quarta-feira, 30 de maio de 2012

Caravaggio

Caravaggio está no Brasil.

A partir de 15 de julho próximo a mostra "Caravaggio e seus seguidores" acontecerá em Belo Horizonte na Casa Fiat de Cultura. A seguir vai para São Paulo, no Masp, de 26 de julho a 30 de setembro. São seis obras do pintor e mais 14 quadros de pintores caravaggescos. Imperdível!

Nesta mostra estará o quadro São Jerônimo que escreve. Só por ele vale a visita.


São Jerônimo que escreve (1605-1606)

Em 1606 Caravaggio matou um jovem durante uma briga e foge de Roma com a cabeça a prêmio. A caveira no quadro São Jerônimo é um símbolo da morte. Segundo o curador italiano Giorgio Leone o crânio é uma espécie de espelhamento do rosto do santo que está inacabado. "Creio que ele não conseguiu terminar a face porque teve que fugir de Roma (1)".

O crânio volta a aparecer no quadro São Francisco em meditação.


São Francisco em meditação (1606)

São Francisco "feito já em fuga" (exílio) segura a caveira na mão, como se tivesse a consciência de seu fim, segundo Leone.

É desta fase A morte da virgem. Novamente a preocupação com a morte.


A morte da virgem (1605-1606)

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) nasceu em Milão em 28 de setembro de 1571 e morreu em Porto Ercole em 18 de julho de 1610. Normalmente é identificado como um pintor barroco. O século XVII é século do barroco nas artes. A arte dos seiscentos.

"Sua vida foi marcada pelos mais variados acontecimentos, seja na esfera pessoal seja na publica, sua ligação para com a igreja não o impedia de adentrar no submundo existente na realidade presente em suas obras, os ladrões, mendigos e prostitutas presentes em seus quadros não são somente oriundos de sua imaginação fundada na realidade que o mesmo observa o artista italiano além de observar esta realidade como artística ele a viveu como homem (2)"

Para o pintor a presença divina se faz através dos humildes e dos necessitados. O realismo tem presença marcante em sua obra. A morte está presente em Caravaggio não como algo distante e sim como algo real. Foi assim em sua vida.

Medusa Murtola (1597)

O enfrentamento da realidade traz em seus quadros não heróis, trazem vítimas. É por essas e outras que Caravaggio transcende ao barroco.

O barroco é o estilo internacional do século XVII. A arte barroca está ligada à contra-reforma, um período histórico em que a igreja católica estimulou nas artes a volta dos símbolos religiosos. Do ponto de vista cultural é o início da liquidação da herança renascentista baseada nos princípios da tolerância.

Se o espaço é estático na renascença, no barroco é fragmentado. Se a luz é uniforme e equilibrada na renascença, no barroco caracteriza-se pela tensão e contração. No barroco tem a presença do movimento, da mobilidade. Caravaggio tinha a luz a serviço do drama e visava chocar e comover. Ele estava interessado a dramatizar o sagrado.

Conversão de São Paulo (1600)

As ideias barrocas têm suas marcas não apenas nas artes plásticas. Estão presentes na literatura, na música, na arquitetura etc.

Padre Antônio Vieira e sua eloquência é barroco. Cervantes idem. Lope de Vega e Macbeth de Shakespeare são barrocos.

Na música a polifônia de Bach e Haendel é barroca. A ópera é um gênero barroco por excelência.

Almodovar namora o barroco. Ana Costa analisa o filme Fale com ela: "No filme, a narrativa almodovariana é barroca: corpos em sofrimento, formas que se transmutam e se superpõem. A arte barroca tem a propriedade de transformar o padecimento em gozo, onde entra a apresentação da paixão. A paixão almodovariana se desdobra no drama, esticando até seu limite de suportabilidade (3)".
 

São João Batista jovem (1600)

Outro que namora o neobarroco: Glauber Rocha. "Quando consideramos "barrocos" os filmes e os textos de Glauber, e também as obras de diversos autores contemporâneos, isso não significa que já não se toma o barroco como um estilo artístico de determinada época, datado, fixo e morto" (4).

O filme Caravaggio de Derek Jarman (1986) retrata uma biografia do pintor com suas nuances conhecidas: a relação com a igreja, suas brigas, seu exílio, sua bissexualidade e seus métodos de trabalho.


Cena de Caravaggio, filme de Derek Jarman, 1986

Em algumas cenas deste filme há uma mistura de figurinos do século XX com os do século XVII, como na figura mostrada acima. Algo me diz que Jarman quis mostrar o Caravaggio atemporal. Caravaggio atual. A rebeldia, a insatisfação com a realidade em que vive e a manifesta tradução de sua personalidade em sua obra são as marcas desta grande personagem.

Caravaggio é punk!


 
Baco (1596)

Narcisuss, 1599



Pieta, 1499


Citações:

As reproduções dos quadros que estão neste texto estão disponíveis em http://www.caravaggio-foundation.org/

(1) http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,mostra-reune-obras-de-caravaggio-e-de-seus-discipulos,876259,0.htm 25/05/2012

(2) http://tribunasnalcova.wordpress.com/2009/09/07/caravaggio-e-o-barroco 25/05/2012

(3) Ana Costa, A arte de Almodovar, disponível em
http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/portugues/revista/leitura.asp?CodObra=116&CodRev=10 30/05/2012

(4) Jair Tadeu da Fonseca, Alegoria, barroco e neo barroco em Lezama Lima e Glauber Rocha. Disponível em http://www.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/58885_6799.PDF 30/05/2012

(5) Beyond Caravaggio page   14/02/2017


 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Meias


Ela tinha uma sensualidade especial, era reservada de um jeito que a fazia diferente das demais mulheres, e o segredo de sua atratividade era uma mistura de passividade e distinção. Parecia que escondia em seu interior uma misteriosa qualidade, que a fazia permanecer como alguém distanciada, sempre com seu tranquilo sorriso, inclusive quando se entregava ao desejo febril de seu esposo. Ele gostava daquele olhar distante, daqueles olhos claros que sorriam e da maneira tão peculiar de abandonar-se a si mesmo. (1)

Samantha é uma mulher singular. Vivia, com Arthur, um casamento de 20 anos. Em harmonia, sem muita surpresa. Ela considerava o marido um líder. Fazia o que ele pedia. Todo santo dia, antes de ir para o trabalho, Arthur pedia para Samantha colocar em seus pés as suas meias e depois o sapato. Quem fazia o prato de comida para ele no almoço? Samantha, claro. E sem misturar o arroz com o feijão!

Samantha, apesar das meias, tem boas lembranças de seu casamento. Ela nasceu em Indaiatuba, cidade do interior de São Paulo, de família tradicional. Estudou em colégio de freiras e teve a formação clássica de que mulher para ser mulher tem que ser uma boa esposa e uma boa mãe. Aos 21 anos casou-se com Arthur e desta relação apareceram dois filhos que foram criados em Campinas onde o casal passou a residir.

Samantha sempre foi do lar. Cuidava dos filhos, da casa e do marido com esmero e dedicação.

Boa cozinheira servia os seus com a competência de uma Roberta Sudbrack. Samantha tem um livro com recortes de receitas muito bem organizado. Arthur e filhos consideravam imbatíveis a torta de limão e o rosbife com nhoque ao sugo feitos por Samantha.

Nossa personagem é uma libertina na cama. E o Arthur? Às vezes era líder na cama. Às vezes não. Nestas horas ela não gostava. Ela gosta de homens com liderança agressiva. Ela esperava o prazer de Arthur. Quando isto não acontecia, o Arthur passivo, Samantha se frustrava.

É como escreveu Anais Nim em seus diários: A vontade dele, o prazer dele, o desejo dele, a vida dele, o trabalho dele, a sexualidade dele como medida, comando – como centro da minha órbita. Não me importa trabalhar, ter meu espaço intelectual como artista; mas como mulher, ah, Deus, como mulher eu quero ser dominada. Não me importa se me disserem que tenho de andar com minhas próprias pernas, ser independente – eu posso fazer isso – mas eu serei caçada, penetrada, possuída pela vontade de um homem na hora que ele quiser, ao seu comando.

Anais Nin foi uma mulher plural. Escritora viveu na primeira metade do século XX, uma vida agitada. Na época em que escreveu o que citei acima vivia (em Paris) numa dúvida entre três homens e uma mulher com os quais tinha uma intensa relação amorosa. Anais, além de uma intelectual incrível, foi uma libertária e uma libertina. Como o diabo gosta.

Numa época da vida Samantha como dona-de-casa teve uma decisão sui generis: se embrenhar pela literatura de Clarice Lispector. Até hoje seu livro de cabeceira é Perto do coração selvagem. Os dilemas de Clarice passaram a serem os de Samantha: a mulher, o casamento, o desassossego, o humano e outras questões sempre não lineares da autora. Mais tarde veio a conhecer Virgínia Wolf e Anais Nim.

Cá pra nós, ninguém passa impune por essas mulheres.

Recentemente Arthur teve problemas graves de saúde. Câncer no cérebro descoberto tardiamente. Faleceu seis meses após a descoberta da doença. Samantha sentiu muito a perda do marido. Afinal foi um casamento bem vivido de mais de vinte anos.

Para ela uma situação contraditória como se fosse uma mistura da dor de perder com a sensação de liberdade de deixar alguém partir (Elizabeth Bishop).

Passado o período de luto Samantha encontrou-se com uma amiga. E esta curiosa perguntou sobre como a amiga conviveu tanto tempo com Arthur na situação de submissão. Citou a estória das meias. Respondeu Samantha:

- Sabe o que é amiga, fazemos isso para que os homens pensem que mandam e que são superiores. E soltou um tímido sorriso maroto.

Epílogo

Cinco anos antes de Arthur morrer Samantha conheceu um homem. Passaram a se encontrar com frequência. Tornaram-se amantes. Sim, ela traia o marido.

Até hoje este homem tem sobre ela uma liderança amorosa e libidinosa. Ela continua com sua sensualidade especial misturando atratividade e distinção.

Mas calçar meias e fazer o prato no almoço para ele nunca mais.


Citação:

(1) Javier Moro, sobre Dona Leopoldina e Dom Pedro I em O Império é você, p. 96, Planeta, 2012.


NB: a ideia inicial deste texto veio da crônica Essas mulheres e suas histórias, de Joaquim Ferreira dos Santos em O Globo de 7 de novembro de 2011.

De Isabela Guerreiro: “O marido de uma amiga minha chega a pedir que ela lhe coloque as meias. Num dia, ela desabafou: ‘Se um dia fosses pra guerra, criatura, quem iria colocar as balas no teu revólver?’ Felizmente esse tipo de relação está cada vez mais raro hoje em dia, ou eu estou sendo ingênua?” Isabela, marido é gente folgada e assim continuará sendo, por definição e índole, até o fim dos tempos, cada vez mais próximo, dessa bizarrice que é o casamento. Conheço homem que não passa manteiga no pão porque considera isso uma prenda do lar e diz que o faz por respeito, por não querer invadir o espaço da patroa. Ô raça.

Essasmulheres-2 


 








 

domingo, 25 de março de 2012

Terra inacabada 2

Em 7 de novembro de 2011, escrevi neste blog um texto com o título "Terra inacabada". Era sobre a questão da Amazônia e as intervenções e interações com os humanos. Dentre outras coisas disse sobre o complexo hidrelétrico do rio Madeira.

Atualizando: numa reportagem da Folha de São Paulo de 25 de março de 2012 um relato do esperado.



Usina deixa moradores sem casa em Rondônia

FELIPE LUCHETE

ENVIADO ESPECIAL A PORTO VELHO

Às vésperas de acionar a primeira de 44 turbinas, a usina hidrelétrica de Santo Antônio, em Porto Velho (RO), enfrenta uma greve de 15 mil trabalhadores, a quarta paralisação em três anos e meio de construção.
Do lado de fora da obra, longe das discussões trabalhistas, um problema só revelado após a abertura das comportas da hidrelétrica, em 2011: 600 moradores deixaram suas casas às pressas diante da força das águas, entre dezembro e janeiro.

Desde então, famílias que viviam no mesmo bairro trocaram casas de madeira e alvenaria por quartos em nove pousadas da cidade. Reclamam do espaço e da proximidade do convívio.
O projeto ambiental da usina não previa impactos a esses moradores, por isso ainda não há definição sobre o futuro dessas famílias.
Vizinhas da usina, elas viram a força das águas do rio Madeira provocar deslizamentos nos terrenos. A Defesa Civil condenou a área -hoje um X vermelho indica que as casas erguidas entre o rio e a antiga ferrovia Madeira-Mamoré, vazias desde fevereiro, serão demolidas.

As casas, desertas, são fiscalizadas por vigilantes. Restam objetos, animais e rochas colocadas pela Santo Antônio Energia ao longo do barranco que começou a ceder.
Apenas outras comunidades tiveram a mudança planejada em documento entregue ao Ibama, que liberou a construção da obra.



ONDAS

Ex-moradores contaram que as ondas destruíram a área de uma hora para outra, com estrondos à noite. Era comum o nível do rio aumentar no verão, mas nunca naquelas proporções.

Em meio a um quilômetro de casas vazias, a Folha encontrou apenas um ex-morador: Francisco Batista de Souza, 56, construindo uma canoa nos fundos de um bar.

Ele vivia da venda delas fazia de três a quatro por mês, vendidas a R$ 1.500 cada uma.

Souza, 27 anos no bairro, trabalhava no quintal de casa, à sombra de uma árvore hoje engolida pelas águas. Na pousada em que vive agora com a mulher e duas filhas, não há espaço para canoas nem para o churrasco em família.

"Uma funcionária da usina chegou a falar para ir embora [da área de risco], mas tenho contas para pagar. Eles [a empresa] dão comida, bebida e dormida, mas onde vou trabalhar?", questiona.



PARALISAÇÃO

A obra de Santo Antônio foi paralisada nesta semana após trabalhadores decidirem cruzar os braços. A usina de Jirau, também construída no rio Madeira, enfrenta uma greve há quase 20 dias.

Os operários das duas usinas têm as mesmas reivindicações: reajuste salarial de 30%, aumento da cesta básica e mudanças no pagamento de horas extras e da jornada de trabalho, entre outros pontos. Ainda não houve acordo.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Metodologia científica

1. Introdução
As Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação Engenharia (Resolução CNE/CES 11), no que diz respeito à iniciação científica ou à metodologia científica, sugere as seguintes recomendações: (a) aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia; (b) projetar e conduzir experimentos e interpretar resultados; (c) conceber, projetar e analisar sistemas, produtos e processos; (d) identificar, formular e resolver problemas de engenharia; (e) desenvolver e/ou utilizar novas ferramentas e técnicas; (f) comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; (g) atuar em equipes multidisciplinares; (h) avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental; (i) avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia.
Estas recomendações dão a medida do que seria a formação em engenharia para além dos conteúdos programáticos necessários: o conhecimento-estrutura (o como fazer), isto é, o conhecimento construído que funciona como condição de assimilação de qualquer conteúdo (Becker). Faremos a seguir uma reflexão sobre o que seria uma metodologia científica contextualizada na formação em engenharia.
2. Uma crítica à metodologia cartesiana

Seria a metodologia científica um conjunto de diretrizes que orienta uma investigação científica? Seria, mas cabe aqui uma reflexão. Este conjunto de diretrizes por si só não garante os resultados desejados numa pesquisa. Para Mirian Limoeiro (Cardoso, 1976):
"Numa epistemologia cartesiana o método se reduz a um conjunto de regras que por si só garantem a obtenção dos resultados desejados. O investigador que as conheça bem e que consiga agir puramente de acordo com elas chegará certamente a bom termo no seu trabalho. Haverá, portanto, modos - uns corretos, outros não - de atingir o conhecimento científico. Nesse sentido ele se identifica como técnica, supostamente válida para a utilização nos mais diversos domínios da ciência, que é assim considerada unicamente nos seus aspectos substantivos. O pesquisador é aqui levado a adotar os padrões aceitos e estabelecidos do "método científico" sem uma discussão mais profunda dos critérios de cientificidade segundo os quais deva acatá-los e não a outros.

A metodologia não se restringe a uma técnica e muito menos tem o caráter de camisa de força. Ela está a serviço da pesquisa e não o inverso. As diretrizes que orientam o trabalho científico podem se adequar ao processo não impedindo a criatividade e a autonomia.
O filme Bola de fogo (Ball of fire), 1941, dirigido por Howard Hawks e escrito por Billy Wilder conta a estória de oito professores voltados exclusivamente para a elaboração de uma enciclopédia. Nenhum deles é casado, pois acredita-se que ter uma família é prejudicial ao andamento dos trabalhos. Beltram Potts (Gary Cooper), o mais novo, tem como função preparar a parte de literatura inglesa e pretende incluir em seu trabalho as mais variadas formas de gíria.
O filme critica a forma "erudita" e livresca de tratar o conhecimento. Numa parte do filme o Garbage Man - lixeiro (Jen Jenkins) entra no local de trabalho dos professores pedindo ajuda, pois ele queria participar de um concurso com prêmios numa rádio. A pergunta era sobre a morte de Cleópatra. De pronto veio a resposta: Cleópatra, rainha do Egito, filha de Ptolomeu XIII, nascida em 69 a.C. se matou em 29 de agosto de 30 a.C. pondo uma áspide no busto. Obviamente tiveram que explicar ao lixeiro que áspide é uma pequena cobra, pois ele não entendia o "inglês culto" dos professores.
Esta conversa deixou Potts encabulado. Entendeu muito pouco do que o Garbage Man falava. A partir daí tomou uma decisão.
- Pesquisar.
- Pesquisar o quê?
Responderam os colegas.
- Não ouviram o Garbage Man? Não entendi nada do que disse. Terminei meu artigo sobre gírias. 23 páginas tiradas de 12 livros de referência. 800 exemplos. E daí? São 800 exemplos que posso jogar no lixo. Está obsoleto.
- Vivendo aqui isolado, perdi contato com o mundo. Isso é imperdoável. Ele falou na língua viva. Eu embalsamei expressões mortas. Aonde vou? Coletar dados novos. Buscá-los nas fontes da gíria, nas principais fontes. Nas ruas, nos bairros pobres. Lamento ter perdido tempo... mas preciso fazer isso. De um colega de Potts: - Estou escrevendo sobre Saturno. Eu insisto em ir até Saturno?
A decisão de Potts foi de mudança metodológica durante a investigação. Mudou do método documental para a pesquisa de campo. E o professor de astronomia muda de método? Não. Inviável pesquisa de campo em Saturno. Continua com o método documental. No máximo atualiza os dados obtidos de observações astronômicas sobre Saturno.

3. O fazer diante de um problema novo: o planejamento da pesquisa
Existe construção de conhecimento quando perguntamos. E gerenciamos dúvidas. Sem pergunta não há conhecimento novo ou aprendizagem. O que, porque, como e quando fazer sintetiza nossas ações quando estamos enfrentando um problema novo. De outra forma podemos dizer que uma pesquisa tem objetivos, justificativas, metodologia e cronograma.
Escolhido o problema deve-se investigar o que existe no mundo sobre o tema. É o que denominamos de revisão ou estado da arte. Corresponde a um inventário do conhecimento sobre o que se pretende pesquisar. A partir desta revisão delimitamos nossas possíveis abordagens e conteúdos.
O passo seguinte será pensar o como enfrentar o problema. Quais metodologias são possíveis. Esta é uma fase delicada do processo. A escolha do como fazer. Será uma pesquisa apenas documental e normas técnicas? Terá desenvolvimento de software? Haverá simulações? E o desenvolvimento de protótipos em laboratório? Como será?
A fase final será o quando fazer. O cronograma a ser respeitado para o desenvolvimento do trabalho. É comum vincular as fases do cronograma aos passos da metodologia.
Laville e Dionne formulam o desenvolvimento do método científico baseado em quatro fases correlacionadas: (a) proposição e definição do problema; (b) elaboração de uma hipótese; (c) verificação da hipótese e (d) conclusão. Tem o enfoque nas ciências humanas, mas pode servir de orientação a outras áreas. A Figura 1, abaixo, apresenta um detalhamento destas fases em forma de mapa (cmap.ihmc.us).

Figura 1:Construção do saber na visão de Laville e Dionne
4. A normatização: forma e conteúdo
Terminado o planejamento da pesquisa passa-se à sua execução. Um procedimento importante nesta fase são os registros de tudo que se faz. Referências consultadas, procedimentos em laboratório, resultados preliminares em simulações e outros. O recomendável é fazer um diário de pesquisa. Isto ajuda a refletir sobre o trabalho e auxilia na confecção do relatório final.
Cabe aqui uma observação sobre a prática e a teoria. Junto do saber trabalhar com instrumentos de laboratório e dispositivos é importante o saber como organizar procedimentos e saber analisar os resultados coletados nas medidas. Experiência não é o que se fez, mas o que se faz com aquilo que se fez (Adous Huxley).
A redação do relatório final do trabalho é normatizada pela ABNT. A Biblioteca Central de UFES disponibiliza dois cadernos com orientações sobre o tema: Referências bibliográficas (NBR 6023-ABNT) e Trabalhos científicos e acadêmicos. A Tabela 1, abaixo, sintetiza uma estrutura de texto para o relatório final.
Durante a graduação e pós-graduação são realizados trabalhos científicos com especificidades inerentes ao nível de escolaridade. São eles: Iniciação Científica (IC), Projeto de Graduação (PG) ou Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), Monografia, Dissertação, Tese e Artigo Científico (Moretti). Todos têm um relatório ou texto final e dependendo da instituição podem ou não ter apresentação pública.
IC e PG são trabalhos de graduação que apresentam conhecimento novo, embora não necessariamente inédito. A monografia é um estudo científico de uma questão bem determinada e limitada, realizado com profundidade. É um estudo mais aprofundado que um trabalho de graduação. Uma dissertação de mestrado é condição exigida para obtenção do grau de "mestre". Possui uma originalidade e um aprofundamento maiores em se tratando das questões abordadas no trabalho científico, quando comparada com a monografia. Uma tese de mestrado ou doutorado refere-se ao estudo de uma hipótese formulada com originalidade e de real contribuição para a comunidade científica. Além de apresentar todas as características (enquanto pesquisa científica) presentes em uma monografia e em uma dissertação, uma tese de doutorado destaca-se quanto ao aspecto profundidade. Ou seja, o tema é investigado e delimitado com hipóteses mais específicas. O artigo científico se caracteriza por ser um trabalho científico sobre um tema específico.

FOLHA DE ROSTO (Inclui essencialmente título e subtítulo, autoria, data e local)
DEDICATÓRIA E AGRADECIMENTOS
APRESENTAÇÃO OU PREFÁCIO
LISTA DE GRÁFICOS, TABELAS, TELAS ETC
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
O problema, sua origem, sua importância
A pesquisa realizada
O que apresenta a seguir seu relatório
O PROBLEMA
Elaboração do problema, suas coordenadas pormenorizadas
Revisão da literatura e o que se sabe em relação ao problema
Hipótese (s): o que se pretende mostrar, demonstrar; o objetivo visado
METODOLOGIA E O DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO
A escolha do método
O desenvolvimento do trabalho.
A análise dos dados ou resultados
CONCLUSÃO OU CONSIDERAÇÕES FINAIS
Resumo da pesquisa
Principais conclusões, resultados ou considerações finais
Implicações e generalização eventual
Ampliação ou trabalhos futuros
REFERÊNCIAS OU BIBLIOGRAFIA
ANEXOS OU APÊNDICES
GLOSSÁRIO



Tabela 1: Estrutura de texto para o relatório final

O texto de um artigo deve ser sucinto e deve ter algumas qualidades tais como: linguagem correta e precisa, coerência na argumentação, clareza na exposição das idéias, objetividade, concisão e fidelidade às fontes citadas. O rigor científico segue as regras dos outros trabalhos, porém sua estrutura de apresentação textual é seqüencial, sem divisão em capítulos.

Observações pertinentes ao texto:
Inicie a redação do relatório pensando no título. Ele define o conteúdo do trabalho. A partir daí esboce um sumário preliminar que dará uma boa orientação para a estrutura do texto.

Qualquer idéia ou texto de outra autoria citado no relatório deve ser referenciado. Esta citação pode estar em rodapé de página ou no capítulo de REFERÊNCIAS.

As referências ou bibliografia podem ser ordenadas em ordem alfabética ou pela ordem que aparecer no texto. Endereço de site deve estar com a data da visita.

Tabelas, gráficos, figuras, telas e outros devem apresentar legendas explicativas. Caso sejam de outra autoria referenciar a origem nestas legendas.

5. O projeto em engenharia
O termo projeto, no sentido amplo, significa intenção, planejamento, organização do trabalho, propósito, objetivo, alvo. A origem deste termo remonta ao período quatrocentista italiano, no início do século XV, e tem sua expressão vinculada ao projeto arquitetônico.
Em engenharia, projeto, está associado a dimensionamento, modelagem, planejamento, normas técnicas e desenho. Dentre as competências solicitadas ao engenheiro na concepção e gestão de um projeto podemos citar: a avaliação técnica, a interpretação racional de uma situação, a representação dos obstáculos a serem superados, a concepção de soluções possíveis, as escolhas, as propostas, a defesa destas escolhas, a estimativa de custos e a verificação ou validação do projeto.
O exemplo clássico de um projeto em engenharia elétrica é o projeto de instalação
elétrica (predial ou industrial). Quem faz o projeto não o executa e este projeto técnico é orientado para a confecção de um objeto. O objeto principal do projeto é o dimensionamento e identificação dos componentes e fios a serem instalados. O
projetista pode supervisionar a sua execução, mas cabe a ele apenas dimensionar os componentes do sistema através de um modelo físico-matemático, acatando as normas técnicas que regulam as instalações elétricas. A execução do projeto, neste caso, está distante do ato de projetar. A ação é finalizada por um produto exterior. É diferente de um projeto de pesquisa que corresponde a uma atividade cujo fim termina em si mesmo.
A atividade de projetar é um processo dialético entre análise e síntese. O bom projetista sabe analisar, isto é, sabe como as partes se relacionam com o todo. E sabe como o todo responde a determinadas solicitações. No caso do projeto de instalação elétrica a síntese é o projeto final. É o resultado do dimensionamento e identificação dos componentes. A análise é o comportamento dos componentes e suas relações entre si. Este vai e vem da análise e da síntese é mediado pela simulação.
Com os avanços da computação e da telemática esta simulação tem um papel relevante no desenvolvimento de projetos em engenharia. No projeto de uma antena (projeto de dispositivo técnico), por exemplo, quem concebe pode executar. O diagnóstico, elaboração, operacionalização (execução) e análise (medidas) necessariamente passam por simulações repetidas vezes durante as fases do projeto até o resultado final. Neste caso a síntese está num relatório técnico onde são explicitados todo o processo de elaboração, testes e características da antena projetada (Cardoso, 2007).
O projeto de engenharia e o projeto de pesquisa são ancorados pela metodologia científica. Ambos têm um plano (pré-projeto), um desenvolvimento ou execução, uma finalização via relatório final e, caso necessário, a apresentação pública de seus resultados. Ambos, guardadas a idiossincrasias de cada um, respondem às perguntas do o que, do porque, do como e do quando fazer.
Edson Pereira Cardoso
Professor aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da UFES
Agosto de 2011.
Referências
BECKER, F., Um divisor de águas, Viver & Mente e Cérebro – Jean Piaget, Segmento-Duetto, 2005
CARDOSO, Mirian Limoeiro. O mito do método. Boletim Carioca de Geografia. Rio de
Janeiro, 1976, Ano XXV, pp. 61-100.

MORETTI, N., MANUAL DE METODOLOGIA CIENTÍFICA: como elaborar trabalhos acadêmicos, UNICA: União de Ensino Superior de Cafelândia, 2008.

CARDOSO, E.P., Projetos de aprendizagem mediados por ambientes virtuais no ensino de engenharia elétrica, Tese de Doutoramento, PPGEE, UFES, 2007. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/ 19/08/2011.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Internet e as controvérsias

Jaron Lanier: Por uma internet mais humana
http://g1.globo.com/platb/globo-news-milenio/2012/01/27/jaron-lanier-por-uma-internet-mais-humana/

por rodrigo.bodstein |


No Milênio de segunda-feira, 30/01/2012, às 23h30, Jorge Pontual entrevista Jaron Lanier, um dos críticos da Web 2.0 e defensor de uma internet aberta, mas não completamente gratuita.

"Precisamos de uma internet mais antropocêntrica, menos focada em algoritmos." A afirmação é de Jaron Lanier, precursor da realidade virtual e um dos críticos da Web 2.0. Ele quer não apenas a liberdade de trocar informação, mas a liberdade de pensar e de ser criativo em um modelo que, atualmente, anestesia, cada vez mais, os usuários, com a ilusão de acesso a um conteúdo ilimitado. Hoje, baixar filmes, discos, livros e encontrar pessoas, quase que instantaneamente, parece natural, mas nem sempre foi assim. Há pouco tempo atrás, até mesmo discos eram objetos raros e era preciso bons contatos e um certo grau de logística para conseguir o material em primeira mão. As mudanças no dinamismo dos fluxos e a estruturação da legislação dos direitos autorais aconteceu, gradualmente, a partir da década de 60.

Naquela época, o mundo estava em ebulição, com revoluções, golpes de Estado, ditaduras, guerras, feminismo, descolonização, bossa nova, rock n´roll e crises nucleares. O governo dos EUA, então, decidiu estabelecer um mecanismo para que a troca de informações cruciais não fosse afetada, caso um ponto da cadeia fosse destruído por um ataque inimigo. Surgiu a ARPANET. Não chegava perto da rede que temos hoje, mas definiu o princípio básico de dividir a informação em pacotes. Assim, os dados percorriam diferentes rotas e eram reagrupados na máquina de destino, compondo a mensagem original. Aos poucos, ganhou os contornos atuais. Em 1989, surgiu o hipertexto. Na década de 1990, os navegadores. Nos anos 2000, a rede saiu dos computadores e ganhou os celulares, televisores, tablets e outros aparelhos. A cada nova etapa, o nível de fluxos e trocas aumentava exponencialmente e, com o maior acesso à informação, surgiam novos desafios para a defesa da propriedade intelectual.

Mas, para entendermos um pouco da relação entre a internet e os direitos autorais, precisamos responder a uma questão: O que significa propriedade intelectual? Segundo as informações disponíveis no site da WIPO (World Intellectual Property Organization) podemos sistematizar, dividindo em dois troncos principais. O primeiro envolve a propriedade industrial, soluções para problemas técnicos. O segundo, os direitos autorais que protegem a forma de expressão das ideias e não as ideias em si. Um exemplo: podemos fazer um poema sobre a saudade, filmes, livros, etc, mas não podemos ter direitos sobre o sentimento "saudade". Nesse segundo tronco, é importante a distinção entre direitos econômicos e morais. A parte financeira, ligada a reprodução e comercialização, pode ser distribuída entre autores, produtores e difusores da obra, mas os direitos morais sobre o conteúdo permanecem com os autores. Em geral, duram até 70 anos depois da morte do autor. A proteção desses direitos começou na Convenção de Berna, em 1883, mas, apenas em 1967, a Organização Mundial de Propriedade Intelectual foi criada para sistematizar e controlar essas questões no âmbito internacional.

Internet, direitos, e, agora, o consumidor. Ele, que na década de 60, dependendo do que buscasse, precisava de amigos no exterior para conseguir discos e livros específicos, cerca de 50 anos depois, consegue tudo o que quer quase instantaneamente e, algumas coisas, baixa de graça. É uma mudança considerável. Podemos ver um show de qualquer parte do mundo, recortar e compartilhar o que queremos. A informação passsou a ser organizada e reorganizada em cada ponta da rede. Podemos dizer que o acesso tornou-se mais aberto, mas as empresas que baseiam sua renda no antigo sistema de royalties estão em crise. Como atingir um sistema que equilibre flexibilidade e dinamismo com o controle sobre a reprodução e comercialização dos produtos culturais? Até que ponto esse conflito afeta nossa sociedade?

É um debate que vem se intensificando nos últimos anos e, em janeiro de 2011, ganhou as manchetes do mundo com a tentativa de passar duas leis no Congresso dos Estados Unidos: SOPA (Stop Anti-Piracy Act) e PIPA (Protect IP Act). São esforços para bloquear o acesso a sites que comercializam conteúdo, como música, filmes e livros, de maneira ilegal. Duas posições ficaram claras. Por um lado, as grandes gravadoras e estúdios apoiaram os projetos de lei e, por outro, sites como Google, Facebook e Wikipedia, além de 10 milhões de americanos, se colocaram contra o maior controle. O Milênio de segunda-feira, dia 30/01, acrescenta mais uma posição para pensar o futuro do mundo virtual. Em entrevista a Jorge Pontual, Jaron Lanier, defende uma internet aberta, mas não completamente gratuita.

A questão levantada por Lanier é estrutural. O problema é que a rede, gradualmente, direciona e agrupa os usuários em blocos. As informações "sugeridas para o seu perfil" escondem uma variedade enorme de outras possibilidades e, ao categorizar por "gostos", tornam o usuário um produto bem definido para publicitários, por exemplo. Segundo ele, a estrutura atual cria uma "agência de espionagem privada" que desvirtua o propósito inicial de permitir que cada usuário possa trocar seus bits com outros, como em um grande mercado, e tudo seja acessível a uma taxa razoável. Esse fluxo permitiria que a criação individual fosse devidamente remunerada e estimularia o trabalho intelectual. De certo modo, muito além de direitos autorais, a necessidade de reformar o sistema é o que está nas entrelinhas de toda essa discussão.

É o momento de repensarmos a forma como estamos nos constituindo como sociedade e no efeito desses mecanismos virtuais que estão virando parte essencial da vida cotidiana. Cada dia que passa, estamos mais presos em um sistema que direciona o acesso a informação e promove uma identidade linear aos seus usuários. Segundo Jaron, "precisamos pensar contra as ferramentas disponíveis na internet para sermos livres". A liberdade é o eixo principal do debate, mas qual é a melhor maneira de exercê-la? Qual é o preço do acesso completamente gratuito? Como evitar a censura?

Mas há controvérsias.

Destaco aqui um comentário em resposta ao texto "Falsos ideais da intenet - Jaron Lanier" em

http://sergyovitro.blogspot.com/2012/01/falsos-ideais-da-internet-jaron-lanier.html 14/02/2012

Frederico, Jan 31, 2012 12:09 PM

Bom, como já conheço o Jaron Lanier pelo livro que ele escreveu, sei o quanto ele mistura algumas coisas. :-)

Pra começar, nesse texto ele polariza a discussão entre "conteúdo protegido por direitos autorais" e "redes sociais proprietárias". Quero acreditar que é apenas desconhecimento, mas um sujeito que tem um currículo como o dele deveria saber que existe mais coisa na Web do que gravadoras, Google e Facebook.

Existem alternativas de redes realmente livres, como a Friendica (
http://friendica.org), a Diaspora (https://diasp.org) e a identi.ca (http://identi.ca). Redes essas que respeitam a sua privacidade e não comercializam seus dados nem invadem a sua privacidade. Além disso, como elas são construídas com software livre, podem ser instaladas por qualquer um. Ou seja, as pessoas podem gerenciar suas próprias redes (eu mesmo mantenho uma aqui: http//social.teia.bio.br). Com isso, usando um exemplo do próprio autor, ele poderia criar uma rede social somente para discutir música, sem nenhum tipo de apropriação por parte de terceiros.

O tom do Jaron é curioso, pois ao mesmo tempo em que ele se autoproclama um defensor da liberdade de expressão, ele indica acreditar que o conteúdo da Internet deva ter algum tipo de controle. E a frase "Essa crença na informação "livre" bloqueia os futuros caminhos para a internet" (com a explicação seguinte de ganhos dos usuários) indica bem essa visão. Como é que alguém que defende a liberdade de expressão pode acreditar que informação livre bloqueie alguma coisa? É uma visão errada? Não necessariamente. Mas é bem contraditória, ao meu ver. E não é aquilo que eu acredito. :-)

Mas convenhamos. O sujeito trabalha no centro de pesquisa da Microsoft. Obviamente a visão dele é "monetarista", ou seja, a Internet é um lugar bom desde que ganhemos dinheiro com ela. Além do mais ele está nesse sentimento todo porque a empresa onde ele trabalha foi uma das que apoiou abertamente a SOPA e foi duramente criticada. Ora, quem acredita em "liberdade de expressão" deveria estar preparado para receber críticas. Afinal, quem diz o que quer, deve estar preparado para ouvir o que não quer. :-)



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Violência no Espirito Santo. Até quando?


Jornal ES HOJE
Vitória 15 de dezembro de 2011, nº 362 

Editorial

Espírito Santo vice-líder em violência

O Espírito Santo só perde para Alagoas no “quesito” maior taxa de homicídios. De acordo com o Mapa da Violência 2012, divulgado esta semana, pelo Instituto Sangari, o Estado possui 50,1 homicídios por 100 mil habitantes. Em Alagoas essa taxa é de 66,8 assassinatos por 100 mil. O Brasil,
em 30 anos, a taxa de homicídios passou de 11,7 em cada grupo de 100 mil habitantes em 1980 para 26,2 em 2010. Vitória é a terceira capital mais violenta, com 67,1 assassinatos por cada 100 mil habitantes.

Cinco municípios do Estado fazem parte da lista dos 50 mais violentos do país:

Serra (16º lugar / 99,9 homicídios por cada 100 mil habitantes); Cariacica (26º /

80,8); Pedro Canário (32º / 76,4); Linhares (36º / 74,2); e São Mateus (46º / 72,5).

O Estado teve uma queda de 8,2% no número de homicídios de janeiro a novembro
(1.557), comparado com o mesmo período de 2010 (1.696). Mas, essa
redução não pode ser comemorada, principalmente, porque diz respeito a vidas que continuam
sendo perdidas, todos os dias.

No primeiro ano do governo Casagrande, o programa “Estado Presente” tem sido uma tentativa brecar esses números que permanecem alarmantes, integrando a ação de várias secretarias. A falta de policiais é uma queixa recorrente da população. O interior do Espírito Santo deixou de ser um local pacato faz tempo. As notícias de prisão e o crescimento de tráfico de drogas são problemas que merecem atenção.

Enquanto isso, menos da metade das delegacias do interior têm plantão no final de semana. Linhares e São Mateus se destacam como pólos regionais, que recebem investimentos que nascem com a cadeia de petróleo e gás, que se fortalece a cada dia no Estado. O destaque na violência seria o preço pago pelo progresso que chega sem uma política pública para reduzir de forma mais eficaz, as desigualdades sociais?

E Pedro Canário, o que explica tanta violência? O Espírito Santo tem municípios
que atualmente convivem com o tráfico na porta das pequenas casas, casas
que antes não sabiam o que era uma grade ou um muro.

Outro dado muito grave é que, no Espírito Santo, a cada 100 mil mulheres, 9,4 são
vítimas de homicídio – colocando o Estado na desagradável 1ª colocação de assassinatos de mulheres. Alagoas aparece em segundo, com 8,3 e, em terceiro, o Paraná com 6,3. O tráfico de drogas, mais uma vez, é apontado como principal causa.

É claro que a situação não pode ser mudada “da noite para o dia”. Mas, o
capixaba quer e precisa de uma resposta mais rápida. A população precisa de
mais. Pode parecer piegas, de tão óbvio, mas violência se “cura” com educação,
investimentos em saúde e qualidade devida e dignidade para a população. E
punição rigorosa para os crimes. Justiça mais célere. Presídios que façam de presos
cidadãos recuperados – e não pessoas mais violentas, ainda.

O que falta: policiais, políticas públicas mais eficientes e uma ação mais
ostensiva contra a violência e o tráfico? Ou todas essas alternativas juntas? Falta
lembrar que outros Estados, com população muito maior que a do Espírito Santo
têm taxa de violência muito menor – como é o caso de São Paulo, que possui
9,8/100 mil. Logo, a extensão territorial e o contingente populacional não podem
ser usados para explicar os resultados. O que não se pode dizer é que esse furacão não mexe com o telhado de ninguém – ou com o telhado só de um. O próximo ano será de eleições. Mais que promessas, a população precisa de resultados.

É uma rua que precisa ser iluminada, construção de creches, unidades de
saúde. Enfim, uma série de ações que são atribuições da municipalidade. Mas, a segurança pública não pode ser pensada de forma isolada. Não é problema de um só prefeito, de vereadores, ou, somente do Estado. É problema de todos – inclusive, dos eleitores. O povo capixaba quer e precisa ver o Espírito Santo liderar boas expectativas e ganhar da violência – e não perder a vida.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Educação e telemática

As tecnologias advindas do computador e da telemática (internet) modificaram nossa visão do ensino aprendizagem a partir das últimas décadas do século XX. Aprendemos com sites de busca como Google e Wikipedia. Aprendemos com e-mail, MSN, Orkut, chat, Facebook, twitter, jogos e ambientes virtuais da aprendizagem. São ferramentas telemáticas que ajudam a educação formal e a educação não formal.  São ferramentas que complementam os recursos computacionais tais como edição de texto, tabelas, gráficos e recursos de simulação. E porque estes recursos da telemática ajudam na aprendizagem? Porque tem na interatividade a base de suas aplicacações.
Aprendemos quando agimos e quando interagimos com o objeto do conhecimento e com as pessoas.
Segundo Piaget, tanto na vida social quanto na vida individual o pensamento procede da ação e uma sociedade é essencialmente um sistema de atividades, cujas interações elementares consistem, no sentido próprio, em ações se modificando umas às outras, segundo certas leis de organização ou equilíbrio (Piaget, 1972).
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O galês Cameron Thompson tem 14 anos e está estudando Matemática Aplicada na Open University. Em depoimento à BBC, ele fala sobre as dificuldades que enfrenta por ser um adolescente superdotado. Aos 10 anos, ele participou de um concurso de matemática na internet. "Eu fiz 140 pontos em um teste com pontuação máxima de 140. Quebrei o sistema, acho que me saí bem", conta. Mas ser um gênio da matemática tornou-se a identidade completa de Cameron e participar da vida escol ar e fazer amigos acabaram sendo relegados ao segundo plano. "Tenho a sociabilidade de uma batata falante", ele admite. "A maioria das pessoas da minha idade me despreza. É assim há anos. Estou acostumado a ser ignorado". (Terra, 08/11/2011).
Cameron não interage com pessoas. Interage com os objetos do conhecimento. Em minha experiência, como docente, convivi com estudantes que tinham a sociabilidade de uma batata e tiveram desempenho excelente durante o curso. Em particular acompanhei a vida profissional de dois deles.  Quatro anos depois de formados estavam literalmente desajustados no mercado de trabalho.

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O paradigma de ensino baseado somente no modelo transmissão recepção de informações não é mais sustentável. Os novos modelos devem considerar o aprender a processar as informações em lugar de armazená-las, trabalhar na construção do conhecimento e não na sua simples reprodução.
A insistência nos métodos tradicionais faz com que a telemática, em geral, vire apenas uma nova mídia, que poderá ter o mesmo destino de outros artefatos já experimentados, como o projetor de slides, a televisão e o CD/DVD. Faz-se necessário aproveitar melhor seu potencial, modificando as formas de aprender, reforçando ainda mais o papel do aluno como agente de sua aprendizagem. Este potencial é, sem dúvida alguma, melhor entendido a partir da capacidade interativa das redes de computadores e suas possibilidades de fornecer respostas diferenciadas de acordo com os rumos das experiências individuais, além de aproximar e integrar os diferentes sujeitos. (Menezes, 2003)
As formas de uso destas tecnologias, apesar de diversificadas, se concentram em dois grandes grupos: ferramentas de apoio à interação com objetos do conhecimento (simulação, por exemplo) e as ferramentas de apoio à interação social, imprescindível para a construção do conhecimento individual e coletivo (fórum, e-mail, chat etc). Entende-se por interação social do ponto de vista educacional, as interações que um indivíduo realiza com os vários parceiros de uma comunidade de aprendizagem (professores, colegas de classes, colegas mais adiantados, monitores, colegas de projetos, pessoas da comunidade), que tenham por objetivo o esclarecimento e o exercício da crítica, atividades fundamentais na aprendizagem.
Das ferramentas de apoio à interação social podemos destacar aquelas que permitem o aprendizado assíncrono (fórum, p.ex.). Estas têm como base o princípio do aprender em qualquer lugar e a qualquer momento. As redes de aprendizagem assíncronas apresentam vantagens tais como: (i) educação remota sem a fixação de tempo e espaço e (ii) estímulo à integração e cooperação entre os alunos de um curso. O fórum dá oportunidade aos estudantes de discussões interativas sobre tópicos que serão desenvolvidos em classe, além de permitir o aprendizado cooperativo entre os próprios estudantes e eliminar redundâncias facilitando o trabalho do professor.
Hoje mesmo sem o uso muito difundido da telemática na educação, estudantes já se apropriaram de seus recursos em seu dia a dia.
Em pesquisa com estudantes de engenharia na UFES (Cardoso, 2007) tivemos alguns resultados relevantes como:
1.    Usam a internet (90%), em média, 17 horas semanais em casa ou 2,5 horas por dia. Todos têm computador em suas residências.
2.    Usam o computador e a internet, frequentemente, para resolução de problemas particulares, em comunicação social para além do curso e lazer.Usam sistematicamente o computador e internet como apoio às atividades de estudante.
3.    Quanto ao trabalho em grupo, a maioria optou por afirmar que as dificuldades
que os colegas encontram ajudam a refletir melhor sobre os problemas a resolver. Constantemente fazem contatos com colegas para resolver dúvidas, na forma presencial. Após o uso de um ambiente de aprendizagem houve um aumento dos que optaram por resolver dúvidas com colegas via internet. Estudantes aprendem mais entre si do que na relação com professores ou professoras.

Então porque não usar estes recursos, comuns entre os estudantes, no interior da prática pedagógica da escola? Uma resposta possível está na abordagem ensino aprendizagem utilizada.

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Já que a escola não dá bola para a telemática na aprendizagem os jovens dão. Está no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=ib3n8-CGRDk). Cinco jovens fizeram um cover de November rain do Guns n´Roses. Ferdinando Terada (guitarra), Breno Monteiro (piano), Fernando Campos (vocal), Laura Anderson (baixo) e Ian Koeller (bateria), cada um em lugares diferentes do mundo tocaram sua parte na música. Depois um deles fez a edição e a mixagem do vídeo e som. O título do vídeo: United Countries Cover Collaboration.
Como aprenderam? Interagindo.

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Ligo meu computador e já acesso a internet. Entro no endereço da minha universidade no mundo virtual. Uma tela se abre diante dos meus olhos. Identifico-me, utilizando minha webcam e minha senha de acesso. No mesmo instante, sou transportada para o ambiente tridimensional interativo em que estudo. Uma tela me pergunta qual será a identidade que irei utilizar. Escolho o nome, o sexo e a figura que irá me representar na tela, o meu avatar. Comando os seus ângulos de visão, suas emoções e a forma como vou fazer o controle de suas ações, por comando de voz, pelo mouse ou pelo teclado. Encarnada na figura que me representa no mundo virtual, passo pela avenida principal e subo as escadas para entrar no laboratório de projetos. Deixo para traz os sons dos carros e o barulho dos pássaros virtuais.
Dentro do ambiente, ouço as vozes das outras alunas que fazem parte de meu trabalho (Cinthya, do Canadá, Vichy, da França, Mayte, da Venezuela e Shizlan, da Finlândia) que me cumprimentam. Converso com elas sobre o que temos de fazer hoje. Logo chegam Lioness, o professor dinamarquês e Marita, a assistente espanhola. Convencionamos usar o inglês operacional da rede, já padronizado e com múltiplas formas de expressão (oral, escrita, gráfica etc.), para atender a todos da equipe, principalmente Vichy, que não escuta.
A nossa atividade nesse momento é terminar a construção do espaço virtual para apresentação de nossas pesquisas sobre educação e tecnologias.
(...) Antes que imaginem que tudo o que descrevi é ficção científica, é bom saber que experiências como essa e outras mais incríveis ainda ocorrem diariamente nos espaços educacionais existentes nos mundos virtuais. São aulas que podem ser realizadas na Lua, em Marte, em laboratórios de medicina, veterinária ou educação. Disciplinas em que os alunos exploram os ambientes do fundo do mar ou de regiões de difícil acesso, como um deserto ou o Everest. Tudo isso sem sair da frente da telinha do computador.
Centenas de universidades e colégios do mundo inteiro já possuem seus espaços de estudos virtuais tridimensionais. Não se trata de simples projetos de educação a distância, mas de novas concepções de educação, em que são utilizadas as mais atuais tecnologias digitais, para se aprender mais e melhor.


Este relato está no livro da professora da USP, Vani Moreira Kenski, Educação e tecnologias: o novo ritmo da informação, Papirus, 2007. Disponível em http://books.google.com.br/books

A prática pedagógica deve apontar para o uso apropriado das tecnologias que, sozinhas, não educam ninguém. Mudar a educação significa mudar a ação docente, mas a escola precisa mudar. As tecnologias podem auxiliar na reformulação da aprendizagem, mas não garantem a ruptura com a visão tradicional de ensino. As práticas pedagógicas baseadas no pensamento crítico e na construção cooperativa do conhecimento podem e devem acontecer com ou sem o uso das tecnologias (Kenski, 2000).


Referências
Kenski, V.M. Novas tecnologias, desafio para a escola, Jornal do Brasil. Caderno
Educação e trabalho. Rio de Janeiro, 12 nov 2000.
Menezes, C.S. et al, Formação de recursos humanos em telemática para
educação: uma experiência com educação a distância usando a internet.
Proceedings of the First Latin American Web Congress - IEEE, nov 2003. Santiago, Chile.
Piaget, J. Psicologia e pedagogia, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 1972.
Cardoso, E. P., Projetos de aprendizagem mediados por ambientes virtuais no ensino de Engenharia Elétrica, tese de doutoramento, PPGEE, UFES, 2007.

Texto apresentado durante a mesa redonda: "Inclusão Digital e Impactos da Tecnologia em Comunidades de Baixa Renda e Menor Poder Aquisitivo", organizada pelo PET (Programa de Educação Tutorial) Engenharia Elétrica. UFES, Auditório do CT I, 21 de novembro de 2011.

Edson Pereira Cardoso, novembro de 2011.