quinta-feira, 16 de julho de 2020

Um de nós morrerá

Paul Newman não foi o primeiro, nem o último. Virou astro fazendo papéis originalmente destinados a James Dean e que haviam ficado vagos após a morte prematura do astro, em 1956. Naquele mesmo ano, Jimmy deveria interpretar Rocky Graziano na cinebiografia do pugilista por Robert Wise. Newman substituiu-o e interpretou Marcado pela Sarjeta, ou Somebody Up Like Me.

No ano seguinte, Dean estava programado para interpretar a estreia de Arthur Penn na direção, mas quem fez The Left Handed Gun foi, de novo, Newmam. O filme estreou em 1958.  Em todo o mundo foi lançado com a tradução do título original para diferentes línguas. Le Gaucher, El Zurdo, O Canhoto. Fazia todo sentido, considerando-se que se tratava de um western e culmina com uma instituição do gênero, o duelo. Um pistoleiro destro, outro, canhoto.


 No Brasil, ficou Um de Nós Morrerá. No começo dos anos 1960, até o mestre John Ford já não acreditava nos mitos do western, que ajudara a construir. Ford dirigiu em 1962 um filme visceral no processo de desmistificação, enterrando os mitos em O Homem Que Matou o Facínora. Sam Peckinpah prosseguiu e até aprofundou a tendência e não houve, naquela década, grande diretor de westerns que não mostrasse velhos mocinhos, cansados de guerra. O fim da lenda, do heroísmo.

Na Itália, os spaghetti westerns construíram sua estética sobre os bounty killers, caçadores de recompensas que representavam a escória nos exemplares norte-americanos do gênero.
Penn havia feito nome na TV, nos anos 1950. Hoje em dia, grandes nomes do cinema estão migrando para a televisão, em busca de liberdade criativa. Estão fazendo o caminho inverso da geração de John Frankenheimer, Sidney Lumet e Penn, que desembarcou em Hollywood cheia de expectativa, com a promessa de injetar sangue novo na indústria.

Frankenheimer foi o primeiro, em 1956, com No Labirinto do Vício. Nos anos 1960, fez filmes que marcaram época, como Sob o Domínio do Mal, a primeira versão (com Frank Sinatra), O Segundo Rosto e o admirável The Fixer, adaptado de Bernard Malamud, em que Dirk Bogarde está genial. No Brasil, chamou-se O Homem de Kiev. Seguiram-se mais três grandes filmes por volta de 1970 – Os Paraquedistas Estão Chegando, O Pecado de Um Xerife e O Homem do Buzkashi. Depois, foi o resto.

Lumet começou fazendo história com Doze Homens e Uma Sentença, em 1957. Depois, tornou-se ziguezagueante, mas com momentos de brilho – O Grupo, O Homem do Prego. Nos 70, enfileirou filmes impactantes – Serpico, Um Dia de Cão.

Penn foi o maior de todos, mas certamente haverá controvérsia. A Um de Nós Morrerá seguiram-se O Milagre de Anne Sullivan, Caçada Humana, Bonnie & Clyde/Uma Rajada de Balas. Nenhum outro cineasta de sua geração foi tão crítico com os EUA. Penn filmou a América com desgosto, mostrando como o país, historicamente, nunca conseguiu resolver seus conflitos senão através da violência.
Com Um Lance no Escuro, de 1975, fez o maior filme da era Watergate. E, embora tenha realizado outros filmes depois, seu verdadeiro adeus foi em 1982, com Amigos para Sempre. Diante do filho baleado, no hospital, o pai imigrante diz apenas, e com amargura, ou será rancor?, "América!".

Tudo começou com a cinebiografia de Billy the Kid. Antes, entre 1953 e 58, Penn realizara cerca de 200 telefilmes dramáticos. Um de Nós Morrerá pertence a uma fase que o próprio diretor definia como psicanalítica, quando fazia filmes para retratar uma sociedade que não saía da puberdade, e na qual os revólveres substituíam o falo. Howard Hawks já tivera esse lampejo no fim dos anos 1940, em seu western (clássico), Rio Vermelho, quando Montgomery Clift e John Ireland ficam exibindo suas pistolas, para ver quem tem a maior. Essa linha freudiana prosseguiu até que, em Uma Rajada de Balas, de 1967, Clyde/Warren Beatty supera a impotência e faz sexo com Bonnie/Faye Dunaway. Habilitam-se a uma vida plena, mas é tarde demais. A polícia, no encalço da dupla – que já virou lenda aos olhos do público da Depressão –, fuzila os dois. Essa desmontagem psicanalítica do mito já está em Um de Nós Morrerá, quase uma década antes.

O filme baseia-se numa peça escrita por Gore Vidal, A Morte de Billy the Kid, e o roteiro é assinado pelo futuro diretor Leslie Stevens. Vidal já transformara seu pistoleiro num homossexual neurótico. Penn mantém o foco na psicanálise, mas por outro viés. A impotência, real ou figurada, sempre esteve no centro de seu cinema. William Bonney, chamado de Billy, é um órfão que vai trabalhar para um velho fazendeiro. No início, ele antecipa o garoto selvagem de François Truffaut. Parece um idiota, ou algum tipo de deficiente. Responde de forma monossilábica, os movimentos dos olhos e do corpo são desarticulados. O homem que o adota, Tunstall, é o oposto disso. Articulado, culto. Reúne o conhecimento instintivo de Billy e algo mais, uma consciência. Tunstall tem uma passagem relâmpago pelo filme e pela vida de Bonney. Fica uns dez minutos, mas é essencial.

Numa cena, Tunstall lê, Billy parece agitado. Curioso pelo livro, mas temeroso. Sua mãe possuía uma Bíblia, lia passagens para ele. Tunstall lê o título do capítulo – Através de um espelho escuro. Explica a que se refere. Algo que não se pode ver, mas se teme. “Um inimigo”, diz Billy. “Não, pode ser um amigo”, retruca Tunstall. É, claramente, nesse começo, o pai que Billy nunca teve. Ensina-o a ler, a escrever. Não anda armado e, percebendo a revolta que ameaça destruir o jovem Billy, tenta convencê-lo a domá-la. De alguma forma, Tunstall antecipa Anne Sullivan/Anne Bancroft no filme seguinte, mas logo é assassinado, e para Billy é um novo trauma. Ele já tinha tentado defender a mãe. Não conseguiu defendê-la, nem a Tunstall. Seu objetivo passa a ser a vingança. Quatro homens, incluindo o xerife, mataram seu mentor. Não existe possibilidade de recorrer à lei e à justiça, porque são corruptas. Billy assume a justiça por conta própria. Caça os quatro homens, vira um vingador.

Durante toda a sua obra, Penn nunca recorreu aos métodos de Sam Peckinpah – a câmera lenta, por exemplo – para mostrar a violência e seus efeitos. A violência em seus filmes levanta sempre questões de ordem moral, aqui relativas ao envolvimento dos quatro homens na morte de Tunstall e às características pessoais de cada um. As cenas são muito fortes, intensas. Newman era um ator do Método. Não lhe bastava interpretar, tinha de incorporar, de 'ser' o personagem. Mais de um crítico acha que a presença convulsiva de Newman deixa o filme datado, mas, para quem entra no espírito, é fascinante acompanhar a evolução de William Bonney e sua transformação em Billy the Kid. Só como adicional de informação. Não foi uma convivência tranquila no set. Penn e Newman tiveram momentos de confronto. Divergiam quanto ao conceito do personagem, que o ator já interpretara na TV, em 1955.

Na concepção trágica de Penn, Billy é um outsider em busca de família. Perde o pai substituto e terá outras perdas ao longo do caminho. Mata dois dos quatro homens e tem seu momento (ousado) de sexo com a mulher de um sujeito que parece inofensivo, mas é pistoleiro (e pode ser cruel). O sexo vira motor, a maneira como a mulher deseja o Kid, e se torna desejável para ele. A essa altura, dois movimentos impulsionam a narrativa – a lenda de Billy como pistoleiro cresce no Oeste selvagem e ele passa a ser caçado por outra figura que se tornou lendária, Pat Garret. Esse era um amigo – um irmão? –, mas um tiroteio, destruindo seu casamento, leva ao antagonismo. A cena é muito bem construída. A foto posada no átrio da igreja, Pat Garret ao centro, como pilar da sociedade. (O ator John Dehner, que faz o papel, é muito bom, austero, em oposição a Newman.) A partir daí, o caminho é sem volta. A construção do mito é feita pelo escritor de novelas baratas Moultrie, interpretado por Hurd Hatfield, que se tornara conhecido ao interpretar O Retrato de Dorian Gray, a versão de Albert Lewin, de 1945.

Moultrie é um personagem ambíguo. Veste-se de preto, antecipando a morte de Billy. Possui uma fixação homossexual no jovem pistoleiro. Transforma Bonney no Kid. Penn usa os símbolos. Com Tunstall, Billy encontra os ciganos, queimando o boneco de palha. Na festa que vira fuzilaria, outro boneco é queimado. Após o sexo, Billy encontra o jornal que anuncia sua morte, e que ele queima. As chamas da paixão? Um pouco, mas o fogo marca a morte de Bonney e sua ressurreição como Kid.

 A oposição entre lenda romantizada e realidade brutal antecipa Bonnie & Clyde. Como ocorre com frequência para os personagens de Penn, a consciência chega para eles tardiamente. Para Billy, antecede a morte violenta. Penn sempre gostou de criar esse tipo de efeito dramático. Não há liberação emocional para o espectador, que é levado a torcer pelos personagens (Billy, Bonnie, Clyde etc), somente para que o autor corte o cordão umbilical numa ruptura extrema que interrompe bruscamente o efeito catártico.
Um de Nós Morrerá foi tão mal recebido nos EUA que Penn chegou a pensar que não teria futuro no cinema. Foi dirigir teatro, o que foi decisivo para sua evolução como diretor de atores. Voltou somente quatro anos depois, com O Milagre de Anne Sullivan, baseado na peça de William Gibson. Vale lembrar – durante dois anos Penn ficou em cartaz com outra peça de Gibson, Dois na Gangorra, interpretada por Henry Fonda e Anne Bancroft. Apaixonado por ela, o dramaturgo desenvolveu uma teleplay que Penn transformou em O Milagre de Anne Sullivan, seu clássico de 1962, pelo qual Anne e Patty Duke ganharam os Oscars de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante.

Em 1966, foi a explosão de Caçada Humana e, no seguinte, Bonnie & Clyde. Caçada/The Chase é um daqueles filmes faróis. A caçada a um fugitivo acirra todos os preconceitos durante o fim de semana, numa cidadezinha sulista. Penn dirigiu um elenco de astros e estrelas (Marlon Brando, Jane Fonda, Robert Redford, etc). Criou cenas integradas ao imaginário do cinéfilo – o xerife Calder/Brando leva uma surra memorável, mas se levanta, todo rebentado, para tentar fazer valer a lei e a ordem.

Sam Spiegel foi um produtor importante, vencedor do Oscar com os filmes de Elia Kazan (Sindicato de Ladrões, de 1954) e David Lean (A Ponte do Rio Kway e Lawrence da Arábia, de 1957 e 62). Dispõe da fama de ter sido produtor cooperativo, mas viveu às turras com Penn e afastou o diretor da montagem. Penn, que tinha um Caçada Humana ideal na cabeça, sempre rejeitou o trabalho, achando que a preferência foi sempre por tomadas e cortes mais convencionais. Já a crítica dividiu-se e o autor do texto está entre os que reputam o filme como obra-prima. “Tout est dans la mise-en-scène”, como diziam os críticos franceses, nem a remontagem conseguiu destruir o grande filme que é.

O mais crítico de Penn, como representação de uma sociedade doente. Ele continuou se exercitando no cinema de gênero. Filmou gângsteres (Bonnie & Clyde), mocinhos e bandidos do Wild West (Pequeno Grande Homem e Duelo de Gigantes), detetives particulares (Um Lance no Escuro). A revisão dos gêneros faz-se por um olhar único – seu projeto foi retomar, à européia, de forma autoral e consciente, grandes clássicos da tradição hollywoodiana. David W. Griffith, Kazan, Richard Brooks. Não se pode esquecer que Robert Benton e David Newman escreveram Bonnie & Clyde para ser filmado por François Truffaut ou Jean-Luc Godard.

Em 2007, recebeu um Urso de Ouro especial por sua carreira em Berlim. O repórter estava lá, integrando o grupo que fez questão de entrevistá-lo. Discutimos cada filme. Admitiu que talvez mudasse algumas coisas em Um de Nós Morrerá. Achava a música invasiva e a balada nos créditos um clichê que gostaria de ter evitado, mas o estúdio – a Warner – impôs.

Como obra de um estreante no cinema, orgulhava-se do trabalho de câmera – com o fotógrafo J.Peverell Marley –, tendo plena consciência de haver influenciado outros diretores de westerns, como Sam Peckinpah e o Marlon Brando de A Face Oculta, de 1961.

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo
15 de julho de 2020

sábado, 11 de julho de 2020

O desprezo

O cinema, disse Andre Bazin, substitui um mundo por outro mais em harmonia
com nossos desejos. "O Desprezo" é a história desse mundo.


Paul: Uma mulher sempre pode encontrar uma desculpa para não fazer amor.
Camille: Você as vezes é um babaca.
Paul: Linguagem vulgar não combina com você.
Camille: O que não combina? Escuta só... caralho, foder, merda, puta que o pariu, babaca, filho da puta, puteiro. Então, ainda acha que não combina?
Paul: Por que não quer mais fazer amor?
Camille: Certo, façamos, mas que seja rápido.


Em anos praticamente sucessivos, 2016 e 18, imagens emblemáticas de dois filmes de Jean-Luc Godard ilustraram o cartaz do Festival de Cannes. Primeiro foi a de O Desprezo, de 1963, a Villa Malatesta, em Capri. “Está tudo ali. Os degraus, o mar, o horizonte, o homem que ascende em direção ao seu sonho, em uma luz quente do Mediterrâneo que torna tudo dourado. A imagem é uma reminiscência da frase atemporal de Michel Mourlet usada no começo do filme - 'O Cinema substitui nosso olhar espantado e fixo por um mundo em harmonia com nossos desejos”, segundo o anúncio oficial do festival.

Dois anos depois do cartaz com Le Mépris, foi Pierrot le Fou, de 1965, lançado no Brasil como O Demônio das Onze Horas. Jean-Paul Belmondo e Anna Karina, cada um em seu carro, em direções opostas, beijam-se. São filmes cuja importância para o cinema ultrapassa o significado artístico, e esse já é enorme. Evocam a intimidade de Godard, que no começo dos anos 1960 se ligou a Anna Karina. Embora baseado no romance de Alberto Moravia, O Desprezo é, ou também é, sobre a crise no casamento de ambos.

Na volumosa biografia de Godard por Antoine De Baecque (Ed. Grasset, 2010), o autor reproduz declarações de Anna dizendo que frases que o diretor colocou na boca de Brigitte Bardot eram dela, mas mais que tudo a maneira de dizer as coisas. Brigitte, por sinal, queixou-se que Godard lhe impunha um comportamento glacial, estatuesco, nas cenas de agressão verbal. Ela queria se soltar, ele a refreava. Pensava na Karina. A crise, a despedida - Pierrot le Fou foi a última parceria.

Cada crítico terá seu Godard e, ao longo dos anos 1960 - até hoje -, ele foi o grande revolucionário da tela. Como homenagem ao grande crítico gaúcho, vale lembrar o que dizia Jefferson Barros - “(Luchino) Visconti é a maneira clássica de fazer cinema revolucionário, (Joseph) Losey, a maneira revolucionária de fazer cinema clássico, e Godard, a maneira revolucionária de fazer cinema revolucionário”. A chacun son Godard. O do autor do texto é O Desprezo, o que não deixa de carregar certo paradoxo. É o filme 'clássico', como realização, do diretor. A sua forma de fazer uma superprodução de US$ 5 milhões, o que representava muito mais dinheiro na época - umas dez vezes mais que o filme mais caro que ele havia feito.

Foi também a rodagem mais tumultuada da carreira de Godard, já que os paparazzi nunca deixaram de correr atrás de Brigitte Bardot, as iniciais BB, na sua época de grande estrela e um dos corpos mais desejáveis do planeta. Um dos? Por que não o mais? Godard, aliás, tinha plena consciência de estar encarando o mito. Brincou com seu fotógrafo, Raoul Coutard, que estavam inventando um novo sistema, o FesseColor, que, em bom português, quer dizer BundaColor. Consta até que a única briga de Godard com Michel Piccoli no set foi um pouco por causa disso. Por contrato, ele tinha de mostrar Brigitte nua. Na cena em que ela toma sol no terraço, suas nádegas estão cobertas por um livro em cuja capa se lê 'Entre sem bater'. Piccoli tentou virar o livro para impedir a leitura. Godard foi veemente - “Surtout pas”.  De jeito nenhum. No fim dos anos 1950, uma nova geração se estabelecera no cinema francês, substituindo a geração anterior, que um de seus arautos - François Truffaut - fustigou como 'cinema de papai'.

Mas, passada a curiosidade inicial, o público reagiu, e mal. Pode-se argumentar que o novo sempre assusta. Os filmes começaram a fracassar na bilheteria. Os 'velhos' exultavam - consideravam a Nouvelle Vague cada vez mais 'onda', cada vez mais 'vaga'. Mas Godard adquirira prestígio. Aceitou a proposição para fazer O Desprezo. O filme reunia investidores da França (Georges de Beauregard), da Itália (Carlo Ponti) e dos EUA (Joseph Levine). Esse último queria que o filme fosse feito com Frank Sinatra e Kim Novak. Ponti tentou impor sua mulher, Sophia Loren (e Marcello Mastroianni). Godard e Beauregard propuseram Brigitte Bardot, sem saber se ela aceitaria. Godard fez o que nunca tinha feito. Enviou-lhe um texto de mais de 100 páginas com o que queria fazer, e sobre sua personagem.

Brigitte, a princípio, desdenhou - era a própria velha onda. Tinha muito a perder, quase nada a ganhar. Mas talvez tenha sido por isso que aceitou. Os paparazzi, que ainda regurgitavam o efeito Cleópatra - correndo atrás do casal adúltero Elizabeth Taylor/Richard Burton - prepararam-se para novo round. BB! As filmagens ocorreram em Roma e Capri. A estrela vivia assediada pela imprensa, principalmente fotógrafos. Para complicar, estava sozinha - chegou a trazer os pais da França -, porque o então namorado, Sami Frey, estava distante, comprometido com outra filmagem. Andava deprimida, chorava muito, irritava-se (com os paparazzi), mas foi profissional. Na verdade, os problemas de Godard foram com o astro americano Jack Palance, dos filmes de Elia Kazan e Robert Aldrich. Palance, um ator do Método, ressentia-se do método gordardiano de trabalho. Kazan, que veio visitar o set, também. Vendo Godard no trabalho, ele se admirou com a sua ausência de planos de cobertura e a despreocupação com o eixo. A situação chegou a um ponto em que Palance não queria falar com ninguém. O lendário Fritz Lang, que fazia o diretor do filme dentro do filme, achava melhor assim. Para ele, Palance era um chato de galocha.

O Desprezo é sobre Paul Javal/Michel Piccoli, contratado para reescrever o roteiro de uma versão da Odisseia que está sendo filmada por um mestre alemão, Lang (no próprio papel). Paul é casado com uma bela mulher (Camille/Brigitte), que passa a ser assediada pelo produtor, Prokosch/Palance. Paul empurra Camille nos braços de Prokosch e, no final, a vê partir. Godard tinha a maior admiração pela escrita de Moravia. Considerava-o, segundo De Baecque, o equivalente de Joseph L. Mankiewicz no cinema de Hollywood - alguma coisa de sutil, refinado, a mais bela prosa a serviço de personagens que afundam. Na origem do romance está uma história real que outro grande escritor - Vitaliano Brancati autor de O Belo Antônio - contou a Moravia. Ele trabalhava no cinema somente para oferecer à mulher a casa dos sonhos dela, e quando conseguiu levantar o dinheiro o casamento havia acabado. Moravia somou a desventura de Brancati à própria experiência quando trabalhou na adaptação de Homero que resultou em Ulisses, de Mario Camerini, com o astro Kirk Douglas, de 1953.

É a anatomia do fracasso de um casamento. A crise dos sentimentos. O filme antonionesco de Godard. Como o amor se transforma em indiferença e até desprezo. Godard estava vivenciando esse processo na relação com Anna Karina. Transformou o processo em criação, a história de um homem que sabe que está perdendo a mulher. A presença de Brigitte é pivotal. Desde E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim, de 1956, ela povoava as fantasias das plateias masculinas. Na Odisseia, Ulisses vaga por dez anos, na tentativa de voltar para casa, em Ítaca. A mulher, Penélope, nunca deixa de esperá-lo, desfazendo à noite o que teceu de dia, porque no fim dessa atividade interminável terá de escolher um marido. Na ficção godardiana, a mulher moderna - Brigitte - não espera, mas isso é porque o homem moderno - Piccoli -, com seu comportamento permissivo (inglório?), também não é Ulisses. Só resta a Fritz Lang realizar sua versão da Odisseia, no cenário majestoso de Capri, com estátuas em lugar de gente.Era, desde o início, o conceito - transformar Brigitte, uma das mulheres mais sexies do mundo, numa fria estátua de mármore.

Dessa forma, Godard afronta, e enfrenta, o mito para seguir com seu projeto autoral, subvertendo, desde o interior, uma produção 'hollywoodiana'. Apesar do custo elevado para os padrões do cinema francês da época, o filme, como destaca De Baecque, foi feito com simplicidade - com economia de meios e grande eficácia. Sendo um filme sobre o casal, é também sobre o cinema, seus bastidores. É famosa a cena em que, ao fim de uma discussão com Lang e Paul, Prokosch reage brutalmente - “Sempre que ouço falar em arte eu pego a caneta e me preparo para asssinar o cheque.”

Para colocar o espectador dentro do próprio ficcional, Godard (e Coutard) iniciam O Desprezo por um dos planos-sequências mais belos do cinema. Tudo já está ali, o décor e a vida, a realidade e a fantasia.

Essa fábula de desintegração, sobre a dificuldade e até impossibilidade de erigir o mundo sonhado e fazê-lo real tem ainda uma quinta personagem, além do roteirista, sua mulher, o produtor e o velho cineasta. Como se falam diversas línguas no set fictício, há uma figura que faz a junção de todas as demais, a tradutora, Francesca Vanini. Esse nome não é por acaso e encerra uma dupla homenagem a Roberto Rossellini, por meio da citação a Francisco, Arauto de Deus e Vanina Vanini, de 1950 e 61. Ela é interpretada por Giorgia Moll, atriz de Mankiewicz em Um Americano Tranquilo, de 1957, e que participou de alguns filmes de aventuras mitológicas na Itália por volta de 1960. Amorosa de Paul, respeitosa de Lang, invejosa da beleza de Camille, altiva perante Prokosch, Francesca cumpre o papel da dançarina do templo de O Tigre da Índia, do próprio Lang, de 1958, faz a ligação entre os homens e os deuses. Lang adorou a experiência. Escreveu para Piccoli, de quem se tornou amigo, uma carta que De Baecque reproduz na biografia de Godard. Vale transcrever o trecho sobre o diretor.

Diz Fritz Lang - “Ele (Godard) tenta com sinceridade e um grande senso de responsabilidade continuar e avançar o que a minha geração tentou fazer no período silencioso e no começo do sonoro. Tenho a impressão de que Godard busca seu estilo pessoal, enquanto eu estive sempre mais interessado no conteúdo das histórias que queria contar. Estou certo de que ele não faz concessões e sei, por experiência própria, que quem trilha caminhos novos encontra sempre a resistência de produtores que preferem destruir aquilo que não compreendem.”

Lang e Godard participaram depois de uma histórica emissão da série Cineastes de Notre Temps, de André S. Labarthe, O Dinossauro e o Bebê, definida como 'documento excepcional sobre a paixão de cinéfilos, além de uma grande lição de cinema.” A paixão de cinéfilo transparece num detalhe que encontra ressonância em outro filme da série Clássico do Dia. Como Dean Martin em Deus Sabe Quanto Amei/Some Came Running, de Vincente Minnelli, de 1959, e numa dupla homenagem ao astro e ao grande diretor, o roteirista interpretado por Piccoli porta sempre chapéu.

Mas Lang, infelizmente, estava certo. Presente à primeira projeção de O Desprezo, Truffaut entusiasmou-se e definiu o filme como um dos melhores de Godard – um Viver a Vida (de 1962) em cores, calmo e triste. Já as reações de BB e dos produtores foram desastrosas. BB considerou o filme inacabado, Levine disse que pagou caro pelo corpo dela - US$ 1 milhão - e exigiu mais cenas de nu. Godard, depois de muita polêmica, cedeu e acrescentou mais três minutos de nudez à montagem, mas filtrando o corpo desejado nas cores vermelho, branco e azul - da bandeira francesa, de certa forma antecipando Krzystof Kieslowski e a trilogia das cores. O resultado, somado ao tema composto por Georges Delerue, criou o que De Baecque define como poema irreal para uma deusa grega. Godard, apesar das dificuldades - das pressões -,  venceu a parada. Fez seu filme 'narrativo', 'tradicional', um dos maiores, senão o maior. Mas talvez tenha sido como reação a O Desprezo que ele propôs, no ano seguinte, Uma Mulher Casada, mais próximo do seu estilo desconstruído habitual, com Macha Mérril.

Desprezo  Youtube

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo
10 de julho de 2020

terça-feira, 7 de julho de 2020

Tudo acaba em barro

Um coveiro em Manaus conta seu cotidiano durante a pandemia

Marcos Antonio da Silva Santos

Silva Santos, no cemitério em que trabalha FOTO: RAPHAEL ALVES_2020

Marcos Antonio da Silva Santos tem 42 anos e trabalha há dezessete como coveiro em um cemitério da Prefeitura de Manaus, o Nossa Senhora Aparecida, que ficou conhecido em todo o Brasil por causa das valas coletivas abertas ali para o enterro de pessoas mortas pela Covid-19. Naqueles dias de abril, Santos chegou a enterrar 115 corpos em um único dia. “O defunto que morre de Covid vem sempre mais pesado do que os outros”, ele conta no diário a seguir. “A gente não sabe qual é o mistério que tem.”

25 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA

Ontem fui ao Rio Solimões com mais cinco amigos dar uma pescada. Eram duas canoas, a gente usou tarrafa e linha comprida. Deu pra pegar uns 30 kg de surubim, caparari e dourado. No Solimões tem muito peixe sem escama, que é mais gostoso de comer. No Rio Negro dá mais tambaqui, pacu, piranha, peixes com escama.
A gente foi bem cedo, eram umas seis e meia da manhã. Voltamos lá pelas seis da tarde. Quando cheguei em casa, botei logo os peixes no freezer. A minha mulher, a Etelvina, vai fazer guisado e cozido com eles. Estamos casados faz catorze anos. Nossa filha, a Geovana, já está com 6 anos. Tenho também um filho de criação, o Ítalo Roger, de 22 anos. Ele trabalha numa igreja, fazendo serviço geral.

Hoje acordei às 4h45. Tomei banho e fui pro estacionamento perto de casa pegar minha moto. Eu pago 100 reais por mês pra deixar a moto lá, porque tenho medo de ela ser roubada se eu deixar na rua. Cheguei no cemitério às 5h40, não tenho um horário de entrada fixo. O importante é chegar antes do almoço e cavar dez covas novas por semana. O cemitério fecha às cinco da tarde.

Tomei café com o Alcindo e o Chiquinho. Os dois também são coveiros. O acordo no trabalho é que todo mês cada um leva um pacote de café e um de açúcar. Além disso, quem pode leva pão, bolacha, macaxeira, o que tiver. Eu paro todo dia numa padaria que fica no meio do caminho pra comprar 2 reais de pão. Dá uns oito pãezinhos. Às vezes alguém leva manteiga, às vezes, não.

Às 7h15 teve o primeiro enterro. Cova normal, não era morto de Covid, mas de arma de fogo. Fomos eu, o Alcindo e o Rafael colocar o caixão no buraco. Eu tenho enxada, picareta, pá, ferro de cova e espátula. Gosto muito da minha enxada de cabo curto pra cavar. O Nossa Senhora Aparecida é um cemitério bem antigo, tem quase uns 50 anos, e aqui o trabalho de cavar sempre foi manual. Mas agora, com essa pandemia, passaram a usar trator. Como é muito defunto, a gente não estava dando conta. A administração alugou dois tratores. Um de draga, que rasga o chão todo, e um de concha, pra furar vala por vala. Também contratou um caminhão frigorífico, pra guardar caixão quando tem muitos corpos.

O cemitério aqui termina dentro da floresta e teve que ser aumentado. Primeiro, o trator de draga derrubou uma parte da mata e abriu espaço pra uma quadra só com defunto de Covid. Depois, o trator de concha furou os buracos das covas. A gente só precisava arriar os caixões, porque o próprio trator jogava terra em cima, e fazer o acabamento, aplanando com a pá e botando uma cruz. A cruz tem o endereço da quadra, o nome do defunto e a data do nascimento e da morte dele. Quem escreve tudo na cruz é o Batalha, que também é coveiro e tem letra bonita. Além da cruz, a sepultura tem também o castilho, que é aquela muretinha de madeira, mais ou menos do tamanho do caixão, cercando a cova pro pessoal saber onde está o defunto.

No auge da Covid, a gente enterrou 115 corpos num dia. Em dia normal, não passa de vinte. Eu e mais seis coveiros. Já tinha o trator pra ajudar, mas, mesmo assim, o trabalho durou até sete da noite. Como era muito corpo, a gente passou a enterrar de cinco em cinco. Era tanta coisa acontecendo que eu nem percebi se estava com medo, mas minha mulher ficou bem assustada de eu levar a doença comigo pra casa. Passei a tomar banho com álcool quando chegava, num chuveiro que tem do lado de fora. Só depois eu entrava.

Antigamente, o enterro era normal, cada um na sua enxada. O caixão chegava, ficava uns minutos na mesa pra receber homenagem e a família carregava até a cova. Agora é assim: se é morte por Covid, o corpo vai direto pra cova. Se é morte morrida normal, fica mais tempo na mesa, até juntar cinco caixões. Aí o pessoal coloca todos eles num tratorzinho com carroceria e leva os cinco pra serem enterrados de uma vez só. Fizeram esse protocolo aí porque o pessoal não estava tendo tempo de enterrar um por um.

O enterro é em cova coletiva, a não ser que a família tenha algum jazigo antigo. O cemitério aqui é da prefeitura. Quem quer enterrar em cova particular precisa comprar no cemitério da frente, o Parque Tarumã, que é privado. Mesmo quando não é Covid, a gente tem que usar máscara. Se é Covid, tem que usar roupa especial. Por causa da doença, o prefeito também baixou um decreto que só deixa cinco familiares do defunto acompanharem o enterro. Agora tem aparecido pouco morto de Covid, mas varia. Hoje, por exemplo, foram sete enterros. Só um era da doença. O João e o Rafael fizeram esse aí.

Larguei o trabalho às cinco da tarde. Cheguei em casa meia hora depois. Tomei banho e fui pra sala ver televisão. Boto sempre no canal A Crítica, que tem o programa do Sikêra Junior. Ele falou de um homicídio de uma moça de 14 anos, de sábado pra domingo. Acharam o corpo na Estrada da Praia Dourada. Acho que ela não foi enterrada lá no cemitério, não. Teve dois enterros de arma de fogo, mas os mortos eram homens.

26 DE MAIO, TERÇA-FEIRA

O celular despertou antes e acordei mais cedo, às 3h45. Fiquei vendo televisão e saí de casa uma hora depois. Passei na padaria, depois abasteci a moto: 4 reais de gasolina, pra completar o tanque. A moto é flex, mas eu só boto gasolina. Não gosto de andar com o tanque na reserva, pra não dar risco de ficar vazio quando saio do cemitério.

Tomei café da manhã com o Chiquinho e o Alcindo de novo. Quando deu 7h15, o fiscal mandou a gente abrir uma cova na quadra 56, pra um defunto que ia ser enterrado na parte da tarde. Foi feita na mão mesmo, com enxada e pá, porque o trator não chega até lá. O Sidney me ajudou. A gente cavou 1 metro pra baixo, que é o espaço de dois caixões.

Quando a família tem sepultura, a gente tem que tirar o caixão mais antigo pra poder caber o novo. Mas só pode fazer isso depois que o caixão tem quatro anos debaixo da terra, que é o tempo que o defunto leva pra virar só roupa e osso.

A gente cava, arranca os pedaços do caixão e joga fora a calça, a camisa, o tênis ou o sapato, essas coisas. Quem come defunto não é minhoca. É o barro mesmo. Quando o caixão é aberto, depois de muito tempo, está tudo misturado no meio do barro: a madeira, as roupas, os ossos. A gente cata os ossos que sobraram e coloca dentro de um saco, mostra pra família e, depois, enterra de novo. O saco fica em cima do caixão do defunto novo. Se a família quiser, até pode colocar os ossos numa gaveta, mas aí tem que pagar a mais. Esse serviço de gaveta só tem no Parque Tarumã.

Umas semanas atrás, fiz um desses enterros, só que mais difícil. Precisei tirar um caixão de anjinho, que é como a gente chama a criança que morreu, e refazer a cova toda pra caber um adulto. A parte da terra onde ficava o caixão antigo é mais molinha, porque já foi revirada antes. A parte de terra virgem, que nunca foi remexida, é bem mais dura. Tem que fazer assim: primeiro a gente mede tudo pra dar o tamanho do caixão novo. Aí joga água pra amolecer a terra e cava um palmo pra baixo. Depois joga mais água, espera uns vinte minutos, cava de novo, e assim por diante. Se não fizer isso, você bate a enxada e ela não tira nada.

O defunto da cova que a gente abriu de manhã chegou às quatro e meia da tarde. Era um senhor de idade, morreu de Covid. Eu já estava com roupa especial, tinha botado uns dez minutos antes. O fiscal, o Átila, avisa quando tem Covid e traz a roupa pra gente. É uma capa de pano feita de napa, tipo capa de chuva. Tem também touca, luva e máscara. Depois de usar, tem que jogar tudo na lixeira. Até agora, nenhum coveiro adoeceu. Por isso eu não fico mais tenso. Passo álcool em gel, e é vida que segue.

Depois de enterrar esse morto de Covid, tomei um banho e fui embora. Tomei outro banho quando cheguei em casa. O jantar vai ser guisado de peixe.

27 DE MAIO, QUARTA-FEIRA

Acordei às 5h40. Comprei pão e fui pro cemitério. Quando cheguei, o Átila pediu pra eu e o Sidney cuidarmos da parte de Covid. O primeiro sepultamento foi às dez da manhã. Era um rapaz. Botei a farda, enterrei, descartei a farda. No fim da tarde, enterrei uma mulher. A família e os amigos dos mortos ficam chorando enquanto a gente enterra os defuntos, mas eu quase não me emociono. Só uma vez eu chorei, num enterro de uma mulher que tinha sido morta pelo marido a facada. Quando vi os filhos chorando na beira do caixão, eu chorei também.

Almocei costela e guisado. Tem um rapaz que fornece comida no cemitério. Ele liga pra gente por volta de nove da manhã, diz qual é o cardápio do dia, a gente escolhe, e lá pelo meio-dia chega a quentinha, que custa 10 reais. A gente come numa mesa improvisada, bem longe das covas. Normalmente, eu almoço junto com o Chiquinho, o Carlinhos e Irmão Zé, que tem esse nome porque é pastor. O Chiquinho sempre faz um café.

28 DE MAIO, QUINTA-FEIRA

Hoje foi bom, deu só dois enterros. A gente aproveitou o tempo livre pra lembrar os sepultamentos de antigamente. Falamos do finado Bigode e do finado Cairara. Os dois eram coveiros, morreram de velho. O finado Cairara foi um dos fundadores do cemitério, passou 46 anos nesse trabalho. Depois dele, o mais antigo é o João Montenegro, que tem mais de quarenta anos como coveiro e vai se aposentar daqui a um tempo. A prefeitura afastou ele, o Macedo e o Lázaro, todos de idade, por causa da Covid. Como não contratou gente nova, a gente teve que dividir as funções. Mas não foi muito trabalho, não, porque o João e o Lázaro só enterravam anjinho.

No ano passado, teve um dia que enterrei um defunto de 386 kg. Era um rapaz novo, que engordou muito. O caixão nem era caixão. Era uma caixa de madeira tão grande que nem cabia no esquife, aquele carrinho de transportar o corpo até a cova. A família levou a caixa de madeira na caçamba de um caminhão. Eu nunca tinha cavado uma cova grande daquele jeito. Primeiro, a gente usou umas tábuas pra arriar a caixa do caminhão pro gramado. Depois, todo mundo ajudou a levar do gramado pra cova, porque só os seis coveiros não davam conta. Foi gente segurando pelas beiras, pelas cordas. Deus me livre.

Outra história curiosa no trabalho foi com um colega meu, o André, que era fiscal. Um dia a gente saiu do cemitério lá pelas seis e pouco da tarde, no carro dele. Quando o carro estava passando entre as quadras 18 e 17, nós vimos uma mulher sentada num banco, com o cabelão todo jogado na frente da cara. Eu falei: “Ô André, você viu isso aí?” Ele tinha visto também e logo deu marcha à ré, para poder conferir quem era. Mas a mulher tinha sumido, assim, rapidinho. Até hoje eu não sei o que foi aquilo que a gente viu, porque naquele horário já não podia ter mais ninguém visitando as covas.

Teve uma vez que a gente estava cavando na quadra 17 quando caiu um raio por perto. Todo mundo sentiu um choque na perna e caiu no chão. Depois o pessoal se levantou de volta e continuou enterrando.

Tem dezessete anos que eu sou coveiro, mas trabalho desde que era criança. Minha mãe morreu quando eu tinha 5 anos, de tétano, depois que ela pisou num prego enferrujado. Quando eu tinha 8 anos, foi a vez do meu pai, que morreu de câncer. Minha madrasta passou a cuidar da casa e de quatro irmãos menores que eu. Larguei a escola e fui aprendendo a dar meu jeito. Comecei empacotando coisas na feira e nas Casas da Banha, um supermercado que existia na época. Também trabalhei de engraxate e em conserto de carro.

Quando eu tinha uns 16 anos, fui pro interior. Tenho uma irmã bem mais velha que mora em Itacoatiara. Fiquei um ano lá, plantando mandioca. Depois voltei e fui trabalhar de auxiliar na Zona Franca, enchendo caminhão com DVD, televisão e outros aparelhos. Como não era todo dia que davam carreta pra encher, passei a ir bastante na Secretaria Municipal de Limpeza Pública e perguntar se tinha vaga de gari. O salário era melhor. Comecei a lavar carro do pessoal que trabalhava lá, pagar conta no banco para eles, essas coisas. Um dia a chefa do setor de pessoal me avisou que ia aparecer uma vaga. Deu certo, fiquei uns três anos varrendo a cidade. Em 2003, o pessoal da secretaria me perguntou se eu não queria mudar pra coveiro. O salário era igual, mas tinha uma parte melhor: no cemitério, a gente trabalha uma semana inteira e folga na outra. Hoje ganho 2 100 reais por mês, sem carteira assinada.

No começo, eu vinha pro trabalho de ônibus bem cedo e descia no portão de entrada. Tinha que atravessar o cemitério inteiro a pé, de madrugada, e às vezes ainda estava escuro. Dava um pouco de medo. Depois, fui ganhando coragem. Hoje, gosto do que faço. Já enterrei juiz, promotor, policial e um cantor famoso, o Arlindo Júnior, que cantava no Festival de Parintins. Enterrei os defuntos do micro-ônibus que bateu num caminhão na Djalma Batista, uma avenida daqui de Manaus. Foram dezesseis mortos numa tacada. Enterrei também aqueles presos do Compaj [o Complexo Penitenciário Anísio Jobim], depois da rebelião que aconteceu lá em 2017. A imprensa deu que foram 56 mortos, mas a gente abriu 147 covas. Essa tragédia foi no dia 1º de janeiro, dia do meu aniversário.

Fui eu que enterrei também o Fábio dos Santos Maciel, aquele sargento da Marinha que morreu na própria festa de casamento, no Rio de Janeiro. Ele caiu em cima de uma taça de vidro, que cortou a veia da perna dele. No enterro teve homenagem, e o chefe do Fábio pediu pra gente arriar o caixão bem devagar. De vez em quando, a viúva visita a sepultura.
Quando o defunto vem de outro estado, o caixão tem que ter uma proteção de zinco por dentro, pro chorume não escapar. Se não tiver, a empresa aérea não faz o traslado. E, dependendo do tempo que vai levar até o enterro, o defunto precisa ser embalsamado. Colocam formol na coxa, no antebraço e no pescoço, e dessas partes o líquido se espalha pelo corpo todo. Tem funerária que também tira as tripas.

31 DE MAIO, DOMINGO

Tive dor de cabeça e febre na sexta-feira, mas passou rápido. Acho que foi por causa do sol quente. Bateu uns 38ºC. Eu não uso protetor solar, porque o corpo fica muito liguento. O verão pior aqui é em agosto e setembro. Faz mais de 40ºC. A cigarra canta tanto que espoca. Até já gravei uma cigarra cantando e coloquei como toque do meu celular. Nessa época é ruim de cavar porque não chove. O barro vai ficando mais duro. A gente chega no cemitério ainda de madrugada pra poder cavar antes do sol aparecer. Antes da Covid, cada coveiro tinha que deixar prontas dez covas por semana, pra quando chegasse o defunto. Agora, no caso de morto de Covid, quem faz isso é o trator.

Hoje foi meu último dia de trabalho na semana. O Rafael, meu colega aqui, teve a ideia de a gente fazer um churrasco no cemitério, numa área longe das quadras de enterro. Cada um deu 10 reais pra comprar bisteca, linguiça, farinha e banana-prata. A gente montou a grelha com uma grade velha, daquelas da parte de trás de geladeira, e usou como base um pedaço de meio-fio. No lugar do carvão, usamos umas madeiras que estavam lá mesmo. Queimou rapidinho. Cada um se revezou como churrasqueiro. Teve uma hora que o Rafael, o Batalha, o Alcindo e o Carlinhos foram fazer um enterro, e eu fiquei no fogo. O churrasco durou umas duas horas. Sem bebida, pois não é permitido.

Hoje foram sete enterros no total. Nenhum era Covid. Teve o de um morto por arma de fogo e o de uma moça que teve o pescoço cortado por uma linha de pipa quando andava numa moto. A moto dela não tinha aquele ferrinho no guidão que protege contra isso. A minha também não tem, mas não tenho medo porque nunca passo em área que tem pipa.

Peso de defunto varia muito. O defunto de Covid vem sempre com o corpo mais pesado do que os outros, por exemplo. A gente não sabe qual é o mistério que tem. Defunto morto por arma de fogo também costuma pesar mais. Não é por causa do chumbo, porque o IML costuma tirar as balas. Mas uma vez eu exumei um cadáver que estava enterrado tinha uns quarenta dias. O laudo dizia que o defunto morreu por asfixia. Mas a mãe dele não estava convencida disso, achava que o rapaz tinha sido morto por arma de fogo. Quando o perito foi examinar o corpo, viu o buraco de um tiro atrás da orelha.

Outra vez, em 2008, fiz a exumação de um defunto de 48 dias. Era um traficante de um bairro chamado Praça 14 de Janeiro. Ele tinha morrido de tiro. A gente desenterrou, abriu o caixão, mas na hora de transferir pro esquife o corpo partiu no meio, na altura da barriga. A gente pegou as duas metades e colocou no rabecão pra ir pro IML. Já estamos acostumados com isso.

Quando tem exumação, o pessoal do IML vem acompanhar, porque é caso de polícia. Às vezes vêm também agente, delegado e juiz, pra não deixar ninguém chegar perto do corpo. A gente usa máscara e roupa especial. Quando termina a exumação, joga a máscara fora e a roupa também, porque ela fica com cheiro do chorume do defunto. A última exumação que eu fiz tem uns dois anos. Foi o de uma mulher morta pelo marido, um pastor que não aceitava a separação. O caixão estava no barro tinha uns vinte dias, que é até um tempo tranquilo. Quando passa disso, o cheiro começa a piorar. A gente tirou o corpo e botou num caixão novo, que foi levado pra outro cemitério, no interior do Amazonas, onde a família tinha jazigo, pra ser enterrado de novo. A família tinha conseguido autorização pra fazer a exumação.

O defunto aqui no Nossa Senhora Aparecida pode ser enterrado em três lugares: gaveta, porão e chão. A gaveta é uma sepultura de concreto que fica em cima da terra, às vezes numa capelinha, se a família tem dinheiro pra fazer a construção de uma por cima. A sepultura de porão também é feita de concreto, só que pra baixo da terra, num buraco. A gente cava e cimenta as paredes. Já a sepultura que a gente chama de chão é aquela cova de barro mesmo, também pra baixo da terra, mas sem concreto em volta. Acho que uma capela com umas quatro gavetas custa uns 10 mil reais. O porão sai por uns 6 mil. O barro é mais barato, uns 800 reais.

Coronel e capitão costumam ser enterrados no barro. General é no concreto. Juiz e desembargador também são em sepultura de concreto. Mas isso varia. Já enterrei policial federal em cova de barro. Tem gente que tem interesse em enterrar bem, tem gente que não. Hoje em dia tem até um crematório em Manaus, as coisas estão mudando.

O cemitério chique aqui na cidade é o São João Batista. É da prefeitura, mas quem tem capela lá é barão. Custa uns 28 mil reais. É como no Cemitério Morada da Paz, no Recife. Fui lá em 2016, quando viajei de férias com a minha mulher e a minha sobrinha. A gente fez um city tour que passou na frente do cemitério. No dia seguinte, deixei as duas no hotel e voltei lá sozinho. É tipo cemitério da Europa, todo bem cuidado. Também fui sozinho, uns dias depois, no crematório de Olinda.

Tenho medo de morrer, mas nosso destino é esse, não é? Quando eu morrer, posso ir pro Santa Helena, onde tem uma sepultura da minha família, ou posso ficar por aqui. A prefeitura dá uma cova no barro pra cada coveiro que trabalha no Nossa Senhora Aparecida. Acho que prefiro ficar aqui, porque todo mundo já me conhece.

1º DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA

Ontem, depois do jantar, fiquei na frente de casa jogando dominó com os vizinhos. Moro na beira de um igarapé, no bairro Educandos, numa vila cheia de casas de palafita. A última vez que teve um grande alagamento na vila foi em 2012, mas eu ainda não morava lá. Depois, teve só uns alagamentos menores.

Na semana de trabalho, durmo lá pelas sete e meia da noite. Minha mulher fica vendo novela até mais tarde. Já me acostumei tanto com esse horário que, em semana de descanso, também durmo cedo e acordo cedo, tipo cinco da manhã. Aí vou pra casa da minha sogra e tomo café lá. Ela mora numa casa quase encostada na minha.

Hoje foi o primeiro dia dessa minha semana de folga. Fui no banco pagar minha moto. Pago com boleto: 416 reais por mês. Já quitei 12 das 48 parcelas. Pago também o rastreamento da moto, que custa 59 reais.

Desde sábado, minha geladeira está ruim. Não está gelando. Botei as coisas no freezer e pedi pro meu sobrinho vir consertar. Estou querendo fazer compra, mas dependo da geladeira. Faço compra para o mês inteiro. Alugo um carro particular pra caber tudo e vou dirigindo pro mercado. Minha mulher vai junto. Eu chamo ela de “Pai”, não sei por quê. Ela me chama de “Amor”.

8 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA

A geladeira queimou mesmo. Dei pro meu sobrinho naquele dia a estragada e comprei outra, uma Panasonic, de 1 mil e poucos reais. Vou pagar em três vezes. Minha mulher gostou. A gente foi na loja Tvlar, porque Manaus liberou a abertura do comércio no dia 1º. Por enquanto está tranquilo na cidade. Eu uso máscara e álcool em gel na rua, mas vi gente que não estava usando.

No sábado, fui no Rio Solimões com a minha mulher, meus cunhados e uns vizinhos. Alugamos quatro lanchas aqui perto de casa e seguimos pra comunidade do Lago Janauari. Tem gente que vai pra lá com caixa de som e assa peixe na beira do rio. A gente fez uma caldeirada de bodó. Só tirei a máscara pra comer e tomar banho no rio.
Acordei hoje com uma dor de cabeça horrível e não fui trabalhar. Amanhã, se Deus quiser, eu vou.

9 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA

Foi devagar hoje, fiz três enterros só. Um era acidente de carro, os outros dois eram arma de fogo. Em Manaus as mortes por Covid diminuíram. Agora, está mais no interior. São enterrados por lá mesmo.

O caminhão frigorífico foi embora. Nessa semana vão levar os tratores também. Eles ajudaram bastante porque a demanda era muito grande. Vou voltar pro manual, mas não vou sentir saudade das máquinas, não. Já estou acostumado a cavar o chão.

11 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA

Hoje é Dia de Corpus Christi. O cemitério enche mais, apesar de a prefeitura ter proibido as visitas já tem uns meses. Os feriados mais cheios são o Dia das Mães, o dos Pais e o de Finados. No Dia das Mães teve gente desavisada que veio para o cemitério, mas foi barrada no portão. Eu estava de folga, mas soube que teve muita reclamação.

Enterrei dois de Covid. Continuo sem medo de pegar a doença. O caixão já chega aqui lacrado, protegido num plástico, que a gente fura na hora de botar a corda pra arriar na cova. Quem deve correr mais risco é o pessoal da funerária, que tem que botar o defunto num saco, fechar com zíper e depois colocar dentro do caixão.

Ontem teve um caso que mexeu comigo. Enterrei uma senhora de idade, morta a facada pelo filho. Parece que ele estava preso e só saiu porque ela pagou a fiança. Aí o filho voltou pra casa e matou a mãe. No cemitério, estavam as irmãs e a filha da mulher, todas chorando. Fiquei um pouco emocionado. Isso é uma tragédia, né?

Difícil mesmo é enterro de defunto que não tem ninguém da família. Acontece muito quando é indigente. O corpo chega no rabecão do IML, em caixão bem simples, de compensado. Aí vai pra uma área só deles, onde é enterrado no barro. Não tem nem cruz por cima. O cemitério só manda colocar a cruz quando aparece alguém da família pra pagar pela cova. O defunto indigente fica enterrado lá quatro anos, que é o tempo de tudo virar barro. Quando chega um morto novo, a gente enterra por cima, sem nem tirar os ossos.

MARCOS ANTONIO DA SILVA SANTOS
Trabalha como coveiro num cemitério municipal de Manaus

 PIAUÍ - EDIÇÃO 166 | JULHO_2020


sexta-feira, 3 de julho de 2020

INTOLERÂNCIA

Prelúdio

Para o intolerante ou para quem se coloca acima da antítese tolerância-intolerância, julgando-a historicamente e não de modo prático-político, o tolerante seria freqüentemente tolerante não por boas razões, mas por más razões. Não seria tolerante porque estivesse seriamente empenhado em defender o direito de cada um a professar a própria verdade, no caso em que tenha uma, mas porque não dá a menor importância à verdade. Mas, ao lado das más razões, existem também boas razões. Expondo-as, gostaria de evitar a tentação de inverter a acusação e afirmar que não se pode ser intolerante sem ser fanático.  (Norberto Bobio, A era dos direitos, p.87)

A modesta pretensão aqui é analisar a intolerância através de três filmes: Intolerância (1916), Pagador de promessa (1962) e Deus é Mulher e Seu Nome é Petrunia (2019).

Aos filmes

Intolerância (Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages), 1916, D.W. Griffith


... Intolerância é um triunfo narrativo, uma produção espetacular que consegue eclipsar até mesmo obras monumentais que viriam décadas depois como Cleópatra e Ben-Hur em termos de escala, suntuosidade e até mesmo técnica. No entanto, o espectador moderno, mesmo o mais ávido e eclético apreciador de filmes, precisa ter paciência e tranquilidade para assistir as quase três horas de projeção (há outras versões, algumas até 20 minutos mais longas, mas em razão da velocidade do frame rate da fita em si, não pela adição de conteúdo – a versão objeto da presente crítica é a “Killiam Shows”, de 176 minutos), além de uma mente programada para ver muito mais um momento marcante e fundamental da História do Cinema do que um “filme comum”.

As quatro histórias contadas de forma entrecortada ao longo de toda a duração do filme são, em ordem cronológica:

– Ano 539 a.C. – Na Babilônia, um conflito religioso leva à guerra entre o Rei Nabonido (Carl Stockdale) e seu filho, o Príncipe Belsazar (Alfred Paget) e Ciro, o Grande, da Pérsia (George Siegmann), o que resulta na Queda da Babilônia e o fim de sua independência. A história, baseada em fatos reais, é vista sob o ponto de vista da Moça das Montanhas (Constance Talmadge), levada por seu irmão para o “mercado de noivas” na cidade e que acaba se apaixonando pelo príncipe e lutando em seu exército.

– Ano 27 a.C. – A história de Jesus Cristo, o Nazareno (Howard Gaye) – do primeiro milagre até sua crucificação – que ganha enfoque reduzido.

– Ano 1572 d.C. – Massacre da Noite de São Bartolomeu, na França, em que Caterina de Médici (Josephine Crowell)  fomenta os católicos a assassinar os protestantes huguenotes.

– Ano 1914 d.C. – O foco principal do filme e única história fictícia, ainda que baseada em questões sócio-políticas até hoje relevantes. Nela, a Doce Menina e o Rapaz enfrentam o preconceito e a hipocrisia puritana para sobreviver e criar seu filho, depois que uma greve e suas consequências obrigam suas respectivas famílias a se mudarem de cidade... (Ritter Fan)

Não existe outra conexão entre esses segmentos senão o fato de abordarem a intolerância (religiosa, política e social) ao longo da História.

Projetado na URSS em 1920, Intolerância exerceu ali grande influência sobre os jovens cineastas soviéticos Eisenstein, Pudoviskin, Kulechow, mas sobretudo por suas primeiras sequencias, que mostram uma greve e sua selvagem repressão. (George Sadoul)

Filme no youtube

Comentários de André Sturm


O Pagador de Promessas (1962),  Anselmo Duarte


Anselmo Duarte fez história como primeiro – e único, em 2020 – brasileiro a receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Foi em 1962, há quasse 60 anos... A Novaes Teixeira, ele disse que queria contar a história de um Cristo terceiro-mundista. Não a maior história de todos os tempos, mas algo muito mais simples e humano. Cristo como um carteiro (mensageiro de Deus?), filho do carpinteiro e da lavadeira. E, num rompante, para espanto de Novaes, chegou a dizer que voltaria a Cannes com seu Cristo e levaria a Palma. Por mais que Anselmo possa ter aumentado e até inventado a história, prevaleceu o conceito fordiano em O Homem Que Matou o Facínora – 'Print the legend'.

Ele, realmente, voltou a Cannes em 1962 e ganhou a Palma de Ouro com O Pagador de Promessas. Não era bem a história de Cristo, mas era a história da crucificação de um brasileiro comum pela intolerância, e não apenas religiosa... Trabalhou durante seis meses e aí começou a desanimar. A coisa não andava. Seu Cristo estava emperrado. E então um jovem diretor de teatro, de muito prestígio na época, Flávio Rangel, convidou-o para ver sua nova montagem.

Era de uma peça de Dias Gomes. Anselmo foi, e no palco, em Zé do Burro, encontrou o seu Cristo. Indescritível a sua emoção. Juntando o que não tinha, comprou os direitos, embora não tenha sido fácil convencer o autor. Dias Gomes era um homem engajado, de esquerda. Desconfiava daquele galã. Ao comprar os direitos, Anselmo armou-se de uma cláusula, que lhe assegurava o direito de fazer mudanças no original. Dias Gomes assegurou-se de outra cláusula. Flávio Rangel teria de ser diretor assistente...

Na história, o nordestino Zé faz uma promessa para salvar seu burro, que está morrendo. Promete carregar uma cruz até a igreja, em Salvador. Mas ele fez sua promessa num terreiro de candomblé, e ao chegar o padre o impede de entrar na igreja. Cria-se um caso. A imprensa explora o episódio. A mulher de Zé, Rosa, é atraída pelo gigolô Bonitão e isso provoca a ira da prostituta Marly, que acusa a 'santinha' de estar querendo roubar seu homem. Engalfinham-se numa briga de arranhões e puxões de cabelo. Cria-se um 'carnival' semelhante ao que Billy Wilder armou em A Montanha dos Sete Abutres, mais de dez anos antes. Zé do Burro, amarrado à própria cruz, só entra morto na igreja, nos braços do povo...

Chegou o grande dia em Cannes. A seleção daquele ano era pródiga em grandes nomes. Michelangelo Antonioni (O Eclipse), Luís Buñuel (O Anjo Exterminador), Robert Bresson (O Processo de Joana D'Arc), Pietro Germi (Divórcio à Italiana), Sidney Lumet (Longa Jornada Noite Adentro), Otto Preminger (Tempestade sobre Washington), Agnès Varda (Cléo das 5 às 7), etc. Um filme da Grécia, Electra, a Vingadora, de Michael Cacoyannis, foi aplaudido sem parar, durante dez minutos, algo nunca visto na história do festival.

Mas veio O Pagador, e algo se passou. (Luiz Carlos Merten)


Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia (Gospod postoi, imeto i' e Petrunija), 2019,  Teona Strugar Mitevska


19 de janeiro, um ritual único é realizado na Macedônia. O pároco mais importante de cada cidade lança uma cruz no rio, e centenas de homens mergulham para alcançá-la, sob a promessa de que assim terão felicidade e prosperidade durante o ano. Na pequena vilda de Stip, a cerimônia é interrompida por um acontecimento inédito. Petrunya, mulher de 31 anos que está solteira e desempregada, mergulha para pegar a cruz e se torna a vencedora. Mas o povo de sua cidade não permitirá que ela seja reconhecida como tal.

"Deus É Mulher e seu Nome É Petúnia" O caça à bruxa

“Mãe, olha para mim. Eu saí da sua vagina. Sou tão feia assim?”. Petrunya fica revoltada quando a mãe demonstra desprezo pelo corpo nu da filha. Aos 32 anos de idade, esta historiadora representa um símbolo de fracasso social aos olhos de todos: não se casou, está desempregada, é considerada feia (“um monstro", ainda de acordo com a mãe), não manifesta apreço pela religião e defende as revoluções comunistas do último século. Ela se sente tão excluída que, um dia, joga-se no rio no momento exato em que ocorre um ritual religioso exclusivo para homens. Diante da tarefa de pegar uma cruz lançada por um pároco, quem alcança o objeto sagrado é Petrunya.

A diretora Teona Strugar Mitevska tem plena consciência de estar trabalhando com pequenos símbolos, dentro de uma fábula exemplar. A cerimônia religiosa, no fundo, importa muito pouco, porém serve a representar o dia em que uma mulher completamente marginalizada decide se confrontar ao patriarcado. Em questão de poucas horas, uma mulher solitária é confrontada à brutalidade física e psicológica de instituições poderosas e machistas como a polícia, a Igreja ortodoxa e a população de jovens homens que se acreditavam merecedores da cruz. A narrativa acompanha o calvário legal e moral da protagonista diante da ordem vigente.

Por um lado, é delicioso ver a desbocada Petrunya (Zorica Nusheva) confrontar padres e policiais à sua própria falta de lógica no pretenso respeito à laicidade. As farpas do diálogo lançam um retrato da Macedônia que não deve ser tão diferente de qualquer outro país cujo poder é majoritariamente reservado aos homens – inclusive o Brasil. Por outro lado, quanto mais a história se desenvolve, mais ela coloca na boca de Petrunya tudo o que pretendia dizer sobre a importância da emancipação feminina, a igualdade de gêneros e a separação entre Igreja e Estado.

Em outras palavras, esta mensagem é dita pelos personagens, e não representada em imagens. Esta constitui uma saída fácil para canalizar seu discurso, enquanto as imagens supostamente amadoras do operador de câmera local respondem por uma quantidade excessiva de cenas. Enquanto discute política, Teona Strugar Mitevska não constrói uma forma politizada em si, apenas uma sucessão de close-ups claustrofóbicos em Petrunya, um tanto mal iluminados, em movimentos de câmera mal ajustados. É compreensível que a atenção se volte a ela, mas por que espremê-la nos enquadramentos, mesmo quando está sozinha dentro de uma sala da delegacia?...  (Bruno Carmelo)


Epílogo

Intolerância está vinculada agressão, coação, discriminação, fanatismo, opressão, perseguição, preconceito, repressão e violência.
Convivemos hoje (e no passado também) num mundo de afetos e solidariedade, mas infelizmente juntos com a intolerância. Sentimos a intolerância de perto no Brasil de 2020.

Os três filmes acima resenhados trazem em comum a intolerância ao longo dos tempos. No épico de Griffith, de 1916, já estão os elementos de não tolerância ao longo de 2500 anos de história.
Em O pagador de promessas a intransigência religiosa. E no filme (explicitamente feminista) Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia retira das cinzas o medieval caça às bruxas.

Conviver com as diferenças: você com certeza sabe que essa não é uma tarefa fácil. Somos quase 8 bilhões de indivíduos com opiniões, crenças, valores e contextos diferentes. E é com frequência que escutamos ou lemos sobre relatos de desrespeito e intolerância em razão de opiniões políticas, orientação sexual, religião, nacionalidade, raça, entre outros. Muitas vezes, as manifestações de intolerância resultam em violências. Como exemplo podemos citar uma das maiores tragédias da humanidade: o Holocausto – durante o Nazismo na Alemanha. Naquela ocasião, cerca de 6 milhões de judeus foram mortos. Motivada pela prevenção de atrocidades como as que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial, em 1948, as Nações Unidas aprovaram a Declaração Universal dos Direito Humanos (DUDH). Esse documento define os direitos fundamentais dos seres humanos, sem distinção de cor, sexo, língua, raça, opinião, nacionalidade ou classe social.  (Talita de Carvalho )




segunda-feira, 29 de junho de 2020

Covid nas aldeias brasileiras

NAS ALDEIAS, MEMÓRIAS QUE A COVID LEVA EMBORA

Estudo mostra que, entre indígenas, contaminação é 84% acima da média nacional; principais vítimas são idosos, guardiões da história de seus povos

FABIO PONTES, Piaui, 26/06/2020




Intervenção de Carvall sobre foto de Sérgio Vale/Governo do Acre/2015


Ainda era março quando os puyanawas passaram a corrente na porteira da estrada de terra batida que dá acesso às suas aldeias, no município de Mâncio Lima, extremo Oeste do Acre. O ato, no dia 25 de março, foi registrado em vídeo e espalhado nas redes sociais para que todos soubessem: a partir daquele momento estava proibida a entrada de não moradores no território puyanawa. Foi a medida encontrada pelas lideranças para proteger a comunidade contra a pandemia de Covid-19,  àquela altura muito longe da realidade dos povos indígenas da Amazônia. Muitos, talvez, nem acreditassem que o vírus surgido do outro lado do mundo pudesse chegar a locais tão distantes e remotos quanto suas aldeias.

Três meses depois, o coronavírus não só chegou às terras indígenas do Brasil como representa séria ameaça à sobrevivência dessas populações, já bastante fragilizadas nos últimos anos – em especial após a eleição de Jair Bolsonaro – com discursos e práticas que colocam em risco a segurança de seus territórios. Os Puyanawa veem suas terras ameaçadas pelo projeto de extensão da rodovia BR-364 entre o Brasil e o Peru, defendida por políticos locais e cujo traçado corta a Terra Indígena Poyanawa. (O nome da terra é escrito com O por um erro de registro quando de sua criação, em 2001.)

Como mata principalmente idosos, a Covid-19 acaba levando consigo personagens históricos das aldeias, os mais velhos, que servem de memória para seus povos. Em culturas sem tradição escrita, são eles os guardiões da história. Mário Cordeiro de Lima, o Mário Puyanawa, de 77 anos, era um deles, patriarca de um povo que por muito pouco não foi extinto após o contato com o homem branco a partir do início do século passado, quando imensas áreas da Floresta Amazônica foram transformadas em seringais para a exploração do látex. Mário Puyanawa sobreviveu àqueles tempos de doenças trazidas pelos brancos e escravização dos índios para trabalhar nos seringais. Na velhice, não resistiu à Covid, depois de lutar contra a doença por quinze dias. Foi para a UTI e de lá recebeu alta para a enfermaria. O quadro se agravou, e ele voltou para o tratamento intensivo. Acabou morrendo em 20 de junho no Hospital do Juruá, em Cruzeiro do Sul.

Estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) aponta que, entre as comunidades indígenas da Amazônia, a taxa de contaminação pelo coronavírus por 100 mil habitantes é 84% acima da média nacional; a mortalidade é 150%. A taxa de letalidade, calculada levando em conta o número de infectados pelo de óbitos, é de 6,8% entre os indígenas amazônidas; no Brasil ela é de 5%, e de 4,5% no Norte.

Os dados analisados são referentes aos casos registrados entre 19 de março e 14 de junho. Para os povos indígenas, outro problema é a contabilidade nos registros oficiais de testados positivos e de óbitos. Se entre a população em geral há uma elevada subnotificação, entre os indígenas ela é ainda maior. Os dados oficiais do governo brasileiro são registrados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde, e consideram apenas casos detectados dentro das aldeias.  Desde 2004 o atendimento médico nas aldeias é de responsabilidade da Sesai, que administra os 34 distritos sanitários especiais indígenas, os Dseis, 25 deles na Amazônia Legal.

Indígenas que moram nas cidades ficam de fora das estatísticas de saúde da Sesai. Mas pelo menos 20% dos índios da Amazônia moram em centros urbanos, afirma o estudo do Ipam/Coiab com base nos dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que àquela época apontava uma população indígena de 817 mil pessoas no país; destes, 315 mil moravam nas cidades.

Na Amazônia, o estudo do Ipam em parceria com a Coiab registrou, de 19 de março a 14 de junho, 3.662 indígenas infectados com Covid-19 e 249 mortes. Os dados da Sesai notificam 2.219 casos e 86 mortes. “Para uma avaliação do real nível de contaminação por Covid-19 entre os indígenas da Amazônia, nós utilizamos os dados disponibilizados pela Sesai e Coiab, excluindo-se a possibilidade de dupla contagem”, diz o estudo do Ipam.  “Para garantir que não haja dupla contagem em relação aos casos reportados pela Sesai, as informações divulgadas pela Coiab passam por uma checagem interna que compara os dados dos boletins emitidos pela Sesai com as informações repassadas pelas lideranças.”  Os dados da Coiab são levantados por lideranças em pontos focais espalhados por toda a região, que apuram as informações junto às aldeias e hospitais locais.

“Este estudo mostra o impacto na Amazônia e também serve de instrumento para direcionar medidas eficientes para o indígena, independentemente se está na cidade ou no território. Indígena é indígena em qualquer lugar. Esta subnotificação atrapalha nossas ações. O governo usa maquiagem, não fala a realidade pela qual o Brasil está passando”, diz Nara Baré, liderança de Manaus e coordenadora-geral da Coiab.

Durante a epidemia de Covid-19, o Amazonas chamou a atenção do Brasil pelo colapso de seu sistema de saúde superlotado com pessoas infectadas. Entre os povos indígenas, o mais atingido foi o Kokama, na região do Alto Solimões, na tríplice fronteira com o Peru e a Colômbia. Como a maior parte dos infectados e mortos morava em Tabatinga, os casos não eram registrados pelo Dsei Alto Solimões. “Apesar de a gente ter tido no Amazonas, aqui em Manaus, a primeira ala exclusiva para indígenas num hospital, isso se deu apenas depois de termos perdido muitas vidas e após a reivindicação de três mulheres na visita do anterior ministro da Saúde [Nelson Teich]. Não era preciso perder vidas para ter direito ao que é nosso”, afirmou Nara Baré à piauí. Levantamento feito pela Transparência Brasil mostrou que a Fundação Nacional do Índio (Funai) aplicou menos da metade (39%) dos 13 milhões de reais que deveriam ser usados nas ações de proteção aos povos indígenas contra os efeitos da pandemia do novo coronavírus.

Ninawa Huni Kuin nasceu na aldeia Mãe Haduá Biri, na Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, no município de Feijó, no Acre. Hoje mora em Rio Branco, a capital, e está se recuperando da Covid-19. Foi infectado quando se recuperava de uma cirurgia. “Não tive boa experiência com a Covid-19. Debilitou bastante. São reações bem ruins no corpo, tem momento em que a gente pensa em desesperar. Graças a Deus em primeiro lugar, e depois às nossas medicinas, tomei muito chá caseiro, banho com medicina [natural] e também fiz o tratamento ambulatorial, e melhorei”, conta Ninawa.

Os Huni Kuin – também chamados de Kaxinawá – são 60% dos cerca de 23 mil indígenas do Acre. Muitos trocaram as aldeias pelas cidades para terminar os estudos ou trabalhar. Como foi infectado na capital, o teste positivo de Ninawa não foi para os registros da Sesai, mas da Secretaria Estadual de Saúde, que não faz distinção entre quem é ou não indígena em seu boletim epidemiológico. E assim ocorre em todos os nove estados da Amazônia Legal.  

A Coiab criou uma espécie de força-tarefa composta por lideranças e profissionais de saúde indígena para fazer seu próprio levantamento. Em todo o país, os dados da Sesai apontavam (até o dia 25 de junho) 5.093 casos confirmados de Covid-19 entre indígenas aldeados, com 129 mortes. O balanço da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) tem outro resultado: 7.208 infectados e 332 óbitos, com 110 diferentes etnias afetadas.

Amâncio Ikô Munduruku, de 59 anos, era professor na aldeia Praia do Mangue, na reserva indígena de mesmo nome, no município de Itaituba, Sudoeste do Pará.  A aldeia está localizada bem próxima à sede urbana do município, a dez minutos de viagem de barco pelo Rio Tapajós ou pela estrada.  Até então vista como vantagem, por causa do acesso aos serviços da cidade, a vizinhança com o centro urbano agora se revela perigosa por causa do coronavírus. Na região Norte, o Pará é o estado com o maior número de casos e mortes pela Covid-19.

Após sentir os primeiros sintomas da doença, Amâncio procurou a unidade de saúde referência em Itaituba. O teste deu positivo, e ele iniciou o tratamento. Estava no grupo de risco por ter pneumonia. À medida que os dias passavam, seu quadro clínico se agravava, necessitando de tratamento intensivo. Assim como a maioria das cidades do interior da Amazônia, Itaituba não conta com hospital de média e alta complexidade. A solução foi transferir o professor para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) em um hospital de Belém, onde ele acabou morrendo. Segundo Karo Munduruku, liderança da aldeia Praia do Mangue, doze pessoas de seu povo já morreram vítimas da Covid-19, a maioria idosos. Entre eles, Arcelino Dace Munduruku, nascido em 1942 e um dos personagens mais importantes de seu povo, uma espécie de memória viva do povo Munduruku. “A gente nunca imaginou que ia passar por isso. Quando alguns estudiosos, algumas lideranças nossas, diziam que com isso poderia ocorrer, até um genocídio em vários povos indígenas, eu nunca pensei que pudesse acontecer, e acontecer justamente na aldeia onde a gente mora. Algo que começou lá do outro lado do mundo chegou à nossa aldeia. O nosso povo está assustado”, diz Karo Munduruku. De acordo com ele, até dentro das aldeias as pessoas fazem uso de máscaras e seguem as medidas de distanciamento social. A principal preocupação é proteger os mais idosos.

Os Munduruku também são alvo de ações que favorecem o contágio do coronavírus nas aldeias: a invasão das terras indígenas por garimpeiros, madeireiros e grileiros de terras públicas. De acordo com o estudo do Ipam/Coiab, a invasão das terras indígenas é um dos principais vetores externos para a chegada do coronavírus nestas comunidades. O relatório afirma que as duas terras indígenas mais ameaçadas pelo garimpo são a Yanomami e a Raposa Serra do Sol, que abrangem áreas do norte do Amazonas e Roraima. No levantamento da Coiab, os Dseis responsáveis pelos dois territórios (Yanomami e Leste de Roraima) estão entre os que apresentam a maior quantidade de infectados e mortes. 

“Os achados em relação à exposição das populações indígenas a veículos de contaminação externa por meio dos indicadores de desmatamento, presença de garimpo e grilagem, além de registros de Cadastro Ambiental Rural (CAR) dentro de TIs, indicam que todos os DSEIs amazônicos sofrem algum grau de ameaça”, conclui a pesquisa. Entre os dez Dseis com mais casos da Covid-19 está o do Alto Rio Purus, responsável pela saúde indígena em aldeias do Leste do Acre, uma parte do Sul do Amazonas e o Noroeste de Rondônia. Entre os povos atendidos estão os Huni Kuin, os Madijá (Kulina) e os Jaminawa, todos moradores da Terra Indígena Alto Rio Purus, localizada já na fronteira com o Peru. São mais de 4 mil pessoas espalhadas por 46 aldeias.

Destas três etnias, a mais vulnerável é a Madijá, e um dos fatores de risco para essa população é a baixa imunidade causada por uma dieta alimentar pobre em nutrientes. Entre os madijás foram registradas duas mortes de bebês, uma por Covid e outra desnutrição agravada por eventual contaminação pelo coronavírus. A primeira criança morreu em um hospital de Rio Branco. A mãe foi colocada em quarentena na Casa de Saúde Indígena (Casai) antes de regressar para a aldeia. Os Madijá mantêm pouco contato com os não indígenas, o que reduz a capacidade de seus organismos produzirem anticorpos contra a “civilização”. Como a maior parte deles também não fala português, tem mais dificuldades para se informar sobre a pandemia.

O Acre registra mais de 12 mil infectados pelo coronavírus e 335 mortes. O estado tem uma população indígena estimada em 23 mil pessoas. São quinze diferentes povos, além dos isolados e não identificados e um de recente contato. Dois distritos sanitários são responsáveis pela assistência médica: o Dsei Alto Rio Purus e o Dsei Alto Rio Juruá, que concentra o maior número de indígenas, incluindo os de recente contato.    

Em isolamento voluntário desde março, os Ashaninka são um dos poucos povos do Acre que ainda não têm registro de Covid-19. O distanciamento vem sendo seguido à risca; a ordem das lideranças é para ninguém sair e ninguém entrar. Como eles contam com uma produção de alimentos em sistema agroflorestal, além de fartura em caça e pesca, não há a necessidade de ir até a cidade comprar alimentos. Os Ashaninka moram na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, município isolado do Acre de 18.867 habitantes, acessível só por via aérea ou fluvial. Esse isolamento geográfico não impediu a cidade –  administrada por um prefeito de origem Ashaninka – de ver o coronavírus chegar através dos portos. Hoje a cidade tem 156 casos confirmados da doença.

Isso levou os Ashaninka a reforçarem o autoisolamento nas aldeias do Rio Amônia.  “Fechamos nosso território para não circular gente, nem saindo nem entrando, para que essa doença não chegue à nossa comunidade. Esse é o melhor caminho, é o isolamento. Estamos tentando levar uma vida normal e trabalhando para proteger o território”, afirmou Francisco Piyãko, liderança dos Ashaninka. “A gente poderia estar enfrentando só o coronavírus, e que todos estivessem unidos em torno dessa questão, mas a gente precisa lidar com as outras ameaças”, diz ele.

Também em isolamento há mais de cem dias, os Yawanawa construíram uma cerca no Rio Gregório para impedir o vai e vém de embarcações. A medida foi adotada pelas lideranças das duas últimas aldeias subindo o rio: a Sagrada e a Nova Esperança. Aquelas que não adotaram esse lockdown da floresta já tiveram casos positivos da Covid-19. A Terra Indígena do Rio Gregório fica localizada no município de Tarauacá. “A gente tem tomado todos os cuidados, seguido todas as orientações. Conversado com nossos fornecedores [de alimentos] para entregar tudo higienizado. Vai só uma pessoa buscar e quando chega higieniza de novo. Estou aqui há mais de cem dias sem sair da aldeia”, disse o cacique da aldeia Sagrada Biraci Yawanawa, o Bira, em entrevista à piauí por mensagem de voz do WhatsApp das cabeceiras do Rio Gregório.

Procurada, a Secretaria Especial de Saúde Indígena informou que não há subnotificação de contaminados e de mortes de indígenas por Covid-19 no Brasil, pelo fato de os casos ocorridos entre aqueles que moram nas cidades serem registrados pelas Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde. Segundo a Sesai, mesmo antes de a Organização Mundial da Saúde declarar situação de pandemia, seus técnicos elaboraram documentos para orientar povos indígenas, gestores e colaboradores sobre medidas de prevenção e de atendimento. O órgão do Ministério da Saúde informou que cada um dos 34 distritos sanitários tem seu plano de contingência, levando em consideração as “diferentes situações de enfrentamento da Covid-19, respeitando as características de cada povo e suas necessidades específicas”. “Uma das principais orientações das Equipes de Saúde Indígena é justamente para que os indígenas permaneçam em suas aldeias e não recebam visitas externas”, diz nota enviada à reportagem, que também destaca a compra de equipamentos de proteção individual para os profissionais dos Dseis.

A piauí também procurou a Funai para falar sobre quais medidas adota para garantir a proteção das terras indígenas, coibindo a invasão por garimpeiros e madeireiros. O órgão disse que reforçou as ações de monitoramento e vigilância territorial, “por meio de suas unidades descentralizadas, e em parceria junto a órgãos governamentais, ambientais e de segurança pública competentes”.  Com isso, completa, é possível articular operações de fiscalização e seguranças dos territórios tradicionais. “A Funai realiza operações em parceria com outros órgãos de segurança e fiscalização ambiental, como os Batalhões de Polícia Militar Ambiental, IBAMA e ICMBio, com a finalidade de identificar caçadores, pescadores e outros exploradores. Outra ação realizada é a fixação de placas indicativas do perímetro das Terras Indígenas em pontos estratégicos e necessários.” Outra medida foi suspender todas as autorizações para a entrada de não indígenas em terras indígenas. 

Quanto à aplicação de recursos para reduzir os impactos da Covid-19 sobre a população indígena, a Funai diz já investiu 22,7 milhões de reais em medidas de combate ao novo coronavírus entre as comunidades de todo o país.  Afirmou que trabalha pela permanência dos indígenas dentro das aldeias para evitar o contágio e que já distribuiu 44 mil cestas básicas e 30 mil kits de higiene, e mais 126 mil cestas ainda serão entregues.

FABIO PONTES (siga @fabiospontes no Twitter)
Jornalista acriano, cobre questões amazônicas. Colabora com vários veículos brasileiros.

Filmes a levar na mala

Ruy Castro , 20/06/2020

Se alguém perguntasse um dia ao pesquisador Saulo Pereira de Mello que filmes ele levaria para uma ilha deserta, a resposta seria: “Só um. ‘Limite’ (1931), de Mario Peixoto”. E mostraria sob a cama as 12 latas da única cópia do filme, que guardava com sua vida --- se o nitrato pegasse fogo, os dois iriam embora. Saulo foi levado em abril pela Covid, aos 87 anos, mas não sem realizar seu sonho de restaurar o filme, que, por causa dele, está hoje em DVD. Eu não levaria “Limite”, mas, graças aos DVDs, não me faltaria escolha. E sem repetir diretor.

Comigo iriam “O Gabinete do Dr. Caligari” (1919), de Robert Wiene. “A Última Gargalhada” (1924), de F.W. Murnau. “A Caixa de Pandora” (1929), de G.W. Pabst. “O Anjo Azul” (1930), de Josef Von Sternberg. “A Nós, a Liberdade” (1931), de René Clair. “A Grande Ilusão” (1937), de Jean Renoir. “O Demônio da Algéria” (1937), de Julien Duvivier. “Olimpíadas” (1938), de Leni Riefenstahl.

O Boulevard do Crime” (1945), de Marcel Carné. “Roma, Cidade Aberta” (1945), de Roberto Rossellini. “A Bela e a Fera” (1947), de Jean Cocteau. “O Terceiro Homem” (1949), de Carol Reed. “Os Esquecidos” (1950), de Buñuel. “Rashomon” (1950), de Kurosawa. “Milagre em Milão” (1950), de Vittorio de Sica. "Belíssima" (1951), de Luchino Visconti. “Mônica e o Desejo” (1952), de Bergman. “Madame de...” (1953), de Max Ophüls. “O Salário do Medo” (1953), de H-G. Clouzot. “Grisbi, Ouro Maldito” (1953), de Jacques Becker. “Rififi” (1955), de Jules Dassin. “E Deus Criou a Mulher” (1956), de Roger Vadim. “Meu Tio” (1958), de Jacques Tati.

A Tortura do Medo” (1960), de Michael Powell. “Os 1.000 Olhos do Dr. Mabuse” (1960), de Fritz Lang. “A Doce Vida” (1960), de Fellini. “Acossado” (1959), de Godard. “Divórcio à Italiana” (1962), de Pietro Germi. “Aquele Que Sabe Viver” (1962), de Dino Risi. “Os Guarda-Chuvas do Amor” (1963), de Jacques Démy.

Epa, fim do espaço. E faltou Hollywood!

Hollywood na ilha 

Ruy Castro  27/06/2020

Há dias, sugeri alguns filmes a se levar para uma ilha deserta e me esqueci dos americanos! Imagine ficar sem “A Marca do Zorro” (1920), de Fred Niblo. “O Homem-Mosca” (1923), de Harold Lloyd. “O Ladrão de Bagdá” (1924), de Raoul Walsh. “Sete Oportunidades” (1925), de Buster Keaton. “O Monstro do Circo” (1927), de Tod Browning.

Luzes da Cidade” (1931), de Charles Chaplin. “Inimigo Público” (1931), de William Wellman. “Uma Hora Contigo” (1932), de Ernst Lubitsch. “A Múmia” (1932), de Karl Freund. “Cavadoras de Ouro” (1933), de Mervin LeRoy. “King Kong” (1933), de Ernest B. Shoedsack e Meriam C. Cooper. “Primavera” (1937), de Robert Z. Leonard. “As Mulheres” (1939), de George Cukor. “A Mulher Faz o Homem” (1939), de Frank Capra.

Jejum de Amor” (1940), de Howard Hawks. “Contrastes Humanos” (1942), de Preston Sturges. “Entre a Loura e a Morena” (1943), de Busby Berkeley. “Laura” (1944), de Otto Preminger. “A Mundana” (1948), de Billy Wilder. “A Malvada” (1950), de Joseph L. Mankiewicz. “Scaramouche” (1952), de George Sidney. “Assim Estava Escrito” (1952), de Vincente Minnelli. “Os Brutos Também Amam” (1953), de George Stevens. “A Princesa e o Plebeu” (1953), de William Wyler. “Depois do Vendaval” (1953), de John Ford. “Ama-me ou Esquece-me” (1954), de Charles Vidor. “Conspiração de Silêncio” (1955), de John Sturges.

O Mensageiro da Morte” (1955), de Charles Laughton. “Planeta Proibido” (1956), de Fred M. Wilcox. “O Grande Golpe” (1956), de Stanley Kubrick. “A Marca da Maldade” (1958), de Orson Welles. “Meias de Seda” (1958), de Rouben Mamoulian. “Quero Viver!” (1958), de Robert Wise. “Clamor do Sexo” (1961), de Elia Kazan. “Sob o Domínio do Mal” (1962), de John Frankenheimer. “Os Pássaros” (1963), de Hitchcock. E uns mil mais.

E “Cidadão Kane”, “Casablanca”, “Cantando na Chuva”, “Rastros de Ódio”, “Um Corpo que Cai”?

Estes iriam no coração.









sábado, 27 de junho de 2020

O debate selvagem: ensino presencial ou EaD

A discussão contemporânea: ensino presencial versus ensino a distância.

O Prof. Dermeval Saviani esteve numa live promovida pela Adufes Ssind em 29/05/2020 e discorreu sobre ensino presencial e ensino a distância (no interval de 28 a 50 minutos). Na sua brilhante explanação citou "Victor de l'Aveyron", o menino selvagem, de Jean Itard.

Do ponto de vista pedagógico Saviani explica a passagem do selvagem afeito às coisas materiais para, com a educação, às coisas imateriais. Mais tarde ele associa a dictomia entre o ensino a distância (coisas materiais) e o ensino presencial (coisas imateriais).

Não li o trabalho de Jean Itard, mas revi o filme "L'enfant sauvage", 1970, de François Truffaut. Sinopse do filme: Cantão de São Sernin, França, 1798. Três caçadores acham uma criança, com 11 ou 12 anos, que nunca teve contato com a civilização. Ele é apelidado de Selvagem de Aveyron, pois se alimenta de grãos e raízes, não anda como um bípede nem fala, lê ou escreve. O professor Jean Itard se interessa pelo menino, que é levado a Paris para determinar seu grau de inteligência e ver como se comporta. O estudioso começa a educá-lo. Todos pensam que irá fracassar, mas com amor e paciência aos poucos obtém resultados.

Segundo Yuri Correa Truffaut se espelha em Victor (o menino selvagem).  "Um jovem rejeitado que se torna rebelde quando obrigado a seguir padrões pré-estabelecidos? É fácil substituir Victor por François e Itard por André Bazin – pensador que o adotou na carreira e literalmente em certo momento. Truffaut interpretando a figura paterna é ainda mais curioso, uma vez que nessa posição assume as expectativas que tinha com a própria paternidade. Sem dúvidas, nível bastante pessoal."

A abordagem didático pedagógica do professor Itard é comportamentalista e consegue alguns resultados. Mas também o que fazer? Em 1798 ainda não existiam Paulo Freire, Vygotsky e Piaget. Em tempo: ainda hoje, 2020, no Brasil, existem muitos docentes adeptos e adeptas do comportamentalismo ou behaviorismo nos Ensino Básico e Superior.

L'enfant sauvage tem aspectos comuns com o filme seminal O milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker), 1962, de Arthur Penn. A incansável tarefa de Anne Sullivan (Anne Bancroft), uma professora, ao tentar fazer com que Helen Keller (Patty Duke), uma garota surdo - cega, se adapte e entenda (pelo menos em parte) as coisas que a cercam. Para isto entra em confronto com os pais da menina, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram, sem nunca terem lhe ensinado algo nem lhe tratado como qualquer criança.

Para Dermeval Saviani um vídeo, um livro ou um documentário complementam a aprendizagem, mas sozinhos não são suficientes ao processo educacional de formação.

A transposição de coisas materiais para coisas imateriais é realizada através de vínculos presenciais. E os vínculos não são apenas entre educador e educando, como diria Paulo Freire, são vínculos também entre estudantes.

O que seria de Victor e Helen Keller sem estes vínculos?