domingo, 3 de maio de 2026

A perereca da vizinha tá presa na gaiola; xô, perereca!

"QUERO MORRER PORNOGRÁFICA”

Como Dercy Gonçalves consolidou sua imagem de diva desbocada e indecente

Adriana Negreiros, piaui,  Mai 2026

Dercy em 1957, na estreia do filme 'Uma certa Lucrécia' - Crédito: Acervo UH/Folhapress

Dercy Gonçalves entrou no palco do estúdio da TV Excelsior para apresentar o número final do programa e, diante das câmeras, teve um branco. Esqueceu completamente o que deveria fazer ali. Como o improviso nunca foi um problema para ela, gritou para o regente da orquestra, Aristides Zacarias: “Maestro, mete um ritmo de macumba aí, que lá vai a perereca.” Quando os músicos entraram em ação, Dercy começou a rodar, fingindo que era mãe de santo, e improvisou uma canção, no ritmo dos instrumentos. “A perereca da vizinha/tá presa na gaiola/xô, perereca/xô, perereca.” A plateia caiu na gargalhada.

Nos bastidores, ao presenciar a cena, o ator Grande Otelo deu um cutucão na cintura do escritor Sérgio Porto, contratado pela Excelsior para escrever o programa de humor Viva o vovô Deville, do qual Dercy era a grande estrela. “Essa tal de perereca vai pegar mais que sarampo em berçário”, comentou.

Embora aquele não fosse o desfecho planejado por Sérgio Porto, ele resolveu deixá-lo na versão final do programa que logo iria ao ar. Tinha a opção, se quisesse, de fazer diferente. A popularização do videoteipe, em 1960, libertara a televisão de improvisos como aquele. Se errasse, bastava fazer de novo. Mas ele decidiu bancar o improviso.

Conforme calculara Grande Otelo, a música criada por Dercy se espalhou como vírus. O videoteipe ajudava a disseminar as atrações da tevê pelo país. Essas fitas eram enviadas para diferentes cidades nos voos da Panair, cujo dono – Mário Wallace Simonsen – era o mesmo da Excelsior. E assim os telespectadores do Recife conheceram a composição que faria sucesso no Carnaval daquele ano de 1964.

A história seria contada pelo próprio Sérgio Porto, numa de suas crônicas assinadas sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Além de telespectadores mais marotos, a música encantara gente respeitável, como o artista plástico pernambucano Augusto Rodrigues, um dos convidados para o Baile Municipal do Recife e “um dos grandes incentivadores da perereca”, nas palavras de Porto. Na crônica, ele conta que Rodrigues pediu autorização da primeira-dama do estado, Maria Magdalena Fiúza, para puxar o coro com o hit. “A senhora Miguel Arraes achou imensa graça no pintor e deu a licença”, escreveu Porto. “Augusto Rodrigues saiu a cantar e logo todo o salão cantava a perereca como se fosse Mamãe, eu quero”, narrou.

O escritor disse que passou a ser abordado por curiosos querendo saber a origem da canção:

A coisa foi se desenvolvendo, a ponto de um professor dos mais austeros telefonar-me para perguntar se a perereca tinha raízes folclóricas. [...] Se todos queriam enveredar pelo perigoso caminho da galhofa, eu também ia. Com a maior cara de pau, expliquei ao distinto que A perereca da vizinha era um ponto de terreiro que eu colhera na Bahia, onde os crentes de determinada seita têm a perereca como bicho sagrado.

A verdade, Sérgio Porto assumiu, é que ninguém sabia ao certo como a perereca surgira – nem mesmo Dercy. Ele se divertia ao vê-la dando entrevistas sobre o assunto, inventando uma história “cheia de truques”. Numa de suas primeiras versões, Dercy disse que, em Santa Maria Madalena, cidade do interior do Rio de Janeiro onde nasceu, tinha o costume de brincar junto com outras crianças num brejo repleto de pererecas. Certo dia, para implicar com uma senhora ranzinza, prenderam uma delas na gaiola da mulher. Depois, saíram a cantarolar: “A perereca da vizinha/está presa na gaiola.” “Ainda bem que eu não estava perto quando Dercy deu a entrevista, senão eu olhava para ela e os dois cairíamos na gargalhada”, escreveu Sérgio Porto.

Numa versão alternativa, Dercy relacionaria a música a outro episódio da infância. Certa vez, segundo ela, visitou a avó e saiu de lá com uma linguiça escondida dentro das calças. No caminho de volta para casa, enquanto pulava um muro, sentiu a linguiça escapar e cair num córrego. Ao mergulhar a mão na água para recuperar o embutido, apanhou uma perereca. Assustada, gritou: “Xô, perereca” – palavras que, anos depois, no palco da Excelsior, retornariam à sua mente, inspirando a canção. A conhecida indisposição de Dercy para respeitar texto de autor e seguir ordem de diretor nunca foi impeditivo para que ela trabalhasse na televisão. Em 1963, numa atitude agressiva para os padrões da época, a TV Excelsior havia oferecido salários muito acima da média do mercado para que artistas ingressassem no canal 2, no Rio de Janeiro. Assim, atraiu quase todo o elenco da TV Rio, incluindo alguns de seus maiores astros, como o comediante Chico Anysio e o cantor Moacyr Franco. Ao investir pesado numa programação moderna, sustentada por shows e programas humorísticos, tornou-se líder nacional de audiência, desbancando a antiga campeã, a TV Record.

Com um salário mensal de 4,5 milhões de cruzeiros, Dercy estava entre as artistas mais bem pagas da emissora – o ordenado-base era de 200 mil. A atriz Betty Faria, que tinha iniciado a carreira televisiva na TV Rio, recebia 650 mil cruzeiros. Na época, um apartamento de três quartos em Ipanema, na Zona Sul, podia ser comprado por 13 milhões. Ganhando dinheiro como nunca, sem necessidade de viajar – e se afastar da família –, Dercy anunciou que abandonaria o teatro para se dedicar apenas à televisão.

Embora o teatro tivesse dado a ela popularidade de Norte a Sul do Brasil, nada se comparava à fama que passaria a experimentar a partir de então. Pouco mais de uma década depois de a TV Tupi começar a difundir seu sinal em São Paulo, a televisão deixava de ser um produto de luxo. Em 1964, já havia mais de 1,8 milhão de televisores espalhados pelas residências do país, que na época tinha uma população de quase 79 milhões de pessoas. Reunidas em redes, as emissoras conseguiam chegar a porções cada vez maiores do território nacional.

O escrutínio sobre o trabalho de Dercy, que sempre fora intenso, atingiu proporções inéditas. Já não era preciso sair de casa para assistir – e criticar – seu estilo de atuação. Do sofá, reunidos em família, telespectadores mais sensíveis se chocavam com as caretas, olhares maliciosos e piadas de duplo sentido da artista. Um deles era Sérgio Bittencourt, o jovem crítico do Correio da Manhã. Aos 23 anos, o filho do compositor Jacob do Bandolim – e futuro compositor de canções gravadas por Wilson Simonal, Vanusa e Ângela Maria – manifestava pavor de Dercy, a quem chamava de “grotesca”. “Não dou três meses para Dercy em televisão”, apostou.

“Essa senhora é, indiscutivelmente, a mais pornográfica das ‘velhas senhoras do meu Brasil’!”, escreveu, numa de suas colunas. “Há algumas semanas, essa senhora pronunciou, bem clara, uma palavra de baixo calão. Gargalhadas no auditório, risinhos constrangidos entre a equipe do programa, vergonha nas casas ‘verdadeiramente de família’”, revoltou-se o jornalista, que conclamava “a polícia, a censura, as mães de família – ou seja lá quem for” a tomar providências contra Dercy. “Na sua boca (ou na sua mente enferma), a imoralidade é um culto como outro qualquer.”

Convidar a censura ou a polícia a prestar atenção num artista não era exatamente atitude trivial naqueles meados de 1964. Fazia três meses que o Brasil vivia sob uma ditadura militar. Em 1º de abril, o presidente João Goulart havia sido deposto e uma junta de três militares – o Comando Supremo da Revolução – assumiu o poder. Políticos contrários ao novo regime tiveram os direitos cassados, e, em 11 de abril, um Congresso já devidamente expurgado da “ameaça comunista” – justificativa para o golpe – elegeu o general Humberto de Alencar Castello Branco para a Presidência da República.

Imprensa e televisão foram submetidas a censura prévia do governo. Dercy foi orientada pela direção da emissora a fazer algo que, para ela, era quase impossível: evitar os improvisos. O mais seguro, diziam seus superiores, era que se ativesse ao previamente combinado e tomasse cuidado com a expressão do corpo, em especial das mãos. Um gesto dela que logo seria associado ao cantor Jair Rodrigues – estender e flexionar o antebraço, virando a mão ora para cima ora para baixo – passou a ser tido como pornográfico.

Embora procurasse seguir as recomendações, ela não tinha noção exata da gravidade da situação política do país. No dia da deflagração do golpe, Dercy estava em plena mudança para um apartamento novo, na Rua Tonelero, 180, em Copacabana – o endereço onde, uma década antes, o jornalista Carlos Lacerda, um dos principais adversários de Getúlio Vargas, sofrera um atentado. Ela contaria que, ao ouvir o barulho de fogos que celebravam a chegada dos militares ao poder, pensou que se tratasse de comemoração de gol num jogo de futebol. “Quem ganhou?”, perguntou para Decimar. “Não sei quem está jogando, mamãe”, respondeu a filha. “Mais desligada do que eu”, reclamaria Dercy, tempos depois.

Desligada ou atenta, o fato é que Dercy driblaria, a seu modo, as dificuldades da censura. Trocava palavras proibidas e gestos a serem evitados por olhares e entonação sugestivos. Isso acontecia tanto em Viva vovô Deville como em Dercy beaucoup – um trocadilho com merci beaucoup, ou “muito obrigado”, em francês –, uma espécie de teatro televisionado. O programa, uma comédia em três atos com grande elenco e Dercy como protagonista, era transmitido diretamente do Teatro Excelsior, no Rio. O público que lotava o local para ver, ao vivo, a nova estrela da televisão ria ainda mais das piadas quando notava a ginástica que ela fazia para contá-las, tentando despistar os censores.

Dercy era boa no drible. Mas também era impaciente. Cansada de se cercar de cuidados na Excelsior, começou a prestar atenção na concorrência. Imaginava que, em outra emissora, pudesse ter mais liberdades. Assim, aceitou de pronto um convite de um jovem executivo da TV Rio para jantar. Fazia pouco tempo que Dercy se dera conta da existência daquele rapaz de 29 anos; ele, por outro lado, admirava-a desde o dia em que, menino, a vira na tela do Cine Osasco, cinema que frequentava no então distrito de São Paulo.

Naquele ano de 1943, o garotinho de 8 anos se deliciou com a interpretação de Dercy no filme Samba em Berlim, sua estreia no cinema. Embora ela fosse uma coadjuvante, o menino teve a impressão – da qual nunca se esqueceria – de que a atriz “pulava para fora da tela”.

Apesar da reverência dispensada à artista, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, desde sempre conhecido como Boni, dispensou maiores formalidades ao ir ao seu encontro. Dercy fizera questão de jantar em casa, no apartamento de Copacabana. Ao abrir a porta para receber o executivo da TV Rio, viu que ele tinha as pernas à mostra, e gostou do que viu.


Boni não aparentava ter o poder que tinha quando bateu à porta do apartamento de Dercy. Embora aquele fosse um jantar de negócios, ele vestia bermudas, como se estivesse a caminho da praia. Não foi sozinho. Estava acompanhado de Walter Clark, principal executivo da emissora, que escolheu um elegante terno para a ocasião. Só de vê-lo tão sério e formal, com jeitão de chefe, Dercy antipatizou com Clark.

A decoração do apartamento impressionou Boni. A espaçosa sala de estar era adornada por quadros, como uma pintura a óleo do português José Malhoa, e tinha o piso protegido por tapetes persas e chineses. Cachepôs, jarros e outros objetos em porcelana e cristal finíssimos repousavam sobre mesas de centro e consolos de mogno e jacarandá. Os móveis estilo d. João V, com variedade de curvas e ornamentos, guardavam utensílios em prata de lei, como talheres, candelabros, xícaras de chá e café, além de itens decorativos, a exemplo de galos e pássaros.

Boni notou que Dercy, embora afável, estava na defensiva com Clark. É possível que ela tenha percebido, de antemão, que o executivo se achava “muito esperto”. “A Dercy era muito mais viva do que nós, como logo pudemos perceber”, Clark escreveria, no futuro, em suas memórias. Ele tentou, como pôde, amenizar o desconforto no ar. Encheu-a de elogios, “aquela puxação de saco toda”, em suas palavras. Disse que, na TV Rio, ela teria o talento reconhecido, que a Excelsior a reduzia a uma caricatura, explorando apenas seu lado chulo. “Você pode fazer peças, trabalhos criativos, se comunicar com o público de outra maneira”, continuou Boni, prometendo que, se fosse para o canal 13, ela não seria mais associada à pornografia. “Eu não sei o que é pornografia. Sou o que sou”, ela respondeu. “Você vai ser você, mas não com limites, e sim com acréscimos”, garantiu o executivo, que confessou ter se encantado por ela, desde sempre, por considerá-la diferente das mulheres com quem convivia, quase todas conservadoras.

Dercy não se empolgou com os elogios. Queria saber quanto ia ganhar a mais. “Dercy era absolutamente objetiva e mais mercenária que aqueles tipos que aparecem em filmes do Charles Bronson”, lembraria Walter Clark. Quando a dupla ofereceu um salário de 8 milhões de cruzeiros, quase o dobro do que recebia na Excelsior, ela assinou o contrato para ser a estrela do canal 13. Para aqueles que ficaram surpresos com a mudança, Dercy atribuiu a decisão ao além. Aos jornalistas, contou que certo dia, ao passar em frente ao prédio da TV Rio, ouviu uma voz sussurrar “fique no 13”, e assim fez.

A artista quis tirar férias antes de começar no novo emprego. Como parte das negociações para mudar de emissora, exigiu o pagamento de passagens aéreas e hospedagem para ela e um acompanhante em algum destino fora do Brasil. Após o fim do relacionamento com o ator Rildo Gonçalves – que, ao contrário do que ela previra em entrevistas, não evoluiu para um casamento –, estava de namorado novo, o compositor e futuro diretor de tevê David Raw, paulistano de 38 anos. Boni e Clark sugeriram que o casal passasse as férias no México. Dercy aceitou a proposta. A escolha do destino não foi aleatória. Naqueles tempos, Boni vinha trocando correspondências com o escritor Félix Caignet, autor da novela O direito de nascer, que morava no país. As mensagens eram enviadas por telex, porque Caignet, refugiado cubano na América do Norte, sentia-se mais seguro assim.

O direito de nascer já havia sido veiculada na Rádio Nacional, no Rio, em 1951, e na Rádio Tupi, em São Paulo, em 1952, com enorme sucesso de público. A novela contava a história da jovem Maria Helena, que engravida de um inimigo de seu pai. Contrariado, o pai determina que um de seus funcionários mate o bebê após o nascimento. Sabendo disso, Dolores, uma empregada da família, foge com a criança – um menino, a quem dá o nome de Albertinho – e a cria como se fosse sua. Crescido, Albertinho se forma em medicina e acaba por salvar a vida do avô que encomendara seu assassinato.

Caignet estava disposto a vender os direitos do dramalhão, mas alertou Boni de que o texto havia sido escrito para o rádio – caberia ao brasileiro mandar fazer a adaptação para a tevê. Além disso, cobrava 6 mil dólares por uma cópia da obra: 1 mil oficiais e 5 mil por fora, pagos pessoalmente, em espécie. Se quisesse, era daquele jeito. Como Boni queria muito, convenceu Dercy a sacrificar parte de suas férias no México para fechar o negócio com o cubano.

Dercy pegou o avião no Rio de Janeiro com uma mala abarrotada de notas de 100 dólares, totalizando a quantia cobrada por Caignet. O combinado era que, chegando ao país, ela encontrasse o escritor e seu advogado, entregasse a mala, pegasse a assinatura dos dois no contrato de cessão e recebesse o texto. Com esse roteiro em mente, ela cuidou de guardar o dinheiro em local seguro tão logo se hospedou no hotel. Pediu a David Raw que depositasse as cédulas no cofre do quarto e memorizasse o segredo da fechadura.

No dia do encontro, Dercy abriu o cofre e se deparou com o espaço vazio. Não havia nem sequer uma nota de 100 dólares no compartimento. Desesperada, telefonou para Boni. “Roubaram o dinheiro no hotel”, contou. Ele achou a história estranha. Argumentou que a única pessoa capaz de tirar as cédulas dali seria aquela que soubesse o segredo do cofre. Recomendou que, numa hora em que estivesse sozinha, procurasse a quantia entre os pertences do namorado. Minutos depois, Dercy telefonou de novo para o Rio. Contou ter achado o dinheiro escondido na bainha de uma calça do rapaz. “Filho da puta”, ela desabafou. Reuniu o valor e foi ao encontro do advogado do cubano. Após o susto no hotel, estava cismada com o nome do homem, Ladrón Guevara. “Porra, será que vai dar certo fazer negócio com esse cara?”, perguntou.

Deu. Dercy voltaria para o Brasil com uma mala velha cheia de papéis amarelados, cheirando a “mijo de gato”, como se queixaria a Boni, e a novela iria ao ar entre dezembro de 1964 e agosto de 1965, sendo transmitida pela TV Rio e pela Tupi, em São Paulo. A atriz Nathalia Timberg, então com 35 anos, consagrou-se como estrela da televisão ao dar vida à sofrida Maria Helena. A novela fez tanto sucesso que o episódio final foi transmitido ao vivo do ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e do estádio do Maracanãzinho, no Rio.

O romance de Dercy e David não sobreviveu ao episódio. Os dois desmancharam o namoro e passaram a se relacionar apenas profissionalmente. Findas as férias, Dercy assumiu as funções na TV Rio. As duas emissoras ficavam na Zona Sul: o canal 13, no Posto 6 de Copacabana; o canal 2, em Ipanema. Sua primeira missão seria estrelar a adaptação da peça A dama das camélias para a televisão. Mas, com menos de uma semana na casa nova, percebeu que fizera uma “cagada”, como definiria anos depois. Apesar do salário milionário que oferecera a Dercy, a TV Rio tinha menos recursos que a Excelsior. Os equipamentos eram de segunda mão. As câmeras não podiam ser desligadas, ou não ligavam mais. Faltava gelo-seco e ventilador para fazer fumaça. Quase tudo funcionava na base do improviso. Em determinada ocasião, o próprio Boni, alto executivo do canal, foi convocado para atuar como uma espécie de contrarregra: deitou-se rente ao chão e, abanando um chapéu com vigor, fez ventar.

Desgostosa com aquela emissora que a fazia lembrar os velhos tempos de circo, Dercy procurou o antigo chefe, Carlos Manga, diretor-geral da Excelsior, e disse que queria voltar. Ele topou. Dercy, no entanto, não sabia como dar a notícia a Boni e Clark. Sentia-se em dívida com eles – sobretudo porque a dupla havia aceitado todas as suas exigências, incluindo bancar a viagem romântica (e desastrada) com David Raw. Então achou que era o caso de inventar uma pequena mentira. Internou-se na Clínica São Vicente, no bairro carioca da Gávea, onde já estivera fazendo cirurgias plásticas. Mandou avisar no trabalho e na imprensa que estava muito doente e não poderia retomar as atividades tão cedo. “Dercy encontra-se recolhida a uma casa de repouso”, noticiou o telejornal da Excelsior. “Baixando hospital”, confirmou o Diario de Noticias. Na noite em que deveria levar ao ar a adaptação de A dama das camélias – previamente anunciada pela imprensa –, a TV Rio reprisou uma comédia italiana. Nem todos os jornais, porém, compraram a versão oficial para o sumiço da atriz. “De Dercy Gonçalves, nem sombra. O canal 13 ainda não se convenceu de que a televisão séria é incompatível com certos artistas faltosos?”, protestou o jornal O Globo. “Dercy ausente do canal 13. A notícia é a de que se encontra doente. Não é verdade. Dercy está à procura de uma forma de se desligar da TV Rio”, escreveu o colunista Sérgio Bittencourt, do Correio da Manhã.

Intrigados, Boni e Clark resolveram visitá-la – por uma infeliz coincidência, no exato instante em que Carlos Manga, que sabia de toda a armação, se encontrava na clínica, acertando com Dercy os detalhes de sua volta. Quando a enfermeira anunciou que os dois homens estavam lá, a atriz pediu a Manga que se escondesse no banheiro. Recebeu-os prostrada na cama, esforçando-se para parecer aérea e abatida. Se os chefes faziam alguma pergunta, respondia com um enigmático “Ahn?”, como se de tão debilitada houvesse perdido a lucidez. Do banheiro, ouvindo a cena, Carlos Manga se segurava para não rir alto. 

Quando deixaram o hospital, Boni e Clark sabiam que tinham perdido Dercy. Boni diria ter imediatamente constatado que ela não estava doente e inventara aquilo tudo porque se decepcionara com a TV Rio. Já Walter Clark admitiria ter sido feito de “otário” e “paspalho” pelo “aspecto moribundo” da atriz. Como ela continuasse a faltar às gravações, o contrato com a TV Rio foi cancelado. Boni não se chateou. Entendeu a armação da amiga como um carinho, um cuidado para não magoá-lo. Dali a poucos dias, em setembro de 1964, ela estaria de volta à Excelsior com um salário de 10 milhões de cruzeiros. “Jamais alguém ganhou tanto dinheiro para ir do Posto 6 a Ipanema duas vezes num mês”, ironizou a revista Intervalo. Além de aumentar a remuneração da artista, a emissora concordou em pagar a multa de 17 milhões de cruzeiros pela rescisão do contrato dela com o canal 13.

Com o vai e vem, Dercy tornou-se uma das duas pessoas mais bem pagas da televisão brasileira daquele ano. A outra, igualmente beneficiada pela concorrência entre as emissoras, era o pernambucano Abelardo Barbosa. Ele havia estreado na TV Tupi em 1957 e, desde 1961, apresentava a Discoteca do Chacrinha na TV Rio. Na atração, usava fantasias diversas – marinheiro, gladiador romano, mosqueteiro – e recebia convidados, como as cantoras Dóris Monteiro e Ângela Maria. Também lançava postas de bacalhau e sacos de feijão para a plateia, além de buzinar no ouvido de calouros que se apresentavam – e se humilhavam – em seu programa. A aparência espalhafatosa e o comportamento peculiar de Chacrinha, frequentemente classificado de “grotesco” pela imprensa, renderam-no o apelido de “louco”. “É o louco mais bem pago do país”, definiu a revista Intervalo.

Diferentemente de Dercy, que não teve paciência para a falta de estrutura, Chacrinha se esforçava para driblar a precariedade da TV Rio. Era comum que pagasse o figurino do próprio bolso. Em 1964, no entanto, não resistiu ao convite da Excelsior, que ofereceu a ele um salário quase duas vezes maior para trocar o Posto 6 por Ipanema.

Faturando alto como nunca, Dercy se permitiu um grande luxo. Deu o apartamento da Rua Tonelero para Decimar e comprou um triplex também em Copacabana, para onde se mudou antes do Natal. Vendeu em leilão os móveis antigos – doando o dinheiro a uma entidade de apoio a tuberculosos – e comprou tudo novo. Investiu em sofás de veludo vermelho, espelhos grandes, mesas de madeira, cadeiras em ferro batido e, para forrar o piso de mármore branco de Carrara, tapetes persas com espessura de 3 cm. Enfeitou os ambientes com cortinas brancas, almofadas de pele de onça, relógios, plantas, flâmulas e bolas. “É tudo decoração de Dercy, tá?”, disse à Revista do Rádio, que usou quatro páginas de sua edição de 20 de fevereiro de 1965 para exibir a nova morada da estrela.

Dercy se deixou fotografar sentada na cama (com dois colchões de mola, porque fazia questão de conforto), descendo as escadas em mármore e ferro fundido, e diante de uma máquina de escrever, no escritório. Ao jornalista, explicou que transformou um dos cômodos do segundo andar em quarto de vestir, cujos armários em pau-marfim guardavam, além de roupas e acessórios, encadernações com os scripts de suas peças. Na cozinha, posou para as câmeras encostada na pia, fingindo lavar louça. “As minhas mãos sujas de sabão são apenas uma pose, pois muito pouco apareço por aqui. Cerquei a cozinheira de tanto conforto que lhe dei até um telefone (do meu quarto, peço refeições)”, afirmou.


Os empregados eram as únicas pessoas com quem Dercy dividia os três andares do apartamento de Copacabana. Eventualmente, recebia amigos e jornalistas. No início de 1965, atendeu a jornalista e escritora Nélida Piñon, que trabalhava como editora-assistente dos Cadernos Brasileiros, um periódico do Congresso pela Liberdade da Cultura, movimento intelectual anticomunista fundado na Alemanha em 1950. Nélida demorou a convencer seus superiores de que seria uma boa ideia entrevistar Dercy – ao ouvir a proposta, os jornalistas ficaram escandalizados com a possibilidade de dar espaço para uma atriz desbocada e popular numa revista consumida pela elite cultural. Vencidos pela insistência de Nélida, tiveram que ler, nas páginas que editavam, Dercy declarar que não estava nem aí para eles. “Sei que os intelectuais torcem o nariz para o meu teatro e que não gostam de mim. Mas não me incomodo.” A conversa se desenrolou à beira da piscina, no terceiro andar do apartamento. “Se eu perdesse tudo isso, e de repente ficasse pobre e sem todas essas coisas bonitas, é claro que ia ficar triste”, disse. “Mas não tinha importância, começava tudo de novo e ia tocando para frente.”

Com alguma frequência, Dercy recebia a visita da filha e dos netinhos – Marcelo, com 3 anos, e Flávio, um neném gorducho, careca e risonho que ainda não apagara a primeira velinha. Eram seus dois “homenzinhos maravilhosos”, com quem gostava de passar as horas quando não estava atuando, dando entrevistas ou apostando em casas de jogos. Dercy dizia já ter se conformado em não viver um grande amor, mas reconhecia que não era fácil – e precisava de escapes para lidar com as dores emocionais. “O jogo é um refúgio formidável para as pessoas sofridas. E só as pessoas sofridas é que jogam. É a solidão”, disse, em entrevista para a Manchete.

Apesar dos namoros com colegas de trabalho, ela ainda não se recuperara por completo do fim do casamento com Danilo Bastos. Dizia ter sentido, logo após o divórcio, que lhe faltavam os braços e as pernas. “Depois refleti e disse a mim mesma: ‘Tenho pernas e braços. Tenho que reagir.’” A tristeza, porém, não a impedia de perceber que tivera um relacionamento fracassado e que, racionalmente, não havia motivo para sentir falta dele. “Marido é assim mesmo. Logo depois do casamento é amor, um ano depois é marido, depois vira irmão, depois primo, e depois inimigo. Marido é coisa muito chata, pelo menos comigo foi assim. Fica-se habituada a um inimigo junto da gente.”

Embora conversasse frequentemente com jornalistas, era raro que Dercy se abrisse tanto numa entrevista como fizera para aquela edição de 14 de agosto da Manchete. Foi sabatinada por cinco repórteres, permitindo-se pequenas pausas para fumar. Afirmou, por exemplo, que se julgava apenas “simpática”. “Tempos atrás eu me considerava também antipática, pois tinha um complexo de inferioridade devido ao meu berço, que foi muito brabo. Então eu me sentia amargurada. Mas hoje não, hoje eu me sinto até bem simpática”, reconheceu. Contudo, não conseguia se achar bonita, a despeito da enorme quantia que gastava com Urbano Fabrini, seu cirurgião plástico de confiança. “Bonita não sou, mas faço uma força danada. Não saio do dr. Fabrini. Ele dá um jeito, e vou acabar com 80 anos, os joelhos pelancudos, mas a cara lisa.”

O fato de ter tido companheiros que tentaram se beneficiar financeiramente do relacionamento – como Danilo Bastos e David Raw – talvez explicasse a razão pela qual Dercy, naquele momento da vida, imaginava que a fortuna era seu principal atrativo. “Vejam estes dois brilhantes que tenho no dedo. [...] Os homens olham muito para os meus dedos, para os meus anéis”, contou. “Até hoje não consegui ser amada.” Contou também que, apesar do dinheiro e do sucesso, não nutria orgulho de si. Ao ver o próprio nome nos letreiros da tevê e do teatro, revelou não sentir nada. “É uma pena, porque antigamente eu ficava doida para ver o meu retrato nos jornais. E tive que enfrentar cada coisa para conseguir isso!” Assegurou, no entanto, que não guardava arrependimentos, vergonha do passado ou pudor pelo modo como se comportava. “Foi com a pornografia [...] que eu deixei de passar fome. Então eu quero morrer por-no-grá-fi-ca.” 

Assumir-se pornográfica – e manifestar a intenção de assim permanecer – exigia certa dose de coragem, ou de distração, no momento em que o Brasil vivia sob um governo militar persecutório e guiado por uma moral conservadora. Dercy colecionava atitudes que geravam dúvidas se ela se movia pela valentia, pela falta de noção ou pelo puro desprendimento. 

Um exemplo disso foi a maneira como socorreu o ator Mário Lago, mesmo sendo ele, na época, um artista com reservas a seu estilo. Aos 53 anos – célebre pela autoria da canção Ai que saudades da Amélia, em parceria com Ataulfo Alves, e pela atuação em radionovelas da Rádio Nacional –, Lago não havia acumulado um patrimônio que lhe permitisse parar de trabalhar. Ligado ao Partido Comunista e ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro, foi preso um dia após o golpe militar de 1964. Era casado com Zeli Cordeiro, filha do dirigente comunista Henrique João Cordeiro, e tinha cinco filhos. Quando deixou a prisão, dois meses depois, se achava sem trabalho, sem dinheiro e sem perspectivas de recolocação no mercado. Com medo de represálias dos militares, ninguém se dispunha a empregá-lo. Ninguém, exceto Dercy.

Dias após ser solto, Lago estava em casa, com esposa e filhos, sem saber como alimentaria tantas bocas, quando o telefone tocou. Zeli atendeu e passou para o marido. Era Dercy, convidando Lago para fazer uma ponta num programa dela na Excelsior. O trabalho era diferente de tudo o que ele já tinha feito. Numa das cenas, por exemplo, seria empurrado por Dercy e cairia num sofá. “Dercy, eu tenho um pouco de medo desse estilo que você faz”, assumiu Lago. “Mário, o que interessa é o leite das crianças”, ela respondeu, pragmática como costumava ser. Para convencê-lo a aceitar o trabalho, ofereceu-lhe uma condição especial: ele receberia o pagamento no ato, antes mesmo de entrar em cena.

Mário Lago topou – e entrou no espírito dercyniano de atuar. Ao cair no sofá para onde Dercy o empurrara, enfiou a mão num dos bolsos e dali tirou um maço de notas. Aquele podia não ser seu estilo, mas o leite das crianças estava garantido.


Dercy estava ganhando dinheiro como nunca, o suficiente para “viver bem, sem pensar no futuro”, mas continuava incapaz de recusar trabalho. Em julho de 1964, começou a se apresentar na badalada boate Fred’s, em Copacabana, com a peça Dona Violante Miranda. Como parte dos frequentadores da casa noturna eram turistas, cabia ao maître traduzir as falas e os palavrões de Dercy para os estrangeiros. Ao que consta, o funcionário era impecável na tradução simultânea. Em visita ao Rio de Janeiro para participar do Festival Internacional do Filme, o ator americano Troy Donahue – galã do faroeste Um clarim ao longe – encantou-se pelo espetáculo de Dercy. À revista Intervalo, contou que ela era a atriz brasileira que mais havia chamado sua atenção. “Eu a vi na boate Fred’s, num show divertidíssimo, e achei ótima”, disse. 

Dercy emendou a temporada no Fred’s com outro espetáculo, dessa vez num ambiente mais familiar, o Teatro João Caetano, e ao lado de um velho amigo, Oscarito. A peça que voltou a reunir a famosa dupla de cômicos foi Cocó, my darling..., adaptação de um texto do francês Marcel Mithois (traduzido pela escritora Hedy Maia) que Dercy, como era seu costume, transformou no que quis. “O negócio é o seguinte. É muito monótono ficar repetindo a mesma coisa todo dia, e eu então invento”, disse na entrevista para a Manchete, quando questionada – talvez pela milésima vez – sobre sua mania de mudar os textos que encenava. Reconheceu que os autores ficavam “danados da vida”, mas não ligava nem um pouco, e deu um exemplo de como agia. “Uma vez houve uma onda danada porque eu representava A dama das camélias e não morria em cena. Acontece que eu não estava com vontade de morrer, e pronto. Eu acho que o artista deve representar aquilo que sente. Se ele só faz o que o autor manda, então não é mais artista, é cópia.”

Oscarito andava afastado do palco, dedicado ao cinema, e Dercy fez questão de convidá-lo por achar que o personagem da peça – um velhote atrapalhado, metido em confusões – era perfeito para ele. “Para mim é uma honra”, ele respondeu, “como bom cavalheiro espanhol”, nas palavras dela. A gentileza do amigo era algo que a encantava. Em comum, os dois tinham o talento para o improviso e, em cena, protagonizavam um verdadeiro duelo de cacos. Mas, apesar de partilharem esse traço, tinham grandes diferenças. Oscarito não gostava de falar obscenidades, como a amiga. Também era um homem tímido, de tal modo que, aos olhos de quem não o conhecesse, podia soar como extremamente sério. A genialidade de Oscarito era das raras capazes de paralisar Dercy:

Quando o Oscarito entrava em cena, eu parava e ficava esperando a graça. Porque a entrada dele era muito engraçada, muito circense. E eu não queria nem me mexer pra não estragar o trabalho dele. Eu ficava estupefata, assistindo. Ele era muito carismático. Eu usava o escracho, mas ele era mais circense do que cômico de chanchada, de revista. Nos bastidores, ele era tímido, muito tímido. Mas tinha as respostas na ponta da língua. E muito carisma.

Numa repetição do acontecido na ocasião mais recente em que havia atuado com Oscarito – na peça Quero ver isso de perto, em 1949 –, Dercy enfrentou problemas com a censura. No espetáculo, interpretava uma mulher cujos cinco maridos tiraram a própria vida. O último a se suicidar era um peruano. Num determinado momento, o mordomo anunciava a chegada do embaixador do Peru, interpretado pelo ator Carlos Kurt. Com uma faixa no peito e roupa em vermelho e branco – as cores da bandeira do país –, o homem se confessava admirador da viúva e lhe oferecia uma mesada milionária. Ela então respondia que preferia morrer a se casar outra vez com um peruano.

A cena, que nem era tão engraçada assim, irritou a Embaixada do Peru. Certa noite, momentos antes de começar a peça, Dercy recebeu a visita do chefe da Divisão de Censura de Diversões Públicas, órgão de fiscalização do regime militar, solicitando que não se mencionasse a nacionalidade do embaixador. A atriz concordou com o pedido. O censor que ficou no teatro para conferir se a alteração seria feita não gostou quando viu que o figurino de Carlos Kurt fora mantido. Estabeleceu-se uma confusão, o censor ameaçando autuar Dercy por desacato à autoridade, e a sessão foi suspensa. O espetáculo acabou sendo retomado dias depois, sem citação ao Peru, e mantendo a faixa e as cores do país na roupa do embaixador. “Já cansei dessa prevenção que a censura tem para comigo. Cocó, my darling… voltará ao palco. Não mencionarei a nacionalidade do embaixador. Mas a faixa continua e o texto também”, ela disse.

Ao contrário de Dercy Gonçalves, a comediante gaúcha Ema D’Ávila nunca havia tido problemas com a censura. Também respeitava invariavelmente o texto, gostava da vida no campo e achava que a mulher deveria ser mandada, “quase sempre”. Ao contrário de Ema, Dercy tinha um “fraco artístico” pelos cacos, achava melhor a vida entre os arranha-céus e considerava que, “se a mulher mandasse mesmo, o mundo estaria melhor”.

Em fevereiro de 1966, a Revista do Rádio publicou uma matéria comparando as duas “autênticas e queridas campeãs do humorismo pela tevê”: “Podem ser rivais na conquista do público, mas na vida real estimam-se e respeitam-se.” As duas entraram na brincadeira de representar, de forma caricata, os papéis que a revista havia projetado para cada uma delas. Ema posou para a foto com postura ereta, sorriso calmo, cercada por flores, com elegante camisa de botões e brinco delicado. Dercy, por sua vez, foi fotografada esparramada no sofá, fingindo beber uísque direto da garrafa, os olhos revirados e uma camisa rendada caindo por um dos ombros.

“Detesta Carnaval. Não suporta jiló. Gosta de cozinhar. [...] Jamais xingou alguém”, lia-se sobre Ema. Dercy representava a antítese da colega: “Adora o Carnaval, comparecendo à maioria dos bailes. Diz que jiló com feijoada é uma delícia. Acha que a cozinha não foi feita para ela. [...] Não esconde que todo dia tem motivos para xingar alguém.”

Dercy Gonçalves parecia cada vez mais disposta a corresponder às expectativas depositadas sobre ela. Se esperavam que dissesse palavrões, os mais grotescos sairiam de sua boca. Se queriam frases de efeito, Dercy tinha uma coleção delas. Não era apenas no palco que recorria aos cacos. Na vida, também sabia improvisar. Inventava histórias estapafúrdias a respeito de si – “costumo mentir 24 horas por dia”, disse à Revista do Rádio – e, assim, reforçava a figura da mulher escrachada. Perto de completar 60 anos, avó de dois netos, Dercy estava prestes a consolidar a imagem à qual ficaria associada na posteridade: a da velha maluca, desbocada e indecente.


Trecho da biografia Dercy – a diva debochada, a ser lançada em maio pela Companhia das Letras.

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