domingo, 10 de maio de 2026

O abismo entre o desempenho macroeconômico e a popularidade do governo Lula 3

Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade?

Governo tem resultados sólidos, mas não consegue repetir a experiência subjetiva de mobilidade social dos anos 2000. Lulismo enfrenta o desafio de transformar a sua fase madura em novo ciclo de expectativas positivas e confiança no futuro

Laura Carvalho & Guilherme Klein, fsp, 09.05.2026

Laura Carvalho: Professora da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP e diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundations. Autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico"

Guilherme Klein: Professor do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coordenador de pesquisa macroeconômica do Made (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP)

Manifestação pelo fim da escala 6x1 na praça Roosevelt, em São Paulo, no Dia do Trabalho - Eduardo Knapp - 1º.mai.26 / Folhapress

[RESUMO] O abismo entre o desempenho macroeconômico do terceiro governo Lula e a percepção da situação econômica do país, sustentam os autores, não se resume à inflação e ao endividamento das famílias. Outros fatores, como a comparação dos eleitores com o milagrinho dos dois primeiros mandatos do presidente e um novo padrão de aspiração de consumo, globalizado e moldado por redes sociais, devem ser incorporados à análise.

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O terceiro mandato de Lula (PT) acumula um conjunto notável de conquistas. O desemprego caiu para os menores patamares da série histórica. O PIB cresceu 2,3% em 2025, 3,4% em 2024 e 3,2% em 2023, superando as projeções do mercado e a média do G20. Milhões de brasileiros saíram da extrema pobreza. Ainda assim, 42% dos entrevistados na pesquisa Ipsos-Ipec de março afirmaram que a situação econômica do país estava pior que seis meses antes, enquanto apenas 27% disseram que havia melhorado.

O que explica essa aparente desconexão entre o desempenho macroeconômico e a percepção dos brasileiros sobre a economia? Duas hipóteses têm circulado no debate público, e vale começar por elas antes de propor outras explicações.

A primeira é a inflação. Aqui, o Brasil não é uma exceção: é mais um caso de um fenômeno global. O aumento de preços gerado pela pandemia e pela Guerra da Ucrânia derrubou governos em todo o mundo.

O período 2022-2024 foi um cemitério de incumbentes: nos Estados Unidos, na França, no Japão e no Reino Unido, quem estava no poder pagou a conta de uma inflação que não criou, mas que os eleitores cobraram. A vitória de Donald Trump em 2024 é o exemplo mais gritante. A economia americana crescia e o desemprego estava baixo, mas o preço das compras do supermercado pesou mais na memória do eleitor que qualquer estatística de crescimento. O resultado foi uma derrota eleitoral que desconcertou economistas e analistas.

O padrão se repetiu em outros países: a percepção de piora sobreviveu à melhora dos números. Essa constatação abriu uma agenda política organizada em torno da acessibilidade ("affordability") com propostas que vão da regulação de preços à expansão de serviços públicos gratuitos. A vitória de Zohran Mamdani na eleição para a Prefeitura de Nova York em 2025 é uma expressão disso: o candidato socialista democrático fez da acessibilidade — ônibus gratuitos, congelamento de aluguéis, supermercados municipais — o centro da sua campanha e venceu com folga.

A segunda hipótese é mais específica ao Brasil e coloca o endividamento das famílias e o papel crescente das bets no centro do problema.

"Parcelados", livro recém-publicado de Kauê Lopes dos Santos, documenta com precisão como um dos créditos mais caros do mundo transformou o cotidiano das famílias brasileiras de renda média e baixa em uma corrida permanente contra os juros. Como se não bastassem os juros altos, as apostas online também têm corroído uma parcela significativa dos rendimentos das famílias mais pobres.

Este ensaio não descarta essas duas explicações, mas procura oferecer elementos adicionais. Para entender por que o atual governo não tem conseguido converter os seus ótimos resultados em aumento da popularidade, é preciso revisitar o modelo de crescimento que tornou os primeiros mandatos de Lula (2003-2010) em um momento marcante na história recente do país e compreender por que o governo atual, embora produzindo resultados sólidos em termos absolutos, opera em um contexto social, cultural e político radicalmente diferente.

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Esta é a tese deste ensaio: o governo Lula 3 entrega uma macroeconomia de resultados respeitáveis, mas não a experiência subjetiva de mobilidade social que transformou o Brasil dos anos 2000.

Sugerimos cinco hipóteses explicativas para esse abismo entre o desempenho e a percepção: (1) a comparação implícita com os primeiros governos Lula; (2) o nível ainda deprimido da renda após uma década perdida; (3) uma inflação que cedeu, mas em um patamar de preços ainda muito acima do que o consumidor guarda na memória; (4) a transformação cultural produzida pelas redes sociais, que criou padrões elevados de aspiração de consumo; (5) a frustração de uma geração escolarizada que descobriu que o diploma não garante ascensão social.

Lula vs. Lula

Os primeiros dois mandatos de Lula produziram uma transformação econômica e social de magnitude histórica. O modelo de crescimento desse período se sustentou em três pilares que se reforçavam mutuamente: a valorização expressiva e contínua do salário mínimo —cerca de 53% em termos reais entre 2002 e 2010 —, a expansão maciça dos programas de transferência de renda e a criação em larga escala de empregos formais no setor de serviços, que absorveu trabalhadores de baixa qualificação em condições melhores que as do emprego informal.

O resultado foi um fenômeno raro na história econômica brasileira: um crescimento com redução da desigualdade por baixo, isto é, pelo estreitamento da distância entre a base e o meio da pirâmide de distribuição de renda. Ao longo do segundo governo Lula, a renda da metade mais pobre da população cresceu em média 5% ao ano em termos reais, enquanto a renda dos 10% mais ricos e dos 40% do meio da distribuição cresceu 2,3% e 2% ao ano, respectivamente.

Já nos dois primeiros anos de Lula 3, a renda dos 50% mais pobres cresceu 3,5% ao ano, um ritmo muito mais próximo aos 2,3% de crescimento real observados no meio e no topo da pirâmide. Na prática, isso significa que a desigualdade no terceiro governo Lula vem caindo, mas em velocidade mais lenta que a observada nos seus dois primeiros mandatos.

Quando o eleitor brasileiro avalia o governo atual, ele não o compara, conscientemente ou não, com o governo Bolsonaro (PL), um período de catástrofe social com desemprego elevado e devastação da renda dos mais pobres. Ele o compara ao que foi vivido nos anos 2000, quando milhões de brasileiros que nunca tinham tido conta bancária, voado de avião ou comprado um automóvel puderam fazê-lo pela primeira vez.

O presidente recorreu a esse imaginário na campanha eleitoral. Em agosto de 2022, Lula disse que o brasileiro "tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha". A frase não era só um bordão de campanha, mas uma promessa concreta de que a recuperação econômica seria sentida na mesa de domingo e no bolso de quem trabalha.

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Inflação e acessibilidade

A inflação dos alimentos foi a cicatriz mais visível dos anos Bolsonaro. O terceiro mandato de Lula freou o problema, mas não o reverteu. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, a picanha acumulou alta de 12%. Cortes mais populares subiram mais: o contrafilé, 26%, o acém, 31,8%, e o músculo, 25,7%. Comprar o churrasco que Lula prometeu ficou, para muitos trabalhadores, mais caro que antes.

No entanto, é preciso resistir a uma leitura simplista. O problema não é de gestão da inflação, até porque a inflação acumulada em 12 meses caiu de 12,1% em abril de 2022 para 4,1% em março de 2026, e 2025 teve a menor taxa anual em sete anos.

Ao investigar o custo político do aumento do custo de vida no contexto norte-americano, as economistas Stephanie Stantcheva e Claudia Sahm mostraram que eleitores respondem ao nível de preços, não ao seu crescimento. Isto é, as pessoas pagam preços, não inflação.

Apesar da queda na taxa de inflação, os preços no Brasil não voltaram ao que eram em 2019. A memória do que os produtos custavam antes ainda é vívida, e a picanha prometida na campanha continua cara. A maior parte dos brasileiros sente que a promessa não foi cumprida: no fim do mês, não sobra dinheiro para as aspirações de consumo.

Indicadores macroeconômicos bons não geram, sozinhos, percepção de prosperidade. A experiência subjetiva do custo de vida é o termômetro efetivo e é moldada tanto pelos preços que o consumidor enfrenta quanto pelo padrão de vida que ele considera razoável.

Dito de outro modo, a questão da acessibilidade é também uma questão de aspiração. O trabalhador que ganhou mais em termos reais não se pergunta apenas se o seu salário superou a inflação. Ele se pergunta se, hoje, consegue viver o que imaginou quando a promessa de campanha foi feita. A resposta, para muitos, é não.

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A renda perdida

Se o milagrinho dos anos 2000 foi o melhor período da economia brasileira em um século, o que veio depois foi um dos piores. Entre 2014 e 2022, a economia brasileira não apenas estagnou: o PIB per capita recuou, em um fenômeno semelhante ao da década de 1980, conhecida como década perdida.

Desde 2023, como os dados deixam claro, essa trajetória se reverteu. O mercado de trabalho bateu recordes de ocupação e de carteira assinada, e a renda média do trabalhador voltou a crescer. O problema é que esses avanços partem de uma base historicamente rebaixada.

Segundo o World Inequality Database, a renda anual a preços de 2024 da metade mais pobre da população subiu de R$ 10.766 no fim do governo Bolsonaro para R$ 11.536 no fim do segundo ano de Lula 3, uma recuperação expressiva em percentual, mas que apenas começa a desfazer um decênio de destruição. Em 2014, essa mesma parcela da população ganhava, a preços constantes, R$ 14.230 por ano. Em outras palavras, dez anos depois, a base da pirâmide consegue consumir apenas 80% do que consumia antes da crise.

O problema não se restringe aos mais pobres, ainda que seja mais severo nesse grupo. Os 40% do meio da distribuição viram sua renda encolher 7,7% em relação a 2014; os 10% do topo, 3,2%. Todos os estratos sociais vivem, hoje, com menos do que viviam há dez anos.

Depois de um decênio de estagnação e queda, uma expansão da renda a 3,5% ao ano, como ocorreu com os 50% mais pobres nos dois primeiros anos de Lula 3, não é sentida como prosperidade, mas como um alívio insuficiente.

A experiência psicológica é profundamente diferente da que marcou os anos 2000. A memória do eleitor brasileiro foi moldada por aquele período de mobilidade ascendente acelerada, e a realidade atual, por mais que os indicadores de hoje sejam os melhores em décadas, não alcança essa memória.

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As redes sociais e a nova economia das aspirações

Lula, porém, não compete só com si mesmo. É preciso examinar também o que aconteceu com os padrões de aspiração de consumo no Brasil desde os anos 2000. Naquela época, o horizonte de referência parecia ser local, em grande medida, e a ascensão relevante —por meio, por exemplo, de um aparelho de televisão de tela plana, do primeiro celular com câmera e da faculdade para o filho— se dava no círculo social imediato.

O horizonte de referência mudou radicalmente. Na linguagem de Debraj Ray, professor da Universidade de Nova York, a "janela de aspiração" — o conjunto de vidas observáveis que um indivíduo toma como referência para formar os seus próprios desejos — foi globalizada. As redes sociais e as plataformas de comércio eletrônico com forte componente social, como Shein, Shopee e TikTok Shop, criaram uma vitrine permanente de consumo sofisticado operando 24 horas por dia no bolso de cada trabalhador: viagens internacionais, roupas de grife, restaurantes de alto padrão etc.

A janela de aspiração se globalizou, mas a janela de realização, para a maioria, não a acompanhou. A frustração emerge dessa assimetria.

Essa não é só uma hipótese intuitiva. Estudos têm documentado um efeito negativo das redes sociais sobre o bem-estar devido a "comparações sociais desfavoráveis". No terreno específico do consumo, o economista Christopher Roth realizou um experimento de campo na Indonésia e mostrou que o aumento da renda de vizinhos leva ao aumento do consumo dos chamados bens visíveis por famílias cuja renda não se alterou. Em um mundo em que o vizinho foi substituído pelo feed, essas comparações se amplificam sem limites claros.

A etnografia brasileira parece confirmar essa hipótese. Em um trabalho de longa duração em periferias de Porto Alegre, as antropólogas Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco documentaram como, nos anos Lula, o consumo se tornou o principal vetor de reconhecimento, visibilidade e cidadania para as camadas populares — e como a frustração dessa promessa, a partir da recessão de 2014, deslocou parte desse desejo de reconhecimento para outros registros, inclusive a adesão ao bolsonarismo.

As "redes sociais de comércio" chegam nesse terreno já arado: não são apenas lojas, mas canais pelos quais as classes de menor renda se apropriam, de forma acessível, do vocabulário visual do que imaginam ser a elite. Esses produtos, mais que mercadorias, são símbolos de pertencimento a um mundo que as redes sociais tornaram visível e, por isso mesmo, insuportavelmente próximo.

Veja fotos da loja física da Shein em São Paulo - galeria

A escala é expressiva. A Shein declara ter 50 milhões de usuários no Brasil e afirma, com base em uma pesquisa Ipsos, que 88% deles pertencem às classes C, D e E. A Shopee anunciou um aumento de 30% de novos usuários em 2024. Três quartos dos consumidores das classes populares compram regularmente em plataformas internacionais, segundo pesquisa da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas).

É nesse contexto que a "taxa das blusinhas" — o imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, criado em agosto de 2024, que se somou à elevação do ICMS estadual de 17% para 20% em abril de 2025 — adquire uma dimensão política singular. O então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, propôs a medida como um instrumento de isonomia tributária: as plataformas asiáticas competiam em condições desiguais com o varejo nacional porque os seus produtos não pagavam impostos de importação.

A lógica econômica era defensável, mas a medida abriu terreno para uma onda de ressentimento digital que, alimentada por influenciadores de extrema direita, acabou dando origem a memes ("Taxadd") e a fake news sobre uma suposta taxação do Pix, que, segundo a Receita Federal, prejudicou a fiscalização de fintechs e favoreceu o crime organizado.

O endividamento é consequência, não causa

Os fatores descritos até aqui levam a uma consequência lógica: o endividamento. O desejo de consumir além do que o salário corrente permite — alimentado pelas redes sociais, pela publicidade e pela memória dos anos 2000 — leva milhões de brasileiros a recorrer ao crédito.

O endividamento não é só resultado de renda insuficiente, mas também o outro lado da economia das aspirações: o aumento do consumo no topo desloca o quadro de referência em toda a distribuição, empurrando a classe média e as camadas populares ao crédito para recuperar a renda perdida e emular o padrão de consumo normalizado pelas redes sociais.

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), cerca de 77% das famílias brasileiras estavam endividadas em 2024. Entre aquelas com renda de até três salários mínimos, o índice chegou a 80,5%, com 18,7% sem condições de pagar o que deviam. Em média, as dívidas correspondiam a 30% da renda familiar, e um quinto das famílias endividadas tinha mais da metade da sua renda comprometida com pagamentos.

As dívidas em atraso cresceram 12,8% nas capitais entre 2022 e 2024, adicionando 1,45 milhão de lares a essa situação. Note-se que isso aconteceu em um período de crescimento econômico e queda do desemprego.

No caso das bets, há uma conjunção ainda mais perversa. Além do alto potencial viciante, que as torna uma evidente questão de saúde pública, há evidências de que elas atingem desproporcionalmente pessoas de menor renda e maior estresse financeiro. Para esse grupo, as apostas aparecem muitas vezes como tentativa de complementar o orçamento ou de alcançar padrões de consumo que os rendimentos do trabalho simplesmente não permitem.

O endividamento e as bets não são a causa da insatisfação, mas, ao menos em parte, consequências do descompasso entre renda e aspiração. Contudo, à medida que o pagamento das dívidas compromete uma parte cada vez maior do salário, o problema é agravado e se retroalimenta na esperança de renda com apostas. Isso cria um dilema para a política econômica: a taxa Selic elevada, que atua para preservar o poder de compra das famílias por meio do controle da inflação, contribui para corroer a renda dos endividados.

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O diploma sem futuro

O quinto fator do paradoxo é geracional. A massificação do ensino superior foi um dos legados mais duradouros dos governos do PT. O Prouni, lançado em 2005, concedeu bolsas em instituições privadas a estudantes de baixa renda, o Fies expandiu o crédito estudantil e as cotas raciais e sociais nas universidades federais transformaram o perfil dos campi. Em 2014, o Fies e o Prouni eram responsáveis por mais de 30% das matrículas do ensino superior privado.

Essa expansão produziu uma geração que foi a primeira das suas famílias a frequentar uma universidade. A promessa implícita era que estudar garantiria uma vida melhor que a dos pais. O diploma seria o passaporte para a classe média consolidada, para o emprego formal e para o salário que permitiria consumir o que as gerações anteriores não puderam.

Dados da OCDE parecem, à primeira vista, confirmar a promessa. Brasileiros com ensino superior completo ganham, em média, 148% a mais que quem tem apenas o ensino médio —a terceira maior vantagem salarial do mundo e quase três vezes a média da OCDE. Em princípio, o diploma ainda vale. O problema é que esse número médio esconde disparidades brutais de qualidade.

Do recorde de 10 milhões de matrículas do ensino superior em 2024, mais de três quartos eram em instituições privadas e mais da metade em cursos de educação a distância. No Enade 2023, as notas mais baixas se concentraram desproporcionalmente no setor privado —onde chegam a cerca de 40% dos cursos— e foram relativamente raras nas instituições públicas. Entre os cursos a distância, apenas 0,8% atingiram a nota máxima, quatro vezes abaixo da média de todos os cursos.

Está claro que o graduado de uma faculdade privada de ensino a distância de baixa qualidade não compete no mesmo mercado que o formado em uma universidade federal.

O resultado é uma geração politicamente volátil: jovens que fizeram o que lhes disseram —estudaram, se endividaram com mensalidades e seguiram as regras— e descobriram que as regras do jogo mudaram. São mais escolarizados que os seus pais, mas não necessariamente mais prósperos. Essa frustração de expectativas é um combustível poderoso para o ressentimento político e tende a se direcionar contra quem está no poder.

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O PIB e além

Alguns analistas vêm partindo da aparente desconexão entre PIB e popularidade para questionar o próprio papel da macroeconomia na explicação do bem-estar da população. Frases como "ninguém come PIB" são utilizadas para reduzir a importância de se sustentar uma trajetória robusta de crescimento econômico.

No entanto, um crescimento robusto é uma condição incontornável para um projeto de desenvolvimento que reduza desigualdades e garanta autonomia, sobretudo para países de renda média. O PIB ainda precisa crescer para que a metade mais pobre dos brasileiros possa recuperar o seu nível de renda de 2014 e, mais ainda, para que consiga atingir o padrão de consumo que lhe dê algum nível de satisfação.

Não se trata de defender que todos os brasileiros tenham o padrão de vida ostentado pelos influenciadores digitais, mas que consigam chegar ao padrão de consumo e qualidade de vida de um trabalhador de classe média de um país desenvolvido, por exemplo.

Não se engane: se voltássemos a experimentar uma recessão econômica com elevação do desemprego como a de 2015-16 ou mesmo a estagnação dos governos Temer (MDB) e Bolsonaro, a população estaria ainda mais insatisfeita e todos voltariam a dar importância à macroeconomia, sobretudo os mais pobres e menos escolarizados, que são os primeiros a perder o emprego e o salário em momentos de crise

O trabalhador informal que faz entregas por aplicativo, por exemplo, depende mais, não menos, de uma economia que gira. Um PIB menor é sentido quase que instantaneamente por quem tem o rendimento determinado por um algoritmo de oferta e demanda.

Isso não quer dizer que mais crescimento econômico é suficiente para que a prosperidade macroeconômica se converta em bem-estar real para a maioria. O desafio agora é aprofundar um movimento de tradução dos bons resultados macroeconômicos em experiências cotidianas mais amplas de bem-estar e segurança econômica, o que demanda consolidar a recuperação da renda, reduzir o peso do crédito caro, avançar na progressividade tributária, expandir serviços públicos que ampliem o poder de compra real e acelerar a criação de empregos compatíveis com uma sociedade mais escolarizada.

Uma parte dessa agenda já está em curso: uma reforma do IR que, pela primeira vez neste século, reduzirá a desigualdade entre o topo e o meio da pirâmide; a reforma tributária do consumo e políticas industriais que podem gerar empregos para uma geração mais escolarizada; e a tramitação no Congresso do fim da escala 6x1 e da redução da jornada para 40 horas, que responde à aspiração dos trabalhadores por mais horas de vida fora do trabalho.

Se conseguir combinar crescimento, redistribuição e um novo padrão de prosperidade vivida — mais baseada em tempo e serviços públicos que apenas em consumo privado —, o lulismo poderá transformar a sua fase madura não em um momento de comparação com a própria história, mas em um novo ciclo de expectativas positivas e confiança no futuro.







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