segunda-feira, 31 de julho de 2017

Vontade de viver



A cena
Uma mulher (Anna), no Louvre, se aproxima de um quadro de Édouard Manet, Le Suicide. Senta ao lado de um estranho. Depois de um tempo, o diálogo:

O estranho: Você também gosta desse quadro?

Anna: Ele me dá vontade de viver

O quadro de Manet (1880) é mostrado abaixo.



O contexto

 A cena é a última do filme Frantz de François Ozon, 2016, http://www.imdb.com/title/tt5029608/  

São aquelas cenas finais de filmes em que resumem tudo sobre a estória narrada. Lembro de caso semelhante no filme Marcas da violência, David Cronenberg de 2005.

 O filme

A estória se passa em Quedlimburgo, 1919 (pós 1ª guerra) Alemanha. Anna (Paula Beer) encontra o jovem Adrien (Pierre Niney) frente ao túmulo de seu jovem noivo (Frantz) morto na guerra. Adrien se apresenta como amigo francês do noivo. A verdade aparece depois: o soldado Adrien matou o soldado Frantz numa batalha de guerra. O francês fora a Quedlimburgo devido a remorsos por ter causado a morte do alemão.
O ambiente era de feridas não cicatrizadas. Diálogo entre o pai de Frantz e Adrien:

Pai de Frantz: Todo francês é assassino do meu filho.  Então desapareça daqui.

Adrien: O senhor tem razão, doutor. Eu também era soldado e sou mesmo assassino.

O filme é antibélico e sem apelo sentimentalista trata das cicatrizes advindas dos horrores da guerra.

Adrien ao ser perguntado por Anna sobre as marcas no corpo, diz: “Minha única cicatriz é Frantz”. Nessa frase, há muito do termômetro do filme. Mesmo com uma trama recheada de reviravoltas, Ozon não cede em nome de um roteiro mais veloz. Frantz – e aqui está sua maior beleza – não é um filme sobre a ferida, mas sim sobre as cicatrizes (Diogo Guedes, uol.com.br).

Ponto de inflexão

Anna, a mãe e o pai de Frantz passam a ver Adrien com olhar diferente. A rejeição anterior dá lugar ao afeto.
Adrien volta a Paris. E depois de um tempo Anna resolve reencontrar Adrien. Vai até Paris e depois de procurar muito o encontra noivo com casamento marcado. Decepção. Anna apaixonada não se desaponta. Fica em Paris e um dia se veste de preto e vai até o Louvre ver o quadro de Manet.

Tudo se passa como Anna estivesse de luto novamente.

É o luto pela segunda perda.

Ele me dá vontade de viver diz ao estranho sobre o Le Suicide de Manet.






sábado, 20 de maio de 2017

A coroa de orquídeas


 Quando a mulher entrou em agonia, ele caiu em crise. Atirou-se em

cima da cama, aos soluços. Foi agarrado, arrastado. Debatia-se nos braços

dos parentes e vizinhos; esperneava. E houve um momento em que, no

seu desvario de quase viúvo, cravou os dentes numa das mãos próximas.

A vítima uivou:

— Ui!

Então, na sala, cercado e contido, chorou alto, chorou forte. Seu

gemido grosso atravessava o espaço e era ouvido no fim da rua.

Enquanto isso, o amigo mordido, na cozinha, exibia a mão: "Tirou um

naco de carne!". Alguém perguntou baixo, com admiração: "Mas os

dentes dele não são postiços?". Eram. E, em torno, houve um espanto

profundo. Ninguém compreendia que um indivíduo que usava na boca

uma chapa dupla pudesse morder com tanta ferocidade e resultado. E,

súbito, veio espavorido lá de dentro um irmão da moribunda. Pousou a

mão no ombro do Juventino. Pigarreia e soluça:

— Morreu.

Várias pessoas espichavam o pescoço para ver as reações. Primeiro,

Juventino levantou-se, esbugalhando os olhos. Depois que assimilou o

fato, desprendeu-se de vários braços, num repelão. Dava socos no próprio

peito e estrebuchava:

— Me dêem um revólver! Quero meter uma bala na cabeça!

DOR AUTÊNTICA


Essa dor agressiva e autêntica arrepiava. E havia, disseminado no

ar, o medo de que o infeliz ferrasse os dentes em alguma mão ainda

intacta. Durou o paroxismo de dez a quinze minutos. Por fim, a própria

exaustão física serviu de sedativo. Gemia baixo. Mas, quando o sogro o

convocou para ver a esposa, recuou como diante de uma blasfêmia. Num

tremor de maleita, rilhando os dentes, soluçou:

— Não vou! Não quero!

Era a sua antiga e irredutível pusilanimidade diante da morte.

Desde criança tinha medo de qualquer defunto, fosse conhecido ou

desconhecido, parente próximo ou remoto. A idéia de ver a mulher morta

o arrepiava. Defendia-se: "Não!". E corrigiu: "Agora, não!". Com o

coração disparado, não pôde evitar a seguinte e quase irreverente

reflexão: "Por que não pintam os cadáveres?". Perguntaram:

— O enterro vai sair daqui?

Virou-se:

— Claro!

Um dos vizinhos, o mesmo que fora mordido na mão, vacila e

sugere:

— Não será mais negócio capelinha?

— Por quê?

E o outro, alvar:

— É mais prático. Mais cômodo.

Então, o viúvo exaltou-se. Enfiou o dedo na cara do vizinho:

— Considero um desaforo essa mania de capelinha! É uma falta de

respeito! Ora veja!

SAUDADE


Um vizinho e um cunhado partiram, de táxi, para tratar do

atestado de óbito e do enterro. Então, andando de um lado para o outro,

numa excitação de possesso, Juventino surpreendeu e confundiu os

presentes com uma série de confidências, legítimas umas, extravagantes

outras. Na sua euforia retrospectiva, deblaterava:

— Nunca houve marido tão feliz como eu! Duvido!

Elogiou a mulher de alto a baixo, chamou-a de "anjo dos anjos",

"flor das flores". E, súbito, diante dos vizinhos atônitos e maravilhados,

baixa a voz:

— Era tão séria que namorou um ano comigo, noivou dois e só

topou beijo na boca depois do casamento! Quer dizer, mulher batata!

Havia um aspecto de sua vida conjugai que ainda o envaidecia: o

recato da mulher. Sempre conservaria, perante o marido, um mínimo de

cerimônia. Cutucou o vizinho e segredou: "Teve pudor de mim até o

último momento!". Pausa, arqueja e conclui:

— Nunca tomou injeção que não fosse no braço!

Parecia evidente que esse pudor frenético o deleitava, ainda agora.

Numa brusca cólera, desafiou os circunstantes:

— Isso é que era mulher no duro, cem por cento! O resto é conversa

fiada!

CÂMARA-ARDENTE


As providências de ordem prática estavam sendo tomadas. Uma

hora depois ou pouco mais, apareceram os funcionários da empresa

funerária. Armara-se a câmara-ardente na sala de visitas. Em dado

momento, o viúvo teve de levantar-se para atender o telefone. Era o

cunhado. Estava na casa de flores e desejava fazer uma consulta até certo

ponto delicada. Perguntou:

— Tua coroa pode ser de orquídeas?

Admirou-se no telefone:

— Pode. Por que não?

Pigarreia o cunhado:

— Mas é puxado!

— Quanto?

O outro disse uma quantia. Juventino esbravejou:

— Ladrões!

Vacila. Lembra-se de que a doença da mulher já lhe custara uma

fortuna; contraíra dívidas, tinha na farmácia uma conta estratosférica.

Acabou optando por outra solução:

— Vamos fazer o seguinte; orquídea é uma flor besta, sofisticada.

Arranja uma coroa mais em conta.

Do outro lado da linha, veio a pergunta: "Qual é a dedicatória?".

Hesita novamente. Decide-se:

— Põe assim: "À Ismênia, saudade eterna do teu Juventino".

ÀS COROAS

Do telefone, veio para a sala. Até então, fiel à própria covardia, não

fora espiar o rosto da mulher no caixão. E o pior é que seu medo estava

mesclado de curiosidade. Costumava dizer, numa frase rebuscadíssima,

que o verdadeiro rosto da mulher aparece só no amor ou na morte. Mas o

diabo era o seu preconceito contra a morte. Acendendo um cigarro,

pensava: "Os defuntos são muito feios!". Por outro lado, ocorria-lhe que,

com ou sem pusilanimidade, teria de beijar a esposa antes de sair o

enterro. Na sua meditação de viúvo, cogitou de uma solução que lhe

parecia praticável, qual seja: a de beijar sem ver, isto é, beijar fechando os

olhos.

Mais uns quarenta minutos e começam a chegar as coroas. Uma das

primeiras foi a sua. Correu, sôfrego; leu a legenda fúnebre, em letras

douradas. As orquídeas tinham sido substituídas pelas dálias. E

Juventino, recuando dois passos, considerava o efeito. Não pôde furtar-se

a um sentimento de satisfação. Disse de si para si: "Bacana!". À medida

que iam chegando mais flores, ele se convencia de que a sua coroa não

fazia feio no meio das outras. Pelo contrário. Se não fosse a melhor, podia

figurar entre as melhores.

SURPRESA

Às onze horas, a casa estava apinhada. Tinha vindo gente até de

Vigário Geral. O inconsolável viúvo era abraçado por uma série de

parentes, inclusive alguns que ele julgava mortos e enterrados. Às onze e

meia, Juventino passa por uma nova crise. E uma coisa o atribulava de

maneira particular e dolorosíssima: a doença da mulher. Aos soluços,

interpelava os presentes:

— Como é possível morrer de pneumonia? Se fosse câncer, vá lá.

Mas pneumonia! — Virou-se para um vizinho; estrebucha: — Sabe que eu

estou desconfiado que penicilina é um conto-do-vigário?

Neste momento, todos os olhos se voltaram para a direção da

porta. Acabava de entrar uma coroa. Era, porém, uma coisa realmente

insólita e gigantesca. Dir-se-ia uma coroa de chefe de Estado, de rainha

ou, no mínimo, de ministro. Toda feita de orquídeas, ofuscou

automaticamente as demais. Atônito, Juventino balbuciou: "Parei!".

Trôpego, a boca torcida e já distraído da própria dor, veio rompendo os

grupos, no seu espanto e na sua curiosidade. E, com a mão trêmula,

desenrolou a fita. Soletrou, a meia voz, para si mesmo: "À inesquecível

Ismênia, com todo o amor, de Otávio".

Antes de mais nada, aquele "inesquecível" foi nele uma espécie de

punhalada material. Ocorria-lhe uma reminiscência cinematográfica:

Rebecca, a mulher inesquecível. Virou-se para os presentes, que pareciam

também impressionadíssimos. Perguntava de um para outro:

— Otávio? Quem é Otávio? Vocês conhecem algum Otávio?

Não, ninguém conhecia. Mas ele corria, um por um, todos os

parentes: "Mas como é possível? Que negócio é esse?".

DRAMA

A obsessão passou a dominá-lo: voltou para perto da coroa e leu,

releu a legenda. Apertava a cabeça entre as mãos: "Todo amor por quê?".

Concentrou-se. Procurava descobrir, no fundo da memória, alguém que

tivesse este nome, E uma coisa o enfurecia: aquela coroa espetacular, tão

mais bonita e até mais cara que as outras. Fazia seus cálculos, em voz alta:

— O cara que mandou isto gastou os tubos. E por quê, meu Deus,

por quê?

Houve um momento em que o próprio Juventino se julgou também

um milionário, mas da loucura. Meteu-se num canto; já não falava mais

com ninguém, feroz e incomunicável. Quase ao amanhecer, alguém veio

oferecer um cafezinho. Saltou: "Vai-te para o diabo que te carregue!".

Passam-se os minutos, as horas. Todos os que chegam pasmam

para a fabulosa coroa. Finalmente, na hora de fechar o caixão, a própria

sogra, soluçando, vem chamar o genro: "Você não vai beijar fulana?".

Ergueu-se. Antes, foi ao escritório apanhar não sei o quê. Atravessou por

entre os parentes e vizinhos. Estava diante do caixão. E, súbito, mete a

mão no bolso e... Só viram quando ergueu um punhal e o afundou na

defunta, aos berros de:

— Cínica! Cínica!

A lâmina penetrou por entre as duas costelas. E a morta parecia rir


Nelson Rodrigues, O melhor do romance, contos e crônicas, Folha de São Paulo, 1993
Edição especial publicada com a autorização da família de Nelson Rodrigues e da Companhia das Letras

sexta-feira, 28 de abril de 2017

PSA: a radiografia de um câncer



Próstata no balde

Câncer na próstata. Eis o problema que alguns homens acima dos 60 enfrentam. É a minha briga atual. Uma batalha. Batalha contra quem? Contra o câncer no geral, mas contra o PSA (Antígeno Prostático Especifico) fora de controle em particular.
No quadro abaixo um histórico do PSA: 1,89 (2008); 0,82 (2017) e no meio um horror: PSA em 62,49 (2015). Tempos atrás com este quadro de 2015 a solução seria: corta fora esta merda de próstata e joga no balde.
E porque não houve o corte e o balde?



Caminhos percorridos
A cintilografia óssea realizada em junho de 2015: “Hipercaptação focal na face anterior do terceiro arco costal direito, a esclarecer (trauma?, implante?...). Sugiro complementação propedêutica radiológica (RX/TC) desta localização”. E na radiografia do tórax realizada também em junho deu “discreta alteração morfoestrutural na extremidade distal do 10º arco costal, que pode ser decorrente de fratura prévia, não sendo possível descartar a possibilidade de lesão infiltrativa com reação periostial”.
Antes, em maio de 2015, o resultado da biopsia 3: “próstata, glândula interna esquerda – Adenocarcioma acinar usual, Gleason 8 (4 +4), comprometendo três entre quatro fragmentos (variando entre 50% e 20% da superfície de cada fragmento). Não observada permeação perineural”.
Em decorrência destes resultados havia o risco de metástase. A partir daí o caso saiu da urologia para a oncologia. E a próstata não foi pro balde... Ainda.
A partir de julho de 2015, iniciei o tratamento com hormônio (Zoladex).
Em 15 meses o PSA caiu de 62,49 para 2,59. 
No período de 3,5 anos (junho/2013 a outubro de 2016) minha vida teve um nó górdio: o câncer. E a tentativa de desatar o nó que em alguns casos é impossível.
O que fazer para se livrar da doença?

Rádio

Em novembro de 2016 iniciei o tratamento de radioterapia. E foi neste momento que     me senti frente a frente com a doença, apesar de o tratamento ser curativo. A sensação de que antes não era doente e agora sim. A dura consciência de enfrentamento e tristeza. Câncer é isto: ou se elimina o contaminado ou a morte vem. Não pensei na morte ainda, mas me alivia acreditar que a morte é a continuidade da vida como diz o budismo.
Optei por realizar o tratamento no Rio de Janeiro. Morava em Cariacica e Rio neste momento seria um exilio. Exilio devido à rotina diária (de 2ª a 6ª) de, com bexiga cheia, ficar sob uma máquina, fonte de raios gama, por cerca de 10 minutos. E tome chegar na clínica às 8, tomar água até as 9 e descer para o tratamento quase mijando nas calças. Foram 39 sessões no período de 30 de novembro de 2016 a 24 de janeiro de 2017. Resultado: PSA caiu para 0,82.
As aplicações de Zoladex continuam por mais duas vezes de três em três meses. Está  previsto uma nova medição do PSA em julho de 2017. A tendência é diminuir, mas a estimativa de cura, no sentido estrito, não passa pela cabeça do médico (oncologista). O encaminhamento de alta, (caso não ocorra imprevistos) no fim do ano segue com o período de manutenção. Por enquanto uma vitória como poucas num mar de perdas e derrotas vividas por mim.

Resumo da ópera: farei PSA até que a morte esteja próxima. É como remédio para a pressão, levamos para o túmulo.
Em tempo: nos comentários do Blog
Edson Pereira Cardoso, 18 de julho de 2017. PSA em 12/07/2017: 0,41
25 de dezembro de 2017. PSA em 19/12/2017: 0,36. 
19 de fevereiro de 2018. PSA em 15/02/2018: 0,42. Peso da próstata: 52 g em 22/07/2013 (53 x 50 x 42 mm); 37 g em 16/04/2018 (38 x 39 x 27 mm)
3 de maio de 2018. PSA em 02/05/2018: 0,30 
17 de dezembro de 2018. PSA em 05/12/2018: 0,44
23 de fevereiro de 2019. PSA em 22/02/2019: 0,34
30 de maio de 2019. PSA em 30/05/2019: 0,28
7 de janeiro de 2020. PSA em 06/01/2020: 0,21
2 de dezembro de 2020. PSA em 01/12/2020: 0,175; Testosterona Total: 420,0 ng/dL
21 de setembro de 2021. PSA: em 18/09/2021: 0,25; Testosterona: 376
16 de dezembro de 2021. PSA: em 16/12/2021: 0,22;  Testosterona: 424
Atualizando
Em 20/09/2021, próstata - peso estimado: 36 gramas; medidas: 35 x 37 x 50 mm nos diâmetros longitudinal, anteroposterior e transverso.
 
PSA Lâmina

 

 


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Ofélia

Meu problema são os homens. Digo que não cairei, mas então ouço violões suaves sob as estrelas. Tento a sorte outra vez.

Ofélia disse essa pérola para Oscar numa praça de Roda D’Água, bairro de Cariacica.

Mas a danada estava representando.

E o texto não era dela. Deve ter visto várias vezes o filme Madrugada da traição (The naked dawn) de Edgar G. Ulmer, 1955. É de lá que tirou que seu problema eram os homens até ouvir violões suaves. No filme o texto é de uma música cantada por Charlita, atriz e cantora.

E não sabemos o quanto de verdade existe nos violões suaves. Mas pergunte para Ofélia o que é verdade. Vai responder assim: não sei!

Orson Welles já disse que somos todos atores neste mundo. Conversar é representar. O homem como animal social é um ator. Tudo o que fazemos envolve uma espécie de representação. Já li declarações de diretores, atores e atrizes de cinema em que se surpreendem com a atuação de atores e atrizes não profissionais. Confirmam Orson.

Ofélia é professora profissional do ensino médio. Uma atividade que representamos. Sala de aula seria um palco? Para Ofélia, sim.

Da confissão de Ofélia à nossa estória.

Ela estava, no momento, recém-saída do terceiro casamento de quatro anos.

Às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem.

Oscar pensou com ele mesmo: representando de novo Ofélia? Além de cinéfilo ele conhecia tudo de Clarice Lispector e o abismo da desordem está na crônica Legião estrangeira. Ele é professor de literatura.

Pelo visto os dois são contaminados pelo cinema e Clarice.

Essa contaminação foi o suficiente para rolar um clima de sedução entre Ofélia e Oscar. Sai violões suaves entre as estrelas e no lugar entra cinema e Clarice.

Depois de um tempo resolveram juntar os cacos. Vejam o que Oscar disse a Ofélia uma semana antes de decidirem pelos cacos comuns.

Se você quisesse a lua eu tentaria pegá-la, mas prefiro que aceite o meu coração.

Oscar não é de muito representar, mas esta declaração de amor é do filme Ao mestre com carinho (To Sir with love) de James Clavell, 1967. Da música com o mesmo título do filme interpretada por Lulu, cantora e atriz.

Ofélia e Oscar moram numa casa que fica no sopé de um morro em Roda D’Agua.

Ofélia continua representando, mas há algum tempo não ouve violões suaves.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A casa-grande surta quando a senzala vira médica


Negra, pobre e da rede pública passa em primeiro lugar em Medicina da USP

por Redação RBA publicado 06/02/2017 12h00

Revista Fórum - Saímos de uma semana triste e especialmente desoladora para a, medicina quando alguns médicos sujaram profissão tão nobre tripudiando da doença de Dona Marisa chegando até a sugerir a sua morte. Mas hoje voltamos a festejar o futuro: "A casa-grande surta quando a senzala vira médica". Esta é a frase que abre a conta do Facebook de Bruna Sena, primeira colocada em  medicina na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, a vaga mais concorrida da Fuvest 2017, o vestibular mais concorrido do país.

Negra, pobre, tímida, estudante de escola pública, Bruna será a primeira da família a interromper o ciclo de ausência de formação superior em suas gerações. Fez em grande estilo, passando em uma das melhores faculdades médicas do país.

O apelo da mãe, entre a felicidade e o espanto, é ainda mais dramático: "Por favor, coloque no jornal que tenho medo dos racistas. Ela vai ser o 1% negro e pobre no meio dos brancos e ricos da faculdade". Abandonada pelo marido, Dinália Sena sustenta a menina Bruna desde que ela tinha 9 anos, com um salário de R$ 1.400 como operadora de caixa de supermercado.

Bruna acredita que será bem recebida pelos colegas e tem na ponta da língua a defesa de sua raça, de cotas sociais e da necessidade de mais oportunidades para os negros no Brasil. "Claro que a ascensão social do negro incomoda, assim como incomoda quando o filho da empregada melhora de vida, passa na Fuvest. Não posso dizer que já sofri racismo até porque não tinha maturidade e conhecimento para reconhecer atitudes racistas", diz a caloura.

"Alguns se esquecem do passado, que foram anos de escravidão e sofrimento para os negros. Os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidades de vida iguais."
 
Para enfrentar a concorrência de 75,58 candidatos do vaga, Bruna fez o básico: se preparou muito, ao longo de toda sua vida escolar. "Ela só tirava notas 9 ou 10. Uma vez, tirou um 7 e fui até a escola para saber o que tinha acontecido. Não dava para acreditar. Falei com o diretor e ele descobriu que tinham trocado a nota dela com um menino chamado Bruno", orgulha-se a mãe.
George Orwell, autor do clássico "A Revolução dos Bichos", fábula que conta a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos, está entre os favoritos da garota, que também gosta de romance e comédia e é fã da série americana "Grey’s Anatomy", um drama médico.
No último ano do ensino médio, que cursou pela manhã na escola estadual Santos Dumont, conseguiu uma bolsa de estudos em um cursinho popular tocado por estudantes da própria USP, para onde ia à noite. "Minha escola era boa, mas, infelizmente, tinha todas as dificuldades da educação pública, que não prepara o aluno para o vestibular. Falta conteúdo, preparo de alguns professores. Sem o cursinho, não iria conseguir."
 
Segundo Bruna, que mora em um conjunto habitacional na periferia de Ribeirão Preto, vários de seus colegas de escolas nem "nem sabem que a USP é pública e que existe vestibular para passar".

Com ajuda financeira de amigos e parentes, Bruna fazia kumon de matemática, mas o dinheiro não deu para seguir com o curso de inglês. "Tudo na nossa vida foi com muita luta, desde que ela nasceu, prematura de sete meses, e teve de ficar internada por 28 dias. Não tenho nenhum luxo, não faço minhas unhas, não arrumo meu cabelo. Tudo é para a educação dela", declara a mãe.

Ainda segundo Dinália, "alguns conhecidos ajudaram. Uma amiga minha sempre dava livros para ela. Uma vez, essa amiga colocou R$ 10 dentro de um livro para comprarmos comida e escreveu: ‘Bruna, vence a vida, não deixe que ela te vença, estude'".
A opção pela medicina aconteceu há cerca de um ano, por influência de professores do cursinho popular que frequentou o CPM, ligado à própria Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão. "Claro que não sei ainda qual especialidade pretendo seguir, mas sei que quero atender pessoas de baixa renda, que precisam de ajuda, que precisam de alguém para dar a mão e de saúde de qualidade", declara.
Engajada na defesa de causas sociais como o feminismo, o movimento negro   e a liberdade de gênero, a adolescente orgulha-se do cabelo crespo e de sua origem, mas é restrita nas palavras sobre o pai, que não paga pensão e não a vê há anos. "Minha mãe ralou muito para que eu tivesse esse resultado e preciso honrar isso. Sou grata também a minha escola, ao cursinho. Do meu pai, nunca entendi o desprezo, me incomoda um pouco, mas agora é hora de comemorar e ser feliz."





 
Existem dez mil choupanas para um palácio. Existe probabilidade a que a inteligência, as virtudes, se instalem mais nas choupanas do que nos castelos. (Denis Diderot, 1713 - 1784)





segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Inventando mulheres


Vem não. Não estou questionando meu casamento. Apenas quero que você entenda a minha condição de mulher independente e livre.

Era Julia quase com o dedo em riste em minha direção. Julia é minha amiga de há muito.
Retruquei.

Tá bom então você está seguindo Adriana Falcão : inventa uma mulher e se incorpora a ela. É isto?
É mais ou menos isto. E daí? Qual o problema?

Ah! Então é isto. Vamos dizer que a mulher inventada chama-se Clarice. Liberdade e independência Clarice tem. Júlia não.
Julia é casada há 20 anos com filhos e muito feliz com o marido. Vive este casamento nos limites das fronteiras dos jardins da razão (Chico Science). Impossível questionar meu casamento. Júlia é Júlia. Clarice é Clarice. São dois mundos diferentes.
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Em tempo
De acordo com o site Hypescience, um grupo de cientistas nos EUA, descobriu que o cérebro dos apaixonados é diferente do das pessoas que estão em um longo relacionamento. Existem sinais científicos bem claros que demonstram que você está em uma fase apaixonada. Cito alguns:                                                                                                   
1. Você sente que a outra pessoa é única: Pessoas apaixonadas tendem a acreditar que a outra é "a escolhida" e até mesmo a "alma gêmea". Este sentimento se dá pelos níveis elevados de dopamina, substância ligada à atenção e foco. 
2. Desastre emocional: O amor leva à instabilidade emocional e fisiológica, comportamento semelhante dos viciados em drogas. Segundo a pesquisa, a culpa é do fato de a mesma região do cérebro ser ativada nos dois casos.. Ou seja, o amor é uma droga
3. Sexo não é tudo: 64% das pessoas apaixonadas (homens e mulheres) discordaram da afirmação: “O sexo é a parte mais importante do meu relacionamento”, diz um estudo.
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Citei estas conclusões sobre pessoas apaixonadas para Julia (ou Clarice?).

Coisas de universidade ianque de meia tigela que não tem o que fazer.

Amor é uma droga? A merda com esta conclusão. Amor é prazer.

Desastre emocional? Conclusão de quem nunca se apaixonou.

Retruquei.

Clarice, o prazer da droga. E paixão desequilibra, não?

Já sei aonde você quer chegar senhor psicólogo. Esquizofrenia. Apaixonados vivem noutro mundo. Vivem num mundo paralelo. Esquizofrênicos. Drogados... Só faltava isto.

Esta conversa foi num bar e terminou quando chegou um homem bonito de meia idade. Segundo Julia um amigo. Cumprimentaram-se com um beijo. Penso que este beijo foi em Clarice.

Pelo que vi e ouvi Clarice estava numa fase de  viciada em amor e sexo. Para ela não existe sexo sem amor. Sexo é uma manifestação muito íntima é só se realiza bem com amor e paixão.

Quatro anos nos separaram sem contato algum. Revi Julia mais alegre, mais bonita e com ares de mudanças em sua vida.

Não deu cara! Mudei. Não suportei os limites dos jardins da razão. Atropelei estes limites. Viver outras mulheres não combina com a razão. É delírio e razão.

E aí o que aconteceu?

Estou mais no chão. Sinto mais a pele. Menos culpa. Mais liberdade. Mais emoção.

Inventou mais mulheres?

Hoje sou três. Apaixonadas por três homens que me servem como uma luva.

Poli amor?

Sei lá que nome tem.

Vivo o amor e sexo.

Deliciosamente iluminada.

Como uma estrela.

 


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um conto de Natal Brasileiro

O assassinato do ambulante Luiz no metrô: um conto de Natal Brasileiro

Leonardo Sakamoto

27/12/2016 09:33

O vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas foi espancado até a morte por dois homens após, segundo a polícia, tentar defender duas travestis em situação de rua que estavam apanhando deles no centro de São Paulo. Chegou a correr para a dentro da estação de metrô Pedro II, mas foi perseguido, derrubado e levou socos e pontapés por um minuto e meio.

Tudo nessa história converge para chocar: o espancamento de um homem de 54 anos por dois jovens de 26 e 21; a morte ter ocorrido dentro de uma estação de metrô; a falta de preocupação dos rapazes de fazerem isso em um local em que certamente seriam identificados; não ter aparecido nenhum segurança para impedir; câmeras terem gravado as imagens que, mostradas pela imprensa, viralizaram pela rede; uma pessoa já discriminada socialmente (um vendedor ambulante) ter morrido porque tentou defender outras pessoas que também são (travestis); ser noite de 25 de dezembro, Natal.

É a mistura da banalização da violência, da sensação de onipotência e de invencibilidade, do ódio profundo a algo.

A banalização da violência causada por uma sociedade que transforma a violência em produto e a vende diariamente, na forma de programas sensacionalistas na TV, de jogos para computador ou videogame. Uma sociedade incapaz de refletir sobre a importância do diálogo e não da força na resolução de conflitos.

Há quem se sinta onipotente por fazer parte de um grupo tido como hegemônico (homens, héteros…) Pensa que, com isso, os outros lhes devem algum tributo. O sentimento sempre esteve presente em nossa história e a violência e as mortes impunes decorrentes dele também. Mas acredito que essa sensação foi potencializada após certas visões ultraconservadoras terem saído do armário diante do contexto favorável nos últimos anos. Perdeu-se o pudor de não ter pudor.
Isso sem contar o ódio profundo. Prega-se em púlpitos, em plenários, na TV, em reuniões com amigos, que o mal precisa ser extirpado. Que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser eliminados. Quantas vezes não lemos nas redes sociais comentários como ''ele é um câncer que precisa ser extirpado'' ou ''tal pessoa merece a morte''? Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo do desconhecido e do diferente e, portanto, à ignorância sobre o outro.

Nesse ponto, vale ir mais a fundo.

Ao assistir às imagens chocantes do assassinato de Luiz, lembrei-me de um depoimento que me foi dado por Maria Aparecida Costa, que militou contra a última ditadura civil militar. Ela ficou presa por três anos e meio, dos quais dois meses sendo torturada no DOI-Codi, na rua Tutóia, em São Paulo, local onde hoje fica o 36o Distrito Policial. Paus-de-arara, eletrochoques, ''cadeiras do dragão'' e tantos outros métodos criativos aplicados na resistência por militares e policiais tinham lugar por lá.
''O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio.''

A dúvida de Maria Aparecida tem mais de 40 anos, mas bem caberia na polarização tacanha de hoje, em que muitos não reconhecem os outros como seus semelhantes simplesmente porque esses pensam diferentes ou são fisicamente diferentes. Enxergamos inimigos em cada esquina.

A tortura, naquela época, firmava-se como arma de uma disputa. Era necessário ''quebrar'' a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também uma visão de mundo, uma ideia.
Há um incômodo paralelo entre as mortes ocorridas no DOI-Codi e a morte de Luiz Carlos. O que Luiz sofreu antes de morrer foi uma sessão de tortura pelo que ele era, pelo que representava e pelo que defendeu.

É inominável a sensação de que isso não acontece apenas nos porões, nos becos, no escuro, mas na frente de câmeras de segurança e de centenas de pessoas. Esqueça a questão ética, que nem está presente. A morte foi praticamente uma encenação da estética da violência reprimida e que, agora no Brasil do caos, ganha a liberdade. E, portanto, uma declaração pública, inconsciente ou não.
Ainda hoje, Cida tenta entender o que ocorreu. ''Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa. Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar.'' Talvez o ódio surgia, como ela lembra, da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.

Luiz não deveria ter dito ''Não faz isso com o rapaz'', quando eles agrediam uma das travestis. Mas agiu com justiça e disse e, ousando sair de sua invisibilidade e pagando um preço caro por isso.
Dizem que carrascos não podem pensar muito no que fazem sob o risco de enlouquecerem. Mas também dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano.

A certeza do ''tudo pode'' provoca vítimas nas periferias das grandes cidades, entre a população LGBT ou em situação de rua, entre os jovens negros e pobres, grupos cuja vida, para nós, vale muito pouco. Eles sempre sofreram e morreram, mas sem que as imagens corressem pela internet.
O problema é que ódio não surge de geração espontânea. É cultivado.

Como já escrevi aqui, pastores e padres de certas igrejas inflamam seus fieis contra aquilo que consideram um desrespeito às leis de seu deus. Quando um grupo espanca um gay ou uma travesti, esses pastores e padres dizem que não têm nada a ver com isso.

Figuras públicas da TV inflamam a população contra a degradação da civilização e das famílias de bem. Quando um grupo resolve amarrar alguém em um poste e linchar até a morte, essas figuras públicas dizem que não têm nada a ver com isso.

Certas famílias inflamam seus filhos contra o público LGBT, contra jovens negros e pobres da periferia e contra pessoas em situação de rua, dizendo que são uma ameaça à vida nas grandes cidades e não valem nada. Quando um grupo resolve despejar preconceito ou dar pauladas e por fogo nessas pessoas, as famílias dizem que não têm nada a ver com isso.

Políticos, de governo e oposição, inflamam seus eleitores, desumanizando o adversário e transformando o jogo democrático em uma luta do bem contra o mal. Quando um grupo passa a agredir fisicamente o outro, os políticos dizem que não têm nada a ver com isso.

Hordas de guerrilheiros digitais sob perfis falsos inflamam seus leitores, repassando conteúdo violento e falso. Quando um grupo passa a assediar, de forma injusta, pessoas ou instituições com base nesse conteúdo, há quem diga que as pessoas por trás desses perfis e páginas nas redes sociais não têm nada a ver com isso.

Talvez, no fundo, todos estejam certos.

Culpado mesmo era o Luiz.

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/12/27/o-assassinato-do-ambulante-luiz-no-metro-um-conto-de-natal-brasileiro/ 28/12/2016