sexta-feira, 28 de abril de 2017

PSA: a radiografia de um câncer



Próstata no balde

Câncer na próstata. Eis o problema que alguns homens acima dos 60 enfrentam. É a minha briga atual. Uma batalha. Batalha contra quem? Contra o câncer no geral, mas contra o PSA (Antígeno Prostático Especifico) fora de controle em particular.
No quadro abaixo um histórico do PSA: 1,89 (2008); 0,82 (2017) e no meio um horror: PSA em 62,49 (2015). Tempos atrás com este quadro de 2015 a solução seria: corta fora esta merda de próstata e joga no balde.
E porque não houve o corte e o balde?



Caminhos percorridos
A cintilografia óssea realizada em junho de 2015: “Hipercaptação focal na face anterior do terceiro arco costal direito, a esclarecer (trauma?, implante?...). Sugiro complementação propedêutica radiológica (RX/TC) desta localização”. E na radiografia do tórax realizada também em junho deu “discreta alteração morfoestrutural na extremidade distal do 10º arco costal, que pode ser decorrente de fratura prévia, não sendo possível descartar a possibilidade de lesão infiltrativa com reação periostial”.
Antes, em maio de 2015, o resultado da biopsia 3: “próstata, glândula interna esquerda – Adenocarcioma acinar usual, Gleason 8 (4 +4), comprometendo três entre quatro fragmentos (variando entre 50% e 20% da superfície de cada fragmento). Não observada permeação perineural”.
Em decorrência destes resultados havia o risco de metástase. A partir daí o caso saiu da urologia para a oncologia. E a próstata não foi pro balde... Ainda.
A partir de julho de 2015, iniciei o tratamento com hormônio (Zoladex).
Em 15 meses o PSA caiu de 62,49 para 2,59. 
No período de 3,5 anos (junho/2013 a outubro de 2016) minha vida teve um nó górdio: o câncer. E a tentativa de desatar o nó que em alguns casos é impossível.
O que fazer para se livrar da doença?

Rádio

Em novembro de 2016 iniciei o tratamento de radioterapia. E foi neste momento que     me senti frente a frente com a doença, apesar de o tratamento ser curativo. A sensação de que antes não era doente e agora sim. A dura consciência de enfrentamento e tristeza. Câncer é isto: ou se elimina o contaminado ou a morte vem. Não pensei na morte ainda, mas me alivia acreditar que a morte é a continuidade da vida como diz o budismo.
Optei por realizar o tratamento no Rio de Janeiro. Morava em Cariacica e Rio neste momento seria um exilio. Exilio devido à rotina diária (de 2ª a 6ª) de, com bexiga cheia, ficar sob uma máquina, fonte de raios gama, por cerca de 10 minutos. E tome chegar na clínica às 8, tomar água até as 9 e descer para o tratamento quase mijando nas calças. Foram 39 sessões no período de 30 de novembro de 2016 a 24 de janeiro de 2017. Resultado: PSA caiu para 0,82.
As aplicações de Zoladex continuam por mais duas vezes de três em três meses. Está  previsto uma nova medição do PSA em julho de 2017. A tendência é diminuir, mas a estimativa de cura, no sentido estrito, não passa pela cabeça do médico (oncologista). O encaminhamento de alta, (caso não ocorra imprevistos) no fim do ano segue com o período de manutenção. Por enquanto uma vitória como poucas num mar de perdas e derrotas vividas por mim.

Resumo da ópera: farei PSA até que a morte esteja próxima. É como remédio para a pressão, levamos para o túmulo.
Em tempo: nos comentários do Blog
Edson Pereira Cardoso, 18 de julho de 2017. PSA em 12/07/2017: 0,41
25 de dezembro de 2017. PSA em 19/12/2017: 0,36. 
19 de fevereiro de 2018. PSA em 15/02/2018: 0,42. Peso da próstata: 52 g em 22/07/2013 (53 x 50 x 42 mm); 37 g em 16/04/2018 (38 x 39 x 27 mm)
3 de maio de 2018. PSA em 02/05/2018: 0,30 
17 de dezembro de 2018. PSA em 05/12/2018: 0,44
23 de fevereiro de 2019. PSA em 22/02/2019: 0,34
30 de maio de 2019. PSA em 30/05/2019: 0,28
7 de janeiro de 2020. PSA em 06/01/2020: 0,21
2 de dezembro de 2020. PSA em 01/12/2020: 0,175; Testosterona Total: 420,0 ng/dL
21 de setembro de 2021. PSA: em 18/09/2021: 0,25; Testosterona: 376
16 de dezembro de 2021. PSA: em 16/12/2021: 0,22;  Testosterona: 424
Atualizando
Em 20/09/2021, próstata - peso estimado: 36 gramas; medidas: 35 x 37 x 50 mm nos diâmetros longitudinal, anteroposterior e transverso.
 
PSA Lâmina

 

 


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Ofélia

Meu problema são os homens. Digo que não cairei, mas então ouço violões suaves sob as estrelas. Tento a sorte outra vez.

Ofélia disse essa pérola para Oscar numa praça de Roda D’Água, bairro de Cariacica.

Mas a danada estava representando.

E o texto não era dela. Deve ter visto várias vezes o filme Madrugada da traição (The naked dawn) de Edgar G. Ulmer, 1955. É de lá que tirou que seu problema eram os homens até ouvir violões suaves. No filme o texto é de uma música cantada por Charlita, atriz e cantora.

E não sabemos o quanto de verdade existe nos violões suaves. Mas pergunte para Ofélia o que é verdade. Vai responder assim: não sei!

Orson Welles já disse que somos todos atores neste mundo. Conversar é representar. O homem como animal social é um ator. Tudo o que fazemos envolve uma espécie de representação. Já li declarações de diretores, atores e atrizes de cinema em que se surpreendem com a atuação de atores e atrizes não profissionais. Confirmam Orson.

Ofélia é professora profissional do ensino médio. Uma atividade que representamos. Sala de aula seria um palco? Para Ofélia, sim.

Da confissão de Ofélia à nossa estória.

Ela estava, no momento, recém-saída do terceiro casamento de quatro anos.

Às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem.

Oscar pensou com ele mesmo: representando de novo Ofélia? Além de cinéfilo ele conhecia tudo de Clarice Lispector e o abismo da desordem está na crônica Legião estrangeira. Ele é professor de literatura.

Pelo visto os dois são contaminados pelo cinema e Clarice.

Essa contaminação foi o suficiente para rolar um clima de sedução entre Ofélia e Oscar. Sai violões suaves entre as estrelas e no lugar entra cinema e Clarice.

Depois de um tempo resolveram juntar os cacos. Vejam o que Oscar disse a Ofélia uma semana antes de decidirem pelos cacos comuns.

Se você quisesse a lua eu tentaria pegá-la, mas prefiro que aceite o meu coração.

Oscar não é de muito representar, mas esta declaração de amor é do filme Ao mestre com carinho (To Sir with love) de James Clavell, 1967. Da música com o mesmo título do filme interpretada por Lulu, cantora e atriz.

Ofélia e Oscar moram numa casa que fica no sopé de um morro em Roda D’Agua.

Ofélia continua representando, mas há algum tempo não ouve violões suaves.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A casa-grande surta quando a senzala vira médica


Negra, pobre e da rede pública passa em primeiro lugar em Medicina da USP

por Redação RBA publicado 06/02/2017 12h00

Revista Fórum - Saímos de uma semana triste e especialmente desoladora para a, medicina quando alguns médicos sujaram profissão tão nobre tripudiando da doença de Dona Marisa chegando até a sugerir a sua morte. Mas hoje voltamos a festejar o futuro: "A casa-grande surta quando a senzala vira médica". Esta é a frase que abre a conta do Facebook de Bruna Sena, primeira colocada em  medicina na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, a vaga mais concorrida da Fuvest 2017, o vestibular mais concorrido do país.

Negra, pobre, tímida, estudante de escola pública, Bruna será a primeira da família a interromper o ciclo de ausência de formação superior em suas gerações. Fez em grande estilo, passando em uma das melhores faculdades médicas do país.

O apelo da mãe, entre a felicidade e o espanto, é ainda mais dramático: "Por favor, coloque no jornal que tenho medo dos racistas. Ela vai ser o 1% negro e pobre no meio dos brancos e ricos da faculdade". Abandonada pelo marido, Dinália Sena sustenta a menina Bruna desde que ela tinha 9 anos, com um salário de R$ 1.400 como operadora de caixa de supermercado.

Bruna acredita que será bem recebida pelos colegas e tem na ponta da língua a defesa de sua raça, de cotas sociais e da necessidade de mais oportunidades para os negros no Brasil. "Claro que a ascensão social do negro incomoda, assim como incomoda quando o filho da empregada melhora de vida, passa na Fuvest. Não posso dizer que já sofri racismo até porque não tinha maturidade e conhecimento para reconhecer atitudes racistas", diz a caloura.

"Alguns se esquecem do passado, que foram anos de escravidão e sofrimento para os negros. Os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidades de vida iguais."
 
Para enfrentar a concorrência de 75,58 candidatos do vaga, Bruna fez o básico: se preparou muito, ao longo de toda sua vida escolar. "Ela só tirava notas 9 ou 10. Uma vez, tirou um 7 e fui até a escola para saber o que tinha acontecido. Não dava para acreditar. Falei com o diretor e ele descobriu que tinham trocado a nota dela com um menino chamado Bruno", orgulha-se a mãe.
George Orwell, autor do clássico "A Revolução dos Bichos", fábula que conta a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos, está entre os favoritos da garota, que também gosta de romance e comédia e é fã da série americana "Grey’s Anatomy", um drama médico.
No último ano do ensino médio, que cursou pela manhã na escola estadual Santos Dumont, conseguiu uma bolsa de estudos em um cursinho popular tocado por estudantes da própria USP, para onde ia à noite. "Minha escola era boa, mas, infelizmente, tinha todas as dificuldades da educação pública, que não prepara o aluno para o vestibular. Falta conteúdo, preparo de alguns professores. Sem o cursinho, não iria conseguir."
 
Segundo Bruna, que mora em um conjunto habitacional na periferia de Ribeirão Preto, vários de seus colegas de escolas nem "nem sabem que a USP é pública e que existe vestibular para passar".

Com ajuda financeira de amigos e parentes, Bruna fazia kumon de matemática, mas o dinheiro não deu para seguir com o curso de inglês. "Tudo na nossa vida foi com muita luta, desde que ela nasceu, prematura de sete meses, e teve de ficar internada por 28 dias. Não tenho nenhum luxo, não faço minhas unhas, não arrumo meu cabelo. Tudo é para a educação dela", declara a mãe.

Ainda segundo Dinália, "alguns conhecidos ajudaram. Uma amiga minha sempre dava livros para ela. Uma vez, essa amiga colocou R$ 10 dentro de um livro para comprarmos comida e escreveu: ‘Bruna, vence a vida, não deixe que ela te vença, estude'".
A opção pela medicina aconteceu há cerca de um ano, por influência de professores do cursinho popular que frequentou o CPM, ligado à própria Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão. "Claro que não sei ainda qual especialidade pretendo seguir, mas sei que quero atender pessoas de baixa renda, que precisam de ajuda, que precisam de alguém para dar a mão e de saúde de qualidade", declara.
Engajada na defesa de causas sociais como o feminismo, o movimento negro   e a liberdade de gênero, a adolescente orgulha-se do cabelo crespo e de sua origem, mas é restrita nas palavras sobre o pai, que não paga pensão e não a vê há anos. "Minha mãe ralou muito para que eu tivesse esse resultado e preciso honrar isso. Sou grata também a minha escola, ao cursinho. Do meu pai, nunca entendi o desprezo, me incomoda um pouco, mas agora é hora de comemorar e ser feliz."





 
Existem dez mil choupanas para um palácio. Existe probabilidade a que a inteligência, as virtudes, se instalem mais nas choupanas do que nos castelos. (Denis Diderot, 1713 - 1784)





segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Inventando mulheres


Vem não. Não estou questionando meu casamento. Apenas quero que você entenda a minha condição de mulher independente e livre.

Era Julia quase com o dedo em riste em minha direção. Julia é minha amiga de há muito.
Retruquei.

Tá bom então você está seguindo Adriana Falcão : inventa uma mulher e se incorpora a ela. É isto?
É mais ou menos isto. E daí? Qual o problema?

Ah! Então é isto. Vamos dizer que a mulher inventada chama-se Clarice. Liberdade e independência Clarice tem. Júlia não.
Julia é casada há 20 anos com filhos e muito feliz com o marido. Vive este casamento nos limites das fronteiras dos jardins da razão (Chico Science). Impossível questionar meu casamento. Júlia é Júlia. Clarice é Clarice. São dois mundos diferentes.
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Em tempo
De acordo com o site Hypescience, um grupo de cientistas nos EUA, descobriu que o cérebro dos apaixonados é diferente do das pessoas que estão em um longo relacionamento. Existem sinais científicos bem claros que demonstram que você está em uma fase apaixonada. Cito alguns:                                                                                                   
1. Você sente que a outra pessoa é única: Pessoas apaixonadas tendem a acreditar que a outra é "a escolhida" e até mesmo a "alma gêmea". Este sentimento se dá pelos níveis elevados de dopamina, substância ligada à atenção e foco. 
2. Desastre emocional: O amor leva à instabilidade emocional e fisiológica, comportamento semelhante dos viciados em drogas. Segundo a pesquisa, a culpa é do fato de a mesma região do cérebro ser ativada nos dois casos.. Ou seja, o amor é uma droga
3. Sexo não é tudo: 64% das pessoas apaixonadas (homens e mulheres) discordaram da afirmação: “O sexo é a parte mais importante do meu relacionamento”, diz um estudo.
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Citei estas conclusões sobre pessoas apaixonadas para Julia (ou Clarice?).

Coisas de universidade ianque de meia tigela que não tem o que fazer.

Amor é uma droga? A merda com esta conclusão. Amor é prazer.

Desastre emocional? Conclusão de quem nunca se apaixonou.

Retruquei.

Clarice, o prazer da droga. E paixão desequilibra, não?

Já sei aonde você quer chegar senhor psicólogo. Esquizofrenia. Apaixonados vivem noutro mundo. Vivem num mundo paralelo. Esquizofrênicos. Drogados... Só faltava isto.

Esta conversa foi num bar e terminou quando chegou um homem bonito de meia idade. Segundo Julia um amigo. Cumprimentaram-se com um beijo. Penso que este beijo foi em Clarice.

Pelo que vi e ouvi Clarice estava numa fase de  viciada em amor e sexo. Para ela não existe sexo sem amor. Sexo é uma manifestação muito íntima é só se realiza bem com amor e paixão.

Quatro anos nos separaram sem contato algum. Revi Julia mais alegre, mais bonita e com ares de mudanças em sua vida.

Não deu cara! Mudei. Não suportei os limites dos jardins da razão. Atropelei estes limites. Viver outras mulheres não combina com a razão. É delírio e razão.

E aí o que aconteceu?

Estou mais no chão. Sinto mais a pele. Menos culpa. Mais liberdade. Mais emoção.

Inventou mais mulheres?

Hoje sou três. Apaixonadas por três homens que me servem como uma luva.

Poli amor?

Sei lá que nome tem.

Vivo o amor e sexo.

Deliciosamente iluminada.

Como uma estrela.

 


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um conto de Natal Brasileiro

O assassinato do ambulante Luiz no metrô: um conto de Natal Brasileiro

Leonardo Sakamoto

27/12/2016 09:33

O vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas foi espancado até a morte por dois homens após, segundo a polícia, tentar defender duas travestis em situação de rua que estavam apanhando deles no centro de São Paulo. Chegou a correr para a dentro da estação de metrô Pedro II, mas foi perseguido, derrubado e levou socos e pontapés por um minuto e meio.

Tudo nessa história converge para chocar: o espancamento de um homem de 54 anos por dois jovens de 26 e 21; a morte ter ocorrido dentro de uma estação de metrô; a falta de preocupação dos rapazes de fazerem isso em um local em que certamente seriam identificados; não ter aparecido nenhum segurança para impedir; câmeras terem gravado as imagens que, mostradas pela imprensa, viralizaram pela rede; uma pessoa já discriminada socialmente (um vendedor ambulante) ter morrido porque tentou defender outras pessoas que também são (travestis); ser noite de 25 de dezembro, Natal.

É a mistura da banalização da violência, da sensação de onipotência e de invencibilidade, do ódio profundo a algo.

A banalização da violência causada por uma sociedade que transforma a violência em produto e a vende diariamente, na forma de programas sensacionalistas na TV, de jogos para computador ou videogame. Uma sociedade incapaz de refletir sobre a importância do diálogo e não da força na resolução de conflitos.

Há quem se sinta onipotente por fazer parte de um grupo tido como hegemônico (homens, héteros…) Pensa que, com isso, os outros lhes devem algum tributo. O sentimento sempre esteve presente em nossa história e a violência e as mortes impunes decorrentes dele também. Mas acredito que essa sensação foi potencializada após certas visões ultraconservadoras terem saído do armário diante do contexto favorável nos últimos anos. Perdeu-se o pudor de não ter pudor.
Isso sem contar o ódio profundo. Prega-se em púlpitos, em plenários, na TV, em reuniões com amigos, que o mal precisa ser extirpado. Que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser eliminados. Quantas vezes não lemos nas redes sociais comentários como ''ele é um câncer que precisa ser extirpado'' ou ''tal pessoa merece a morte''? Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo do desconhecido e do diferente e, portanto, à ignorância sobre o outro.

Nesse ponto, vale ir mais a fundo.

Ao assistir às imagens chocantes do assassinato de Luiz, lembrei-me de um depoimento que me foi dado por Maria Aparecida Costa, que militou contra a última ditadura civil militar. Ela ficou presa por três anos e meio, dos quais dois meses sendo torturada no DOI-Codi, na rua Tutóia, em São Paulo, local onde hoje fica o 36o Distrito Policial. Paus-de-arara, eletrochoques, ''cadeiras do dragão'' e tantos outros métodos criativos aplicados na resistência por militares e policiais tinham lugar por lá.
''O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio.''

A dúvida de Maria Aparecida tem mais de 40 anos, mas bem caberia na polarização tacanha de hoje, em que muitos não reconhecem os outros como seus semelhantes simplesmente porque esses pensam diferentes ou são fisicamente diferentes. Enxergamos inimigos em cada esquina.

A tortura, naquela época, firmava-se como arma de uma disputa. Era necessário ''quebrar'' a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também uma visão de mundo, uma ideia.
Há um incômodo paralelo entre as mortes ocorridas no DOI-Codi e a morte de Luiz Carlos. O que Luiz sofreu antes de morrer foi uma sessão de tortura pelo que ele era, pelo que representava e pelo que defendeu.

É inominável a sensação de que isso não acontece apenas nos porões, nos becos, no escuro, mas na frente de câmeras de segurança e de centenas de pessoas. Esqueça a questão ética, que nem está presente. A morte foi praticamente uma encenação da estética da violência reprimida e que, agora no Brasil do caos, ganha a liberdade. E, portanto, uma declaração pública, inconsciente ou não.
Ainda hoje, Cida tenta entender o que ocorreu. ''Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa. Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar.'' Talvez o ódio surgia, como ela lembra, da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.

Luiz não deveria ter dito ''Não faz isso com o rapaz'', quando eles agrediam uma das travestis. Mas agiu com justiça e disse e, ousando sair de sua invisibilidade e pagando um preço caro por isso.
Dizem que carrascos não podem pensar muito no que fazem sob o risco de enlouquecerem. Mas também dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano.

A certeza do ''tudo pode'' provoca vítimas nas periferias das grandes cidades, entre a população LGBT ou em situação de rua, entre os jovens negros e pobres, grupos cuja vida, para nós, vale muito pouco. Eles sempre sofreram e morreram, mas sem que as imagens corressem pela internet.
O problema é que ódio não surge de geração espontânea. É cultivado.

Como já escrevi aqui, pastores e padres de certas igrejas inflamam seus fieis contra aquilo que consideram um desrespeito às leis de seu deus. Quando um grupo espanca um gay ou uma travesti, esses pastores e padres dizem que não têm nada a ver com isso.

Figuras públicas da TV inflamam a população contra a degradação da civilização e das famílias de bem. Quando um grupo resolve amarrar alguém em um poste e linchar até a morte, essas figuras públicas dizem que não têm nada a ver com isso.

Certas famílias inflamam seus filhos contra o público LGBT, contra jovens negros e pobres da periferia e contra pessoas em situação de rua, dizendo que são uma ameaça à vida nas grandes cidades e não valem nada. Quando um grupo resolve despejar preconceito ou dar pauladas e por fogo nessas pessoas, as famílias dizem que não têm nada a ver com isso.

Políticos, de governo e oposição, inflamam seus eleitores, desumanizando o adversário e transformando o jogo democrático em uma luta do bem contra o mal. Quando um grupo passa a agredir fisicamente o outro, os políticos dizem que não têm nada a ver com isso.

Hordas de guerrilheiros digitais sob perfis falsos inflamam seus leitores, repassando conteúdo violento e falso. Quando um grupo passa a assediar, de forma injusta, pessoas ou instituições com base nesse conteúdo, há quem diga que as pessoas por trás desses perfis e páginas nas redes sociais não têm nada a ver com isso.

Talvez, no fundo, todos estejam certos.

Culpado mesmo era o Luiz.

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/12/27/o-assassinato-do-ambulante-luiz-no-metro-um-conto-de-natal-brasileiro/ 28/12/2016

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Balanço das Eleições 2016 por Sakamoto

Leonardo Sakamoto

30/10/2016 22:44

Como dizia um sábio professor, o pós-eleição é o momento em que nós jornalistas de política e sociedade matamos nossa inveja dos colegas que cobrem esporte e organizamos nossos bate-bolas, fazendo contextualizações, análises e previsões. Nós sabemos e vocês também sabem que o Brasil não respeita previsões e, portanto, boa parte disso será letra morta em breve.

Tendo isso em vista, faço algumas considerações sobre os resultados deste segundo turno sob a ótica da esquerda:

1) O PT foi (mesmo) o grande derrotado das eleições municipais, como era de se esperar após a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma, o noticiário amplamente desfavorável e, principalmente, a crise econômica e o aumento do desemprego. Não há resquício de esperança para se agarrar. Se o partido não cair na real, parar de culpar os outros e fazer a autocrítica, não voltará a disputar a narrativa.

2) Certamente, houve uma onda conservadora, como já tratei no post sobre os resultados do primeiro turno. Mas não afirmaria que o país deu uma guinada para a direita, uma vez que nunca conseguiu-se implementar por aqui um projeto social, econômico e político de esquerda. Apenas aproximações bem questionáveis. O orignalmente trabalhista PT aliou-se a coisas mais estranhas que ele em nome da governabilidade. Reforma agrária, reforma tributária democrática, reforma política, reforma urbana, garantia de direitos humanos? Ninguém sabe, ninguém viu.

3) Interessante como mesmo políticos de esquerda que sempre tiveram um posicionamento crítico ao modelo de desenvolvimento do PT foram colocados no mesmo saco e punidos pelo eleitor. Sim, boa parte da esquerda foi levada junto para o buraco, mesmo que tenha reclamado do governo Dilma o tempo inteiro. Um exemplo disso é Crivella, que foi ministro dela e membro de sua base de sustentação durante um bom tempo. Ele não foi tão identificado com ela quanto Freixo foi – apesar do PSOL ter se posicionado contra o governo do PT.

4) Com Marcelo ''Universal'' Crivella, o neopentecostalismo televisivo dá um salto para a implementação de seu projeto de poder. Desconfio que o Brasil terá um presidente assumidamente evangélico neopentecostal antes de ter um presidente assumidamente ateu. Para isso, certamente acabará se distanciando de extremistas, como Silas Malafaia – que surtou, no Twitter, na noite deste domingo, xingando a Globo, a Veja, o PT, o PSOL, Freixo, a esquerda, e bradando ''Chora Capeta'' – assim, sem vírgula separando o vocativo.

5) Marcelo Freixo teve 1.163.662 votos no Rio de Janeiro, maior do que sua última votação para prefeito em 2012. Considerando que sua campanha foi feita com poucos recursos financeiros e sem máquina partidária, isso é um feito considerável. Por isso, não acho que ele sai derrotado. Pelo contrário, Freixo se cacifa como uma das lideranças políticas da esquerda nesse momento em que o campo progressista terá que se reinventar.

6) Com os resultados do segundo turno das eleições, pode-se dizer que a esquerda foi abandonada pela periferia das duas maiores cidades do país. De certa forma, o cenário lembrou as votações majoritárias do PT durante a década de 90. Vale lembrar que o partido levou anos, em um lento trabalho de base, com uma militância engajada, para que a periferia ''comprasse'' a sua narrativa. Claro que a periferia que votou em Lula em 2002 também estava cansada da crise do segundo governo FHC e queria mudança. Mas depois ficou ao lado do partido por conta do crescimento econômico, do aumento do salário mínimo, da diminuição da fome, do Bolsa Família e da melhoria na qualidade de vida. Quando o cenário muda, alterado pela crise econômica, da qual o PT tem culpa, o povão procura outra saída.

7) E vendo a estratificação dos bairros em que Freixo e Haddad foram os mais votados, a esquerda vai ter que suar – e muito – para reencontrar-se com o discurso de mudança, saber disputar o simbólico e reconquistar a periferia. Haddad foi melhor votado, em porcentagem, em Pinheiros – bairro onde se reúne boa parte da esquerda classe média alta paulistana, cercada de um lado pela PUC-SP e pelo outro pelo campus da USP. Há alguns anos, o centro de São Paulo era do PSDB e todo o gigante entorno populacional era PT. Enquanto isso, Freixo levou os bairros mais próximos do Centro e Crivella ficou com a maior parte da periferia.

Em Belém, Edmilson (PSOL), que teve 47,67% contra os 52,33% de Zenaldo Coutinho, ao contrário, tem entrada forte na periferia. Já foi prefeito, tem recall, estabelece um diálogo. Resta saber se a Justiça Eleitoral irá cassar a candidatura do vencedor por uso da máquina, como se discutia durante a campanha.

8) É cedo para decretar a morte do PT. Os eleitores mandaram um recado através do voto. Parte da esquerda foi desalojada das Prefeituras e realocada nos parlamentos municipais para cumprir o papel de oposição. Parte, desalojada também das Câmaras de Vereadores, deverá ir para as ruas, de onde saiu na década de 80. De um ponto de vista muito otimista, o retorno às ruas pode levar o PT e os movimentos sociais a ele relacionados fazerem sua autocrítica. Isso será um processo bem doloroso e longo, em que os diferentes grupos e movimentos da esquerda irão bater bastante cabeça entre si, como foi na década de 70 durante a ditadura. Aliás, isso acontece nesta noite, com gente do PT e do PSOL quebrando o pau nas redes sociais. Particularmente, não acredito que parte da esquerda conseguirá fazer essa autocrítica. Mas isso já é outra historia

9) Em Fortaleza, o candidato de Ciro e Cid Gomes, Roberto Cláudio (PDT), foi reeleito. Não sei se isso fortalece as pretensões presidenciais de Ciro, mas, ao menos, não as derruba antecipadamente. Clécio Luís (Rede) também foi reeleito prefeito de Macapá (AP) – isso não ajuda muito as pretensões de Marina Silva, que segue não imprimindo uma marca ao partido. O governador Flávio Dino (PC do B), cujo partido havia eleito muitos prefeitos no primeiro turno no Maranhão, viu o candidato em quem declarou voto (Edivaldo Holanda Jr) vencer a capital São Luís. Apesar, é claro, do outro candidato, Eduardo Braide, também ter disputado o apoio de Dino. Seu correligionário Edvaldo Nogueira venceu em Aracaju (SE). Isso pode mexer com a correlação de forças entre PT e PC do B. Será que chegou a hora dos comunistas saírem da órbita do partido do ABC e exigir o protagonismo dessa dupla?

10) O PSDB cresceu significativamente. Mas um rosário de partidos menores conquistou importantes cidades e capitais. Não é possível saber o que o fortalecimento de siglas menores fará com o já fragmentado Congresso Nacional. Mas ainda acho que não há um grande vencedor nestas eleições. Como já escrevi aqui, a classe política é responsável pela situação a que chegamos, com toda a corrupção, incompetência e ignorância que minou a credibilidade de instituições. Compra da Reeleição, Mensalões, Trensalões, Lavas-Jato e a maioria dos escândalos, que permanece longe dos olhos do grande público. A democracia representativa tradicional e seus vícios se mostraram insuficientes para as demandas da população.

Ao mesmo tempo, políticos, mídia, empresários e parte da sociedade conseguiram a proeza de dar espaço aos que defendem que ''fazer política é escroto''. Ou seja, ao invés de tentarmos melhorar a política, reinventar a democracia, a saída é negar tudo o que ela representa e buscar saídas rápidas, vazias e, não raro, autoritárias. Daí, surgiram candidatos que estufaram o peito e mentiram, com orgulho, que não são políticos e não fazem política. Isso abre portas para que pessoas que se colocam como ''salvadores da pátria'' ganhem espaço a fim de nos ''tirar das trevas'' sem o empecilho da ''política''.

E é neste momento, como nunca, que precisaremos da política

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/ em 31/10/2016

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Chicago e a violência. E nóis?

 Deu no UOL (http://www.uol.com.br/) em 25/09/2016

O correspondente da BBC Ian Pannell já conheceu muitos locais assolados pela violência. Ele cobriu guerras no Iraque, Afeganistão e Síria. Mas, baseado atualmente em Washington, Estados Unidos, ele não teve que ir muito longe para fazer uma nova reportagem sobre conflitos: Pannell retratou o que está por trás das impressionantes taxas de violência de Chicago, que atingiram o seu patamar mais alto dos últimos 20 anos.
O jornal Chicago Tribune reportou que, no início de setembro, a cidade registrou seu 500º homicídio de 2016, mantendo uma tendência de alta nesse tipo de crime iniciada em 2014, atribuída à guerra entre gangues rivais, à proliferação de armas e à exclusão socioeconômica de parte da população. Apesar de haver diferenças brutais entre zonas de guerra da Síria e as ruas de bairros como Englewood ou Austin, Pannell diz reconhecer algumas similaridades. Desde 2001, 7.916 pessoas foram assassinadas em Chicago. A perda de vidas americanas foi maior do que nas guerras do Iraque (4.504) e Afeganistão (2.385) juntas.
Uma conta rápida: para Chicago em 2016 a taxa de homicídios por 100 mil habitantes será 500/2.695.598/100 mil = 18,5 até início de setembro. Estima-se, na pior das hipóteses, 24,5 para este índice em 2016.

E nóis? 
Diferente da terra de Alphonse Gabriel "Al" Capone (1889-1947), entre os seis municípios com maiores índices da região sudeste, três são capixabas (dados de 2014). São eles: Serra-ES (72,4), Cabo Frio-RJ (67,5), Nova Iguaçu-RJ (58,3), Cariacica-ES (57,5), Betim-MG (49,2) e Vila Velha-ES (49,2).

O Espírito Santo foi o estado com a maior taxa de homicídios da região Sudeste e também registrou a quinta maior taxa do Brasil em 2014. Foram 1528 homicídios durante todo o ano um índice de 39,3 vítimas a cada 100 mil habitantes. Dados: Mapa da violência – 2016. http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2016/Mapa2016_armas_web.pdf

E mais...  
"Não vamos abaixar a guarda" diz André Garcia. Manchete de "A Tribuna" de 01/10/2016. Este senhor é o Secretário de Segurança de Estado do Espírito Santo. E o motivo para não abaixar a guarda: segundo a SESP - Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social – "de janeiro até 29/09/2016 foram assassinadas 77 mulheres" ou 8,5 mulheres assassinada por mês. Em 2015 foram 105 ou 8,7 assassinatos por mês. O Espírito Santo está em 4º lugar em assassinatos de mulheres.

Epílogo
Ianques, brasileiros e brasileiras têm motivos de sobra para não se orgulharem no quesito violência. Mas o Brasil é mais violento. É escabrosa, entre nós, a violência contra a mulher.

Não estamos em paz, estamos em guerra.