terça-feira, 24 de setembro de 2019

Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil


Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?

Para grupo de pesquisadores, nova literatura econômica recomenda o inverso, mais investimento público

Vivemos a mais longa crise econômica da nossa história e o ritmo de recuperação segue muito lento, apesar da enorme capacidade ociosa da nossa indústria, mantendo um alto nível de desemprego, incertezas sobre o futuro do país e um processo de empobrecimento de amplos setores da população.
Nesse ambiente de demanda reprimida, o governo deveria estar agindo como a experiência internacional nos ensinou após a grande crise de 2008/2009, oferecendo estímulos fiscais para que o país volte a crescer de forma consistente.

Contudo, nossas autoridades e muitos economistas ortodoxos parecem continuar reféns de um diagnóstico que dominou a narrativa política nos últimos quatro anos: a ideia de que o desequilíbrio fiscal é a raiz dos problemas econômicos e o excesso de gastos públicos é a sua causa.
Além de tal diagnóstico não ser confirmado pelos números, ele tem sido usado para defender uma política de ajuste fiscal, que reduziu o investimento público ao menor nível em 50 anos e não obteve sucesso em controlar o déficit público.

Apesar do evidente insucesso dessa política e dos prejuízos sociais que dela decorrem, alguns economistas, dos quais deveríamos esperar menos dogmatismo, insistem em manter de pé o teto de gastos --a regra fiscal que congela por 20 anos o gasto público na esfera federal, uma regra que não encontra precedentes no mundo desenvolvido e que está ameaçando paralisar a máquina pública.
O que nos remete à seguinte pergunta: a insistência em um diagnóstico e uma política equivocada reflete apenas uma fé cega ou estaria a serviço de determinados interesses econômicos e políticos?

O DIAGNÓSTICO ESTÁ ERRADO: A CULPA NÃO É DO GASTO PÚBLICO

A ideia de que o governo precisa cortar gastos para voltar a crescer ganhou status de mantra. Argumentos falsos e mesmo um tanto infantis como "acabou o dinheiro" e "o Brasil quebrou", em conjunto com as frequentes comparações do Orçamento do governo com o orçamento de uma família têm promovido um ambiente que deixa pouco espaço para o debate qualificado.
Não, o país não quebrou. Não, o dinheiro não vai acabar enquanto o Estado puder exercer suas funções fiscais na sua própria moeda e alocar recursos a partir das escolhas da sociedade. No entanto, é fato que o Brasil enfrenta um déficit público considerável e houve um aumento da dívida pública desde 2014. Mas qual é a causa do aumento dessa dívida?

Entre 2007 e 2014, a dívida bruta se manteve relativamente estável em torno de 57% do PIB (Produto Interno Bruto). Nesse período, os juros nominais contribuíram em média com 5,7 pontos percentuais (p.p.) do PIB por ano para o aumento da dívida, enquanto o crescimento do PIB nominal contribuiu em montante semelhante (5,6 p.p.) para a redução da dívida.
O resultado primário, que se manteve positivo ao longo de quase todo aquele período, mesmo em um cenário de crescimento maior dos gastos públicos, teve um impacto de 2,2 p.p. na redução da dívida, que foi quase todo compensado por outros fatores, levando a contribuição das emissões líquidas para próximo de zero.
Já entre 2015 e 2018, o aumento da dívida bruta se deve a dois condicionantes principais: a péssima performance do crescimento econômico (2,8 p.p.) e o aumento do efeito dos juros nominais (cuja contribuição passa de 5,7 p.p. para 7,1 p.p.).
O resultado primário, por sua vez, passa a contribuir para o aumento do indicador da dívida, mesmo com a queda do crescimento dos gastos. Tal aumento foi compensado pelos demais fatores, fazendo com que as emissões líquidas respondessem por apenas 0,5 p.p. do PIB/ano do aumento da dívida bruta ao longo do período.
Portanto, o suposto excesso de gastos públicos não explica a evolução da dívida.

Os aumentos recentes da dívida pública decorrem principalmente dos gastos com juros e da queda do crescimento econômico, que não apenas reduz a contribuição do PIB para a queda do indicador da dívida pública, como impacta fortemente a arrecadação e afeta o resultado primário. Conforme veremos, a redução do crescimento é em parte explicada pelo corte de gastos públicos.
Não obstante, há outro mito que ronda o debate público: o mito do "crescimento acelerado dos gastos obrigatórios", pleiteado por Marcos Lisboa, Marcos Mendes e Marcelo Gazzano em artigo publicado na Folha no dia 8 deste mês (Por que o governo deve cortar gastos para o Brasil crescer?).

Um crescimento acelerado é uma referência ao aumento da taxa de crescimento. No entanto, ao contrário do que os autores argumentam, os dados mostram que a taxa de crescimento do gasto público caiu desde 2011, tanto os discricionários quanto os obrigatórios.
A taxa de crescimento real das despesas primárias do governo federal desacelerou de 5,2% ao ano no período de 2003 a 2010 para 3,5% no período de 2011 a 2014 e, finalmente, para 0,5% no período de 2015 a 2018. No entanto, a desaceleração das receitas nesses períodos foi maior, o que resultou na deterioração do resultado primário.

Ao analisar a evolução da composição das despesas entre 2002 e 2014, apontada por alguns como o período de "gastança", não se verifica um aumento substantivo dos gastos do governo federal em relação ao PIB, tampouco da proporção do gasto com pessoal, que se reduz em 0,7 p.p. do PIB.
As despesas que aumentam são as transferências para as famílias (0,6 p.p. do PIB), Educação (0,5 p.p.), investimentos (0,3 p.p.) e despesas correntes (0,3 p.p.). Portanto, o maior aumento relativo foi dos investimentos públicos. Os investimentos cresceram em média 8,5% ao ano entre 2003 e 2010 e caíram 31% em média por ano, entre 2015 e 2018.
 
REMÉDIO ERRADO: CORTE DE GASTOS NÃO GERA CRESCIMENTO

Para além dos mitos criados em torno do excesso de gastos públicos, o debate brasileiro também está preso à ideia de que o ajuste fiscal e o corte de gastos contribuem para o crescimento econômico, a chamada tese da "contração fiscal expansionista", formulada por Alberto Alesina e outros economistas italianos na década de 1990. Essa tese passou a ser desconstruída, desde 2012, pelos fatos e por novos estudos, até mesmo do FMI (Fundo Monetário Internacional), demonstrando as falhas da metodologia usada para embasar a conclusão.

Como argumentou Paul Krugman, a austeridade é um culto em decadência e a pesquisa que lhe dava suporte foi desacreditada. Há estudos que mostram que, além do efeito recessivo, a austeridade também provoca um aumento da dívida pública e uma piora da desigualdade social.
Mesmo autores como Alesina, Carlo Favero e Francesco Giavazzi, em texto publicado em 2018, reconhecem que a austeridade fiscal é contracionista no curto prazo e tem efeitos diferentes de acordo com as especificidades de cada país.

No Brasil, defensores da austeridade como Lisboa, Mendes e Gazzano têm argumentado que somos um caso especial em que a expansão do gasto "perdeu grande parte da sua eficácia" e o multiplicador fiscal é baixo. Entretanto, os autores tropeçam nos dados e usam uma variável de resultado para ilustrar um estímulo fiscal, misturando a dinâmica das receitas e das despesas.
Os pesquisadores Sérgio Gobetti, Rodrigo Orair e Frederico Nascimento Dutra, em texto publicado em 2018 no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostram que no ano de 2015, por exemplo, os elevados déficits primário e nominal são consequências do movimento das receitas. Simultaneamente, ocorreu uma forte contração de despesas, implicando um impulso fiscal negativo de 1,5% do PIB.

Diversos trabalhos empíricos têm adotado diferentes metodologias para estimar os multiplicadores fiscais, dos quais se destacam os trabalhos acadêmicos de Alan Auerbach e Yuriy Gorodnichenko.
Essa literatura indica que esses multiplicadores são relativamente elevados, apontando para a possibilidade de que a expansão fiscal seja eficaz para estimular a demanda agregada e a produção, principalmente na situação de altíssima capacidade ociosa como existe atualmente no Brasil.
Os resultados empíricos não deixam dúvida de que os multiplicadores variam ao longo do ciclo econômico. Na fase recessiva, com desemprego e capacidade ociosa, o multiplicador fiscal é maior.
Além disso algumas categorias de despesas públicas tendem a ter um efeito sobre o gasto agregado muito maior do que outras.

Para o caso brasileiro, Orair, Fernando Siqueira e Gobetti, em estudo premiado pelo Tesouro Nacional em 2016, estimaram que, nas recessões, o multiplicador das despesas com investimentos, benefícios sociais e com pessoal assumem valores da ordem de 1,68, 1,51 e 1,33 respectivamente.
Diante do exposto, a interpretação de que a crise brasileira é decorrente de excessos de gastos não faz nenhum sentido, assim como cortar gastos não contribuirá para a retomada do crescimento. Não se quer com isso dizer que o desempenho macroeconômico, a partir de 2015, esteja relacionado exclusivamente ao corte das despesas públicas, pois a crise brasileira deve ser estudada a partir de suas múltiplas determinações. Entretanto, todas as evidências mostram que a virada na política econômica para a austeridade em 2015 contribuiu para o aprofundamento da recessão.

CONSEQUÊNCIAS E ASPECTOS POLÍTICOS DA AUSTERIDADE

Em quase todos os países do mundo, mas especialmente nos países avançados, o Estado exerce um papel distributivo importante, por meio da política fiscal. Nos países da OCDE e na União Europeia, a desigualdade medida depois do efeito na renda dos impostos, das transferências sociais e dos serviços públicos como saúde e educação é muito inferior à desigualdade da renda bruta de mercado. Isso é fruto da atuação redistributiva do Estado.

O Brasil é o país da América Latina que mais reduz a desigualdade por meio de seu gasto social, de acordo com os estudos da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e de Fernando Gaiger Silveira. Essa redução ocorre, principalmente, via transferências às famílias e gastos sociais em educação e saúde.

Já o sistema tributário é concentrador de renda, pois há grande participação de impostos sobre bens e serviços, que penalizam os mais pobres. Portanto, o ajuste fiscal pelos gastos é uma estratégia que desmonta justamente o lado progressivo da política fiscal.
Como mostrado no livro "Economia para Poucos", os efeitos sociais da austeridade já podem ser notados na restrição de acesso a saúde, educação, moradia e à deterioração do ambiente. Dada a sua seletividade, tais políticas impactam mais fortemente alguns grupos, especialmente negros e mulheres.

Mas há alternativas. Uma nota para discussão publicada pelo corpo técnico do FMI aponta que, nos últimos dez anos, houve diversas reformas nos regimes fiscais, constituindo as chamadas regras fiscais de "segunda geração".
As principais mudanças foram o aumento da flexibilidade (como novas cláusulas de escape para períodos de baixo crescimento) e aprimoramentos em sua aplicabilidade.
Os que se opõem à mudança nas regras fiscais brasileiras argumentam que isso levaria à fuga de capitais, com consequente crise cambial e aumento da taxa de juros, em situação similar à da Argentina.

Contudo, apesar de os dois países terem dívida pública em patamar semelhante, a dívida brasileira é predominantemente denominada em moeda nacional e as reservas internacionais (US$ 380 bilhões) superam em muito a dívida de curto prazo.
Na Argentina, o percentual da dívida do governo denominado em moeda estrangeira é cerca de 80% e tem curto prazo de maturação. As reservas internacionais da Argentina (US$ 65 bilhões) não são suficientes para liquidar sua dívida em momentos de diminuição da liquidez internacional, ao contrário do Brasil.

A manutenção do teto de gastos representa um entrave à retomada do crescimento econômico, amplia a crise social e aprofunda o desmonte dos serviços públicos. Situação que tende a se agravar com a ameaça do fim da garantia de recursos para áreas prioritárias como saúde e educação.
É preciso urgentemente repensar a política fiscal, considerando seus impactos econômicos, distributivos e na garantia dos direitos humanos. As evidências da literatura nacional e internacional, além dos dados da realidade brasileira, clamam por uma mudança imediata na condução da política fiscal.

Autoria:
Esther Dweck é professora do IE-UFRJ e ex-secretária de Orçamento Federal, Fernando Maccari Lara é professor da Unisinos, Guilherme Mello é professor do IE-Unicamp, Julia Braga é professora da Faculdade de Economia da UFF, e Pedro Rossi é professor do IE-Unicamp

Ver o debate com Esther e Pedro em O desmonte dos gastos com saúde e educação

Erramos: o texto foi alterado
20.setembro 2019
Estava incorreta a afirmação publicada no artigo “Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?”, dos economistas Esther Dweck, Fernando Maccari Lara, Guilherme Mello, Julia Braga e Pedro Rossi, de que o resultado primário de 2007 a 2014 teve impacto próximo de zero sobre a dívida bruta do governo geral. Dados do Banco Central mostram que a contribuição foi de 2,18 pontos percentuais na média anual para a redução da dívida. Também estava incorreta a informação de que os déficits primários registrados de 2015 a 2018 responderam por apenas 0,5 ponto percentual do PIB/ano para o aumento da dívida bruta. A contribuição foi de 1,9 ponto percentual. Na arte “O que contribuiu para aumentar a dívida brasileira”, que ilustra o artigo, os dados incorretamente apresentados como impacto do resultado primário se referem, na verdade, à contribuição da emissão líquida.

Diversionismo

Há soluções que conciliam equilíbrio fiscal, crescimento e redução de desigualdades 

Laura Carvalho, Folha de São Paulo, 26/09/2019    

O artigo “Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?”, publicado nesta Folha em 14/9 por Esther Dweck, Fernando Lara, Guilherme Mello e Pedro Rossi, interpretou de forma equivocada os dados disponibilizados pelo Banco Central quando argumentou que os déficits primários registrados de 2015 a 2018, por exemplo, teriam respondido por apenas 0,5 ponto percentual (p.p.) do PIB/ano para o aumento da dívida bruta do governo.

Na verdade essa contribuição alcançaria 1,9 p.p.

Nem mesmo a alteração significativa desses números invalidou os argumentos centrais do artigo, como pode ser verificado na versão já corrigida do site da Folha. Mas o erro tem de ser lamentado por ensejar uma enxurrada de reações virulentas nas redes sociais e veículos de mídia de quem parece
querer jogar areia sobre:
1) a falta de evidência empírica para a tese de que o crescimento desenfreado de despesas causou a crise econômica.
2) as sucessivas frustrações nas projeções de crescimento dos que defendiam que a agenda implementada no país nos últimos quatro anos traria de volta a confiança dos investidores.
3) a percepção crescente entre economistas e sociedade civil de que o corte de gastos sociais pode agravar nosso grave quadro de estagnação concentradora de renda.

Quanto ao primeiro ponto, cabe sempre lembrar que um erro não invalida o outro.
Marcos Lisboa, Marcos Mendes e Marcelo Gazzano em “Por que o governo deve cortar gastos para o Brasil crescer”, publicado também nesta Folha em 8/9, com o qual os autores buscavam debater, afirmam por duas vezes que as dificuldades orçamentárias no país derivam de um “crescimento acelerado de gastos obrigatórios”.Ora, os autores certamente sabem que o termo “aceleração” se refere à segunda derivada da variável, ou seja, só se aplicaria nesse caso a uma situação em que as despesas obrigatórias crescem a um ritmo cada vez maior.

Pois bem. De acordo com a Tabela 1.1-A da Secretaria do Tesouro Nacional, as despesas obrigatórias do governo central—benefícios previdenciários, despesas com pessoal e encargos sociais, e outras— cresceram em média, em termos reais, 6,6% ao ano entre 1998 e 2002; 7,4% ao ano entre 2006 e 2010; 4,9% ao ano entre 2011 e 2014, e apenas 2,1% ao ano entre 2015 e 2018.
Ou seja, de fato essas despesas cresceram um pouco mais rápido entre 2003 e 2010 —período em que o Brasil acumulou superávits primários graças ao crescimento também acelerado das receitas—, do que no segundo governo FHC.

Só que o primeiro ano de déficit primário em 2014 veio justamente após um período de desaceleração no crescimento dessas despesas. Em nenhum dos anos do período 2011-2014, a taxa foi superior à média do período 2003-2010.

Em vez de exigir outro Erramos, interessa mais à sociedade trazer o debate para o terreno das soluções que sejam capazes de conciliar equilíbrio fiscal, crescimento econômico e redução de desigualdades.

Abrir espaço para investimentos sociais por meio de medidas que eliminem subsídios e as famigeradas desonerações que é um excelente ponto de partida. As propostas recentes de Arminio Fraga, por exemplo, vão nessa direção.


Laura Carvalho
Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".



sábado, 7 de setembro de 2019

O Narciso de Caravaggio

O meme do Caravaggio
Tela em museu próximo à capital alemã faz jogo de espelhos com museu italiano — e interpela o nosso narcisismo de celular


Narciso (1597-9), pintura de Caravaggio

Nos últimos meses, o Narciso de Caravaggio e seu espectro têm flutuado em pôsteres nas estações de trem em Berlim. Nas plataformas, diante da reprodução da pintura que guarda um duplo de si mesma, sempre há alguém de pé encarando o celular, colocando entre si e o mundo um outro tipo de espelho. 

Emprestado até outubro pela Galeria Nacional de Arte Antiga, sediada no Palácio Barberini, em Roma, o quadro é o carro-chefe da exposição Caminhos do Barroco, no Museu Barberini — o Barberini local. Cópia opaca, baseada num modelo em bronze do palácio romano de mesmo nome, o Barberini de Potsdam é um enclave de arquitetura italiana à beira do Havel. Construído no século 18 por Frederico, o Grande, e bombardeado nos estertores da Segunda Guerra Mundial, foi reerguido entre 2013 e 2016 para abrigar a coleção privada do proprietário da multinacional de software sap, Hasso Plattner.

O site do instituto com o nome de Plattner tem cinco fotos suas e um vídeo estrelado por si próprio, um altruísta que gosta de holofotes. A outro mecenas dado a erguer palácios com obras de arte é reservado semelhante destaque no primeiro andar do museu, onde vemos o papa Barberini posar na tradição francesa dos enormes retratos oficiais a óleo. Ao longo dos séculos, monarcas, papas e, hoje, capitalistas grisalhos mantêm a pretensão de se imortalizar ao abrir fundações, atuar como curadores e construir (ou copiar, ou reformar) palácios.

A sala onde está o Narciso não é a central e tampouco das maiores; estas estão ocupadas com uma seleção de discípulos e imitadores de Caravaggio, obras também vindas do Museu Barberini original em Roma. Trata-se de evidente espelhamento: o destaque da exposição é um quadro sobre um reflexo, os outros quadros são todos de reprodutores de Caravaggio e o próprio prédio é a cópia do principal museu que os abriga. O labirinto barroco e seu jogo de espelhos, máscaras e simulacros é representado pela própria estrutura que recebe a exposição.

Pintado entre 1597 e 1599, o Narciso é do início da carreira de Caravaggio em Roma, e só foi redescoberto  no século 20, pelo historiador Roberto Longhi em 1916 — apenas dois anos após o ensaio de Freud “Sobre o narcisismo”, que define o conceito psicanalítico como organizador do ego. Freud ou Longhi seriam incapazes de prever tamanha popularização do conceito — e muito menos o sofisticado aparato que carregaríamos no bolso para projetar versões de nós mesmos um século depois.

Teatro

O chiaroscuro é luz de teatro e aqui vemos o Narciso iluminado por um refletor de palco que apenas mostra o que devemos ver — o resto é um bloco negro sobre as costas do personagem, refletido mais abaixo em tons lavados. Caravaggio retrata o jovem agachado com as mãos na beira d’água numa composição que o aprisiona numa dança consigo mesmo: o braço esquerdo, imerso na água até o pulso, se prolonga no reflexo. Igualmente, a mão direita encontra o seu duplo na superfície da água — ele então parece um oroboro humano, uma figura antropomórfica presa num círculo.

Narcotizado de si mesmo, o personagem inclina a cabeça para baixo num movimento em direção ao próprio reflexo. Pelos músculos do pescoço e do braço direito, vemos que Narciso faz um esforço descendente e gradual. Um dos aspectos mais impressionantes é esse movimento: quando nos distraímos e voltamos a ele, a impressão é de que Narciso está um pouco mais perto do espelho. Quanto aos olhos, talvez seja o esforço, talvez o êxtase, mas ele os fecha em dois traços negros. A imagem no reflexo, de traços expressionistas, monstruosos, remete a um Goya das Pinturas negras (1819-23), lapso pré-moderno que ultrapassa os séculos nas águas turvas de Caravaggio.

Ao mesmo tempo que o Narciso de Caravaggio é um daqueles memes que atraem milhões de turistas, o termo originado pelo personagem mitológico atravessou o tempo de Ovídio e Pausânias, passando por Dante e Petrarca, até os dias de hoje. Já nos anos 1970, sociólogos começaram a tratar nossa era como narcísica e, desde então, à medida que escalamos as últimas fases do capitalismo tardio, o tal ethos só se fez mais presente. O cardápio é infinito: individualismo, consumismo, autopromoção, busca por fama, cocaína, cirurgias plásticas, obsessão pelo corpo, reality shows, redes sociais.

A depender, psicanalistas normatizam a condição — ou a tratam como epidemia no consultório. Se a presença de traços de caráter narcisista é aceita como um denominador comum entre os seres humanos, os extremos do espectro são classificados como distúrbio de personalidade pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria (APA).

Não se trata simplesmente de vaidade desmedida ou de um Instagram cheio de selfies. Grosso modo, uma pessoa com distúrbio de personalidade narcisista é definida pela necessidade parasitária de se alimentar dos outros ao mesmo tempo que possui um senso de autoimportância desproporcional. Ao contrário do que poderia acontecer com narcisistas menos patológicos, sua necessidade de admiração não acompanha empatia alguma a sentimentos alheios e tampouco algo que psicólogos chamam de constância de objeto.

Muitos dos adultos que guardam o mecanismo de defesa de uma criança abandonada podem virar abusadores tóxicos, envolvendo familiares e parceiros em jogos de manipulação, controle via dissonância cognitiva e ciclos de sedução, desvalorização e descarte.

O que faz do Narciso de Caravaggio em Potsdam mais trágico do que belo em 2019 é pensar que tal processo pode ser coletivo. Sociedades que elegem narcisistas patológicos como Trump ou Bolsonaro se tornam perversas — ou vice-versa, uma vez que eles são espelhos perfeitos do éthos narcisista. Projetos de poder baseados em onipotentes sonhos de grandeza e em falta de empatia são gerados por traumas coletivos mal resolvidos (pense na escravidão ou na Lei de Anistia) e criadores de traumas ainda piores no futuro.

Quando o passado jamais se transforma em História, parecemos fadados a repeti-la — como um reflexo.

J. P. Cuenca
01 setembro 2019


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Tupi

Tupi: Uma história de coragem e determinação indígena

Frances Badia i Dalmares, EL PAIS
Santarém (Brasil) 28 agosto 2019

Assim como as cicatrizes se acumulam na casca das seringueiras por toda a Amazônia, os indígenas também carregam feridas profundas em seus corpos, cicatrizes muito antigas. A primeira ameaça industrial de dimensão catastrófica que caiu sobre a Amazônia foi a febre da borracha (1879/1912), que irrompeu nesses territórios remotos e quebrou um frágil equilíbrio entre o ser humano e a natureza exuberante da floresta, alcançada com o esforço de séculos de adaptação e simbiose. A extração maciça de borracha significou o abuso, a escravização e até o extermínio de aldeias indígenas inteiras.

https://www.youtube.com/watch?v=QAyqqL0q-w4 

Hoje, entre diversos povos tradicionais e demais populações que vivem nas margens do rio Tapajós e afluentes, pode-se observar o imenso dano que a extração industrial de seus ricos recursos naturais trouxe para seus modos de vida tradicionais. O modelo de desenvolvimento imposto pelo capitalismo causou o colapso de toda sua biodiversidade, afetando ao equilíbrio dessa terra fértil e sagrada.

Aqui nunca foi fácil viver. Apesar do massacre devastador da colonização, os povos indígenas manejaram sabiamente a sua relação com natureza, e conseguiram continuar a viver em assim por centenas de anos.

Tupi toma banho com seu filho de 10 anos. Foto de Pablo Albarenga

 A Cabanagem (1835-1840) no Grão-Pará, marginalizada por muitos ainda citados nos livros, pelo contrário foi um grande ato de resistência, onde hoje tentam aos poucos desconstruir essa narrativa negativa contra a luta popular, infelizmente terminou com a morte de muitos indígenas que guerrearam pelo ideal de retomar sua liberdade roubada pelo opressor, incluindo a extinção dos povos Murá e Mauê, sistematicamente ameaçou a sobrevivência de outros povos indígenas e os levou a abandonar suas culturas, suas línguas e suas tradições, especialmente devido à influência violenta dos missionários que representavam um terrível dilema: ou eles se convertiam ao cristianismo, negando sua cultura e suas raízes ancestrais, ou morriam.

O antropólogo Claude Levy-Strauss afirmou categoricamente, em sua obra-prima Tristes Trópicos(1955), que a modernidade violava toda a virgindade indígena, mesmo a mais remota. O mito do índio imaculado é um fantasma que apenas alguns antropólogos românticos e viajantes desinformados buscam. Ele desapareceu para sempre, há muito tempo atrás.


Tupi colhe flores e grandes folhas de palma para enfeitar a mesa 
durante uma jornada de discussão sobre gênero na aldeia San Francisco
Hoje, nas margens do rio Tapajós encontram-se os Tupinambás resistindo e protegendo, há mais de 519 anos, seu patrimônio ambiental, territorial e cultural, juntamente com outros diferentes povos na região, tendo como principal bandeira de luta a demarcação de seu território, hoje situado na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns, município de Santarém.

A resistência Tupinambá contra o processo de colonização a qual foram submetidos é evidenciada de diversas maneiras, desde a ligação com a natureza, crenças, costumes, até suas narrativas orais, ainda não contadas nos livros de história. É nesse território de ancestralidade que esse povo conta sua espiritualidade estabelecida com os Encantados do rio Tapajós. Onde a voz do seu povo ecoa em todos os espaços para terem o seu Protocolo de Consulta respeitado, defendendo que todos os povos tradicionais possam continuar navegando e se alimentando do rio, mantidos e protegidos pelos seus lugares sagrados.

A aldeia de São Francisco é um bom exemplo de tudo isso. É no percurso entre a aldeia e a cidade, onde a jovem indígena Tupi luta para se reconstruir, que algumas das feridas e violências que persistem entre as comunidades amazônicas às margens do rio Tapajós são explicadas de alguma forma. Dadas as circunstâncias em que Tupi cresceu, levantar-se sozinha e caminhar com passo firme requer coragem excepcional. E coragem Tupi tem muito.

Coragem para recuperar uma relação harmoniosa com o território, como aquela que tiveram seus avós e bisavós, mas que desabou há muito tempo.

Coragem para superar uma história de violência sexual, física e psicológica nas mãos de um companheiro abusivo, que morreu tragicamente em um acidente de moto.

Coragem para se levantar e educar seu único filho. Coragem para construir uma vida autônoma e estudar na cidade. Coragem também para se olhar diante do espelho e assumir o trauma da opressão e da violação sistemática.

Coragem para finalmente enfrentar o silêncio que a oprimia, como o que oprime tantas outras mulheres, usando como arma a contínua humilhação.


Tupi conversa com suas amigas em uma das fontes próximas a sua casa.

Mas Tupi se reencontrou em suas raízes, redescobrindo a força necessária para fortalecer sua própria ancestralidade Tupinambá e afirmando, ao mesmo tempo, sua feminilidade. Passar por esse processo ao lado de outras mulheres que, com coragem semelhante, estão na luta para reconhecer o abuso, a violação e os maus-tratos através da solidariedade e da ação coletiva.

Fazer parte de um movimento, aprender a liderá-lo, aprender a construir um espaço de liberdade é o que faz dessas mulheres seres excepcionais para sua comunidade. Tupi busca na terra e nos valores de seus ancestrais uma narrativa de continuidade com uma origem, de resistência ancestral, e que traduz na sua transmissão para o filho (João) sua mais poderosa razão de existir.
João é o filho que dá a Tupi, ao mesmo tempo, a energia e a paixão necessárias para se situar em um tempo histórico mais longo, para se sentir como um elo de uma saga.

Mas enfrentar a luta diária e, ao mesmo tempo, colocar as coisas em contexto e olhar para frente, não é uma tarefa simples. Para tornar essa jornada possível, o apoio de outras mulheres da comunidade desempenha um papel fundamental. Isso faz com que a vulnerabilidade de ser uma mulher isolada, uma mãe viúva marcada pela tragédia, se torne uma força, uma resolução.

Como já é o caso em muitas cidades, ser mulher entre mulheres que apoiam umas às outras é cada vez mais frequente nas comunidades e aldeias ao longo do rio. Se organizar na luta representou para Tupi a âncora que lhe permitiu sair da opressão, e se tornar alguém. Participar ativamente das ações de conscientização e reivindicação, cada vez mais frequentes, dá sentido à luta individual e coletiva.

Tupi pertence ao coletivo de mulheres indígenas Suraras do Tapajós, que há alguns anos opera na vila de Alter do Chão, também aldeia Alter do Chão-Território Borari, do outro lado do rio a mais de duas horas de lancha. É uma viagem nem sempre amistosa ou segura, sujeita às inclemências do vento e da chuva, que às vezes se intensificam enormemente. Fazer parte desse grupo, afirmar-se como mulher entre mulheres, recuperar, por exemplo, fragmentos da língua indígena, muitas vezes através de cantos realizados pelo grupo de Carimbó (ritmo popular do estado do Pará) que elas formaram recentemente, acabou sendo para Tupi uma via de fortalecimento e libertação.

"Eu virei uma mulher que desabrochou", diz ela com emoção. "Eu não sabia a força que eu tinha armazenada aqui dentro. Entre tantas coisas, não tinha a coragem de falar, não sabia falar". O coletivo acompanhou Tupi, dando conforto e coragem para ela suportar a dor que carregava e para se sentir alguém de novo, ou talvez pela primeira vez.

E esse sentimento, Tupi vive com muita felicidade. Sentir-se útil, poder falar em nome de outras mulheres Tupinambá também vítimas de abusos, e poder fazê-lo em outros âmbitos, além da aldeia de origem, é uma missão que Tupi assume, mesmo com alguma insegurança.
Mas, além de garantir um futuro para João, Tupi aprende a treinar outras mulheres para lutar pela demarcação e conservação do território e reforçar a ancestralidade Tupinambá recentemente reconstruída. "Eu não consigo falar sobre mim, mas sim sobre nós. É daí que vem a minha emoção.

Nós temos uma voz, nós temos que defender o território". Para Tupi, há uma parte importante de aprendizagem na sua jornada em direção ao ativismo e à reivindicação.
Aprender com outras mulheres, consigo mesmo, com os anciãos, professores da aldeia. Seu interesse em reconstruir uma voz indígena para compartilhá-la com outras mulheres, mesmo que seja dos escombros de um mundo praticamente desaparecido, é fundamental no exercício da luta pela sobrevivência, pela resistência.

Mas onde Tupi cresce e ganha força, onde ela acumula coragem suficiente para se sentir verdadeiramente útil para as mulheres de seu território, é na ação coletiva. Na aldeia de São Francisco, Tupi e um pequeno grupo de mulheres se organizaram para um exercício de voz ativa enquanto mulheres Tupinambás.

Ao cair da tarde, as mulheres da aldeia prepararam uma espécie de procissão sincrética. Em uma procissão ao longo da principal "avenida”, as mulheres levaram duas pequenas imagens de duas santas de devoção local. Confeccionaram também uma série de cartazes com frases contra a violência de gênero e feminicídio. Elas distribuíram velas entre os participantes e, ao anoitecer, com um ritmo lento, mas determinado, um grupo de mulheres e meninas caminhou ao longo da avenida, acompanhadas por alguns (poucos) homens.

Entre cantos da igreja, mistérios do rosário e pais-nossos, o grupo parou em várias ocasiões para lançar slogans de protesto e repetir denúncias. Com uma mistura de devoção e raiva reprimida, elas liam, uma a uma, passo a passo, os slogans dos cartazes. Os mistérios do rosário marcam a pausa, a petição. Os homens estão quase invisíveis e, à medida em que a procissão passava em frente à mercearia, num gesto ostensivo, com o que parecia uma mistura de surpresa e desdém, apenas olhavam.

Ao ritmo da marcha, portas e janelas se entreabrem e uma mulher, com um bebê no colo, olha de canto de olho timidamente. A procissão-manifestação-ritual avançava sem ter muito bem um rumo. Cada pausa se transformava em uma invocação. As mulheres estavam bem conscientes de que estavam envolvidas em um ato de transgressão de uma ordem há muito estabelecida.

O fogo das velas acrescentou drama, emoção e liturgia à procissão. Havia algo de evocação também, evocação essa de um mundo mágico e sagrado de ressignificação que em outros tempos reinou nestas terras indígenas. Acima de tudo, entre essas mulheres o que existe é determinação. Elas sabem que ninguém virá em seu auxílio, que sua aposta é alta, que a tarefa à frente requer uma força que só pode ser alcançada se elas se unirem. E se conseguirem se multiplicar.

Mas nada é fácil nesta castigada terra Tupinambá. Os povos indígenas há muito aprenderam que resistir é sobreviver. Também organizada por mulheres, uma ação simbólica encerra a procissão.
Desenhado na terra, um grande arco e flecha encarna muitas lutas pela sobrevivência. A luta dos indígenas. A luta das mulheres. A luta pela demarcação e conservação do território. A luta de Tupi.
As mulheres, adolescentes e meninas da procissão, vão colocando suas velas no desenho previamente traçado na areia da estrada: uma foto aérea dará a dimensão do símbolo.

No dia seguinte, em uma assembleia realizada na escola indígena da aldeia, as mulheres avaliam, conversam e decidem. A tarefa à frente será difícil, mas não há como voltar atrás. Conseguir que as feridas das violências cicatrizem em seus corpos, como curaram as feridas das seringueiras após a extração da borracha, é o objetivo final de tudo isso.
Dois dias depois, Tupi é reunida com seu filho em Alter do Chão, base também do movimento das Suraras do Tapajós. Naquele momento de comunhão mãe-filho, no banho no rio sagrado que tanto significa neste aquífero, Tupi já sabe que, protagonizando essa história, protagoniza junto com ela uma história de força e superação.

Ela espera juntar-se a tantas mulheres que, cada vez em maior número, decidem dar um passo à frente na reconstrução de sua própria luta como mulheres, como povos indígenas e como protagonistas da sua própria biografia. Em um mundo amazônico, devorado por múltiplas ameaças e violências, a história de Tupi é uma de coragem e determinação.

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/03/actualidad/1562148915_640259.html

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

ANGUSTIA de Graciliano


Romance desagradável, abafado, ambiente sujo, povoado de ratos, cheio de podridões, de lixo. Nenhuma concessão ao gosto do público. Solilóquio doido, enervante. E mal escrito. A edição encalharia no depósito, roída pelos bichos. Não venderiam nem cem exemplares; repisei esta convicção, quis transmiti-la ao editor antes que ele se arriscasse.

A afirmação de Graciliano Ramos sobre o seu romance "Angustia" de 1936, está em seu outro livro: "Memórias do cárcere", publicado em 1953.

Contradizendo o autor, Angustia, se tornou o livro mais cult de sua bibliografia.

"Seu receio em relação à recepção do público vincula-se, por um lado, a sua notória autocrítica e às falhas de revisão e digitação decorrentes das circunstâncias da publicação do romance. Descarta a possibilidade de realizar algumas correções no texto, pois a hipótese de uma reedição futura lhe parece absolutamente descabida. No entanto, pode ser precipitado associar toda a apreensão do escritor alagoano à postura implacável diante de seus próprios textos. Sua preocupação com a opinião da crítica provavelmente está relacionada também ao alto teor moderno de seu romance, que poderia parecer excessivamente estranho no cenário literário nacional da década de 30... Outro testemunho do prestígio já desfrutado pelo livro narrado por Luis da Silva é um inquérito sobre os dez melhores romances brasileiros empreendido pela Revista Acadêmica entre 1939 e 1941. O resultado dessa pesquisa, na qual foram entrevistados aproximadamente cem intelectuais, é bastante surpreendente: Angústia foi considerado o segundo melhor romance de todos os tempos, perdendo apenas para Dom Casmurro. Dentro do quadro dos livros publicados na década de 30, sua primazia, entretanto, foi absoluta". (Ferreira, Carolina Duarte Damasceno)

Li Angustia recentemente (da Editora Record, 73ª edição, 2019). Impactante para quem já leu do mesmo autor Vidas secas, Memórias do cárcere, São Bernardo e Alexandre e seus heróis. Outra linguagem, outra estrutura de texto e outros temas. Presentes: memórias, paixão por uma mulher, ciumes, crime passional e culpa.

"O Brasil descrito pelas micronarrativas é o de República Velha (1889 - 1930). Ali estão plantadas as raízes sentimentais de Luis. Ele não é um citadino. Transportara-se do campo para a capital, transportando-se em representante típico da juventude tenentista, isto é, "molambo que a cidade puiu demais e sujou". Nas comunidades rurais alagoanas,o relacionamento entre os humanos é rude e áspero. São todos dominados pela vontade férrea do coronel, que toma assento no topo da pirâmide político - familiar." (Silviano Santiago).

Quanto à narrativa, Angustia tem pontos em comum com Crime e Castigo de Dostoiévski. Graciliano sempre negou esta influência. Mas a culpa pelo crime e a autopunição estão lá.

"Os defeitos de composição na frase e no discurso ficcional não empanam a alta qualidade do romance. Ponhamos abaixo o contrassenso. Dos casulos de redundância nascerão borboletas! O romance é excepcional porque recebeu a composição justa. A superabundância dos detalhes foi alimentada pela imaginação enraivecida do apaixonado. A compulsão à repetição foi impulsionada pela escrita do paranoico obsessivo. Marina e o assassinato de Julião, o crime e a autopunição - eis os pontos fulcrais da experiência de Luis da Silva em Maceió, narrada por ele próprio. Composto de outra forma, Angustia não teria sido tão exitoso. " (Silviano Santiago)

Quem ainda não leu Angustia está perdendo.

Citações
Ferreira, Carolina Duarte Damasceno,
O Lugar da ficção em Angústia, de Graciliano Ramos, Campinas, SP, 2005,
Orientadora : Maria Eugênia Boaventura.
Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas,
Instituto de Estudos da Linguagem.

Silviano Santiago, posfácio no livro citado, da Record

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Elzita

João Valadares, Recife, Folha de São Paulo, 04/08/2019

Uma saga de 45 anos que envolve pistas falsas, visitas a quartéis, cemitérios, manicômio judicial, súplicas a presidentes e pedidos de ajuda a organizações internacionais. Ao seu lado, a companhia angustiante de uma mãe em busca de um filho: o silêncio oficial.
Até a morte, aos 105 anos, há pouco mais de um mês, Elzita Ramos de Oliveira Santa Cruz carregou como bandeira e razão de vida a pergunta sem resposta sobre o paradeiro do filho que repetiu enquanto tinha voz.

Morreu, em 2019, sem conseguir enterrar Fernando Santa Cruz, desaparecido em fevereiro de 1974, após ser preso em um sábado de Carnaval por órgãos de repressão da ditadura militar, numa esquina de Copacabana, no Rio de Janeiro.
No início da semana passada, o caso voltou à tona, quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) cutucou uma ferida que nunca sarou na família. De forma irônica, disse que poderia contar ao presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, filho de Fernando, como seu pai havia desaparecido nos tempos de repressão.

Bolsonaro relatou, na contramão do que evidenciam documentos históricos, que o militante político teria sido morto por integrantes da Ação Popular, grupo de esquerda contrário ao regime militar.
Um dia depois, o presidente ainda chamou de "balela" os documentos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), o único e pequeno alento que o Estado brasileiro conseguiu oferecer a Elzita na tentativa de reconstruir minimamente as circunstâncias do assassinato de Fernando.

Pernambucana de Água Preta, interior do estado, mãe de dez filhos, com 28 netos e 32 bisnetos, Elzita morreu sem ter em mãos o atestado de óbito retificado no fim de julho pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao governo federal.

Na última quinta-feira (1º de julho de 2019), o cartório liberou o documento para a família no qual aponta que Fernando foi vítima de “morte não natural, violenta, causada pelo estado brasileiro.”O sofrimento de Elzita, que serviu de adubo para sua conscientização política, começou em 1967, quando Fernando foi preso pela primeira vez, no Recife, após ter queimado uma bandeira dos EUA durante um protesto.

Foi levado a um juizado para menores e liberado em uma semana, após Elzita conseguir declaração de médicos do IML (Instituto de Medicina Legal) atestando que seu filho ainda iria completar 18.
Três anos depois, Marcelo Santa Cruz, o seu segundo filho, foi expulso da Faculdade de Direito do Recife. Por sua atuação política, teve os direitos estudantis cassados e foi estudar em Lisboa, Portugal.
No Brasil, Elzita, casada com o médico sanitarista Lincoln de Santa Cruz Oliveira, fazia contas para ajudar o filho a se manter no exterior.

Em 1971, logo após o retorno de Marcelo ao Brasil, sentiu o braço mais forte da repressão. Rosalina Santa Cruz, a filha mais velha, hoje professora da PUC-SP, foi presa no Rio de Janeiro ao lado do marido, o engenheiro agrônomo Geraldo Leite.

O episódio é retratado no livro “Onde Está Meu Filho?”, de Chico de Assis, Cristina Tavares, Gilvandro Filho, Glória Brandão, Jodeval Duarte e Nagib Jorge Neto. Rosalina integrava o grupo de extrema esquerda VAR-Palmares, que participou da luta armada contra o regime militar.
Após 55 dias sem nenhuma notícia, Elzita recebeu a ligação de um oficial do Exército dizendo que passaria às 6h em um carro descaracterizado para levá-la até a filha. “Vou sozinha. Estou disposta a correr todos os riscos”, disse na ocasião ao filho Marcelo.

Pouco tempo depois, encontrou a filha cheia de curativos e manchas roxas pelo corpo. Ela estava na sede do 1º Exército, no Rio de Janeiro. Diante dos agentes da repressão, perguntou a ela se eles haviam a torturado. A filha desconversou. Por causa das pancadas nos ouvidos, chutes e choques elétricos, teve um aborto na prisão.

Um oficial informou a Elzita que ela estava lá para convencê-la a colaborar. Retrucou e disse que não educou a filha para entregar ninguém. Na saída, recusou-se a assinar um termo para atestar que Rosalina estava bem fisicamente.
A filha só foi solta um ano depois, em 1972. E o pesadelo de Elzita que a acompanharia até a morte chegou dois anos depois.

O PESADELO

Militante da Ação Popular Marxista-Leninista, Fernando foi visto pela última vez por seus familiares no 23 de fevereiro de 1974. Desapareceu junto com o amigo de infância Eduardo Collier Filho.
A partir daí, teve início a busca que iria durar a vida inteira. Sem derramar lágrimas públicas, desafiou generais, questionou torturadores e escreveu cartas para autoridades.

Fazia peregrinações no Congresso para entregar pessoalmente cartas a deputados. No mercado, no açougue e nas filas de banco, falava abertamente que a ditadura militar havia sumido com seu filho.
A Armando Falcão, então ministro da Justiça de Ernesto ​Geisel (1974-1979), rebateu a informação recebida de que Fernando estava na clandestinidade. “Que clandestinidade seria esta, que transformaria um filho respeitoso, carinhoso e digno em um ser cruel e desumano, que desprezaria a dor de sua velha mãe, a aflição de sua jovem esposa e o carinho do seu filho muito amado?”, questionou.

Antes, por intermédio de dom Paulo Evaristo Arns, havia estado pessoalmente, junto com mais 12 famílias de desaparecidos, com então ministro-chefe do Gabinete Civil Golbery do Couto e Silva. Quando começou a falar do seu filho, foi interrompida de imediato. Golbery afirmou que, sobre aquele caso, tinha mais informações. A resposta que, num primeiro momento deu ânimo e esperança, nunca veio.

Em outubro de 1974, enviou cartas a Ernesto Geisel e à primeira-dama Lucy Geisel. "Por que, senhor presidente, se nega em um país democrata o direito de defesa, o respeito à vida de uma pessoa? Por quê?", escreveu.

Foi recebida no terraço da casa do conhecido general do Exército Antônio Bandeira, que comandou as tropas empregadas na Guerrilha do Araguaia. Voltou sem resposta. Escutou apenas que ele não poderia fazer nada. Em 2012, no livro escrito pelo jornalista Marcelo Netto “Memórias de uma Guerra Suja”, o ex-delegado Cláudio Guerra disse que os corpos de Fernando, Collier e outros dez desaparecidos foram incinerados em fornos numa usina de açúcar de Campos de Goytacazes (RJ). Para familiares, Elzita reagiu como ainda quem guardava esperança de enterrar o filho. “Vocês vão acreditar na palavra de um torturador?”, disse.

Por meio do então arcebispo do Recife e Olinda dom Helder Câmara, com quem sempre se encontrava, fez chegar a Rosalynn Carter, ex-primeira dama dos EUA, casada com Jimmy Carter, uma correspondência em que pedia ajuda.

Marcelo Santa Cruz relembra que dom Helder dizia para Elzita: “A senhora tome cuidado. Eu sou como fogo. As pessoas quando chegam aqui saem todas queimadas”, num alerta sobre a repressão. Ela respondia: “Eu já estou no inferno faz muito tempo”.

A cada pista nova, surgia uma esperança. Meses depois do desaparecimento, chegou a informação de que Eduardo Collier estaria na França. Logo em seguida, verificou-se que não era verdade.
Em seguida, Elzita foi atrás de uma pista que dava conta de que Fernando estaria no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo.
Levou fotografias, distribuiu com os funcionários e voltou ao Recife sem encontrar o filho. Há 12 anos, esteve no IML (Instituto Médico-Legal) do Rio de Janeiro porque ficou sabendo que um homem muito parecido com Fernando foi enterrado como indigente. Olhou as fotografias e viu que não era seu filho.
Perdeu as contas de quantos quartéis visitou no Recife, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também esteve em inúmeros cemitérios na tentativa de achar as ossadas do filho.
Até morrer, Elzita mantinha o mesmo número do telefone fixo, na esperança de que o filho desaparecido pudesse ligar para casa ou que qualquer pista pudesse chegar a ela. Em um dos quartos de sua casa, guardava fotos, documentos e roupas de Fernando.

No aniversário de 102 anos, já bastante debilitada de saúde em razão da idade avançada, conseguiu completar, estimulada pelos filhos, o poema de autor desconhecido que repetiu a vida inteira.
“Hei de vê-lo voltar, ela dizia, o meu doce consolo, o meu filhinho. Passam-se anos, e o véu do esquecimento baixando sobre as coisas tudo apaga. Menos da mãe, no triste isolamento, a saudade que o coração esmaga."

QUEM FOI FERNANDO SANTA CRUZ DE OLIVEIRA

Fernando desapareceu em fevereiro de 1974, após ser preso por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, no Rio de Janeiro. Ele era pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, na época um bebê de dois anos.

Nascido no Recife, se juntou no fim dos anos 1960 à Ação Popular Marxista Leninista, grupo dissidente da Ação Popular, da juventude católica.
Nenhum documento escrito sobre ele pela própria ditadura o vincula a qualquer ato violento ou da esquerda armada. Fernando não era processado quando desapareceu, aos 26 anos. Ele usava seu nome e sobrenome reais e era funcionário público de uma empresa de água e energia de São Paulo.
No Carnaval de 1974, foi visitar seu amigo Collier, que morava no Rio. Desapareceu quando se dirigia ao encontro, em Copacabana.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/08/elzita-teve-saga-de-45-anos-em-busca-de-filho-alvo-de-sarcasmo-de-bolsonaro.shtml  05/08/2019

ELZITA SANTOS DE SANTA CRUZ OLIVEIRA (1913 - 2019)

Elzita buscou respostas de regime após desaparecimento de filho

Artur Rodrigues, 27/06/2019, Folha de São Paulo

A vida da pernambucana Elzita Santa Cruz se transformou no Carnaval de 1974, quando um dos filhos saiu e nunca mais voltou. O estudante de direito e funcionário público Fernando Augusto Santa Cruz, com 26 anos, desapareceu no Rio de Janeiro, a caminho de um encontro com militantes da Ação Popular Marxista-Leninista.

Ela, então, iniciou uma peregrinação por prisões, quartéis e órgãos de repressão, em busca de resposta.

Elzita Santa Cruz em frente à foto do filho Fernando, desaparecido durante a Ditadura Militar - Reprodução

"É justo, é humano, é cristão que um órgão de segurança encarcere, depois de sequestrar, um jovem que trabalhava e estudava, sem que à sua família seja dada qualquer informação sobre o seu paradeiro e as acusações que lhe são imputadas? Que direi ao meu neto quando jovem for e quando me indagar que fim levou o seu pai, se ele não tiver a felicidade de ver seu regresso?", escreveu, em carta ao marechal Juarez Távora, em 1974.

Filho de Fernando e neto de Elzita, o advogado Felipe Santa Cruz, hoje presidente do conselho federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), afirma que a avó fazia o confronto às autoridades com destemor. "Mas ela era doce e poética, representava a coragem das mães e o direito da mãe ter o corpo do próprio filho."

Elzita, que teve ainda dois outros filhos perseguidos pela repressão, virou um símbolo da luta contra a Ditadura. Após a redemocratização, continuou buscando por uma resposta para a pergunta que repetiu por 45 anos: "Onde está meu filho?". Documentos públicos revelariam que ele foi preso pelas forças da repressão, mas não seu paradeiro.

O caso de Fernando foi um dos analisados pela Comissão da Verdade e Elzita venceu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos em 2010.

Ela, que vivia em Olinda (PE), morreu aos 105 anos na terça-feira (25), sem as respostas que queria. Deixa sete filhos, 28 netos e 24 bisnetos.

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/06/mortes-mae-destemida-virou-simbolo-contra-ditadura.shtml  05/08/2019

sábado, 3 de agosto de 2019

Altamira e Belo Monte

Altamira é um município brasileiro localizado no estado do Pará, na Região Norte do país. Sua população estimada em 2018 era de 113 195 habitantes. Fica a uma altitude de 109 metros, latitude 03º12'12" sul e longitude 52º12'23" oeste.

Altamira foi notícia no dia 29 de julho de 2019. Péssima notícia: 58 presos foram mortos em uma rebelião no Centro de Recuperação Regional em Altamira. 16 deles decapitados. No dia seguinte foram assassinados mais 4 detentos que sobreviveram ao massacre do dia anterior e que seriam transferidos para outro presídio.

A Pastoral Carcerária Nacional / CNBB divulgou em 31/07/2019 a seguinte nota:
NOTA DA PASTORAL CARCERÁRIA NACIONAL SOBRE O MASSACRE EM ALTAMIRA
Por Pastoral Carcerária
Postado em 31 de julho de 2019
Em Combate e Prevenção à Tortura, Notícias

Diante de um dos maiores massacres ocorridos no sistema prisional, que tirou a vida de 62 presos, a Pastoral Carcerária se posiciona na nota abaixo.

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”.
(Constituição Pastoral – Gaudium Et Spes)

Nesta segunda-feira (29), pelo menos 58 pessoas foram mortas no Centro de Recuperação Regional de Altamira, no Pará. Mais quatro presos, que haviam sobrevivido, foram assassinados durante a transferência de Altamira para Marabá, totalizando, até o momento, 62 mortes.
Diante de mais um episódio de mortes no sistema carcerário, ocorrido dois meses após os massacres em Manaus, a Pastoral Carcerária Nacional vem a público se posicionar e afirmar, mais uma vez, que esses episódios de mortes massivas não são casos isolados: são consequências diretas do funcionamento do sistema prisional.
Após o massacre, a Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe) expôs a versão oficial de que a tragédia teria sido resultado de um ataque de uma facção à outra. Essa narrativa afasta a responsabilidade do Estado sobre as mortes, que são consequência inevitável do sistema prisional, cujo funcionamento leva a produção de dor e sofrimento, como afirmamos em nota pública acerca do recente massacre ocorrido em Manaus[1]
A tentativa de retirar o Estado dessa equação também serve para tornar um fato tão estarrecedor quanto a morte de 62 pessoas em um acontecimento banal, como fez o presidente da república quando questionado sobre o ocorrido [2].

Os fatores que levaram ao massacre desta semana não são naturais. Altamira, antes da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, era uma cidade com baixos índices de violência. A chegada das empreiteiras na cidade, no entanto, somado ao aumento vertiginoso da população por conta da obra, mudou a cidade por completo.
No ano 2000, a cidade registrava apenas oito homicídios e média de 9,1 mortes por 100 mil habitantes. Em 2015, e após a construção da usina, Altamira era cidade mais violenta de todo o Brasil[3].

O consórcio Norte Energia, responsável pela construção de Belo Monte, está custeando um novo complexo prisional na cidade, como “uma das contrapartidas pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte em Altamira”[4]. Ou seja, o consórcio responsável por tornar Altamira a cidade mais violenta do país financia a construção de um complexo prisional que vai, como todas as outras prisões, servir para descartar essas vidas tidas como indesejáveis e marginalizadas.
Essa também não é a primeira vez que ocorrem mortes no sistema carcerário de Altamira. Em setembro de 2018, uma rebelião deixou sete mortos. Os presos reivindicavam celeridade processual e melhoria das condições de aprisionamento[5]. Em outubro do mesmo ano, houve fuga no Centro de Recuperação de Altamira [6].

O Centro de Recuperação Regional de Altamira é uma unidade superlotada. Com capacidade para 163 presos, comportava 343. Relatório divulgado nesta segunda-feira pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) classifica as condições do presídio de Altamira como “péssimas”.
A Susipe também alegou que não tinha como saber que o massacre iria ocorrer, mas uma notícia no próprio site da Superintendência mostra que, no dia 20 de maio deste ano, familiares fizeram um protesto em frente à porta do órgão, pedindo a transferência de presos desta unidade, evidenciando a preocupação das famílias com a garantia da vida de seus entes queridos. [7]
A Susipe afirmou que estaria “acompanhando em tempo real todo o movimento da massa carcerária”. Desse dito acompanhamento refletiu-se o maior saldo de mortos dentro de um presídio na história do estado do Pará.

Mais uma vez, a solução requentada de abertura de novas vagas é apresentada pelo Estado, reforçando um ciclo infindável de construção de presídios e aumento da violência.
No entanto, tal medida em nada combate os efeitos mortíferos da política de encarceramento em massa, nem reduz a violência. Como afirmamos desde os massacres ocorridos em 2017 em Manaus, Roraima e Rio Grande do  Norte, não se trata de uma crise no sistema prisional, e sim de um projeto, que está se intensificando. Isto é, a máquina de moer gente está em pleno funcionamento[8].

Os ataques no Ceará no início do ano, o massacre em Manaus e as dezenas de mortes em Altamira, além das torturas e mortes diárias nas celas pelo país, são resultados desse projeto.
Se guardamos qualquer resquício de humanidade, a reversão do processo de encarceramento em massa é urgente. À luz da campanha da fraternidade de 2019, reforçamos nosso compromisso com a busca por políticas de desencarceramento.

A Pastoral Carcerária Nacional se solidariza com todas as vítimas, com os presos de Altamira e com seus familiares, e, enquanto massacres, mortes e torturas continuarem ocorrendo atrás das grades, estaremos denunciando e lutando contra o sistema prisional.

Pastoral Carcerária Nacional
Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora/CNBB

As consequências das hidroelétricas na Amazônia

Três grandes hidrelétricas na Amazônia foram concebidas e construídas sob protestos de ambientalistas e defensores dos povos originários, principalmente indígenas. Jirau e Santo Antônio no rio Madeira, Monte Belo no Rio Xingu. De 2011 a 2014 escrevi neste Blog sobre o tema. Terra inacabada, Terra inacabada 2, Terra inacabada 3 e Terra inacabada 4. As consequências destes projetos realizados ignorando suas consequências e desrespeitando alertas marcam a ganância aliada a tragédias.

Eliane Brum, “Belo Monte: a anatomia de um etnocídio” de dezembro 2014 e Dom Erwin Kräutler recentemente atestam as tragédias anunciadas.


terça-feira, 30 de julho de 2019

Filmes - parte 2

Diários de um cinéfilo

Letter from an Unknown Woman (Carta de uma desconhecida), Max Ophuls, 1948
Ship of Fools, Nau dos insensatos, 1965, Stanley Kramer
Amores expressos, 1994, Kar-Wai Wong
Caesar and Cleopatra, 1945, Gabriel Pascal (com Vivian Leigh), de George Bernard Shaw
Mu-roe-han, (The Shameless), Seung-uk Oh, 2015
Bite the bullet (Risco de uma decisão), 1975, Richard Brooks
Dead End, (Beco sem saída), 1937,  William Wyler com roteiro de Lillian Hellman
Julia, 1977, Fred Zinnemann
The Children's Hour (Infâmia), William Wyler, 1977
El abrazo de la serpiente, O abraço da serpente, 2015, Ciro Guerra
Iyana onna (Girassóis desesperados), Hitomi Kuroki, 2016
O pão nosso (Our Daily Bread), 1934, King Vidor
A turba (The Crowd), 1928, King Vidor
La passion de Jeanne d'Arc (O martírio de Joana d’Arc), 1928, Carl Theodor Dreyer
 Caravaggio – minissérie, 2007, Angelo Longoni
The Professor (O professor), Wayne Roberts, 2018  (com Johnny Depp)
Greta (Obsessão), 2018, Neil Jordan
No man of her own  (Casei-me com um morto),1950, Mitchell Leisen
Forty Guns, Dragões da violência, 1957, Samuel Fuller
Domino, Brian de Palma, 2019
Pájaros de verano (Pássaros de verão), Cristina Gallego e Ciro Guerra,  2018
The kid, Billy the Kid: O fora da Lei, Vincent D'Onofrio, 2019
Run for the high country, Paul Winters, 2018
Red Joan, A espiã vermelha, Trevor Nunn, 2018
Quo Vadis, Mervyn LeRoy e Anthony Mann, 1951
Amem, Costa-Gavras, 2002
Le capital (O Capital), Costa-Gavras, 2012
Samba, Olivier Nakache e Éric Toledano, 2014
Man without star (Homem sem rumo), King Vidor, 1955
Oeste sem lei, 2015, John Maclean
Los perros (Cachorros), 2017, Marcela Said


06/04/2019
Letter from an Unknown Woman (Carta de uma desconhecida), Max Ophuls, 1948


O destino, os amores frustrados e os desencontros são temas recorrentes nos filmes de Ophuls. Em vez de trata-los de modo tristonho ou negativista, o diretor preferia encena-los como uma valsa, fazendo seus pares girarem com suavidade e elegância, combinando melancolia e ironia. (Cassio Starling Carlos, Movimento e repetições combinam estilo e visão do mundo, Max Ophuls – Grandes diretores no cinema, Coleção Folha, Folha de São Paulo, 2018) 

09/04/2019
Ship of Fools, Nau dos insensatos, 1965, Stanley Kramer



Fazer de espaços limitados microcosmos representativos do comportamento da sociedade é um recurso bastante utilizado pela literatura, pelo teatro e, claro, pelo cinema. A Nau dos Insensatos, que Stanley Kramer dirigiu em 1965, pega carona nesse filão. O roteiro de Abby Mann, adaptado do romance de Katherine Anne Porter, nos conduz por uma viagem de navio que dura pouco mais de um mês. A ação se passa no início dos anos 1930 e começa em Vera Cruz, no México, com destino à Bremen, na Alemanha. Dentro da embarcação, os passageiros representam e antecipam ideias, posturas e ações que seriam adotadas pelo nazismo. É curioso constatar que Kramer vinha de Julgamento em Nuremberg, elogiado drama de guerra feito quatro anos antes, e de Deu a Louca no Mundo, comédia maluca de muito sucesso popular, de 1963. Em A Nau dos Insensatos, de certa forma, ele dialoga com o filme de 1961. É como se aqui tivéssemos o prólogo e no outro, o epílogo. Diretor habilidoso, Kramer reuniu um elenco dos mais ecléticos e produziu essa sutil e ao mesmo tempo contundente parábola sobre a natureza humana, vencedora do Oscar nas categorias de direção de arte e fotografia, ambas em preto e branco. 

Vivian Leigh no filme

Simone Signoret (1921 - 1985)

Simone Signoret (1921-1985)

10/04/2019
Amores expressos, 1994, Kar-Wai Wong


Wong Kar Wai foi um dos fortes representantes das modificações no campo cinematográfico que ocorriam no triângulo Hong Kong – China – Taiwan em meados dos anos 80. Seu cinema é pontuado por uma forte vitalidade e estética primorosas, algo que já percebido em sua estreia, Conflito Mortal (1988).
A partir de Dias Selvagens (1990), seu segundo filme, identificamos a presença de uma identidade criativa, não apenas estética, mas também temática. Figurinos estilizados, pessoas comendo, pessoas fumando, a passagem do tempo através de contadores na tela (relógios, calendários), a violência e o amor em todas as suas complicações passaram a ser a alma de suas películas. Essa alma ainda recebe uma inesquecível trilha sonora e uma fotografia notável, elementos que recebem cuidados especiais do diretor, muitas vezes em detrimento do roteiro, o que é uma pena.
Mas engana-se quem acredita que ver um filme de Wong Kar Wai é apenas contemplar um desfile de ingredientes autoriais próprios e escrupulosa realização técnica. Em todas as suas incursões pelo ambiente do amor, o diretor conseguiu trazer uma visão particular para o tema, seja pela continuação do drama de personagens em seus filmes (não vamos nos aprofundar nesse tema, mas Kar Wai é responsável por uma verdadeira saga de indivíduos que atravessam décadas em cada um de seus longas), seja pela abordagem social diferenciada, ou do micro ambiente geográfico em que elas se encontram. (Luiz Santiago,) 

10/04/2019
Caesar and Cleopatra, 1945, Gabriel Pascal (com Vivian Leigh), de George Bernard Shaw




Vale pelo registro e pela Vivien.

11/04/2019
Mu-roe-han (The Shameless), Seung-uk Oh (2015)


Thriller coreano ótimo 

12/04/2019
Bite the bullet (Risco de uma decisão), 1975, Richard Brooks


O vaqueiro Sam Clayton que acaba de ser demitido, seu amigo pistoleiro, uma prostituta que precisa de dinheiro, um cavaleiro, um atleta e outros dois vaqueiros - um velho e um jovem - se inscrevem para competir na mesma corrida de cavalos, patrocinada pelo ex patrão de Clayton. Eles devem percorrer mais de mil km pelo deserto, atravessando todo tipo de obstáculos e submetendo os cavalos a terríveis condições, tudo para conseguir o prêmio final. Weak

Em 1906, o vaqueiro Sam Clayton leva uma égua até uma estação de trem no Colorado, mas no caminho se atrasa e se desencontra de seu patrão, ao salvar um potro que estava perdido. A égua pertence ao dono de um grande jornal de Denver e irá participar de uma corrida de cavalos de 700 milhas (cerca de 1.100 quilômetros) pelo interior, patrocinada por ele. O atraso faz com que Sam seja despedido. Sem nada para fazer, ele resolve se inscrever na corrida. Os outros concorrentes são: seu amigo pistoleiro e jogador Luke Matthews, com quem lutara em Cuba, na guerra contra os Espanhóis; uma prostituta que quer ajudar o marido preso;um esportista inglês; um cavaleiro mexicano com uma terrível dor-de-dente; um velho vaqueiro que chamam de "Mister" e um jovem vaqueiro de má índole e falastrão.

O filme mostra os maus-tratos de animais num faroeste, com cenas de cavalos agonizantes e mortos permeando a narrativa. Baseado num evento verdadeiro, uma corrida de cavalos no interior dos Estados Unidos no início do século XX, o filme teve locações no Novo México e Nevada.

14/04/2019
Dead End, (Beco sem saída), 1937,  William Wyler com roteiro de Lillian Hellman



Toda rua em Nova York termina em um rio. Por muitos anos as margens do Rio East ficaram cobertas pelo lixo vindo dos cortiços, mas os ricos, vendo que o curso do rio era pitoresco, moveram suas moradias na direção leste e assim as varandas de apartamentos grandes têm a vista para as janelas dos cortiços. Após 10 anos de crimes, que envolvem o assassinato de oito pessoas, "Baby Face" Martin (Humphrey Bogart) volta para Nova York para ir até o cortiço onde cresceu até ser mandado para o reformatório, pois quer rever sua mãe (Marjorie Main) e Francey (Claire Trevor), sua ex-namorada. Ele tentou disfarçar a aparência fazendo uma plástica mas não adiantou, pois foi reconhecido por Dave Connell (Joel McCrea), um antigo amigo que escapou da criminalidade e se formou em arquitetura. Porém Dave está frustrado, pois é mais um na lista dos desempregados que luta por alguns dólares. Dave o ter reconhecido não preocupa Martin, pois sabe que ele conserva a boca fechada. Martin está com Hunk (Allen Jenkins), seu guarda-costas, que sempre o relembra que ele é o maioral e que não precisa daquilo. Mas Martin não deixará o local até achar Francey, pois quando achou a mãe ela bateu no seu rosto e o renegou, então precisa fazer com que sua viagem tenha algum sentido. Quando a encontra suas doces lembranças são destruídas, pois ela se tornou uma amarga prostituta.

Filme vale pela direção e Lilian Hellman (roteiro)

15/04/2019
Julia, 1977, Fred Zinnemann


Duas amigas de infância trilham caminhos diferentes: a mais rica, Julia (Vanessa Redgrave), foi estudar em Viena e a outra, Lillian Hellman (Jane Fonda), se tornou escritora, que quando alcança a fama é convidada para ir a União Soviética. Julia, que vive na Europa, lhe pede que contrabandeie dinheiro através da Alemanha para ajudar as vítimas do nazismo, que se encontrava em ascensão meteórica. A missão apresentava perigo, pois Lillian era uma intelectual judia que rumava para a Rússia comunista. As duas têm um rápido encontro e a escritora fica sabendo que Julia tinha uma filha. Logo após retornar para a América do Norte, Lillian fica sabendo que sua rica amiga foi assassinada. Ela então viaja para a Inglaterra na esperança de encontrar a filha de Julia, a quem tinha prometido cuidar.

No início do filme tem a citação clássica de Lilian Hellman:
“À medida que o tempo passa, a tinta velha de uma tela muitas vezes se torna transparente. Quando isso acontece, é possível ver, em alguns quadros, as linhas originais: através de um vestido de mulher surge uma árvore, uma criança dá lugar a um cachorro e um grande barco não está mais em mar em mar aberto. Isso se chama pentimento, porque o pintor se arrependeu, mudou de ideia. Talvez se pudesse dizer que a antiga concepção, substituída por uma imagem ulterior, é uma forma de ver, e ver de novo, mais tarde. Essa é a minha única intenção a respeito das pessoas neste livro. A tinta ficou velha, e quis ver como me pareciam antigamente, e como me parecem agora.” (Lilian Hellman, Pentimento, 3ª edição, Francisco Alves, 1981.)

Sobre o filme? Sensivelmente impecável para quem já conhece ou não conhece Lilian Hellman. 

16/04/2019
The Children's Hour (Infâmia), William Wyler, 1977


Karen Wright (Audrey Hepburn) e Martha Dobie (Shirley MacLaine) são amigas há muitos anos e, juntas, administram um colégio interno só para meninas. Depois de ser punida pelas professoras por contar mentiras, uma aluna reclama com sua avó e inventa que Martha tem ciúmes de Karen, que é noiva do médico Joe Cardin (James Garner). A senhora fica horrorizada e tira a menina da escola, além de espalhar o boato. As duas mulheres começam um batalha contra essas acusações, e suas consequências. (Versatil)

Sobre o filme

25/04/2019
(El abrazo de la serpiente) O abraço da serpente, 2015/

Ver neste Blog O abraço da serpente

26/04/2019
Iyana onna (Girassóis desesperados), Hitomi Kuroki, 2016


Filme bem japonês e muito bom

29/04/2019
O pão nosso (Our Daily Bread), 1934, King Vidor



O próprio King Vidor deu estes detalhes sobre um filme que lhe falava muito ao coração: “A juventude não tem idéia do que foi a crise americana no início dos anos 30, com desemprego e a depressão, as passeatas de fome. Eu quis retomar então os dois personagens de A Turba, como um casal típico americano vivendo esse período difícil. John (Tom Keens) e Mary (Kareen Morley), desempregados numa grande cidade, herdavam uma fazenda em ruinas. Ali se instalavam e, admitindo-se incompetente, John se juntava a um camponês desempregado, um carpinteiro, um pedreiro, um bombeiro, um mecânico, um contador etc. Até o momento em que uma centena de homens tiram seu sustento de uma terra fértil.”
Embora demasiado utópico em suas soluções, o filme era sincero.
Sequencia famosa: a chegada da água sobre a terra a ser irrigada, após longos e difíceis trabalhos. (Georges Sadoul, “Dicionário de filmes”, LPM, 1993, p.300).

Minhas impressões: o filme exala um clima de solidariedade para não dizer socialismo. Clima perceptível na época da depressão nos USA.

30/04/2019
A turba (The Crowd), 1928, King Vidor



Presentación de "Y el mundo marcha" (King Vidor, 1928)

"Este filme sem dúvida muito amargo foi bastante corajoso, mostrando a vida do homem do povo americano. É a obra-prima de Vidor" (Georges Sadoul, “Dicionário de filmes”, LPM, 1993, p.400).


07/05/2019
La passion de Jeanne d'Arc (O martírio de Joana d’Arc), 1928, Carl Theodor Dreyer


O processo de Joana (Marie Falconetti) desde a abertura até a fogueira. O roteiro de Dreyer e Delteil concentrou num dia o processo e a morte. Dreyer baseou a parte mais importante de sua dramaturgia num diálogo tirado das minutas autênticas do processo.
Valerine Hugo disse da atmosfera criada por Dreyer: 
“Essa atmosfera opressora de terror, de processo iníquo, de eterno erro judiciário, nós a sofremos o tempo todo... Vi os atores mais desconfiados, arrebatados pela vontade e a fé do diretor, continuarem encarnado seus papéis inconsistentemente após as tomadas de cena: como o juiz que resmungava, após uma cena na qual parecia sensibilizado pela dor de Joana.”
... “foi particularmente impressionante o dia em que, num silêncio de sala de operação, sob a luz de manhã de execução, rasparam-se os cabelos da Falconetti. Nossa sensibilidade, ainda subjugada a antigos preconceitos, estava tocada, como se a marca da infâmia realmente se aplicasse ali. Os eletricistas e maquinistas retinham a respiração, e os olhos enchiam-se de lágrimas.”  Falconetti chorou de fato: “Então o diretor aproximou-se lentamente da heroína, recolheu com os dedos algumas das lágrimas e levou-as em seguida aos próprios lábios.
Dreyer quis reter apenas o sentido profundamente humano do processo e da morte de Joana D’Arc. A opção pelo realismo, a punjança aguda das imagens, acentuam essa vontade, tanto assim que nada mais surge, desse desenrolar implacável, que o jogo de uma pobre moça inspirada, nobre e infeliz, presa de juízes dispostos a tudo. O tribunal adquire significado simbólico e eleva-se quase à síntese. Sua hipocrisia e baixeza o colocam no banco dos réus, de tal modo que não se tem a impressão de assistir a um processo cuidadosamente situado no tempo, mas, fora de uma época convencional, a um drama do qual se descobriram tantos exemplos mais obscuros na história da luta de classes”.
A verdade desta afirmação foi comprovada pelo fato de que jamais se pode projetar durante 1940 – 1944 este A paixão de Joana D’Arc em nenhum pais da Europa ocupada.
Filme narrado por Pierre Bost. Prefácio de Valentine Hugo, Jean Cocteau, Lacretelle, Paul Morand (Gallimard). 
(Georges Sadoul, “Dicionário de filmes”, LPM, 1993, p. 207 e 208).


Sobre este filme: chocante a dramaticidade. É imperdível. Viva o cinema!! Vale comprar o DVD da Versátil.






09/05/2019
Caravaggio – minissérie, 2007, Angelo Longoni

Sobre esta série ver neste Blog Caravaggio imortal

22/05/2019
The Professor (O professor), Wayne Roberts, 2018  (com Johnny Depp)


Richard (Johnny Depp) é um professor universitário que é diagnosticado com uma doença terminal e tem sua vida transformada da noite pro dia. Se sentindo tão próximo do fim, ele decide jogar todo tipo de convenção pela janela e viver sua vida o mais intensamente e com maior liberdade possível, sem nenhuma preocupação.

Sobre: tem Johnny Depp. Que por sinal vive hoje um inferno astral como neste filme. A vida imitando a arte.

23/05/2019
Greta (Obsessão), 2018, Neil Jordan


Frances (Chloë Grace Moretz) é uma jovem mulher cuja mãe acaba de falecer. Recém-chegada em Manhattan e cheia de problemas com o pai, ela divide apartamento com a amiga Erica (Maika Monroe) e trabalha como garçonete de um luxuoso restaurante. Um dia, voltando para casa, Frances encontra uma bolsa abandonada em um dos assentos do metrô, e, ao devolvê-la, acaba iniciando uma amizade improvável com a dona do acessório, uma senhora viúva chamada Greta (Isabelle Huppert). Os problemas começam a surgir quando Frances percebe que a necessidade de atenção de Greta é muito mais perigosa do que ela imaginava.

Sobre: tem Isabelle Huppert. Já basta.

Seguindo Barbara Stanwyck

26/05/2019
No man of her own  (Casei-me com um morto),1950, Mitchell Leisen 



Dirigido por Mitchell Leisen (A Porta de Ouro e Lembra-te Daquela Noite), traz Stanwick no papel de Helen Ferguson, uma mulher grávida que é abandonada pelo namorado, o mal caráter Stephen (Lyle Bettger). Dispensando-a, Stephen lhe dá dinheiro e uma passagem de trem. Durante a viagem ela conhece o simpático casal Harkness, que viaja de volta para casa. A esposa está grávida e vai conhecer a família pela primeira vez. Fazendo amizade com o casal, Helen prova o anel de Patrice Harknes (Phyllis Thaxter) quando o trem em que viajam descarrilha. Helen acorda em um hospital, e todos pensam que ela é Patrice Harknes. À princípio ela pensa em negar, mas percebendo se tratar de uma boa família decide manter a farsa. Helen é aceita como uma filha e logo passa a ser a querida dos “sogros” e do cunhado Will (John Lund), que logo se apaixona por ela. Como ela nunca conhecera o amor de fato, sente-se totalmente acolhida por todos e pensa viver um dos momentos mais tranquilos de sua vida. Até que ela recebe um bilhete anônimo e sua vida começa a mudar. Stephen a encontra, finalmente, e começa a chantageá-la para receber dinheiro da abastada família. Narrado em flashbacks, No Man of Her Own foi inspirado no livro Married a Dead Man, lançado por Cornell Woolrich em 1948. O livro ainda seria adaptado para as telas duas outras vezes, em 1982 (J’ai Épousé une Ombre) e em 1996, em forma de comédia (Mrs. Winterbourne). O final é bem surpreendente e acaba configurando-o mais como um melodrama do que como um noir, embora possua características de ambos os movimentos.

Sobre: melodrama sim, mas tem Barbara Stanwyck.

Forty Guns, 1957, Samuel Fuller


Eve Brent (1929–2011) vista sob o cano de uma arma

Sobre: tem Barbara Stanwyck, mas o filme é de Samuel Fuller. Não existe cinema sem Samuel Fuller  

05/06/2019
Domino, Brian de Palma, 2019


Sobre: último filme de Brian de Palma. Continua muito bom. A estética de sempre. 

06/06/2019
Pájaros de verano (Pássaros de verão), Cristina Gallego e Ciro Guerra,  2018


Novo longa do cineasta Ciro Guerra (do maravilhoso “O Abraço da Serpente”, indicado ao Oscar 2016), agora em parceria com sua esposa e também realizadora Cristina Gallego, Pássaros de Verão (Pájaros de Verano) retrata o surgimento do tráfico de drogas sob o prisma dos wayúus, um povo indígena que vive da região de Guajira. A história, que se passa entre os anos 60 e 80, tem como personagem principal Rapayet (José Acosta), um wayúu que, depois de passar um tempo longe da sua terra, volta para casar com Zaida (Natalia Reyes). O filme começa com a bela cena do ritual em que a família anuncia que a moça já não é mais uma criança e está pronta para ser desposada. É neste momento que o jovem protagonista se apaixona por ela. Só que ele enfrentará a resistência de Úrsula (Carmiña Martinez), matriarca da Família Pushaina, mãe de Zaida e aquela que tem sonhos proféticos com mortos.
O que vemos na telona é uma autêntica saga familiar, no melhor estilo da trilogia de Francis Ford Coppola ou de “Era Uma Vez na América” (1984), de Sérgio Leone, mas sem abrir mão do viés antropológico existente na obra anterior de Ciro Guerra. Dividido em cinco capítulos, chamados de ‘cantos’, pois cada um deles começa ou termina com uma canção indígena que ajuda a narrar e a contextualizar a história, a película pode até soar didática para alguns, só que este suposto didatismo era necessário face a grande quantidade de elementos culturais estranhos a quem não é da região. Estas particularidades só seriam um problema se, em função delas, a narrativa se tornasse arrastada. O que não acontece. Calcados na exuberância da fotografia e da direção de arte, Guerra e Gallego fizeram um maravilhoso thriller de gângsteres com mortes, corpos e sangue. Era uma vez na Colômbia…


10/06/2019
The kid, Vincent D'Onofrio, 2019


“Só importa a história quando eles se foram.” Nova abordagem sobre Billy the Kid. Vale ver.

23/06/2019
Run for the high country, Paul Winters, 2018


Sobre: um manifesto em defesa dos indígenas.

24/06/19
Red Joan, Trevor Nunn, 2018


Em 1938, a britânica Joan Stanley estudava física em Cambridge quando se apaixonou por um jovem comunista. Na mesma época, ela foi convocada pelo Comitê de Segurança Russo (KGB) para atuar como espiã do Governo de Stalin no Reino Unido. Depois de mais de cinquenta anos de serviço muito bem sucedidos, ela foi descoberta e presa pela Serviço de Inteligência Britânico (MI5).
Este A Espiã Vermelha nos relata, de forma sutilmente ficcional, a saga da espiã inglesa Melita Norwood (1912-2005) que durante os anos de 1937 até 1972 forneceu informação confidencialmente lacrada à Russia e que, em 1992, foi apreendida, após décadas de sua atuação imperdoável aos olhos da Justiça, pelo Ministério de Defesa Britânico, leia-se, Serviço Secreto da Rainha; considerada pela imprensa contemporânea à sua terceira idade como uma “instável simpatizante dos soviéticos e dos comunistas”, ela não chegou a ser condenada por já estar com mais de oitenta anos de idade. (Armando Miranda, )


Sobre: Muito bom. A ver.

08/07/2019
Quo Vadis, Mervyn LeRoy e Anthony Mann, 1951


Sobre: Assisti este filme depois de ver Quo Vadis de 1912 (https://www.youtube.com/watch?v=QfZs-C0E1w0 ). Uma estória clássica vista de duas épocas cinematográficas diferentes.


07/07/2019
Amem, Costa-Gavras, 2002


Kurt Gerstein (Ulrich Tukur) é um oficial do Terceiro Reich que trabalhou na elaboração do Zyklon B, gás mortífero originalmente desenvolvido para a matança de animais mas usado para exterminar milhares de judeus durante a 2ª Guerra Mundial. Gerstein se revolta com o que testemunha e tenta informar os aliados sobre as atrocidades nos campos de concentração. Católico, busca chamar a atenção do Vaticano, mas suas denúncias são ignoradas pelo alto clero. Apenas um jovem jesuíta lhe dá ouvidos e o ajuda a organizar uma campanha para que o Papa (Marcel Iures) quebre o silêncio e se manifeste contra as violências ocorridas em nome de uma suposta supremacia racial. (Adorocinema)

Sobre: corajosa viagem de Costa-Gavras pelo mundo nazi. A mesma pegada de Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém”, livro de 1963


10/07/2019
Le capital (O Capital), Costa-Gavras, 2012


Os cidadãos do século XXI são escravos do Capital: sofrem com os problemas e celebram os triúnfos. Esta é a história da ascensão de um escravo do sistema que transforma-se em seu mestre. O trabalhador Marc Tourneuil (Gad Elmaleh) se aventura no mundo feroz do Capital. Ao mesmo tempo, o chefe de um importante banco de investimentos europeu se apega ao poder, quando uma empresa americana tenta comprá-los. (Adorocinema)

“De maneira bem mais “comportada”, digamos assim, Costa-Gavras vai nos carregando pela mão junto com este Fausto moderno, que não deseja a eterna juventude, mas o eterno poder – ou, enquanto dure. Embora paradoxalmente consciente, Marc se deixa embriagar pelo poder, fechando os olhos para o inferno que lhe aguarda.” Sidnei C. 

12/07/2019
Samba, Olivier Nakache e Éric Toledano, 2014


Samba (Omar Sy) é um imigrante do Senegal que vive há 10 anos na França e, desde então, tem se mantido no novo país às custas de empregos pequenos. Alice (Charlotte Gainsbourg), por sua vez, é uma executiva experiente que tem sofrido com estafa devido ao seu trabalho estressante. Enquanto ele faz o possível para conseguir os documentos necessários para arrumar um emprego digno, ela tenta recolocar a saúde e a vida pessoal no trilho, cabendo ao destino determinar se eles estarão juntos nessa busca em comum. (Adorocinema)

Sobre: vale ver.

17/07/19
Man without star (Homem sem rumo), King Vidor, 1955



"Homem sem Rumo" é, basicamente, a história de um cowboy que foge do arame farpado. Todos sabemos que os cowboys fogem da civilização, rumo a uma vida mais livre. É uma das convenções centrais do faroeste. Mas Kirk Douglas (ou Dempsey Rae), aqui, é um pouco mais radical: é do arame farpado que ele foge.
E não pode haver sinal mais agressivo da chegada da civilização que o arame farpado, que designa o direito de propriedade. Quem transgredir, avançando sobre domínios do outro, vai se ferir seriamente.
Isso posto, a tendência de Dempsey é se retirar. Não fugir, pois é um exímio atirador. É também um "bon vivant", aprecia música e mulheres. A diferença entre fugir e retirar-se, no entanto, pode ser diminuta.
Existe uma facilidade em sua atitude básica -botar sua sela num trem e partir tão logo o arame farpado aparece.
Por isso ele é o "homem sem estrela" do título original: não tem estrela a seguir, não tem rumo. Ora, o rumo parece se mostrar na pessoa de Reed Bowman (Jeanne Crain), uma proprietária de gado que chega do Leste trazendo o espírito predatório: seu negócio é usar as terras do governo como pasto, devastá-las em poucos anos, constituir um rebanho enorme, enriquecer e retirar-se.
Ora, sabemos, não é para isso que o Oeste foi criado. E sim para que a terra fosse produtiva, gerasse trabalho e riqueza, geração após geração. O capitalismo predatório não é coisa que um americano aceite facilmente. Menos ainda um americano liberal, como King Vidor.
É em torno disso -como da atitude que Dempsey Rae terá quanto ao arame farpado- que gira a última obra-prima de King Vidor. Filme modesto, em termos de produção, que precede as superproduções ("Guerra e Paz" e "Salomão e a Rainha do Sabá") com que encerraria a carreira, mas às quais é superior em vigor e invenção. "Homem sem Rumo" é um dos grandes faroestes da história.

CRÍTICO DA FOLHA, São Paulo, domingo, 08 de junho de 2008


24/07/2019
Oeste sem lei, 2015, John Maclean

Um jovem apaixonado viaja em direção às fronteiras dos Estados Unidos em busca da garota que ama. Junto a ele vem o misterioso Silas, um pistoleiro e protetor talentoso, que pode ter os seus próprios objetivos nessa viagem pelo oeste selvagem.
“Todo este apuro estético ganha ainda mais força através das magníficas paisagens da Nova Zelândia, que serviram de locação para representar o oeste americano – assim como as paisagens espanholas e italianas dos spaghetti westerns nas décadas de 1960 e 1970. Neste cenário exuberante, Maclean ainda se permite inserir elementos por puro prazer visual, como a figura do pistoleiro vestido de padre. Talvez a quantidade de conteúdo abordada pelo cineasta seja muito densa para uma obra tão concisa, com menos de uma hora e meia de duração, o que apressa um pouco alguns desenvolvimentos, como a transformação de comportamento de Silas. Felizmente, não é algo que tire a credibilidade da narrativa, especialmente quando chegamos ao seu catártico ato final.” Leonardo Ribeiro

Um faroeste da Nova Zelândia. Não Roliudi. Show de bola.

28/07/2019
Los perros (Cachorros), 2017, Marcela Said


Mariana (Antonia Zegers) faz parte de uma importante família chilena, mas, apesar dos privilégios, encontra-se inteiramente infeliz em sua própria casa. Sentindo-se desprezada pelo pai e pelo marido, ela encontra refúgio nos braços do seu professor de equitação Juan (Alfredo Castro), acusado de diversos crimes durante a ditadura. A partir deste caso amoroso, Mariana contempla o passado de sua família vir à tona.
“A postura da personagem em relação aos homens diz muito sobre seu ponto de vista em relação à História do país. A herdeira já ouviu falar no possível envolvimento do pai na ditadura militar; ela escuta diariamente insinuações de que o professor de equitação seja um coronel assassino, mas prefere fechar os olhos a esses fatos. A mistura de ignorância e alienação na burguesia chilena constitui o tema central de Cachorros. Mariana não é uma mulher pouco inteligente, nem propriamente cínica: ela filtra da realidade aquilo que a interessa, permanecendo na confortável bolha de submissão aos homens e privilégios financeiros.”  Bruno Carmelo

Que bom assistir a um filme (muito bom) chileno. E não é roliude.