quinta-feira, 11 de julho de 2024

Shelley Duvall (1949 - 2024)

Shelley Duvall, musa de Altman, ajudou a mudar Hollywood nos anos 1970

Trabalho contínuo com o americano, que lhe rendeu um prêmio por 'Três Mulheres', contrastou com a tortura de Stanley Kubrick

Inácio Araújo, fsp, 11/07/2024

Shelley Duvall morava em Houston, Texas, preparava-se para o casamento, quando, numa festa que deu em homenagem ao noivo, conheceu algumas pessoas da equipe de Robert Altman, que naquele momento filmava "Voar É com os Pássaros", de 1970.

Altman impressionou-se com ela e, de imediato, lhe pediu para fazer um teste de câmera. Ela relutou. Teria de ir a Los Angeles, ela, que nunca havia até então saído do Texas. No fim, topou, pensou que talvez fosse, de fato, uma atriz.

Shelley Duvall em 'Voar É com os Pássaros', de 1970 - Lion's Gate Films/Divulgação 

Altman lhe deu um dos principais papeis do filme e o resto é o que se sabe. Casou-se com Bernard Sampson, ficou quatro anos com o primeiro marido. Mas sua vida mudou: ela tornou-se uma das mais importantes atrizes da geração que transformaria Hollywood naquela década de 1970.

Seu rosto tem a particularidade de torná-la reconhecível tão logo a vemos —longo, magro, com olhos grandes e expressivos. Mas não é só isso que a torna especial. Não segundo Altman, pelo menos. Para ele, Shelley era capaz de explorar "todos os lados do pêndulo: charmosa, boba, sofisticada, patética e até mesmo bonita".

Com efeito, trabalhando com Altman (o que fez continuamente) ou não, Shelley Duvall foi capaz de compor personagens distantes umas das outras. Com isso, chegou a ganhar um prêmio de melhor atriz em Cannes por "Três Mulheres", de Altman, em 1977. "Ele me oferece papéis muito bons", comentou certa vez a atriz. "Nenhum deles foi igual. Ele tem grande confiança e mim, confiança e respeito, e ele não coloca nenhuma restrição em mim ou me intimida".

Ou seja, o exato oposto de sua relação com Stanley Kubrick, com quem filmou "O Iluminado", de 1980. Kubrick nunca escondeu que esperava mais de Duvall. E ela nunca escondeu que os sofrimentos a quem foi submetida pelo cineasta, durante os 13 meses de filmagem, beiravam o sadismo. "Se você quer sentir dor e chamar a isso de arte, vá em frente. Mas não comigo", diria.

Em uma entrevista de 1981, afirmou que Kubrick a fez chorar "12 horas por dia, semanas a fio", quando ela fazia Wendy, a mulher do enlouquecido Jack Torrance, vivido por Jack Nicholson.

Sissy Spacek, à dir., e Shelley Duvall em cena do filme 'Três Mulheres', de 1977 - Twentieth Century Fox/Divulgação 

Por sorte, no mesmo ano filmou "Popeye", com Altman, uma história baseada no célebre personagem dos quadrinhos. Numa comédia musical bem injustiçada, a atriz fez um papel totalmente adequado a seu tipo, Olivia Palito, ao lado de Robin Williams. Ali pôde de certa forma por em ação o primeiro conselho que ouviu de Robert Altman: "Não se leve muito a sério". Com efeito, não era a pessoa certa para trabalhar com Kubrick.

Depois dessa fase, em que trabalhou também com Woody Allen ("Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", de 1977) e Terry Gilliam ("Os Bandidos do Tempo", 1981), sua carreira se diversificou; fez shows e filmes para TV, gravou discos e, em 1987, fundou sua própria produtora, a Think Entertainment.

Desde 1989, viveu com o músico Dan Gilroy, o companheiro que anunciou sua morte. Em 2002, quando recolheu-se, alegando questões de saúde, e voltou ao Texas, a atriz tornou-se uma espécie de mistério hollywoodiano, sobretudo depois que apareceu em um talk show falando de sua própria saúde mental debilitada.

Sua morte, no entanto, foi decorrente de diabetes, de acordo com relatos da imprensa americana. Aconteceu em Blanco, no Texas. Duvall tinha 75 anos.


7 a 1

saiu do futebol para simbolizar fracassos do Brasil

Derrota vexaminosa para a Alemanha no Mineirão completa 10 anos 

Sérgio Rodrigues, fsp. 06/07/2024

[RESUMO] Há 10 anos, em 8 de julho de 2014, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, o futebol brasileiro sofreu a maior humilhação de sua história: a goleada de 7 a 1 para a Alemanha, em partida de semifinal da Copa. A hecatombe esportiva não só estremeceu um pilar central da identidade nacional —a excelência dentro dos gramados, cada vez mais distante da seleção pentacampeã— como também entrou no vocabulário do país como metáfora do clima de desesperança instalado na última década na vida brasileira.

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No ambicioso ensaio "Veneno Remédio" (Companhia das Letras), lançado em 2008, José Miguel Wisnik começa a tecer os múltiplos fios de sua reflexão sobre o futebol como fato cultural global com uma constatação que, quase desencorajadora para a dificuldade da empreitada, acaba por valorizá-la, numa ambivalência que está no cerne do livro e do próprio esporte: talvez estivesse escrevendo para ninguém.

Como assim, ninguém? É que os amantes do futebol não gostam de refletir criticamente sobre ele, e quem cultiva o pensamento crítico esnoba o futebol (nada impedindo os dois lados de conviverem na mesma pessoa, alternadamente). "Tudo isso, por si só", escreve Wisnik, "já daria um belo assunto: o futebol como o nó cego em que a cultura e a sociedade se expõem no seu ponto ao mesmo tempo mais visível e invisível". 

Essa incompreensão mútua entre pares que podem ser equacionados como alma e razão, turbilhão emocional e linguagem cartesiana, dificultou uma tarefa que seria posta diante da cultura brasileira seis anos após a publicação do livro: a de providenciar curativos para a funda ferida narcísica infligida pela seleção alemã no dia 8 de julho de 2014, em Belo Horizonte, em partida válida por uma das semifinais da segunda Copa do Mundo sediada pelo Brasil

Pintura de Rodrigo Bivar, a partir de fotografia de Eduardo Knapp, sobre desolação do torcedor após derrota do Brasil por 7 a 1 para a Alemanha - Rubens Cavallari/Folhapress 

Torcedor chora ao final da partida. Danilo Verpa / Folhapress

O 7 a 1 foi, como se sabe, um resultado aberrante — provavelmente o mais extraordinário da história esportiva em todos os tempos, por envolver a completa e humilhante aniquilação da mais vitoriosa seleção do esporte mais popular do mundo, em sua própria casa, por aquela que é sua principal desafiante. Trata-se de algo muito sério, e tão mais sério quanto mais risível.

"O ridículo desonra mais do que a desonra", disse La Rochefoucauld em uma de suas máximas, três séculos e meio antes do 7 a 1. Imagine-se então uma desonra impensável no tempo do nobre francês, transmitida ao vivo para uma audiência planetária e recaindo sobre um país especialmente vulnerável, ciclotímico, de glórias escassas.

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7 a 1

Maio humilhação do futebol brasileiro completa 10 anos

Paraíso baiano à beira-mar alavancou êxito alemão na Copa do 7 a 1 https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2024/07/paraiso-baiano-a-beira-mar-alavancou-exito-alemao-na-copa-do-7-a-1.shtml

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Periférico e pobre, semianalfabeto e acossado por surtos periódicos de autoritarismo militar, com saneamento básico atrasado em mais de um século e milionários filistinos que passam férias em Miami, o Brasil encontrou no reconhecimento internacional à excelência de seu futebol e sua música popular dois pilares de identidade nacional, sustentáculos de uma autoestima de resto vacilante. Foi numa dessas vigas que os sete gols alemães —de Müller, Klose, Kroos (2), Khedira e Schürrle (2) — provocaram fissuras talvez remediáveis, talvez não

No décimo aniversário do desastre, os sinais não são animadores. Em contraste com uma hecatombe esportiva de dimensões semelhantes, o lendário Maracanaço, o 7 a 1 não levou o Brasil ao luto, mas ao recalque. Se a derrota de 1950 foi meticulosa e obsessivamente vivida como tragédia por um país que tinha como melhor resultado internacional um terceiro lugar na Copa de 1938, a tragicomédia de 2014 já era piada antes mesmo do apito final.

Para retomar a oposição apresentada acima, os amantes do jogo reagiram ao impensável com uma simulação de leveza e deboche que, esgotado o prazo regulamentar dos memes, deu lugar ao silêncio; enquanto isso, os críticos usavam o mesmo deboche para reafirmar seus conceitos sobre a frivolidade e a alienação promovidas pela paixão esportiva, da qual sempre tirou proveito uma súcia de cartolas e empresários. (Mais uma vez, nada impede a mesma pessoa de alternar as duas visões.)

Se os torcedores optaram por tratar o resultado como acidente cômico, sem importância real, os críticos viram nele o bem-vindo golpe fatal numa ilusão coletiva que já morria tarde. E assim o 7 a 1 foi morar naquele nó cego apontado por Wisnik. Ocorre que, como todo nó cego, esse não deixa de existir por ser invisível.

Freud ensinou que o recalcado sempre volta sob outras formas, e a derrota ridícula de 2014, sobre a qual pouco se pensou e se escreveu em dez anos, deixou sua marca na linguagem. O 7 a 1 entrou para o vocabulário brasileiro —tudo indica que para ficar— como substantivo masculino (para o qual os gramáticos conservadores talvez recomendassem a grafia sete-a-um), metáfora cristalizada, sinônimo galhofeiro de derrocada surpreendente mas fragorosa, total, inapelável.

Entre os placares do futebol, apenas o 0 a 0 tinha merecido até então essa entronização na linguagem comum; no caso, para indicar um esforço que não dá em nada, promessa que se frustra por inteiro, quase sempre em contexto sexual. No entanto, se no 0 a 0 nada acontece, no 7 a 1 acontece tudo —contra nós.

É provável que, impacto esportivo à parte, um detalhe contingente tenha contribuído para o sucesso da expressão: o 7. Conta de mentiroso, revestido de sentidos mitológicos e sagrados desde tempos imemoriais, o 7 é o número das cabeças da besta do Apocalipse e das maravilhas do mundo antigo, por exemplo. Se os alemães, em vez de afrouxar claramente a pressão no segundo tempo da partida, tivessem marcado oito ou mesmo dez gols (não teria sido difícil), a derrota brasileira seria mais acachapante, mas talvez o placar ressoasse menos.

"Tremendo 7 a 1!", passou-se a dizer diante de catástrofes que nada tinham de esportivas —e que, por coincidência ou alguma misteriosa sincronicidade de fatores históricos, não deram sossego ao orgulho nacional nos anos seguintes.

O rompimento da barragem de Mariana, em 2015, foi um macabro 7 a 1 que em 2019 se repetiu com agravantes em Brumadinho. Entre uma tragédia e outra, o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018, goleou nosso patrimônio histórico e nossa dignidade como nação.

"É um 7 a 1 por dia!", ouvia-se nas esquinas de todo o país, enquanto a política brasileira entrava em parafuso. Num processo que já vinha em curso antes da Copa, iniciado com as gigantescas manifestações populares de 2013, o Brasil foi do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro, um político de extrema direita abertamente hostil à democracia, em apenas quatro anos.

"Gol da Alemanha!", demos de exclamar amargamente, numa variante talhada para evitar o desgaste do 7 a 1 por excesso de uso, enquanto um presidente negacionista contribuía para que o número de brasileiros mortos na pandemia de Covid-19 viesse a passar de 700 mil.

O vandalismo golpista do 8 de janeiro de 2023, quando uma multidão de bolsonaristas invadiu a Praça dos Três Poderes uma semana após a posse de Lula, a maioria de camisa amarela da seleção, foi 7 a 1 ao cubo.

Que fique claro: não se trata de estabelecer relações de causa e efeito entre eventos tão disparatados, o que seria uma rendição absurda ao pensamento mágico. Metáforas são metáforas. A ideia é apontar um fenômeno de linguagem que traduz como poucos o sombrio clima de desesperança e até de cinismo instalado nos últimos dez anos na vida brasileira —do qual a maior derrota da história do nosso esporte é emblema e parte fundamental.

De volta ao que se passa nos campos de futebol, é possível que a decadência da seleção pentacampeã do mundo, cujos sinais vêm se multiplicando há anos e neste momento cintilam com força na Copa América, seja inevitável. Máquina bilionária rendida à lógica do hiperconsumo, o futebol globalizado tem sede na Europa e vem transformando as velhas escolas nacionais, que davam sabor inconfundível às Copas, numa pasta mais ou menos uniforme.

Esse modelo reserva ao Brasil, formador de bons atletas em quantidade e craques de vez em quando, o papel de fornecedor de mão de obra — espelhando o de exportador de matéria-prima em outros ramos da atividade econômica. Como os produtos da indústria de ponta, o melhor futebol é fabricado no exterior. Além das limitações estruturais impostas pelo mercado global, a falta de uma política que espane as velhas teias politiqueiras de nossa gestão esportiva condena o antigo "país do futebol" a se manter à margem.

Tudo isso ajuda a explicar o progressivo deslocamento, da seleção para os clubes locais, da paixão preferencial dos torcedores. O fato de ter há anos como líder e único supercraque um adulto infantilizado como Neymar  e o sequestro da camisa amarela pelo bolsonarismo são, nesse quadro de perda de prestígio do "time da CBF", tanto efeitos quanto causas.

Nada disso, porém, justifica menosprezar o 7 a 1 ou tratá-lo como um benfazejo choque de realidade. Sendo obviamente um mito, o "país do futebol" está longe de ter sido uma mentira. Pelo contrário, construiu-se historicamente —e o próprio mito, uma vez instalado na cultura, passa a influenciar a história também.

Conforme descrita com maestria por Mario Filho no clássico "O Negro no Futebol Brasileiro" (1947, Mauad X), a epopeia de afirmação do futebol brasileiro ao longo do século 20 é uma bonita história de ocupação de espaços por jogadores pobres, em sua maioria negros, e da construção de uma marca de excelência de alcance planetário —uma marca cuja força, em grande parte, ainda se mantém.

O sociólogo Gilberto Freyre viu no estilo brasileiro de jogar o esporte criado por aristocratas ingleses "a capoeiragem e o samba". Otimismo racial datado? Talvez sim; de um modo ou de outro, história.

Deixar tudo isso se perder na geleia geral de um amuo com fascistas de amarelo ou com a vida de luxo e ostentação levada por jogadores deslumbrados significa jogar fora não apenas o bebê com a água do banho, mas também a banheira e as próprias noções básicas de higiene.

Encarar o desafio de pensar o 7 a 1 exige reconhecer que, longe de ter sido um acidente imprevisível, ele foi a culminância de um processo: o derretimento de uma equipe que, mal treinada por uma comissão técnica de anciões, viu-se posta como anfitriã diante da obrigação de vencer a qualquer custo

Comovidos demais, esgoelando-se ao cantar o Hino Nacional à capela e debulhando-se em lágrimas —o capitão Thiago Silva à frente— a cada partida, os jogadores buscavam no doping emocional o que sabiam lhes faltar em preparo.

Vinham avançando na competição aos trancos e, contra a forte Alemanha —que terminaria por levantar a taça—, ainda mais fragilizados pela perda do contundido Neymar, desmoronaram espetacularmente. Há lições a serem tiradas daí, entre elas a de que, sem uma preparação atualizada e muito trabalho, o tal "coração na ponta das chuteiras" que os locutores esportivos exaltam é uma maneira garantida de morrer de infarto.

Contudo, antes de começar a pensar em como o 7 a 1 pode ajudar a seleção a reencontrar um caminho virtuoso, será preciso parar de fingir que o resultado humilhante não existiu ou não teve importância. Teve —e descomunal. Enfrentar esse tabu teria a vantagem extra de nos permitir fazer justiça ao solitário gol do Oscar

Marcado em jogada individual no último minuto do tempo regulamentar, quando a desgraça estava mais do que consumada, aquilo que chamam, com boas razões, de "gol de honra" exigiu do ótimo meia formado no São Paulo uma força moral que eu não sei de onde terá saído. É triste que o 1 do 7 a 1 nunca tenha sido reconhecido pelo que representou naquele dia funesto: a única prova de que o futebol brasileiro, estrebuchando ali, todo esculachado, não ia morrer tão facilmente.

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ANATOMIA DE UMA QUEDA

ANTES

Jogando em casa, o Brasil era tido como favorito na Copa de 2014. O treinador era Luiz Felipe Scolari, o mesmo do penta, em 2002.

Na primeira fase, o Brasil derrotou a Croácia (3 a 1), empatou com o México (0 a 0), e venceu Camarões (4 a 1). Nas oitavas de final, após empate (1 a 1), vencemos o Chile por 3 a 2 nos pênaltis. Nas quartas, eliminamos a Colômbia por 2 a 1

DURANTE

No Mineirão (BH), em 8/7, Brasil e Alemanha se enfrentaram na semifinal. Às 17h daquele dia começava o 7 a 1, pior desastre do esporte brasileiro.

Gols da Alemanha

O time abriu o placar do jogo aos 11 minutos (Thomas Müller). Numa inacreditável sequência de seis minutos marcou mais quatro: aos 23 (Miroslav Klose), aos 24 (Toni Kroos), aos 26 (de novo Kroos) e aos 29 (Sami Khedira). No segundo tempo, o 6º gol veio aos 69 minutos (André Schürrle). E o fatídico 7º apareceu aos 79 (Schürrle, mais uma vez)

Gol do Brasil

O solitário, chorado e mais desprezado gol brasileiro em uma Copa veio literalmente aos 45 do segundo tempo, no último minuto regulamentar, dos pés do meio-campista Oscar

DEPOIS

Em 12/7, no Estádio Nacional de Brasília, Brasil terminou o torneio em 4º lugar, após nova surra: 3 a 0 para Holanda. Desde então, a seleção brasileira teve poucos momentos de brilho. Terminou em 6º lugar na Copa de 2018 e 7º na de 2022.

Na final de 2014, a Alemanha venceu a Argentina por 1 a 0, na prorrogação, no Maracanã (Rio) e conquistou seu tetracampeonato

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Fotos do  7 a 1

https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/nova/27032-brasil-x-alemanha#foto-369876


quarta-feira, 10 de julho de 2024

Indígenas no governo Lula 3: abandono

Lula é cobrado por indígenas na ONU: 'Nossas crianças continuam morrendo'

Jamil Chade - Terras indígenas no Brasil - ISA, 10/07/2024

Lideranças indígenas afirmam que, apesar das medidas adotadas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, continuam ameaçados pela violência, pelo garimpo, pela fome e por doenças. A queixa foi apresentada na reunião do Mecanismo de Especialistas da ONU sobre Direitos dos Povos Indígenas, em Genebra.

As terras indígenas Kayapó e Munduruku (foto), no Pará, são as mais devastadas por garimpo ilegal no Brasil Imagem: Marizilda Cruppe/Amazônia Real/Amazon Watch

Nos últimos dias, especialistas, ongs e líderes indígenas realizaram reuniões na ONU, pedindo que o organismo amplie sua atenção ao que está ocorrendo no Brasil e que cobre o governo Lula a agir.

Um dos porta-vozes da operação no exterior é Júlio David Ye'kwana, presidente da Associação Wanasseduume Ye'kwana, da Terra Indígena Yanomami. Ele representa a Aliança de Defesa Territorial entre os povos Kayapó, Yanomami e Munduruku. "Somos os três povos mais afetados pelo garimpo ilegal de ouro no Brasil", disse.

Durante a reunião, outra liderança indígena também tomou a palavra. Doto Takak Ire, liderança Kayapó da Terra Indígena Menkragnoti, insistiu sobre a existência da uma rede de crime organizado atuando em suas terras.

"Tem máquinas pesadas nos nossos territórios, os garimpeiros estão metidos com o crime organizado e o ouro é vendido internacionalmente", disse.

Sua cobrança foi direcionada tanto para os governos estrangeiros quanto ao Brasil.

"É necessário que todos os países se comprometam em verificar a origem do ouro que estão comprando", pediu. Suíça e Canadá são os principais importadores de ouro do Brasil. Em 2022, lideranças indígenas pediram que refinarias suíças se comprometessem a não comprar ouro de Terras Indígenas, porém, a falta de mecanismos de rastreamento eficientes prejudicam a fiscalização.

"Queremos que a ONU cobre o Brasil para criar leis para controlar a cadeia de comercialização do ouro e o uso das máquinas escavadeiras", disse.

Seu apelo é para que o governo crie leis para controlar o comércio de mercúrio e proibir o seu uso na mineração. "É urgente que o Supremo Tribunal cancele a Lei 14.701 de 2023 e o governo avance com a demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu do Povo Munduruku e todas as outras", pediu.

Ele ainda criticou o Congresso Nacional, que vai analisar a PEC 48. "O Congresso brasileiro é contra nós e muitas vezes a ameaça vem na forma da lei", disse. "Hoje a ameaça é a mineração ilegal do oro, mas amanhã poderá ser o regulamento da mineração industrial dentro das nossas terras indígenas", alertou.

"Não queremos nenhum tipo de exploração dos recursos naturais em nossos territórios", completou.

Missão

Ao longo da semana, o grupo de indígenas apoiado pelo Instituto Socioambiental (ISA), Greenpeace, Instituto Iepé, Rainforest Foundation Norway e Instituto Race and Equality, ainda estão entregando dados aos relatores e equipes da ONU mostrando que o garimpo em territórios dos povos Kayapós, Yanomami e Munduruku disparou 495% entre 2010 e 2020.

Segundo eles, em 2023, a exploração ilegal de ouro em Terras Indígenas na Amazônia brasileira resultou no desmatamento diário de uma área equivalente a quatro campos de futebol. Nas terras dos povos Kayapó, Munduruku e Yanomami se concentram 95% dos garimpos ilegais, totalizando 26,7 mil hectares destruídos até meados de 2024.

As lideranças Kayapó e Ye'kwana ainda apresentaram as seguintes demandas ao estado brasileiro, em reuniões fechadas com equipes da ONU:

1. Concluir em caráter emergencial a desintrusão da TI Yanomami e implementar a desintrusão das TIs Munduruku e Kayapó;

2. Apresentar planos de proteção territorial permanentes para todos os territórios, que incluam: (i) implementação e/ou recuperação de bases de proteção territorial; (ii) controle efetivo do espaço aéreo; (iii) monitoramento remoto regular do desmatamento dentro das Terras Indígenas, com resposta rápida dos órgãos de comando e controle diante de novos alertas; (iv) formação de agentes indígenas para contribuir com a proteção territorial; (v) promoção de patrulhas regulares nas zonas sob pressão; (vi) garantia da segurança das lideranças e organizações indígenas ameaçadas por garimpeiros.

3. Garantir a expansão das pesquisas sobre contaminação mercurial nas pessoas e nos peixes que consumimos; a célere elaboração de um plano de acompanhamento e tratamento das pessoas contaminadas; e de um plano de descontaminação dos rios;

4. Desenvolver e implementar mecanismos para aprimorar a transparência e o controle da cadeia produtiva do ouro, tanto dentro do território nacional quanto nos destinos das exportações;

5. Controlar a comercialização ilegal do mercúrio, sobretudo nas fronteiras do país;

6. Controlar a comercialização de máquinas utilizadas no garimpo, como retroescavadeiras, e exigir que os fabricantes rastreiem o seu uso;

7. Concluir a demarcação da TI Sawre Muybu, do Povo Munduruku. Todos os processos de demarcação no Brasil foram severamente impactados pela Lei 14.701/2023. É urgente que o Supremo Tribunal Federal julgue a inconstitucionalidade desta lei; e

8. Garantir que não haja mineração em Terras Indígenas no Brasil, nem qualquer outro tipo de exploração que afete a salvaguarda dos biomas que nós povos indígenas sempre fizemos. Não queremos substituir o garimpo pela mineração, mas sim o garimpo pela floresta saudável.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2024/07/10/lula-e-cobrado-por-indigenas-na-onu-nossas-criancas-continuam-morrendo.htm


Para o Flamengo cotas é discriminação

A supremacia branca disse que cotas para minorias é discriminação contra ela, a supremacia branca. É escárnio né. 

Bancada feminina do Flamengo repudia veto a cotas em comissões de conselhos do clube

Proposta de ter 10% de mulheres e negros foi rejeitada sob alegação de discriminação

Por Diogo Dantas, 18/06/2024, O Globo

A bancada feminina do Conselho Deliberativo do Flamengo emitiu nota de repúdio ao veto a uma emenda ao estatuto sugerida para a criação de cotas de mulheres e negros nas comissões dos poderes do clube, com 10% dos participantes garantidos para as minorias. 

Última eleição no Conselho Deliberativo do Flamengo — Foto: Divulgação

A comissão de estatuto do Flamengo rejeitou a proposta sob argumento de que ela contraria o artigo 3º do mesmo documento, que diz ser "vedada a discriminação por motivo de origem, raça, sexo, cor, idade, crença religiosa, convicção filosófica ou política e condição social". 

"Em outras palavras, ao propormos cotas, estaríamos discriminando quem não é mulher e quem não é preto, ou seja, estaríamos discriminando homens brancos, uma narrativa totalmente inaceitável e descabida", diz a bancada feminina. 

Confira a nota:

No dia 25 de março de 2024, foi protocolada, na Secretaria dos Conselhos, uma emenda ao Estatuto do Flamengo para que haja 10% de cota para mulheres e/ou pretos na totalidade das Comissões do Conselho Deliberativo.

Essa emenda foi pensada, elaborada e debatida pela Bancada Feminina, cuja rejeição não causou nenhuma surpresa. Todavia, a justificativa utilizada no parecer da Comissão de Estatuto nos causou estranheza e revolta, já que teve como base o artigo 3º do Estatuto que diz: “é vedada qualquer discriminação por motivo raça, sexo, cor, idade, crença religiosa, convicção filosófico ou política e condição social”.

Em outras palavras, ao propormos cotas, estaríamos discriminando quem não é mulher e quem não é preto, ou seja, estaríamos discriminando homens brancos, uma narrativa totalmente inaceitável e descabida. As cotas visam nivelar o campo de jogo, oferecendo às mulheres as mesmas oportunidades que os homens, para que todos tenham a mesma chance. Seria uma medida temporária e necessária para corrigir desequilíbrios e alcançar a igualdade de gênero, não uma forma de discriminação.

O poder judiciário tem cotas, os partidos políticos têm cotas, as universidades têm cotas e, nem por isso, violam o art 5º da Constituição Federal que estipula que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

Não é coincidência que a violência contra a mulher seja tão discutida nos dias de hoje. Atualmente, os direitos das mulheres têm sido uma pauta mundial cada vez mais relevante. A inclusão de mulheres em diferentes áreas é um dever que o Brasil assumiu perante Organizações Internacionais, como a OEA.

Mulheres e negros têm sido objeto de numerosas iniciativas por parte de governos e instituições, como é o caso da Lei das Eleições, que obriga que os partidos políticos tenham um mínimo de 30% de candidaturas femininas viáveis e com pretensão de disputa nas eleições e durante toda a fase do processo eleitoral, conforme o seu art 10º parágrafo 3º, e da Lei de Cotas Raciais que reserva 20% das vagas em concursos públicos aos negros e cuja extensão de prazo e ampliação de vagas encontra-se em discussão no Congresso Nacional.

É compreensível que os conselheiros e os integrantes da Comissão de Estatuto prefiram outras formas de atuação em prol da inclusão e da diversidade, mas é inadmissível que seja alegado que as cotas sejam discriminatórias, enquanto elas apenas pretendem reequilibrar uma conjuntura desigual.

Ao promover a equidade de gênero, estamos enviando uma mensagem clara de que o Flamengo, o maior clube do Brasil, é um clube que valoriza e respeita a contribuição de todos, independentemente de gênero. Isso pode atrair mais as sócias, incentivar a participação feminina em outras áreas e fortalecer nossa comunidade como um todo. Sabemos que existem muitas mulheres competentes, talentosas e apaixonadas pelo Flamengo, prontas para compartilhar suas ideias e trabalhar em prol do nosso clube.

Portanto, estamos manifestando nosso repúdio ao parecer da Comissão de Estatuto e pedimos aos seus integrantes que reflitam sobre o rumo que estamos tomando. Precisamos garantir que justiça, igualdade e democracia sejam mais do que palavras vazias. Estas devem ser os pilares das nossas ações diárias.

Gostaríamos que a Comissão de Estatuto reavaliasse as decisões recentes e tomasse decisões acertadas para garantir que sejam asseguradas as mesmas oportunidades a todos os membros, independentemente de gênero, sendo o sistema de cotas uma solução de curto a médio prazo.

Rio de Janeiro 18 de Junho de 2024

Ivana Poato

Juliane Musacchio

Maria Luiza Costa Martins

Marion Konczyk Kaplan

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Flamengo rejeita cotas para mulheres e negros em comissões A bancada feminina do clube emitiu nota de repúdio ao veto da proposta de reserva de 10% dos cargos para mulheres e negros nas comissões do clube.

PODER360, 20.jun.2024 (quinta-feira)

A Comissão de Estatuto do Flamengo, em uma reunião realizada na última 2ª feira (16.jun.2024), decidiu não aprovar uma proposta que visava a inclusão de cotas para mulheres e pessoas negras nas comissões do clube. A proposta, apresentada pela conselheira Marion Konczyk Kaplan, tinha como objetivo alocar 10% das vagas para esses grupos, com a intenção de tornar a comissão de marketing uma entidade fixa dentro do Conselho Deliberativo e de Administração, promovendo assim a diversidade.

Conselho Deliberativo do Flamengo rejeita proposta de rejeita cotas a mulheres e negros em comissões 

No entanto, a proposta foi rejeitada sob o argumento de que configuraria uma “discriminação”, contrariando o artigo 3º do estatuto do clube, que proíbe discriminação por motivo de origem, raça, sexo, cor, idade, crença religiosa, convicção filosófica ou política e condição social.

A decisão resultou em polêmica e foi amplamente criticada por membros do Conselho Deliberativo, que consideraram a justificativa ultrapassada. Durante a reunião, Kaplan, ao defender sua proposta, foi confrontada por um membro da comissão, mas recebeu apoio de outros membros do conselho.

Em resposta ao veto, a bancada feminina do Flamengo, formada por Ivana Poato, Juliane Musacchio, Maria Luiza Costa Martins e Marion Konczyk Kaplan, divulgou uma nota de repúdio, enfatizando que as cotas são uma ferramenta para promover igualdade de gênero e diversidade, e não discriminação. A nota destaca que medidas semelhantes já são adotadas por outras instituições, como o poder judiciário, partidos políticos e universidades, para fomentar a inclusão e a diversidade.

A Comissão de Estatuto do Flamengo, composta exclusivamente por homens, e o Conselho Deliberativo, com mais de 90% de representação masculina, foram citados como exemplos da necessidade de ações afirmativas para promover a inclusão e a diversidade dentro do clube. A bancada feminina apela para que a Comissão de Estatuto reconsidere sua decisão e adote medidas que assegurem igualdade de oportunidades para todos, independentemente de gênero.

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Fla alega 'discriminação' e rejeita cotas a mulheres e negros em comissões

Alexandre Araújo & Luiza Sá, UOL, 18/06/2024

A Comissão de Estatuto do Flamengo rejeitou uma proposta para que parte das vagas nas comissões do clube fosse voltada a mulheres e pessoas negras sob alegação que seria "discriminação".

O que aconteceu

Foi apresentada uma emenda para que a comissão de marketing seja permanente no Conselho Deliberativo e de Administração. Antes, ela era somente provisória. A conselheira Marion Konczyk Kaplan propôs um adendo à emenda, criando cotas de 10% a negros e mulheres em todas as comissões. A ideia foi apresentada à Comissão de Estatuto.

A comissão rejeitou a proposta sob argumento de que ela contraria o artigo 3º do estatuto. O trecho fala em ser "vedada a discriminação por motivo de origem, raça, sexo, cor, idade, crença religiosa, convicção filosófica ou política e condição social".

O parecer com a resposta foi lido em reunião, que ocorreu na última segunda-feira, a pedido de Antonio Alcides, presidente do Deliberativo. O UOL conversou com diversos conselheiros, que confirmaram o teor do discurso durante o encontro.

A autora da proposta pediu a palavra e foi rebatida por um membro da comissão. Ela identificou a postura como "do século passado" e foi aplaudida por parte do Conselho.

A justifica teve reflexos negativos internamente. Muitos conselheiros interpretaram que a alegação não fazia sentido no contexto apresentado. Isso, inclusive, foi rebatido no plenário.

A Comissão de Estatuto, hoje, é formada apenas por homens. O Conselho Deliberativo do Fla também é de maioria masculina, com mais de 90% de representação.

O UOL procurou o Flamengo, mas não obteve resposta até o fechamento da matéria. Caso haja um posicionamento, o material será atualizado.

'Mensalidades nas federais', a volta dos que não foram

Mensalidades nas federais, uma má ideia em várias dimensões

Rodrigo Ratier, UOL, 10/07/2024

Vira e mexe, a ideia reaparece, apoiada por liberais e até alguns setores da esquerda. Não seria justo cobrar mensalidades em universidades públicas para quem tem condições de pagar? Na reencarnação mais recente, segundo a Folha de S. Paulo, a ideia teria sido cogitada por "integrantes do Executivo" preocupados com o aperto orçamentário. Na segunda-feira (8), o Ministério da Fazenda veio a público para dizer que a iniciativa "jamais esteve entre as medidas em análise pela pasta". 

Cobrar de quem é rico pela oferta de um serviço público parece uma ideia sensata para reduzir desigualdades. Mas no caso do ensino superior, é só aparência: a cobrança fere um princípio constitucional — o artigo 206 garante a gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais — e lança as universidades públicas na perigosa lógica privatista.

Quem já deu aulas em instituições públicas e privadas (me incluo nesse grupo) conhece o jogo. Nas particulares, com raras exceções, aluno é cliente, e o "tô pagando" justifica medidas para atrair e reter a clientela: faculdades que mais parecem um shopping center; redesenho de currículo com disciplinas "atraentes" (que em geral só servem ao marketing); aulas com professores midiáticos; investimento em curso de retorno comercial; fechamento de programas importantes para o país, mas não para a saúde financeira das instituições.

Com a gratuidade, universidades públicas estão a salvo dessas e de outras interferências dos perfis socioeconômicos dos estudantes no ambiente acadêmico, o que é bom.

As premissas da cobrança mal param de pé. Em 2022 — lembre-se que o assunto vem e volta, mas não morre nunca —, a Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca) publicou uma nota técnica sobre o tema

. A ideia de que a maioria dos estudantes das universidades públicas cursou o ensino médio em escolas privadas não é realidade. Em 1996, a proporção nas universidades federais era de 55% de alunos oriundos de colégios particulares e 45% de públicos. A partir de 2010, a tendência se inverte, chegando a 35% com o médio em privadas e 65% em públicas.

. A razão da transformação é a política de cotas para estudantes de escolas públicas e pretos, pardos e indígenas (PPI). Isso vale mesmo para as instituições que tardaram a adotar as mudanças, como a USP, hoje com 55% de oriundos de instituições públicas.

. O ideal é que os percentuais até aumentem, já que mais de 80% da população estuda o fundamental ou médio em escola pública. Cobrar de estudantes de escolas particulares pode criar dependência dessa fonte de recursos, inibir o processo de abertura para alunos das públicas, ainda em curso, e até mesmo reverter essa tendência virtuosa.

. Não para de pé também no corte financeiro: a renda mensal familiar dos estudantes de federais já é semelhante ao da população brasileira em geral. E cerca de 70% dos alunos tem renda mensal per capita de até 1 salário mínimo e meio. Com esse contingente, em vez de cobrar, ocorre o contrário: eles e elas precisam de auxílio financeiro para não abandonar os estudos

. A nota técnica desmente, ainda, que o Brasil gaste mais em ensino superior do que na educação básica --R$ 4 de cada R$ 5 investidos na área vão para a educação básica. É um percentual compatível com a média mundial.

Instituições como o Banco Mundial "denunciam" que um estudante de federal custa três vezes mais que um de faculdade privada. O que é o óbvio: a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão — na prática, uma realidade apenas para as públicas — custa caro, e a qualidade da oferta das duas redes é abismal em favor, novamente, das públicas. Se há algum erro, ele se encontra nos estelionatários cursos de mensalidades a partir de R$ 99 dos grandes conglomerados privados.

A cobrança, por fim, traria pouco efeito prático. Estudos que estimam o impacto da cobrança no orçamento das universidades indicam baixo acréscimo. A título de exemplo, José Murari Bovo, docente aposentado da Unesp (Universidade Estadual Paulista), fez as contas para sua instituição: dependendo do modelo aplicado, as mensalidades abarcariam apenas algo entre 6% e 9% da execução orçamentária.

Se a ideia é ser fiscalmente justo, é mais racional tributar os ricos sobre a renda e não sobre os serviços públicos. Quem não tem nada paga. Quem tem muito paga muito nos impostos.


terça-feira, 9 de julho de 2024

Celular na escola

Mera proibição de celular nas escolas tende ao fracasso. Melhor caminho é o uso racional, acordado entre professores e alunos 

Folha de São Paulo, 27/06/2024

Daniel Cara, Professor da Faculdade de Educação da USP, é membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação & Monique Rufino Silva Pessoa, Professora de ensino médio e técnico da Etec Guaracy Silveira, doutoranda em educação (USP) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Direito à Educação, Economia e Políticas Educacionais (DEEP-USP) & Pedro Augusto Bertolini Bezerra, Professor de ensino fundamental da rede municipal de São Paulo, doutorando em educação (USP) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Direito à Educação, Economia e Políticas Educacionais (Deep-USP)

A tecnologia sempre foi parte inerente à vida humana. Benjamin Franklin nos caracterizava como "toolmaking animals", ou seja, animais que fabricam ferramentas. Os celulares representam um novo capítulo da história entre nós, seres humanos, e nossas criações. Da primeira chamada móvel, realizada em 3 de abril de 1973, aos dias de hoje, os aparelhos evoluíram para smartphones e a previsão é que se consolidem como extensão do nosso próprio corpo.

Proibir ou frear a tecnologia é contraproducente: significa contrariar a própria jornada humana. Contudo, qualquer instrumento tecnológico deve ser utilizado de forma a estabelecer uma experiência profícua. Esse é o dilema no qual está inserido, entre outros, o uso de celulares nas salas de aula.

Caixa para celular de alunos na Escola Castanheiras, em Tamboré - Divulgação 

No livro "Celular: ensaios estatísticos no ensino fundamental", publicado em 2023, os professores Jonatas Póvoa e Leonardo Mota estudam o caso de uma escola pública da rede municipal de São Paulo. Nesse universo, mais da metade dos alunos ganham seus aparelhos antes dos 10 anos, sem supervisão sobre o uso. Muitos estudantes relatam sintomas como cansaço, vista cansada e dores no pescoço devido ao uso excessivo.

Segundo o relatório "Pisa 2022 Results (Volume 2)", publicado pela OCDE em 2023, 45% dos estudantes relataram se distrair com o uso de dispositivos digitais durante as aulas no Brasil, enquanto a média da OCDE é de 30%. Além disso, 40% dos alunos brasileiros se distraem com colegas que estão utilizando seus aparelhos, comparado à média de 25% na OCDE. Ou seja, a presença do celular prejudica o aprendizado.

No mesmo sentido, o relatório "A tecnologia na educação: uma ferramenta a serviço de quem?", publicado pela Unesco em 2023, aponta que há poucas evidências que comprovem a contribuição das tecnologias para a aprendizagem.

Na pesquisa "Proibição do uso de celulares nas escolas: argumentos e orientações de nove países", do Centro de Inovação para Excelência das Políticas Públicas, de 2024, é afirmado que a exposição em excesso dos estudantes às telas prejudica a concentração, causa dependência e afeta o desempenho escolar. Por isso, em alguns países, os celulares ficam longe do alcance dos estudantes durante o período de aula.

Já a nota técnica "Programa Escolas Conectadas: pela segurança, responsabilidade e princípios de direitos humanos", publicada em 2024 pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o uso de tecnologias nas instituições educacionais precisa garantir uma conectividade significativa, incentivando o uso de uma ampla gama de recursos, levando em consideração a questão pedagógica, a independência tecnológica e a proteção de dados dos estudantes.

Portanto, em termos pedagógicos, e considerando nossa experiência no magistério público (ensino fundamental, ensino médio e educação superior), os celulares prejudicam o aprendizado, mas a mera proibição tende ao fracasso.

Como boa prática, acordos devem ser realizados entre alunos, familiares e professores, segundo diretrizes estabelecidas pelo conselho escolar e pela direção, mediante uma reflexão crítica sobre o uso responsável das tecnologias. Inclusive, quando couber, os celulares podem ser utilizados como instrumentos pedagógicos — desde que não promovam desigualdades nas salas de aula.

Se é fato que a posse dos aparelhos é inevitável, também é verdade que o uso indiscriminado e desregulado prejudica a saúde, a segurança e o aprendizado dos estudantes. O caminho é o uso racional, acordado.

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Banir celular nas escolas já trouxe bons resultados. Movimento já ocorre até por iniciativa de comunidades escolares 

Folha de São Paulo, 27/06/2024

Daniel Becker, Pediatra e sanitarista, é médico do Instituto de Saúde Coletiva da UFRJ e da Soperj & Renan Ferreirinha, Secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro

Parece que a sociedade está chegando a um consenso. Pais, educadores, pediatras, gestores públicos, todos percebemos que o excesso de telas, especialmente do celular com seus aplicativos, está provocando danos às nossas crianças e adolescentes.

Nossa juventude vive uma crise: perdas no desenvolvimento, dificuldades de aprendizado e atenção, privação de sono, transtornos comportamentais e isolamento. Reportagem recente da Folha, que analisou dados do SUS de 2013 a 2023, mostrou aumentos que chegam a estrondosos 1.500% em atendimentos por ansiedade e depressão entre 10 e 19 anos, especialmente em meninas.

Celular guardado em mochila de estudante de escola municipal do Rio de Janeiro - Divulgação

Evidências científicas apontam que, se o uso excessivo das telas não é o único culpado, é um dos principais implicados.

Sabemos que redes sociais e outros aplicativos criam mecanismos para provocar dependência, e as crianças são mais suscetíveis. Com isso, elas passam cada vez mais tempo na tela, chegando a 9 ou 10 horas por dia — e começam cada vez mais cedo.

A sucessão de conteúdos curtos, publicitários e superficiais as torna consumistas, apáticas, acríticas, desatentas, incapazes de ler. As bolhas de radicalização geradas pelo algoritmo promovem negacionismo científico e climático, intolerância, violência e bullying, e as deixam suscetíveis a fanatismo político e golpes cada vez mais sofisticados.

A comparação com belezas filtradas e vidas falsamente perfeitas deprime e reduz a autoestima.

Várias medidas estão em marcha para reduzir o uso de telas pelos jovens. Famílias estão se mobilizando para retardar a entrega do celular. Um guia sobre o uso adequado de telas está sendo criado por especialistas e equipes de sete ministérios. A regulamentação das redes está voltando à pauta.

Além disso, muitas escolas estão optando pelo banimento do celular, num movimento que ocorre simultaneamente em inúmeros países, por iniciativa de governos ou de comunidades escolares.

A escola é o espaço público primordial da criança, onde ela adquire habilidades fundamentais, como colaboração, foco, resolução de problemas e conflitos, além de ter contato com artes, esportes e cidadania. Um lugar para aprender a pensar criticamente, a se relacionar com o outro, com o coletivo, com o mundo.

O óbvio: a mera presença do celular na sala de aula, mesmo na mochila, já perturba a atenção. Estudos mostram um sério prejuízo no aprendizado. Isso não se discute mais.

Mas há o precioso recreio. Com as cidades inseguras e crianças confinadas e sem contato com amigos e com a natureza, o pátio escolar se tornou o último reduto da mais essencial atividade da infância: o brincar. E o celular transforma brincadeiras e trocas de afeto em um deserto de imobilidade, isolamento e bullying.

A escola, como espaço regulamentado, oferece uma valiosa pausa para viver no mundo real, o que é cada vez mais difícil lá fora. Isso não significa afastar a criança da tecnologia: existem outros meios menos distrativos, mais eficazes e seguros para esse fim. O uso do celular pode ser permitido para alunos que os necessitem por questões de saúde e em alguns momentos, para que a escola cumpra uma função que precisa assumir: a educação midiática. Mas a presença do aparelho no dia a dia não faz sentido.

A rede municipal de ensino do Rio de Janeiro foi a primeira a banir celulares, exceto para uso pedagógico autorizado pelo professor. Mais de 650 mil alunos da rede municipal e outros milhares de estudantes em grandes escolas privadas já vivem essa realidade. Os primeiros resultados são excelentes: satisfação de professores, de famílias e até dos alunos, que recuperam o prazer de brincar, interagir e aprender.

Está na hora de espalhar essa onda por todo o Brasil.