniu pessoas de todas as raças e origens nas mesmas igrejas em um país em que pretos e brancos, por lei, não se misturavam.

Os chamados "reavivamentos" religiosos são comuns na história do cristianismo. Um exemplo mencionado nos manuais escolares é o do movimento anabatista durante a Reforma Protestante, Comunidades rurais se sublevaram e questionaram a ordem social a partir da contestação da religiosidade institucionalizada, erudita e hierarquizada, propondo um retorno a experiências mais diretas e emocionais (extáticas) com Deus.

O protagonista da "narrativa fundante" do pentecostalismo é o pastor William Seymour, filho de escravos que cresceu em situação de pobreza na zona rural do sul dos EUA. Em 1906 ele se mudou para Los Angeles e iniciou seu trabalho evangelizador em círculos de oração na casa de fiéis. O número de participantes não parou de crescer e, em poucos meses, milhares de pessoas se aglomeravam dentro e fora de uma igreja abandonada, na rua Azusa, para acompanhar os cultos.

 
Culto na igreja Pentecostal Templo dos Milagres, na quadra da Grande Rio em Duque de Caxias na Baixada Fluminense - 03/03/2021. Reprodução

A síntese religiosa apresentada por Seymour causou desconforto no ambiente letrado do cristianismo tradicional estadunidense e os encontros na rua Azusa foram descritos em um jornal da época como "uma fusão nojenta de superstição vudu africana e insanidade (branca) caucasiana".

A mistura de influências do pentecostalismo inclui uma liturgia fervorosa, participativa e emotiva, herdeira do ambiente animado, musical e místico do cristianismo dos negros do sul dos EUA. Junte a isso a adoção de uma conduta moral "pura" inspirada no cristianismo primitivo. E também a presença de práticas "mágico-religiosas" segundo o jargão sociológico, como: profetização, glossolalia ("o falar em línguas por inspiração do Espírito Santo") e testemunho de eventos e curas milagrosas. Porque o pentecostalismo é um movimento e não uma igreja. Ele se internacionalizou rapidamente a partir de ações empreendedoras voluntárias que, em vez de padronizar práticas, fomentou a diversidade.
É notável que em 1910 e 1911 o pentecostalismo tenha estabelecido igrejas, por ações missionárias independentes, no Brasil: a Congregação Cristã no interior do Paraná e a Assembleia de Deus em Belém do Pará. É também surpreendente a originalidade desses experimentos.

Ninguém recebe para trabalhar na Congregação Cristã e os fiéis que se envolvem com política são afastados de posições de liderança na igreja. Assembleianos podem ser remunerados e parlamentares ligados a essa igreja formam, junto com deputados da Igreja Universal do Bispo Macedo, o núcleo da chamada bancada evangélica.

A despeito da desconfiança de intelectuais, religiosos ou não, o pentecostalismo é um dos principais fomentadores da revitalização do cristianismo a partir do século 20. A liturgia que fala de dilemas presentes, o ambiente animado, o uso da música popular são características, por exemplo, do trabalho evangelizador de católicos midiáticos como os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo. É um fenômeno planetário que tem mais elementos a serem observados do que cabe na imagem simplificada do fanático. Por exemplo, sua relação com a religiosidade e as condições de vida dos afrodescendentes nas Américas.
O teólogo Marco Davi Oliveira descreveu em 2015 o pentecostalismo como "a religião mais negra do Brasil". Em 2019, o instituto Datafolha apresentou a cara do evangélico brasileiro como sendo preto ou pardo, pobre, periférico, jovem e majoritariamente do sexo feminino.

 
O pastor Silas Malafaia durante culto na igreja evangélica Asembleia de Deus Vitória em Cristo de Santo André, em foto publicada nas redes sociais em 13 de julho de 2020. Reprodução

 Por causa de sua origem popular — barulhenta, intensa, emotiva e pouco escolarizada—, pentecostais são criticados e atacados dentro e fora do protestantismo. Esses ataques contrastam com o argumento do sociólogo da religião David Martin. Ele escreveu que o pentecostalismo é um fenômeno modernizante e que tem potencial para elevar os pobres à classe média.

Dos 42 milhões de evangélicos brasileiros mapeados pelo Censo de 2010, 25 milhões eram pentecostais. É por causa do crescimento desse grupo que o demógrafo José Eustáquio Alves, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, calculou que o número de protestantes ultrapassará o de católicos no Brasil até 2032.

Por tudo isso e por outros motivos que não cabem no espaço desta coluna, já não é viável, nem razoável, nem prudente criar planos de negócios, desenhar campanhas de mídia, elaborar programas de TV para grandes audiências ou projetos de marketing político no Brasil sem conhecer quem são, escutar o que pensam e buscar diálogos com evangélicos pentecostais.


Mas, outro ponto de vista:
BOLSONARO CULPA MICHELLE PELA TRAIÇÃO DE MENDONÇA! 21/04/2022

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Angeli

Angeli se despede da carreira de cartunista e encerra uma era dos quadrinhos no Brasil
Chargista ícone do underground recebeu diagnóstico de afasia; seleção do melhor de seu trabalho deve sair este ano 

Walter Porto, 20/04/2022/, Folha de São Paulo

Nome que ajudou a escrever a história dos quadrinhos no Brasil, Angeli está guardando o lápis na gaveta e encerrando uma carreira que revolucionou a arte que se podia fazer em jornais.
O cartunista de 65 anos recebeu um diagnóstico de afasia, doença neurodegenerativa que prejudica a comunicação e, conforme evolui, incapacita o paciente de se expressar de forma verbal ou escrita.

 
O cartunista Angeli, que anuncia despedida das charges e quadrinhos após mais de 50 anos - Eduardo Knapp/Folhapress

A condição médica ganhou holofotes no mês passado, quando o ator americano Bruce Willis —dois anos mais velho que Angeli e com uma equiparável fama de durão— anunciou sua aposentadoria do cinema pelas mesmas razões. Não é exagero dizer que o anúncio fecha uma era dos quadrinhos, já que o traço inconfundível de Angeli, sua estética punk e comportamento transgressor, marcaram a identidade de uma geração.
"O Angeli tem o peso de um Pasquim inteiro em matéria de influência e significado de uma época", afirma Laerte, cartunista histórica deste jornal, assim como o amigo. "Ele foi vital para a existência do que entendemos como humor em São Paulo."

Rê Bordosa na privada. Do livro "Memórias de um porraloca. Angeli/Reprodução

Se a notícia tem um inevitável gosto amargo, ela vem acompanhada de uma homenagem inédita: em celebração aos seus 50 anos de carreira, pela primeira vez uma seleção ampla do trabalho de Angeli está sendo preparada em grande estilo pela Companhia das Letras.
O audacioso projeto, organizado por André Conti e Carolina Guaycuru, mulher de Angeli, pinça trabalhos de todo tipo ao longo das últimas cinco décadas, passando por tiras de jornais e revistas, charges, ilustrações e desenhos variados. O plano é publicar dois volumes, reunindo cerca de mil trabalhos, ainda este ano. "A ideia era um projeto que desse a noção completa do quanto ele fez", afirma Conti. "Tínhamos mais de 50 mil desenhos, do papelão que ele rabiscava enquanto falava ao telefone até processos mais elaborados de capas."

Lou Reed. Angeli/Reprodução

A mesma editora já tinha feito compilações fartas de seus personagens mais famosos em edições como "Todo Bob Cuspe", "Toda Rê Bordosa" e "Todo Wood&Stock", este do ano retrasado. Como esse material está mais acessível, diz Conti, o novo volume fará uma triagem mais econômica deles.

A aposentadoria também encerra a ligação umbilical de Angeli com a Folha, sua casa por mais de quatro décadas. A colaboração começou em 1973, quando o ilustrador nem podia beber legalmente, e se tornou fixa dois anos depois. De 1983 a 2016, ele publicou tirinhas diariamente na Ilustrada. "Angeli é parte importante da história dos quadrinhos brasileiros e da própria Folha", diz o diretor de Redação do jornal, Sérgio Dávila. "Influenciou mais de uma geração de autores com seu traço único e seu comentário ácido sobre comportamento e política. Mais que desenhos, Rê Bordosa, Bob Cuspe e tantos outros são personagens literários."

Angeli: 40 anos de Folha - vídeo

"Não sei falar do meu pai sem a Folha", diz sua filha, a publicitária Sofia Angeli. "Ele já tinha começado a carreira antes do jornal, mas foi ali que tudo aconteceu, onde brotou algo grande, com brilho."

Dinossauro. Angeli/reproduão

Reza a lenda que a primeira publicação de Angeli foi aos 14 anos, na antiga revista Senhor, mas os organizadores da coletânea não conseguiram localizar com exatidão esse trabalho pioneiro.
E sua despedida da imprensa está na seção Quadrão, que ele revezava aos domingos na Ilustrada Ilustríssima com Jan Limpens, Luiz Gê, Ricardo Coimbra e Laerte —com quem formava a trupe Los Tres Amigos ao lado de Glauco, morto há 12 anos.
"O trabalho do Angeli se desviou muito pouco da busca por uma linguagem poderosa, um mergulho profundo", comenta ela. "A ponte que ele faz entre a linguagem dos quadrinhos e dos cartuns é algo inédito, absolutamente dele. Tem um traço plasticamente muito forte, que ficou mais evidente nas suas charges mais recentes. Uma espécie de expressionismo da Casa Verde."

Wood & Stock em cena do filme "Wood & Stock: sexo, orégano e Rock'n'roll" de Oto Guerra. Divulgação

Laerte diz que sempre se assombrou com a "antena angeliniana" para as culturas e modas de cada época. Foi essa antena que captou, numa comédia de John Landis com Chevy Chase e Steve Martin, a referência de um bando de cabrones que servia para expressar algo da "parceiragem e companheirismo" do trio que compunham com Glauco.
A trupe rapidamente virou símbolo dos quadrinhos underground nos anos 1990, estampando da emblemática revista Chiclete com Banana —extrapolação da tira diária de Angeli— até livros e filmes. E, numa época em que Glauco estava mais afastado, o grupo ganhou um quarto mosqueteiro, o cartunista Adão Iturrusgarai.

Angeli, FSP, 23/06/2013

Caminhar por São Paulo ao lado de Angeli, lembra o gaúcho Adão, era como ostentar um troféu. "Quando o via andando atrás de mim, me sentia meio bobo. Entrava com ele no bar sorridente, com todos olhando. Ele era como um Mick Jagger."
"O Angeli só não é famoso mundialmente como Robert Crumb porque escreve em português", afirma ele, acrescentando, seguro, que a cena brasileira de quadrinhos era mais forte que a da maioria dos países nos anos 1990. Adão lembra uma frase dita por Luis Fernando Verissimo ao rebater o mito de que São Paulo não produzia literatura. "A literatura de São Paulo são os quadrinhos."


Angeli, FSP, 02/08/2008 - Chiclete com banana

Essa cena literária agora se desfalca, mas é preciso ponderar os lamentos. "As pessoas têm que saber que Angeli é uma figura pública, um personagem. Angeli se aposenta, mas o Arnaldo está aqui", aponta a filha Sofia, citando o primeiro nome do cartunista. "É uma pessoa incrível que se despede de uma carreira, mas não se despede da vida."


Após 33 anos, Angeli despede-se das tirinhas diárias na 'Ilustrada'

 
Primeira tirinha de Angeli na "Ilustrada", publicada em 6 de janeiro de 1983
 
Última tirinha de Angeli na "Ilustrada", publicada em 8 de maio de 2016

Laerte e Angeli reúnem artistas de HQ e escritores na nova revista 'Baiacu'

Angeli Galeria


terça-feira, 19 de abril de 2022

A ONU e a Ucrânia

APÓS ANOS DE SABOTAGEM DE TRUMP, ONU AFUNDA MAIS COM GUERRA DA UCRÂNIA
Paralisadas, Nações Unidas se limitam a obter ajuda humanitária para vítimas do conflito que não tiveram força para evitar 

Jamil Chade, 14 de abril de  2022

A data de 24 de fevereiro de 2022 entrará para os anais da história da ONU. Naquela madrugada de quinta-feira, diante do risco de uma guerra na Ucrânia, o Conselho de Segurança se reuniu de forma emergencial na esperança de pressionar a Rússia a abandonar a ideia de um conflito armado na Europa. Em discurso, o secretário-geral da ONU, António Guterres, implorou ao presidente russo, Vladimir Putin: “Em nome da humanidade, leve suas tropas de volta para a Rússia.” Enquanto as delegações se alternavam diante do microfone, as primeiras bombas começavam a ser lançadas. As nuvens impensáveis de uma guerra nuclear pareciam se formar no horizonte diante do alerta de Putin de que qualquer intervenção de outro governo acarretaria “consequências jamais vistas”.

 
Reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU em 24 de fevereiro para discutir a situação na Ucrânia – Crédito: UN Photo/Mark Garten

Durante aquele encontro, o embaixador da Ucrânia Sergiy Kyslytsya lamentava aos demais países que era “tarde demais” para falar em paz e cobrava de seu homólogo russo, Vassily Nebenzia, explicações sobre os anúncios que chegavam de Moscou. Em um diálogo surreal, o russo alegava que não iria acordar o chanceler de seu país para questioná-lo sobre o que estava ocorrendo. Ninguém dormiria naquela noite, nem em Moscou nem em Kiev. Para a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Linda Thomas-Greenfield, ao escolher atacar a Ucrânia durante a reunião do Conselho de Segurança, Putin estava revelando seu desdém pela ONU.

O evento acabou se transformando, para alguns, em um dos dias mais tristes da história da ONU. “Era como se as bombas estivessem abafando os discursos que estavam sendo proferidos”, contou à coluna um diplomata que estava na sala naquele momento.

Mais de um mês depois, Guterres continua sem voz. Apesar de ele insistentemente pedir o fim da guerra e de se colocar à disposição para negociar um cessar-fogo, seu papel tem sido insignificante. Em seu gabinete, são claros os recados de que um envolvimento indesejado não funcionaria. Os últimos secretários-gerais que optaram por levantar a voz contra as grandes potências foram silenciados. Boutros-Boutros Ghali, por exemplo, teve um segundo mandato vetado pelo governo dos Estados Unidos por questionar a política externa da Casa Branca. Kofi Annan denunciou a “guerra ilegal” no Iraque, e a reação do governo de George W. Bush foi revelar suspeitas de corrupção na ONU e, assim, anular a influência de Annan. O secretário-geral chegou a perder literalmente sua voz durante seis meses, resultado de um impacto psicológico diante da pressão americana.

Guterres, ocupando o que é conhecido como “o emprego mais impossível do mundo”, tem se limitado a lançar alertas, como aconteceu na semana passada. Durante a reunião do Conselho de Segurança da ONU, o português indicou que a atual guerra representava “um dos maiores desafios” para o sistema multilateral desde sua criação, em 1945. Entre diplomatas, o cenário é qualificado como “dramático”. Ao invadir um país soberano, a Rússia rasgou a Carta das Nações Unidas. Ainda assim, quando o tema foi levado ao Conselho de Segurança, a própria Rússia simplesmente vetou uma ação do principal órgão de manutenção da paz no mundo. A alternativa do Ocidente foi ir à Assembleia Geral, onde 141 países votaram uma resolução condenando os russos. Uma vez mais, porém, Moscou esnobou o documento e manteve sua ofensiva. 

Se a impotência impressiona, ela não é nova. Por mais de uma década, a guerra na Síria serviu como uma mancha de vergonha na ONU. Desde 2011, Moscou vetou dezessete resoluções do Conselho de Segurança que ordenavam o fim do conflito. O mesmo ocorreu em 2014, quando o Conselho se reuniu de forma emergencial para tentar condenar a anexação da Crimeia pelos russos. Moscou, uma vez mais, vetou a resolução. Em dezenas de outros assuntos, os diferentes países foram obrigados a suavizar a linguagem das decisões para evitar o veto de um ou outro país. Isso ocorreu, por exemplo, diante do golpe militar em Mianmar.

Desta vez, porém, a guerra aprofunda a percepção de que o sistema simplesmente não funciona, para o desespero dos ucranianos.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, usou sua participação no Conselho de Segurança na semana passada para pedir uma reforma da ONU a fim de impedir o veto da Rússia. O projeto, porém, não agrada nenhuma das grandes potências que, de forma sucessiva, têm usado justamente o instrumento do veto para frear qualquer condenação contra suas ações ou impedir uma ação multilateral em zonas de sua influência. Um dos governos que não apreciam a ideia de limitar o uso do veto é o dos Estados Unidos, que sequer aderiu ao compromisso proposto há poucos anos pela França de não usar o instrumento em casos de genocídio e crimes contra a humanidade.

Nos primeiros anos da ONU, foi a antiga URSS que vetou o maior número de resoluções, principalmente para bloquear a admissão de um novo estado membro. Ao longo dos anos, a URSS e depois a Rússia lançaram 143 vetos, quase metade do total de vetos. No caso americano, foram 83 vetos. Mas, desde os anos 1970, a Casa Branca é quem mais usa esse expediente, especialmente para bloquear decisões que considera prejudiciais aos interesses de Israel. O Reino Unido utilizou o veto 32 vezes, sendo que a primeira delas ocorreu em 1956 durante a crise do Suez.

O final da Guerra Fria abriu a esperança de que a tendência mudaria. França e Reino Unido não usam o instrumento desde 1989, quando, ao lado dos Estados Unidos, impediram a condenação da invasão americana ao Panamá. Diplomatas consultados pela piauí admitem que a ideia dos ucranianos não passa de “ar e ilusão”. Todos, porém, reconhecem que a guerra revela os limites da ONU e que um fortalecimento da instituição seria necessário. Internamente, porém, o temor é de que a guerra na Ucrânia vá exatamente no sentido contrário. No lugar de fazer eclodir uma vontade por reforma, ela aceleraria o processo de irrelevância da agência.

Em mais de um mês de conflito, a única ação concreta foi o isolamento ainda maior da Rússia, com sua suspensão do Conselho de Direitos Humanos e a interrupção, em solo russo, de programas de entidades como a OIT (Organização Internacional do Trabalho). Mas, para experientes diplomatas, tais medidas não garantem a paz e ameaçam enfraquecer o sistema multilateral.

Decisivo foi o fato de que, nos últimos anos, o governo de Donald Trump e seus aliados no Brasil e em outros locais se lançaram em um esforço concreto para desmontar a legitimidade da ONU. Se o discurso “antiglobalista” dava o tom das participações de Trump, Bolsonaro e o húngaro Viktor Orbán na tribuna da ONU, a ação de desmonte liderada por esses governos representou um abalo no multilateralismo. O ex-presidente americano chegou a exigir de Guterres a realização de uma reforma administrativa para que a Casa Branca mantivesse sua contribuição anual. Nem assim o compromisso de Washington foi assegurado. Trump saiu do Acordo do Clima, se afastou da Unesco, deixou o acordo de migrações, cortou dinheiro para a Unicef, abandonou o Conselho de Direitos Humanos e ainda passou a ameaçar os funcionários do Tribunal Penal Internacional. 

Em 2020, em plena pandemia, a Casa Branca rompeu com a Organização Mundial da Saúde quando o mundo mais precisava da instituição, além de cortar o envio de dinheiro para os programas da ONU de ajuda aos refugiados palestinos. Outra ação de desmonte do governo americano foi pressionar por uma redução substancial das operações de paz. Ainda em 2017, ao desembarcar em seu assento na ONU, a embaixadora dos Estados Unidos, Nikki Haley, anunciou que iria “se desfazer de tudo o que fosse obsoleto”. O projeto inicial era reduzir em 1 bilhão de dólares a contribuição americana para operações de paz pelo mundo. 

Depois de um longo processo de negociações e do compromisso da Europa de cobrir parte dos custos, a ONU chegou a um acordo para reduzir em 600 milhões de dólares os recursos para as tropas. No final de 2019, a crise orçamentária já era de tal proporção na ONU que, em seu edifício em Genebra, luzes de corredores, escadas rolantes e elevadores foram desligados para economizar dinheiro. Naquele momento, até os banheiros deixaram de ser limpos todos os dias.
Sob a gestão de Joe Biden, o governo americano fez um movimento para voltar a fortalecer o multilateralismo e a ONU. Mas, para negociadores diplomáticos, a confiança no sistema e a capacidade de diálogo entre as potências já tinham sido minadas. Hoje, sem um papel político central, coube à ONU garantir a assistência humanitária às vítimas de uma guerra na Ucrânia que ela fracassou em parar. Em pouco mais de um mês, ela reuniu 60% do 1,7 bilhão de dólares necessários para socorrer 18 milhões de ucranianos, dentro e fora do país.

Hoje, a cada segundo, a guerra força uma pessoa a fugir pelas fronteiras da Ucrânia. “Esta é a crise de deslocamento mais rápida que testemunhei em meus 35 anos como trabalhador humanitário”, disse Jan Egeland, secretário-geral do Conselho Norueguês para Refugiados (NRC) e ex-chefe da ONU para Assuntos Humanitários. O temor dele, porém, é de que a guerra leve os doadores internacionais a destinar recursos para a Ucrânia e esvaziar o financiamento das dezenas de outras crises pelo mundo. “Apelamos aos doadores para cavar fundo em seus bolsos para encontrar novos financiamentos para as pessoas afetadas pelo conflito armado na Ucrânia, mas não retirar recursos de outras crises. O sofrimento humano está em níveis sem precedentes em todo o mundo – do Afeganistão ao Sahel Central – e a Ucrânia é a última de uma longa lista de crises com necessidades humanitárias recordes”, disse Egeland.

Se o trabalho humanitário da ONU é fundamental, ele é visto também como uma deturpação de seu papel original, que era justamente o de impedir a eclosão de conflitos armados. E não de fornecer esparadrapos para as vítimas. Os mais céticos, porém, insistem que todo esse cenário era previsível e que, nos últimos anos, a cúpula da ONU veio alertando os governos sobre o desmonte da confiança no cenário internacional. Guterres, por exemplo, advertiu em 2019 que a relação entre a China, a Rússia e os Estados Unidos “nunca foi tão disfuncional” como naquele momento. Ele indicou que o “mundo nunca esteve tão ameaçado ou tão dividido” e pediu que governos “acordassem” diante dos riscos.

Dois anos depois, no mesmo palanque da ONU, ele já acionava o alerta do desespero. “Estamos à beira de um abismo”, disse Guterres ao abrir a Assembleia Geral. “Enfrentamos a maior cascata de crises em nossas vidas.” “As pessoas que servimos e representamos podem perder a fé não apenas em seus governos e instituições, mas nos valores que têm animado o trabalho das Nações Unidas por mais de 75 anos”, advertiu Guterres. O eco de suas palavras até hoje atormenta os negociadores.
“O multilateralismo está no leito de morte esta noite”, lamentou o embaixador do Quênia nas Nações Unidas, Martin Kimani, enquanto discursava em fevereiro no Conselho de Segurança, sob o som das bombas na Ucrânia. A pergunta que todos fazem é se o multilateralismo e a própria ONU voltarão a se levantar depois que os canhões tenham sido silenciados.

Jamil Chade
É colunista na Europa e, desde 2000, tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Publicou sete livros, três dos quais foram finalistas do Jabuti. Em 2022, publicou Luto - reflexões sobre a reinvenção do futuro, pela Editora Contracorrente.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Padre Júlio Lancellotti

Padre Júlio Lancellotti é abordado pela PM durante Via Sacra em SP

Para pároco, atitude dos policiais teve caráter intimidatório; PM não se manifesta 

Fernanda Mena, FSP, 16/04/2022

Policiais militares abordaram o padre Júlio Lancellotti enquanto ele esteve à frente da Via Sacra organizada pela Pastoral do Povo da Rua nesta sexta-feira (15), na região central de São Paulo.

A caminhada saiu do largo São Bento, onde há uma base da PM, e transitou pela rua Líbero Badaró até chegar diante da sede da Prefeitura de São Paulo, no viaduto do Chá. No local, pessoas em situação de rua, munidas de um microfone, falaram sobre as violações às quais estão expostas

População de moradores de rua cresce 31% em São Paulo na pandemia, segundo censo, quantidade só de famílias sem-teto quase dobrou em relação a 2019

Padre Júlio Lancellotti fala durante Via Sacra organizada pela Pastoral do Povo da Rua, no centro de São Paulo - Marlene Bergamo - 15.abr.2022/Folhapress

Ali, o padre foi abordado e questionado sobre o propósito do ato, sua origem e destino final. Lancellotti também teve seus documentos requisitados pelos PMs, que fotografaram sua identidade, segundo conta.

"O que nos chamou a atenção foi que começamos no largo São Bento, onde há um posto policial, mas só fomos abordados mais adiante. Pode ser uma atitude de praxe, mas ficou parecendo uma atitude intimidatória", avalia o padre, conhecido por seu trabalho junto à população em situação de rua.

A Via Sacra da Pastoral do Povo da Rua ocorreu no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro (PL) liderou uma motociata na rodovia dos Bandeirantes, no estado paulista. O ato foi chamado de "Acelera para Cristo".

O reforço no policiamento para a motociata deverá custar cerca de R$ 1 milhão aos cofres públicos do estado, segundo o governo paulista. Após a abordagem policial a Lancellotti, circularam nas redes sociais menções de apoio ao padre, comparando o tratamento dispensado pela PM paulista ao religioso em comparação com a logística de segurança organizada em torno da motociata de Bolsonaro.

"São duas coisas diferentes", avalia o padre. "Embora sejam dois atos públicos, um é de religiosidade popular, outro, de uma autoridade pública. Dificilmente a polícia teria com a população de rua a mesma atitude que tem com o chefe de Estado." Lancellotti disse que "entre o sofrimento do povo que está na rua e uma manifestação oficial com motos numa Sexta-Feira Santa, eu não tenho dúvidas de que, se Jesus tivesse de escolher, ele estaria com os pobres, e não em cima de uma moto".

Em nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) informou que a Polícia Militar acompanhou a manifestação, que transcorreu de forma pacífica. No entanto, não respondeu aos questionamentos sobre a abordagem ao padre Júlio.

"A Polícia Militar acompanhou manifestação realizada nesta sexta-feira (15) que se deslocou pelas principais vias do centro até a Secretaria da Segurança Pública (SSP) e posteriormente a Catedral da Sé, onde era realizado um teatro ao ar livre comemorativo a Semana Santa, seguido da celebração de uma missa. O ato reivindicatório por justiça e moradia aos cidadãos em situação de rua transcorreu de forma pacífica e não houve interdição das vias. Após o evento, os participantes se dispersaram", diz a nota.

Em seu mais recente livro, "Amor à Moda de Deus" (editora Planeta),  o padre escreveu que, no Brasil, tem-se distorcido o mandamento "Amai-vos uns aos outros" em "Armai-vos uns contra os outros" e que o nome de Jesus Cristo tem sido evocado para pregações que vão contra seus ensinamentos. ​

Em tempo

O padre que morde 

A estética fascista 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Escola cara para que?

Qual é o problema de a escola de R$ 14 mil por mês ter palestra com líder do PSOL?

O que podemos aprender com o alvoroço causado pela participação, em um evento da Avenues, de uma pré-candidata a deputada de esquerda

Laura Mattos, FSP, 14/04/2022

Foi um alvoroço nas redes sociais dos ricos. Tudo porque a líder indígena Sonia Guajajara, que é pré-candidata a deputada federal pelo PSOL, foi convidada a participar de um evento da Avenues São Paulo, a escola com origem norte-americana que ficou famosa pelo alto valor das mensalidades, agora em torno de R$ 14 mil.

O episódio se deu em 28 de março, mas, nos tribunais online, parece longe do fim a gritaria de pais e mães de escolas de elite. É tanto ódio nos comentários que, nesse julgamento, é difícil outro veredito que não o da pena de morte para a esperança na humanidade.

A líder indígena Sonia Guajajara, pré-candidata à deputada federal pelo PSOL - Adriano Machado/Reuters

Segue um resumo do que se passou: Um professor convidou Guajajara para uma palestra na Avenues. A líder indígena, ao defender a reforma agrária, foi criticada por um estudante, que disse: "Desculpe eu te falar isso. Isso é roubo de propriedade privada. Por favor, melhore". O professor perdeu a linha na reação à fala do aluno: "Quando você entender o que é ser uma pessoa desse tamanho, vai se lembrar desse dia com muita vergonha. Eu sou especialista por Harvard. Isso é ciência, não é discussão. No dia que você quiser discutir com a gente, traga seu diploma."

Até aí, o que temos além de um conflito no qual, conforme a nota da Avenues, um aluno discordou de modo desrespeitoso de uma convidada e o professor teve uma reação inapropriada? Seria uma oportunidade de aprendizado para todos, independentemente da opinião sobre a reforma agrária ou o PSOL. Só que não.

A cena foi gravada por outro aluno, caiu na rede e aí... fogo no parquinho, ou fire at the playground, que na Avenues se fala inglês. De pronto se exigiu a demissão do professor –por bem menos, pais e mães se mobilizam para pedir a cabeça de profissionais de escolas, como se essa fosse uma relação de consumo simplesmente.


ESCOLA CARA PARA FILHO DE RICO BURRO. [O caso de palestra de Sônia Guajajara]


quinta-feira, 14 de abril de 2022

Extinção iminente da Toninha no norte do ES

Projeto Baleia Jubarte alerta sobre extinção iminente da Toninha no norte do ES. Pequeno golfinho foi impactado pelo crime da Samarco e precisa de proteção quanto à pesca acidental

Fernanda Couzemenco, Século Diário, 09/04/2022 | Atualizado 11/04/2022

Gravemente ameaçadas de extinção mesmo antes de serem razoavelmente conhecidas pela sociedade. Essa é a situação da toninha (Pontoporia blainvillei), um pequeno cetáceo (mamífero marinho), parente dos golfinhos e baleias, que ocorre somente na América do Sul, entre o litoral do Espírito Santo e da Argentina. 

O alerta foi feito este mês pelo Instituto Baleia Jubarte (IBJ), por meio de Nota Técnica encaminhada aos órgãos ambientais – Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Centro de Mamíferos Aquáticos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CMA/ICMBio) – e aos ministérios públicos Federal e Estadual (MPF/ES e MPES). 

Elaborado por Milton Marcondes e José Truda Palazzo Jr, coordenadores de Pesquisa e de Desenvolvimento Institucional do IBJ, respectivamente, a Nota Técnica tem objetivo de "informar autoridades públicas, lideranças comunitárias e demais atores sociais sobre o iminente risco das toninhas serem extintas no Espírito Santo se não forem tomadas com urgência medidas para reduzir sua mortalidade".

No documento, os pesquisadores ressaltam que, no litoral capixaba, as toninhas se concentram apenas na porção norte, entre Santa Cruz/Aracruz e a divisa com a Bahia, havendo maior presença na região da Foz do Rio Doce, em Linhares. Nesse trecho de 175 km, estima-se que resistam apenas 595 indivíduos. Ao sul desse ponto, a partir do litoral de Fundão e Serra, na Grande Vitória, há um vazio de ocorrência da espécie, que só volta a aparecer no litoral norte do Rio de Janeiro. 

Projeto Toninhas/Univille

A Toninha possui hábitos costeiros, mantendo-se em áreas com profundidade máxima de vinte metros. É um cetáceo mais difícil de ser observado na natureza do que seus primos mais famosos, golfinhos e baleias. A cor da água do mar, mais perto da costa, também dificulta o registro. As fotos que ilustram a matéria foram feitas pelo Projeto Toninhas, da Universidade da Região de Joinville (Univille), na Baía de Babitonga, em Santa Catarina, local com a maior população conhecida da espécie, e onde os pesquisadores já acompanham os animais há mais tempo no Brasil, há vinte anos.

Ela está classificada como Criticamente em Perigo no Brasil, o que significa um risco extremamente alto de extinção na natureza. A população capixaba, especificamente, se encontra em posição ainda mais preocupante, exatamente devido a esse isolamento físico. "É a população de cetáceos [mamíferos marinhos, como golfinhos, botos e baleias] mais ameaçada do Brasil", contextualiza Eduardo Camargo, coordenador-geral do Projeto Baleia Jubarte e diretor-presidente do IBJ. O cientista explica que, com o passar do tempo, o grupo do norte do Espírito Santo foi se isolando, por motivos que ainda são desconhecidos pelos pesquisadores. "Já é possível identificar diferenças genéticas desse grupo", destaca. 

Lama tóxica e outras ameaças 

Eduardo Camargo conta que, ao longo dos mais de vinte anos de monitoramento de encalhes de cetáceos no litoral brasileiro, as toninhas são sempre os que mais aparecem mortos. "A degradação dos habitats costeiros é uma ameaça grave. Após o desastre da Samarco, houve maior contaminação", pontua. 

Na Nota Técnica, os autores afirmam que a população capixaba de toninhas "sofreu impacto do Desastre de Mariana, quando o rompimento da Barragem de Fundão em 2015 trouxe mais de 60 milhões de toneladas rejeitos de mineração da empresa Samarco através do Rio Doce atingindo toda a área de ocorrência da espécie no Espírito Santo". 

O estudo com carcaças de toninhas encontradas na região mais diretamente afetada pelo crime "mostrou aumento na concentração de mercúrio e zinco no músculo e fígado dos animais encalhados após a chegada da lama", sublinham os autores, ressaltando também que "a ocupação do litoral capixaba coma instalação de portos e terminais marítimos é uma ameaça à sobrevivência da espécie".

Mas a principal ameaça à conservação da espécie, sublinham, é a captura incidental em redes de pesca. A afirmação se baseia em um monitoramento da atividade pesqueira em seis comunidades do norte do Espírito Santo durante dois anos (julho de 2017 a setembro de 2019), período em que o Projeto Baleia Jubarte também realizou reuniões com os pescadores para discutir opções para a sobrevivência das toninhas. 

O trabalho faz parte de um estudo de três anos realizado em conjunto com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), com recursos de compensação ambiental decorrentes do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado entre o MPF e a petrolífera Chevron, após o grande derramamento de petróleo ocorrido em dezembro de 2011 na Bacia de Campos, no litoral norte fluminense. 

Mortandade 17 vezes maior

Nos dois anos de monitoramento, a equipe acompanhou 4,4 mil desembarques pesqueiros, nos quais foi identificada a captura acidental de pelo menos 15 cetáceos, dos quais três eram toninhas. Com base nestes dados, explanam os pescadores na Nota Técnica, foi possível estimar as capturas incidentais de toninhas para o período em seis animais, com um intervalo de confiança de 95% de 2 a 22 animais. "Como os dados de capturas foram obtidos de forma indireta, através do relato dos pescadores, é provável que estes números estejam subestimados", acentuam.

Projeto Toninhas/Univille

O cálculo dos pesquisadores é que, para a população de 595 toninhas estimada, o número máximo de capturas que poderia ocorrer, de forma a não estimular maior declínio da população, seria de 0,7 toninha/ano, ou seja, um máximo de duas toninhas capturadas em um período de três anos, sem considerar os outros efeitos que podem se somar às capturas (degradação de habitat, poluição, doenças, etc) para contribuir para o declínio da população.

Há ainda um outro estudo feito pelo Instituto Baleia Jubarte com o Programa de Monitoramento de Praias da Bacia do Espírito Santo (PMP), por meio do qual foram encontradas, entre 2019 e 2021, 34 carcaças de toninhas na região. O estado de decomposição não permitiu estabelecer a causa da morte de todos os animais, mas em pelo menos doze animais foi identificado o emalhe em redes de pesca como a causa do óbito. O número, ressalvam, possivelmente não corresponde à totalidade real dos óbitos na região nesses três anos, já que parte dos animais se decompõe no mar ou é consumido por predadores antes de chegar às praias. 

Assim, apontam, nesta população de 595 animais, que se manteria estável com a perda de duas toninhas mortas a cada três anos, houve perda de pelo menos 34 animais, ou seja, 17 vezes acima do que seria aceitável para assegurar a sobrevivência da espécie. 

Recomendações 

O IBJ salienta que, na região de maior ocorrência das toninhas no Espírito Santo, que é a costa ao redor da Foz do Rio Doce, numa profundidade até 20 metros, a pesca está proibida, em decorrência da contaminação da água pelos rejeitos de mineração da Samarco. "Mas mesmo assim ainda está ocorrendo pesca nesta área e captura de toninhas", lamentam, indicando a necessidade medidas urgentes a serem tomadas em relação às comunidades pesqueiras da região.

"Se não forem adotadas medidas urgentes para reverter a mortalidade das toninhas a espécie irá desaparecer do Espírito Santo num período relativamente curto", ressalta o Instituto Baleia Jubarte, ao enunciar seis recomendações voltadas a impedir essa tragédia. 

A primeira é a proibição definitiva da pesca com rede de emalhe em todo o litoral norte do Espírito Santos, desde a divisa com a Bahia até Santa Cruz, dentro da isóbata de 20 metros de profundidade. Complementar a ela, é a recomendação de realizar a compensação financeira adequada aos pescadores artesanais, bem como desenvolvimento e implementação, com participação das comunidades, de um programa de alternativas econômicas a essa modalidade pesca.

Em terceiro, a adoção, por parte dos órgãos responsáveis, de uma fiscalização rigorosa à proibição da pesca no trecho proposto, com ênfase nas regiões próximas à Regência e Guriri. Em caso de flagrante de pesca na área de restrição, a orientação é para que os envolvidos tenham o equipamento apreendido e a compensação financeira suspensa.

As outras três recomendações envolvem o direcionamento de recursos oriundos de multas, compensações ambientais e outras fontes para ações focadas na conservação da toninha no Espírito Santo; o monitoramento continuado do tamanho da população para avaliar a efetividade das ações adotadas; e a divulgação ampla sobre a situação das toninhas para o público da região e do Estado.

Projeto Toninhas/Univille

Compensação e fiscalização

Eduardo Camargo conta que o Instituto e Projeto Baleia Jubarte trabalham junto aos órgãos ambientais e outros parceiros para que o trabalho de monitoramento e estudo de alternativas para salvar as toninhas da extinção tenham continuidade. Os recursos do Funbio, provenientes do acordo MPF-Chevron já se encerraram e é preciso encontrar outas fontes de financiamento. 

Já há um vasto cardápio de atividades econômicas que podem substituir a pesca artesanal tradicional na região, que já está proibida há seis anos devido ao crime ambiental da Samarco/Vale-BHP. Alternativas que foram discutidas e apontadas pelos próprios pescadores, como fruticultura, hidroponia, apicultura etc..  Também estão em estudos inovações tecnológicas que podem reduzir a captura incidental em locais onde a pesca é permitida, como a instalação de um equipamento que emite som, luzes e vibrações, auxiliando os animais a identificarem a presença das redes e evitarem o emalhe fatal. 

Na Foz do Rio Doce, há ainda a proposta de criação de uma unidade de conservação, possivelmente uma Área de Proteção Ambiental (APA), que pode viabilizar uma série de estudos, acordos, monitoramentos e financiamentos de atividades de fiscalização e educação ambiental. "Já há verba da Samarco [compensação pelo crime no Rio Doce] para implementar a APA, mas ela não saiu do papel ainda. Nem sempre dinheiro é problema. Muitas vezes, como nesse caso, o problema é falta vontade de política", critica. 

Educação ambiental 

Para conhecer mais sobre as toninhas, uma boa opção é o Centro de Visitantes do Projeto Baleia Jubarte, localizado na Praça do Papa, Enseada do Suá, em Vitória. Assim como os centros de Caravelas e Praia do Forte, na Bahia, os locais contam com uma bela exposição sobre a espécie, com réplicas, esqueletos, fotos e muita informação. 

No universo virtual, há ainda o Museu das Toninhas, iniciativa criada pelo Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Maqua/UERJ).

Em tempo

Toninha: um pequeno e tímido golfinho pouco conhecido e já ameaçado de desaparecer

Toninhas do norte do Espírito Santo quase extintas - Mar Sem Fim 

terça-feira, 12 de abril de 2022

Pílulas

Vidas em fuga - 13/03/2022. No meio do horror na Ucrânia

Bel e Caetano

Esperança e gória 

Adufes - Ssind. A chapa 2 venceu para o biênio 2022-2023

Continuo usando máscara


Vidas em fuga - 13/03/2022. No meio do horror na Ucrânia.

I don’t know her name, but this Ukrainian woman should become an icon. William Crawley @williamcrawley 20 de mar

@KimWyles11 Em resposta a @williamcrawley e @EHChalus

'A woman walks with two cats and a dog after she crossed the border from Ukraine to Poland at the border checkpoint in Medyka, Poland, on March 13. ~ Aleksandra Szmigiel' 12:26 PM · 20 de mar de 2022·Twitter Web App

Guerra na Ucrânia 


Bel e Caetano

Caetano e Bel

Vídeo Caetano e Bel


Galho librina Alferes a Bel e Caetano

Em tempo: Avô e   


Esperança e gória

Assisti Belfast, 2021, de Kenneth Branagh e na época achei um filme muito bom. A história do conflito da Irlanda de 1969, vista por um garoto. Depois revi Esperança e Glória, 1987 de John Booman. A estória do bombardeio de Londres na segunda guerra mundial do ponto de vista de um garoto. Maravilhoso. 

Mudei minha opinião sobre Belfast de Branagh, é bunitim, mas ordinário.

Sobre Esperança e Gloria

 "Nada mais na minha vida se igualou à alegria daquele momento. Minha escola estava em ruínas."

A frase foi dita por Bill (em off), o garoto do filme Esperança e glória (Hope and glory) de 1987, dirigido por John Boorman. Era a época da 2ª Guerra, em Londres. A escola fora bombardeada e as aulas suspensas. Uma sinopse do filme: a Londres devastada por bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial. A família de Bill de nove anos sofre as consequências do conflito. Enquanto seu pai luta contra os nazistas no front, sua mãe e suas irmãs vivem assustadas com os horrores e ruínas de uma cidade castigada pela guerra. Para Bill a guerra significa dias sem aula, descobertas em meio às ruínas e um festival noturno de fogos de artifício, assistidos do abrigo antiaéreo do quintal. Enquanto caem as bombas, a disciplina relaxa, as pessoas se mostram de outro modo: a vida se abre, enfim, para o jovem Bill, o alterego de John Boorman. A glória, para Bill, acontece quando a escola é bombardeada e, claro, as aulas são suspensas.

In "Aprendizagens

Pink Floyd - Another Brick In The Wall  


Adufes - Ssind. A chapa 2 venceu para o biênio 2022-2023

Depoimento de Jussara Fardin - vídeo

Chapa 2 - Autonomia e Afirmação


Continuo usando máscara

Covid ES: 01/04/2022 - (casos novos 106, óbitos 2); 2/4/22 - (59, 0); 3/4 (230, 3); 4/4 (476, 3); 5/4 (145, 5)

Vacinação: ES - (dose 1: 83,7% e dose 2:74%); Vitória (82,9 e 78,1); V Velha (76,6 e 67,4); Serra (74,7 e 68,3); Alegre (91,1 e 87,1); S Mateus (70,5 e 63,9)

Fontes: g1 ES e covid gov es