domingo, 20 de fevereiro de 2022

O cinema e a propaganda na geopolítica

O cinema Chinês soou o clarim da guerra cultural

Renê Guedes

Com o colapso da União Soviética, os anos 90 prometiam um futuro promissor para os operadores políticos e militares do império. Foi uma época louca, de mudanças rápidas e brutais. O mundo parecia convergir para um ponto determinado, que aceitávamos sem maior reação. Aquilo que Fukuyama bradou como “O Fim da História” mudou a agenda política, social e econômica do mundo – em especial da esquerda ocidental.

O cinema industrial estadunidense, desobrigado das suas funções alienantes, desarmou – em partes – a mobilização de guerra criada na era Reagan. Não cabia mais rotular russos, em especial, como seres frios e desumanos. O Bêbado Yeltsin prostrava-se ante o ocidente, enquanto o império soviético ruía. Filmes estadunidenses do final dos anos 90 e começo dos 2000 apresentavam, então, russos quase infantis, tateando suas primeiras experiências capitalistas. Assistam o começo do filme “Náufrago (Cast Away)” – Ano 2000 | Dir.: Robert Zemeckis como exemplo acabado deste período.

O mundo geopolítico adormecera. A transição dos anos 90 para os 2000 prometia uma década de consumo e amenidades.

Mas tudo mudou com o 9/11. Passado o susto, os Estados Unidos se puseram em marcha. E seus grandes estúdios produziram, nos últimos 20 anos, uma infinidade de filmes comerciais, marcadamente oficiais, carregando nas tintas da nova ideologia americana, a “Guerra Contra o Terror”. Poucos filmes avaliaram criticamente este período. Com pouca resistência crítica de alguns realizadores e atores, Hollywood abraçou a militarização do seu cinema, sem muita precaução. Não, não esbarraram no pastiche patriótico de Rambos e Bradocks. Mas, ainda assim, o cinema estadunidense pôs-se em marcha.

Filmes como “Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down) – Ano 2001 | Dir.: Ridley Scott ou mesmo “Guerra ao terror (The Hurt Locker)” – Ano 2008 | Dir.: Kathryn Bigelow apresentaram as forças armadas como a reserva moral da nação. Discurso esse que se mostrou progressivamente perigoso, para o próprio sistema político estadunidense. Mas o desalento da ideologia americana vista através dos filmes é matéria para o outro texto.

O longo preâmbulo finalmente encontra o seu objetivo: lembrar o leitor da capacidade política e ideológica do cinema. E não precisamos nos lembrar de Eisenstein ou Leni Riefenstahl para entender o papel do cinema – e das artes, como um todo – complexo jogo geopolítico, e como se movimenta a indústria cultural dos países protagonistas. Ficou famosa a expressão “Soft Power” criada pelo acadêmico de Harvard, Joseph Nye. O intelectual descreve, em seu livro “Soft Power: The Means to Success in World Politics (2004)”, a forma como a política se apropria dos meios culturais – da indústria cultural propriamente dita – para o atingimento dos seus interesses específicos. O fenômeno, obviamente, não é novo. Mas, devidamente “fichado” por Nye, ele ganhou, nos últimos anos, contornos e empregos cada vez mais sofisticados. Toda uma nova forma de operar a política – interna e externa – foi ressignificada com o emprego dos estímulos culturais e potencializada pelas redes sociais. A primavera árabe, os levantes populares – jovens, na sua maioria – em países como Brasil, Turquia, Ucrânia, Hong-Kong…todos eles, insuflados, mais ou menos, por tecnologias ardilosas e por um sofisticado aparato cultural, composto por documentários, filmes, músicas ou qualquer outro estimulante cognitivo. Um verdadeiro arsenal psíquico, capaz de definir o sabor do vento da história em várias regiões e sociedades.

Exemplos? No documentário “Capacetes Brancos ( The White Helmets)” – Ano: 2016 | Dir.: Orlando von Einsiedel, seus realizadores mostram o cotidiano do pelotão de resgate sírio nas áreas ocupadas pelas forças insurgentes e contrárias à Damasco. Bem…eles são treinados na Turquia, esbravejam contra os ataques da força aérea russa – que apoia Assad – e verbalizam discursos de liberdade, em meio ao bravo serviço de resgate das áreas afetadas. O Filme ganhou o Oscar de melhor documentário daquele ano. Numa determinada cena do documentário, a câmera capta uma aeronave Russa mergulhando para atacar seu alvo. Ao fundo, escutamos os locais esbravejaram: “Covardes”. O apelo civil contra o horror dos ataques aéreos nos comove desde Guernica. Nada é mais violento e covarde do que o emprego de sofisticado engenho para atacar imprecisamente um alvo civil. É a pura lógica do horror selvagem.
Os versados em semiótica, comunicação e psicologia de massas, da engenharia social, poderiam escrever páginas e páginas sobre esse tema. Não me compete e não cabe aqui.

Voltemos ao cinema.

Russos e Chineses (em especial os primeiros), alvos presentes de caracterização rasteira dos filmes de ação do ocidente, organizam-se. Usam do vigor do seu aparato audiovisual para disputar o campo das narrativas nos mercados audiovisuais globais. Os Russos já colocaram seu arsenal fílmico em marcha, produzindo especialmente filmes de guerra, que exortam o sacrifício do povo russo na guerra patriótica (1940-1945). Produzem em escala semelhante à soviética, ainda que a qualidade dos mesmos não seja uniforme. Existem, no entanto, bons filmes, que podemos tratar por aqui oportunamente.
Mas o texto quer discutir a resposta chinesa, no mesmo nível das caracterizações ocidentais, superlativa e barulhenta. A China, discreta no campo geopolítico, a grande beneficiária da lógica de produção pós-queda do muro de Berlim, sempre evitou o conflito. O seu cinema médio – dedicado para o público interno e externo – centrava-se em grandes épicos e dramas históricos. Destaco Zhang Yimou (Lanternas Vermelhas; Herói; O Clã das Adagas Voadoras; Shadows etc) como um autor símbolo deste cinema. Existe também um cinema mais urbano, moderno, voltado para a China atual. Crítico quando possível. Cineastas como Wang Xiaoshuai (Bicicletas de Pequim; Sonhos com Xangai; Até Logo, meu filho etc)

E dentro deste ambiente cultural que expande sua influência – o mercado audiovisual Chinês já é o maior do mundo, superando o estadunidense, arrecadando cifras próximas a US$ 3 bilhões – existe um entendimento cada vez maior da elite política chinesa sobre o potencial do cinema como peça importante na complexa engrenagem das disputas globais.
E ai chegamos ao filme “A Batalha do Lago Changjin” (2021), a maior bilheteria de 2021, com uma arrecadação próxima ao Bilhão de dólar. O Filme apresenta uma leitura – oficial – muito particular e enviesada da participação Chinesa na Guerra da Coreia (1950-1953).

Com um orçamento próximo a US$ 200 milhões de dólares, a superprodução chinesa contou com o apoio oficial do PC Chinês – logística, apoio técnico, investimento. O Lançamento do filme se deu em meio às festividades do aniversário de cem anos do PC Chinês, e vários oficiais políticos e militares compareceram ao lançamento.

E o lançamento do filme se dá num momento de aumento de fervura dos canais diplomáticos e por uma verdadeira disputa de xadrez nos Oceanos Indico e Pacífico, onde as armadas chinesas – que cresce e dá saltos operacionais que assustam os estrategistas ocidentais – e estadunidenses se estudam em intrincados e perigosos jogos e simulações de poder militar.
O filme, em si, não traz nada de novo. Na verdade, apoia-se em efeitos especiais em demasia, que tornam o filme, em alguns momentos, pra lá de artificial. Ainda que o valor de produção seja facilmente percebido, a muleta da digitalização afeta a entrega da obra, ao menos no seu realismo e brutalidade, típicos de um filme de guerra contemporâneo. O filme é realizado pelos conhecidos cineastas Chen Kaige, Tsui Hark e Dante Lam e estrelado pelo muito popular ator, Wu Jing.

O que chama atenção da obra é maneira caricata e panfletária como retrata os estadunidenses. As falas dos atores americanos soam artificiais, idem para as suas ações. O filme retrata os militares estadunidenses como arrogantes, apoiados pelo seu extraordinário aparato bélico. Em especial, seus aviões, que assumem uma forma quase monstruosa, dilacerando soldados chineses com fúria demoníaca. Poucas vezes os estadunidenses foram retratados de uma forma tão caricata. São retratados como vilões frios e arrogantes. E nós, aqui ao sul do Equador, não temos como esboçar um sorriso contido, como se estivéssemos assistindo uma travessura.

E aqui, entendemos o julgamento moral que o filme faz. A Tropa Chinesa, enviada por Mao para proteger a fronteira Chinesa – e o norte Coreano – de uma investida norte-americana, é a quintessência do soldado abnegado: pobre, orgulhoso, motivado e ciente da sua causa. As carências materiais dos soldados chineses são apresentadas com inconfesso orgulho. Soldados totais, que vencem qualquer obstáculo, quando tomados pelo senso patriótico. Numa cena, os chineses estão famintos e sob uma terrível tempestade de neve. Eles vão compartilhando suas poucas batatas. Sobe a trilha sonora que oferece um quadro sentimental e épico à cena. Corte para o acampamento americano, onde o soldados se empanturram de carne e cerveja.

Essa comparação de realidades reflete a moral da guerra moderna, onde o uso de aparatos tecnológicos para matar o inimigo, sem nenhuma chance de reação, e com poucos riscos, define a guerra assimétrica típica das últimas décadas. O filme não quer refletir densamente o tema, mas se utiliza, habilmente, dos códigos visuais aqui mencionados para estabelecer a superioridade moral do soldado chinês frente ao americano, crente na sua fé inabalável na guerra mecânica e asséptica.

Esse diálogo imagético, carregado de simbolismo, não é novo no cinema, obviamente. O roteiro, assinado por Jianxin Huang e Xiaolong Lan, é apoiado por quase todos os estereótipos dos filmes de guerra. Eles não estão interessados em questionar a racionalidade da Guerra, como Kubrick, ou a solidão existencial do soldado, como Fuller. Longe disso. O Filme é uma peça de propaganda política, envolta em ares de super produção, cheia de efeitos visuais e barulho entorpecente.

O Público chinês amou. Transformou o filme na maior bilheteria do cinema mundial 2021. Pouca importa a verossimilhança histórica.
O filme mostra, ao menos por hora, que o público médio chinês, não está interessado em críticas ao seu modelo político-econômico, ou aos personagens recentes da sua história. Por isso, a timidez de Hollywood para criticar a China. Nos anos 80, o encantamento com o modelo chinês , que contrastava com a depressão soviética, fez da China um lugar convidativo aos olhos e paladares ocidentais. Filmes como “O último Imperador”, de Bertolucci ou “O Império do Sol”, de Spielberg, retrataram a China em seus filmes como um lugar caótico e belo.

A ofensiva cultural chinesa foi posta em marcha. E a influência desse cinema de resposta e exaltação cresce na influência para além dos bastiões chineses no sul da Ásia.

Cada vez mais assistiremos a filmes assim. O Campo cultural também sentirá o peso da tensão geopolítica e, do seu modo, oferecerá respostas na mesma moeda, na longa batalha pela construção da narrativa que vai definir o curso do século XXI.

Publicado por Renê Guedes
Graduado em engenharia pela Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), pós-graduado em economia pela FEA-FIPE (USP), especialista em planejamento e execução estratégica pela Universidade de Grenoble e London Business School, cinéfilo por vocação e crítico de cinema. Vem ministrando aulas de Cultura Fílmica no Instituto de Cinema de São Paulo desde 2012, onde também atuou na organização e preparação de editais, além do envolvimento na produção de projetos audiovisuais e fundou o blog de crítica o “O beco do cinema”. Também estruturou cursos sobre cinema no SESC de São Paulo Ver todos os posts por Renê Guedes



TRABALHO REMOTO NA UFES

Caderno 2: Percepções sobre o Trabalho/Ensino Remoto e saúde na Pandemia
Adufes – S. Sind., Agosto / 2021

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Luiza Trajano

“Bem-estar começa com comida na mesa e casa para morar”

Por: Maria Rita Alonso, Fotografia: Petala Lopes, 01.02.2022

Num papo reto e sincerão, Luiza Helena Trajano, a empresária mais influente do Brasil, conta como mantém a saúde mental, revela seu segredo pra dar conta de tantos zaps e revela: “Tirei três anos sabáticos dos exercícios físicos, mas voltei porque sei que preciso”

Luiza Trajano sabe colocar suas ideias (em geral, muito boas) com precisão e transparência, mérito que lhe ajudou ser quem é: a principal voz do empresariado brasileiro, chegou ao posto de segunda mulher mais rica do país em 2019 (dona de um patrimônio estimado em R$ 23 bilhões) e em 2021 foi eleita como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista americana Time.

Presidente do Conselho Administrativo da rede varejista Magazine Luiza, a empresária se agigantou na pandemia, depois de um princípio de burnout, utilizando sua energia agregadora para se exercitar no campo político. Este mês, foi tema de uma reportagem extensa do jornal The New York Times, que a descreve como uma defensora implacável das vacinas, destacando a sua mobilização para pressionar o governo a agir rapidamente e imunizar a população.

Na mesa de seu escritório ficam montados dois ring ligths o tempo todo. Luiza é pop. Nos meses de isolamento, fez mais de 400 lives para seu canal do Youtube, debatendo assuntos de interesse nacional, entre eles o da importância da política de cotas para negros. Em 2020, destinou 100% das vagas do programa de formação de líderes da empresa para candidatos negros. “Aprendi muito cedo o que é empatia, trabalhei durante um longo tempo no balcão. Empatia é você trocar com o outro, no mundo do outro”, diz ela.

Membro fundadora do grupo Mulheres do Brasil, prepara-se agora para lançar a campanha “Pula pra 50”, uma ação que pretende estimular o crescimento do número de representantes mulheres na política nacional para 50% (hoje, ele gira em torno de 12%). Apesar de estar sempre querendo “aumentar a régua”, diz que leva a vida evitando criar expectativas e idealizações (“não queria que meus filhos achassem que eu era a melhor mãe do mundo e nem cobrava deles para que fossem os melhores filhos”). Também garante que mantém sua energia direcionada e concentrada no que está fazendo. “Sou de viver o presente”.

Burnout é uma palavra do momento. Você já teve?
Acho que tive um burnout quando estourou a pandemia. Fiquei meio paralisada nos primeiros dias, aquilo me pegou muito de surpresa, não conseguia entender o que estava se passando, coisa que não é normal para mim. E minha intuição ali, me dizendo que aquilo tudo seria muito sério e transformador. Foi um choque.

Como faz para se reequilibrar nesses momentos?
Busco o equilíbrio na minha vida sempre, mas claro que tem os momentos que fico perdida, confusa e desequilibrada. Quem me conhece sabe que eu posso me desestabilizar, mas tenho a capacidade de voltar ao eixo rápido. Para quem leva uma vida como a minha, de muita atividade, isso acontece, às vezes, né? Mas quando percebo que estou atingindo um estresse exacerbado, eu paro e descanso.

O bom é que sou do tipo que me recomponho logo. Tenho autocontrole, me conheço e consigo me desligar antes de ultrapassar o meu limite. Naturalmente, também tenho muita energia, durmo pouco, não tenho preguiça. Isso tudo ajuda a me manter equilibrada.

Dormir pouco faz bem para você? Quantas horas você dorme?
Durmo de 4 a 5 horas por dia, mas sempre foi assim, não é de agora. Isso me ajuda porque consigo usar bem o tempo para me dedicar às coisas que quero e que são importantes para mim. Meu tempo acordada é bem maior do que meu tempo dormindo.

“Se socialista é quem é a favor da igualdade social, sou socialista desde os 10 anos”

O que ajuda você a limpar a mente?
Eu me distraio fácil com as coisas, não sou só trabalho. Gosto de ler, de assistir filmes água com açúcar, por exemplo. É uma coisa que me ajuda a relaxar. Não sou de ver filme tenso, mesmo que seja muito bom, porque normalmente já tenho um dia muito tenso.

Ao longo de sua trajetória como empresária, você foi muito atingida pelo machismo? Descobriu formas de se blindar?
Sou de uma família em que as mulheres sempre trabalharam. Isso ajudou a me blindar porque sou muito feminina para administrar. Como não trafego no jeito masculino de ser, os homens não se sentem ameaçados. Sempre busquei a melhor forma de me expressar e me impor respeitosamente. Não me irrito, mas nunca deixo qualquer situação de reprodução do machismo passar batido. Nunca deixo barato, reajo e me coloco na hora.

Você é feminista?
Se ser feminista é ser a favor da igualdade entre homens e mulheres, sou sim. Mas temos que tomar cuidado com as palavras. Por exemplo, o termo socialismo. Um dia desses me definiram como uma “empresária socialista”. Olha, se socialista é quem é a favor da igualdade social, sou socialista desde os 10 anos. 

Fale mais sobre o seu lado socialista.       
Nesse sentido, sou completamente a favor das cotas, por exemplo, como um processo transitório para acertar desigualdades, tanto em relação aos negros, quanto às pessoas com deficiências, às mulheres. Essa é uma posição transitória. Se houve uma escravidão de quase 400 anos, com uma abolição que não existiu e que deixou marcas terríveis na nossa sociedade, é preciso oferecer oportunidades. Senão, não tem jeito. E muitos dos processos históricos do nosso país tornaram-se crenças limitantes, das quais temos que nos libertar.

Você tem flertado com a política e a política tem flertado com você nos últimos tempos. Isso lhe causa medo?
Medo não, mas sei que não quero entrar na política partidária porque acho que para isso é preciso ter uma vivência anterior nesse universo e aceitar negociar sempre, o que é normal nesse mundo. Só que, para mim, uma coisa é você precisar alinhar interesses, outra coisa é ter de negociar e ceder em algo que não gosta e não acredita. Por isso, minha atuação política segue muito na linha do trabalho de sociedade civil. Particularmente, sou uma política desde menina, por isso mesmo eu investi muito nesses últimos 8 anos no grupo Mulheres do Brasil. Todas as transformações do mundo vieram através de uma sociedade civil organizada, não existe uma pessoa que vai lá e salve a pátria sozinha.
“Não sou candidata, mas sou uma política”

Então, não pretende mesmo se candidatar a nada?
Isso é algo que eu tenho falado muito, não sou candidata, mas sou uma política. E acredito que vamos fazer diversas coisas ainda este ano e estar muito presentes, porque nós não somos A, B ou C, somos um projeto com um número grande de mulheres envolvidas, muitas de nós líderes no Brasil e no mundo. Então, o Mulheres do Brasil tem força para fazer propostas para o Governo, para o Senado e tudo mais.

Você é um exemplo para as executivas do Brasil. E sabemos que o país ainda tem poucas mulheres em presidências, diretorias e posições de comando. Sente que isso está mudando na velocidade que deveria? 

Não sei se é na velocidade que deveria. Sei que, pós-pandemia, houve dois lados, a mulher que ficou em casa vítima de violência, e essa realidade piorou bastante. E a mulher que ficou muito em evidência politicamente e também nas empresas. A pandemia acelerou a gestão mais orgânica que já vinha acontecendo. E todo mundo percebeu que a mulher está muito mais preparada para a gestão orgânica. O avanço das mulheres vem sendo conquistado gradativamente. Há oito anos, parecia que eu falava grego quando dizia “vamos fazer um grupo de mulheres”, era uma coisa muito distante. Hoje em dia, o grupo Mulheres do Brasil está com cento e tantas mil mulheres e é tudo mais fácil. O cenário é diferente, de quatro anos para cá, muita coisa mudou.

Quais são as ações do grupo Mulheres do Brasil para aumentar a representatividade feminina no Congresso ou termos mais CEOs mulheres liderando corporações?
Este ano, vamos adentrar mais firmemente na política para que possamos ganhar representatividade dentro das nossas premissas, que são liberdade, igualdade, democracia, educação e saúde para todos. O nosso grupo procura fazer uma campanha muito forte que chama Pula para 50 e busca ocupar 50% de cadeiras efetivas do Congresso Nacional com mulheres. E mesmo que tenhamos 30% em um primeiro momento, vamos aumentando a régua, já que hoje temos 12% de mulheres na política.

Pessoalmente, quais foram suas dificuldades para conseguir ser uma liderança empresarial, enquanto criava três filhos. Como foi essa fase para você? Teve culpa envolvida?
Minha mãe me ajudou a trabalhar essa culpa quando eu tive meu primeiro filho. Ela me dizia para não me preocupar porque não há modelo maternal perfeito. Não senti culpa porque dei o meu melhor na maternidade, assim como eu procuro fazer em todas as instâncias da minha vida. Também nunca busquei criar expectativas, não queria que meus filhos achassem que eu era a melhor mãe do mundo e nem cobrava deles para que fossem os melhores filhos. Não gosto de ficar alimentando expectativas, utopias. Filho é algo que você não tem controle. Não mandei meu filho trabalhar aqui na empresa, por exemplo, apesar de muita gente achar que isso aconteceu. Na verdade, ele só veio porque quis. 

Você também aplica essa não-expectativa às relações pessoais?
Busco não achar que uma relação vai ser a melhor coisa do mundo ou que a pessoa com quem estou me relacionando é infalível. Sou de viver o presente. Isso não quer dizer que eu seja racional no relacionamento, não sou nem um pingo. Mas acho que eu aprendi muito cedo o que é empatia, trabalhei durante um longo tempo no balcão. Empatia é você trocar com o outro, no mundo do outro. Por exemplo, quando você chegou, eu logo me coloquei no seu lugar, me arrumei para dar essa entrevista, me perguntei como você gostaria de ser tratada. Isso é muito automático para mim, pois fiz isso a vida toda. Então, quando você troca de verdade, as expectativas ficam em um lugar mais real e conseguimos estar realmente presente nas situações. Esse comportamento me ajuda a ter a energia concentrada e direcionada.

É a lógica de viver o momento presente. Você faz ioga, medita?
Não. Mas tenho muita preocupação com o lado emocional e criei meus filhos assim, nunca quis que eles fossem o primeiro da turma ou que estudassem nas principais escolas. O que eu queria é que tratassem as pessoas bem, que se comprometessem com seus afazeres e que estivessem presentes em suas relações. É isso, cuidar do lado emocional é muito sério e importante.

“Acredito que a saúde mental é mais importante que a física”

O respeito à saúde mental é um assunto urgente a ser debatido hoje nas escolas e nas empresas, concorda?
Acredito que a saúde mental é mais importante que a física. Tendo a primeira, a segunda pode ser mais facilmente adquirida. Aqui na nossa empresa, sempre tivemos a preocupação com o lado emocional, além disso, acreditamos que aumentar o nível de consciência dos funcionários, para uma melhora na saúde mental. Nos preocupamos com a mobilização das pessoas. E a Covid deixou uma lacuna emocional muito grande na vida de todo mundo. Sempre comento nas minhas palestras que ainda não dá para perceber o estrago que essa pandemia causou nas nossas vidas. Acho que ainda vai levar uns 80 anos até a gente entender o que aconteceu.

Em um país como o Brasil é complicado falar de bem-estar. Mas não falar é pior ainda, né? O que é bem-estar para o brasileiro hoje?
Depende. Bem-estar, hoje, para a maioria dos brasileiros é ter comida na mesa e uma casa para morar, tendo em vista que na pandemia essa situação piorou muito para a maioria das pessoas, sobretudo, no sertão. Nós temos um déficit de habitação de 20 milhões de moradia. Então, para mim, bem-estar é ter oportunidade de partida. Quer dizer, primeiro é necessário ter o básico e, a partir dai, o bem-estar diz respeito à alimentação saudável, fazer exercícios que gosta, cuidar da natureza e se sentir bem perto dela, etc.

Conte sobre uma coisa que você gosta muito de fazer por prazer. Tem algum hobby?
Gosto demais de tudo que é lazer aquático, lancha, jet-ski. Eu piloto, adoro estar na água.

“Tirei 3 anos sabáticos de exercício, mas voltei porque eu sei que preciso”

Existe algo que você fazia contrariada, mas que não faz mais?
A única coisa que eu faço contrariada é ginástica (risos). Não gosto de jeito nenhum. Fiquei 10 anos fazendo, depois tirei 3 anos sabáticos de exercício, mas voltei porque eu sei que preciso, pelo menos duas vezes por semana. Por mais que eu não goste, quando estou me exercitando, estou inteira lá. Se eu me disponho a estar, estou por completo. Porém, não é uma coisa que eu acordo e penso: Ai, que delícia!

Você se acha bonita? Isso é importante para você?
Como eu fui criada para o trabalho e a família não era vaidosa, tive que desenvolver na terapia esse meu lado. Ao longo da minha vida, precisei me esforçar muito para ser mais vaidosa e não me descuidar. Hoje, eu me acho ótima! Sou filha única, então tenho uma autoestima maravilhosa!

Como você lida com a moda hoje? Você gosta de comprar roupas?
Já gostei mais, já fui mais impulsiva para compras. Hoje, ganho muita coisa das próprias marcas, tanto roupa quanto sapato. Ganho coisas demais, é impressionante. Por isso, compro bem menos, apesar de gostar de uma coisa nova. Sou daquelas que compra uma coisa e já veste. Costumo falar para os mais jovens, para as minhas filhas: compre se puder, faça agora, goste de você.

Você tem 70 anos, viu a chegada da internet e das redes sociais. Essas mudanças foram um baque?
Não tive um baque, não. A vida toda tive uma atitude muito aberta para o novo, não sei o que foi, se foi minha criação… só sei que nada que é novo me baqueia muito, sabe? Claro, eu preciso me treinar para esse mundo novo. Então, eu me aprofundo, treino, eu mesma quero fazer para aprender. Com a chegada desse universo digital, vi que sabia pouco disso, assim fui estudar, comecei a entender melhor, aprender o que é bom e o que não é. Eu me adapto e entro rápido no novo.
“Só respondo WhatsApp se for urgente. E se eu não quiser ler a mensagem, nem leio.”

O WhatsApp tumultua a sua vida?
Não tenho esse compromisso de responder mensagens toda hora. Por exemplo, se estou aqui com você, eu estou inteira, não fico olhando meu whatsapp. Tenho um tempo para isso, só respondo se for urgente. E se eu não quiser ler a mensagem, nem leio.

Na pandemia, você criou um canal no Youtube. Como veio essa ideia?
Muita gente falava para eu criar o canal, porque fiz mais de 400 lives ao longo da pandemia. E a ideia inicial foi noticiar as coisas boas que também estavam acontecendo no Brasil no momento pandêmico. Fiquei sabendo de muitas histórias bonitas de superação, então quis mostrar esses cases, para as pessoas terem como exemplo, como um farol. E foi nesse momento que eu criei o “Eu Nunca Pensei que…”, essa série de entrevistas no Youtube.

Muita gente duvidou quando você disse, no início do ano passado, que até setembro de 2021 a maior parte da população brasileira estaria vacinada.
Realmente, não acreditavam nisso, achavam que eu estava doida de pensar em uma meta dessas de distribuição de vacinas para todos. Mas eu estava me movimentando dentro do grupo Unidos pela Vacina e já defendíamos a vacinação em massa no início de 2021 porque sabíamos que essa seria a melhor saída para o país. Fizemos grandes campanhas, investimentos e projetos em favor da democratização do acesso à saúde. Por exemplo, nós distribuímos 2 milhões de reais em produtos para o SUS em mais de 5 mil municípios. Ajudamos essas cidades a se equiparem para poder vacinar.


Essa mobilização entre o empresariado chegou a ser uma meta pessoal para você?
Minha meta pessoal era a de não me omitir, minha expectativa era de que eu não ficasse parada. Enquanto liderança, não queria ficar de braços cruzados durante uma pandemia. Queria poder agregar. E, hoje em dia, somos um dos países com a maior taxa de vacinação.

Recentemente, você disse que o SUS é o melhor sistema de saúde do mundo.
Agradeço e defendo muito o SUS. Em cada lugar desse Brasil, tem um trabalhador do SUS que faz de tudo para levar ajuda médica para alguém que precisa. É uma cultura que a gente não pode perder e que, até pouco tempo, vínhamos perdendo.

Qual a melhor coisa que a experiência traz?
Esses dias, achei legal o que uma pessoa falou para mim: “A dor de ensinar é maior do que a dor de aprender”. Profundo isso, né? É verdade que quando você está na fase do ensinar, você tem uma vida mais tranquila, porque você já viveu, então, sabe como são as coisas. Porém, você tem de ter paciência. Sou daquelas pessoas que deixa as outras viverem para aprender. Mas tem coisas que, diante da nossa experiência, sabemos que são desnecessárias, pois só atrapalham. Quando você está aprendendo, você vai lá faz, erra e acerta. Quando está ensinando, tem que dar o tempo para o outro, tem que esperar.

A experiência não alivia as dores?
Acho que alivia, sim. Em geral, a gente sofre menos. É igual filho: no primeiro a gente sofre bastante e no terceiro já está bem mais preparado. Assim é para quase tudo na vida.

Sergio Camargo

O homem de pedra

Documentário que estreia no É Tudo Verdade, em abril, novo livro e mostra no Rio em setembro marcam os 20 anos da morte do artista Sergio Camargo

SILAS MARTÍ, Folha de São Paulo, 19/03/2010

Não era como o das outras meninas o pai de Maria Camargo. "Eu o via sentado no ateliê, capaz de ficar horas e horas olhando para as árvores, um único ponto", lembra a filha do artista Sergio Camargo (1930 - 1990). "Aquilo era meu pai trabalhando." Só depois de grande, entendeu que ele enxergava em tudo, do tronco de uma árvore no quintal à mordida numa maçã, uma espécie de ordem secreta. Depois tentava eternizar essa ordem nos contornos do mármore branco que talhava.

Sergio Camargo, um dos maiores nomes da vertente construtiva no Brasil, morreu há 20 anos, quando a filha ainda era adolescente. Agora, roteirista de cinema, ela decidiu juntar os cacos dessa memória num curta-metragem que estreia no mês que vem, dentro do festival É Tudo Verdade, relembrando a vida desse artista que faria 80 anos em abril.


Na esteira do filme, um livro preparado por ela e pela artista Iole de Freitas sai no segundo semestre com os textos deixados pelo artista. Em setembro, o Paço Imperial, no Rio, recebe uma grande retrospectiva das obras de Sergio Camargo, que depois abre o calendário de 2011 do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. "Precisei pensar em quem era essa pessoa que era meu pai, quem era esse artista", diz Maria Camargo em entrevista à Folha. "Só o tempo é capaz de tornar nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras."

 

São dela as palavras que abrem o filme. Dizem que o escultor que ganhou fama na Documenta de Kassel e na Bienal de Veneza, que bateu a marca de US$ 1,6 milhão -maior valor absoluto já pago pela obra de um brasileiro- num leilão da Sotheby's de Nova York em novembro passado, gostava de tango, Pixinguinha, sorvete de abacaxi e Roberto Carlos. Também que ele odiava heavy metal, novelas e humor grosseiro.


Não é o Sergio Camargo da luz e da geometria empírica do mármore esse que está em "Se Meu Pai Fosse de Pedra". É o homem pai da cineasta, obcecado pelo trabalho, um tanto ausente, que deixava pistas dos pensamentos em guardanapos e anotações datilografadas.
"Tem poemas dos 15 anos de idade, você já vê neles um olhar para a geometria, a lua no céu, as circunferências", lembra Maria. "Ele tinha uma coisa febril em torno da obra dele, não ficava um dia sem trabalhar."

 
 Escultura na Praça da Sé, SP, Sérgio de Camargo

Coisas vãs fundamentais

Nem sem escrever. "Preciosas Coisas Vãs Fundamentais", o livro com os textos do artista, faz uma seleção das folhas que sua filha achou pelo ateliê. Numa delas, Camargo fala do "ceder da árvore ao vento", que "é natural, porém comove". Também se pergunta se suas construções não passam de "banais feitos de concretude airosa".

São devaneios arfados depois cortados pelo pé no chão, o peso da matéria, a "casa na paisagem" e a "paisagem na casa". "É o mesmo raciocínio do texto que estrutura as esculturas", diz Iole de Freitas, amiga de Camargo e uma das editoras do livro. "São escritos com uma poética própria do Sergio, com uma elegância, uma sensibilidade e ironia muito grandes."

Talvez por causa dessa mesma sensibilidade, Camargo era convidado o tempo todo por artistas mais jovens, como Lygia Clark, Mira Schendel e mesmo Iole de Freitas a visitar seus ateliês e opinar sobre os trabalhos ainda em construção.

 
SÉRGIO CAMARGO - ESCULTURA EM MADEIRA COM TOQUINHOS ,EM ALTO RELEVO

"Quando ia lá, dizia que queria ver as sobras, tinha muito mais interesse pelo esboço, as coisas que viriam a ser", lembra Freitas. "Percebia o âmago do processo, atitudes nascentes."
Esse mesmo pensamento estava nas próprias obras. Camargo trabalhava medidas exatas, aniquilava excessos, lapidava a escala. "Ele tinha um tino para o espaço que era uma coisa sensacional", lembra Raquel Arnaud, galerista que conheceu o artista nos anos 70 e hoje detém seu espólio. "Por isso, ele não tem obra com defeitos."

Foi Arnaud que fechou o ateliê do artista em Massa, na Itália, quando ele morreu. Tinha instruções dele para jogar fora tudo que fosse ruim, atitude que reflete até hoje no valor que suas obras atingiram. "Passamos vários dias lá, num frio louco, vendo obra por obra", lembra Arnaud. "Aí que a gente viu que ele tinha morrido."


Sérgio Camargo, biografia

Sergio Camargo explora formas, luzes e sombras em exposição em São Paulo 

Sobre Maria Camargo





sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A ideologia do Antropoceno

Helder Gomes, 18/02/2022

Helder Gomes, doutor em Política Social e mestre em Economia (UFES).

Desde que começaram as inundações e os deslizamentos, provocados pelas chuvas dos últimos meses, em várias partes do mundo, me incomodo com a frequência dos comentários acerca da ação humana sobre o meio ambiente. Digo, de antemão, que não integro nenhuma das várias alas de céticos/as do clima, muito ao contrário, tenho me preocupado muito com as mudanças climáticas que posso observar, mas, penso que temos que ter cuidado no uso da temática sobre o Antropoceno.

Usei o termo como descritor na Internet e cheguei a um artigo do doutor em Demografia, José Eustáquio Diniz Alves, publicado na revista EcoDebate, em 10/01/2020, a partir do qual pude perceber a gravidade da difusão da ideia de que “O egoísmo, a gula e a ganância humana provocam danos irreparáveis e um ecocídio generalizado, que pode se transformar em suicídio”.

Chamo a atenção neste breve texto para dois descuidos, ou artifícios, dependendo da origem, muito comuns no tratamento desse tema: o uso de análises baseadas no comportamento observável de um indivíduo egoísta e ganancioso isolado e/ou o uso de um ser humano genérico devastador por sua própria natureza. O que fica de lado nessas duas concepções, ou métodos de análise, tem sido exatamente o que é essencial, qual seja, que a devastação ecológica tem sido fruto da ganância capitalista, portanto, determinada historicamente num modo de produção predatório.

É interessante, inclusive, que o artigo citado acima mostra dados que motivam o autor a afirmar que “O Antropoceno é uma Era sincrônica à modernidade urbano-industrial”. Mas, mesmo assim, me parece que a análise que ele oferece não aponta o que é fundamental, ou seja, que não há saída, dentro da ordem do capital, para as ameaças apontadas no texto. Dito de outra forma, se houver alguma chance de reverter o colapso ambiental que o autor afirma ser iminente, certamente ela pressuporá a superação do capitalismo por uma forma superior de sociabilidade.

Identifico essa limitação na forma generalizante que Diniz Alves parece colher de Paul Crutzen (Prêmio Nobel de Química de 1995), o qual, na virada para o século XXI, afirmava que os indicadores sobre o efeito destrutivo das “atividades humanas sobre a natureza” o levavam à conclusão de que a terra estaria numa nova era geológica: o Antropoceno.

Qual o risco dessas generalizações acerca da “ação humana”? Dois trechos do texto de Diniz Alves podem ilustrar o meu argumento. De um lado, o autor afirma que “A solução mais simples e barata para evitar o aquecimento global seria o aumento da cobertura vegetal do mundo para funcionar como absorvedores de carbono” e, de outro, conclui que “não é despropositado supor que o Antropoceno – época da dominação antrópica – possa ser também o começo do fim da Era humana”.

Se ao contrário de tratar o fenômeno como “dominação antrópica”, o autor o concebesse como dominação capitalista, poderia refletir melhor sobre as motivações que efetivamente estão por trás da devastação ecológica, ao contrário de simplesmente denunciar “que os seres humanos estão destruindo 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é de somente 5 bilhões de unidades”.

A dominação capitalista possui um comando, cada vez mais centralizado e de caráter autoritário. Basta ver quantos são os/as convidados/as para o Fórum Econômico Mundial de Davos. Se existe um déficit de 10 bilhões de árvores por ano, este não pode ser atribuído nem ao egoísmo, nem à gula e muito menos à ganância de quem compõe o 99% dos aproximadamente 7,8 bilhões de seres humanos existentes no planeta hoje. Esse contingente não participa de qualquer decisão relevante e se apropria de uma mísera parcela dos resultados da lógica de acumulação de riquezas vigente.

Não se discute anualmente em Davos como os bravos e responsáveis proprietários e gerentes do capital acabarão com a fome que se alastra sem controle pelo mundo, portanto, o crescente número de famílias famintas não pode ser responsabilizado pelo desmatamento desenfreado que assola o planeta, em favor da expansão da produção de gado, de soja, de eucalipto, de minérios de todo tipo etc. etc.

É preciso compreender melhor o momento em que vivemos. Estamos numa era do desespero, em que a ganância capitalista encontra graves dificuldades de legitimação ante a crise econômica mundial, que se estende por mais de 5 décadas, exigindo a retomada, agora em larga escala, das marcas herdadas do antigo regime de acumulação violenta, aquele mesmo que vigorou no Antigo Regime Colonial. Ao contrário do que pregam as agências difusoras da propaganda em torno da Economia Verde, a ação efetiva do capital em crise sobre o meio ambiente está impondo a retomada da grilagem de terras, impondo a desregulação das normas de proteção ambiental e, também, de proteção social das comunidades tradicionais, continuamente expulsas das terras ancestrais, assim como das famílias segregadas nas favelas, ambas vítimas prioritárias do processo de genocídio em curso em várias partes do mundo.

Parece nítido que o papo aqui é uma questão de método, mas, não se trata apenas de propor uma forma alternativa de interpretar o mundo e, sim, de refletir sobre as condições objetivas de efetivamente transformá-lo, o que requer evitarmos as armadilhas que nos mantêm presos à mera contemplação.

 
O pensador, Auguste Rodin (1840-1917)

 

 

 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Licorice Pizza, o filme

‘Licorice Pizza’ é um dos melhores na briga pelo Oscar, e não só deste ano
É o único filme em língua inglesa que pode competir seriamente com Ataque dos Cães no Oscar.

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão, 17 de fevereiro de 2022

Paul Thomas Anderson possui 48 créditos como diretor no IMDb, a maioria por seus vídeos musicais com Fiona Apple, Jon Brion, Joanna Newson, Radiohead e Haim. Ainda nos anos 1990, ele começou a se destacar com Boogie Nights – Prazer Sem Limites e Magnólia. Em 2002, só a covardia do júri impediu que ele vencesse em Cannes – ou que, pelo menos, Adam Sandler fosse premiado como melhor ator – por Embriagado de Amor. Seguiram-se Sangue Negro e O Mestre, que não são tão bons e foram superestimados. A partir de Vício Inerente, livremente adaptado de Thomas Pynchon, PTA, como é chamado, retomou seu melhor nível. Trama Fantasma é maravilhoso. Licorice Pizza talvez seja melhor ainda. 

 
Cooper Hoffman e Alana Haim em 'Licorice Pizza'.  Foto: Metro Goldwyn Mayer Pictures Inc.

É o único filme em língua inglesa que pode competir seriamente com Ataque dos Cães no Oscar. Entre o filme de Jane Campion e o prêmio da Academia, estão PTA e o japonês Ryusuke Hamaguchi, de Drive My Car. De cara, Licorice Pizza já apresenta suas armas. Gary Valentine/Cooper Hoffman vê chegar a sexy Alana Haim – vocalista da banda nos clipes do diretor – e a convida para sair. Ela é mais velha do que ele. Gary passa o filme insistindo para terem uma relação, ela o desencoraja. Chega a se questionar: “Por que estou saindo com esse moleque de 15 anos?”. Passam o filme nesse vai não vai, até que algo, no desfecho, finalmente acontece.

PTA é atraído pela pornografia, sempre foi. Basta lembrar de Boogie Nights e de Embriagado de Amor. Toda a confusão em que Adam Sandler se mete é por ter ligado para um serviço de sexo por telefone. Gary vem do mundo do espetáculo. Monta um negócio de colchões d’água. Alana recebe os pedidos pelo telefone. Ele a incentiva a segurar o interesse do cara que está chamando. Alana geme, e suspira, como se estivesse na cama com o autor do pedido. Em Boogie Nights, os bastidores já eram do cinema (de sexo). Mark Wahlberg era o cara com uma genitália descomunal. Os bastidores dessa vez evocam Quentin Tarantino – Era Uma Vez em Hollywood.

 
Sean Penn, à esquerda, e Alana Haim em cena. Foto: Melinda Sue Gordon/Metro Goldwyn Mayer Pictures Inc.
 
Alana sai com Jack/William Holden, interpretado por Sean Penn. Ele vive falando de sua ligação com Grace Kelly no filme de guerra A Ponte de Toko-Ri, de Mark Robson, de 1954. Gary vai parar na casa de Jon Peters. Barbra Streisand vira personagem remota.

 Na realidade, nos anos 1970, ela namorou o tal Peters, que foi o produtor de Nasce Uma Estrela, que ela fez com Kris Kristofferson. Bradley Cooper é quem faz o papel, valendo lembrar que dirigiu – e interpretou – a versão mais recente de A Star Is Born, com Lady Gaga. O Peters da ficção não pode ver rabo de saia. O real sofreu cinco acusações de assédio.

Como um cara que ainda precisa amadurecer, Gary vive decepcionando Alana. Quando ela vai trabalhar com um jovem político de perfil idealista, ele usa informação privilegiada para tentar se beneficiar. Logo será a vez de Alana descobrir... Veja para saber do que se trata. O filme é dos melhores do Oscar e não só deste ano. Se o diretor já conhecia Alana dos clipes, Cooper Hoffman também faz parte da família. É filho de Philip Seymour Hoffman e ganhou o Oscar por Capote. Ainda resta um mistério. Que raios de título é Licorice Pizza? No Brasil, ganhou o acréscimo de O Parque dos Sonhos.

Diz a lenda que o termo surgiu numa comédia de Abbott e Costello, em que a dupla tenta vender discos de vinil. “Bem, podemos polvilhar amido de milho no fundo e vender os discos passando por pizzas de alcaçuz.” É uma explicação possível. No filme, o preço do petróleo dispara e o problema é que discos e colchões são feitos de seus derivados. Pode ser outra coisa – Licorice Pizza foi uma cadeia popular de lojas de discos na Califórnia, entre 1969 e 86, cobrindo os anos de infância, e juventude, de PTA, o período do filme.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

'Manifesto Comunista' está de novo na moda

Tragédia social do capitalismo leva jovens a se interessarem pela obra de 1848 de Marx e Engels

Karla Monteiro 21/12/2021

Outro dia li um artigo no britânico The Guardian  que dizia que o "Manifesto Comunista" está na moda —ou "is having a moment". No meu tempo, ninguém nem pronunciava a palavra comunismo —aliás, para demarcar os anos, só diz "no meu tempo" quem está dobrando ou já dobrou o cabo da Boa Esperança, como meu velho pai se referia à curva dos 50. A gente viu, ao vivo, a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e partir daí, sintonizou na MTV.

 
Mulher com máscara em frente a imagem de Karl Marx no metrô de Moscou, na Rússia - Kirill Kudryavtsev - 12.mar.21/Folhapress

Segundo o texto publicado no diário inglês, o revival é planetário. Os indícios da onda estariam por toda parte. Em Los Angeles, a cantora Grimes, ex-mulher do colonizador da lua, o bilionário Elon Musk, tuitou uma foto com o livro na mão. Na Somália, pela primeira vez, o famoso panfleto escrito por Karl Marx e Friedrich Engels no longínquo 1848 chegou às livrarias. E, na Inglaterra, a obra estrela vitrines das principais casas do ramo.

Para a geração politizada por Beavis and Butt-Head, a coisa toda anda meio embaralhada, diga-se de passagem. Ao mesmo tempo que temos que correr atrás do prejuízo, mergulhando no "Manifesto Comunista" para não soar a tia da galera, estamos bem confortáveis de printed mesh, calça baggy, pochete e tamancos plataforma. Saudades mesmo só da ovelhinha Dolly.

Entre os meus amigos comunistas, versados nos escritos de Marx e Engels, todos têm menos de 40 —ou menos de 35, eu arriscaria dizer. Aos 31, o historiador Jones Manoel, comuna como há muito não se via por estas bandas, lançou-se pré-candidato ao governo de Pernambuco pelo velho PCB. Os números que ele ostenta nas redes sociais comprovam o interesse pelo ideário que julgávamos morto: 183 mil seguidores no Youtube, 150 mil no Twitter e 145 mil no Instagram.

A propósito, se eu fundasse um partido, ia se chamar Partidão. Fica a dica, meninos: Partidão é irresistível.

Mas, voltando ao artigo do Guardian, a maré se explica pela tragédia social do nosso tempo. O capitalismo ganhara a guerra fria, porém, nunca entregou o que prometeu. Em vez de liberdade e bonança, fomos aprisionados num sistema perverso, sem saída, que nos transformou em pagadores de boleto.

Conforme o texto, um grande número de jovens está virando as costas ao capitalismo porque já entendeu que nunca vai poder, sequer, comprar uma casa própria, o sonho da minha geração. A concentração absurda de renda privilegia 1% em detrimento dos outros 99%. Qual o sentido de seguir estudando, trabalhando sem o horizonte da vida melhor? Se não existe futuro, então, para quê? Só para enriquecer os ricos?

Luta de classes

Na aurora de 2022, o "Manifesto Comunista" completa 174 anos. Fora publicado em janeiro de 1848, às vésperas da Revolução Francesa daquele ano, como plataforma da Liga dos Comunistas, a primeira organização internacional de operários. De acordo com Tariq Ali, que assina o prefácio da edição brasileira lançada pela Boitempo, trata-se do último grande documento do Iluminismo europeu e o primeiro a registrar um sistema de pensamento completamente novo: o materialismo histórico.

Divido em partes, escrito com rigor e fluência, fácil de ler, o "Manifesto" soou, para mim, extremamente atual e didático. Talvez não exista nenhum outro texto do século 19 que continue tão "up-to-date". Parágrafos inteiros explicam melhor o agora do que o tempo em que foram redigidos. Marx e Engels desenharam a evolução do capitalismo e suas consequências nefastas, inclusive prevendo o que hoje chamamos de globalização.

"Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo terrestre. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte. Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países."

Em meio às propostas, algumas estão aí, na pauta das esquerdas, sendo eternamente reivindicadas, como imposto fortemente progressivo, abolição do direito de herança, educação universal, reforma agrária. "Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista. Nela, os proletários nada têm a perder a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos."


O manifesto comunista