quarta-feira, 26 de março de 2025

A escala 6x1


 
O Observatório do estado social brasileiro  está produzindo uma pesquisa relevantíssima sobre a escala 6x1.
Os resultados preliminares foram apresentados na live do Manhã Brasil de 26/03/2025.
Estes resultados estão disponíveis num Ebook no site do Observatório do  estado social brasileiro (link acima).
 


A pesquisa contou com 3.027 participantes, residentes em 394 municípios, que responderam um questionário composto por 26 perguntas durante os dias 12 de dezembrode 2024 e 06 de março de 2025. Partimos, na construção do questionário básico de coleta, da noção de trabalho como atividade regular remunerada formal que vai além dos ambientes laborais. O trabalho informal não foi objeto da coleta de dados. O propósito foi caracterizar a dinâmica social laboral, assim como as condições de deslocamento e de habitação, além registrar intercorrências que influenciam na saúde dos trabalhadores e  trabalhadoras da escala 6X1. Por esse motivo consideramos fundamental a inserção de perguntas para dimensionar o gasto de tempo e as distancias nos deslocamentos diários para o trabalho. O núcleo metodológico respondeu pela conexão, no universo do trabalho, dos conceitos de tempo, de espaço e de cotidiano. Só a partir desse tripé conceitual é possível compreender a complexidade funcional e geográfica do mercado de trabalho brasileiro. Nossa ambição é, de algum modo, disponibilizar, para as trabalhadoras e os trabalhadores, ferramentas políticas para enfrentar a batalha pelo fim da perversa escala 6x1


Anexos do Ebook - resultados preliminares da pesquisa

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





 



segunda-feira, 24 de março de 2025

PSA: a radiografia de um câncer - parte 2

Em 28 de abril de 2017 foi publicado o texto PSA: a radiografia de um câncer  

Neste uma atualização da vida desta peleja.





Não se fala em cura do câncer, e sim de controle do câncer. O crescimento atual do PSA preocupa, mas ainda está abaixo do limite mínimo de 4. A próxima consulta e exames estão marcados para início de maio deste ano. Seja lá o que houver a peleja continua.







Dia mundial sem carne

Promoções em restaurantes e iniciativas veganas vão marcar a data.  Objetivo é oferecer alternativas mesmo aos onívoros e incentivar mudanças de comportamento

Por Maíra Rubim, O Globo,  15/03/2025

No Teva, em Ipanema, o Burger Amazonika sai pela metade do preço no dia 20 de março — Foto: Diculgação/Estúdio Ocre

Há 40 anos, em 20 de março é celebrado o Dia Mundial Sem Carne, uma data protesto que nasceu em 1985, nos Estados Unidos, para incentivar as pessoas a refletirem sobre o impacto do consumo de carne e os benefícios de uma alimentação à base de plantas, mais saudável e sustentável. A iniciativa foi da Farm Animal Rights Movement, uma organização sem fins lucrativos que desde 1976 defende os direitos dos animais e o veganismo. No Brasil, a efeméride é comemorada desde 2014, estimulada pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), cujos dados mostram que deixar de consumir produtos de origem animal por um dia gera a economia de 3.500 litros de água e de oito quilos de soja destinados à ração animal, preserva 22 metros quadrados de área plantada e evita que dez quilos de gases tóxicos sejam lançados na atmosfera. Ricardo Laurino, vice-presidente da SVB, avalia a importância da data e de campanhas semelhantes, como a Segunda Sem Carne: 

— Elas são como ferramentas de transformação pessoal que mostram que as pessoas podem se propor a tentar algo novo e que elas são capazes, além de poderem compartilhar do mesmo momento com outros indivíduos. É comum ouvirmos que alguém gostaria de parar de comer carne, mas que tem uma sensação de impotência porque é um hábito muitas vezes familiar e enraizado na sociedade. A data se torna uma chance para a pessoa refletir.

Nos restaurantes do chef Daniel Biron, todos os dias são sem carne, mas no dia 20, para celebrar a data, clientes têm 50 % de desconto. No Teva, em Ipanema, o Burger Amazonika, feito com fibra de caju e servido com rúcula, tomate, cebola caramelizada e aioli rosé defumado no pão sem glúten, sairá por R$ 29. Já no Teva Deli, em Copacabana, o prato escolhido foi o de almôndegas com baião de dois, que de R$ 68 será oferecido por R$ 34. Os ingredientes são almôndegas de fibra de caju Amazonika Mundi, molho chimichuri, baião de dois, mozarela Basi.co maçaricada, molho vinagrete e coentro.

Esperança Eco. O sanduíche caprese é uma das opções da casa de Laranjeiras, que dará mimos para os clientes no próximo dia 20 — Foto: Divulgação/Santigo Harte

No Esperança Eco, em Laranjeiras, a chef Verônica Monteiro adianta que exclusivamente no Dia Mundial Sem Carne todos os pratos serão veganos, e os clientes terão mimos: 

— No horário de almoço, vamos oferecer um espresso e um bombom vegano com recheio de caramelo missô da Choko. No jantar, para mesas acima de quatro pessoas, daremos de entrada uma pastinha de tomate seco com tofu e ciabata bolinha do Levain Carioca.

Em Botafogo, o Paixão Vegan terá degustações ao longo do dia e desconto de 10% nos salgados. No mesmo bairro, o almoço executivo do Vegan Vegan terá um prato especial, a moqueca de palmito com alga nori acompanhada de arroz integral biodinâmico, farofa de grão-de-bico e salada verde. Uma dica da chef Thina Izidoro é pedir como entrada o tofu praiano, uma releitura do queijo coalho.

No Miam Miam, a chef Roberta Ciasca vai preparar um menu degustação especial vegetariano em cinco etapas (R$ 180 ou R$260, harmonizado com três taças de vinho, por pessoa). De entradas, o salpicão de verduras com molho de iogurte e crocante de sementes; e a clássica berinjela tonkatsu com palitos de berinjela, picles de vegetais com curry e molho oriental. Como principais, o rigatoni à la vodca com espinafre e stracciatella; e o homus com trigo em grão, tomate, cebola assada e castanha do Pará. A banoffee com mascarpone e biscoito de especiarias é para fechar a experiência vegetariana na antiga casa da Góis Monteiro.

Miam Miam. A berinjela tonkatsu é uma das opções do menu degustação — Foto: Divulgação/Joca Vidal

— Não sou vegana e nem vegetariana, mas gosto muito dessa culinária, é bem saborosa. Acho que a data é importante para as pessoas repensarem a sua alimentação e também experimentarem novos sabores e lugares. É muito bacana que os restaurantes façam promoções e outras ações; isso acaba atraindo um público diverso. Eu com certeza vou aproveitar — diz a professora de inglês Camila Braga, moradora de Copacabana.

No Zazá Bistrô Tropical, em Ipanema, quem pedir o prato de a berinjela com missô e melado, humus tahine, sorbet vegano de tahine negro e demi glace de shitake (R$ 69), vai ganhar uma dupla de gyoza Amazonika Mundi com fibra de caju temperada com tucupi preto e pimenta indígena assisi com sweet and chilli.

— Percebo vários motivos para um dia da semana sem carne: uma compensada nos abusos do final de semana e uma cooperada com a saúde do coração e a do planeta — diz a sócia Zazá Piereck .

Na quinta-feira, o prato Vegetariano Amir, do Amir Restaurante, em Copacabana, que serve duas pessoas e vem com babaganouch ou homus, salada fatouch, berinjela frita, falafel, folha de uva vegetariana, arroz com lentilha e cebola frita, estará com 20% de desconto. Custará R$ 64,80.

No Zazá Bistrô Tropical, quem pedir a berinjela no dia 20 vai ganhar uma dupla de gyoza de carne de fibra de caju — Foto: Divulgação/Gabriela Temer

A Casa da Cachaça, no Sheraton Grand Rio, vai oferecer 20% de desconto na Moqueca de Banana-da-Terra, com palmito e arroz de coco (R$ 86). Para quem gosta de novidade, há um mês foi inaugurada no Shopping Leblon a sorveteria italiana Mare Mare Gelateria, que tem opções 100% veganas, como frutti di bosco, maracujá, manga, limone siciliano e cacau. Já a Momo Gelato acaba fechar uma parceria com a Naveia e lançou o Stracciatella Naveia, o gelato de leite de aveia com mesclas de chocolate.

No Bro Art & Burguer, em Botafogo, quem pedir o hambúrguer Romântico do Futuro, com carne vegano defumada do Futuro, maionese de alho, queijo, barbecue artesanal e cebola crispy (R$ 40,90), leva de presente uma batata frita.

As pizzarias que se destacaram no ano passado no prêmio 50 Top Pizza Latin America não ficam de fora na oferta sem carne. A Ferro e Farinha tem duas opções veganas: Adobo Sister (couve marinada em shoyu e gengibre, molho de tomate, curry de coco e capim-limão e azeite de tomates marinados) e Say My Name (molho de tomate, fruta da estação, queijo de castanha de caju, curry de coco e capim-limão).

A Officina Local, que acaba de ser considerada a 12ª melhor pizza do mundo pela Time Out, tem a Umbria com ingredientes de produtores locais (mozzarella fior di latte, ricota, cogumelos paris, vinho branco, creme de alho negro, parmesão, chimichurri e tomilho).

Entre as opçõpes da Bráz estão a Di Parma Vegana (molho de tomate italiano, mozarela vegetal, prosciutto vegetal e rúcula temperada) e 50 Top (molho de tomate italiano, manjericão e cinco queijos especiais: fior di latte Bonfiore, Catupiry, Cuesta Azul Pardinho, ricota Búfala Almeida Prado e Tulha Fazenda Atalaia)

Vegan Vegan. Moqueca de palmito e alga do menu executivo de almoço — Foto: Divulgação

Eventos para veganos, simpatizantes e curiosos

O relatório “What’s cooking”, de 2023, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), adverte que o uso da terra e a mudança em seu uso são os fatores mais importantes da perda da biodiversidade terrestre e que 77% das terras agrícolas são usadas para o setor pecuário. Também diz que 60% das emissões de gases de efeito estufa estão relacionadas a produtos de origem animal.

Por sua vez, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCC) destaca que o setor pecuário consome aproximadamente um terço de toda a água doce do planeta, que a produção de ração para gado é responsável por mais de 40% do uso total de água na agricultura e que a pecuária gera 14% de todas as emissões de carbono — uma quantidade semelhante à gerada por todos os meios de transporte.

—É necessário trabalhar a conscientização para a construção de uma sociedade em que as pessoas façam escolhas conectadas com a realidade em que vivemos; precisamos mudar nossos hábitos. As carnes e os produtos de origem animal são os que mais causam impactos ambientais. Tudo isso se conecta com a necessidade de uma sociedade mais consciente — afirma Ricardo Laurino, da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB).

Piquenique vegano. O próximo encontro da Vespah será no dia 30 de março no jardim do Museu da República — Foto: Divulgação/Vespah

Na organização Veganismo e Sustentabilidade Pelos Animais e Humanos (Vespah), o Dia Mundial Sem Carne vai ser debatido no Clube do Livro, que são encontros mensais para debater o veganismo e trocar indicações de títulos sobre o tema. A Vespah (@vespahvegan) nasceu em 2020 por iniciativa do professor de literatura e morador do Flamengo Felipe Fernandes Ribeiro.

— Qualquer movimento que se faça em prol dos animais e dos humanos é válida. Os animais sofrem diariamente, e qualquer ação que possa abrandar esse sofrimento é importante. Seguimos nesse sentido, de não só divulgar o veganismo, mas cessar as formas de exploração, crueldade e injustiça. Para isso, todos precisam estar unidos. Vamos ter um CNPJ para nos transformarmos em ONG. Por enquanto, nossa estrutura é via WhatsApp e redes sociais. Nosso objetivo é erradicar a exploração humana e animal em sua integralidade e proteger o meio ambiente — explica Ribeiro.

Neste sábado (15), mais de mil pessoas participam da Vespah, e são diversas as ações promovidas para veganos, simpatizantes e curiosos. No dia 30, das 11h às 17h, será realizado um piquenique no Museu da República, no Catete. Mas não para por aí: tem o clube do livro; torcida para o Laguna, o primeiro clube de futebol vegano do Brasil, no Rio Grande do Norte; e ações sociais.

— A Torcida Libertária do Laguna nasceu no Rio e já se expandiu para São Paulo e Minas Gerais. Comentamos as partidas em um canal no YouTube e às vezes nos reunimos pelo Discord (plataforma on-line) para assistir aos jogos e torcer. Queremos organizar uma carreata saindo do Sudeste em direção ao Rio Grande do Norte — diz.

Veggientinhas. Os voluntários durante a produção das marmitas veganas — Foto: Divulgação/Vespah

O espaço para pais e responsáveis discutirem infância e veganismo é com a Criação Vegana, projeto que terá início no próximo semestre. Em breve será anunciada a data do churrasco vegano e do próximo mutirão de doação de sangue no Hemorio. Ao longo do ano são promovidas campanhas em prol dos animais, e uma vez por mês é feita uma distribuição de quentinhas veganas para pessoas em situação de rua em parceria com o Veggientinhas, um projeto de Pedro Andrade e Lucas Vidal.

— Os voluntários se reúnem na casa do Lucas, no Flamengo, para o processo de cozimento e preparação. A distribuição é feita na Tijuca. Isso acontece uma vez por mês, e quem quiser pode participar, assim como de todas as ações — detalha.

Para conhecer um pouco mais desse universo, um evento recomendado é a VegBorá, uma feira vegana que reúne gastronomia, cosméticos, artesanato e moda. Tudo sem ingredientes ou matérias-primas de origem animal. A próxima edição será no dia 6 de abril, do meio-dia às 18h, na Rua das Palmeiras 35, em Botafogo. Além da feira, haverá exibição dos documentários “Muco” e “Santuário”. A entrada é gratuita, e o evento é pet friendly.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Dinho Ouro Preto, 60

A encruzilhada do eterno adolescente

A dualidade de Dinho Ouro Preto e do etarismo investigada numa dissertação de mestrado em Minas Gerais 

Fábio Corrêa, de Belo Horizonte | 13/03/2025

De uma hora para a outra, os modelitos de Dinho Ouro Preto viraram assunto na internet. Andrey Raychtock, jornalista, postou no X uma foto em que o vocalista do Capital Inicial aparece vestindo uma camisa roxa e brilhante de cetim, na gravação do disco ao vivo Acústico MTV, em 2000. “O que Dinho fez com essa camisa roxa Pelé não fez no Santos”, escreveu. “A camisa roxa é um charmeeee”, derreteu-se uma internauta, na caixa de comentários de Dinho no Instagram. “Irada, à la Mick Jagger”, disse outro. Achando graça, o cantor gravou um vídeo explicando que não está mais em posse da camisa. Mas pediu aos fãs que, caso tenham notícias do paradeiro de tão cintilante objeto, entrem em contato com sua equipe, para que ele possa voltar a vesti-lo.

Foi uma brincadeira, mas a verdade é que, se quisesse, Dinho poderia mesmo reincorporar a camisa ao guarda-roupa, já que, passados 25 anos daquele show, que resultou no disco mais bem-sucedido do Capital Inicial, o cantor mantém o mesmo peso (75 kg), as mesmas medidas corporais e o mesmo estilo roqueiro extravagante. Algumas coisas mudaram: largou o cigarro há dezoito anos e adotou uma rotina saudável, com idas diárias à academia e algumas meia-maratonas no currículo. No campo das aparências, contudo, Dinho não mudou quase nada. Preservou o visual normalmente associado aos adolescentes: o cabelo despenteado, o tênis de skatista, as camisetas justas, as pulseiras.


A jovialidade de Dinho, que em abril completará 61 anos de idade, é paradigmática. Assim pensa Otávio Zonatto, jornalista paulistano formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em fevereiro do ano passado, Zonatto apresentou em Belo Horizonte sua dissertação de mestrado pela UFMG, intitulada O adolescente mais velho do Brasil: investigações sobre as representações de Dinho Ouro Preto associadas à juventude. Foi aprovado com encômios e talvez dê prosseguimento à pesquisa numa tese de doutorado.

 

No trabalho, Zonatto escrutina a persona eternamente jovem do vocalista do Capital Inicial e os mitos e memes que dela derivam. Não é um elogio às brincadeiras. A dissertação defende que, por trás das piadas (que o próprio Dinho costuma levar na esportiva), há pitadas de etarismo – a discriminação por razões etárias. O cantor, na visão de Zonatto, sofre duplamente com o preconceito: é criticado quando exibe boa forma e hábitos joviais (o que alguns consideram inadequado para sua idade) e também quando mostra sinais de envelhecimento.


A dissertação foi gestada no Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade (Gris), que tem as celebridades como um dos focos de estudo. Em 2019, por exemplo, uma mestranda escreveu sobre a modelo e influencer Andressa Urach – mais especificamente, os valores morais abraçados por ela antes e depois de se converter evangélica. Uma outra dissertação tratou de Marcelo Rezende, jornalista que apresentava programas policiais e morreu em 2017.


Zonatto saiu em defesa de Dinho, em parte, porque é seu fã. Tornou-se um admirador da banda brasiliense graças justamente ao Acústico MTV – tinha 10 anos de idade quando o álbum e o DVD foram lançados. Nunca tinha estudado o assunto até que, uns anos atrás, decidiu que queria fazer um mestrado, aprofundando seus conhecimentos de bacharel em jornalismo. “Uma colega comentou que eu deveria estudar algo de que eu gostasse, senão ia pedir arrego. Logo, tinha que ter rock. E pensei, ‘bom, Capital é minha banda favorita’.”

 

Teve início, em seguida, o processo de elaboração científica. Dinho é o objeto, mas qual é a hipótese de trabalho? “Existe uma cobrança sobre o envelhecimento. Uma pessoa de idade pode parecer mais jovem? Como é isso para o homem, como é isso para a mulher?”, indaga o agora mestre em Comunicação Social, resumindo as questões que nortearam sua investigação. Para respondê-las, Zonatto assistiu a entrevistas de Dinho, escarafunchou letras de músicas em que o vocalista tratou da juventude (Natasha é o exemplo mais famoso) e analisou a reação do público a postagens feitas por ele nas redes sociais.


O ouro, academicamente falando, estava nessa última etapa. Uma única selfie publicada por Dinho em outubro de 2017 poderia render todo um tratado sobre etarismo. Na foto, o cantor revelou ao mundo seu novo visual: o cabelo estava maior do que o habitual, com fios ondulados caindo sobre a testa, e no nariz repousavam óculos de aro grosso. A mudança, embora sutil, foi recebida com provocações nas redes. Um usuário comentou que Dinho mais parecia uma “professora de matemática divorciada”. Vários outros o chamaram de “quarentona” (o músico tinha, na época, 53 anos). Eram os comentários mais curtidos.


Conforme Zonatto escreve na dissertação, as provocações eram uma mistura de etarismo e misoginia. “As respostas revelam preconceitos de ordens distintas desvalorizando as mulheres (alguns comentários se atêm apenas à observação de que ele está parecendo ‘uma mulher’, enquanto outros são ofensas diretas em resposta a mulheres), idosas, ou as professoras, como se fosse incompatível um cantor de sucesso se parecer com uma professora, profissão tão desvalorizada e associada a estereótipos (note-se: a associação é sempre a uma professora, no feminino, nunca a um professor).”

 

O novo visual não durou muito tempo. Dois meses depois da postagem, Dinho – que, sempre destemido em assuntos capilares, já chegou a fazer dreads – filmou a si mesmo cortando as mechas. “Chega! Não tenho mais saco para esse cabelo”, escreveu nas redes. Como trilha-sonora do vídeo, escolheu Turning into you, música da banda americana The Offspring que diz: I’ve been drowning in a sea/ Of trying to please you/ It’s all I’ll ever be/ It’s all I ever knew/ I try to be me, but I’m turning into you. A mensagem velada, em bom português, dizia basicamente: cansei de tentar agradar vocês.


Para Dinho, tudo não passa de uma patrulha incômoda. “Eu não consigo ver porque eu deveria mudar o meu comportamento, me tornar outra pessoa a essa altura do campeonato. Eu sou o que sou”, disse à piauí, numa conversa por videochamada em dezembro. O Capital Inicial, dotado da energia de um grupo adolescente, tinha acabado de concluir uma série de shows no Sul do Brasil, viajando de cidade em cidade de ônibus durante um mês. Agora, em março, inicia um turnê nacional em comemoração aos 25 anos do Acústico MTV, enquanto prepara um EP no formato unplugged e um novo álbum de inéditas (o último foi lançado no longínquo 2018). “É o que eu faço há mais de quarenta anos. Mas, quando piso no palco, me dá uma descarga de adrenalina muito forte. Até hoje. É isso que faz com que o show seja vigoroso e visceral”, prosseguiu. “Acho que isso contribui, em alguma medida, para a percepção que as pessoas têm de mim.”


Dinho – apelido que ameniza o garboso nome Fernando de Ouro Preto, escolhido por seus pais embaixadores – diz que às vezes é chamado de “senhor”. Costuma acontecer quando lida com prestadores de serviço, o que denota antes hierarquia do que idade. “É normalmente um motorista me levando para um show, e eu peço para me chamar de ‘você’. Duvido que ele saiba quantos anos eu tenho, mas me imagina como um chefe. É desnecessário. No nosso meio todo mundo se refere às pessoas pelo apelido, há uma informalidade muito grande.” O linguajar, conclui Dinho, ajuda a moldar a percepção sobre sua idade. “Por ser mais coloquial, usar gírias, acabo parecendo mais jovem do que sou.”


Parecer jovem é, no senso comum, coisa boa. Mas Zonatto aponta em sua dissertação que, num mundo permeado por filtros de imagem, cirurgias estéticas e constante interação online, pode ser também um fardo. Há críticos de prontidão para reclamar das celebridades que buscam, por meios artificiais, uma aparência jovem; ao mesmo tempo, o outro lado também está armado para criticar aqueles que abraçam a velhice, os cabelos brancos, a decadência natural do corpo. “Evidencia-se, nas críticas, a ideia de que Dinho estaria muito ‘velho’, em termos de idade cronológica, para interpretar esse personagem, não conseguindo ‘enganar’ todo mundo. Soma-se a isso a contradição que envolve um homem responsável, que tanto valoriza a saúde e a família, cantando uma juventude hedonista, como em Natasha, e rebelde, como em A vida é minha (Eu faço o que eu quiser), produzindo uma dupla fraude: não é novo como quer aparentar ser; não leva a vida que elogia em suas canções.”


Dinho não sabia da dissertação. Quando li para ele o título, soltou uma gargalhada. Mas o epíteto “adolescente mais velho do Brasil”, com que Zonatto nomeou a pesquisa, não era uma novidade: foi cunhado por um seguidor de Dinho no Facebook anos atrás e acabou colando. Quando completou cinquenta voltas em torno do Sol, em 2014, o vocalista deu uma entrevista ao Uol em que rebateu a piada. “E se eu gostar de trash cinematográfico, por exemplo, qual é o problema? Se gostar de ficção científica? Por que isso é uma coisa circunscrita à sua adolescência? Eu discordo.” O entrevistador, na ocasião, mencionou ainda outro apelido: “o Peter Pan do rock nacional.”


Quando conversamos, Dinho me mostrou métricas do Spotify segundo as quais somente 4% dos ouvintes de Capital Inicial têm 60 anos ou mais. O grosso do público se concentra nas faixas entre 35 e 44 anos (27%) e entre 28 e 34 anos (24%). Os jovens de 18 a 22 anos formam 7% dos ouvintes, e o restante se espreme entre os 45 e 59 anos. Uma audiência mais jovem do que poderia se supor, considerando que uma pessoa que tinha 18 anos quando o Capital Inicial lançou seu primeiro disco hoje beira a terceira idade. Ou talvez sejam apenas dados enviesados, já que o público do Spotify não é necessariamente uma amostra fiel da população.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que, em países desenvolvidos, idosa é a pessoa que já passou dos 65. Nos países em desenvolvimento, onde a expectativa de vida é menor, caso do Brasil, o sarrafo está nos 60. Há um projeto em tramitação na Câmara dos Deputados que propõe subir a marca para os 65, mas, por ora, segue valendo o Estatuto do Idoso, que segue os parâmetros da OMS. Juridicamente, portanto, Dinho Ouro Preto está no topo da pirâmide etária brasileira. Tem direito a atendimento prioritário em filas de banco e a assentos preferenciais no transporte público.


O cantor pondera, no entanto, que faz parte de uma nova terceira idade. Cita os exemplos de Mick Jagger (81) e Ney Matogrosso (83), ambos na ativa, liderando turnês. “Acho que várias coisas estão erradas no cálculo etário, inclusive o fim da adolescência”, diz Dinho, pai de duas jovens de 27 e 25 anos e um rapaz de 21. “Eu os vejo adolescentes até bem mais tarde. Aos 24 ou 25 anos não me parecem adultos. Acho que ainda têm muito a viver. O adolescente vê a coisa sempre muito amplificada, com uma intensidade muito grande, o que também é uma virtude, mas muitas vezes atrapalha.” 


O roqueiro fala por experiência própria. “Sou muito mais calmo do que eu era. Hoje entendo que os altos e baixos da vida são inerentes a qualquer existência.” Essa maturidade, ele diz, se reflete nos versos que compõe, cada vez mais reflexivos. Uma das músicas que está gravando no momento fala sobre a “máquina” dos algoritmos, que faz com que os extremos políticos se pareçam e as pessoas fiquem “cada vez mais iguais, como em uma fábrica”. Uma imagem recorrente no rock ao menos desde The Wall (1979), disco do Pink Floyd.


Dinho teve mesmo altos e baixos, numa trajetória típica de estrelas do rock. Estourou em 1986, com o disco homônimo do Capital Inicial, e deixou a banda em 1993. O grupo vivia, na época, “uma vida de excessos”, conforme diz sua página na Wikipédia. O cantor passou por uma fase destrutiva, regada a drogas, e só retornou ao Capital em 1998, marcando uma nova fase (a melhor) na história da banda. Estabilizou-se, casou com a arquiteta Maria Cattaneo e com ela teve os três filhos. Sofreu um susto enorme em 2009, quando caiu de um palco posicionado a 3 metros do chão em Patos de Minas. O impacto foi tão grande que Dinho teve uma parada cardiorrespiratória. Foi salvo por um bombeiro que estava na plateia. 


A queda resultou num traumatismo craniano e na fratura de costelas e vértebras, além de uma infecção generalizada contraída no hospital. Um mês antes, Dinho tinha se recuperado de uma gripe suína. Em 2016, contraiu dengue. Em 2020, tão logo a pandemia chegou ao Brasil, pegou Covid. Sentiu dificuldades para respirar e, uma vez curado, teve de fazer sessões de fonoaudiologia para recuperar a voz. A sequência de infortúnios, à qual se somam ainda duas contraturas na panturrilha, renderam a ele o apelido de highlander nas redes sociais. Mas a morte, afirma Dinho, não lhe aterroriza. “Acredito que nada morre de verdade. O que acontece é que os átomos que nos compõem voltam ao lugar de onde saíram: o cosmo. A longuíssimo prazo, claro. Quanto à nossa consciência, eu acho que ela se vai conosco.”


Nessa fase da vida, Dinho anda se interessando por desvendar o “início de tudo”. Embrenhou-se em livros que, a seu ver, ajudam a compreender a aventura humana na Terra. “Comecei por Homero. Li a Ilíada, depois a Odisseia. Fiquei fascinado de ver como algo tão remoto pode ser tão atual, sabe? Procurei livros até mais velhos. Fui parar no Épico de Gilgamés, o rei de Uruk, 2.800 anos antes de Cristo.” Na sua lista de próximas leituras está O cavalo, a roda e a linguagem, do antropólogo americano David W. Anthony.


Depois que conversamos, em dezembro, perguntei a Dinho se eu poderia passar seu contato para Zonatto. Ele assentiu, e os dois começaram a trocar mensagens. O cantor se mostrou interessado no trabalho acadêmico que lhe diz respeito e, gentilmente, convidou seu autor para o próximo show do Capital Inicial em Belo Horizonte, no dia 6 de abril. Zonatto combinou de entregar a Dinho, no camarim, a dissertação impressa. Está ansioso para conhecer o ídolo.


Fábio Corrêa

Jornalista e mestre em Antropologia pela Freie Universität Berlin. Escreveu a HQ "O Último Táxi" (independente).


terça-feira, 11 de março de 2025

A violência contra a mulher no Brasil

Visível e invisível:  a vitimização de mulheres no Brasil - 5ª edição - 2025,  Março de 2025


Introdução (p.6)

A  pesquisa “Visível e Invisível: Vitimização de Meninas e Mulheres” chega à sua quinta edição e traz dados inéditos sobre as distintas formas de violência contra meninas e mulheres brasileiras experienciadas nos últimos 12 meses. As respondentes são mulheres brasileiras de 16 anos ou mais. Em comparação com as pesquisas anteriores, todas as formas de violência apresentaram crescimento acentuado. E é fato que estamos diante de um crescimento que pode, sim, resultar na forma mais grave e definitiva de vitimização: o feminicídio.

Em 2015, mulheres de todo o Brasil foram às ruas para defender os poucos direitos sexuais e reprodutivos constitucionalmente assegurados às brasileiras. Tratava-se de um estopim. Uma miríade de pautas represadas com relação à desigualdade de gênero no país veio à tona e vivemos, desde a data, uma década marcada por debates sobre vitimização de meninas e mulheres em intensidade e frequência inéditas. Nunca se falou tanto de desigualdade de gênero no nosso país. Foi em 2015, inclusive, isto é, 10 anos atrás, que a então presidenta Dilma Roussef sancionou a Lei do Feminicídio (lei n. 13.104/2015), que incluiu no Código Penal, como figura qualificada de homicídio, o homicídio de mulheres motivado pela condição de gênero da vítima. E somente bem recentemente, via lei n. 14.994, de 09 de outubro de 2024, o feminicídio foi transformado em tipo penal autônomo, com caracterização própria, isto é, separado de outros tipos de homicídio. Essa é uma mudança que confere maior visibilidade ao fenômeno, tornando-o mais fácil de ser identificado e julgado de maneira específica. São indícios de que a luta pelo direito das mulheres acontece, mas é lenta.  

A primeira edição da pesquisa “Visível e Invisível: Vitimização de Meninas e Mulheres”, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017, captando a vitimização no ano anterior, se deu no bojo deste processo. Desde então, o Brasil vivenciou também uma série de turbulências políticas e econômicas que vários analistas têm chamado de retrocesso democrático1. Uma profunda recessão que culminaria no impeachment de Dilma Rousseff, nossa primeira presidenta mulher, em 2016. Pouco depois, a eleição de um político radical para a presidência afundaria qualquer possibilidade de diálogo ou polidez na política, naturalizando de vez baixarias e indecências como “ela não merecia ser estuprada”.

Neste período, vimos os dados referentes à violência contra meninas e mulheres no Brasil crescerem. E mais: a maioria das mulheres vítimas de violência grave nos últimos 12 meses afirma não ter feito nada diante da agressão sofrida. O padrão identificado pelas últimas quatro pesquisas de vitimização de meninas e mulheres brasileiras é percebido também nesta quinta edição: mulheres seguem sofrendo. E caladas. Além disso, a esmagadora maioria das mulheres afirma que sofreu agressões diante de testemunhas e ¼ afirma que sofreu agressão diante dos filhos. Estamos diante de um quadro crítico. 

O amplo debate que promove uma maior e melhor compreensão do fenômeno não o tem barrado. Nos cabe interpretar os dados coletados e procurar hipóteses que os justifiquem.  Buscamos, enfim, explorar as hipóteses que podem explicar o que os dados nos dizem. Em casos de violência contra meninas e mulheres, é notório, a subnotificação é regra. Portanto, a feliz proliferação de campanhas e iniciativas de conscientização e sensibilização encampadas por agentes públicos e privados faz com que meninas e mulheres identifiquem como violência comportamentos que antes eram considerados normais e esperados. Ainda mais do que tolerados, tais comportamentos eram premiados pela sociedade machista em que vivemos. 

Tal tomada de consciência necessariamente se traduz, no curto prazo, em um incremento relevante nos relatos sobre vitimização. Dados contam histórias. Os dados que seguem contam, em parte, uma história de sucesso, de campanhas bem-sucedidas ao levar à baila o tema da violência contra meninas e mulheres. Os números coletados, por exemplo, mostram que uma quantidade expressiva de meninas e mulheres afirma ter sido vítima de agressões verbais e insultos no último ano. Tais práticas violentas, muito provavelmente, não eram percebidas como violência antes deste esforço coletivo de tratar do tema insistentemente.

Há também o aumento de meninas e mulheres que relataram ser vítimas de violências como stalking, novas tipificações que antes não existiam e hoje não são apenas reconhecidas culturalmente como condutas violentas, são novos tipos penais. Mas acreditamos que estes feitos não explicam por completo os altos números que virão a seguir.

Outro fator que justifica os dados elevados aqui captados é o legado de quatro anos de desfinanciamento de políticas de prevenção e enfrentamento da violência contra meninas e mulheres por parte da administração Bolsonaro e de governadores e prefeitos alinhados com este governo.

Vale destacar ainda que o país foi atingido por uma pandemia em março de 2020 que resultaria na morte de 700 mil pessoas em apenas três anos, forçando milhões de brasileiros a mudarem seus hábitos e adotarem medidas de isolamento social. Neste processo, serviços de acolhimento foram descontinuados e o atendimento às mulheres em situação de violência doméstica tornou-se ainda mais desafiador. Na pesquisa realizada em 2021, que abarca o primeiro ano da pandemia, a prevalência de mulheres vítimas de violência caiu, seguindo a tendência dos registros policiais. Estariam as mulheres de fato mais seguras? Ou a convivência com o agressor na mesma residência teria deixado-as mais vulneráveis à violência doméstica? Os dados de feminicídios nos anos que se seguiram demonstraram que a segunda opção parece mais realista.

Os surveys aplicados nos anos de 2023 e 2025 sinalizaram essa tendência, mostrando uma escalada de formas agudas de violência contra meninas e mulheres. E os dados que serão apresentados ao longo deste relatório mostrarão que 37,5% das entrevistadas relataram ter vivenciado ao menos uma situação de violência no último ano, o equivalente a 21,4 milhões de mulheres com 16 anos ou mais. Esta é a maior prevalência de violência entre mulheres verificada ao longo dos oito anos da pesquisa.
 Mas o crescimento de diferentes tipos de violência, a opção por não procurar justiça e qualquer tipo de atribuição de responsabilidades ao agressor sugere que há algo a mais que sustenta os números elevados que a pesquisa revela. 

Uma das hipóteses nos parece digna de nota: todo avanço na luta por direitos incomoda aqueles interessados na manutenção do status quo. Desperta, via de regra, um efeito rebote. Um refugo que a literatura feminista chama de backlash [2]. 

Nenhum ganho passa impune e direitos jamais são dados, são sempre conquistados. O patriarcado se articula para reverter qualquer avanço. É o repuxo da onda de avanços nas agendas feministas recém conquistadas. Os artífices do rebote não têm pudor em se mostrar insatisfeitos com as demandas feministas. Se referem à defesa de direitos de meninas e mulheres com ironia, repetem a ideia-força de que mulheres estão mais seguras protegidas por homens do que vivendo a vida em igualdade de condições, decretam que a geração #MeToo apenas reclama, expõe e cancela – ao invés de produzir ganhos reais para brasileiras e brasileiros.

O rebote se faz presente quando nos deparamos com narrativas públicas que afirmam que homens têm sido excessivamente perseguidos e castigados, que a família brasileira ganharia com a restauração dos consensos que o feminismo faz tremer. Se apresenta também quando porta-vozes destas demandas propõem projetos de lei para criminalizar mulheres em casos de aborto, mesmo quando foram vítimas de estupro, tal como fez a Câmara dos Deputados com o PL 1.904/2024. 

Tragicamente, a vítima passa a ser ré. Em 1991, a feminista norte-americana Susan Faludi ganhou o prêmio Pulitzer com a obra “Backlash: The Undeclared War Against American Women”.  À época, Faludi identificava nos anos Reagan um grande movimento de retrocesso sustentado por duas premissas centrais: a) a ideia de que o feminismo teve conquistas reais e que mulheres e homens já seriam suficientemente iguais e que a desigualdade restante era positiva, não um dado negativo; e b) a noção de que o feminismo seria um exagero, algo desnecessário cujo resultado seria cruel para as relações íntimas, e desagregador no âmbito político. Tais premissas teriam sido, a princípio, articuladas por uma nova direita que surgiu sob a presidência de Reagan nos anos 1970 e se tornou mainstream nas décadas seguintes.

Contudo, Faludi é clara ao nos lembrar que tais mensagens são repercutidas também pelo que a autora chama de emissários da esquerda. Juntas, tais vozes antigênero se uniram para travar o movimento por direitos de meninas e mulheres e, de fato, conseguiu desmontar muitos dos ganhos que as feministas da chamada segunda onda lutaram para conquistar. Trata-se de um cenário que nos é familiar.

Outro ângulo do problema demanda reflexão: o efeito rebote sempre é vocalizado por artífices, em geral formadores de opinião e tomadores de decisão, que se encaixam no que a literatura norte-americana chama de strongmen and strongladies politics. Noutras palavras, trata-se da política capitaneada por homens-fortes e mulheres-fortes capazes de tudo e que articulam discursos truculentos e misóginos; com inclinações autoritárias; de DNA populista; e incansavelmente vocais contra todas as demandas relacionadas à igualdade de gênero. Grupos ultraconservadores elegeram, dentre outros temas, a igualdade de gênero como uma bandeira a ser combatida virulentamente. Para tais grupos, a mulher é um objeto que pertence ao homem. Pior: propriedade vitalícia.

Ambientes políticos como esse, é sabido, geram impacto negativo na vitimização de meninas e mulheres [3]. De acordo com a ONU, conflitos, instabilidade política, radicalização e contextos sociais definidos por um debate público acalorado e violento em que vozes antigênero sobem nos palanques e proferem absurdos sobre papeis de gênero exacerba padrões pré-existentes de violência de gênero [4]. Há na literatura referências robustas que demostram que a exposição à violência política, desde discursos de cunho autoritários e misóginos até a residência em territórios onde há conflito conflagrado, aumenta a ocorrência da violência contra meninas e mulheres perpetrada por parceiros ou ex-parceiros [5].

Trocando em miúdos, uma sociedade imersa na perversidade de discursos misóginos proferidos reiteradamente por formadores de opinião e tomadores de decisão geram um caldo cultural que autoriza agressores a se comportarem como tais. Circunstâncias como estas se traduzem em maior risco para meninas e mulheres. O clássico slogan feminista “o pessoal é político” foi criado para denunciar que o que mulheres enfrentavam na intimidade de seus lares deveria deixar de ser considerado uma questão apolítica, de natureza pessoal, e passar a ser compreendido como fato social.
Os dados desta pesquisa sugerem uma interpretação adicional ao slogan clássico: ambientes políticos marcados pela violência e por lideranças que proclamam discursos violentos e misóginos continuadamente impactam a trajetória de meninas e mulheres e as colocam em situações de risco.

Os dados que seguem não surpreendem, mas preocupam. Esperamos que as informações que constam nesta pesquisa: a) informem a infraestrutura cívica brasileira, para que ela possa demandar do
Estado resultados melhores e um país mais seguro para meninas e mulheres, e b) funcionem com uma bússola para que o Estado desenvolva políticas eficientes baseadas em evidências que garantam vida, segurança e dignidade a milhões de brasileiras.  

Referências 

[1] AVRITZER, L.; KERCHE, F.; MARONA, M. (orgs.). Governo Bolsonaro: retro
cesso democrático e degradação política. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

[2] FALUDI, S. Backlash: The Undeclared War Against American Women. 1991.

[3] MCKIERNAN, J.; MCWILLIAMS, M. The Impact of Political Conflict on Domes
tic Violence in Northern Ireland. In: Morris, L.; Lyon, E.S. (eds) Gender Relations in
Public and Private. Explorations in Sociology. 1996.

GHOSH, S. (2022). The Scourge of Domestic Violence in India. In: The Palgrave
Handbook of Global Social Problems. 2022.

CLARK, C. J. et al. Association between exposure to political violence and intima
te-partner violence in the occupied Palestinian territory: a cross-sectional study.
Lancet, 2010.

[4] OHCHR AND WOMEN’S HUMAN RIGHTS AND GENDER EQUALITY REPORT.
Women’s human rights and gender-related concerns in situations of conflict and
instability. 2024.

[5] RINGDAL C. Conflict and domestic turmoil: A review of intimate partner vio
lence in conflict settings. In: Development Learning Lab Evidence Review. 2024.