quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Eleição presidencial: Datafolha e Ipec, semana de 19 a 23 / 2022

Datafolha: Lula vai a 47%, abre 14 pontos sobre Bolsonaro e amplia chance de vencer no 1º turno

Petista voltou ao patamar de 50% dos votos válidos, limiar para vencer no dia 2 de outubro

Igor Gielow, 22/09/2022

Faltando dez dias para o primeiro turno das eleições presidenciais, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) oscilou dois pontos para cima, atingiu 47% e tem uma dianteira de 14 pontos sobre Jair Bolsonaro (PL), que se manteve em 33%. Cresceu assim a possibilidade de o petista vencer no primeiro turno. A estabilidade com oscilação positiva para o petista no cenário de uma semana para cá, aferida pela mais recente pesquisa do Datafolha, vai acirrar a queda de braço entre as duas campanhas líderes de uma corrida cuja decisão na primeira rodada pode ocorrer no olho mecânico.

Empatados em terceiro lugar estão Ciro Gomes (PDT), oscilou de 8% para 7%, e Simone Tebet (MDB), que segue com 5%. Soraya Thronicke (União Brasil) oscilou de 2% para 1%.

A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos neste levantamento, feito de terça (20) a esta quinta (22). O instituto ouviu 6.754 pessoas em 343 cidades, e a pesquisa encomendada pela Folha e pela TV Globo está registrada sob o número BR-04180/2022 no Tribunal Superior Eleitoral.

A boa notícia para Lula é que, com a oscilação, ele voltou à casa dos 50% de votos válidos, limiar para uma vitória no primeiro turno. Esse critério, adotado pelo TSE para a contagem da eleição, exclui os brancos e nulos: quem tiver 50% mais um voto está eleito diretamente. Semana passada, estava em 48%.

O petista deverá dobrar esforços para evitar alta abstenção e buscar voto útil dos eleitores dos terceiros colocados, Ciro e Tebet, e Bolsonaro buscará tentar investir contra a imagem do ex-presidente para levar a disputa final para o dia 30 de outubro. O último ciclo da campanha antes do primeiro turno terá como destaque os debates na TV no sábado (24), no SBT, e na quinta (29), na Globo. Com efeito, Lula já avisou que não irá ao primeiro, para reduzir a chance de acidentes.

Mas o petista já esteve em posição mais confortável na contagem dos válidos com até 54% em maio. E a abstenção, fator central para definir o universo de votos válidos, não é aferível de antemão. Assim, Lula fez nesta semana acenos a idosos, grupo mais propenso a se abster pela não obrigatoriedade do voto acima dos 70 anos. Não houve efeito imediato. No grupo de eleitores acima de 60 anos (20% da amostra), ele oscilou dois pontos para baixo, mantendo vantagem de 47% sobre 40% do presidente.

Lula apostou também numa simbólica fotografia em que reuniu oito ex-candidatos a presidente em seu apoio. Mas não houve uma movimentação significativa em estratos mais instruídos ou de maior renda, teoricamente mais expostos ao noticiário político da frente em seu favor. A força do petista segue residindo nos mais pobres. Entre aqueles que ganham até 2 salários mínimos, 51% dos ouvidos pelo Datafolha, ele foi de 52% para 57%, em comparação com na rodada anterior, apurada de 13 a 15 deste mês.

Já Bolsonaro oscilou de 27% para 24% no segmento, confirmando a pior notícia que sua campanha colheu, ao lado de sua alta taxa de rejeição. O presidente usou um arsenal de medidas populistas na economia, que foram do mais amplo reajuste do Auxílio Brasil para os mais carentes a agrados pontuais a caminhoneiros e taxistas, passando pela sequência de redução nos preços administrados de combustíveis. Por outro lado, a fome e a inflação ainda alta dos alimentos têm impedido que a melhoria econômica seja percebida entre mais pobres.

O presidente melhorou seu desempenho, por outro lado, na faixa de 2 a 5 mínimos (34% da amostra), justamente a classe média baixa mais sensível à questão dos preços de gás e gasolina. Saiu de um empate numericamente inferior para Lula (39% a 40%) para uma vantagem de 43% a 36%.

Do ponto de vista de imagem, o foco agora deverá ser a tentativa de desgastar Lula, já que os artifícios bolsonaristas parecem ter chegado ao limite da utilidade devido à manutenção da rejeição alta. Sua demonstração no 7 de Setembro não resultou em ganho fixo, e a busca por uma melhoria de imagem nas viagens internacionais que fez fracassou, como o vexame passado na ida ao funeral de Elizabeth 2ª, por exemplo.

No corte religioso, que viu na semana passada Lula recuperar-se entre os evangélicos, apesar da grande vantagem de Bolsonaro, a situação é de estabilidade. No grupo politicamente articulado, que soma 25% do eleitorado pesquisado, o presidente tem 50% e o petista, 32%. Nos demais segmentos, a aferição do Datafolha traz um filme conhecido desta campanha até aqui. Lula teve seu maior crescimento da rodada anterior para esta entre os mais pobres, no Sul (14% do eleitorado) e entre os mais jovens (14% da amostra).

Mais importante, oscilou um ponto para baixo, mas segue líder na região mais populosa, o Sudeste (43% dos ouvidos), batendo Bolsonaro por estreitos 41% a 36%. O presidente, por sua vez, viu uma melhoria de dois pontos na região. Sua entrada no eleitorado feminino permanece com entrave vital à sua pretensão eleitoral, devido ao seu longo histórico de colocações machistas. Entre elas, que são 52% da amostra, preferem Lula 49%, enquanto 29% dizem votar no presidente.

Ciro e Tebet seguem amargando a terceira colocação mais distante. O pedetista, em particular, tem se revoltado publicamente contra a ofensiva petista para lhe tirar apoio. Ele não chegou a desidratar decisivamente, mas oscilou um ponto para baixo. O voto na dupla por ora é um dos principais fatores para a eventual necessidade de um segundo turno.

Não chegaram aos 1% na pesquisa Felipe D'Ávila (Novo), Vera (PSTU), Sofia Manzano (PCB), Leo Péricles (UP), Constituinte Eymael (PDC) e Padre Kelmon (PTB).

LEIA MAIS SOBRE A PESQUISA DATAFOLHA PRESIDENCIAL

Lula vai a 47%, abre 14 pontos sobre Bolsonaro e amplia chance de vencer no 1º turno

Lula tem 54% no 2º turno, ante 38% de Bolsonaro

52% dizem não votar em Bolsonaro de jeito nenhum, contra 39% em Lula

Lula vai de 48% a 50% nos votos válidos e pode vencer no 1º turno

Reprovação de Bolsonaro segue em 44%; aprovação vai a 32%

81% dizem já estar totalmente decididos sobre voto a presidente

Lula amplia vantagem em MG e segue líder em SP; Bolsonaro empata no RJ

52% afirmam nunca confiar em nada do que diz Bolsonaro

Análise: Lula aproveita rejeição a Bolsonaro e reforça núcleo no 1º turno

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Ipec 19 09 22 

Ipec: Lula vai a 47%, e Bolsonaro segue com 31% no 1º turno

Ciro Gomes aparece com 7% e Simone Tebet, com 5% 

FSP 19/2022 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 47% das intenções de voto na corrida eleitoral contra o presidente Jair Bolsonaro (PL), que tem 31%, segundo pesquisa Ipec divulgada nesta segunda (19). No levantamento anterior, realizado há uma semana, o petista tinha 46% (ou seja, oscilou agora um ponto para cima, dentro da margem de erro) e o atual mandatário, os mesmos 31%. A diferença entre eles passou de 15 para 16 pontos percentuais.

Em seguida, aparece o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), que se manteve com 7%. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) flutuou de 4% na última pesquisa para 5% agora.

O Ipec ouviu 3.008 brasileiros em 17 e 18 de setembro, em 181 municípios do país, com margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A sondagem foi contratada pela TV Globo e registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número BR- 00073/2022.

Ipec: Evolução de Lula e Bolsonaro no 1º turno

Lula (PT)

    12 a 14.ago: 44%

    26 a 28.ago: 44%

    2 a 4.set: 44%

    9 a 11.set: 46%

    16 a 18.set: 47%

Bolsonaro (PL)

    12 a 14.ago: 32%

    26 a 28.ago: 32%

    2 a 4.set: 31%

    9 a 11.set: 31%

    16 a 18.set: 31%

Outra candidata que pontuou nesta rodada foi a senadora Soraya Thronicke (União Brasil), que segue com 1%. Os que pretendem votar em branco ou nulo agora somam 5%, e os que não sabem são 4%.

Os candidatos Felipe d’Avila (Novo), Vera Lúcia (PSTU), Constituinte Eymael (DC), Léo Péricles (UP), Padre Kelmon (PTB) e Sofia Manzano (PCB) não pontuaram. Quando considerados os votos válidos, excluindo brancos ou nulos, o petista flutuou de 51% para 52%, enquanto o atual mandatário variou de 35% para 34%.

Um candidato precisa superar os 50% nessa métrica para vencer em primeiro turno. Considerando a margem de erro do levantamento, portanto, segue imprevisível a possibilidade de vitória na primeira votação. Questionados sobre quem elegeriam no segundo turno, 54% dos entrevistados indicaram Lula e 35%, Bolsonaro. A diferença entre eles oscilou de 17 para 19 pontos em relação à última aferição, quando eles tinham 53% e 36%, respectivamente.

Na pesquisa espontânea de primeiro turno, na qual o entrevistado não vê os nomes dos candidatos à Presidência, Lula é o mais lembrado. O petista passou de 44% para 45% nesse tipo de resposta, dentro da margem de erro. Já Bolsonaro variou de 30% para 29%. Ciro Gomes flutuou de 4% para 5% das menções; Simone Tebet, de 2% para 3%; e os demais candidatos registraram menos que 1% ou não foram citados.

A rodada mostra ainda uma oscilação negativa na avaliação da gestão Bolsonaro: 47% a acham ruim ou péssima (ante 45% na semana passada), os mesmos 30% a consideram ótima ou boa, e 22% a veem como regular (eram 23%).

A pesquisa aponta que 59% dos brasileiros reprovam a maneira de governar do presidente, enquanto 36% aprovam. Na rodada anterior, os números foram 59% e 35%, respectivamente. Outros 5% não souberam responder.

O Ipec foi criado em fevereiro de 2021 por ex-executivos do Ibope Inteligência, que encerrou suas atividades em janeiro daquele ano em razão do término de um acordo de licenciamento.


Ipec: Lula oscila para cima e mantém possibilidade de vitória em 1º turno



quarta-feira, 21 de setembro de 2022

A ÚLTIMA FOLHA, O. Henry

(The last leaf / O. Henry - 1945) 

Tradução de Terezinha Pereira – 2000

Tempos atrás, grande número de pessoas que gostavam de arte nos Estados Unidos, mudavam-se para Greenwich Village, um bairro de New York. Apreciavam a vida boêmia do lugar e achavam divertido viver entre tantos artistas. Os prédios e os apartamentos eram em geral muito antigos, com aparência de sujos, mas isso somente contribuía para tornar mais interessante o lugar.  Na parte de cima de uma velha casa de três andares, Sue e Johnsy tinham seu ateliê. Uma delas era do estado do Maine e a outra da Califórnia. Elas haviam se encontrado no restaurante de um hotel da Eighth Street. Ambas eram artistas que haviam chegado recentemente a New York para ganhar a vida. 

Isso foi em maio. Em novembro, naquele tempo, ainda estranha e rara, uma doença que os médicos chamaram de pneumonia, surgiu na cidade, ora tocando com seu dedo insensível, um aqui, outro ali. A doença atacou Johnsy  e ela ficou prostrada, mal se mexendo na sua cama de ferro pintado, olhando através da pequena janela a parede branca do prédio do outro lado da rua. 

Uma manhã, o médico chamou Sue no corredor da casa.

- Ela tem apenas uma chance em dez de recuperar-se,  disse ele enquanto sacudia o termômetro, e esta chance depende principalmente do desejo dela de melhorar. Mas sua amiguinha pôs na cabeça que está morrendo. Ela está preocupada com alguma coisa? 

- Ela queria pintar um quadro da Baía de Nápoles algum dia, disse Sue.

- Não, algo mais importante. Um homem, talvez?

- Não.

 - Bem, quem sabe isso seja o resultado da febre e de seu estado geral de fraqueza física. Mas, quando um paciente começa a ter como certo que está morrendo, então eu desconto metade da força dos medicamentos. Se você tiver a felicidade de  fazê-la interessar-se por  algo, em perguntar por exemplo, a respeito de assuntos da última moda de roupas femininas, então posso assegurar-lhe que, suas chances de melhora, passam para de uma em cinco, em vez de uma em dez. 

Após o médico sair, Sue foi para o seu quarto e chorou. Depois, tentando não mostrar sua tristeza, entrou no quarto de Johnsy assobiando. Johnsy estava deitada sob cobertores com o rosto voltado para a janela. Sue parou de assobiar, pensando que Johnsy estivesse dormindo. Mas, logo ouviu um leve ruído repetido várias vezes. Sue correu para o lado da cama. Johnsy estava com os olhos bem abertos. Ela estava olhando pela janela e contando de trás para a frente.

- Doze, disse ela e um pouco depois disse onze, então dez e nove e então oito, sete.

*****

 Sue olhou pela janela. O que estaria Johnsy contando? Lá havia apenas um cinzento e escuro terreiro e a parede branca da casa do lado. Uma velha, bem velha parreira, seca desde a raiz, subia até o meio da parede. A fria brisa do outono havia soprado quase todas as folhas da parreira até que seus galhos ficassem pelados. 

- O que é? Perguntou Sue.

- Seis, disse Johnsy calmamente. Elas estão caindo mais rápido agora. Três dias atrás havia quase cem. Dava-me dor de cabeça contá-las. Mas agora está fácil. Lá vai mais uma. Agora há somente cinco folhas. 

- Cinco o quê, querida? Diga-me. 

- Folhas. As folhas da parreira. Quando a última folha da parreira cair, eu também partirei. Sei disso há três dias. O médico não lhe disse?

- O médico não disse tal coisa. É pura tolice, disse Sue. Que ligação há entre estas velhas folhas com sua saúde? E você gostava gostava tanto dessa velha parreira! Por favor, não seja tola. O médico disse-me esta manhã que suas chances de ficar boa eram excelentes. Agora tente tomar um pouco de sopa e deixe-me voltar ao trabalho que preciso ganhar dinheiro para comprar-lhe um bom vinho do Porto.

- Não é preciso comprar mais nenhum vinho, disse Johnsy, fixando seus olhos na parede branca da casa do lado.   Quero ver a última folha cair antes do escurecer. Então também irei.

- Johnsy, querida, disse Sue curvando-se sobre ela. Prometa-me que ficará de olhos fechados e não ficará olhando por aquela janela até eu terminar o meu trabalho? 

- Você não poderia desenhar no seu quarto? Disse Johnsy com indiferença.

- Prefiro ficar aqui com você, disse Sue. Também não quero que fique olhando para aquelas folhas mais sem graça.  

- Diga-me logo que você tiver terminado, disse Johnsy, fechando os olhos e recostando-se pálida e serena. Porque eu quero ver a última folha cair. Estou cansada de esperar. Cansada de pensar. 

- Tente dormir, disse Sue um pouco depois. Preciso descer por um minuto para alcançar o senhor Behrman que deverá posar de modelo para mim. Logo voltarei. Não se mova e, por favor, prometa-me  não olhar pela janela.

O velho senhor Behrman era um pintor que morava no primeiro andar abaixo de onde elas moravam. Tinha mais de sessenta anos. Era um artista frustrado. Sempre havia desejado pintar um quadro que pudesse ser considerado uma obra-prima, mas ainda não havia começado a fazê-lo. Por muitos anos ele não havia pintado coisa alguma, a não ser, de vez em quando, algo relacionado a trabalho comercial ou publicitário. Ele ganhava pouco servindo de modelo para aqueles jovens artistas que não podiam pagar por um bom modelo profissional. Bebia muito whiskey e, sempre quando estava bêbado, falava a respeito da importante obra que ainda iria pintar. Era um destemido e ardoroso homenzinho que se julgava um cão de guarda protetor das duas jovens artistas que viviam no andar de cima, com as quais era muito afetuoso. 

*****

Sue encontrou Behrman em seu mal iluminado ateliê. Num canto da sala ficava uma tela branca que há vinte e cinco anos esperava para receber os primeiros traços   da prometida grande obra. Sue falou-lhe a respeito da estranha  idéia de Johnsy a respeito da última folha e disse que temia que Johnsy realmente morresse quando a última folha caísse. 

O velho Behrman bradou:

- Há pessoas no mundo que são ingênuas o bastante para acreditarem  que vão morrer simplesmente porque folhas caem de uma velha parreira? Nunca havia ouvido tal coisa. Por quê você permite essas idéias ridículas entrarem  na cabeça dela?  Oh, pobre senhorita Johnsy  ! 

- Ela está muito doente e muito fraca, explicou Sue, e a febre tem deixado a cabeça dela cheia de idéias estranhas.

Johnsy estava dormindo quando os dois subiram. Sue cerrou a cortina e fez sinal a Behrman para irem para o outro quarto. De lá, assustados,  eles olharam a parreira. Mudos, entreolharam-se por um momento. Caía uma chuva fria misturada com neve. Behrman sentou-se e preparou-se para posar para Sue. Quando Sue acordou na manhã seguinte, encontrou Johnsy com os olhos arregalados, olhando a janela.

- Abra a cortina. Quero ver, disse ela calmamente. 

Sue fez o que a amiga pediu. Mas, oh, após a pesada chuva e o forte vento, uma folha ainda estava dependurada na parreira. A última folha. Ainda de um verde escuro, ela pendia de um galho a uns seis metros do chão. 

- É a última, disse Johnsy. Pensei que certamente cairia durante a noite. Ouvi o vento e a chuva. Ela cairá hoje e então morrerei. 

- Querida Johnsy, disse Sue encostando seu rosto junto ao da amiga no travesseiro, pense em mim se não quer mais pensar em você mesma. O que farei?

O dia passou vagarosamente e, mesmo através do escuro que foi chegando com o entardecer, elas podiam ver a solitária folha ainda dependurada no galho de encontro a parede. Com a vinda da noite, o vento começou a soprar outra vez e a chuva começou a cair com força. Mas, na manhã seguinte, quando Johnsy pediu que a cortina fosse aberta de novo, a folha ainda estava lá. Johnsy permaneceu um longo tempo olhando-a . Então chamou Sue:

- Tenho sido uma má garota, Sue, disse Johnsy. Alguma coisa tem permitido que a última folha fique lá, exatamente para mostrar-me como tenho sido desagradável. Um pecado querer morrer. Agora traga-me um pouco de sopa e coloque alguns travesseiros atrás das minhas costas . Vou sentar e ver você cozinhar. 

Um tempo depois Johnsy disse:

- Sue, algum dia vou pintar um quadro da Baía de Nápoles. 

O médico chegou à tarde. 

- Você está se comportando bem, disse ele segurando a mão magra de Johnsy. Na próxima semana ou mais ou menos antes disso, estará perfeitamente bem. Agora preciso ir para ver outro paciente no andar de baixo. Seu nome é Behrman. Ele é algum artista, acredito. Pneumonia também. É um homem velho e fraco e o quadro dele é muito grave. Não há esperanças para ele mas, estou encaminhando-o para o hospital a fim de proporcionar-lhe mais conforto. 

No dia seguinte Sue aproximou-se da cama onde a amiga estava deitada.

- O médico me disse que você está perfeitamente bem, disse Sue, colocando o braço em volta dos ombros de Johnsy, que sorriu-lhe com alegria. Não é maravilhoso!  continuou Sue. Mas agora tenho uma coisa importante a lhe dizer. O velho senhor Behrman morreu de pneumonia nesta manhã no hospital. Ficou doente apenas dois dias. Eles o encontraram na sala, na manhã do dia em que apareceu doente, sozinho, com dor e febre. Seus sapatos e roupas estavam completamente molhados e gelados. Não podiam imaginar onde ele havia estado numa noite terrível como aquela. Então, encontraram uma lanterna ainda acesa, uma escada e algumas outras coisas que indicaram que, durante o vento e a chuva, ele havia subido e pintado uma folha verde na parede da casa do lado. Você não achava estranho que a folha nunca movia quando o vento soprava? Ah, querida! Essa foi a verdadeira obra-prima do Behrman. Ele pintou-a lá, na noite em que a última folha caiu. 

(Tradução premiada no “IV Festival Universitário de Literatura XEROX / Livro Aberto- 2000, publicada em 2001, São Paulo, Grupo Editorial Cone Sul”

Em tempo

A última folha no cinema (o 3º episódio, dirigido por Jean Negulesco)

Páginas da Vida, O. Henry's Full House, 1952, Henry Koster, Henry Hathaway, Jean Negulesco, Howard Hawks, Henry King

No iutubi aqui 





A caça às bruxas

 A lista de Wilkerson

Sérgio Augusto, O Estado, 25/11/2012


Referência sobre o tema

Em 1952. a escritora Lillian Hellman foi intimada a prestar depoimento sobre suas atividades antiamericanas perante o Comitê do Congresso encarregado de manter vivo o Americanismo. Era o ano em que Joseph McCarthy. no auge do poder. reelegia-se para o Senado. Mas Lillian não compareceu perante o Comitê do Senado. Ela foi intimada por um Comitê da Câmara dos comuns - aquela que. devido ao poder e longevidade que mantinha. tornou-se o comitê do período da Guerra Fria: o Comitê da Câmara contra Atividades Antiamericanas. Durante cerca de um terço deste século. o Comitê exasperou-se com seus arquivos cada vez maiores. depoimentos e relatórios. Sua época de maior poder teve início em 1948. com a deflagração do caso Hiss. Contudo. já em 1947 seu amplo mandato se mostrava explícito. com a colocação de testes ideológicos para produtos americanos. a começar pela indústria cinematográfica.

 

 


segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Pilulas 7

Simples poesia

Imagens que falam

Jupter

Piano de pau x aporrinhola - Ruy Castro

Debbie e Carrie

Imagem arqueológica viva 

Ons Jabeur, أُنْس جابر Uns Jābir

Reinaldo: O que o Chile ensina aos progressistas brasileiros 

Humberto Mauro

Alberto Cavalcanti

A música que fala: Martha Argerich, Yuja WANG

E a saga de June e Serena continua (Teocracia 1)

Os Borgias, “a santa igreja” e Maquiavel (Teocracia 2)


Simples poesia

– Ela é tão livre que um dia será presa.

– Presa por quê?

– Por excesso de liberdade.

– Mas essa liberdade é inocente?

– É. Até mesmo ingênua.

– Então por que a prisão?

– Porque a liberdade ofende.

Clarice Lispector

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Imagens que falam

A morte da rainha 

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Jupter

Descoberta Aterrorizante do Telescópio James Webb em Júpiter Muda Tudo! 

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Piano de pau x aporrinhola

Por que as antigas mídias têm de mudar de nome quando surge uma nova?

Ruy Castro, FSP, 27/08/2022

Orson Welles gravou "Cidadão Kane" em 1941? É verdade que a Warner queria Ronald Reagan, e não Humphrey Bogart, no papel de Rick Blaine, na gravação de "Casablanca" (1942)? Que Hitchcock teve de superar a insegurança de Kim Novak nas gravações de "Um Corpo Que Cai" (1958)? E que Marilyn Monroe levou Billy Wilder à loucura ao se atrasar todo dia para as gravações de "Quanto Mais Quente Melhor" (1959)? Bem, tudo isso é mais ou menos verdade. Exceto que nenhum desses filmes foi "gravado". Foram lindamente filmados, com filme em película, que exigia laboratório, revelação e corte e montagem a gilete na moviola.

O restaurador José Maria recupera na moviola filme de partida amistosa entre Corinthians e Bolonha no estádio Palestra Itália em 1929, um dos mais antigos registros de futebol paulista. - Tuca Vieira / Folhapress

De 1895, ano 1 de Lumière, até pelo menos 1980, todos os filmes, de todos os países e em todas as línguas, foram, com perdão pelo óbvio, filmados. Não foram gravados. As câmeras digitais ou ainda não eram populares ou as imagens que produziam não tinham qualidade para aguentar ampliação para uma tela de cinema com 400 metros quadrados. E, no entanto, quando se referem a qualquer clássico do passado, muitas pessoas hoje dizem que ele foi gravado.

Já não basta ao passado ser passado. Tem também de submeter-se à terminologia de nosso tempo. O caixa eletrônico dos bancos tornou-se, com naturalidade, apenas "o caixa". Já o antigo caixa que nos atendia no balcão passou a ser agora o "caixa humano". Por causa do livro digital, o querido livro impresso, com seus séculos de história, ameaça reduzir-se a "livro físico". O mesmo quanto ao jornal impresso, que passou a ser "jornal de papel".

Por que a nova mídia não se limita a impor o seu nome sem desmerecer o da mídia que ela superou? Em 1974, durante as gravações do LP —ainda não "vinil"— "Elis & Tom", o arranjador Cesar Camargo Mariano, adepto do teclado elétrico, referiu-se ao piano como "piano de pau"

Tom Jobim indignou-se. E passou a chamar o teclado elétrico de Mariano de "aporrinhola".

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Debbie e Carrie

Carrie Fisher faleceu no dia 27 de dezembro de 2016 aos 60 anos. Debbie Reynolds, mãe de Carrie, faleceu no dia 28 de dezembro de 2016 aos 84 anos.

Carrie Fisher and Debbie Reynolds in TCM Remembers 2017 

Harrison Ford, Carrie Fisher, and Mark Hamill in Guerra nas Estrelas (1977) 

Debbie Reynolds em 2012

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Imagem arqueológica viva 

THE WORLDS OLDEST OLIVE TREE, ESTIMATED TO BE OVER 3000 YEARS OLD. STILL PRODUCING OLIVES ON THE ISLE OF CRETE

Quando essa oliveira brotou, há 4000 anos, por volta do ano 2000 antes de Cristo. Na China alguém estava descobrindo o Bronze, e o último mamute era caçado pelos humanos. Acabava a sétima dinastia egípcia e em Creta, o rei Minos iniciava a construção do palácio que inspiraria o mito do minotauro e seu labirinto... No mesmo período que essa árvore germinou foi quando nossa espécie descobriu a existência do vidro. A árvore, que está na Grécia, viu o homem caminhar da idade do bronze e chegar na era atômica, e atual. Ela viu o mundo mudar, viu reis, déspotas, políticos, poetas, guerreiros e profetas surgirem, e morrerem. Ela passou pelas muitas, incontáveis guerras. E ela ainda continua a dar azeitonas a cada temporada... Mistério Arqueológico

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Ons Jabeur, أُنْس جابر Uns Jābir

Ons Jabeur nasceu em 28 de agosto de 1994, filha de Samira e Ridha Jabeur em Ksar Hellal, uma pequena cidade na Tunísia. Jabeur tem dois irmãos mais velhos, Hatem e Marwen, e uma irmã mais velha, Yasmine. Sua mãe jogava tênis recreacionalmente e a apresentou ao esporte aos três anos de idade. É fluente em árabe, francês, inglês e está aprendendo russo. Jabeur dá crédito aos pais pelos sacrifícios que eles fizeram quando ela estava crescendo, dizendo: "Meus pais sacrificaram muitas coisas - minha mãe costumava me levar a todos os lugares da Tunísia para ir jogar torneios e ela me incentivou a ir a um evento especial escola para estudar. Foi um grande sacrifício ver sua filhinha perseguindo um sonho que, honestamente, não era 100% garantido. Ela acreditou em mim e me deu confiança para estar lá (...)

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Reinaldo: O que o Chile ensina aos progressistas brasileiros 

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Humberto Mauro

(..) A convite de Edgar Roquette-Pinto, Mauro se junta ao Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), onde de 1936 a 1964 realizou mais de 300 documentários de curta-metragem sobre temas tão variados como astronomia, agricultura e música. Enquanto trabalhou no INCE , Mauro dirigiu apenas três longas metragens: O Descobrimento do Brasil (1937), com música de Villa-Lobos, Argila (1940) e Canto da Saudade (1952), onde também trabalha como ator, num papel secundário.

Afastado do cinema desde 1974, quando fez o curta-metragem "Carro de Bois", passou a viver em seu sítio Rancho Alegre, em Volta Grande, onde morreu, aos 86 anos, quase que completamente cego, após uma forte pneumonia.

Humberto Mauro é autor do mais significativo ciclo regional do cinema brasileiro, iniciado em 1926 com "Na Primavera da Vida". Durante seus últimos anos de vida, Mauro foi a inspiração principal da geração do Cinema Novo. Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha eram seus admiradores declarados...

Longas-metragens

1926 - Na Primavera da Vida

1927 - Thesouro Perdido

1928 - Brasa Dormida (Phebo Brasil Filmes, Cataguases)

1930 - Lábios sem Beijos

1930 - Sangue Mineiro

1933 - A Voz do Carnaval

1933 - Ganga Bruta

1935 - Favela dos Meus Amores

1936 - Cidade-Mulher

1937 - O Descobrimento do Brasil

1940 - Argila

1952 - O Canto da Saudade

Curtas-metragens

1925 - Valadião, o Cratera

1942 - O Dragãozinho Manso: Jonjoca

1945 - Brasilianas: chuá-chuá e casinha pequenina

1948 - Brasilianas: azulão e pinhal

1954 - Brasilianas: aboio e cantigas

1955 - Brasilianas: engenhos e usinas

1955 - Brasilianas: cantos de trabalho

1955 - Brasilianas: manhã na roça: o carro de bois

1956 - Brasilianas: meus oito anos

1956 - O João de Barro

1958 - São João Del Rei

1964 - A Velha a Fiar

1974 - Carro de bois

Sobre Ganga Bruta aqui 

Humberto Mauro papo de cinema

Humberto Mauro – curtas

A Captação da Água (1954) curta documentário brasileiro – Humberto Mauro 

Engenhos e Usinas (1955) curta documentário com música folclórica brasileira 

Carro de Bois (1974) curta documentário brasileiro 

E mais Humberto Mauro - longa

Ganga Bruta (1933) 

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Alberto Cavalcanti

Alberto Cavalcanti

Como era bom (ou melhor, good) o nosso Cavalcanti, Sérgio Augusto, O Estado de São Paulo, 18/11/2001


Filmes de Cavalcanti no iutubi

Nas Garras da Fatalidade (1947) 

For Them That Trespass 1949 

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A música que fala

Martha Argerich Plays Prokofiev Piano Concerto No.3 (Prokofiev, um punk nos clássicos)

Yuja WANG plays Tchaïkovski Concerto for Piano No 1 (Tchaïkovski um clássico necessário)

YUJA WANG PROKOFIEV TOCCATA

Piano Duel - Yuja Wang vs. Khatia Buniatishvili 

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E a saga de June e Serena continua (Teocracia 1)

The Handmaids Tale Temporada 5 

Fios condutores: 1. A ditadura teocrática; 2. A maternidade e 3. A cinematografia espetacular

E salve Bruce Miller 

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Os Borgias, “a santa igreja” e Maquiavel (Teocracia 2)

Poder e Luxúria, Los Borgia, 2006, Antonio Hernández

No iutubi aqui 

Itália, século XV. Rodrigo Borgia é um maquinador astuto. Por trinta anos ele trabalhou na Igreja Católica Romana e agora foi eleito papa pelo Colégio de Cardeais. Borgia não tem motivos religiosos, é tudo uma questão de poder para ele. Com seu poder papal, ele inicia um reinado de terror, eliminando rivais. Uma nova era vai começar para a família Borgia, ele pensa, e seus quatro filhos são os peões mais importantes. Sua linda filha Lucrécia Bórgia e o filho passivo Jofré se casam para estreitar os laços com famílias rivais. O mesmo vale para Juan, que também foi nomeado capitão do exército do Vaticano. O primogênito de Rodrigo, César Bórgia , agora é cardeal. Ele não gosta de tudo. Como o lutador nato da família, ele se vê mais adequado à posição de Juan. Cesare fica cada vez mais insatisfeito como cardeal e cada vez mais agitado com a família. Então Juan morre repentinamente após uma agressão. Looke 

Sobre César Bórgia: Recebeu o título de gonfaloneiro da igreja pelo seu pai após conquistar Imola e Forlì e foi uma forte influência no livro O Príncipe, de Maquiavel, com o qual conviveu diversas vezes e o qual elogiou abertamente César na sua obra


sábado, 17 de setembro de 2022

Renato Freitas

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CASSAÇÃO DO VEREADOR NEGRO DE CURITIBA

Ele fez política dentro de uma igreja. Foi cassado. Agora, será recebido pelo papa Francisco

Felippe Aníbal, piaui, 13 set 2022

Assim que encerrou a missa, um pouco antes das 18 horas de sábado, dia 5 de fevereiro passado, o padre Luiz Haas retirou seus paramentos e foi para a porta da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e São Benedito, no Largo da Ordem, no Centro Histórico de Curitiba. Do lado de fora havia um protesto contra as mortes de Moïse Mugenyi, o congolês espancado num quiosque no Rio, e Durval Teófilo Filho, um rapaz negro assassinado por um vizinho que o confundiu com um assaltante. Incomodado com o barulho, o vigário interpelou alguns manifestantes que estavam na escadaria e reclamou que tivera que encerrar a celebração por causa do vozerio. 

O grupo reagiu em coro: “Racista! Racista!” Com o princípio de confusão, o padre foi puxado para dentro da igreja e a porta central do templo foi fechada. Quase ao mesmo tempo, um grupo de poucas dezenas de pessoas conseguiu entrar pela lateral. O então vereador Renato Freitas (PT) – que participava da manifestação – dirigiu-se até o pé do altar e, aos gritos e com punho cerrado, comandou um protesto antirracista que durou oito minutos. Nos dias seguintes, imagens da manifestação dentro da igreja viralizaram nas redes.

Os manifestantes não tinham escolhido o Largo da Ordem, bem em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário, como local do protesto por acaso. A edificação original é de 1737 e foi construída por escravizados. Há relatos históricos de que negros eram açoitados ali em frente – a poucos metros da porta, onde hoje há um chafariz. Na imprensa local, o ex-vereador Renato Freitas foi apontado como o líder do ato dentro da igreja. Imagens de câmeras da igreja mostram que ele foi o primeiro a chegar ao pé do altar e parece ser quem discursa durante todo o ato. O ex-vereador diz que fez em frente ao altar uma pequena “homilia”, lembrando que Deus condena a discriminação de pessoas, e depois gritou vivas à vida. Por fim, cantou uma música de capoeira, que diz: “Às vezes me chamam de negro/Pensando que vão me humilhar/Mas o que eles não sabem/É que só me fazem lembrar/Que eu venho daquela raça/Que lutou pra se libertar.”

 
Renato Freitas em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário. Foto: Felippe Aníbal

“Quando as pessoas gritaram ‘racista’, o padre fez um sinal de positivo. Aquilo insuflou as pessoas. Eu até falei: ‘Mano, não pode deixar a galera desvirtuar, discutir com padre.’ Uma tiazinha negra falou: ‘O padre não está nos enxergando aqui. Então, nós não estamos nas orações desta igreja, que é uma igreja dos pretos.’ Outro falou: ‘Vamos entrar e fazer a nossa oração.’ Foi assim”, disse o ex-vereador Freitas à piauí. “Eu sou cristão e muitos ali são cristãos. A porta estava aberta e nós entramos. Tinha seis viaturas da Guarda Municipal, que não entrou atrás, porque não havia crime. Era uma manifestação por vidas negras. Estávamos no Largo, onde havia pelourinho e comércio de escravizados”, acrescentou.

 Em entrevista à piauí, o padre Haas confirmou que a missa já tinha sido encerrada e que ele permaneceu o tempo todo acompanhando o ato realizado dentro da igreja. Embora considere que tenha faltado “bom senso” por parte dos manifestantes, o religioso observou que eles “não profanaram nada, apenas usaram o espaço para seu protesto e foram embora”. Para Haas, o caso não passou de um mal entendido. “Eu tive que encurtar a missa, porque estava muito barulho. Depois [do fim da celebração], eu fui até a escadaria e perguntei se não poderiam fazer aquele protesto em outro horário e já começaram a me chamar de racista. Eu nem sabia qual era o motivo do protesto. Eu fui pego como bode expiatório”, disse o padre. “Mas eles só fizeram o ato e saíram. Foi isso”, resumiu.

No dia seguinte – domingo, 6 de fevereiro –, vídeos editados do protesto começaram a ser compartilhados em grupos de direita. O conteúdo mostrava imagens da missa, com o padre reclamando do barulho, e, em seguida, após um corte seco, apareciam os manifestantes entrando na igreja e começando o protesto no altar, dando a impressão de que a celebração havia sido interrompida por eles. Haas começou a ser procurado pela imprensa local para dar entrevista e negou que a missa tivesse sido invadida. “Para mim, o caso tinha sido encerrado, mas domingo não fiz mais do que dar entrevistas”, disse o religioso. Em sua casa, Freitas começou a receber pelo celular várias versões do vídeo editado. “Fizeram uma edição criminosa das imagens. Quem vê aqueles poucos segundos pensa que a gente tirou o padre do altar no meio da missa. Não foi isso. O próprio padre já disse. Mas aquilo foi um rastilho de pólvora. O ódio gera muito engajamento”, disse Freitas.

Na segunda-feira – 7 de fevereiro – a Comissão Executiva Estadual do PT do Paraná caiu na armadilha da direita. Emitiu nota em que lamentou o episódio ocorrido na igreja e “esclarece que não participou nem da organização nem da decisão de adentrar o templo religioso”. O texto também afirma que o partido repudia o racismo e a xenofobia – relacionados à morte de Moïse – e que “é defensor histórico da liberdade religiosa”. Na Câmara de Vereadores, onde Freitas cumpria seu primeiro mandato parlamentar, a reação foi imediata: cinco pedidos de cassação de Freitas foram apresentados naquela semana, dos quais quatro foram aceitos. “Ali, eu sabia que seria cassado. Era o pretexto que eles [os vereadores] queriam. Mas não me arrependo. Perseguido, eu já nasci. Nunca vou deixar de fazer o que acredito, seja por risco de perder o mandato, a liberdade ou até mesmo a minha vida”, acrescentou.

Na semana seguinte – em 15 de fevereiro – o ex-presidente Lula concedeu uma entrevista à Rádio Banda B e condenou o ato. Ele avaliou que Freitas “cometeu um abuso” e que deveria se desculpar. “O que não tem sentido é invadir a igreja, transformar um templo religioso em um lugar de protesto. Não foi correto, ele sabe que errou”, disse Lula na entrevista. Ainda hoje, Freitas se ressente das palavras do ex-presidente. “Aquilo me magoou. Nunca fui procurado por ele [Lula], nem pelos assessores. Não procuraram saber o que aconteceu. Quando ele foi preso, no primeiro dia, eu já estive na Polícia Federal [onde o ex-presidente ficou detido, em Curitiba]. Fui várias vezes ao acampamento ali em frente. Me engajei na luta pela liberdade do Lula, porque sabia que as acusações eram violência política, era lawfare. Quando foi comigo, ele adotou a visão da mídia. Mas tem um porém: ele foi induzido a isso pela direção estadual do partido. Aquela nota me jogou na fogueira. Parece que fui sacrificado pelo próprio partido”, disse. “O PT me vê como uma ameaça. Meu estilo incomoda muito ali dentro. Não pertenço a nenhuma das correntes do partido, não sou filho de ninguém. Nem pai eu tenho…”, completou.

Membros do PT do Paraná avaliam que o episódio gerou um desgaste político desnecessário, expondo o partido negativamente junto aos eleitores religiosos – justamente um público que a legenda tenta conquistar. “O Renato [Freitas] é intempestivo e, nesse episódio da igreja, foi muito pouco inteligente. Estamos em um momento em que o Lula tenta avançar no eleitorado das igrejas, aí vem o Renato e faz isso. É claro que o somos a favor da luta contra o racismo, mas da forma que ele fez, jogou contra o partido”, disse um quadro do PT do Paraná, que pediu para não ser identificado para evitar se indispor com o partido e com Freitas, a quem considera forte eleitoralmente. 

Presidente da Comissão Executiva Estadual do PT , o deputado estadual Arilson Chiorato diz que a nota foi emitida depois de o partido ter ouvido Freitas e avalia que o posicionamento se deu em defesa do então vereador. “Ninguém queria que [o caso] tomasse uma proporção dessas e gerasse tanta polêmica. Agora, [a nota] não foi dizendo que [o partido] não participou, foi dizendo que não tinha orientação formal sobre isso”, disse Chiorato. “O episódio não mudou nada em relação a ele [Freitas]. A cassação dele foi um ato de racismo. Ele tem um histórico de luta em defesa da população negra e que representa muitos excluídos da sociedade. É um quadro importante para o partido. Ele é um menino com uma história linda”, declarou.

Filho de uma empregada doméstica vinda do sertão da Paraíba, Renato Freitas, de 38 anos, nasceu em Sorocaba, no interior de São Paulo. “Mas só nasci lá. Fui registrado aqui, em Curitiba”, observou. Cresceu sem a figura do pai, um caminhoneiro “que se envolveu com umas fita errada [sic]” e acabou preso. Na infância, a família – ele, a mãe, uma irmã e um irmão – morou em algumas cidades da região metropolitana de Curitiba, sobretudo em Piraquara, município em que fica o maior complexo penitenciário do estado. “Era pra ficar perto do meu pai. Até que a gente descobriu que ele tinha outra família. Aí, nunca mais voltamos lá [na penitenciária]”, contou. Nesse período, chegaram a morar em uma ocupação, na periferia de Piraquara.

“Era uma meia água de compensado de madeira. Não tinha banheiro; era patente [vaso sanitário] do lado de fora. Na frente, muito buraco, mato, entulho, bichos. Aos fundos, tinha uma várzea, um banhado. Muita violência, muita criança na rua, já com faca na mão. Minha mãezinha lutando para pôr comida na mesa. Era uma casa triste, mano”, relembra Freitas, com o olhar perdido. “Era muito sofrimento. Muito”, disse.

Freitas começou a trabalhar ainda na adolescência. Foi empacotador e repositor de mercado, panfleteiro, balconista de sorveteria, vendedor em loja de roupas. Mesmo ajudando financeiramente em casa, conseguiu juntar dinheiro para pagar um cursinho e foi aprovado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Nessa época, eu vinha a pé de Colombo [na região metropolitana] e não almoçava para economizar. Todo fim de tarde, meu nariz sangrava. Era fome”, disse. O curso era em período integral, o que fez com que Freitas abandonasse a faculdade. Em 2007, foi aprovado em direito, também na UFPR, se formou e emendou no mestrado. “Um preto favelado que é mestre em direito. Isso incomoda”, apontou.

Desde muito cedo, Freitas se aproximou do rap, que, segundo ele, lhe deu autoestima, consciência de classe e orgulho de sua negritude. Ainda hoje, ouve muitos MCs, como Rappin’ Hood, Xis, KL Jay, Marcão e Mano Brown. “O rap foi o pai que eu não tive”, define, antes de declamar os versos de Renan Inquérito: “Igual a mim/Quantos fi/De mãe solteira/Não viu num rap ali/Um pai pra vida inteira.” Adiante, passou a se inspirar no ativista Malcolm X, um dos maiores expoentes do movimento negro. Como é de se supor, Freitas elenca incontáveis episódios de racismo que sofreu, como ser revistado pelo segurança do cursinho e ser abordado na UFPR por um vigilante. “Coisas como essas não aconteceram dez, nem vinte, nem cem vezes. É uma vida sofrendo isso”, sintetizou.

Freitas passou a reagir. E pagou o preço. O ex-vereador conta ter sido detido pela polícia ou pela Guarda Municipal dezesseis vezes – quase todas por desacato ou desobediência. (“Tenho dezesseis anotações criminais”, ele diz). A primeira detenção ocorreu em 2004, quando ele voltava para casa, depois da aula na UFPR. Freitas relata que estava em um terminal de ônibus, quando um policial militar o abordou. Segundo ele, o agente o revistou, jogou seus livros no chão e mandou que tirasse os tênis. 

Como não encontrou nada, o policial ordenou que tirasse as meias. “Eu estava feliz, voltando da faculdade, e ele queria tirar minha brisa. Eu tirei a meia, cheirei, fiz uma caretinha sarcástica e joguei no chão. Ele me deu um tapão na cara e eu já caí. Ele me algemou e ligou para uma viatura vir me buscar. Eu fiquei ali, algemado feito um bandido, todo mundo passando. Indo para o 3º Distrito, eles pararam a viatura e me encheram de chute, de bicuda, de socos”, relembrou, com voz embargada e contendo lágrimas.

Uma dessas detenções lhe deixou marcas físicas. Em 2018, Freitas havia se lançado candidato a deputado estadual e panfletava na Praça do Gaúcho – onde há uma pista de skate. Ele diz que a Guarda Municipal ordenou que ele saísse do local e abriu fogo quando ele começou a contra-argumentar. O ex-vereador foi atingido por dois tiros de bala de borracha. Um dos disparos deixou uma cicatriz bem visível na mão esquerda do militante. Freitas classificou o caso como represália por ele ter denunciado à Ouvidoria da GM dois guardas que o tinham agredido em outro episódio. “Eu já sou marcado. Mas não me curvo. As pessoas acostumadas à hipocrisia se incomodam”, disse.

Freitas foi eleito vereador de Curitiba em 2020, com 5.097 votos. Aquela foi a terceira eleição que ele disputou (já tinha tentado a Câmara dos Vereadores e a Assembleia Legislativa). No dia da posse, posou para fotos e recebeu cordiais tapinhas nas costas de outros vereadores. Mas logo passou a chamar a atenção. Usava terno e gravata nas sessões, mas costumava transitar pelos corredores com “roupas civis” – blusão de moletom ou camiseta com palavras de ordem. Em sua atuação como vereador, Freitas adotou um estilo mais agressivo, com discursos duros, que destoavam do clima de compadrio que costuma imperar na Câmara, dominada pela bancada de apoio ao prefeito Rafael Greca (PSD). 

A atmosfera de cortesia dos primeiros dias logo ficou para trás. “O Renato não entendeu que o cargo tem uma liturgia. Quis fazer muito as coisas no grito, quis ‘lacrar’ muito, para usar a expressão do momento”, disse um vereador, sob condição do anonimato, com receio de que a vinculação de seu nome ao caso lhe traga prejuízos políticos. “Até o pessoal da oposição não curtia o estilo dele”, acrescentou.
Com menos de cinco meses de mandato, Freitas começou a enfrentar seu primeiro processo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara de Curitiba – que poderia levar à cassação – , instaurado após denúncia de quatro vereadores da Bancada Evangélica. Em 1º de abril de 2021, no auge da pandemia de Covid, em uma sessão online transmitida pelo YouTube, o petista escreveu no chat: “Essa bancada conservadora dos pastores trambiqueiros não estão nem aí para vida, só pensam no seu curral eleitoral bolsonarista, infelizmente [sic]”. 

Na ocasião, a Casa ouvia o diretor do Centro de Epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Alcides Oliveira, sobre estratégias para combater o novo coronavírus. Em outubro, o processo foi arquivado, acatando o argumento de Freitas. Ele justificou que usou a expressão “trambiqueiros” para se referir a quem indicava medicamentos como cloroquina e ivermectina para tratamento precoce para combater a Covid, já que não havia – como não há até hoje – evidências científicas de que eram eficazes contra o novo coronavírus. Para Freitas, seu destino começou a ser selado ali: “Eles só estavam esperando uma oportunidade para me pegar.”

A “oportunidade” se concretizou com o incidente na igreja. Em 10 de fevereiro, a Câmara acolheu quatro representações contra Freitas. Dias depois, ele se afastou do cargo, alegando problemas de saúde. “Na verdade, a reação foi muito violenta. Comecei a receber ameaças de morte”, disse. Enquanto o processo tramitava, a Arquidiocese de Curitiba enviou à Câmara uma manifestação defendendo a aplicação de uma “medida disciplinadora proporcional ao incidente”, mas pedindo que a Casa não cassasse Freitas. “A movimentação contra o racismo é legítima, fundamenta-se no Evangelho e sempre encontrará o respaldo da Igreja. Percebe-se na militância do vereador o anseio por justiça em favor daqueles que historicamente sofrem discriminação em nosso país. A causa é nobre e merece respeito.

Todavia, não se pode negar que os fatos ocorridos apresentaram certos excessos”, consta da nota. Antes, Freitas tinha se reunido com o arcebispo José Antônio Peruzzo e pedido perdão pela manifestação.
Apesar do pedido da Arquidiocese, o processo seguiu tumultuado. O vereador Márcio Barros (PSD) deixou o Conselho de Ética depois do vazamento de um áudio em que ele afirmava que votaria pela cassação do colega. Adiante, Freitas recebeu um e-mail com injúrias raciais (“volta para a senzala”), cujo remetente aparecia como sendo o e-mail funcional do vereador Sidnei Toaldo (Patriota). Uma sindicância apontou que a mensagem foi enviada por meio de um “serviço de disparo de e-mails anônimos hospedado na República Tcheca”, capaz de mascarar o verdadeiro remetente – e colocar como autor da mensagem o endereço de e-mail do vereador. 

Paralelamente, o padre Luiz Haas contou que passou a ser procurado por pessoas que se apresentaram como assessores de vereadores favoráveis à cassação – mas não disseram que vereadores representavam. Segundo Haas, os tais assessores queriam que ele se manifestasse publicamente pela perda de mandato de Freitas. “Veio um grupo de assessores que queriam a cassação. Eu disse que era contra. Que já tinha perdoado [Freitas] e que achava a cassação excessiva. Eles me falaram: ‘Mas ele vai ser cassado, padre.’ Eu não sei a mando de quem eles estavam, mas todo mundo já sabia [do resultado]”, contou Haas.

Assinado pelo mesmo Sidnei Toaldo, o relatório final aprovado pelo Conselho de Ética da Câmara considerou quatro pontos para pedir a cassação: que houve “perturbação e interrupção da prática de culto religioso e de sua liturgia”; que a entrada dos manifestantes não tinha sido autorizada; que houve “ato político” dentro da igreja e que Freitas foi o líder do protesto. Vídeos e depoimentos de testemunhas – inclusive o padre – atestaram ao Conselho que a missa já tinha terminado e que a porta do tempo estava aberta quando os manifestantes entraram.

Após idas e vindas, o processo de cassação por “procedimento incompatível com o decoro parlamentar” foi a plenário da Câmara em 5 de agosto. Os vereadores se ativeram majoritariamente à tese de ato político, já que os vídeos e as testemunhas não permitiam falar em “interrupção da missa” e “entrada não autorizada” no templo. Freitas perdeu o mandato por 23 votos favoráveis à cassação, sete contrários e uma abstenção. Ele foi o segundo vereador cassado por quebra de decoro parlamentar em mais de 75 anos – segundo o livro Legislaturas Municipais de 1947 a 2020, de Luciane de Fátima Pereira, tinha havido apenas uma cassação no período abrangido pela publicação. Não há levantamentos anteriores. Outros vereadores já tinham perdido o mandato, mas por outros motivos.

Na derradeira sessão, Freitas tinha entre os integrantes de sua defesa o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que já defendeu Lula e integra o grupo Prerrogativas. Sentado à primeira fila, estava o padre Haas, manifestando apoio ao petista. “Eu fiquei cinco horas lá. Queriam que eu falasse na sessão, mas não me senti à vontade”, disse. Após a cassação, Freitas saiu pela porta da frente do imponente Palácio Rio Branco – construído em 1895 e que sedia a Câmara –, à frente do qual o esperavam pouco mais de cem manifestantes. “É como se a Câmara fosse um bairro nobre e eu tenha feito uma ocupação, com um barraquinho de madeira, e isso tenha desvalorizado os imóveis de luxo deles. Ali, impera a lei do ‘faz a sua, mas não incomode os outros’. Eu incomodo”, disse o ex-vereador. 

A defesa dele ajuizou uma série de recursos contra a cassação.
Sem mandato, Freitas mergulhou de cabeça na campanha eleitoral. Ele é candidato a deputado estadual e uma das apostas do PT para aumentar seu número de cadeiras na Assembleia Legislativa, de quatro para sete – pelos cálculos da legenda. 

O ex-vereador concedeu entrevista à piauí em 21 de agosto – um domingo frio e nublado – em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário. Assim que chegou ao Largo da Ordem, se deparou com um grupo de uma dezena de pessoas que faziam campanha espontânea para Lula. O ex-vereador foi reconhecido imediatamente e posou para fotos, fazendo “L” com a mão. “Aqui é a cena do crime”, disse a um dos militantes, em tom de brincadeira. “Mas não esquenta, mano, a nossa sina é resistir”, acrescentou. Ao longo da entrevista – que durou pouco mais de uma hora e vinte minutos –, o militante foi abordado em momentos distintos por cinco pessoas, que queriam tirar uma selfie com ele e lhe manifestar apoio.
Não é difícil reconhecê-lo: Freitas mantém o cabelo no estilo black power e está sempre por ali, nos arredores do Largo da Ordem. Eloquente, costuma permear seus argumentos com citações que vão de Paulo Freire a rappers. Intercala vocabulário formal com gírias. Tem um estilo contundente, que pôde ser exemplificado em um episódio que ocorreu durante a entrevista. 

Enquanto conversava com a piauí, uma senhora branca, que se apresentou como mulher de um médico, o interpelou:
— Você acha bonito fazer como no Chile, que estão incendiando igrejas? Eu sou da Bolívia. Estou aqui porque meu país está na cocaína, por causa do Evo Morales.
— Isso não tem nada a ver com meu protesto. Se você não sabe, tem que pesquisar. Quando a gente não sabe, tropeça nas palavras.

Como a mulher insistiu na conversa, citando incêndio de igrejas, Freitas reagiu com firmeza. “Você fugiu do seu país porque você é covarde e não tem coragem de construir um país melhor. É igual a esses brasileiros que vão para Miami com uma pasta de dólares e que só querem do seu país suor e sangue”, disse o ex-vereador, encerrando conversa. Ele disse que esses enfrentamentos não são comuns, mas que, vez ou outra, acontecem. “Mas veja: ela é uma pessoa de classe média alta, de um país indígena e que tem uma elite golpista, como o Brasil. Essa gente só quer justificar seus ódios e preconceitos. Não querem diálogo”, disse o petista. 

Após a repercussão do episódio da igreja, o ex-vereador recebeu um convite para se encontrar com o papa Francisco. Com a ajuda de frades e membros da Igreja Católica de Curitiba, Freitas já comprou as passagens para a viagem, que deve ocorrer na última semana de setembro. Ele será recebido pelo pontífice na cidade de Assis, na Itália. “Eu vejo essa oportunidade como um encontro dos excluídos, dos pobres que moram numa vielinha de terra, que eu represento, com o representante máximo da igreja. Se a Câmara me cassou por fazer um protesto em uma igreja, a verdadeira igreja está comigo”, apontou Freitas, que se disse cristão, sem especificar uma religião em particular. Quando olha em retrospecto, ele diz que cumpriu seu papel, inclusive quando entrou na Igreja Nossa Senhora do Rosário para realizar o fatídico ato político. “Eu não me arrependo de nada. Eu sou nascido para incomodar. Nascido para incomodar uma sociedade acomodada sobre injustiças e que naturalizou nossas mortes”, definiu.

Com a cassação de Freitas, dos 38 vereadores de Curitiba, apenas 2 são negros.


Felippe Aníbal
Repórter freelancer em Curitiba.

 

STF anula cassação de vereador que protestou contra racismo em igreja no PR

Colaboração para o UOL, em São Paulo 24/09/2022... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/09/24/stf-anula-cassacao-de-vereador-que-protestou-contra-racismo-em-igreja-no-pr.htm?cmpid=copiaecola

UOL, 24/09/2022

Colaboração para o UOL, em São Paulo 24/09/2022... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/09/24/stf-anula-cassacao-de-vereador-que-protestou-contra-racismo-em-igreja-no-pr.htm?cmpid=copiaecola
Colaboração para o UOL, em São Paulo 24/09/2022... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/09/24/stf-anula-cassacao-de-vereador-que-protestou-contra-racismo-em-igreja-no-pr.htm?cmpid=copiaecola
Colaboração para o UOL, em São Paulo 24/09/2022... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/09/24/stf-anula-cassacao-de-vereador-que-protestou-contra-racismo-em-igreja-no-pr.htm?cmpid=copiaecola
Colaboração para o UOL, em São Paulo 24/09/2022... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/09/24/stf-anula-cassacao-de-vereador-que-protestou-contra-racismo-em-igreja-no-pr.htm?cmpid=copiaecol

O ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), anulou na noite de ontem decisões do TJ-PR (Tribunal de Justiça do Paraná) que mantiveram a cassação do vereador Renato Freitas (PT), decretada em junho pela Câmara Municipal de Curitiba. Com isso, o mandato do político é reestabelecido. Freitas virou alvo de um processo por quebra de decoro parlamentar após participar de uma manifestação pelos assassinatos de Moïse Kabagambe e Durval Teófilo Filho, organizada pelo Coletivo Núcleo Periférico, na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
O Supremo foi acionado pela defesa do petista na quarta-feira (21) sob o argumento de que o processo de cassação ultrapassou 90 dias, prazo máximo previsto na lei. 

Os advogados de Freitas ainda apontaram que manter a cassação implicaria em "dano grave e irreparável", pois, além da perda do cargo, ele ficaria impedido de concorrer a deputado federal. "A cassação do vereador em questão ultrapassa a discussão quanto aos limites éticos de sua conduta, envolvendo debate sobre o grau de proteção conferido ao exercício do direito à liberdade de expressão por parlamentar negro voltado justamente à defesa da igualdade racial e da superação da violência e da discriminação que sistematicamente afligem a população negra no Brasil", diz o ministro na decisão. A decisão de Barroso proferida ontem é liminar (provisória) e ainda terá o mérito julgado. No documento, o ministro do STF cita o racismo estrutural como elemento que levou à cassação de Freitas.

"Sem antecipar julgamentos, é impossível, no entanto, dissociar o ato da Câmara de Vereadores de Curitiba do pano de fundo do racismo estrutural da sociedade brasileira", diz Barroso. "Não por acaso, o protesto pacífico em favor das vidas negras feito pelo vereador reclamante dentro de igreja motivou a primeira cassação de mandato na história da Câmara Municipal de Curitiba", acrescenta.

"Sem me pronunciar, de maneira definitiva, sobre o mérito da cassação do mandato em questão, é necessário deixar assentado que a quebra de decoro parlamentar não pode ser invocada para fragilizar a representação política de pessoas negras, tampouco para cercear manifestações legítimas de combate ao preconceito, à discriminação e à violência contra elas", complementa o ministro.
 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Vamos conversar sobre Vera

Prestar solidariedade a Vera Magalhães envolve visitar um passado recente.

Milly Lacombe, Colunista do UOL, 15/09/2022

Vera Magalhães virou alvo da violência Bolsonarista. Não são lobos solitários que investem contra o corpo e a dignidade da jornalista. São agentes bem orientados por um tipo de lógica de morte que há mais de quatro anos controla esse país em todos os níveis. O Bolsonarismo precisa da violência de gênero como um vampiro precisa de sangue. Esse é um dos pilares que estruturam a sociedade que bolsonaristas querem erguer.

Bolsonaro tem, mais do que um plano de governo, um projeto de sociedade. Nessa sociedade bolsonarista, homens andam armados, mulheres se curvam. Homens mandam, mulheres obedecem. Nesse projeto de sociedade, florestas viram pó, corrupção tá liberada (chamam rachadinha que é para não assustar), pessoas negras não apitam muito, LGBTQs podem morrer porque não fazem falta.

Nessa sociedade, a lógica é miliciana do começo ao fim. Vera Magalhães foi escolhida por essa turma covarde para virar, literal e simbolicamente, o rosto do inimigo. A experiente jornalista foi, durante os 13 anos de administrações petistas, oposição bastante eloquente. E, ainda assim, seguiu podendo falar abertamente o que pensava de Lula, de Dilma e do PT sem ser agredida.

Também dizia o que achava de Sergio Moro, tão veementemente adorado que chegou a ser chamado por ela de enxadrista. A Lava Jato nunca teve um olhar mais atento por parte dela, que deixou de ver o enviesamento escancarado da operação. Não precisaríamos da Vaza Jato para notar que alguma coisa errada estava se passando. Não precisaríamos da Vaza Jato para perceber quem era Sergio Moro. Bastava recorrer ao episódio do Banestado, aliás.

Enquanto Dilma foi alvo da fúria covarde da extrema-direita, Vera calou. Quando Cora Ronai e Miriam Leitão ridicularizaram a roupa e o andar de Dilma na posse, Vera calou. Quando a caravana de Lula foi recebida a pauladas no sul do Brasil, Vera disse que pedradas faziam parte da política. Quando Lula foi ao velório de dona Marisa, Vera debochou e sugeriu que casássemos com alguém que não fosse fazer comício em seu velório. Quando Manuela D'Avila foi 62 vezes interrompida no Roda Viva, Vera disse que era do jogo e que estava acostumada a atuar em ambientes cheios de homens, indicando que Manuela fazia drama ao reclamar da impossibilidade de concluir um pensamento sequer.

Quando Boulos foi contratado como colunista da Folha, Vera democraticamente sugeriu que ele fosse desligado dado que, segundo ela, Boulos estava associado ao banditismo. Prestar solidariedade a Vera envolve resgatar como viemos parar aqui. Visitar o passado não é nossa maior qualidade e, justamente por evitarmos a viagem, repetimos e aprofundamos os erros. Mas só podemos crescer e melhorar se olharmos para o que fizemos e entender como e por que erramos. Isso vale para nossas vidas pessoais e vale para nossa história enquanto sociedade e nação.

Como, afinal, viemos parar nesse lugar de tanta dor e violências? Viemos parar aqui quando naturalizamos a candidatura de um homem como Jair Bolsonaro e, para não eleger mais o PT, fingimos que ele era parte aceitável da política. Viemos parar aqui quando, em 2018, entrevistamos Jair Bolsonaro como se ele fosse um candidato absolutamente normal, apenas mais um na disputa. Viemos parar aqui quando deixamos de nomear a proximidade de Bolsonaro com horrores como o fascismo, o nazismo e o racismo. Viemos parar aqui quando escolhemos pegar tudo o que o deputado Bolsonaro havia dito e feito e classificar como piada, como deboche, diminuindo a gravidade de sua ideologia.

Viemos parar aqui quando achamos de boa que Bolsonaro votasse pelo afastamento de Dilma tecendo homenagens a um torturador. Viemos parar aqui quando elevamos Paulo Guedes à categoria de alguém inteligente e preparado.

Viemos parar aqui quando resolvemos dizer que havia uma certa "ala moderada" entre os militares. Viemos parar aqui quando apoiamos o Impeachment absurdo de uma presidente legitimamente eleita. Quando elevamos os chiliques de Aécio Neves ao lugar do aceitável. Quando buscamos de todas as formas legitimar o afastamento de Dilma e fingimos não estar vendo o machismo e a misoginia nos ataques que ela sofria. Vera Magalhães não poderia estar passando pelo que está passando. Sua ideologia, suas simpatias políticas e seus afetos não justificam agressões, ataques, abusos, assédios. Apenas um país que já não mais opera democraticamente tolera esse tipo de violência.

Prestar solidariedade a Vera Magalhães exige que refaçamos o caminho até aqui para que ele nunca mais se repita, e para que nenhuma outra mulher tenha que passar pelo que ela está passando. 

Que Lula seja eleito para que Vera possa, outra vez, fazer oposição sem ser destruída em sua dignidade e no seu direito de opinar.

Eleição presidencial - Datafolha 15/09/2022

Datafolha: Lula tem 45% contra 33% de Bolsonaro no 1º turno, em cenário estável

Petista mantém dianteira, e efeito do 7 de Setembro para presidente foi pontual 

Igor Gielow, FSP, 15/09/2022

A pouco mais de duas semanas do primeiro turno da eleição presidencial de 2022, a disputa segue estável com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sustentando uma vantagem de 12 pontos sobre Jair Bolsonaro (PL).

O petista tem os mesmos 45% das intenções de voto marcados há uma semana, e o atual presidente oscilou negativamente de 34% para 33%. Em terceiro lugar, empatados tecnicamente, vêm Ciro Gomes (PDT), com 8%, e Simone Tebet (MDB), com 5%. Foi o que aferiu a nova pesquisa do Datafolha, realizada de terça (13) a quinta-feira (15).

A fotografia é especialmente ruim para Bolsonaro, que nas últimas semanas abriu todas as caixas de ferramentas à disposição para tentar aproximar-se de Lula, líder desde que voltou ao páreo pelas mãos da Justiça em 2021.

O presidente interveio na Petrobras e tem patrocinado baixas consecutivas de preço de combustíveis, elaborou o Auxílio Brasil de R$ 600 para ser pago a famílias mais pobres justamente na campanha e apelou à sua base mais radical com os atos do 7 de Setembro.

Agora, ensaia uma inconvincente ofensiva moderada após um deputado bolsonarista ter agredido verbalmente a jornalista Vera Magalhães (TV Cultura) ao fim do debate dos candidatos ao Governo de São Paulo, na terça (13). Sua rejeição, já alta, oscilou para cima e afetou o viés da oscilação.

Na rodada anterior, feita imediatamente após a ida de multidões bolsonaristas às ruas em Brasília, Rio e São Paulo, Bolsonaro havia oscilado dois pontos para cima, dentro da margem de erro. A atual estabilidade mostra que, se efeito houve dos atos do 7 de Setembro, ele já está espraiado. Neste levantamento, encomendado pela Folha e pela TV Globo, o instituto ouviu 5.926 eleitores em 300 cidades. Ele foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04099/2022.

Para Lula, o cenário é mais positivo, mas não tanto quanto sua campanha gostaria. Nos últimos dias, o ex-presidente passou a falar abertamente em querer vencer no primeiro turno, buscando o voto de eleitores de Ciro e de Tebet.

Os terceiros colocados seguem numa rota de estagnação, com o pedetista oscilando um ponto para cima sobre a rodada anterior e a senadora, ficando na mesma, dificultando o plano do petista. Hoje, Lula tem os mesmos 48% dos votos válidos da semana passada, que excluem brancos e nulos e são a régua final da Justiça Eleitoral, muito próximo dos 50% mais um voto necessário para fechar o jogo no primeiro turno. Mas esse número já foi de 54%, em maio.

Nos grandes segmentos do eleitorado, o quadro é de estabilidade. Lula mantém sua vantagem geral pela ampla dianteira que tem entre os mais pobres: 49% do eleitorado entrevistado é composto daqueles que ganham até 2 salários mínimos, e nesse grupo o petista tem 52%, ante 27% do presidente. Entre quem recebe o Auxílio Brasil, o ex-presidente bate o atual por 57% a 26%.

O estrato daqueles que ganham de 2 a 5 mínimos (34% dos eleitores), grosseiramente podendo ser chamado de classe média baixa pelos padrões brasileiros, ainda aponta um empate técnico: Bolsonaro pontua 40% e Lula, 39%.

Mas o presidente havia tido uma grande subida entre eles até o começo do mês, reduzindo de 13 para 3 pontos a vantagem de Lula, pelo corte conservador dessa fatia do eleitorado e pelo impacto de medidas como a queda no preço do gás e gasolina. Esse movimento cessou, e o petista oscilou dois pontos para cima em relação à semana passada.

Bolsonaro só mantém folga sobre Lula entre os mais ricos, mas eles são minoritários: 9% ganham de 5 a 10 mínimos, e 4%, mais de 10 mínimos. O presidente caiu oito pontos (margem de erro específica de quatro pontos), mas ainda vence por 45% a 35% no primeiro grupo. No segundo, bate o antecessor por 42% a 29%.

Em relação à pesquisa anterior, houve uma mudança regional expressiva. O petista teve o maior crescimento no Centro-Oeste (7% da população): oito pontos, chegando a 38%, empatando com os 40% de Bolsonaro, que caiu seis pontos na região em que o agronegócio associado a ele é mais forte.

No pivotal Sudeste (43% do eleitorado), a oscilação foi positiva para Lula (de 41% para 43%) e negativa para seu principal rival (de 36% para 34%). Em Minas Gerais, houve mudança no cenário a favor de Bolsonaro: Lula passou de 47% para 43%, o presidente oscilou de 30% para 33%; com isso, a vantagem do petista, que era de 17 pontos, agora é de 10.

As mulheres também seguem fazendo grande diferença em favor do ex-presidente, reflexo da grande rejeição que Bolsonaro tem entre elas devido a seu histórico de tiradas machistas e a percepção, atestada em pesquisas qualitativas, de uma imagem pouco empática. Elas são 52% da amostra do Datafolha.

Entre elas, Lula segue com 46% e Bolsonaro, com 29%. O crescimento que o presidente havia registrado neste grupo, fruto da exposição maior de sua mulher, Michelle, parece ter ficado restrito mesmo aos nacos evangélicos e de renda intermediária do voto feminino. Entre os homens, o presidente caiu sete pontos e agora lidera por 44% a 37%.

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Se a eleição fosse uma disputa apenas pelo voto evangélico, 27% do eleitorado, Bolsonaro ganharia no primeiro turno: tem 49% (52% dos válidos), ante 32% de Lula. A vantagem, contudo, foi reduzida pela primeira vez em levantamentos recentes: era de 51% a 28% para o presidente na semana passada.

Por outro lado, nos menos organizados politicamente católicos (56% da amostra), Lula devolve o placar com 51% (ou 53% dos válidos) a 28%.

Com tudo isso, as duas semanas finais da campanha colocarão duas estratégias semelhantes: a da urgência. Os petistas falarão sobre necessidade do voto útil para tentar finalizar a disputa no dia 2 de outubro, citando o crescente clima de violência política no país. Como mostrou o mesmo Datafolha em pesquisa separada, 67,5% dos brasileiros temem ser atacados por sua preferência eleitoral.

Já os bolsonaristas terão de dobrar suas apostas nos instrumentos até aqui utilizados, certamente tornando mais agudas as críticas a Lula e o apelo ao antipetismo, buscando dar mais quatro semanas para que o presidente tente ver as ferramentas de mais impacto, as econômicas, fazerem alguma diferença no eleitorado mais pobre.

Fiéis dessa balança a contragosto, Ciro e Tebet não conseguiram furar o caráter bidimensional da disputa até aqui.

Abaixo deles, há todo o pelotão restante de candidatos: Soraya Thronicke (UB) passou de 1% para 2%. Não pontuaram Felipe D'Ávila (Novo), Sofia Manzano (PCB), Vera Lúcia (PSTU), Leo Péricles (UP), Constituinte Eymael (DC) e Padre Kelman (PTB).

Datafolha versus Ipec

Ipec: Lula passa de 44% para 46%, e Bolsonaro se mantém com 31% (Pesquisa foi realizada entre 9 e 11 de setembro) - Datafolha (Pesquisa foi realizada entre 13 e 15 de setembro)

Ipec: No 2º turno, Lula venceria Bolsonaro por 53% a 36%, Datafolha Lula tem 54% no 2º turno, e Bolsonaro marca 38%

Votos válidos

Ipec Lula (PT): 51% (50% na pesquisa anterior, de 5 de setembro), Bolsonaro (PL): 35% (35% na pesquisa anterior), Datafolha Lula mantém 48% dos votos válidos, e decisão no 1º turno segue em aberto

Rejeição

Ipec: Bolsonaro tem rejeição de 50%; a de Lula é de 35%, Datafolha: 53% dizem não votar em Bolsonaro de jeito nenhum, ante 38% em Lula