domingo, 11 de dezembro de 2022

Paterno e Lupicínio

Fest Aruanda 2022: A força de Paterno e Lupicínio Rodrigues

Luiz Zanin, O Estado, 07/12/2022

JOÃO PESSOA - Ontem foram apresentados os últimos concorrentes do 17º Fest Aruanda e hoje à noite serão conhecidos os vencedores. Numa noite em que haverá homenagem ao ator e cantor Toni Tornado e exibição, fora de concurso, do doc Belchior: apenas um coração selvagem. À tarde ainda haverá uma sessão especial de Os Doces Bárbaros, de Jom Tob Azulay, homenagem à cantora Gal Costa, recentemente falecida. 

Já havia visto os longas de ontem - Paterno, de Marcelo Lordello, e Lupicínio Rodrigues: Confissões de um sofredor, de Alfredo Manevy - em outras ocasiões. Revi-os e não mudei de opinião. Antes, na releitura, ressaltaram-se suas qualidades. Em particular, sua força, tanto na denúncia da burguesia predatória em seu ramo imobiliário e no destaque a um dos mais importantes compositores brasileiros, que, no entanto, ocupa uma posição um tanto excêntrica na história da nossa música popular. 

Seguem os textos, escritos quando vimos os filmes pela primeira vez. 

Paterno, de Marcelo Lordello, escava em território pouco explorado pelo cinema brasileiro - a classe alta. Tudo gira em torno do personagem principal, Sérgio, vivido por um extraordinário Marco Ricca. Ele, junto com o irmão, é sócio de uma incorporadora imobiliária. Tocam o projeto de uma incorporação imobiliária numa área de preservação. Têm dois desafios pela frente. Um, comprar a preço de banana as pequenas propriedades espalhadas pelo terreno. Dois, "trabalhar" junto à câmara dos vereadores para que a legislação seja alterada e possibilite a construção de edifícios altos no local. Como se sabe, o poder de convencimento das construtoras é muito grande. Sua "retórica" é poderosa, como atestam as metrópoles brasileiras, sistematicamente destruídas pela especulação imobiliária.

Marco Ricca

Acontece que Sérgio pouco tem de um incorporador típico. Quer dizer, tem e não tem. É um pouco predador e autoritário, como convém ao modelo. Porém, é também cheio de dúvidas e insegurança. O filho quer seguir a carreira de arquiteto, mas à sua maneira. O pai, que ergueu a empresa, encontra-se à morte, no hospital. Seu irmão (Nelson Baskerville) considera-se o chefe da empresa, pois foi designado pelo pai. 

E há a questão das casas a serem compradas e depois derrubadas para que o condomínio seja erguido. Cada negociação é difícil. E, para isso, um dos moradores (Thomás Aquino) se oferece como "infiltrado" para convencer os recalcitrantes. A troco de uma gorda porcentagem, claro. 

Tudo vai empurrando Sérgio para uma crise profunda. Que, porém, não explode. Ou tarda a explodir, pelo menos da maneira convencional. 

Há aí algo a ser notado e que não está propriamente no enredo, mas na maneira como ele é transformado em filme. É uma questão do tempo. Da mise-en-scène. Tudo se desenvolve sem pressa, com um senso de detalhismo muito profundo. Por exemplo, na sequência inicial, Sérgio chega de carro ao Bairro de Brasília Formosa, onde pretende edificar sua obra. Entra num imóvel, como se fosse um comprador comum, em busca de uma casa para morar. O proprietário (Wilson Rabelo) começa a lhe contar como construiu aquele lar, por etapas, erguendo mais quartos à medida que a família crescia. Como lá criou filhos, netos. Aquilo lá é um lar, com história, com gente de carne e osso, lá vivendo, geração após geração. Para o incorporador é apenas um estorvo, uma coisa sem alma, paredes a serem derrubadas para abrir mais um espaço para a futura construção. Tudo demora - ou melhor - tem o tempo justo para que essa duplicidade se instale na percepção do espectador. A força destruidora do capital x a história humana depositada numa moradia. 

À medida que a trama se desenvolve mais questões vão surgindo. E mais pontas soltas vão sendo deixadas, fazendo que quem assiste ao filme se pergunte: "mas como ele (o personagem, o diretor) conseguirá atá-las até o final? Pergunta vã porque a estratégia é essa mesma, apresentar uma crise, aprofundá-la e deixá-la em suspenso. 

Essas crises vão se alargando. Sérgio indispõe-se com a mulher, com o filho, com o irmão. Assiste à agonia do pai e se pergunta sobre o legado daquele homem. Após sua morte, tenta resolver uma questão pendente do passado do pai e também sai chamuscado. Mas a descoberta o ilumina, embora não o suficiente para induzir uma transformação radical e duradoura. Tudo o que era impasse assim permanece. 

Inclusive na cabeça do espectador, ou, pelo menos, na do espectador que escreve estas linhas. Saí do cinema com a sensação de ter visto um grande filme, mas também um pouco incomodado, e sem saber exatamente por quê. 

De certa forma, ao vermos Paterno, o ligamos a outro grande filme do cinema brasileiro, O Invasor, de Beto Brant. E essa ligação tem sua razão de ser. Também em O Invasor era questão da especulação imobiliária, também Marco Ricca era um dos sócios da incorporadora, também havia um "alienígena" que se plantava na trama (Paulo Miklos) e tudo transtornava. Mas as semelhanças, se existem, são de superfície, de conteúdo manifesto, porque o espírito das obras é diferente em essência. O Invasor é mais explosivo, direto, à sua maneira catártico. Paterno nega-se a catarse de maneira sistemática. Mantém-se e mantém-nos em suspenso. 

Essa suspensão é fruto do trabalho com o tempo. Tempo para que todas as sequências sejam expostas, sem necessariamente se completar. Tempo para que os fios sejam soltos e assim permaneçam. Tempo para que tudo seja impasse e inconclusão. Sem catarse. Sem alívio. Sem lição de moral. Sem exemplo regenerador. No impasse, porque o "punctum" do filme é a cegueira do personagem. Em relação à vida e a si mesmo.

Dessa forma, tudo fica em aberto, e as conclusões, se as houver, são por conta do espectador. A mim, pareceu um filme ideal sobre o Brasil contemporâneo, em que tudo é impasse, tudo encontra-se aberto e sem solução à vista. Entramos num túnel do tempo paradoxal, que dá tanto para o passado como para o futuro, em que o governo atual representa apenas sua versão mais mórbida, porque atrelada ao instinto de morte mais primitivo do capitalismo. 

De resto, o que buscamos, sem necessariamente encontrar, é a face humana de Sérgio, esse "homem sem qualidades" (para lembrar o romance de Musil). Sérgio (talvez não por acaso) tem o mesmo nome do personagem de Sergio Corrieri na obra-prima do cinema latino-americano Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea, um burguês órfão de sua classe na voragem da revolução. 

No plano final de Paterno, a câmera busca o olhar de Marco Ricca, na situação simbólica em que se encontra encalacrado. Lembra, pelo menos para mim, o olhar de Jean-Louis Trintignant no plano final de O Conformista, de Bernardo Bertolucci. O homem sem qualidades, fascista quando a ordem for fascista, antifascista quando a maré virar. Um olhar para a câmera, para o olhar do espectador e que desafia: "Decifra-me".

Lupicínio Rodrigues: Confissões de um Sofredor

A certa altura do filme, discute-se se o rei da dor-de-cotovelo, Lupicínio Rodrigues, poderia ser hoje "cancelado" em razão de suas letras consideradas machistas. Sem dúvida, desde que se ignorasse o tempo em que viveu e seu respectivo contexto histórico. Ou seja, colocado em prática o procedimento do anacronismo (julgar tempos passados pelos valores do presente), seria bem possível que o velho Lupi fosse mesmo colocado no índex e no pelourinho das redes sociais. Por sorte, existe sempre a possibilidade da contextualização, o que permite "salvar" uma das grandes obras da música popular brasileira, apesar de alguns versos impossíveis de serem escritos hoje em dia. A passagem faz parte do excelente documentário Lupicínio Rodrigues: Confissões de um Sofredor, de Alfredo Manevy, com pesquisa de Lucas Nobile. 

Cito esse trecho porque me parece resumir o projeto em seu todo, um documentário de ideias, pensado com atenção ao trabalho do artista, mas também ao quadro histórico em que ele se dá, com sua originalidade e também suas limitações. Esse pensamento por trás do filme em nada retira o que ele tem de melhor, a emoção de reencontrar um compositor ímpar da nossa mais significativa manifestação artística, a música popular. 

Gaúcho de Porto Alegre, Lupicínio cresceu em bairro pobre, porém muito criativo e musical. Foi influenciado tanto pelo samba como pelo tango da vizinha Argentina. Expressou-se em diversos ritmos, e ficou mesmo famoso como o grande vate da dor de cotovelo, dos males de amor incuráveis e severos. Foi um samba bastante ritmado que o lançou em escala nacional, Se Acaso Você Chegasse, na voz de Ciro Monteiro e depois na de Elza Soares. O curioso é que canção foi usada, sem crédito, num filme americano, Dançarina Loura, que chegou a concorrer ao Oscar em 1945. Claro, Lupi nem foi consultado sobre a utilização da obra e nem viu a cor de um centavo. Mesmo assim, comemorou que uma composição sua tenha chegado a Hollywood, mesmo sob a forma de uma apropriação indébita. 

No seu cantinho porto-alegrense e depois no Rio de Janeiro, Lupicínio nem se importava muito. Foi um boêmio clássico, daqueles de virar noites seguidas em torno das mesas de um bar. Dos então meninos da tropicália, que o adoravam, Caetano Veloso e Gilberto Gil, dizia que eram frouxos e não conseguiam acompanhá-lo. "Meia-noite e já estão cansados, ou têm algum compromisso para o dia seguinte. Eu vou até as 9 ou 10h da manhã seguinte". Era representante da velha boemia dos anos 1940 e 1950, do culto ao copo, aos companheiros de bar, à mulher amada, em geral esquiva e traidora. 

O contexto é também o que traz Lupicínio para dentro da realidade brasileira, discriminado em um restaurante por ser negro. Não quiseram servi-lo e o caso foi parar numa delegacia. "Não sabia que Lupicínio Rodrigues era negro", excusou-se o dono do estabelecimento. Foi também o que levou Lupicínio a ser autor do hino do Grêmio, primeiro clube gaúcho a admitir jogadores negros em seu time. Também é ele, o contexto histórico, que torna tão difícil estabelecer a genealogia desse descendente de pessoas escravizadas. Tudo isso está no filme. 

Assim como a grandeza do compositor e do intérprete. Em especial, do intérprete de si mesmo, talvez o ideal (embora o LP de Jamelão seja uma obra-prima). Com voz pequena, afinada e serena, acompanhado de pequeno conjunto, Lupi interpreta como ninguém seu repertório. Há um disco despretensioso, segundo ele gravado apenas para apresentar suas composições a possíveis intérpretes e que se transformou numa joia de despojamento e simplicidade. Ele próprio dizia se inspirar em Mário Reis, o pioneiro desse canto próximo da fala que seria a característica do estilo bossa-novista. 

Aliás, a bossa-nova foi esse divisor de águas que, por paradoxo, deixou Lupicínio sem lugar na música popular brasileira. Sua música passou a ser vista como coisa antiga, com seus versos desmedidos, uma velharia já sem lugar num país que aspirava à modernidade, e adotava o novo como adjetivo obsessivo - nova capital, bossa nova, cinema novo, etc. 

Já nos anos 1960, Augusto de Campos, detectava que Lupicínio ficara sem lugar no mundo da cultura musical brasileira. Aproximando-o a Nelson Rodrigues, o poeta e ensaísta escreve que "Lupicínio se dedicou, afincadamente, por toda a vida, a virar pelo avesso a dor-de-cotovelo amorosa. E assim como Shakespeare formulou em termos arquetípicos o sentimento do ciúme em Otelo, Lupicínio - o criador da dor-de-cotovelo, na definição eufemística de Blota Jr. - com menos armas, ou se quiserem até praticamente desarmado, só com a força da sua verdade e do 'pensamento bruto' consegue formular como ninguém aquilo que se poderia chamar, parodiando a requintada terminologia sartriana, de sentimento da 'cornitude'. (Balanço da Bossa, p. 222). 

Bingo. Melhor que isso, só vendo o filme. E ouvindo Lupicínio Rodrigues, cantor maior dos males de amor nesse país fraturado chamado Brasil. 

No dia anterior, foram apresentados os longas Manguebit, pela mostra Sob o Céu Nordestino, e Propriedade, na mostra nacional. Ainda vou escrever sobre eles, possivelmente no balanço geral que farei do Fest Aruanda 2022. Um Festival com uma seleção de filmes muito forte, já adianto.

sábado, 10 de dezembro de 2022

Fracasso

Desenhando o fracasso do Brasil em 10 pontos óbvios

Vitor Guedes, UOL, 10/12/2022

1) Em sua terceira Copa do Mundo, Neymar, mais uma vez, não fez a diferença. E ainda não bateu o primeiro pênalti (como era óbvio antes de Messi bater o primeiro para a Argentina) e, ainda mais absurdo e inadmissível, nem a quarta penalidade, quando já era sabido que em caso de erro (como ocorreu com Marquinhos), a Copa acabava para o Brasil. O seu frustrante desempenho em 2022 (ainda que superior ao de 2018, quando virou chacota mundial pelo cai-cai), no entanto, não apaga o fato de ser um grande jogador. Agora tem de ser muito pacheco e sem qualquer noção de futebol e senso do ridículo para colocá-lo no mesmo patamar de monstros sagrados como Messi, Cristiano Ronaldo e Mbappé. Neymar não tem, para o planeta bola, nem mesmo o tamanho de Modric, eleito o melhor do mundo em 2018.

2) A convocação bizarra, injustificável e inacreditável de Daniel Tantã Alves cobrou a fatura e não era difícil imaginar que a chance de isso acontecer sempre foi grande: o Brasil foi eliminado com improvisação nas duas laterais já que o Vovô Olímpico, café com leite, ocupou a vaga que poderia (DEVERIA!!!) ter sido destinada a um defensor em condições de jogar à vera no Qatar. Jogar (e perder) contra Camarões, com o Brasil já classificado, até eu.

3) Daniel Alves, repito e sublinho, é uma aberração completa, mas não foi o único erro crasso da convocação. O Brasil poderia ter ido mais longe e ser campeão com os mesmos jogadores que foram ao Qatar, mas SEMPRE foi óbvio que a lista de convocados foi desequilibrada. Nunca teve cabimento (e isso foi dito aqui com todas as letras: VIVA A MEMÓRIA) convocar 9 (NOVE!!!) atacantes e apenas quatro zagueiros (nenhum canhoto) e só três laterais que poderiam ser usados em jogos eliminatórios. Como ficou claro, Daniel Alves não foi nem sequer considerado na hora que o bicho pegou.

4) Tite foi eliminado pela segunda Copa do Mundo consecutiva nas quartas de final após seis anos de trabalho. A turma cascateira tarada por "processo" e "tempo de trabalho" que explique como Marrocos, que é comandado por um treinador (Walid Regragui) que assumiu o time em setembro, na última data Fifa antes do Qatar, ainda está vivo... Copa do Mundo é uma competição que a única coisa que importa é o rendimento daquele mês e todo o tal "ciclo" não tem a menor (ZERO) importância. A única coisa que importa é o momento e a fase no mês da Copa. É assim desde 1930! Viva a memória!

5) Antes de ser cortado, Gabriel Jesus, destaque do Arsenal, participou (muito mal) dos três jogos da fase de grupos e alcançou a armagedônica marca de 8 (OITO!!!) jogos sem marcar em Copas. Haja vira-latismo para considerar correta a convocação de Gabriel Jesus e concordar com a não convocação de Gabigol sob o argumento de que um joga no Campeonato Inglês (os colonizados fanáticos preferem "Premier League") e outro atua no Brasil. O Fred também atua na Inglaterra... E Gabigol é, empatado com Neymar, o melhor batedor de pênaltis do Brasil. E isso já era muito óbvio quando a lista de convocação foi feita e poderia acontecer, como ocorreu, de o Brasil precisar passar por uma disputa de pênaltis...

6) Tite repetiu com Raphinha, em 2022, o mesmo erro que cometeu com Gabriel Jesus, em 2022: começou e terminou o Mundial sem barrá-lo em nome do bom "ciclo", mesmo com a Copa do Mundo abaixo da crítica. É inacreditável que Rodrygo não tenha sido titular no lugar de Raaphinha contra a Croácia. Raphinha disse que o Brasil não merece Neymar. Não sei. O que tenho certeza é que a seleção brasileira precisa de um atacante muito melhor do que o reserva do Barcelona.

7) Comer bife de ouro não é crime, mas é uma ostentação babaca e desnecessária, atitude que demonstra total desprezo e alienação com a situação de boa parte da torcida brasileira. Mas o Brasil não foi eliminado por isso. E, se fosse campeão, a atitude não deixaria de ser cretina.

8) Vale para o imbecil bife de ouro, vale para as dancinhas... Quando ganha, a alegria é realçada, quando perde, vira soberba. Ao contrário do bife de ouro, não vejo estupidez na dança e não é por isso que o Brasil foi castigado pela Croácia. Por outro lado, Roy Keane não virou um bandido que tem de ser perseguido por não gostar da dança.

9) Com todos os erros cometidos, os mais e os menos absurdos, o Brasil tinha grande chance de ainda estar no Mundial e se preparando para o clássico com a Argentina se Tite não tivesse cometido o crime lesa-pátria de sacar Vini Jr, que era o atacante mais perigoso, contra a Croácia. Sob qualquer aspecto, foi uma substituição indesculpável!

10) Da série "vai ficar chorando até quando?", em sua quarta Copa do Mundo, Thiago Silva, que não ganhou nenhuma, usou a faixa de capitão pelo terceiro Mundial consecutivo. A torcida brasileira espera que em 2026 a faixa esteja em outro braço... Em tempo: o veterano não fez, como zagueiro, uma Copa ruim, mas, como em 2014, não assumiu a responsabilidade de bater pênalti. Desta vez, pelo menos, não ficou chorando de costas para o campo. 

PS: Força, Pelé!.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

O gato do Catar expulso com maltratos e o de Dom Corleone afagado

Gato invadiu set de ‘O Poderoso Chefão’ e virou astro; na entrevista de Vinícius Júnior, foi expulso

Por Simião Castro, O Estado, 08/12/2022

Assessor da CBF perdeu a chance de seguir exemplo do improviso de Marlon Brando e gerar imagens de afeto e virou vilão por arremessar gato da mesa pelo cangote.


O caso do gatinho que invadiu e foi expulso da entrevista coletiva de Vinícius Júnior, da seleção brasileira, no Catar, lembra outro episódio de felino enxerido. Tratado de modo diametralmente oposto, o gato que rondava o set de ‘O Poderoso Chefão’ foi acolhido por Marlon Brando de improviso e coadjuvou numa das mais emblemáticas cenas da história do cinema.

Na incônica sequência de abertura do longa de 1972 Francis Ford Coppola, Don Corleone aparece afagando um bichano. O felino se refestela no colo do poderoso e perigoso comandante da máfia, em contraste perfeito com a atmosfera tensa do escritório do filme, cuja franquia está completa na Netflix.
Acontece que nem o gato nem a interação, por consequência, estavam no roteiro - como mostra o Estadão nesta lista de curiosidades. Brando notou o animal rondando os estúdios, o trouxe para o colo e brincava com ele enquanto a equipe preparava a filmagem. Ninguém quis intervir.

Duas ações geniais se seguiram: o diretor resolveu rodar mesmo com a presença do gatinho e o ator incorporou à cena a inesperada demonstração de carinho de um mafioso violento. A série The Offer, do Paramount+, reproduziu o momento.

A filmagem em Dom Corleone (The Offer)

O resultado da discrepância acabou por deixar o chefão ainda mais ameaçador. Um poderoso subtexto de que até os mais brutais criminosos podem ser amorosos com as criaturas que não lhe oferecem risco.
Exatos 50 anos depois, com dezenas de câmeras apontadas também para uma mesa, os protagonistas de cena similar perderam uma oportunidade de ouro. Na entrevista coletiva da seleção brasileira de futebol, enquanto Vini Jr. falava, um gato roubou a cena.

O bichinho subiu na mesa e, a princípio, chegou a ser também afagado por um assessor da CBF. O problema é que em seguida o homem pegou o gato pelo cangote e o atirou abruptamente da mesa. Uma decisão de segundos que causa arrependimentos permanentes. Pouca coisa é tão difícil quanto convencer um gato a receber um carinho. Pela natureza independente o bicho mesmo. Aquele já estava entregue. Tivesse seguido o exemplo de Brando e acolhido o animal com carinho, não teria provocado a enxurrada de aversão.

Era um prato cheio para aproveitar a velocidade das redes sociais e a carência do mundo de boas notícias e gentileza. Ele poderia ter aparecido para o mundo como o bom mocinho e gerado imagens incríveis para os fotógrafos e para a TV.

Mais tarde, o repórter do Estadão Ricardo Magatti chegou a apurar que o gatinho virou mascote da seleção, recebendo até o apelido de ‘Hexa’. Mas já era tarde demais. O tribunal da internet já tinha - corretamente - dado o veredicto de que é inaceitável hostilidade com animais. Quanto mais dóceis assim.

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Assista ao momento em que o assessor retira o gato

https://youtu.be/QHl_57CzLuY

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Jogadores ingleses Kyle Walker e John Stones adotam gato no Qatar

Animal terá de ficar meses em quarentena

UOL, 12/12/2022

Jogadores da seleção inglesa que foi derrotada pela França e deu adeus à Copa do Mundo, Kyle Walker e John Stones resolveram adotar um gato no Qatar. As informações são da CNN Inglaterra.

Jogadores ingleses Kyle Walker e John Stones adotam gato no Qatar - Reprodução

O gato apelidado de Dave sempre marcava presença na concentração, na coletiva de imprensa e nos ambientes em que estavam os jogadores. "Algumas pessoas realmente não gostam do gato, mas eu o amo. No primeiro dia em que chegamos lá, o Dave apareceu", acrescentou Stones.

Porém, antes de ir para outro país, o animal terá de passar quatro meses em quarentena. Os gatos são muito comuns no Qatar. Em uma das coletivas de imprensa da seleção brasileira, o assessor brasileiro expulsou o bicho de cima da mesa e acabou recebendo uma enxurrada de críticas.

Depois, batizado de Hexa, ele virou o novo xodó da equipe técnica. Hexa começou a ser admirado imediatamente depois do episódio, em que foi jogado agressivamente no chão.

Mesmo após ser agredido, postou-se perto da mesa e acompanhou atentamente à entrevista do atacante do Real Madrid Vini Jr. Parecia muito interessado no que o jogador conversava com os jornalistas.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Geraldo Magela e Dorothy Stang

A incrível saga do amigo de Dorothy Stang obrigado a fugir por 17 anos

Como o militante da reforma agrária Geraldo Magela de Almeida Filho se tornou José Gaspar da Silva, vendedor de produtos country para o agro amazônico, depois de ser acusado de um crime que não cometeu

Ed Wilson Araújo (texto), Adriano Almeida (fotos), Sumaúma, 4 dezembro 2022

De Imperatriz, Maranhão

Chovia muito às 7h30 da manhã de 12 de fevereiro de 2005, quando o pistoleiro Rayfran das Neves Sales desferiu 6 tiros à queima roupa contra uma mulher de 73 anos sem nenhuma chance de defesa. O corpo da Irmã Dorothy Stang tombou em sangue na terra alagada e lá ficou até às 17h, quando foi levado do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança por uma estrada precária de 50 quilômetros até a sede, no município de Anapu, às margens da rodovia Transamazônica, a 692 quilômetros de Belém, capital do Pará. Naquele mesmo sábado, enquanto todas as atenções se voltavam para Anapu, outro assassinato abalava o PDS Esperança. Às 23h, o lavrador Alberto Xavier Filho, conhecido como “Cabeludo”, também foi executado. O crime contra Dorothy Stang levou à Anapu jornalistas do mundo inteiro. O crime contra o anônimo Cabeludo, uma figura ambígua que com alguma frequência fazia serviços para os inimigos do PDS, foi ignorado pela opinião pública. Os pontos nunca foram ligados. Mas ali começava, para um homem chamado Geraldo Magela de Almeida Filho, uma saga nascida da injustiça e uma fuga de 17 anos que só acabou em novembro de 2022. Se iniciava, também, a vida de um caixeiro-viajante chamado Gaspar.

No mesmo dia em que perdeu Dorothy Stang, Magela Filho foi falsamente incriminado pela polícia como cúmplice do assassinato de Cabeludo. Para os movimentos sociais da região de Anapu e Altamira, a estratégia que matou Dorothy e obrigou Magela Filho a fugir era a mesma: os grileiros queriam anular a resistência camponesa. “Ele era uma liderança muito forte. O objetivo era matar os dois, Geraldo Magela e Dorothy Stang”, afirma a missionária Jane Dwyer, da Congregação das Irmãs de Notre Dame, integrante da Comissão Pastoral da Terra e companheira de luta de Dorothy. “Conseguiram eliminar nossa irmã e colocá-lo [Magela] na clandestinidade.”

Os dois crimes foram o desfecho de uma semana tensa. Dorothy Stang estava marcada para morrer. As ameaças já haviam sido amplamente denunciadas aos órgãos de segurança no Brasil e também para organismos internacionais. Há vasto conhecimento sobre os mandantes, intermediários e executores da missionária. Já o assassinato de Cabeludo até hoje permanece sem solução.

Em 2005, porém, a polícia apontou Magela Filho como cúmplice, e o Ministério Público do Pará ofereceu denúncia contra 6 pessoas, apontando a autoria do disparo a um agricultor identificado apenas como “Claudio”. Segundo o MP, “após o tiro, o denunciado Geraldo Magela de Almeida Filho, que outrora havia chamado pela vítima, entrou em sua casa e mandou que sua família não tentasse sair da mesma. Em seguida foi embora, juntamente com os demais denunciados, deixando a vítima sucumbir ao longo da madrugada.”

DESABAMENTO NA TRANSAMAZÔNICA PERTO DE ANAPU, ANOS 1990: na ditadura, milhares de agricultores pobres, como os pais de Geraldo Magela, atenderam ao chamado da colonização no entorno da rodovia. Foto: arquivo pessoal de Geraldo Magela Filho

A denúncia do MP cita ainda os depoimentos dos filhos de Cabeludo, que teriam presenciado o crime, e de Lourival Gomes do Nascimento, “que noticia ter sido abordado pelo grupo, horas antes do crime em questão, oportunidade em que foi ameaçado pelo denunciado Geraldo Magela que portava um revólver calibre 38.” Com o inquérito viciado, Magela Filho teve a prisão decretada. “Eles [grileiros] o matariam então na cadeia”, afirma Irmã Jane, que permanece em Anapu, hoje um território ainda mais violento do que em 2005. Magela Filho então fugiu e ficou na clandestinidade por 17 anos. Foi finalmente absolvido por unanimidade pela 4ª Vara do Tribunal do Júri de Belém, em 7 de novembro de 2022.

Seu advogado, Marco Apolo Santana Leão, interpreta o “Caso Magela Filho” no contexto da perseguição e criminalização dos movimentos sociais. “As lideranças são atacadas de várias formas: difamação, ameaça, violência física e homicídios”, enumera. Marco Apolo sabe o que diz. O advogado é defensor de várias vítimas da estratégia de destruição da reputação, uma espécie de morte em vida usada contra os defensores da floresta e dos direitos humanos. Em 2018, por exemplo, ele se tornaria advogado do Padre Amaro Lopes. Ao dar continuidade ao trabalho de Dorothy Stang na organização e resistência dos camponeses, o religioso foi preso por uma espalhafatosa operação policial, mais adequada à captura de Al Capone. Contra ele usaram um conjunto de acusações, algumas delas explicitamente fantasiosas. Um vídeo mostrando 2 homens adultos tendo relações sexuais, sendo que um deles supostamente seria o padre, foi amplamente divulgado na região. Amaro deixou a prisão, mas seu processo de desqualificação já tinha sido completado e, assim, seu trabalho na linha de frente da defesa dos agricultores familiares contra os agrocriminosos da região de Anapu foi neutralizado.

Técnico agrícola, prestador de serviços do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Magela Filho era um dos principais colaboradores de Dorothy Stang nas ações pastorais e de assistência técnica junto aos camponeses assentados no PDS Esperança. Era também membro da Associação Solidária Econômica e Ecológica de Frutas da Amazônia (Asseefa), engajado na defesa da floresta e no combate à grilagem de terras públicas e aos projetos predatórios de colonização.

Magela precisou esperar 17 anos por justiça. E ela finalmente chegou. No julgamento, Marco Apolo sustentou fatos, argumentos e provas que levaram à absolvição do réu por unanimidade. O assassinato de Cabeludo ocorreu por volta das 23 horas. Mas naquela noite (12 de fevereiro de 2005), Magela estava na Delegacia de Anapu registrando o boletim de ocorrência da morte de Dorothy Stang. “Era impossível o acusado estar no PDS Esperança e ao mesmo tempo participando do crime. Até mesmo porque a distância entre os dois lugares, de cerca de 50 quilômetros, durava em média 4 horas por estradas e caminhos precários”, detalhou.

O advogado também expôs os procedimentos ilegais usados no inquérito. Um deles foi a coleta de depoimentos de três filhos menores de idade de Cabeludo sem o acompanhamento de nenhuma pessoa adulta – e durante os quais a polícia registrou que teriam acusado Magela Filho. “Já o Ministério Público sequer foi a Anapu, mas embarcou no inquérito e fez a denúncia”, afirmou o advogado.

Magela Filho foi absolvido sem estar presente no julgamento, ainda como foragido. SUMAÚMA o alcançou primeiro por telefone, rodando nas estradas da Amazônia. Depois, passou três dias com ele e sua família para contar a saga de um defensor da floresta, militante da reforma agrária, que levou quase duas décadas para recuperar seu nome e sua liberdade.

Magela e seus pais, Geraldo e Jovanete. A falsa acusação condenou-os a uma dolorosa separação. Após a absolvição, finalmente podem se encontrar sem riscos. Foto: Adriano Almeida/SUMAÚMA

Uma história que começa na ditadura — A maioria das histórias dos brancos plantados no entorno da Transamazônica começa na ditadura empresarial-militar (1964-1985), que impôs o maior projeto de destruição da floresta da história do Brasil. Acompanhar o desenrolar das trajetórias humanas é também testemunhar o impacto da violência de Estado sobre a vida de homens e mulheres comuns. Assim foi com os pais de Magela Filho e outros migrantes.

Nascida em Varjão dos Crentes, um povoado de evangélicos no município de Buritirana, no sudoeste do Maranhão, Elinete Silva de Almeida, tinha apenas 2 anos quando teve a vida transtornada pela rodovia em construção. Sua família, como tantas outras de agricultores pobres, acreditou no chamado da época: “Amazônia: uma terra sem homens para homens sem terra”. O governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), ditador que inaugurou a estrada derrubando uma castanheira gigantesca em Altamira, buscava implantar assentamentos de colonização e grandes projetos agropecuários empresariais que seriam beneficiados pela alienação de terras públicas.

Indígenas, quilombolas e ribeirinhos que viviam na floresta – naquele momento os ancestrais dos povos originários há mais de 10 mil anos, os dos quilombolas há 4 séculos e os dos ribeirinhos há quase 100 anos – não eram considerados humanos pela ditadura.

Enquanto Elinete era lançada nessa espiral de violência pela esperança dos pais, em Fortaleza, capital do Ceará, o então jovem Geraldo Magela de Almeida (pai), hoje com 94 anos, via pela televisão em preto e branco a propaganda do governo para atrair colonos com o objetivo de povoar a Transamazônica. Sua esposa, Jovanete Nascimento de Almeida, agora com 74 anos, professora aposentada, lembra com precisão o contraste entre a promessa da ditadura e a realidade da ocupação de uma floresta que não os queria. “Era a coisa mais absurda do mundo. Na propaganda dizia que tinha casa, colégio e hospital para receber a gente e só precisava levar as malas. Foi tudo o contrário e aí começou o sufoco”, conta. Desembarcou no meio do mato grávida do terceiro filho e teve mais 6 outros nascidos e criados na floresta. Geraldo Magela de Almeida Filho já chegou na região da Transamazônica com 2 anos de idade – a mesma de Elinete, com quem se casaria.

Dois movimentos avançaram ao longo da Transamazônica, no estado do Pará: o dos agricultores pobres que atenderam ao chamado da colonização e o dos grandes proprietários a quem foram destinados 3.000 hectares de terra para estabelecer empresas agropecuárias que, em sua maioria, não se consolidaram. Entre os agricultores, na parte da rodovia que vai de Altamira a Placas, conhecida como Transa Oeste, houve predomínio de sulistas, que receberam mais apoio oficial; na outra parte, de Altamira a Marabá, a Transa Leste, houve predomínio de nordestinos, que tiveram pouco ou nenhum suporte do Estado.

Já aqueles que os generais presentearam com vastas porções de terra e de financiamento da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), sigla que se tornaria famosa pelos escândalos de corrupção, deram início ao intenso processo de usurpação de terras públicas na região que até hoje encharcam o chão de sangue. Sem cumprir o acordo de instalar empresas agropecuárias, se apropriaram da terra e dos recursos públicos para devastar a floresta e fazer dinheiro com especulação e exploração de madeira.

Magela Filho e Elinete eram crianças quando a Transamazônica foi aberta sobre os corpos de milhares de indígenas. A rodovia que simbolizava “a conquista da selva” era apenas um dos vários processos genocidas da ditadura que, segundo apuração da Comissão da Verdade, ao final deixou mais de 8.300 mortos em todo o território brasileiro. Sobre as ruínas da floresta se iniciou tanto a luta de agricultores por um pedaço de terra que permitisse a vida na floresta quanto a violência dos grileiros que ali ampliaram ainda mais seu gosto por terras públicas.

Quando Geraldo e Elinete finalmente se encontraram e se casaram em Anapu, seu lado nesta guerra era explícito: junto à missionária Dorothy Stang e aos camponeses para a criação e consolidação dos Projetos de Desenvolvimento Sustentável, uma demanda dos movimentos sociais para a ocupação territorial em parceria com a floresta que se tornou programa oficial em 1999, já no governo democrático de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Nos anos 1980, Geraldo Pai já tinha levado um tiro no pescoço, que acabou resvalando pela boca, ao participar de um mutirão de assentados que foi atacado por um grileiro.

Anapu tinha se tornado um dos centros amazônicos do massacre sistemático causado pela forma de ocupação e apropriação da terra no Brasil e a ausência de reforma agrária.

‘Quando a Irmã Dorothy Stang chegou, a primeira tarefa que ela me deu foi desenhar o mapa do território’, lembra Magela, exibindo o registro junto a outras relíquias da época. Foto: Adriano Almeida/SUMAÚMA

Uma freira que não fugia da luta — A missionária Dorothy Stang chegou à região em 1982, 3 anos antes do fim da ditadura. Os assassinatos cometidos pela pistolagem contratada pelos grileiros e madeireiros eram parte do cenário. Disse a Dom Erwin Kräutler, então bispo do Xingu, que vinha para trabalhar “entre os pobres mais pobres”. O bispo, que já naquela época tinha sofrido ameaças de morte por sua forte atuação em defesa dos direitos humanos, alertou-a: “Mulher, tu não vais aguentar isso. Tu vens lá dos Estados Unidos, com conforto e tudo, tu não vais aguentar”. Dorothy respondeu: “Mas me deixe”.

Lutou entre os pobres mais pobres até o dia em que foi executada. Ela e outras missionárias trabalharam duramente para congregar os agricultores e desenvolver ações coletivas, criando espaços de convivência, organização comunitária da produção agrícola e geração de renda. As poucas escolas se multiplicaram em quantidade e qualidade. O sentido coletivo motivado por Dorothy Stang criava um contexto de prosperidade indissociável da parceria com a floresta. Por outro lado, provocava o ódio dos fazendeiros, grileiros e madeireiros que viam no trabalho missionário um obstáculo à derrubada da floresta.

Magela Filho se colocou ao lado dela. Ele cresceu trabalhando na roça da família, estudou, passou uma temporada no garimpo, prestou serviço militar, freqüentou o seminário católico, desistiu do sacerdócio, fez vários tipos de biscates para sobreviver, finalmente formou-se técnico agrícola, se casou com Elinete e passou a lutar ao lado de Dorothy. Nos depoimentos sobre a missionária, as vozes embargadas do casal, com os olhos empoçados de lágrimas, traduzem o sentimento.

Certa vez, cruzando de motocicleta os caminhos difíceis da Transamazônica, Magela Filho sofreu um acidente e fraturou os dois fêmures (ossos das coxas). O casal tinha uma filha pequena e a esposa precisou acompanhar o marido no tratamento. “Irmã Dorothy nos deu todo apoio, conseguiu um avião bimotor para nos transportar de Altamira até Belém. Nunca vou esquecer aquele dia em que a minha filha ficou sob os cuidados dela. Era uma pessoa da minha família, de todas as horas, nas alegrias e nas dificuldades”, conta Elinete.

De partida para um esconderijo mais seguro longe de Anapu, Magela Filho se despede da filha Jhorrana. Os dois só vão se reencontrar meses depois. FOTO: ARQUIVO PESSOAL DE GERALDO MAGELA FILHO

Dorothy é assassinada e Gaspar nasce a fórceps — No dia do assassinato da missionária, Magela Filho ia de moto para o PDS Esperança, onde teria uma reunião com os movimentos sociais, quando soube da execução e foi alertado para não se aproximar do local do crime porque o ambiente estava tenso e poderia haver outros atos de violência. Protegeu-se em um barraco na beira da estrada até que avistou o movimento do carro que transportava o corpo de Dorothy para Anapu. Decidiu seguir o cortejo na sua moto. Ao alcançar a delegacia, à noite, registrou o boletim de Ocorrência do assassinato.

A partir daquele momento, dedicou todas as suas energias para colaborar nas investigações e ajudar a encontrar os autores e mandantes do crime. Transcorria o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pouco havia mudado em Anapu, território dominado por grileiros e pistoleiros pagos por eles.

A pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Pará e da Procuradoria Geral da República (PGR), a investigação foi federalizada. Então presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PA, a advogada Mary Cohen foi designada para acompanhar os inquéritos de Dorothy Stang e de Alberto Xavier Leal, o Cabeludo. “Havia um comprometimento muito enfático da polícia local com os madeireiros e fazendeiros. Geraldo Magela Filho teve um papel muito importante. Foi ele que conseguiu colocar os mandantes no centro da investigação. Na época os mandantes não apareciam, só os intermediários e os executores. Depois do depoimento dele, os mandantes foram acionados”, revela Cohen.

Profundo conhecedor da geografia da região, Magela tinha o mapa da Transamazônica na ponta dos dedos e na memória fotográfica. “Quando a Irmã Dorothy Stang chegou, a primeira tarefa que ela me deu foi desenhar o mapa do território”, recorda, exibindo o registro cartográfico guardado como peça de relíquia junto com fotografias, cartões, bilhetes e outros documentos da época.

Magela Filho participou também de algumas incursões do Exército e da Polícia Federal na busca pelos executores e mandantes do crime. Ele não só colaborava com as investigações como denunciava a omissão das autoridades policiais locais. Sua atuação foi fundamental para a localização do pistoleiro Rayfran das Neves Sales. Conta ter sido ele a avisar a Polícia Federal e o Exército, que efetuaram a prisão.

Três meses após a morte de Dorothy Stang, Magela Filho ainda permanecia em Anapu. Até saber que um mandado de prisão preventiva tinha sido expedido contra ele. “Foi o dia de maior tristeza na minha vida”, diz seu pai. Primeiro, Magela Filho se escondeu no PDS Virola-Jatobá, por um mês. Depois, numa madrugada, acampou na floresta ao fundo do seu lote, mas foi aconselhado pelos amigos e companheiros dos movimentos sociais a deixar Anapu. “Naquele tempo ele já estava condenado. Eles poderiam matá-lo antes do processo andar”, diz Irmã Jane Dwyer.

Montado o plano de fuga, ele partiu do esconderijo para o município de Senador José Porfírio, a 149 quilômetros de distância. Seguiu então em uma lancha voadeira para Porto de Moz. De lá, pegou um barco e navegou 10 horas para uma região de várzea denominada Cupari, onde ficou por 3 meses. Na época, só havia comunicação por telefone via satélite e a ligação era muito cara. Sua esposa o visitou apenas uma vez. Havia sempre o temor de que ele fosse capturado a qualquer momento.

Magela Filho decidiu então ir para Belém, contrariando os conselhos dos amigos que o protegiam. Para alcançar a capital do Pará, precisava retornar a Porto de Moz e depois a Gurupá. Nesta localidade, ao comprar o bilhete de viagem, temendo ser identificado, adotou o nome de José Gaspar da Silva. Nascia ali o clandestino “Gaspar”, como ele até hoje é lembrado pelos parentes e parte dos amigos. “Minha mãe aqui e acolá me chama por esse apelido”, conta.

Em Belém, foi acolhido por amigos, revezando-se em várias casas, mas sempre enclausurado. Durante todo o tempo de fuga havia sempre a esperança de voltar para Anapu, mas o mandado de prisão aberto era ao mesmo tempo ameaça e tortura psicológica. Se não podia voltar, precisava seguir em frente. E Gaspar seguiu.

Elinete voltou a ser professora, mas não esquece daquele Natal em 2005 quando recebeu uma carta do marido para deixar Anapu e morar com ele em Fortaleza. ‘Saí com uma bolsa e uma caixa de papelão’, lembra. Foto: Adriano Almeida/Sumaúma

Como Gaspar começou a carreira de vendedor ambulante — A solidariedade dos amigos e dos movimentos sociais foi fundamental para proteger Gaspar. Sem poder sair à rua, espiando o mundo lá fora apenas pelas frestas dos portões e pelas janelas dos lugares onde se hospedava, grande parte do tempo era preenchida ouvindo música e lendo clássicos da literatura. Obras como As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, e Vida e morte de Trotsky, de Victor Serge, além das biografias de Ernesto “Che” Guevara e Simón Bolívar poderiam tê-lo denunciado tanto quanto a coleção sobre a ditadura, do jornalista Elio Gaspari.

Na solidão daqueles dias longos, ele aprendeu a fumar, deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar. A barba longa também mascarava o visual. Uma só vez saiu de casa para um lugar público. Os amigos providenciaram uma peruca preta de cabelo encaracolado e uma roupa de hippie, do tipo “bicho grilo”, emprestando a Gaspar um estilo despojado. Levaram-no então a um bar alternativo na região metropolitana de Belém.

Apesar dos conselhos dos amigos de que estava mais ou menos seguro em Belém, ele não suportava mais a clausura. Na semana do Natal de 2005, foi levado até o município de paraense de Capanema, onde pegou um ônibus para Fortaleza. “Eu não queria ser um peso, um fardo ou uma responsabilidade para ninguém, aí tomei a decisão de ir embora”, diz.

Naquele momento, Elinete recebeu uma carta do marido para deixar Anapu e morar com ele na capital do Ceará. “Nunca vou esquecer aquele dia em que tive de deixar uma vida inteira construída juntos: a casa, a produção, meu emprego de professora… Fiquei sem rumo. Deixei tudo para trás. Saí de casa em Anapu apenas com uma bolsa e uma caixa de papelão com alguns utensílios”, lembra.

Acostumados ao ambiente rural das plantações e da criação de animais, ao espaço e à floresta, restou a Gaspar e Elinete começarem uma vida juntos na clandestinidade, numa quitinete em Fortaleza. Procuraram emprego, sem sucesso, até 2006. No início de 2007, um conhecido, filho de agricultores da Transamazônica e que trabalhava em uma empresa do ramo de sandálias, fez contato e ofereceu uma oportunidade de trabalho no Maranhão, na rota de Imperatriz e municípios vizinhos.

Dois anos depois da execução de Dorothy Stang, já no início do segundo mandato de Lula, mas ainda sem nenhuma promessa de justiça, Gaspar iniciou uma vida de caixeiro-viajante.

Na rotina de vendedor, Magela Filho usa o carro comprado em demoradas prestações. Seus principais fregueses são comerciantes do agronegócio. Foto: Adriano Almeida/Sumaúma

De militante da reforma agrária a vendedor de produtos country — A vida na nova cidade começou em outra quitinete. Gaspar vivia tenso com as barreiras policiais, temendo ser capturado porque o mandado de prisão ainda estava em vigor. Quando chegou a Imperatriz mudou a rota para Araguaína, no Tocantins, mas o mercado era fraco. Passou por dificuldades, vendeu a moto, comprou um carro usado em longas prestações e entrou no ramo de vendedor ambulante, comercializando pano de prato, borracha de panela de pressão e outros pequenos utensílios domésticos que somava à venda de sandálias.

Em 2010, através de outro contato, passou a ser vendedor de botinas. Nesse período, deu início à construção de uma casa própria, um passo enorme para um foragido que usava um nome falso. “Esse momento me marcou muito. Compramos o terreno e começamos a construir, mudamos e não tinha reboco e nem piso. Fomos fazendo aos poucos”, conta. Em 2017, arriscou-se a voltar a ser Geraldo Magela de Almeida Filho quando precisou registrar a própria empresa para emitir notas fiscais.

Elinete celebra duas conquistas: a casa nova construída com muito trabalho e, desde novembro, a absolvição do marido Geraldo Magela Filho. Foto: Adriano Almeida/SUMAÚMA

No para-choque de sua caminhonete, colocou a inscrição do dia da morte de Dorothy Stang: 12.02.2005. A bordo dela, ele percorre as estradas do Maranhão e do Tocantins. Seus principais fregueses são comerciantes do setor do agronegócio das cidades amazônicas, em ampla maioria adeptos da extrema direita, nacionalistas e “patriotas”, eleitores entusiasmados de Jair Bolsonaro. Para evitar perguntas, Magela Filho colocou uma bandeirinha do Brasil no carro durante as eleições. “Só tenho 2 eleitores de Lula”, resume.

Já na sua casa, a conversa é progressista. Tudo muito explícito na resenha do cafezinho entre os Geraldo Magela pai, de 94 anos, e filho, 51, sobre a conjuntura internacional da Guerra da Ucrânia e temas afins. Papo vai e vem, o pai conclui que o Brasil só teve dois grandes presidentes: “Getúlio Vargas e Lula, ambos pais dos pobres”.

Elinete Almeida refez a vida de professora em Imperatriz e celebra duas conquistas: a casa nova construída com muito trabalho e, desde novembro, a absolvição do marido. “A liberdade dele no julgamento foi a maior alegria da minha vida”, soma-se o pai.

No para-choque da caminhonete, Magela Filho inscreveu o dia da morte de Dorothy Stang: 12.02.2005. Ele percorre estradas amazônicas vendendo produtos country para o comércio local. Foto: Adriano Almeida/SUMAÚMA. Obs: a placa foi apagada digitalmente pela equipe de SUMAÚMA por razões de segurança

Falta um desfecho — O julgamento e a absolvição por unanimidade encerraram um capítulo que ninguém sonha para a própria vida. Perguntado se faria tudo outra vez, Magela Filho não hesita: “Faria, sim. Trabalhar com Dorothy Stang era motivo de satisfação, alegria e prazer. A gente fazia por amor. A morte da floresta pode ser o colapso do planeta. Essa era a mensagem que ela passava: a valorização dos povos que têm essa filosofia, as populações tradicionais que não têm a ganância de devastar, de enriquecer à custa da devastação. Isso é um aprendizado que a gente leva para o resto da vida”.

Sentado na varanda de casa, cercado de relíquias de Anapu, Magela Filho usa cordão e pulseira dos indígenas da etnia Gavião. Em constantes passagens por Amarante do Maranhão, cidade da sua rota de vendas, a 113 quilômetros de Imperatriz, fez amizade com uma família e passou a frequentar a aldeia. A convivência é uma forma de se reconectar aos povos originários. “Bate uma saudade do tempo em que eu vivia em Anapu. Para mim, os indígenas são os guardiões do meio ambiente, por isso eu uso os adereços deles. Não é ouro, mas sim algo original, fruto de um trabalho e de um conhecimento”, explica.

O assassinato do agricultor Alberto Xavier Filho, o Cabeludo, segue impune. Duas hipóteses são mais fortes nos movimentos sociais da região: queima de arquivo ou morte armada para incriminar Magela Filho. “A família de Cabeludo foi destruída. A esposa e os filhos passam dificuldades”, conta Irmã Jane.

Anapu hoje é mais violenta do que no tempo de Dorothy Stang. A forte comoção internacional pelo assassinato da missionária estadunidense ampliou fortemente a presença do Estado na região, dificultando os negócios criminosos. Isso não significa que a grilagem e o comércio ilegal de madeira tenham sido interrompidos, mas sim que os mandantes da região entenderam que matar atrapalhava os negócios ao trazer o Estado para perto. Como resultado, entre 2006 e 2014 não houve nenhum assassinato por conflito de terras em Anapu. Com a deterioração do governo de Dilma Rousseff (PT), a partir do segundo mandato, seguida pelo impeachment que colocou no poder Michel Temer (MDB), as execuções retornaram. Os sinais começavam a virar favoravelmente para a exploração predatória da floresta, movimento que culminaria com o incentivo deliberado de Jair Bolsonaro à destruição da Amazônia. Entre 2015, último ano de Rousseff, e 2019, primeiro ano de Bolsonaro, foram 19 mortos, segundo a Comissão Pastoral da Terra.

Durante o governo do extremista de direita, o lote 96, da Gleba Bacajá, de Anapu, se tornou o alvo principal dos grileiros da região. Somente neste ano, famílias foram feitas reféns por pistoleiros, suas casas e a escola da comunidade foram incendiadas. Desde 29 de novembro, os moradores estão sem energia elétrica e sem comunicação, conforme denunciou a Comissão Pastoral da Terra (leia a nota aqui). Os lotes 96 e 97 foram reconhecidos como Assentamento Dorothy Stang, mas a pressão da grilagem paralisou o processo no Incra. Desde o primeiro ano de Bolsonaro, o líder camponês Erasmo Theofilo, sua companheira, a quilombola Natalha Theofilo, e seus quatro filhos pequenos, já tiveram que empreender seis fugas para salvar suas vida.

Quando Magela Filho foi absolvido, a família Theofilo estava exilada dentro do próprio país, refugiada para não ser morta. Possivelmente seguirá exilada até Lula tomar posse, em 1º de janeiro – e mesmo assim não há garantia de segurança em Anapu. Todas as lideranças ameaçadas da região temem uma explosão da violência até o final de 2022. O Brasil que obrigou Magela Filho a se tornar Gaspar persiste. E é pior do que foi.

 

Natasha

Erich Maria Remarque 

Assim, minhas últimas semanas na América foram semanas serenasa e cheias de amor: uma colmeia com favos de ouro repletos de mel. O mês de maio passou. Chegou o verão. E as primeiras notícias da Europa iam, neste meio tempo, chegando. Era como se se levantasse o tampo de um sepulcro cimentado há longos anos. Antes, evitava tomar conecimento das notícias de lá, ou então, mesmo sabendo-as, só permitiam que me aflorassem superficialmente à consciência, para que não me magoassem mais. Agora acontecia o contrário. Conhece-las todas e a fundo fazia parte de meu plano obsessivo, desse plano que agora me doía como parte enterrada na carne viva - partir! Estava cego e surdo para tudo o mais.

- Quando é que viajas? perguntou-me Natascha, de repente.

Esperei um minuto em silêncio, antes de responder.

- No começo de julho. Mas como soubeste?

- Não foi por ti. E por que não me disseste pessoalmente?

- Só o decidi ontem.

- Mentira

- Sim - reruquei. - É mentira. Mas eu não queria te contar.

- Por que não?

Fiquei calado. E murmurei finalmente:

- Achava difícil.

Natasha deu uma risada.

- Difícil por que? Vivemos tanto tempo juntos e nunca nos escondiamos nada. Cada um de nós apenas se utilizou do outro. E agora nos separamos. Que há demais nisto?

- Eu não me utilizei de você.

- Mas eu me utilizei de você, sim. E você também de mim, ora essa! Para que mentir? Não há necessidade.

- Eu sei

- Seria ótimo se não continuasse mentindo. Pelo menos nesses momentos finais.

- Vou tentar.

Olhou-me, agora mais séria.

- Concorda então, que, mentiste?

- Como posso admiti-lo? Mas também como posso negar? Olha, acredite, se quiser.

- Simples, não?

- Não. Não é simples. Vou-me embora daqui - eis a verdade. Não posso te explicar por quê. Tudo o que posso dizer é que assim é. É como quando a gente tem que partir para a guerra.

- Tem que partir? - perguntou.

Calei-me, de novo, sofrendo. Eu tinha de vencer a parada.

- Nada posso dizer-te - prossegui. - Você tem razão. Se é que a razão entra de alguma maneira em tudo isto. Sou tudo o que você diz: mentiroso, caloteiro, egoista. Sou e também não sou. Quem é que pode discernir uma coisa da outra, numa situação em que o certo é errado e o errado é certo?

- E o que é mais importante?

- O mais importante de tudo é que eu te amo - disse, já cansado. E esta não é hora de te dizer isto.

- Não - interveio, agora mais suave. - Esta não é a hora Robert.

- Sim. Toda hora é hora para dizê-lo.

Eu sofria, fazendo-a sofrer desta maneira. Era como se me ferisse a mão com uma faca afiada. Bem poderia agir de outro modo, mas sabia que seria apenas um egoismo, mais confortável, por certo, porém mais lastimável também.

- Não faz mal - disse ela. - Éramos um para o outro muito menos do que pensávamos. Éramos ambos mentirosos. 

- Sim - concordei

- Durante o tempo em que éramos amantes, eu tive relações também com outros homens. Não eras o único.

- Eu sei, Natasha.

- Sabias?

- Não - respondi-lhe, seco. - Nunca soube. E, se me dissessem, não o teria acreditado.

- Podes acreditar. É a pura verdade.

Sabia que aquilo era uma saida para o seu orgulho. Neste exato momento, não acreditei no que estava dizendo.

- Acredito no que você diz - menti-lhe. - Eu nunca pensei que você me fizesse uma coisa dessas.

Ela ergueu a cabeça. Adorava contemplá-la nesta posição. Senti-me desesperado, mas vi que mais desesperada estava ela ainda. Num caso desses, quem fica na retaguarda, mesmo que o outro lhe entrgue as armas, está sempre prestes a desferir o golpe.

- Eu te amo, Natasha. Gostaria que entendesses. Não por mim. Mas por ti.

- Não por ti?

Notei que tinha cometido um erre tático.

- Sou uma pessoa a quem ninguém pode ajudar - expliquei. - Será que não o percebes?

- Separamo-nos como duas pessoas desconhecidas e indiferentes que, por mera casualidade, fizeram juntas, lado a lado, o mesmo trecho da viagem. Sem nunca se entenderem. E como poderíamos entender-nos?

Esperei que ela fosse aludir agora ao meu caráter de alemão. Mas também notei, logo, que ela percebeu que eu o esperava. O que Natasha não percebeu foi que, se o fizesse, eu não a ia contradizer. Por isso desistiu.

- Foi até bom ter sido assim - continuou. - Eu queria te abandonar. Apenas hesitava, não sabendo como deveria te dizer isto.

Eu sabia qual devia ser a minha resposta exata. Mas não podia dizê-la

- Querias abandonar-me? - perguntei-lhe, finalmente.

- Sim. Há muito tempo. Nossa convivência de amantes foi longa demais. Affaires desse tipo têm de ser mais breves.

- Sim - respondi. - E te agradeço por teres esperado tanto tempo. Do contrário, que seria de mim?

Pareceu assustar-se.

- Por que mentes de novo?

- Não estou mentindo.

- Que nada! Palavras e palavras! Tens sempre palavras para tudo. E sempre as mais bonitas.

- Não agora.

- Agora não?

- Não, Natasha. Não são só palavras. Sou um homem triste. E sem possibilidades de consolo.

- Mais uma vez - palavras!

Levantou-se decidida e foi apanhar suas roupas.

- Não olhe para cá - protestou. - Não quero mais que me veja nua.

Vestia-se. Percebi quando calçou as meias e os sapatos. Eu olhava para a janela. Fazia calor. Chegava aos meus ouvidos o sum de um piano. Alguém tocava "La Paloma". Um principiante, pois cometia sempre os mesmos erros e repetia e repetia os oito primeiros compassos, sem êxito. Sentia-me a criatura mais desgraçada do mundo e nada mais entendia. Só uma coisa era certa: mesmo que eu ficasse, estava tudo acabado. Percebi que, em pé atrás de mim, Natasha estava pronta para sair. 

Ao sentir que ela abria a porta, voltei-me e caminhei na sua direção.

- Não me acompanhe - disse sem me olhar. - Fique aqui. Quero ir embora sozinha. E não voltes mais. Nunca. Nunca mais.

Fiquei de pé, no meio do quarto. Ainda a olhei, estarrecido. Seu rosto inexpressivo e pálido, os olhos que ainda pareciam me ver sem me olhar. E a boca. E as mãos. Não esboçou o menor gesto. E ia já no corredor, quando a porta se fechou, quase por si. 

Não corri atrás dela. Apenas não sabia o que fazer. Continuei de pé, no meio do quarto. Os olhos perdidos na distância. 

[Remarque, Erich Maria, Sombras no Paraiso, pp. 439 - 442, Tradução de Belchior Cornelio da Silva, Record, 1971]

(...) Nunca mais vi Natasha. É provável que ambos ficássemos esperando um pelo outro, aguardando que o outro chamasse. Muitas vezes, eu quis fazê-lo. Mas logo me dava conta de que seria inútil. Não conseguia libertar-me das sombras - minhas companheiras de todas as horas. E cada vez me repetia que melhor manter alguma coisa oculta, sem no-la dizer. Como estava acontecendo. Melhor do que continuar a nos ferir, pois ferir-nos era só o que sabíamos fazer uma ao outro. Daí não saíamos. (...) Procurei Natasha, quando andava, pelas ruas de Nova Iorque. Mas nunca a reencontrei. [Idem, p. 445]

(...) Não sei mais o que fiz, durante todos esses anos. Nem faz parte do escopo desses meus apontamentos. O curioso é que, pouco a pouco, foi crescendo em mim e se tornando mais forte a lembrança de Natasha. Não era uma desculpa. Não era arrependimento. Mas só agora percebi o que ela significou para mim. (...) Natasha tinha sido, sem eu perceber, o acontecimento mais importante da minha vida. [Ibidem, p. 447]

Sobre o livro

'Sombras no paraiso' trata da convivência de uma comunidade de emigrantes, predominantemente alemães ant-nazistas, em Nova Iorque, durante a 2ª Guerra Mundial. Ironia e nostalgia se misturam em estórias de vida em que os sofrimentos do passado estão presentes, mas de forma até alegre se divertem da própria desgraça. Destaco a relação de Robert Ross, narrador, com Natascha Petrowna e sua comovente separação. Durante a trama Ross me pareceu um alemão racional no affair com Natasha, um anti-Werther, mas no final ele se mostrou um parceiro de “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe (conterrâneo de Ross).

Personagens por ordem de aparecimento

O narrador, Robert Ross: emigrante alemão que "morrera" oficialmente em 1933. Trabalhou em Nova Iorque: orientador na compra e venda de quadros duvidosos e de antiguidades falsas. Robert Ross é o nome de um estadunidense falecido na guerra. O alemão herdou seu passaporte. Ross era apaixonado por Natsaha.

Wladimir Melikow, antigo emigrante russo, que falava alemão, trabalhava no Hotel Reuen e gostava do vodka.

Kurt Lachmann, emigrante alemão, coxo e falseador de coisas vendáveis.

Natsaha Petrowna, russa nascida em Paris. Manequim, "Mulher alta, magra, de rosto pequeno. Era pálida e tinha olhos azuis e cabelos castanhos-escuros, dando a impressão de terem sido tingidos." De Natasha para Ross: "Adoro estas conversas noturnas sobre tudo e sobre nada. Naturalmente, nada do que eu lhe disse é verdade." Não sou toda humana ainda. Mas sou uma estátua que já começa a andar.

Irmãos Lowy, gêmeos, mas de signos diferentes, porque o mais velho nasceu três horas antes. Um Gêmeos e o outro Câncer: tinham uma loja de antiguidades.

Harry Kahn: passaporte espanhol. "Portava-se com ternos elegantes e era de um sangue-frio de pasmar. Kahn sabia muito bem que a melhor maneira de se impor autoridade a um subalterno alemão é gritar com ele. E isto era facílimo fazer. Espanha e Franco eram amigos de Hitler. Toda ditadura gera o medo e a insegurança nas pessoas, espacialmente nas classes subalternas... "

Betty Stein: alemã nostalgica. "A mãe dos emigrntes."

Silvers: vendedor de quadros e patrão de Robert Ross. "A época do colecionador, que era um doublê de expert, terminou após a guerra de 1918. Com as reviravoltas políticas e econômicas, houve também transformações nas fortunas. Estas mudaram. Umas desapareceram, outras surgiram. Os velhos colecionadores têm de comprar, de se renovar. Muitas vezes têm dinheiro, mas não são peritos."

Grafenheim: emigrante alemão, médico, judeu e colecionadro de selos.

Vrieslander: alemão naturalizado estadunidense de antes da guerra. Alta classe. Todos gostavam do gulache dos Vrieslanders.

Carmen: "É Greta Garbo e Dolores del Rio numa só pessoa." (Um Khan apaixonado por Carmen). Uma beleza trágica.

As gêmeas Koller: "São vivas e inteligentes. E húngaras! Enquadram-se no velho esquema: pimentão no sangue!" (Kahn)

Mrs. Whymper: Compradora de quadros. "Seus sessenta anos podiam, sem esforço, ser abatidos para cincoenta. No pescoço, aliás, um grande colar de pérolas, de muitas voltas, dissimulava-lhe bastante as primaveras e tornava aquela mulher ainda mais elegante e imponente." Whymper tomava, e muito, martini e gim com uma gotinha de vermute. Ross, o vodka com martini.

Tannenbaum: alemão ant-nazista. Ator, em Hollywood, que interpretava pequenos papeis de oficial da Gestapo.

Holt: produtor e diretor de Hollywood com quem Ross se meteu, a contragosto, em ajudar no script de filme sobre nazistas.






domingo, 4 de dezembro de 2022

Casemiro ou Gavão Bueno?

Por que Casimiro não incomoda a Globo, mas virou dor de cabeça para Fifa

Guilherme Ravache, UOL, 04/12/2022

Nesta semana, o streamer Casimiro Miguel bateu o recorde mundial com uma transmissão de futebol no YouTube, chegando a 4,8 milhões de visualizações em seu canal CazéTV. Os números impressionam, mas uma análise mais detalhada dos dados mostra que nem tudo é o que parece. Casimiro é ótimo e as transmissões que faz são perfeitas para seu público. Mas a questão não está no conteúdo do streamer, o problema é a conta e as expectativas irreais da Fifa. Assim como a Globo tem prejuízo com a Copa, a conta também não fecharia no canal do Casimiro se a Fifa não tivesse dado uma forcinha.

 Obviamente, essa forcinha da Fifa no fundo é uma tentativa da organização de sair do beco sem saída em que se colocou. Para entender essa questão é preciso voltar alguns anos no tempo. Quando a Globo assinou o contrato para a transmissão da Copa do Catar, o cenário brasileiro era muito diferente. Ainda era o governo Lula, a The Economist publicava o Cristo Redentor em sua capa decolando para mostrar o potencial da economia brasileira e o país parecia caminhar para se tornar uma potência mundial.

A Globo apostava alto no Brasil e no futebol. Tão alto que fechou o segundo contrato de transmissão mais caro do mundo com a Fifa, pagando cerca de US$ 90 milhões por ano, o equivalente a cerca de R$ 468 milhões pela cotação atual, ou quase R$ 1,9 bilhão a cada 4 anos. Brasil tem segunda Copa mais cara do mundo Segundo o relatório fechado Rights Tracker, da SportBusiness, apenas os direitos de transmissão dos Estados Unidos foram mais caros, custando US$ 575 milhões (R$ 3 bi). Países com poder aquisitivo mais alto que o Brasil pagaram menos. A Alemanha gastou US$ 235 milhões (R$ 1,22 bi) e Japão US$ 225 milhões (R$ 1,17 bi). Mesmo a China, com uma imensa população, investiu apenas US$ 203 milhões (R$ 1,05 bi). Na Argentina, o valor pago à Fifa não passou de US$ 20 milhões (R$ 104 mi). Para piorar, os últimos anos causaram uma revolução no mercado de mídia. O streaming explodiu duas vezes, primeiro ao atrair o público da TV, e depois quando se descobriu que a conta não fechava e era preciso cortar custos drasticamente.

A Globo, assim como seus pares, se viu afetada por um cenário econômico negativo e um modelo de negócios cada vez mais desafiador, com a receita da TV aberta e a cabo despencando. A solução foi renegociar contratos em novas bases e abrir mão dos acordos em que a conta não fechasse. Na outra ponta estava a Fifa e demais federações. No início imaginaram que era "conversa de comprador".

Afinal, quem imaginaria a Globo sem grandes competições de futebol, o filé da mídia brasileira?
Para surpresa geral, a Globo abriu mão da Libertadores e dos campeonatos regionais de futebol. De certa forma, a emissora carioca atirou no que viu e acertou no que não viu. Os campeonatos saíram da emissora, mas os resultados foram inferiores nos concorrentes. Para os times foi um problema. Os patrocinadores querem exposição de marca e pagam por isso. Os clubes também precisam atrair torcedores. Ou seja, a Globo saiu fortalecida da disputa. Tanto que os campeonatos estão gradualmente retornando à Globo, mas com valores muito mais baixos do que as cifras do passado.

Fifa cede aos 45 do segundo tempo

Em 2020, diante da pandemia de Covid, a Globo forçou uma renegociação com a Fifa e a disputa chegou a ir para a Justiça, mas acabou sendo resolvida por meio de um novo acordo. Os direitos de transmissão em streaming (na internet) da Copa foram devolvidos à Fifa nesta renegociação de contrato com a Globo. Plataformas como Youtube, Facebook, TikTok, Kwai, Instagram, entre outros também ficaram disponíveis.

Recentemente, a Globo renovou com a Fifa até 2026, com um adendo. Segundo o site Poder360, o novo contrato não prevê mais exclusividade nas transmissões em TV aberta e por assinatura. Quem passou a vender a Copa do Mundo no Brasil foi a LiveMode. A empresa habilmente tem conseguido, dentro do possível, driblar a Globo e encontrar novas fontes de receitas para as transmissões esportivas. A LiveMode levou o Campeonato Paulista para o streaming, por exemplo. Os resultados são avaliados como positivos pela Federação Paulista de Futebol.

Seja como for, Fifa e LiveMode precisam equilibrar visibilidade de marca e receita. A Globo, além de ter a mais robusta equipe comercial do país, também tem a maior e mais fiel audiência no futebol. Como ouvi de um executivo da emissora há alguns meses: "se algo perde dinheiro na Globo, como ganharia em outro lugar?". A resposta está em um modelo comercial diferente. A Globo compra os direitos e vende as cotas de patrocínio. A Band para tirar a F-1 da Globo topou dividir a receita com a Liberty Media, dona dos direitos. O SBT também topou dividir parte da receita de futebol com os donos dos direitos.

No caso de Casimiro, a Fifa aceitou fazer um teste e vendeu os direitos para a LiveMode faltando apenas dois meses para o início da Copa. O valor foi bem distante do que a Fifa gostaria. Em 2026 haverá um aumento dos valores dos direitos e também dos valores cobrados dos anunciantes. No mercado o comentário é que existirá ainda uma divisão de receitas da LiveMode com a Fifa a partir dos resultados de Casimiro, mas pelo baixo tempo para realizar as vendas, apenas dois meses, o número poderia ser melhor.

A realidade é que a Fifa não tinha muitas alternativas. Desde 2020 ela tentou vender os direitos digitais sem sucesso. Interesse existia, o problema era o valor pedido. Disney, Warner Bros. Discovery, YouTube,TikTok e todos os grandes players foram abordados, mas não fecharam acordo. Questionada pela coluna, por meio de sua assessoria de imprensa a LiveMode disse que "Os modelos de negócios das iniciativas inovadoras vão se desenvolvendo com o tempo. É tudo muito novo. Então é muito difícil prever o futuro e como serão os custos e receitas ao longo do tempo". Ainda segundo a empresa, teste talvez não seja a a definição correta. "É uma inovação, sem dúvida. E para inovar muitas vezes é necessário a agilidade que tivemos nesta situação".

Sobre o confronto com a TV a LiveMode diz que "são modelos complementares. A TV tem seu público, tem muita gente que vai seguir preferindo ver na TV. As transmissões da CazéTV vão buscar um outro público, que está mais nas plataformas digitais como o Youtube e a Twitch. Achamos que a tendência não é das transmissões por influenciadores e sim do consumo de conteúdo nas plataformas digitais. O negócio tradicional de TV segue tendo muito espaço, não achamos que as transmissões de influenciadores que mudem isto".

Casimiro ajudou a Globo

 A última cartada da Fifa foi a aposta em Casimiro. O YouTube tinha interesse na Copa, mas havia dúvidas de como o evento iria performar em sua plataforma. O sucesso de Casimiro poderia dar essa resposta. Dependendo do resultado, o YouTube seria um competidor viável nas futuras negociações em digital. 

As big techs são notórias pela fartura de recursos e não falta caixa para comprarem o que quiserem (a compra de conteúdo ainda não é limitada por órgãos reguladores, diferentemente da compra de empresas concorrentes). Nos Estados Unidos, o Google está disputando com a Apple o Sunday Ticket da NFL. A expectativa é que o contrato que atualmente custa US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,8 bilhões pela cotação atual) por ano para a DirectTV (e que perde US$ 500 milhões ano com o negócio) passe a custar entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3 bilhões por ano (entre R$ 13 bilhões e R$ 15,6 bilhões).

O valor ajuda a explicar por que somente Google e Apple seguem na disputa. A questão é que apesar de ricas, as big techs ainda não tem o mesmo alcance da TV. A Amazon transmite os jogos da NFL às quintas-feiras, mas a audiência estaria abaixo da expectativa. Por outro lado, os jogos desta temporada estão batendo recorde de audiência na TV. Por que Casimiro não é visto como uma ameaça pela Globo e pode até ajudar a emissora? Porque mesmo com o recorde, Casimiro estaria apenas reforçando a força da TV e a superioridade da Globo. Resumidamente, seria a prova de que os direitos da Fifa valem menos do que a entidade acredita.

Dentro da Globo a avaliação é que Casimiro, ou qualquer influenciador, só incomodariam se chegassem a mais de 20 milhões a 25 milhões de views. Os dois primeiros jogos do Brasil na TV aberta alcançaram mais de 96,3 milhões de pessoas. O alcance médio por partida da Copa na Tv aberta foi de 34,9 milhões de pessoas (no online uma pessoa pode gerar diversos views, na TV, não). Os números acima não consideram TV a cabo e plataformas digitais da Globo, o que elevaria consideravelmente o alcance.
Procurada, a comunicação da Globo destacou a boa performance da audiência de suas plataformas com as transmissões da Copa. 

YouTube é pequeno perto do BBB

 Em recente entrevista à Forbes, Patrícia Muratori, head do YouTube no Brasil, comentou sobre os resultados do Campeonato Paulista. "Esse ano, trouxemos o Paulistão para o YouTube. Foram audiências massivas, com mais de 81 milhões de views em todos os jogos - sendo 73 milhões de visualizações ao vivo, num jeito de transmitir que agradou muito o público".

Para efeito de comparação, o último BBB teve mais de 1,7 bilhão de visualizações no Globoplay (segundo dados internos da Globo). Mesmo a questão da medição joga a favor da TV. Uma visualização não é a mesma coisa que um espectador, como no caso da TV. Além disso, muitas vezes o celular funciona como segunda tela, já que a pessoa está vendo o jogo na TV, o que beneficia os anunciantes presentes na TV.

Além disso, a medição da audiência de TV é auditada e acompanhada há décadas. Por enquanto, os números das plataformas digitais são computados e divulgados pelas próprias plataformas. A avaliação dentro da Globo é que a atração de Tiago Leifert na Copa é um sucesso e está cumprindo seu papel de ser uma alternativa à transmissão tradicional. Mas quanto isso representa em visualizações ou tempo de permanência é uma questão aberta, já que o Globoplay não divulga os números. E mesmo que divulgasse, a informação não seria auditada por terceiros como acontece na TV.

O YouTube nunca escondeu seu desejo de concorrer com a TV, o problema é que são modelos de negócio bem diferentes. Mesmo nos EUA, onde tenta comprar o Sunday Ticket, o plano do Google é transmitir as partidas no YouTube TV, a TV a cabo do Google custa US$ 64,99 por mês. O modelo de transmissão de esportes de primeira linha de maneira gratuita no streaming, por enquanto, não existe. NFL, NBA, ligas europeias, ninguém encontrou uma maneira sustentável de fazer isso no digital. E a razão é simples, a conta não fecha. O delay de até 1 minuto nas transmissões digitais seria outro ponto fraco do streaming.

Por que Casimiro é uma dor de cabeça para a Fifa? 

As transmissões acontecem no YouYube, a maior plataforma de streaming do mundo. Traz como novidade Casimiro, o maior e mais interessante streamer do mundo apresentando as partidas. A LiveMode, potência comercial no Brasil, vendeu as transmissões. É o time perfeito, e mesmo assim, o valor que a Fifa irá receber é dezenas de milhões de dólares inferior ao que recebia da Globo.
Obviamente, para o YouTube ou qualquer outro player, o futebol é uma atração altamente desejável. A questão é fazer isso sem perder dinheiro, o que depende do quanto a Fifa cobra pelos direitos de transmissão. E tudo indica que será bem menos. Procurados, Fifa e Google não comentaram. No futuro talvez tenhamos todos os jogos e atrações da TV no streaming. A Globo sabe disso, investe bilhões no Globoplay e trouxe Tiago Leifert liderando uma transmissão com foco no modelo digital.

"Não há dúvidas que o sucesso do Casimiro confirma que existe uma nova janela relevante, um novo formato de alto alcance, para distribuição de conteúdo esportivo e para investimento dos patrocinadores", diz Bruno Maia, especialista em inovação e novas tecnologias e sócio da Feel The Match. "Isso diminui a força das mídias antigas, mas não acaba com elas".

Bruno defende ainda que "as redes sociais, por maiores que tenham sido ou sejam, não chegaram a se confirmar como alternativas às TVs e já foram atropeladas pelas plataformas focadas em streaming. A distribuição customizada do streaming tem, por característica nativa, ser nichada. Pode ser um nicho grande, mas ainda assim será para diversos nichos. A TV ficará com consumidores menos exigentes, mais generalistas, que seguirão sendo bastante expressivos em quantidade de pessoas."

O futuro da TV é o digital e a fronteira entre apresentadores de TV, streamers e influenciadores deve ser cada vez menos clara, mas por enquanto a TV ainda é o meio mais efetivo para a Copa do Mundo. A Fifa e a LiveMode vão fazer o que puderem para maximizar o faturamento com a Copa, mas não podem diminuir a visibilidade da competição, para a sorte da Globo.

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.