quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Grande sertão: veredas - Cap. 2

Pedaços, trechos, galhos de uma árvore plantada por João Guimarães Rosa 

Continuação de Grande sertão: veredas - Cap. 1 (Ver aqui

Guerra diverte - demo acha. (Grande Sertão, p. 49)

Influimento

Mas não pudemos. Mal a gente se tocou, para a Cachoeira do Salto, e esbarramos com tropa de soldados - tenente Plínio. Foi fogo. Fugimos. Fogo no Jacare Grande - tenente Rosalvo. Fogo no Jatobá Torto - sargento Leandro. Volteamos. Sobre aí, me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos. No formato da forma, eu não era o valente nem mencionado medroso. Eu era um homem restante trivial. A verdade que diga, eu achava que não tinha nascido para aquilo, de ser sempre jagunço não gostava. Como é, então, que um se repinta e se sarrafa? Tudo sobrevém. Acho, acho é do influimento comum, e do tempo de todos. [54]

Gostava de Diadorim, dum jeito condenado

Diadorim também, que dos claros rumos me dividia. Vinha a boa vingança, alegrias dele, se calando. Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. O demônio diz mil. Esse! Vige mas não rege... Qual é o caminho certo da gente? Nem para a frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito esperando? Mas, quem é que sabe como? Viver... O senhor já sabe: viver é etcétera... Diadorim alegre, e eu não. Transato no meio da lua. Eu peguei aquela escuridão. E, de manhã, os pássaros, que bem-me-viam todo tal tempo. Gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí sabia que já gostava em sempre. Oi, suindara! - linda cor... [73]

 Andar de sapo

Ele era imediatamente estúrdio, vestido de brim azul e calçando botas amareladas. Era nervoso, magro, um pouco mais para baixo do que o tamanho mediano, e com braços que pareciam demais de compridos, de tanto que podiam gesticular. Fui indo, ele veio vindo, o grande revólver na cintura; um lenço no pescoço dele esvoaçava. E aquele cabelo bom, despenteado alto, topete arrepiadinho. Apressei o passo, e ele esbarrou, com as mãos nas cadeiras. Me olhou frenteante, deu risada - de certo nem estava sabendo quem eu era. E gritou, caçoando: - Me vem com o andar de sapo, me vem."

Ah-oh-ah, o destempo de estar sendo debochado se irou em mim. Esbarrei, também. Me fiz mouco. Mas ele veio para mim, então, saudou, com um modo sensato de simpatia. Adiado eu disse: - "Sou o moço professor.." A alegria dele, me ouvindo, foi estupefacta. Me ferrou do braço, com porção de falas e agrados, subiu a escada comigo, me levou para um quarto, lá dentro, ligeiro, parecia até que querendo me esconder de todos. Uma doidice, de que? Ah, mas, ah - esse quem era - o homem? Zé Bebelo. A fixe de fato, tudo nele, para mim, tirava mais para fora uma real novidade. [97]

Contra-fim

Disse ao senhor? - eu estava pensando que ia dar escola para os filhos dum fazendeiro. Engano. O comum, com Zé Bebelo, virava diferente adiante, aprazava engano. Estudante sendo ele mesmo. Me avisou. Quis antever os cadernos, livros, pegar com as mãos. Assim ler e escrever, e as quatro contas, ele ja soubesse, consumia jornais. Remexeu, tarabuz, e tudo foi arrumando na mesa grande do quarto, senhor-jesus-cristo que assoviava, o cantarolado. Mas - e aí comigo falou sério - naquilo se tinha de sungar segredo: eu visse. - Vamos que estou assentando os planos! Você fica sendo meu secretário." Nesse mesmo ido dia, a gente começou. Aquele homem me exercitou tonto, eh, ô, me fino fiz. Ânsia assim e anfa, e poder de entender demais, nunca achei quem outro. O que ele queria era botar na cabeça, duma vez, o que os livros dão e não. Ele era a inteligèncial Norava. Corrido, passava de lição em lição, e perguntava, reperguntava, parecia ter até raiva de eu saber e não ele, despeitos de ainda carecer de aprender, contra-fim. Queimava por noite duas, três velas. [97-98]

Tudo foi um ão e um cão

Novidade nenhuma, o senhor sabe em roda de fogueira toda conversa é miudinhos tempos. Algum explicava os combates com Zé Bebelo, nós o nosso: roteiro todo da viagem, aos poucos para se historiar. Mas Diadorim sendo tão galante moço, as feições finas caprichadas, Um ou dois, dos homens, não achavam nele jeito de macheza, ainda mais que pensavam que ele era novato. Assim loguinho, começaram, aí, gandaiados. Desses dois, um se chamava de alcunha o Fancho-Bode, tratantaz. O outro, um tribufú, se dizia Fulorêncio, veja o senhor. Mau par. A fumaça dos tições deu para a cara de Diadorim - "Fumacinha é do lado - do delicado..." - o Fancho-Bode teatrou. Consoante falou soez, com soltura, com propósito na voz. A gente, quietos.Se vai lá aceitar rixa assim de graça? Mas o sujeito não queria pazear.Se levantou, e se mexeu de modo, fazendo xetas, mengando e castanhetando, numa dansa de furta-passo. Diadorim se esteve em pé, se arredou de perto da fogueira; vi e mais vi: ele apropriar espaços. Mas esse Fancho-Bode era abusado, vinha querer dar umbigada. E o outro, muito comparsa, lambuzante preto, estumou, assim como fingiu falsete, cantarolando pelo nariz:

"Pra gaudêr, Gaudêncio / E aqui pra o Fulorêncio?..."

Aquilo lufou! De rempe, tudo foi um ão e um cão, mas, o que havia de haver, eu já sabia.. Oap!: o assoprado de um refugão, e Diadorim entrava de encontro no Fancho-Bode, arrumou mão nele, meteu um sopapo: - um safano nas queixadas e uma sobarbada - e calçou com o pé, se fez em fúria. Deu com o Fancho-Bode todo no chão, e já se curvou em cima: e o punhal parou ponta diantinho da goela do dito, bem encostado no gogó, da parte de riba, para se cravar deslizado com bom apôio, e o pico em pele, de belisco, para avisar do gosto de uma boa-morte; era só se soltar, que, pelo peso, um fato se dava. O fechabrir de oIhos, e eu também tinha agarrado meu revólver. Arre, eu não queria presumir de prevenir ninguém mais queria mesmo era matar, se carecesse. Acho que notaram. Ao que, em hora justa e certa, nunca tive medo. Notaram. Farejaram pressentindo: como cachorro sabe. Ninguém não se meteu, pois desapartar assim é perigoso. Aquele Fulorêncio instantâneo esbarrou com os acionados indecentes, me menos olhou uma vez, dai não quis me encarar mais. - "Coca, bronco!" - Diadorim mandou o Fancho se levantase que puxasse também da faca, viesse melhor se desempenhar! Mas o Fancho-Bode se riu, amistoso safado, como tudo tivesse constado só duma brincadeira: - "Oxente! Homem tu é, mano-velho, patricio!" Estava escabreado. Dava nôjo, ele, com a cara suja de maus cabelos, que cresciam por todo lado. Guardei meu revolver, respeitavelmente. [119-120]

Carurú com ofa de angủ

Por tudo, eram fogueiras de se cozinhar, fumaça de alecrim, panela em gancho de mariquita, e cheiro bom de carne no espeto, torrada se assando, e batatas e mandiocas, sempre quentes no soborraIho. A farinha e rapadura: quantidades. As mantas de carne-ceará. Ao tanto que a carne de sol não faltasse, mesmo amiúde ainda saíam alguns e retornavam tocando uma rês, que repartiam. Muitos misturavam a jacuba pingando no coité um dedo de aguardente, eu nunca tinha avistado ninguém provar jacuba assim feita. Os usares! A ver, como o Fafafa abria uma cova quadrada no chão, ajuntava ali brasas grandes, direto no brasal mal-assasse pedação de carne escorrendo sangue, pouco e pouco revirava com a ponta do facão, só pelo chiar. Disso, de- nitivo não gostei. A saudade minha maior era de uma comidinha guisada: um frango com quiabo e abobora-d'agua e caldo, um refogado de carurú com ofa de angủ. Senti padecida falta do São Gregório - bem que a minha vidinha lá era mestra. Diadorim notou meus males. Me disse consolo: - "Riobaldo, tem tempos melhores. Por ora, estamos acuados em buraco..." Assistir com Diadorim, e ouvir uma palavrinha dele, me abastava aninhado. [125-126]

Hermógenes era fel dormido

Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de experiência. Mas, com o tempo, todo o mundo envenenava do juízo. Eu tinha receio de que me achassem de coração mole, soubessem que eu não era feito para aquela influição, que tinha pena de toda cria de Jesus. - "E Deus, Diadorim?" - uma hora eu perguntei. Ele me olhou, com silênciozinho todo natural, daí disse, em resposta: - "Joca Ramiro deu cinco contos de réis para o padre vigario de Espinosa..."

Mas o Hermógenes era fel dormido, flagelo com frieza.

Ele gostava de matar, por seu miúdo regozijo. Nem contava valentias, vivia dizendo que não era mau. Mas outra vez, quando um inimigo foi pego, ele mandou: - "Guardem este." Sei o que foi. Levaram aquele homem, entre as árvores duma capoeirinha, o pobre ficou lá, nhento, amarrado na estaca. O Hermógenes não tinha pressa nenhuma, estava sentado, recostado. A gente podia caçar a alegria pior nos olhos dele. Depois dum tempo, ia lá, sozinho, calmoso? Consumia horas, afiando a faca. [127]

Amizade de amor

Mais em paz, comigo mais, Diadorim foi me desinfluindo. Ao que eu ainda não tinha prazo para entender o uso, que eu desconfiava de minha boca e da água e do copo, e que não sei em que mundo-de-lua eu entrava minhas ideias. O Hermógenes tinha seus defeitos, mas puxava por Joca Ramiro, fiel - punia e terçava. Que, eu mais uns dias esperasse, e ia ver o ganho do sol nascer. Que eu não entendia de amizades, no sistema de jagunços: Amigo era o braço, e o aço! 

Amigo? AI foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. o de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase: e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim; era o Fafafa, o Alaripe, Sesfrêdo. Ele não quis me escutar. Voltei da raiva.

Digo ao senhor: nem em Diadorim mesmo eu não firmava o pensar. Naqueles dias, então, eu não gostava dele? Em pardo. Gostava e não gostava. Sei, sei que, no meu, eu gostava, permanecente. Mas a natureza da gente é muito segundas⁃e-sábados. Tem dia e tem noite, versáveis, em amizade de amor. [133-134]

Ladeei conversa

Andei, em dei, até que lembrei: o Garanço. Bom, o Garanço, esse ia comigo, me seguia em tudo, era pobre homem à espera de qualquer ordem cordial. Isto ele mesmo nem sabia, mas era: que carecia era de alguma amizade Estava lá, curvado, cabeçudo como uma cigarra. Estava cozinhando pequis, numa lata. - "Eh, eh nós!..." ele assim dizia. Ladeei conversa. Ele me ouvia, com anuídos, e fazendo uma cara de entender. Não conseguia. Só conseguia demonstrar os tamanhos de sua cabeça. Ao que bastava um meu maior cochicho, e o Garanço vinha, servia de companheiro para fugirmos. O mais que pudesse haver, era ele primeiro perguntar:. "E o Reinaldo?" -; porque já estava acostumado com eu e Diadorim sermos dois e ele querer ser o três. Então, eu respondi: - "Segredo, eh, Garanço. Segredo, eh, e vamos!" - e que Diadorim era para vir depois. O Garanço tinha alguma diferença, por alguma banda de sua natureza ele se desapartava da jagunçagem. [136]

A voz dele vinha pelos dentes

O Jesualdo, Fafafa e João Vaqueiro não esbarravam de falar, mais o Alaripe também, repesavam as vantagens da Santa Catarina. No que eu pensava? Em Otacília. Eu parava sempre naquela meia-incerteza, sem saber se ela sim-se. Ao que nós todos pensávamos as mesmas coisas; o que cada um sonhava, quem é que sabia?

- "Aquilo é poço que promete peixe..." - o Jesualdo disse. Dela devia de ser.

- "Amigo não toque no nome dessa moça, amigo.!.." - eu falei. Ninguem deu resposta, eles viam que era a sério fatal, deviam de estar agora desqueixelados, no escuro. Por longe, a mãe-da-lua suspirou o grito: - Floriano, foi, foi, foi... - que gemia nas almas. Então, era que em alguma parte a lua estava se saindo, a mãe-da-lua pousada num cupim fica mirando, apaixonada abobada. Deitado quase encostado em mim, Diadorim formava um silêncio pesaroso. Daí, escutei um entredizer, percebi que ele ansiava raiva. De repente.

- "Riobaldo, você está gostando dessa moça?"

Ai era Diadorim, meio deitado meio levantado, o assopro do rosto dele me procurando. Deu para eu ver que ele estava branco de transtornado? A voz dele vinha pelos dentes.

- "Não, Diadorim. Estou gostando não.." - eu disse, neguel que reneguei minha alma obedecia.

- "Você sabe do seu destino, Riobaldo?"

Não respondi. Deu para eu ver o punhal na mão dele, meio ocultado. Não tive medo de morrer. Só não queria que os outros percebessem a má loucura de tudo aquilo, Tremi não.

⁃ "Você sabe do seu destino, Riobaldo?" - ele reperguntou. Ai estava ajoelhado na beira de mim.

- "Se nanja, sei não. O demônio sabe.." -  eu respondi. - "Pergunta.." 

Me diga o senhor: por que, naquela extrema hora, eu não disse o nome de Deus? Ah, não sei. Não me lembrei do poder da cruz, não fiz esconjuro. Cumpri como se deu. Como o diabo obedece - vivo no momento. Diadorim encolheu o braço, com o punhal, se defastou e deitou de corpo, outra vez. Os olhos dele dansar produziam, de estar brilhando. E ele devia de estar mordendo o correiame de couro. [144-145]

Jaculatória de São Bento

O capim escorria, do sereno da noite, lagrimado. Ah, e cobra? Pensar que, num corisco de momento, se pode premer mão numa rodilha grossa de cascavél, numa certa morte dessas. Pior é a surucucú, que passeia longe, noturnazā, monstro: essa é o que há com mais dôida ligeireza neste mundo. Rezei a jaculatória de São Bento. A água do sereno me molhava, da macega, das folhas, - é o que digo ao senhor; me desgostava. Raio de um repente, afastaram a erva alta, minha cabeça eu encolhi. Era um tatú, que ia entrando no buraco, fungou e escutei o esfrégo de suas muxibas. Tatú-peba, e eu no rés dele. Que modo que? [152]

S'as ordens, s'or

 E não gostei nunca de homem intrujão, com esses não começo conversa: não hio e não chio. Tanto que mesmo foi o Hermógenes que um dia me chamou, veio caçoando: - "Eh, valente tu é, Tatarana! Gosto dessa sua bizarria..."

"S'as ordens, s'or.." - eu só falei. Porque, ele, pelo jeito, logo entendi que ia me fazer algum espontâneo obséquio, ou me dar alguma boa notícia; todo que um, assim, nessas horinhas, logo muda de modo: antes, aproveita um tico para falar de cima, jeitoso de dono bom ou de pai que cede. E foi que não errei. O que o Hermógenes queria me prometer era que em breve iam estar acabados aqueles riscos de trabalho e combate, com liquidados os bebelos, e então a gente ficava livre para lidar melhormente, atacando bons lugares, em serviço para chefes políticos. E que, nessa ocasião, ele queria me escolher para comandar uma parte dos seus, por ser isso de minha rija competência - cabo-de-turma. [169]


NB: Entre colchetes [ ] a página do livro.

Grande sertão: veredas - "O diabo na rua, no meio do redemoinho" - Edição especial 70 anos, João Guimarães Rosa, 573 p., Companhia das Letras, 2026.




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