O BRASIL REALIZA UMA CAMPANHA DE ALFABETIZAÇÃO; Projeto Apoiado pelos EUA. Avanços em Alfabetização no Nordeste em 40 Horas Programa Injetado com Mensagem Política é Ampliado
Por Juan de Onis , Especial para o New York Times, 2 de junho de 1963
NATAL, Brasil, 29 de maio
Os olhos de Maria Pequena de Souza se encheram de lágrimas ao ver o que havia escrito no papel à sua frente. Rabiscada sobre o lençol, sem se importar com as linhas azuis ordenadas, estava a palavra "belota" (franja). A Sra. de Souza, de 32 anos e mãe de seis filhos, chorou emocionada. Foi a primeira palavra que ela escreveu na vida. Pouco mais de um mês depois, a Sra. de Souza escreveu uma carta ao presidente João Goulart. A grafia era ruim e a gramática era coloquial, mas suas palavras transmitiam claramente a angústia dos pobres na região nordeste atrasada do Brasil. "Imploro, senhor, por bolsistas para meus filhos, porque não posso educá-los. Trabalho dia e noite lavando durante o dia e passando à noite, para que não faltem nada. O pai deles, com seis filhos em casa, recebe 300 cruzeiros (50 centavos) por um dia de serviço. Como vamos nos virar?" escreveu a Sra. de Souza.
Alfabetização em 40 Horas
A Sra. de Souza aprendeu a ler e escrever em apenas 40 horas de instrução em grupo por meio de um projeto de alfabetização para adultos, apoiado pela Alliance for Progress, neste estado do Rio Grande do Norte. O nordeste brasileiro, uma região de nove estados com 23.000.000 de pessoas, provavelmente tem 8.000.000 de adultos analfabetos, como a Sra. de Souza era antes de fazer o curso. A meta da Aliança pelo Progresso é eliminar esse analfabetismo até 1970. Nenhum outro programa do esforço financiado pelos Estados Unidos para melhorar as condições econômicas e sociais no nordeste tem potencial para uma reforma política da campanha de alfabetização. "Não estamos apenas tentando ensinar as pessoas a ler e escrever. Pretendemos, por meio do programa de alfabetização, tornar essas pessoas capazes de se tornarem cidadãs", disse Philip Schwab, coordenador de educação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional em Recife, sede da Aliança para o Progresso no norte.
Mensagem Política Injetada
O curso de alfabetização traz uma mensagem cívica, até política. À medida que aprendem a ler, os adultos são informados de que "o voto é o braço do povo", "a educação é para ricos e pobres" e "a reforma agrária é uma necessidade urgente." Francisca de Andrade, uma lavadeira que aprendeu a ler e escrever com a Sra. de Souza, mostrou em uma carta ao presidente Goulart como assimilou as ideias políticas do curso. "Eu não faço mais parte das massas, pertenço ao povo e posso defender meus direitos. Senhor Presidente, precisamos de muitas coisas, como reforma agrária, uma escola, e quero que sua excelência coloque as leis da constituição em prática", escreveu ela. Rio Grande do Norte, que lidera na área de alfabetização, é um estado relativamente pequeno com uma população de pouco mais de um milhão de pessoas. O plano do estado é ensinar 100.000 adultos a ler e escrever até o final do mandato do governador Aluisio Alves em 1966.
Ideia do Grupo Universitário
A campanha de alfabetização começou aqui graças aos esforços de um grupo de estudantes universitários e jovens professores. Eles obtiveram o apoio de Francisco Calazans Fernandez, Secretário de Estado da Educação, e o programa foi incluído no subsídio de US$ 3.000.000 dos Estados Unidos para educação no Rio Grande do Norte. O primeiro projeto foi iniciado em Angicos, uma municipalidade típica do interior, onde 75% dos 9.540 habitantes trabalham nos campos de algodão ou nas salinas. O curso começou com 380 analfabetos adultos. "Quando as primeiras chuvas chegaram em fevereiro, perdemos metade dos homens, que partiram para trabalhar nos campos, mas alguns enviaram seus filhos para concluir o curso", disse Carlo Lira, professor de filosofia que era coordenador do curso. Após 36 horas de aulas de alfabetização e orientação cívica, 150 adultos concluíram o curso, e 135 foram considerados alfabetizados com base em testes escritos e cartas enviadas ao presidente Goulart. Os alunos também foram avaliados pela consciência política.
Programa é Expandido
O curso foi considerado um sucesso e agora está sendo oferecido no bairro Quintas, nesta capital do estado. Será estendido para três cidades do interior em algumas semanas. O método audiovisual para o curso foi desenvolvido pelo Prof. Paulo Freire, da Universidade de Recife. Palavras comumente usadas são escolhidas para serem mostradas em um slide. A primeira palavra que Senhora de Souza escreveu, "belota", significa uma borla que adorna as plantações de montaria usadas pelos cavaleiros locais. Uma vez que a palavra é corrigida graficamente para os alunos por slides, ela é dividida em suas partes fonéticas, e os alunos constroem as palavras foneticamente. Depois, eles passam a escrever palavras.
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Em 1963, Angicos colocava Paulo Freire no New York Times
Cledivânia Pereira, Saiba Mais, 8 de agosto de 2021
Em 2 de junho de 1963, a edição do jornal americano New York Times tinha 404 páginas. Na página 18, ocupando apenas uma coluna, o nome da cidade potiguar de Angicos era escrito pela primeira – e talvez única – vez no jornal. A chamada da reportagem era “BRASIL REALIZA UM MOVIMENTO DE ALFABETIZAÇÃO”, e apresentava ao mundo o pensamento do professor pernambucano Paulo Freire, que havia implantado no RN o projeto ’40 horas de Angicos’.
No próximo mês de setembro, será comemorado o centenário do nascimento de Paulo Freire. Ele é o patrono da educação brasileira, um dos mais respeitados educadores em todo o mundo e conseguiu desenvolver um pensamento tão transformador sobre educação que até hoje suas palavras e métodos de alfabetização apavoram governantes e políticos com inclinações fascistas. Não à toa, é um dos principais nomes combatidos pelo governo de extrema direita de Jair Bolsonaro.
E para celebrar o centenário, a AGÊNCIA SAIBA MAIS começa hoje uma série de reportagens e artigos especiais que serão publicadas até setembro, mostrando quem foi Paulo Freire, a importância dele para a educação brasileira e mundial, e mostrando a importância do RN nessa história toda.
A reportagem do New York Times descreveu o projeto “40 Horas de Angicos”, que tinha o apoio financeiro dos EUA (que tentava combater a disseminação do comunismo pelo mundo. Eram os tempos da Guerra Fria). Com os primeiros resultados do projeto e conclusão da primeira turma alfabetizada, o investimento estava sendo ampliado a partir daquele período. O projeto de Paulo Freire tinha o ousado objetivo de alfabetizar adultos de forma rápida e barata.
Depois da reportagem do New York Times, as atenções da imprensa internacional se voltaram para a experiência implantada na pequena Angicos – distante 194 km de Natal. Na época, a cidade tinha pouco mais de 9 mil habitantes, dos quais 75% moravam na zona rural. Antes de iniciar o projeto, um levantamento da equipe de Paulo Freire mostrou que 75% da população adulta do município era analfabeta.
No livro livro ‘40 Horas de Esperança”, Calazans Fernandes e Antônia Terra apontam que a pequena Angicos recebeu correspondentes de jornais como: Time Magazine, Herald Tribune, Sunday Times, United e Associated Press e Le Monde. Começa, então, a disseminação do nome Paulo Freire.
Angicos não tinha FELICIDADE mas falava em ESPERANÇA
O primeiro passo do projeto ”40 horas de Angicos” era o de catalogar as palavras usadas pelo grupo de alunos. Eram a partir dessa palavras que se trabalharia as aulas de alfabetização. A primeira turma recebeu o diploma de alfabetização em 2 de abril de 1963.
Os educadores catalogaram em Angicos 380 palavras que eram costumeiramente usadas pelos moradores da cidade. Naquela época, FELICIDADE não estava relacionada. No vocabulário relacionada à comunicação dos 300 alunos da primeira turma da experiência, DEUS, PROMESSA, ESMOLA, CHUVA, BELOTA, TRISTE, ALVOROÇO, MEDO, CORAGEM, CONFORMAÇÃO e INVERNO. E essa bolha ortográfica e fonética ainda pode demonstrar, quase 70 anos depois, as características culturais e sociais que envolviam o interior do Rio Grande do Norte.
Vários estudos foram realizados ao longo das últimas décadas sobre a experiência em Angicos. Em um desses, em 2002 , a educadora Nilcéa Lemos Pelandré analisou os “efeitos a longo prazo do método de alfabetização”. Para o trabalho, ela entrevistou alunos da primeira turma do projeto e apontou que os participantes aprenderam a escrever palavras isoladas e frases simples e curtas.Mas, segundo a pesquisadora, a aprendizagem mais significativa identificada nos alunos foi a elevação da autoestima e a consciência de não se sentirem mais excluídos do mundo letrado.
O advogado potiguar Marcos Guerra, que participou diretamente da equipe do projeto de Angicos disse, em entrevista concedida quando o projeto completou 50 anos que “o cunho político do projeto” era forte. “Ou a educação é feita no sentido libertador ou domesticador. E o cunho político é inerente à educação. A educação não é neutra”.
No livro de Calazans – que foi secretário de Educação do RN – ele pontua que ESPERANÇA estava entre as palavras usadas pelos estudantes de Angicos. E essa esperança havia sido renovada após as aulas, como bem descreveu o aluno Antônio Silva, à época com 51 anos. Ele foi o orador da turma na solenidade de conclusão do curso.
“Temos muita necessidade das coisas que nós não sabia, e que hoje estamos sabendo. Em outra hora, nós era massa, hoje já não somos mais, estamos sendo povo”.
Projeto ‘engordava cascavéis’, diziam militares
Na solenidade de diplomação da primeira turma, Angicos recebeu as maiores autoridades do Brasil: o presidente da República, João Goulart, o então governador do RN Aluízio Alves, ministros de Estado, governadores do Nordeste, monitores do projeto, os 300 alunos e suas famílias.
Fardado, lá estava, também, o general Castelo Branco, que um ano após aquela solenidade, assumiu a presidência da República com o golpe militar de 1964. O general não fez pronunciamento público no encontro, mas disse a Calazans Fernandes a famosa e conhecida frase de que o projeto estava “engordando cascaveis”. Um ano após a solenidade de formatura, um dos atos de Castelo Branco foi o de desarticular o grupo do educador Paulo Freire, que foi preso e exilado. O advogado Marcos Guerra, coordenador do projeto de Angicos, também foi preso e exilado.
Projeto foi difundido para outras cidades e estados
Com o sucesso de Angicos, o projeto foi expandido para outras cidades do RN (Natal-Quintas, Mossoró, Caicó e Macau) e de outros Estados do país: Ubatuba (SP), Osasco (SP), Rio de Janeiro, Brasília, Aracaju (SE) e Porto Alegre (RS).
A experiência serviu de exemplo para o um projeto nacional de alfabetização e em janeiro de 1964, um decreto federal reconhecia o “Sistema Paulo Freire para alfabetização em tempo rápido”. A ideia era a criação de 60 mil grupos, para alfabetizar, em 1964, 1,8 milhão de pessoas. E Paulo Freire foi designa pelo MEC para a Comissão Especial do Programa.
Mas não saiu do papel. Em 14 de abril de 1964, apenas 13 dias após o Golpe de Estado, o Decreto nº 53.886, de 14 de abril de 1964, extingue o Programa Nacional. Dois meses depois, em 16 de junho, Paulo Freire foi preso, acusado de “subversivo e ignorante”. No RN, o advogado Marcos Guerra também foi preso e exilado.
Angicos traria Kennedy ao RN
Em outubro de 1963, após a repercussão na imprensa mundial, um grupo da Embaixada norte-americana visita o então governador Aluízio Alves. A ideia, segundo o livro de Calazans, era preparar a visita do presidente John Kennedy. Essa agenda estava planejada para dezembro daquele ano. Kennedy foi assassinado, em Dallas, um mês após a reunião.
O projeto de Angicos foi possível a partir de convênio celebrado, em dezembro de 1962, entre o MEC, a Sudene , o Estado do RN e a Usaid (United States Agency for International Development), dentro dos propósitos da Aliança para a Progresso, celebrada entre os Estados Unidos e países da América Latina com o objetivo de impedir a disseminação do comunismo no continente.
Veja aqui o PDF da reportagem do NYT que mostrou Paulo Freire ao mundo!
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