sábado, 8 de agosto de 2020

73 vacas

Premiado em fevereiro no BAFTA, na Inglaterra, o documentário de curta-metragem “73 Cows”, de Alex Lockwood, que conta a história de um ex-pecuarista britânico que se tornou um vegetariano ético, já está disponível gratuitamente no Vimeo.  

Premiado em fevereiro no BAFTA, na Inglaterra, o documentário de curta-metragem “73 Cows”, de Alex Lockwood, que conta a história de um ex-pecuarista britânico que se tornou um vegetariano ético, já está disponível gratuitamente no Vimeo

O curta narra a história de Jay Wilde e Katja Wilde, um casal de Derbyshire que atuava no ramo de produção de leite e carne. Um dia, incomodado com a ideia de ter que enviar as vacas para o matadouro, já que esse é o destino comum quando cai a produção de leite, Wilde decidiu mudar a sua vida e a dos animais que viviam em sua propriedade.
Em vez de enviá-las para a morte, Wilde as encaminhou para um santuário, iniciando uma nova jornada de respeito e compaixão pelos animais. No filme com duração de 15 minutos, Wilde rompe uma tradição familiar e passa a investir na produção orgânica de vegetais com o apoio da organização The Vegan Society.

Em vez de enviá-las para a morte, Wilde as encaminhou para um santuário, iniciando uma nova jornada de respeito e compaixão pelos animais. No filme com duração de 15 minutos, Jay e Katja rompem uma tradição familiar e passa a investir na produção orgânica de vegetais com o apoio da organização The Vegan Society.

Escutando Jay e Katja Wilde

Jay Wilde

Você se torna selvagem estando em uma fazenda, por você pode andar, estar ao ar livre correndo entre as vacas, na medida do possível. Realmente uma vida ao ar livre Meu avô foi engenheiro, e minha ambição era trabalhar na Rolls-Royce, seguir seus passos. Mas, por várias razões, falhei completamente na escola e então deixou de ser uma opção. Penso que quando se é jovem, você copia o que as outras pessoas fazem particularmente quando você tem uma figura paterna forte e ele está administrando uma fazenda.  Existem procedimentos ao lidar com animais de fazenda que se deve simplesmente seguir para cumprir o trabalho. Eu comecei a sentir consciência do fato de que os animais tinham sentimentos e isso levou a sentimentos de desconforto quando os criamos, por acabarmos comendo eles. Você percebe que eles têm personalidades e que eles vivenciam o mundo. Eles não são apenas robôs que comem e dormem. Eu não conseguia desconectar esse sentimento de ter que fazer o trabalho do fato de eles serem indivíduos em vez de apenas unidades de produção. Mais do que um número, realmente.

Katja Wilde

Eu vim para a fazenda Bradley Nook em 2006, como uma estudante que teve que ir a um país de língua inglesa, para uma tarefa. E eu escolhi largar a vida na cidade por dois meses e trabalhar em uma fazenda. Jay falava sobre como ele não gostava muito que ele vinha fazendo na criação do gado, e que na verdade ele gostaria de fazer algo diferente. E ao final dos dois meses, ele disse: Por que você não vem morar comigo e começamos algo completamente diferente?" Eu vim aqui com a intenção de mudar a fazenda para algo que não envolvesse levar os animais ao abatedouro. 

Jay Wilde

Levá-los ao abatedouro é o que costumávamos fazer sendo pequenos agricultores. Tínhamos apenas um ou dois animais para serem abatidos a qualquer momento. Você se sente como se traísse eles, porque você fez um tipo de amizade com eles. E então, de repente, um dia você os carrega dentro de um trailer, algo que eles nunca experimentaram antes. Aquilo foi destruidor de almas, foi assim que nos sentimos. Foi muito difícil de fazer, mas querendo manter a fazenda trabalhando como uma fazenda eu só precisava continuar fazendo isso até encontrar outra coisa para fazer.

Katja Wilde

Eu vim há 10 anos, para fazer algo diferente com a fazenda, e por várias razões, isso ainda não havia acontecido. Eu só queria que Jay chegasse à posição de ele poder fazer algo diferente, porque isso obviamente estava destruindo-o. Olhar para Jay e ver o que é ficar preso nesse tipo de vida fez com ele, ficasse bastante doloroso. Muitas vezes ficamos tão tensos que começamos a discutir, porque ninguém poderia lidar com a situação. Acho que sou mais capaz de endurecer meu coração do que Jay, apenas por pura necessidade. Eu tinha uma visão mais utilitária. Temos que fazer isso, e é o que fazemos, e se não fizermos, não pagaremos as contas. Mas, você sabe o que está fazendo, e é horrível. Ficou claro que precisávamos encontrar uma solução. O que poderíamos fazer com a fazenda, mantê-la, manter a vida selvagem na fazenda e sair da criação de gado. Foi sugerido por várias fontes que a melhor solução seria apenas vender e ir embora. Vender a fazenda em dois campos e levar o dinheiro para tantas casas sendo construídas, e vê-lo indo para pessoas ricas, não era algo que nós queríamos fazer.

Jay Wilde

Depois que meu pai morreu eu não tinha a desculpa de mantê-lo feliz deixando a fazenda como ele desejava. Mas eu simplesmente não sabia o que mais fazer. De início, instalamos um pequeno número de painéis solares, pensando ser uma maneira de compensar o impacto ambiental da fazenda. Então tentamos obter permissão para colocar turbinas eólicas mas foi recusado. Alguém me disse que você pode produzir vegetais e plantações sem insumos animais assim você não sente que está envolvendo animais na sua produção de alimentos. Isso parecia animadoramente diferente e parecia ser o futuro. 

Katja Wilde

Foi realmente muito estressante na época ter de levantar os detalhes, ver o arquiteto, e discutir as coisas, o que é possível, e o que temos que fazer para chegar lá e chegar a algum tipo de plano para não mergulharmos em um buraco negro completo e, basicamente, abandonar a agricultura e acabar em nada. A fazenda foi avaliada e sabíamos que poderíamos fazer algo diferente, e que isso seria viável. 

Jay Wilde

Quando você nasce em uma fazenda quando seus pais a estabeleceram, você quer fazer as coisas pelo menos tão bem como as que foram feitas anteriormente. Você não quer sentir que foi responsável por deixar as coisas degradarem e literalmente cair aos pedaços. É assustador, porque parece tão estranho, depois de uma vida inteira criando animais, "Está bem, você pode fazer isso sem nenhum animal pela agricultura orgânica vegana." Quando o inverno chegou ao fim, começamos a pensar: Temos todas essas vacas na fazenda o que acontecerá com elas? Vamos enviá-las para o mercado, ou talvez enviá-las ao abate?" E eu disse: "Bem, isso não seria uma boa maneira de começar na agricultura vegana."Vamos tentar encontrar vagas nos santuários". Mas demoraria muito tempo. Nós temos que organizar isso e lidar com a realidade das das vacas saindo da fazenda. E isso será uma grande mudança. Você pensa: "Estou fazendo a coisa certa? "Foi bastante assustador para mim porque. Eu estava meio que rejeitando tudo o que eu tinha aprendido até aquele dia, na verdade. Fazer algo tão radical como retirar o gado da cadeia alimentar parecia ameaçador para a maior parte da agricultura, eu acho. Isso nos distanciou dos outros agricultores da região. A fazenda foi apelidada de "Fazenda Engraçada" por alguns moradores locais.

Katja Wilde

Eu acho que é bastante subestimada a pressão que os agricultores sentem. Acho que poderiam ter mais apoio para ver as coisas de modo diferente, em vez de serem atacados. O custo que estávamos assumindo ao fazer o que estamos fazendo é basicamente a perda do dinheiro que teríamos ganho enviando os animais ao abate. Que teria sido de aproximadamente 220 a 280 mil reais. Aceitar que perderíamos a receita com a venda do gado não foi difícil, pois confiamos que existem pessoas suficientes por aí que apreciam o que estamos fazendo, apreciam o que estamos tentando fazer, e que estão dispostas a nos apoiar.

Jay Wilde

Parece que demoraria muito tempo até acharmos locais para os animais. E teremos que alocar seis aqui, e uma ou duas. Até conhecer os santuários vai levar bastante tempo. 

Katja Wilde

Foi preciso muito planejamento, muitas ligações telefônicas e suponho que foi estressante para o Jay também, mas ele não expressa tanto isso, mas sei que eu estava muito estressada.

SANTUÁRIO ANIMAL HILLSIDE

Jay Wilde

Então, ficamos maravilhados quando telefonaram e disseram que Hillside, em Norfolk poderia receber o rebanho inteiro. Todos juntos, de uma só vez. Bezerros e vacas poderiam ficar juntos, e todos os grupos familiares seriam preservados. É um resultado absolutamente dos sonhos, que todos possam ficar juntos e viver o resto de suas vidas. Ficamos muito, muito satisfeitos.

O FAZENDEIRO LIVRE DE CARNE

Katja Wilde

No dia seguinte ao nosso gado ter ido, recebemos os primeiros cartões-postais e cartas de pessoas dizendo como é maravilhoso o que estamos fazendo e muitas pessoas disseram: "Você restaurou a minha fé na humanidade." Agora finalmente conseguimos alcançar a mudança que eu vim aqui para ajudar em primeiro lugar, e apesar de ainda estarmos trabalhando nisso e ainda não termos

o resultado final, é uma coisa bem diferente de administrar, de fazer planos, em vez de apenas realizar o mesmo velho método do qual você não está convencido. Eu acho que isso mudou o Jay. A maior mudança é que ele fala mais sobre o que está pensando e o que ele está planejando e o que estamos fazendo e isso é tão bonito de se ver. Não vejo como Jay estivesse se destruindo, pois na verdade estamos trabalhando juntos para criar algo realmente bom e nós dois estamos convencidos disso. E isso é uma coisa boa. 

UM ANO DEPOIS

Jay Wilde

Pode-se dizer que eles que eles não me pertencem mais de alguma maneira. Tudo aquilo que me incomodava no processo agrícola, no passado, todo esse fardo, cada responsabilidade foi retirado. Foi um tremendo alívio saber que os animais estão sendo cuidados e que terão uma vida feliz pelo resto das suas vidas. Sei que parece muito sentimental, mas foi realmente uma alegria saber que aquelas que ainda viviam na fazenda seriam salvas literalmente, e desfrutariam simplesmente serem vacas.








quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Hiroshima 75 anos

Espectros de Hiroshima
O respeito pelos mortos e o valor da responsabilidade em dois livros sobre o apocalipse ocorrido no Japão há 75 anos
Flávio Ricardo Vassoler 

Na manhã do dia 6 de agosto de 1945, o bombardeiro B-29, pilotado pelo oficial Paul Tibbets Jr., da Força Aérea dos Estados Unidos, aproximou-se de Hiroshima, cidade com cerca de 350 mil habitantes ao Sul do Japão. Às 8h15 (horário local), o piloto aprumou a mira do avião e lançou sobre a cidade a bomba atômica chamada Little Boy (Menininho), a primeira da história a ser utilizada numa guerra. Pesando 4,4 toneladas, com 63 kg de urânio enriquecido acoplado em seu focinho e um potencial explosivo equivalente a 15 mil toneladas de TNT, o tubarão nuclear vaporizou, num piscar de olhos, 80 mil pessoas (calcula-se que o total de mortos chegaria a cerca de 120 mil).

A despeito do sofrimento excruciante dos habitantes de Hiroshima, o imperador Hirohito rechaçou os termos da capitulação incondicional impostos pelos Estados Unidos. Com isso, em 9 de agosto, às 11h02, o avião B-29, pilotado por Charles Sweeney, lançou sobre Nagasaki, cidade com cerca de 260 mil habitantes, uma bomba atômica de 4,8 toneladas, batizada de Fat Man (Gordo). A arma de plutônio-239 tinha potencial explosivo – equivalente a 21 mil toneladas de TNT – superior à bomba anterior, mas sua eficácia foi menor: os morros de Nagasaki formaram providenciais barricadas contra a avalanche de calor e a torrente de ventos causadas pela explosão. Ainda assim, 40 mil pessoas viraram pó cinza e púrpura (o saldo total de mortes é de aproximadamente 80 mil).

A intensidade da hecatombe e o sofrimento das vítimas na primeira cidade foram descritos numa das mais extraordinárias reportagens já feitas, Hiroshima, do jornalista norte-americano John Hersey, que ocupou de maneira inédita todas as páginas editoriais da revista The New Yorker em 31 de agosto de 1946. Dois meses depois, a reportagem foi lançada em livro. Os Estados Unidos ainda comemoravam a vitória na Segunda Guerra, mas Hersey não poupou palavras para conduzir os leitores norte-americanos ao epicentro da agonia, por meio das histórias de seis sobreviventes.

Menos citadas, duas outras obras não ficcionais destacam-se na volumosa bibliografia sobre Hiroshima. Nos 75 anos da tragédia japonesa, elas chamam a atenção por suas reflexões sobre o respeito aos mortos e a responsabilidade moral que irradiam até a atualidade: Diário de Hiroshima, escrito entre o dia da explosão da bomba e 30 de setembro pelo médico e sobrevivente Michihiko Hachiya (que só viria a morrer em 1980, aos 77 anos), e Off Limits für das Gewissen (Fora dos limites da consciência, 1961),[1] livro que compila a correspondência do filósofo alemão (nascido na Polônia) Günther Anders com o oficial norte-americano Claude Robert Eatherly, piloto do avião de reconhecimento climático para o ataque a Hiroshima.

O doutor Michihiko Hachiya tinha 42 anos quando a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima. Era diretor e médico de um hospital que atendia, principalmente, os funcionários dos correios, rádio e telégrafo. Ele conta que, no momento da explosão, estava à janela de sua casa, contemplando o “agradável contraste” entre as sombras do seu jardim e o brilho das folhagens. De repente, “um brilho intenso” o trouxe “de volta à realidade”. O teto de sua casa começou a oscilar, e ele tentou fugir, mas uma chuva de vigas e escombros travou o seu caminho. Finalmente, o médico alcançou o jardim. Foi quando percebeu que estava completamente nu. “Ora, mas o que aconteceu com meu pijama?”, perguntou-se.

A roupa do médico havia sido arrancada pelo vendaval de 1,2 mil km/h provocado pela explosão. O lado direito de seu corpo estava coberto de pequenos cortes e feridas que expeliam sangue. Tomado pela adrenalina da sobrevivência, Hachiya retirou, com temerária naturalidade, uma grande lasca de vidro incrustada em seu pescoço, como se se tratasse de um pelo encravado. Foi então que ele se pôs a gritar por sua mulher: “Yaeko-san! Yaeko-san!” Ela apareceu entre as ruínas da casa, ensanguentada e com as roupas em farrapos. Juntos, os dois seguiram para o Hospital das Comunicações de Hiroshima, onde Hachiya trabalhava. “Eu estava nu, mas não sentia vergonha, e sim constrangimento, ao notar minha falta de pudor”, ele ressalta.

O casal transitou por ruas repletas de cadáveres e escombros – mais de 67% dos edifícios de Hiroshima foram destruídos ou severamente danificados num átimo. Rostos simplesmente se desfaziam; não poucas vezes, apenas alguns dentes brancos e sobressalentes logravam denunciar que ali houvera uma face. As pessoas moviam-se sem fazer qualquer ruído, como se tudo se passasse num filme mudo. Súbito, Hachiya rompeu o silêncio para pedir a alguém algumas peças de roupa. “Por que estavam todos tão calados?”, se pergunta Hachiya. Como testemunhas do absurdo, os sobreviventes talvez pressentissem que suas palavras já não pertenciam àquele mundo pós-apocaliptíco.

Ao chegar ao hospital, Hachiya logo foi posto em uma maca. Quartos e corredores estavam abarrotados e convulsionados. Assim que pôde se recuperar, o médico juntou-se à sua equipe para cuidar das centenas de feridos. Em 15 de agosto de 1945, Hirohito anunciou a capitulação do Japão pelo rádio. Era a primeira vez que os súditos ouviam a voz do imperador, e Hachiya revela que uma mescla de espanto, descrença e revolta tomou conta de médicos e pacientes. Ao estupor com o ataque, seguiu-se o sentimento de humilhação com a derrota. Mas a preocupação de Hachiya permaneceu voltada para a tentativa de aplacar a dor, como se a medicina fosse a última vereda a lhe oferecer uma trégua (e uma esperança) entre as ruínas.

Diário de Hiroshima é talvez o testemunho mais impressionante de um sobrevivente da explosão atômica. É também um notável documento sobre os esforços de um grupo de médicos para salvar pessoas e tentar entender, metodicamente, os efeitos do que ocorrera. As consequências devastadoras da bomba sobre o ser humano eram até então desconhecidas – mesmo pelos cientistas norte-americanos que a criaram –, com sua gama de dores e doenças totalmente novas. “Após a bomba, pensamos que, com o tratamento correto, o queimado e ferido logo se recuperaria”, escreve o médico, em 19 de agosto. “Mas agora não havia dúvida de que não seria assim. Aqueles que se recuperavam sem intercorrências acabavam apresentando outros sintomas que levavam ao resultado fatal. O fato de tantos pacientes morrerem sem que pudéssemos explicar a causa dessas mortes era desesperador.”

A contumácia da morte, entretanto, não fez com que Hachiya colocasse de lado o respeito pelos mortos: era como se o luto reverencial fosse seu último liame entre a tradição vaporizada e o presente em mutação. O escritor búlgaro Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura em 1981, chama a atenção para isso no prólogo da edição espanhola de Diário de Hiroshima: “Não temos a impressão de que, para ele, os mortos se amalgamam em uma massa na qual já nenhum indivíduo conta. […] Cada pessoa tem importância ante seus olhos, cada pessoa tal como realmente era e como ele a conserva em sua memória.”

Em que pese a excepcionalidade da tragédia de Hiroshima e Nagasaki, trata-se de uma lição perene, e tanto mais relevante quando o desdém pelos mortos e sua memória se faz política de governo, como aqui e agora.

O primeiro teste nuclear dos Estados Unidos foi realizado num deserto do estado do Novo México apenas três semanas antes do apocalipse no Japão. Dias depois do experimento, o físico norte-americano Julius Robert Oppenheimer, diretor do programa de armas atômicas, o Projeto Manhattan, declarou sobre o momento em que ele e sua equipe depararam com a colossal explosão: “Nós sabíamos que o mundo jamais seria o mesmo. […] Eu me recordei de um verso da escritura hindu, o Bhagavad-Gītā, em que Vishnu está tentando persuadir o príncipe a cumprir o seu dever e, para impressioná-lo, assume sua forma com múltiplos braços e diz: ‘Agora eu sou a Morte, a destruidora de mundos.’ Acho que todos pensamos nisso, de uma maneira ou de outra.”

Em seguida ao ataque de Hiroshima e Nagasaki, Oppenheimer encontrou-se com o presidente Harry Truman, que ordenara as explosões. Na reunião, disse, sem meias palavras: “Eu tenho sangue nas mãos.” Mas o presidente não se deixou abalar pelo remorso do físico e, com a frieza de quem pisa no pescoço da própria consciência com coturnos, ordenou à secretária que jamais voltasse a agendar um encontro com Oppenheimer. Em uma entrevista dada em 2018, o neto do presidente, Clifton Truman Daniel, justificou assim a atitude de Truman: “Provavelmente, do ponto de vista de meu avô, eles estavam travando uma guerra e, em uma guerra, você usa o que precisa para vencê-la.”

O piloto Paul Tibbets Jr., então general de brigada, recorreu a um argumento correlato e mais explícito, em uma entrevista concedida em 1989: “Devo dizer que nós não podemos olhar para os aspectos sombrios do que fizemos, porque não há moralidade na guerra, então eu não fico remoendo as questões morais.” Tibbets batizou com o nome de sua mãe, Enola Gay, o avião B-29 que assassinou numerosas mães e seus filhos, além de condenar incontáveis mulheres à esterilidade. Questionado se tinha arrependimentos, o piloto afirmou: “Garanto-lhe que nunca perdi uma noite de sono com isso.”

Também Truman declarou não ter remorsos sobre o que ocorreu. O filósofo Günther Anders conta, em Off Limits für das Gewissen, que o presidente, durante a festa de seu 75º aniversário, em 1959, citou um único arrependimento: não ter se casado antes dos 30 anos. A anedota aparece na primeira carta que Anders escreveu, em 3 de junho de 1959, a Claude Robert Eatherly, o piloto do avião de reconhecimento climático. E reaparece na que o filósofo enviou ao presidente John Kennedy, em 13 de janeiro de 1961, acrescida do seguinte comentário: “Não passou pela cabeça dele [Truman] falar de Hiroshima; possivelmente esse evento era grande demais para entrar numa mente tão pequena.”

Com Eatherly foi diferente. Hiroshima nunca mais saiu da mente do piloto. Aclamado como herói quando de seu retorno aos Estados Unidos, o major de 26 anos até tentou voltar à vida cotidiana. Fez faculdade, saiu das Forças Armadas e passou a trabalhar como representante comercial. Depois, começou a cometer delitos, como pequenos roubos e estelionatos, para que a Justiça, enfim, o livrasse de sua inocência dolosa.

Cinco anos depois dos ataques, Truman anunciou o desenvolvimento de uma arma atômica ainda mais apocalíptica, a bomba de hidrogênio. Eatherly, então, tentou se matar, tomando um sem-número de pílulas para dormir. Quando o herói culpado resolveu levar a público a dor que nem de longe era apenas sua, uma junta psiquiátrica o internou num hospital militar para veteranos traumatizados.

Foi ali que recebeu a primeira mensagem de Anders, que vivia na Áustria. A troca de cartas duraria pouco mais de dois anos, até o ponto de se tornarem amigos, apesar da diferença de dezesseis anos de idade entre eles e das suas histórias de vida tão díspares.

Günther Anders era primo distante de Walter Benjamin e havia sido aluno de Edmund Husserl, seu orientador de doutorado, e Martin Heidegger. Tentou a carreira universitária, sem sucesso, e passou a se dedicar ao jornalismo. Em 1929, casou-se com Hannah Arendt. O casamento durou até 1937, quando se divorciaram por procuração. No ano anterior, Anders havia imigrado para os Estados Unidos; Arendt faria o mesmo em 1941.

O filósofo só retornou à Europa em 1950, onde deu continuidade às suas reflexões sobre o desenvolvimento tecnológico e suas implicações para a humanidade, como no livro Die Antiquiertheit des Menschen (A obsolescência do ser humano, em dois volumes, publicados em 1956 e 1980). Como corolário de suas ideias, Anders se voltou nas últimas décadas de sua vida (ele morreu em 1992, com 90 anos) para os impasses da responsabilidade ética dos indivíduos na era atômica, quando o sonho de onipotência do homem materializado pela técnica abria a possibilidade de extinção da própria vida humana.
O filósofo só retornou à Europa em 1950, onde deu continuidade às suas reflexões sobre o desenvolvimento tecnológico e suas implicações para a humanidade, como no livro Die Antiquiertheit des Menschen (A obsolescência do ser humano, em dois volumes, publicados em 1956 e 1980). Como corolário de suas ideias, Anders se voltou nas últimas décadas de sua vida (ele morreu em 1992, com 90 anos) para os impasses da responsabilidade ética dos indivíduos na era atômica, quando o sonho de onipotência do homem materializado pela técnica abria a possibilidade de extinção da própria vida humana.

O remorso do ex-piloto chamou a atenção do filósofo, já que Eatherly não apenas se encontrava entre os primeiros a ver e a vivenciar o horror nuclear, mas também se reconhecia como parte de um grupo minoritário de pessoas que aceitavam sua responsabilidade na hecatombe. Para Anders, a dor moral provocada pela empatia às vítimas humanizava Eatherly e se contrapunha à alienação dos “culpados” na cadeia de destruição, que, por ser constituída do trabalho fragmentado de uns e outros, isentava cada indivíduo de responsabilidade final na destruição maciça. “Só os anormais não se comportam de forma anormal em situações que não são normais”, escreveu, em 18 de outubro de 1959, o filósofo, que fez o que pôde para tirar o piloto do hospital psiquiátrico.

Eatherly entende bem o seu papel. Em 12 de junho de 1959, ele escreve a Anders: “No passado, foi possível aos homens levar a vida sem que tivessem que postular tantas questões sobre a forma como eles estavam acostumados a pensar e a agir – mas agora está razoavelmente claro que em nossa época já não é assim. A meu ver, estamos nos aproximando rapidamente de uma situação em que nos sentiremos compelidos a reexaminar nossa disposição em delegar a responsabilidade por nossos pensamentos e ações a algumas instituições sociais, tais como partidos políticos, sindicatos, igrejas e o Estado.”

A responsabilidade moral de Claude Eatherly e a dignidade de Michihiko Hachiya em face da memória de vivos e mortos são, ainda hoje, poderosas barricadas contra a banalização da dor e do assassínio.


[1] A correspondência entre Anders e Eatherly foi publicada no mesmo ano na Inglaterra e em 1962 nos Estados Unidos, com o título Burning Conscience (Consciência em chamas), edição que serviu de referência a este texto. O diário de Hachiya foi lançado em livro em 1955 nos Estados Unidos, com o título Hiroshima Diary: The Journal of a Japanese Physician. No Brasil, a EdiPUCRS publicou uma tradução em 2009, que se encontra esgotada. Aqui, nos valemos da tradução em espanhol lançada em 2006 pelo Circulo de Lectores, de Barcelona.

O quadro acima:  Tanque de água em Hiroshima, por Akira Onogi: após a explosão, as pessoas se moviam em silêncio, como se tudo se passasse num filme mudo ILUSTRAÇÃO: AKIRA ONOGI_CORTESIA DO HIROSHIMA PEACE MEMORIAL MUSEUM 


Flávio Ricardo Vassoler
É escritor, doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa pela Northwestern University
Piaui, EDIÇÃO 167 | Agosto_2020
anais da bomba

sábado, 1 de agosto de 2020

App da inclusão


Ana Carolina da Hora, a Nina da Hora:
“Estranham quando digo que eu, uma mulher negra, sou cientista da computação”

Pela tela do computador, a cientista da computação Ana Carolina da Hora conferiu as participantes do curso que começaria a ministrar naquela tarde de abril, sobre acesso à tecnologia. Eram mais de cem alunas, mulheres de comunidades pobres do Rio. A oficina tinha um tema específico: como acessar o Caixa Tem, aplicativo criado pela Caixa para fazer o pagamento do auxílio emergencial mínimo de 600 reais durante a pandemia de Covid-19. A professora perguntou às alunas qual a dificuldade delas. “Não tenho computador, esse é de uma amiga”, disse uma. “Não entendo uma palavra do que está escrito aqui”, completou outra. “Emprestei o CPF pra minha vizinha se cadastrar e agora não posso me inscrever”, explicou uma terceira. “Não tenho documento, perdi todos”, avisou uma quarta.

Acostumada a dar aulas para públicos pouco digitais, a professora de 25 anos viu que o curso precisaria ser diferente. Ao desconhecimento de ferramentas básicas somavam-se a exclusão continuada – escola, emprego, documento –  e uma urgência – dominar a tecnologia para receber dinheiro e pagar contas. Aquelas mulheres, lideranças em suas comunidades, seriam multiplicadoras para explicar a outras pessoas como usar o aplicativo. As aulas começaram do básico.

A pandemia foi só mais uma oportunidade para Ana Carolina fazer o que tem feito desde que escolheu estudar Ciência da Computação: trabalhar pela inclusão digital, principalmente de negros e mulheres. Negra, criada pela mãe, pelas tias e pela avó em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense, desde criança gostava de computadores. Conseguiu entrar, como aluna bolsista, no curso de Ciência da Computação na PUC. De Caxias até a Gávea eram três horas no transporte público. Um dia o irmão lhe trouxe um livro que achara no ônibus, “dessas coisas aí que você gosta”. Era um livro sobre banco de dados, que seria usado no curso. “Foi o primeiro livro que eu tive pra faculdade. Nunca poderia comprar, hoje deve custar uns 400 reais.” A mãe temia que ela, que nunca saíra de Caxias, não se adaptasse a uma universidade privada.

Na faculdade, durante dois anos participou do programa de estágio Apple Developer Academy PUC-Rio. Criou um aplicativo chamado Mulheres na Tecnologia e com ele foi selecionada para acompanhar,  em 2018, a conferência anual de desenvolvedores da Apple. Na volta do evento, o Mulheres foi aprimorado e se transformou no Sami, um aplicativo em forma de jogo, para ensinar programação e conectar meninas que, em diferentes lugares do Brasil, se interessam pelo assunto. Foi um projeto atrás do outro, mostrando que a mãe de Ana Carolina estava errada na previsão sobre sua adaptação à faculdade. Ela não só está se formando como, no mundo da tecnologia, se transformou em Nina da Hora, cientista, palestrante, programadora, desenvolvedora e professora.

Divide-se entre cursos, aulas, criação de aplicativos e projetos voltados para o combate ao racismo e à exclusão digital. Criou um modelo de negócio que faz com que seja chamada para desenvolver projetos variados, propostos por ela ou em parceria com outras organizações. Um deles, o Computação sem Caô, realizado para a organização Olabi, traduz em vídeos no YouTube conceitos da computação no dia a dia. Outro projeto é um podcast sobre cientistas africanos, o Ogunhê, já com dezesseis episódios, que ela grava no ônibus. Esta semana, lançou, junto com as amigas Taynara Cabral e Izabelle Simplicio, o Sankofa, um jogo da memória digital com os rostos de doze mulheres negras.

O curso sobre o aplicativo Caixa Tem é parte do projeto Agora é a Hora, para apoio a mulheres negras durante a pandemia com participação de quatro organizações: Criola, Perifaconnection, Movimenta Caxias e Instituto Marielle Franco. Além da distribuição de cestas básicas para famílias pobres, investiu na capacitação das líderes comunitárias para que elas pudessem solicitar o auxílio emergencial. “Sem entender como funciona a internet, os sites, os aplicativos, sem wifi, essas pessoas ficavam meio invisíveis. Não conheciam as ferramentas para se conectar. O trabalho da Nina foi fundamental para permitir que elas pudessem pelo menos começar a entender esse mundo”, diz a coordenadora do Criola, Lúcia Xavier.

Um em cada quatro brasileiros não tem acesso à internet. São 47 milhões de pessoas longe da rede, mostram os dados da TIC Domicílios 2019, levantamento sobre acesso a tecnologias da informação realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil. Entre os que não acessam internet, 26% disseram achar o serviço muito caro e 20%, que não sabiam de que forma usar. Relatos como os das alunas do curso do Criola confirmam que o acesso à rede não garante a compreensão, e muitas ferramentas digitais são ininteligíveis. O trabalho com as líderes comunitárias segue em frente, e Nina da Hora é responsável pela criação de uma plataforma com os dados dessas mulheres, a fim de mapear necessidades e conquistas. “Esses avanços que a gente vê sobre internet não chegam para a população toda. Tem gente que não tem computador, não tem internet. É uma equação que tem variáveis como salário, trabalho. E a população negra é a mais excluída disso tudo”, afirma.

A Olabi, criada em 2014, é uma das organizações voltadas para a ampliação do acesso da população negra à tecnologia, tanto como usuária quanto como produtora de conteúdo. Um de seus projetos, o Pretalab, identificou 570 mulheres negras e indígenas que trabalham com tecnologia. Outro, o ProtegeBR, fez um mapeamento de iniciativas solidárias de distribuição de equipamentos de proteção individual durante a pandemia. “A quarentena fez a gente usar mais a internet para aula, consulta, tudo. Ao mesmo tempo, mostrou que as conquistas da rede não estão disponíveis para todo mundo. Tecnologia não é fim, é meio. Não adianta ter uma tecnologia maravilhosa, um mundo de nerds, se isso não se transforma em ganhos concretos para as pessoas. E isso só vem com política pública”, diz a pesquisadora Silvana Bahia, criadora da Olabi.

Iniciativas como as da Olabi, para aumentar a presença de negros como produtores de tecnologia, aos poucos se espalham. Reportagem da piauí mostrou que, segundo o Ministério da Economia, no Brasil, em 2018, apenas 4% dos profissionais de tecnologia da informação eram negros. Entre eles está a desenvolvedora e webdesigner Jéssica Valeriano, de 29 anos, que trabalha como freelancer para várias empresas. Nascida e criada na periferia de São Bernardo do Campo, município do ABC paulista, filha de um operário e uma dona de casa, ela é a primeira de sua família a fazer faculdade. “Na minha turma da escola, fui a última a ter computador, lá pelos 14, 15 anos. Pegava emprestado ou ia para a casa dos amigos quando precisava fazer um trabalho de escola. Quando ganhei, resolvi saber como funcionava e não parei mais”, lembra. 

Jéssica Valeriano, desenvolvedora, foi a última entre os amigos de escola a ter um computador

Na escola, na faculdade, nos lugares que frequenta, Jéssica se acostumou a ser minoria. Sua turma na graduação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas só tinha um negro e, além dela, uma outra mulher, que desistiu do curso. Sobre a presença de negros na área de tecnologia, acha que o setor tem muitas oportunidades e é até mais aberto que outros, como medicina – mas o racismo está lá, sempre presente. “Às vezes me pediam currículo para estágio e, depois, trabalho. Eu mandava, a pessoa elogiava, se interessava, pedia urgência, eu ia correndo pra entrevista. Durante a entrevista elogiavam o currículo, agradeciam e, com muita educação, diziam que a vaga tinha sido ocupada. Só hoje entendo que era racismo”, conta. A quem quer seguir na área de tecnologia, dá dois conselhos: ter foco e nunca parar de estudar.

Estudar, sozinho ou acompanhado, de dia, de noite, a qualquer hora, foi também o caminho para desenvolvedor e programador Rodrigo Ribeiro, de 33 anos. Cria da Cohab de Realengo, Zona Oeste do Rio, filho de uma doméstica e um auxiliar de serviços gerais, ele começou como estagiário numa empresa de informática. Nunca parou de aprender, trocou a graduação em publicidade pela de Ciência de Dados e trabalha como programador em uma gráfica digital. Montou o Tecnogueto, um projeto para oferecer formação em tecnologia a jovens que se interessam pelo tema, mas não podem pagar. “Sou o primeiro da minha família a cursar faculdade, a ter carro. Muitas vezes o jovem negro acha que a tecnologia não é para ele, e me sinto na obrigação de tentar mudar isso”, diz.

Rodrigo Ribeiro, programador e criador do Tecnogueto, que oferece cursos na área de programação

Além do interesse pela tecnologia, Rodrigo Ribeiro, Jéssica Valeriano e Nina da Hora têm em comum o convívio com um estranhamento constante. “Na primeira empresa em que fiz estágio, eu era o único preto numa equipe de setenta pessoas. E só tinha uma mulher”, lembra ele. Jéssica menciona a solidão de ser sempre ou quase sempre a única mulher negra nos ambientes. Nina fala dos olhares enviesados quando descobrem que ela trabalha na área de tecnologia. “Acham que eu poderia estar falando de história, cultura negra, de racismo… Mas estranham quando digo que sou cientista da computação. É um mundo pensado para a gente desistir dele.” Nenhum deles desistiu.

FERNANDA DA ESCÓSSIA (siga @fescossia no Twitter), 31/07/2020
Editora da piauí (site). Foi repórter da Folha de S.Paulo e editora de política do Globo
31/07/2020

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Educação vigiada

O perigo de plataformas privadas de EaD na UFRJ e no ensino

A UFRJ, universidades e escolas pelo país vêm anunciando, emergencialmente, a adesão a plataformas de ensino à distância. É preocupante que a universidade opte por aderir a essas plataformas privadas de ensino, especificamente Google e Microsoft, ignorando a capacidade técnica da universidade.

Na última década, intensificou-se o desmonte da universidade e consequente diminuição das verbas destinadas ao custeio, atingindo, entre outros, a manutenção de sua infraestrutura tecnológica. As gestões das universidades e suas unidades passaram a, acriticamente, terceirizar seus parques informacionais (no uso de e-mails, office, nuvem, entre outros), à revelia da legislação e sem contratos ou licitação (na verdade existe um contrato e uma série de termos no aceite do uso do software), em sua grande maioria Google e Microsoft [1].

O modelo de negócios dessas empresas é a coleta massiva de dados dos/as usuários/as, que ajuda a formar perfis, inicialmente para vendas de propaganda direcionada para outras empresas. Hal Varian, um dos principais economistas da Google comentou: “por que a Google disponibiliza produtos de graça...? Qualquer coisa que aumente o uso da internet, em última instância, enriquece a Google [...]. E como a previsão e a análise são tão cruciais para o Google AdWords, qualquer bit de dados, mesmo que aparentemente trivial, tem valor comercial” [2].

A forma apressada e oportunista de implementação de métodos EaD de qualquer forma, apesar da precária infraestrutura do país, além da exclusão digital (que não se resolverá com a distribuição de chips) [3], põe em risco a autonomia universitária e a soberania do país, quando não há controle sobre os dados (sensíveis ou não, sem distinção no processo de coleta dos dados) e o fim que será dado a eles, sob custódia de empresas estrangeiras (normalmente radicadas nos EUA) e com amplo histórico de desrespeito a usuários/as e à soberania de países [4].

Estamos abrindo mão de décadas de investimento público (vide Rede Nacional de Pesquisas – RNP e Serpro). Estamos obrigando servidores/as e alunos/as a “assinarem” um contrato individual com essas empresas, já que é obrigatória a criação de contas para utilizar suas plataformas.
Existe uma imensa ignorância acerca do uso dessas tecnologias de informação. Um fetiche de que o uso da internet forma um paraíso utópico e sem fronteiras, onde a lei do “mundo real” não se aplica. Se há algo disponível, basta acessar e usar. Infelizmente a realidade não se apresenta desta forma. Gestores/as estão aceitando contratos ao usar esses softwares, sem o devido estudo e conhecimento, sem contrapartida, aderindo de maneira ingenua a gratuidade fornecida (paga-se com os dados fornecidos, origem de seus lucros), sem garantia ou política de preservação ou privacidade dos dados de usuários/as, sem informá-los/as de maneira transparente que eles/as terão de assinar contratos individuais para o uso das plataformas [5].

O uso dessas plataformas retira a autonomia de docentes e técnicos/as sobre o modelo de trabalho oferecido, e qualquer possibilidade de interferência da universidade na modificação e proposição de funcionalidades. É usar o que está disponível ou não usar. A limitação geográfica, o uso pelo Governo dos EUA através de seus bloqueios político-comerciais, pode impedir o acesso destas tecnologias a países parceiros do Brasil ou da universidade, atacando frontalmente a soberania [6].

Gestores/as têm argumentado que o uso, por enquanto, é temporário e que pode ser revisto mais tarde. Este argumento não é real. Uma vez treinados/as nas encantadoras plataformas oferecidas pelas empresas, não haverá motivação de servidores/as para esta reversão. Além do mais, é conhecida a tática de “vendor lock-in” [7], tornando-se difícil a interoperabilidade e retirada de dados dessas plataformas, gerando uma alta dependência tecnológica informacional.

Devido à natureza coletora de dados desses softwares (que é o fim delas), o controle do trabalho técnico e docente passa a ser uma de suas funcionalidades oferecidas, onde cada acesso pode ser monitorado, servindo como política de controle de produtividade. Lembremos novamente que não temos como influir num modelo de software que não foi proposto, contratado ou mantido por nós (seremos simples usuários/as de um produto contratado já pronto).

Não podemos nos esquecer também, que perdemos oportunidades de troca com o que a universidade já oferece de projetos e cursos de tecnologia. Ao longo da existência da Superintendência de TIC da UFRJ, e mesmo antes com contribuição do NCE e outras unidades, muitas foram as parcerias com alunos/as através de bolsas, com destaques na área de segurança da informação (através do Grupo de Resposta a Incidentes de Segurança – GRIS [8]) e desenvolvimento de software (destaque para os/as bolsistas do SIGA), com acúmulo de conhecimento tanto para a administração quanto para os/as estudantes. Com o corte de bolsas e o uso de plataformas fechadas, fica impossível a troca entre a universidade e sociedade, com a possível melhoria de nossos softwares informacionais a nossa realidade local, nos tornando meros/as consumidores/as de tecnologias pelas quais não teremos o menor controle e autonomia.

Portanto, as unidades e conselhos devem aprovar o uso de plataformas locais, hospedadas e fornecidas pela universidade ou outros entes como a Rede Nacional de Pesquisa (RNP). É preciso exigir o mínimo investimento em infraestrutura, e que se aproveite a mão de obra presente nas TICs das universidades, além de renovação do quadro e concursos para a área. É preciso fortalecer uma rede nacional onde as universidades compartilhem experiências locais e possamos de maneira colaborativa oferecer tecnologias, infraestrutura e conhecimentos adquiridos para que nossas necessidades sejam atendidas.

Muitos softwares já são livres para uso irrestrito e disponibilizados, a exemplo do ConferênciaWeb da RNP e o Moodle (oferecido pelo NCE à comunidade), que já é amplamente conhecido pela comunidade universitária, além de softwares de comunicação, e-mail e nuvem de arquivos (oferecidos pela TIC).

Precisamos garantir que nossa infraestrutura seja aprimorada com investimentos e que seja utilizada e incentivada de maneira autônoma e independente pela universidade.

Rafael Raposo
Analista de TI da UFRJ

Notas
1. Veja em https://educacaovigiada.org.br, uma iniciativa de acadêmicos/as e membros de organizações sociais que visa alertar sobre o avanço da lógica de monetização de grandes empresas intituladas pelo acrônico GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) sobre a educação pública brasileira. Disponibiliza dados da  pesquisa intitulada Capitalismo de Vigilância e a Educação Pública do Brasil com a intenção de incentivar um debate na sociedade em relação aos impactos sociais da vigilância.

2. Secret of googlenomics: data-fueled recipe brews profitability”, Wired, 22 maio 2009, disponível em: https://www.wired.com/2009/05/nep-googlenomics/

3. Quarentena e apartheid tecnológico: Brasil não fez da Internet objeto de política pública, Sputink BR, 22 abril 2020, disponível em https://br.sputniknews.com/opiniao/2020042115485499-quarentena-e-apartheid-tecnologico-brasil-nao-fez-da-internet-objeto-de-politica-publica/

4. PRISM (programa de vigilância), 19 julho 2020, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/PRISM_%28programa_de_vigil%C3%A2ncia%29

5. “As leis da Califórnia vão reger todas as disputas que surgirem com relação a qualquer um destes termos, dos termos adicionais específicos do serviço ou qualquer serviço relacionado, mesmo se houver conflito nas regras das leis. Essas disputas serão resolvidas exclusivamente nos tribunais federais ou estaduais do condado de Santa Clara, Califórnia, EUA, e você e o Google concordam com a jurisdição pessoal nesses tribunais.” Termos de Serviço do Google, 31 março 2020, disponível em: https://policies.google.com/terms?hl=pt-BR#toc-problems

6. Google bloqueia Analytics em Cuba, Estadão,  21 junho 2012, disponível em: https://link.estadao.com.br/noticias/geral,google-bloqueia-analytics-em-cuba,10000035408

7. Vendor lock-in é quando alguém é essencialmente forçado a continuar usando um produto ou serviço, independentemente da qualidade, porque não é prático mudar esse produto ou serviço, 22 julho 2020, disponível em: https://www.cloudflare.com/learning/cloud/what-is-vendor-lock-in/

8. Grupo que visa dar suporte a alunos/as do curso de ciência da computação no que diz respeito a tópicos de segurança da informação.

Marguerite Duras

Chorava de quase morrer, ria de se matar
Livro mais autobiográfico de Duras, 'O Amante' concilia força e delicadeza

 A escritora e cineasta Marguerite Duras no set de "Jaune Le Soleil", em 1971,  
em Neauphle-le-Château, na França - Divulgação

Marguerite Duras, cultuada escritora, dramaturga e roteirista de cinema (é seu o roteiro de “Hiroshima, Meu Amor”, dirigido por Alan Resnais), só caiu nas graças do grande público quando, aos 70 anos, lançou “O Amante”, best-seller mundial e ganhador do prêmio Goncourt em 1984. Li suas poucas páginas em uma tarde e não pude dormir à noite, tentando assimilar tamanha porrada e, na mesma medida, delicadeza.

Com o fim da saudosa Cosac Naify, o livro ficou alguns anos fora de catálogo, mas retorna agora reeditado pelo selo Tusquets. Conta a história do relacionamento entre uma adolescente branca que vive com a família na Indochina colonizada pela França (Vietnã nos dias atuais) e um jovem chinês rico, filhinho de papai (sempre em uma limusine que mais parece um carro funerário). Ele se apaixona perdidamente ao vê-la num traje que combina um vestido velho da mãe, um cinto do irmão, sapatos de salto alto e lamê dourado e um chapéu masculino com a aba reta e lisa. Ela diz que já o conheceu com dinheiro e, portanto, não sabe definir se gosta dele independentemente de sua situação financeira.

Duras começa o livro afirmando que a história da sua vida não existe, mas depois, em entrevistas, declara ser esta a sua obra mais autobiográfica. Narra a criança inocente, pobre e, de repente, lhe dá contornos de mulher perigosa e com certo porte. Chorava de quase morrer, ria de se matar. Chama sua mãe de “porcaria” e “meu amor” na mesma frase. Sua relação familiar é tão intensa quanto destituída de afeto. Cuida da colega de internato como filha, mas a deseja sexualmente. Sente-se como filha do seu amante, mas pensa também usá-lo se colocando em uma posição superior.
Vai ao passado e volta, ora narrando em primeira pessoa, como a velha senhora que tenta entender aquela garotinha com 15 anos e meio; ora tornando a garotinha uma personagem em terceira pessoa, para que essa, talvez, traga alguma verdade só possível quando tomamos distância.

Escrito exatamente como são nossas memórias e sonhos, com tempos, idades e casas misturadas (e imagens e pensamentos encobertos), o leitor tem ao menos algumas certezas postas da forma mais honesta e clara possível: uma filha que venera até o limite da razão uma mãe louca; uma irmã que ama para além da morte um “irmão mais novo” e frágil; e uma garotinha que, ao pretender se prostituir por perversão e ganância, se dá conta, talvez só no fim da vida, que viveu um grande amor.
Marguerite reconhece certa liberdade literária após a morte da mãe (e do irmão mais velho): “É por isso que escrevo sobre ela, agora, de modo tão fácil, tão longo, tão estirado, ela se tornou escrita corrente”. E ainda, nas palavras da crítica Leyla Perrone-Moisés, no excelente posfácio do livro: “o recalcado encontrou uma forma, uma sublimação. Isso só se consegue por um trabalho, aqui o trabalho da escrita”. Não à toa o psicanalista Jacques Lacan foi assumidamente “arrebatado” por sua narrativa.

Fico feliz ao saber que Duras não gostou do filme homônimo dirigido por Jean-Jacques Annaud.
Interpretar com ares de totalidade essa obra ou, ainda, dar-lhe qualquer imagem absoluta, certamente incomodaria uma autora capaz de produzir frases como “muito cedo foi tarde demais em minha vida” ou “olhar é ter um movimento contra alguma coisa, é decair” e ainda “em minha infância, a infelicidade de minha mãe ocupou o lugar do sonho”. Como filmar uma adolescente que se prostitui para “aprofundar o conhecimento de Deus”?

O Amante, Ed. Tusquets, 2020, R$ 29,18, e-book R$ 26,91 (128 págs.)

Tati Bernardi
Escritora e roteirista de cinema e televisão, autora de “Depois a Louca Sou Eu”.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Florestan


Florestan Fernandes, um militante do ensino democrático

O sociólogo não só refletiu sobre a escola brasileira, apontando seu caráter elitista, como atuou pessoalmente em defesa da educação para todos

NOVA ESCOLA   01 de Outubro | 2008

Florestan Fernandes (1920-1995) foi um dos mais influentes sociólogos brasileiros, mas muitos o chamavam de educador sem saber que isso o incomodava em sua modéstia. O equívoco tinha razão de ser. Vários escritos de Florestan tiveram a educação como tema e sua atuação na Câmara dos Deputados, já no fim da vida, se concentrou na área do ensino. Além disso, a preocupação com a instrução era um desdobramento natural de sua obra de sociólogo. "Em nossa época, o cientista precisa tomar consciência da utilidade social e do destino prático reservado a suas descobertas", escreveu.

Como o italiano Antonio Gramsci (1891-1937), Florestan militava em favor do socialismo e não separava o trabalho teórico de suas convicções ideológicas. Ainda que com abordagens diferentes, ambos acreditavam que a educação e a ciência têm, potencialmente, uma grande capacidade transformadora. Por isso, deveriam ser instrumentos de elevação cultural e desenvolvimento social das camadas mais pobres da população. "Um povo educado não aceitaria as condições de miséria e desemprego como as que temos", disse ele em entrevista a NOVA ESCOLA em 1991. "A escola de qualidade, para Florestan, não era redentora da humanidade, mas um instrumento fundamental para a emancipação dos trabalhadores", diz Ana Heckert, docente da Universidade Federal do Espírito Santo.

Florestan tomou para si a tarefa de romper com a tradição de pseudoneutralidade das ciências humanas e reconstruir uma análise do Brasil abertamente comprometida com a mudança social. Segundo sua análise, uma classe burguesa controlava os mecanismos sociais no Brasil, como acontecia em quase todos os países do Ocidente. No entanto - por causa de fatores históricos como a escravidão tardia, a herança colonial e a dependência em relação ao capital externo -, a burguesia brasileira era mais resistente às mudanças sociais do que as classes dominantes dos países desenvolvidos.

Revolução incompleta

Segundo Florestan, a revolução burguesa, cujo exemplo emblemático é a de 1789 na França, não teria se completado no Brasil. Enquanto os revolucionários franceses do século 18 exigiam ensino público e universal, as elites brasileiras do século 20 ainda queriam controlar a educação para manter a maioria da população culturalmente alienada e afastada das decisões políticas. Por isso, uma das principais lutas de Florestan foi pela manutenção e pela ampliação do ensino público (leia quadro na página 109). "Ele acreditava que o sucateamento da escola, com péssimas condições de trabalho e estudo, fazia parte das tentativas de sufocar a democratização da sociedade por meio da restrição do acesso à cultura e à pesquisa", diz a pesquisadora Ana Heckert.

O Brasil, dizia o sociólogo, era atrasado também em relação ao que ele chamava de cultura cívica, ou seja, um compromisso em torno do mínimo interesse comum. Para Florestan, não havia tal cultura no Brasil por dois motivos: ela estimularia as massas populares a participar politicamente e ao mesmo tempo tiraria das classes dominantes a prerrogativa de fazer tudo o que quisessem sem precisar dar satisfações ao conjunto da população.

Florestan bateu-se também pela democratização do ensino, entendendo a democracia como liberdade de educar e direito irrestrito de estudar. Em seus dois mandatos de deputado federal, nos anos 1980 e 1990, o sociólogo esteve envolvido em todos os debates mais importantes que ocorreram no Congresso no campo da educação. Participou ativamente da discussão, elaboração e tramitação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que só seria aprovada em 1996, um ano depois de sua morte.

Florestan defendia propostas mais radicais do que as que acabaram incluídas na lei aprovada, cujo mentor foi o antropólogo e senador Darcy Ribeiro (1922-1997). O sociólogo propunha que a lei incluísse o princípio de escola única, que abrangesse Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, conjugada com educação profissional, e possibilitasse uma escolaridade maior aos setores carentes da população. Florestan também pretendia, como meio de dar autonomia às escolas, que os diretores fossem eleitos por professores, pais e alunos. Ele queria ainda incluir na LDB um piso salarial para os professores.

Contra o autoritarismo

Não eram só as condições estruturais do sistema educacional que atraíam a atenção rigorosa do cientista social. No intervalo democrático entre 1945 e 1964 no Brasil, Florestan notou que a educação havia ganho papel crucial na busca "do equilíbrio e da paz social", mas isso se devia a conquistas sociais e não a políticas dos governos, que, segundo ele, continuavam não investindo em educação pública. Além da destinação de verbas, o passo mais urgente então seria integrar as escolas para que sua função progressista se multiplicasse e ganhasse solidez. Ao lado do trabalho propriamente didático, as escolas deveriam formar "um sistema comunitário de instituições sociais".
Florestan também se preocupou em criticar a prática em sala de aula, com ênfase em três pontos: a concepção do professor como mero transmissor do saber, que, para ele, fragilizava o profissional da educação; a idéia de que o aluno é apenas receptor do conhecimento, quando o aprendizado deveria ser construído conjuntamente na escola; e o ensino discriminatório, que trata o aluno pobre como cidadão de segunda classe. "Para Florestan Fernandes, a educação transformadora se faz com uma escola capaz de se desfazer, por si mesma, do autoritarismo, da hierarquização e das práticas de servidão", diz Ana Heckert.

Mestre de uma geração desbravadora

Florestan Fernandes integrou a primeira geração de sociólogos formados pela Universidade de São Paulo, da qual também fez parte o crítico literário Antonio Candido. Foi mestre da terceira geração, que incluía Octavio Ianni e o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso. De um modo ou de outro, tanto veteranos quanto seus discípulos viveram grande parte de sua existência sob longas ditaduras - primeiro a de Getulio Vargas (1937-1945), que havia sido precedida de governos apenas parcialmente democráticos, e depois o regime militar, iniciado em 1964 e encerrado com eleições indiretas em 1984. Não é de espantar que o período de liberdade civil anterior a 1964, em especial o governo Juscelino Kubitschek (1956-1960), tenha sido tão produtivo para todos esses intelectuais. Algumas das mais importantes reflexões sobre o Brasil datam dessa época, tanto nas ciências humanas como nas artes (com exemplos como a Bossa Nova e o Cinema Novo).

Biografia

Florestan Fernandes nasceu em 1920 em São Paulo, filho de uma imigrante portuguesa analfabeta, que o criou sozinha, trabalhando como empregada doméstica. Aos 6 anos, Florestan também começou a trabalhar, primeiro como engraxate, depois em vários outros ofícios. Mais tarde, ele diria que esse foi o início de sua aprendizagem sociológica, pelo contato que teve com os habitantes da cidade. Aos 9 anos, a necessidade de ganhar dinheiro o fez abandonar os estudos, que só recuperaria com um curso supletivo. Aos 18, foi aprovado para o curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo e, por essa época, iniciou sua militância em grupos de esquerda. Depois do golpe militar de 1964, Florestan enviou uma carta à polícia protestando contra o tratamento dado a seus colegas presos e foi, ele também, para a prisão.

Em 1969 foi cassado pelo regime militar. Sem poder trabalhar, deixou o Brasil e lecionou em universidades do Canadá e dos Estados Unidos. Depois da redemocratização, filiado ao Partido dos Trabalhadores, elegeu-se deputado federal em 1986 e 1990. Florestan morreu em 1995, de câncer. Publicou quase 80 livros durante a vida, nos campos da sociologia, da antropologia e da educação. A Revolução Burguesa no Brasil e Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento estão entre os títulos mais importantes.

A briga política pela escola pública

Muitos intelectuais participaram, nas décadas de 1940 e 1950, da Campanha em Defesa da Escola Pública, que teve origem nas discussões para a aprovação da primeira LDB. Nenhum foi mais ativo do que Florestan Fernandes. De início, o tema principal do debate era a centralização ou descentralização do ensino. A polêmica seguiu acirrada até que, em seu ponto máximo de tensão, o deputado Carlos Lacerda apresentou no Congresso um substitutivo para atender aos interesses das escolas particulares e das instituições religiosas de ensino, que pretendiam ganhar o direito a embolsar verbas do Estado. Florestan publicou nessa época vários escritos em que combatia as pretensões da escola privada e também desenvolvia suas idéias sobre a necessidade de democratizar o ensino. O substitutivo de Lacerda acabou sendo aprovado. Mas, no longo prazo, quem ganhou foi Florestan - suas idéias são, hoje, praticamente consenso entre os dirigentes da educação pública.

Para pensar


Florestan Fernandes acreditava que a educação deveria ser, para os alunos, uma experiência transformadora que desenvolvesse a criatividade, dando condições de se libertar da opressão social. Mas, para isso, a escola deveria deixar de reproduzir os mecanismos de dominação de classe da sociedade. Você já se analisou sob esse ângulo? Será que, vez ou outra, já não confundiu sua legítima autoridade de professor com autoritarismo?

terça-feira, 21 de julho de 2020

Mumbuca

Maricá, no Rio, preserva empregos e negócios na pandemia e coloca a renda básica no centro do debate

Município investe em 'mumbucas', uma moeda social para famílias em dificuldade. Programa garante transição tranquila durante a crise do coronavírus. Arrecadação municipal cresceu 15% e pequenas empresas se mantêm com o dinheiro circulando, em contraste com a quadro nacional

O casal Claudio Barbosa e Vagna Ferreira, 
após fazer compras no mercado com cartão Mumbuca, em Maricá.
FERNANDO SOUZA

A solução às vezes mora ao lado. Nas ruas do centro de Maricá, município de 161.000 habitantes a apenas 60 quilômetros da capital Rio de Janeiro, ela se chama mumbuca, uma moeda digital criada pela Prefeitura para circular apenas localmente e que não pode ser convertida para reais. Chega nas mãos de pessoas como Luciana de Souza Nunes, de 38 anos, através do programa Renda Básica da Cidadania (RBC) do município. “É uma pequena ajuda que já faz com que a pessoa tenha uma condição de vida mais decente”, explica ela, que já fez “de tudo na vida” e decidiu “trabalhar sozinha” a partir de 2018, após fazer um curso de massoterapia.

Os tempos são de desaceleração econômica em todo o país por causa da pandemia de coronavírus, mas em Maricá não se vê pessoas vivendo nas ruas nem sinal de desânimo. Pelo contrário. Mercados e comércios dos mais diversos tipos anunciam em letras grandes que aceitam a moeda como pagamento. Mães e pais de família sacam da carteira o cartão vermelho com o benefício e deixam as filas com sacolas cheias. A economia local aparenta seguir girando. “Por mais que eu só possa comprar dentro da cidade, ajuda muito.

Uso a mumbuca principalmente no supermercado e na farmácia, para comprar o básico. Com o dinheiro do trabalho pago as contas extras”. Enquanto avançam as discussões sobre a implementação de uma renda mínima no Brasil e no mundo, Maricá já tem um programa desse tipo para chamar de seu. Tornou-se laboratório de uma política social desde sempre considerada utópica. Lá, uma mumbuca equivale a um real. O programa começou em 2013 transferindo 85 mumbucas para 14.000 famílias e foi evoluindo até o final de 2019, quando passou a pagar 130 mumbucas a cada indivíduo de uma família, alcançando 42.000 maricaenses.

Ônibus urbano de Maricá não possui tarifa.FERNANDO SOUZA

O programa não chega a ser universal, mas é destinado para pessoas que vivem com renda familiar mensal até três salários mínimos (3.135 reais) a um custo de 62 milhões de reais por ano, abrangendo não apenas os mais pobres —como ocorre com o Bolsa Família—, como também uma parcela da classe média vulnerável a choques econômicos. Essa abrangência, aliás, é o principal motivo de críticas e questionamentos daqueles que acham que o programa poderia ser mais eficiente se estivesse mais centrado nas camadas mais pobres da população. Também é preciso estar no Cadastro Único do Governo Federal — sistema no qual pessoas de baixa renda se inscrevem para obter algum auxílio social — e ser residente de Maricá há no mínimo três anos para acessar o programa.

Para Luciana, a política social da Prefeitura oferece certa segurança financeira. “Com meu trabalho recebo cerca de 1.200 reais por mês, mas às vezes não chega a um salário mínimo. Ainda não estou estabilizada”, conta. O auxílio subiu para 300 mumbucas por indivíduo a partir de abril, com a pandemia de coronavírus. Cerca de 20.000 profissionais autônomos, como Luciana, também passaram a receber um adicional de 1.045 mumbucas por mês. Ela conta que essa ajuda foi essencial para que fizesse a quarentena. “Estou em casa desde o final de março. Só saio para levar minha filha para o pediatra e volto”, garante ela, que vive num imóvel simples dividindo o terreno com sua mãe e irmã.

Uma mulher faz compras utilizando seu cartão Mumbuca, em Maricá.
FERNANDO SOUZA

Ela recebe desde abril 600 mumbucas mensais para ela e sua filha mais velha —a recém-nascida ainda não está incluída— junto com o benefício por ser trabalhadora informal. Acumula esses auxílios com os 1.200 reais da Renda Básica Emergencial aprovada pelo Congresso Nacional. Somando tudo, recebe o equivalente a 2.845 reais em auxílios governamentais para manter sua família em tempos de pandemia. “Eu não posso reclamar, consigo pagar as contas e estou bem. Mas isso não significa que quero que isso continue. Tem que ter a noção de que é temporário e não sair aloprando, achando que esse valor é para o resto da vida.”

Entre abril e junho, o município, governado por Fabiano Horta (PT), ainda ofereceu 20 milhões de reais em empréstimos a juros zero para pequenos negócios e distribuiu mais de 24.000 cestas básicas para famílias com crianças matriculadas em escolas públicas, entre outras políticas para amenizar os efeitos socioeconômicos da pandemia. De acordo com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Magnun Amado, essas medidas foram estendidas por mais três meses, até setembro. Até aqui, essa injeção de recursos vêm sendo bem-sucedida. O secretário afirma que a arrecadação de ICMS e ISS no município cresceu 15% em abril e maio, “no momento em que estávamos com a economia fechada e o resto do Estado do Rio registrava uma queda de 30% em média” no mesmo período. Além disso, os dados do mercado de trabalho registrados no Caged mostram que, entre janeiro e maio, Maricá perdeu apenas 78 postos de trabalho com carteira assinada (uma queda de 0,4%), enquanto o Estado do Rio perdeu 164.226 vagas. No Brasil, já são quase 8 milhões de postos de trabalho perdidos desde o início da pandemia.

O comerciante Luis Felipe Ferreira, dono de um bazar de artigos religiosos e rações para animais, acredita que o aumento da renda básica no período, assim como o adicional para profissionais autônomos, “ajudaram a segurar o comércio”. “As vendas não aumentaram, mas também não caíram muito. Comparado com outros lugares, nossa situação foi bem melhor”, opina. Mais de 3.000 estabelecimentos como o dele aceitam a moeda local como pagamento. Os negócios da cidade continuam funcionando, enquanto no Brasil mais de 700.000 empresas já fecharam em função da pandemia, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Sirlei de Oliveira, de 48 anos, está na fila do Banco Mumbuca, o banco comunitário que recebe os depósitos da Prefeitura e de cidadãos em reais e os converte em moeda local —e que forma parte de uma rede de mais de 100 bancos comunitários em todo o país, coordenada por seu membro fundador, o Banco Palmas, em Fortaleza. “Hoje eu fiz uma compra e descontou duas vezes. Aí vim para resolver. Mas aqui tudo é muito rápido, graças a Deus”, conta. Ela vive perto da praia e trabalha vendendo comida congelada e quentinhas, além de ser contratada para jantares. Em um mês normal, consegue uma renda de 2.000 reais. “Mas estamos vendendo pouco, porque as pessoas estão cozinhando em casa. Por causa da pandemia, ficou difícil pra todo mundo. Ninguém estava vendendo o que venderia”, afirma.

Ela se inscreveu no programa de renda básica no ano passado, quando houve a última ampliação do programa —a próxima só acontecerá depois das eleições— e num momento em que estava desempregada. Agora, com a crise sanitária, ela e suas duas filhas passaram a receber 900 mumbucas do programa, além do adicional de 1.045 por ser autônoma. “É o que permitiu que eu fizesse quarentena. Saio para o mercado, para a farmácia, para a casa de minha mãe, e só. Se não fosse a mumbuca, seria difícil”, afirma.

A gestão de Horta na Prefeitura é bastante popular e sua reeleição é dada como certa em uma cidade que, mesmo optando por candidatos petistas nas últimas três eleições municipais, entregou ao presidente Jair Bolsonaro 62,3% dos votos no segundo turno das eleições de 2018, enquanto Fernando Haddad ficou com 37,7%. “A cidade... Olha, vou te falar, dificilmente tem uma cidade como a nossa. É uma cidade maravilhosa, em todos os aspectos”, afirma, orgulhosa, a comerciante Sirlei. “Onde eu moro, [no bairro de] Guaratiba, está tudo iluminado, tudo calçado, tudo perfeito. Meu pai ficou internado quatro meses no [Hospital Municipal] Conde Modesto e foi muito bem atendido”, relata. “Vejo algumas pessoas reclamarem, mas eu vou reclamar de quê? Minha filha estuda em escola modelo... Então, levo muito em consideração essas coisas”.

O casal Vagna Ferreira, 36 anos, e Cláudio dos Santos Barbosa, 42 anos, também pretende apoiar a atual gestão municipal nas próximas eleições. “Depois que eles entraram, a cidade melhorou 100%. Tem mais emprego, mais educação, mais uniforme de colégio e material de escola... Para mim está ótimo”, diz ele, que teve um problema na coluna e teve de deixar o trabalho como “roceiro” há seis meses. Sua esposa é cozinheira e viu a oferta de trabalho diminuir. Como vivem com quatro filhos, acumulam o equivalente a 1.500 reais em mumbuca, além de receberem o Bolsa Família, que automaticamente foi corrigido para 600 reais pelo Governo Federal por conta da pandemia. “Ficou mais fácil manter o café da manhã e trazer frutas e verduras para a mesa”, conta ela.

Uma renda básica em todo o Brasil

A ideia de uma renda básica, tradicionalmente defendida no Brasil pelo ex-senador e atual vereador de São Paulo Eduardo Suplicy (PT), vem ganhando impulso com o início da pandemia e a aprovação de um auxílio emergencial do Congresso. Defensores afirmam que um programa permanente seria uma resposta à crescente desigualdade social e também desvincularia o sistema de proteção social do Estado do trabalho tradicional, que enfrenta uma transição por causa das novas tecnologias. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já declarou publicamente que o Congresso deve agora discutir um programa permanente, enquanto o ministro da Economia, Paulo Guedes, fala em juntar o Bolsa Família com outros auxílios e criar o que chama de Renda Brasil.

Ainda não está claro o desenho desse possível novo programa social nem que faixas de renda contemplaria, mas especialistas apontam que deve ser mais abrangente que o atual Bolsa Família sem ser completamente universal. “A discussão é se o Bolsa Família se revelou insuficiente, e na pandemia vimos que temos um grupo muito maior que é vulnerável. Maricá já estava abrangendo esse público, que estava inscrito no Cadastro Único e que não recebia o Bolsa Família”, explica Fabio Waltenberg, professor de economia da UFF, que estuda a experiência de Maricá. “A lógica na cidade não é só amenizar a miséria, existe uma visão mais de longo prazo de aumentar investimentos em tudo”.

Vinculado também à Rede Brasileira de Renda Básica, principal grupo de pressão para que o Legislativo avance na discussão, Waltenberg afirma que a cidade fluminense mostrou como o cadastramento amplo da população “facilitou a reação do poder público em momento de pandemia”. Ele defende que, mesmo sem condição de tornar o benefício universal, toda a população esteja em cadastrada para receber o auxílio. “Com informação detalhada você consegue beneficiar diferentes grupos, como idosos, crianças, profissionais autônomos, de acordo com as necessidades. Na hora de fazer o auxílio emergencial, vimos a dificuldade do Governo Federal em encontrar trabalhadores informais que não estavam no Cadastro Único”.

Para o especialista, o modelo maricaense baseado na criação de uma moeda local pode ser replicado em outras cidades a um custo baixo. “Maricá é uma cidade dormitório, muitos que ali vivem trabalham em outras cidades do entorno. Se não fosse pela mumbuca, os recursos investidos pela Prefeitura escoariam para outros lugares”, explica. “Mesmo assim, existe um impacto indireto que beneficia outras cidades, porque as pessoas podem usar outras rendas em outros lugares. Além disso, o benefício da renda básica no comércio local também beneficia toda a cadeia produtiva”. Para José Carlos de Azevedo, que comanda a pasta de Economia Solidária do município, “o programa não tem nada de revolucionário, uma vez que ele beneficia o próprio capital, gerando renda e emprego no município”. Ele recorda que aliados políticos do PT diziam que transferir dinheiro de forma direta para a população era “politicagem”. E que mesmo os maricaenses não acreditavam que pudesse funcionar. “Só umas 40 pessoas se inscreveram quando ele foi criado. Conforme o programa foi crescendo, as pessoas foram acreditando”, recorda.

A manicure Rosemeire Santos, de 45 anos, é uma das pessoas que recebe a renda básica da Prefeitura desde o início do programa, com o qual complementa os 1.000 reais que recebe por mês no salão de beleza. Suas duas filhas e três netos também recebem o benefício. “Ajuda muito a comprar remédio, fralda, carne... Não tenho o que reclamar não”, afirma ela. “Um desse em todo o país seria ótimo! Acho um exemplo que deveria ser passado para outros lugares”.

A RBC é um dos eixos da estratégia dos últimos três mandatos petistas na Prefeitura, que começaram com Washington Quaquá (2009-2017), de criar uma “economia solidária” e fortalecer o estado de bem-estar em Maricá. No ano passado, o emprego com carteira assinada cresceu mais de 12,2%, enquanto que a média em todo o Estado do Rio foi de um aumento de apenas 0,51%. Já o PIB per capita, que era de 14.600 reais em 2010, saltou para 74.760 reais em 2017, segundo dados do IBGE. Isso foi possível em grande parte graças aos 4,8 bilhões de reais em royalties de petróleo recebidos nos últimos cinco anos e que representam mais de 70% de toda a receita municipal. O orçamento anual de Maricá passou de 2,5 bilhões de reais em 2019 para 3,2 bilhões em 2020, com aumento de investimento em educação, saúde e urbanismo.

No orçamento também estão incluídos serviços pouco comuns em outras partes. O principal deles é o sistema público de transporte gratuito. O passe livre nos ônibus urbanos entrou em vigor em dezembro de 2014, quando as primeiras rotas da Empresa Pública de Transportes (EPT) começaram a operar. As empresas privadas foram se retirando e passaram a operar apenas as linhas intermunicipais. “A locomoção entre os bairros melhorou muito. Ainda não chega em todo os lugares, mas é muito melhor que antes”, conta Ariel, 22 anos, estudante de História da Universidade Federal Fluminense. “Antes eu só andava de carro com minha mãe, mas as linhas de ônibus foram aumentando e passei a andar mais de ônibus na cidade”.

Por estudar fora dos limites da cidade, essa jovem recebe da prefeitura 300 reais mensais de Bilhete Único Universitário. O benefício, que vale para estudantes de qualquer faixa de renda, pode chegar até 376 reais e varia de acordo com a grade escolar. “Isso ajuda na permanência na universidade, muitos alunos não conseguiriam bancar esse valor”, explica Ariel. Ela conta ter colegas na UFF que precisam, por exemplo, vender bolo e sanduíche para pagar a passagem de ônibus. “São colegas que perdem noites estudando e trabalhando”.

A prefeitura tem um fundo soberano com royalties do petróleo e já conseguiu acumular 750 milhões de reais. O objetivo, explica Azevedo, é chegar aos dois bilhões e garantir que essas políticas sociais continuem futuramente. “Queremos chegar a uma renda universal, que todo morador tenha acesso independentemente de sua renda pessoal”, garante.

Felipe Betim, Maricá - 19 /07/2020, EL PAIS