domingo, 11 de setembro de 2016

O golpe parlamentar e empresarial

A DESESTABILIZAÇÃO, O GOLPE E A "SOCIEDADE CIVIL GELATINOSA" DO GOLPISMO
 
Francisco Fonseca
(prof. de ciência política da FGV/Eaesp e PUC/SP)

09/09/2016 22:56
http://cartamaior.com.br/

O golpe parlamentar efetivado em 31 de agosto foi o resultado de diversos fatores conjugados voltados à desestabilização política, institucional, social, informativa, ideológica e moral do Governo Dilma.  Abaixo alguns dos principais personagens, fatores e fenômenos desse longo processo de golpeamento da democracia e de incriminação fascista de um governo e de um partido político. A forma abaixo apresentada não é necessariamente hierárquica ou cronológica, uma vez que vários dos processos elencados ocorreram de forma simultânea:
 
-Setores majoritários da Câmara dos Deputados, a partir da ascensão do deputado Eduardo Cunha como seu presidente, que ostensivamente, por meio das chamadas "pautas bombas" e do bloqueio de todas as iniciativas do Executivo, atuou no sentido de impedir toda e qualquer iniciativa política, econômica e administrativa do Governo Dilma;  
-Tendo como mote o não reconhecimento da derrota eleitoral em 2014, o golpismo dos partidos políticos derrotados – PSDB, DEM e PPS –, paulatinamente secundados pelo PSB e, mais adiante, pelos pequenos e médios partidos de centro-direita reunidos em torno do chamado "Centrão".
 
-A conspiração de segmentos empresariais internacionais e nacionais vinculados ao rentismo e a cadeias internacionais de produção, cujo objetivo era a fragilização do G-20 – e consequentemente do banco e do fundo recentemente criados – e a desestruturação do Mercosul, cujo vetor é a desconstrução da política exterior Sul/Sul.
 
-A quase totalidade dos empresários nacionais desejosos, desde sempre – isto é, mesmo a burguesia nacional privilegiada pelos governos petistas –, da derrogação dos direitos trabalhistas, prioritariamente, e também dos direitos sociais, com vistas a estabelecer "ambiente de negócios" atrativo ao Capital: nacional e estrangeiro, uma vez que cada vez mais interligados.
 
-As classes médias superiores, composta por profissionais liberais, pequenos burgueses, rentistas médios e todos aqueles que não vivem apenas ou necessariamente de salários, uma vez que desgostosas das políticas de ascensão social promovidas pelos governos petistas. Como se sabe, trata-se de resistência à percepção, mesmo que irreal, da perda de prestígio e privilégios, caso do acesso à universidade e a bens de consumo e serviços aos pobres.
 
-Setores ascendentes das classes médias baixas – aquilo que se chamou de "a nova classe média" –, cuja ascensão se deu justamente pelas políticas públicas inclusivas de Lula e Dilma, que foram, contudo, seduzidas pelo discurso ideológico da "meritocracia individual", pendendo ao conservadorismo. Também segmentos de "inocentes úteis", que serão fortemente penalizados pela política econômica e antissocial de Temer, caíram na armadilha ardilosa e fascista do discurso do "combate à corrupção" e passaram a apoiar, mesmo que passivamente, a desestabilização.
 
-A grande mídia comercial (emissoras de tvs e rádios, jornais e revistas e grandes portais da internet) que, aproveitando-se da mais completa desregulação e desregulamentação do Estado brasileiro, desde sempre, e turbinada – curiosa e paradoxalmente – por polpudos recursos publicitários dos governos petistas, lançarem-se na lancinante campanha golpista. Sua atuação desestabilizadora e golpista encontra-se em posição oposta à sua credibilidade, embora ainda com grande repercussão entre a maioria dos brasileiros. Deve-se ressaltar o papel decisivo e primordial do Sistema Globo nesse processo, voltado à desestabilização e ao golpismo, desde sempre e particularmente neste momento.
 
-A ação inconstitucional – portanto fartamente ilegal –, seletiva, persecutória e articulada à grande mídia comercial da Operação LavaJato, cujo objetivo passou a ser fundamentalmente destruir política e eleitoralmente o Governo Dilma, o PT e Lula. A Operação LavaJato atenta ostensiva e vigorosamente contra o Estado de Direito Democrático. O discurso moralista do suposto combate à corrupção, catalisado pelo juiz Sérgio Moro – cuja atuação é militantemente política e extra-legal, reitere-se –, representou a porta de entrada para todo tipo de oportunismo político: jurídico, político/eleitoral, informacional, parlamentar, social e ideológico.
 
-A leniência do STF e da PGR aos atentados ao Estado de Direito Democrático desfechados pela Operação LavaJato, tornando-se consorciados a esta Operação num complexo continuum.
 
-A ação da Polícia Federal, componente da Operação LavaJato, com os mesmos propósitos referidos desta, e sem que o Ministério da Justiça – ao qual está submetida – no Governo Dilma, comandado por José Eduardo M. Cardoso, nada fizesse para contê-la no sentido de circunscrever sua atuação nos marcos constitucionais e republicanos.
 
-Os think-tanks, e seus financiadores, internacionais (irmãos Koch, por exemplo) e nacionais (Instituto Millenium, entre tantos outros), voltados à propaganda ideológica que instrumentalizou – e financiou – grupos como MBL, Vem pra Rua e Revoltados On Line, entre outros. Grupos empresariais igualmente participaram dessa campanha ideológica (com financiamento) antipetista, anti-governo, anti-Lula e anti-direitos sociais, trabalhistas, políticos e civis.
 
-Na reta final do processo – no sentido kafkaniano – do impeachment, o Senado passou a atuar de forma golpista, produzindo verdadeira peça de ficção (verdadeiro "faz-me-rir" supostamente jurídico) quanto ao suposto "crime de responsabilidade" da presidente Dilma.
 
-As próprias debilidades do Governo Dilma, por meio da incapacidade de controlar republicanamente a PF, como se disse, assim como de escolher um Procurador Geral da República defensor do Estado de Direito Democrático, cuja lista tríplice se deu no ano passado, em meio à crise, e cuja escolha recaiu na recondução de Rodrigo Janot, que claramente voltara-se à desestabilização. Também a escolha do ministro do STF, Luiz Fachin, mostrou-se nula do ponto de vista de anteparos à desestabilização. Trata-se de três fatores essenciais à debilidade do Governo Dilma, que contribuíram decisivamente para sua queda. Não bastasse isso, a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda com vistas ao "ajuste fiscalista" conservador e neoliberal afastou vigorosamente o Governo Dilma dos movimentos sociais, dos progressistas e da esquerda. Em meio a tudo isso, a própria personalidade política da presidente e de seu Governo contribuíram para a fragilização governamental, tendo em vista um certo isolamento arrogante, o distanciamento dos movimentos sociais, a incapacidade sistêmica de articulação junto ao Congresso Nacional e a outros atores relevantes, e mesmo ao não enfrentamento – naquilo que poderia enfrentar – de polos de poder, caso da mídia, como se disse.
 
-O não enfrentamento dos grandes polos de poder e de constrangimentos às políticas progressistas, casos notórios da reforma política e do enquadramento democrático da mídia.
 
-A perda de hegemonia do PT levou às seguintes rupturas: o desfazimento do amplo campo de centro-esquerda, em que o PSB, o PDT e outros partidos menores ocupavam papel importante na arena partidária e parlamentar; a saída da Força Sindical (de centro-direita no espectro ideológico) e de outras centrais sindicais menores da base de apoio social e governamental, tornando-se golpistas e portanto desestabilizadoras; a ascensão da direita ideológica e raivosa em todos os setores sociais – processo advindo desde junho de 2013 – que, "saindo do armário", passou a pautar e encurralar as ideias progressistas e de esquerda, tendo encontrado farta recepção entre os meios de comunicação e entre partidos que nasceram originalmente com bandeiras "modernas": caso do PSDB, que se tornou cada vez mais parecido com as velhas oligarquias, mesmo atuando nos grandes centros urbanos, e cuja atuação é marcada pela corrupção endêmica, aparelhamento partidário sistêmico, autoritarismo policial, políticas elitistas e neoliberais, opacidade quanto aos recursos públicos e tantos outros atributos antidemocráticos, cujos exemplos notáveis são os Governos Alckmin e Richa.
 
-A crise econômica internacional, provinda do crash de 2008 e não resolvida até os dias de hoje, mas que fora postergada acertadamente pelo Governo Dilma – embora com doses por vezes acima do recomendável – por meio das chamadas "políticas anticíclicas". Tais políticas se esgotaram, uma vez que têm validade limitada no capitalismo. Seu esgotamento levou também ao fim da "aliança de classes" perseguida pelo Governo Lula desde a "Carta ao Povo Brasileiro" e pelo híper realismo governamental dos estrategistas dos governos petistas: o próprio Lula, conciliador desde sempre, José Dirceu, José Genuíno, entre outros. Consequentemente ruiu o – tomado como mantra – "presidencialismo de coalizão" sem que o governo e o PT conseguissem minimamente rever suas estratégias perante a nova realidade.
 
-Por fim, o modelo contemporâneo de acumulação capitalista – tema de meu próximo artigo –, baseado na flexibilização do capital (combinação do capital produtivo com o especulativo, com predominância deste), do consumo (obsolescência programada, produção por lotes, just in time) – ambos em pleno desenvolvimento no Brasil –, e da força de trabalho: a ser atacada nesse momento. Tudo isso num contexto de profunda interconexão internacional. Trata-se de exigência desse modelo flexível de acumulação a redução substantiva do "custo" do trabalho – tratado ideologicamente de "custo Brasil" – e da criação de "ambiente de negócios propício", que implicaria a vinda profusa do capital estrangeiro, com supostos "benefícios" a países que, na divisão internacional do trabalho, não teriam como "competir" pela produção tecnológica e pela exportação de produtos com valor agregado, caso do Brasil (perspectiva essa já demonstrada nos Governos FHC). Os programas "Uma ponte para o futuro" e "Travessia Social", do PMDB, publicados nos últimos meses, são peças primorosas dessa concepção retrógrada, antissocial e afinada ao rentismo e à concepção de perda daquilo que se chama "soberania nacional" e de "sociedade civilizada". O modelo de acumulação capitalista, encarnado por capitalistas, ideólogos, think tanks, meios de comunicação, financiadores e tantos outros é uma força internacional, com conexões claras no Brasil, necessita ser analisado com acuidade, para além das análises institucionalistas de parte significativa da ciência política e econômica brasileiras que apenas "explicam" o "epifenômeno da superestrutura".
 
De forma articulada, num verdadeiro consórcio desestabilizador com vistas ao golpe, que foi se formando ao longo dos governos petistas e se avolumando desde 2013, mas particularmente desde a reeleição da presidente Dilma, esses atores formaram uma grande coalizão. Mesmo sem um centro articulador vertical de todas as peças, a Operação LavaJato em articulação com a mídia, empresários e think tanks conseguiu ter capacidade de direção que deu musculatura ao golpe parlamentar formal, encurralando setores progressistas nas ruas e nas instituições. Nestas últimas, a submissão de ministros progressistas e "liberais" do STF – casos de Barroso, Marco Aurélio Mello e mesmo Teóri, sem contar Dias Tóffoli – a "ministros" militantes e retrógrados, como Gilmar Mendes e Celso de Mello, trouxe grande parte de ministros do "centro" para a anuência à conspiração e ao golpe. Mesmo Rodrigo Janot fez forte guinada à desestabilização e passou a atuar em conjunto com Sérgio Moro, como tem demonstrado brilhantemente Luís Nassif em suas análises sobre os vários jogos de "xadrez" da crise política.
 
Assim o golpe foi desfechado. Seus elementos simbólicos combinam processo kafkaniano com ópera bufa, num ambiente nonsense e bizarro: a figura gangsteriana de Eduardo Cunha; o show de horrores da "bandidagem" parlamentar, como seu viu na votação do impeachment na Câmara de Deputados; o histerismo bizarro de Janaína Paschoal; o "faz-me-rir" supostamente jurídico da "peça" acusatória; o "machistério" ignóbil de Temer; o apoio de figuras públicas típicas da ignorância nacional ao golpe; a imagem modorrenta e "mordômica" (com o perdão do neologismo) de Michel Temer, cuja trajetória política se fez nas sombras e agora sobe à ribalta, tal como Cunha, a desempenhar um papel que jamais esteve à altura; as nomeações e "des"nomeações de ministros e auxiliares, as idas e vindas políticas e administrativas – todas típicas de fim de governo – se apresentam logo nos primeiros dias do "novo" governo, confirmando à exaustão a bizarrice do golpe (à paraguaia) e a desconexão da direita agora no poder com a "sociedade civil".
 
Deve-se entender "sociedade civil" como o conjunto de organizações que conflitam de forma orgânica e representativa nas arenas política, intelectual, ideológica, jurídica, institucional e outras, e que, dessa forma, representam grupos sociais, opiniões e interesses. Pois bem, a forma e o conteúdo do golpe e do "governo" Temer, dadas suas ilegalidades, ilegitimidades, imoralidades e simbologias negativas, os distanciam vigorosamente de segmentos sociais, grupos, classes e frações de classes sociais as mais distintas: da direita à esquerda, o que implica a perda substantiva do que se chama de centro.
 
A sustentação ideológica do "governo" Temer se dará, portanto, por duas camadas sociais: as classes médias superiores e parte significativa do Capital, ambas absolutamente minoritárias; e politicamente pela institucionalidade do Congresso Nacional, por meio de maioria na Câmara e no Senado, mas com inúmeras contradições, como se viu na não cassação dos direitos políticos da presidente Dilma.
 
No mais, terá oposição cerrada dos trabalhadores organizados e mesmo não organizados, dos jovens, dos que têm em mira a aposentadoria, dos pobres que se beneficiam, notadamente a partir do Governo Lula, dos serviços públicos de saúde, assistência social e educação; de grande parte dos segmentos intelectualizados das classes médias, dos servidores públicos, das esquerdas, dos progressistas, dos liberais que se pautam pelo Estado de Direito Democrático (o que inclui parte substantiva do Poder Judiciário); de um sem número de artistas, esportistas, personalidades das mais diversas áreas; entre inúmeros outros. O "Fora Temer" já se tornou bordão popular entoado nos quatro cantos e ganha apoio internacional profundo: grande imprensa estrangeira respeitada; defensores e entidades de Direitos Humanos (lembrando que o Brasil é signatário de inúmeros tratados nesse campo); personalidades internacionais das mais diversas áreas; parlamentos de inúmeros países e instituições internacionais (OEA, Corte Interamericana de Direitos Humanos, Unasul etc); diplomacias de vários países; a figura eloquente e renovadora do Papa Francisco; o G-20 e os Brics; entre outros.
 
Portanto, o pós-golpe só poderá, em última instância, se sustentar na violência policial e no apoio da grande mídia carcomida, cuja credibilidade e sustentabilidade financeira decaem como a água fétida – que representam – que desce ao ralo.
 
As reformas neoliberais – que fracassaram no mundo todo e são espécie de fantasma que se tenta ressuscitar – e conservadoras, derrotadas nas últimas quatro eleições presidenciais, beneficiam, se tanto, 10% dos brasileiros. Encontrarão, como estão encontrando desde já, maciça oposição: de rua, parlamentar, judicial, simbólica, ideológica e social. Tudo isso tende a influenciar e pressionar as instituições, hoje circundantes ao redor da hegemonia conservadora que, contudo, sustenta-se – o golpismo – numa "sociedade civil gelatinosa", elitista, nada representativa. Mesmo com o empenho da mídia e a violência policial intimidatória, a história nos ensina que "não passarão", como entoado por muitos.
 
Não se trata de perspectiva otimista, muito ao contrário.  E sim da tentativa de compreender as causas e consequências da desestabilização política artificialmente forjada por atores que conspiraram contra o PT, o Governo Dilma, e a sociedade civilizada de direitos; o processo fraudulento de cassação dos votos de mais de cinquenta e quatro milhões de brasileiros; e a fragilidade das bases sociais de sustentação do golpismo de uma sociedade que viu os direitos crescerem desde 1988.
 
A aventura conspiratória e golpista de todos que nela se envolveram potencialmente custará caro, em várias dimensões, a cada um deles. A história, que já está em andamento, provará, como provou em tempos de outrora. Embora uma aposta analítica, uma vez que o aparato ideológico da mídia e policial do Estado estarão operando em consórcio, o passado assim o demonstrou, como foi o ocaso da ditadura de 1964. Curiosamente há atores semelhantes ontem e hoje.
 
A complexidade e diferenciação da sociedade brasileira, cujo grau de organização política e social é substantivo está demonstrando que as chances do golpismo prosperar são mínimas, reitere-se. A não ser que adentremos a uma nova ditadura militar, o que não parece plausível, nesse momento.
 
Talvez um "novo" país ressurja saído das cinzas, como Fênix, dessa tragédia!




sexta-feira, 13 de maio de 2016

Joaquim Cândido Pereira (1878 – 1956) e João Cardoso de Carvalho (1901 - 1985 ) são meus avós materno e paterno. Joaquim era rural, João era urbano. Um tinha a fazenda Córrego do Meio (corgo do meio, como diziam) na região de Alberto Moreira (distrito de Barretos) e o outro gerenciava a Serraria São Manoel do pai (Adelino) em Barretos.

Joaquim era natural de Garimpo das Canoas em Minas Gerais e filho de Cândido Luiz Pereira e Mariana Faleiros. Casou-se com Maria Cândida de Jesus (1887 -1965) em 1903 e tiveram 8 descendentes. Minhas lembranças de Joaquim são de ainda criança durante as férias escolares na fazenda. Tinha uma coleção de canivetes para descascar laranja, para picar fumo para rapé etc. Um especialista.

João nasceu em São Simão, Estado de São Paulo, filho de Adelino Manoel de Carvalho e Engrácia Maria Fernandes. Casou-se com Valdemira Maria das Mercês (Filhinha). Adelino e Engrácia eram portugueses. Minhas lembranças do João? Um homem sério e de pouca conversa. Um português, pai de 14 filhos e filhas.


Os Pereiras e Cardosos tinham coisas em comum. Minha mãe, Orípia, casou-se com Sebastião, filho do João e minha tia Nem casou-se com Manoel, filho de Adelino. Uma mistura de librinas e portugueses. Librinas são os descendentes de Simão Antônio Marques (1782 – 1873), um dos fundadores da cidade de Barretos (25/08/1854), junto com Francisco Barreto.

E o porquê das lembranças de meus avós?
Porque me tornei, em maio deste ano de 2016, avô estreante.
Vô da Bel, trineta de Joaquim e João.

 


                                         Árvore Genealógica de Joaquim Cândido (Cmaps)

Árvore Genealógica de João Cardoso



Alguns filhos de Adelino, inclusive o João 




                                                      Joaquim Cândido e Maria Cândida


Um galho da genealogia materna da Bel




Referências:

Nilson Cardoso de Carvalho:

- Os Marques Librinas de Barretos, 1999, mimeo

- Adelino Manoel e seus descendentes, Indaiatuba: Rumograf, 1995

 
 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O engodo dos arautos da casa - grande

Bem pior que 64
O golpe em andamento, de inspiração paraguaia e hondurenha, confere ao Brasil a condição de republiqueta e o atira a uma rota imprevisível
25/04/2016 04h09 CARTA CAPITAL Autor: Mino Carta

Um filme intitulado Sem Evidências enfeitou a programação de uma HBO a cabo na noite de domingo 17 de abril de 2016. Mergulhei no enredo ao mudar ao acaso um canal para outro, enquanto a Câmara Federal rasgava impavidamente a Constituição para condenar a presidenta Dilma Rousseff sem provas do crime que lhe atribuía. O filme é uma implacável metáfora do que acabava de acontecer diante dos olhos de milhões em êxtase e uns poucos vexados entre o fígado e a alma. História verdadeira, a do filme, remonta a 1993, quando três crianças de uma cidadezinha do Arkansas são estupradas e assassinadas e as autoridades locais escolhem de antemão os culpados, três jovens tidos como praticantes de rituais satânicos.

O mais velho, de 18 anos, veste-se de preto, tem cabelos compridos, lida com desembaraço com a língua e a ironia e não esconde sua curiosidade por demonologia. Outro, de 17 anos, padece de disfunções mentais. O terceiro, de 16 anos, é tímido e indefeso. Todos se dizem inocentes, mas os donos do poder tomaram sua irrevogável decisão antes do processo, enfim realizado para sacramentar a decisão adrede tomada. Para tanto a polícia local colabora ativamente e transforma suposições em verdade factual, os promotores cometem irregularidades sem conta na instrução da demanda judicial e contam com um juiz desbragadamente parcial.

Os líderes da comunidade cuidam de elevar a 100 graus a ira popular. Conclusão: o mais velho dos réus é condenado à morte, os outros dois à prisão perpétua. Somente 18 anos depois, a Suprema Corte do Arkansas revê as sentenças, uma delas, à cadeira elétrica ainda não consumada, e recoloca os condenados em liberdade.
Ocorreu-me uma dúvida: quem programou Sem Evidências para o mesmo momento em que, sem evidências, a Câmara Federal condenava a presidenta legítima agiu de caso pensado ou conforme pauta definida com larga antecedência? Se sabia o que fazia, ofereceu a quantos sabem o que fazem uma parábola do episódio a se desenrolar, no mesmo instante, nesta nossa republiqueta tão parecida com uma cidadezinha do Arkansas.

Muitas dúvidas mais me assaltam. E ao sabor de dúvidas teço considerações. E pergunto aos meus atônitos botões se os discursos que ecoaram na Câmara Federal na noite de 17 de abril foram pronunciados, em aterradora maioria, por idiotas ou por hipócritas, excelentes nos dois casos? Ou seria por idiotas hipócritas, magníficos na simbiose? Não espero por resposta, não se faz necessária.

E em relação aos que ouvem e aprovam, em qual categoria catalogá-los? Idiotas ou hipócritas, simplesmente, ou habilitados a mesclar ambas as qualidades negativas? O espetáculo que conseguimos oferecer ao mundo exorbita na prova, esta sim indiscutível, de nossa condição de republiqueta das bananas. Os autores do golpe, além de imitadores de ações idênticas levadas a cabo em 2006 em Honduras e em 2012 no Paraguai, alegam motivações que confiam cegamente na ignorância e na parvoíce da nação. Pasmem: e acertam, e levam, como CartaCapital temia na sua edição passada. 

Somos o que somos, e é doloroso aceitar mais esta inegável evidência. Um paiseco do tamanho de um continente, destinado pela natureza para ser um paraíso terrestre, fica entregue à sua própria desgraça, algo assim como um suicídio coletivo. Com a contribuição decisiva do evangelismo galopante, cada vez mais espalhado, a mostrar sua inevitável aliança à política do poder pelo poder, empenhada em promover boçalidade demente e a enterrar qualquer esperança de democracia.

Não faltarão os céticos, prontos a sustentar que democracia cabe no baú das velharias. Certo é que o golpe de 2016, a mostrar a nossa imaturidade para qualquer tentativa democrática e a fragilidade de quanto foi construída depois da saída do general Figueiredo pela porta dos fundos do Planalto, é muito pior, infinitamente mais assustador, do que o de 1964.

Abril de 64 não traiu a tradição, como sempre desfechado pela casa-grande para sustar no nascedouro um processo capaz de conduzir à demolição da senzala. Teve, paradoxalmente, o condão de excitar alguns espíritos nativos a formas de resistência e cultivar esperanças.
Hoje temos de constatar que ainda pagamos por aquele 1º de abril e que a chamada redemocratização foi uma farsa. Ainda é pouco em comparação com o preço a pagar pelo golpe de abril de 2016. Nada é previsível se não há como se apoiar naquela deplorável tradição. Sobram diversas, assombrosas incógnitas.

Se o assunto é a imprevisibilidade, não cabem incertezas, é óbvio, quanto à composição de um governo Temer. Candidatos óbvios, a rendição à vontade de Tio Sam, genuflexão ao deus mercado em proveito do desequilíbrio social e da punição do trabalho, o loteamento de bens brasileiros, a começar pela entrega do pré-sal às famigeradas Sete Irmãs.
Mas é nesta moldura que a névoa se alastra, bem como as dúvidas. Por exemplo. Como e quando acaba a Lava Jato? Sergio Moro prestou-se ao jogo, mas ainda se prestará? E que desfecho fica reservado para Eduardo Cunha? E para o calendário eleitoral? E o povo sofrerá com a resignação de sempre?

Acabamos de adentrar uma zona de intensa nebulosidade, talvez de inesperadas turbulências, e dentro dela nada nos reporta ao passado. Em uma situação nunca dantes navegada, claro está apenas e tão somente que a crise, muito mais profunda do que simplesmente econômica, mas antes social, política, moral, mental em um país à deriva, não se oferece a mais pálida possibilidade de arrefecimento, muito pelo contrário.
O golpe em andamento contém e expressa um trágico engodo, como o verbo dos conspiradores, dos arautos da casa-grande, dos falsos pastores de almas. O complô visava Lula como candidato em 2018, com o intuito de abater Dilma pelo caminho, e o obstáculo principal por ora permanece. A maior incógnita na crista das ondas é agora a sorte do favorito das próximas eleições. Apontam os barômetros para a instabilidade total. 

domingo, 3 de abril de 2016

Réquiem

 "O que você fez seu filho de uma égua? E agora o que será de mim? O que faço da minha vida, seu merda?" Chorando e puta da vida. Era Virgínia, perdida e terrivelmente irritada. Não sabia o que fazer.

Na década de 1960, Felipe e Virgínia eram estudantes na USP. Ele na engenharia civil e ela na psicologia. Encontraram-se e experimentaram o veneno da paixão. Êxtase brutal, selvagem. Tesão nas alturas, libido aos cântaros.

Moravam no CRUSP (Conjunto residencial estudantil da USP) que na época reunia todas as tribos: militantes políticos, positivistas que acreditavam que a ciência resolveria os problemas do mundo, porra-loucas, certinhos e certinhas, idiotas e outros mais.

O guerrilheiro é um reformador social. Virgínia e Felipe diante da droga malhada em que estava o Brasil da época (aliás, continua hoje) seguiu Che Guevara e entraram para a ALN (Ação Libertadora Nacional) de Carlos Marighella. Carlos, uma grande personagem da história brasileira, puto com o PCB (Partido Comunista Brasileiro), resolveu agir e não interagir de forma vertical e passiva no interior das catacumbas do partido. Partiu para a resistência armada à ditadura e fundou a ALN.

Felipe foi convocado a atuar no Rio e Virgínia em São Paulo. Separação. No começo doloroso, mas com agitação da luta distanciaram-se. A tempestade afetiva deu lugar ao terremoto político da ação armada. Felipe esteve preso e torturado com sequelas nunca dizimadas. Os dois saíram do país em 1970. Ele exilado no Chile e ela em Paris. Conheceram pares no exilio. Casaram e tiveram filhos.

Com a anistia Virgínia e Felipe voltaram ao Brasil em 1979 e 1980 respectivamente.

Em 1989 reencontram-se durante a campanha eleitoral de Lula da Silva. Caso raro: voltou a tesão um pelo outro. Voltaram a morar juntos. Eles e os filhos mais novos dos dois.

Passados 10 anos de união ou re-união veio a tragédia.


Virgínia inconsolável saiu para fumar e voltou. Olhou para o rosto de Felipe. "E agora, cacete, você quer que eu faça o que depois desta traição? Traição sim, mané, porque agora estou sozinha, sem ninguém"

Dez minutos depois de olhar fixamente o rosto daquele homem se retirou do velório chorando muito. Virgínia nunca perdoou Felipe pelo suicídio.

quarta-feira, 30 de março de 2016

IA e a barbarie

Já comentei neste blog as contradições da IA (Inteligência Artificial): "O cinema versus IA"http://librinas.blogspot.com.br/2014/07/o-cinema-versus-ia.html

O texto do Roberto Vitorino acrescenta sobre o tema, além de ser insuportavelmente brilhante.
 


Roberto Vitorino

28 de março às 01:25 ·

Eu tenho um amigo que escolheu viver offline. Ele não tem facebook, instagram, twitter, snapchat, não liga a tv em casa, não tem whatsaap, não gosta de falar ao celular. Fazia tanto tempo que eu não o via, que pensei, sei lá, que talvez ele tivesse... enfim, meu amigo está muito bem. Outro dia o encontrei na praia e ficamos a tarde conversando. Ele sabe o que está acontecendo no Brasil, tem opinião sobre tudo, continua estranhamente sendo o cara que sempre foi. Mas tinha uma coisa diferente nele agora, digo "diferente" de antes, diferente dos outros amigos, diferente de nós; uma delicadeza quase arrogante de tão alienada. É que esse amigo teima em ser insuportavelmente gentil. Para qualquer entendedor trata-se do caso clássico de um alienado adaptado aos novos tempos. Meu amigo concorda com esta tese, inclusive. Ele sabe disso. E depois que concorda, ele vai no mar e dá um mergulho, volta sorrindo e não entende quando alguém repete uma piada do Sensacionalista. "Isso é um programa de TV?"

Eu me lembrei desse amigo hoje quando li que "Tay", o projeto ambicioso de Inteligência Artificial da Microsoft, fracassou redondamente semana passada. Tay era um personagem feminino programado para aprender com as interações da rede e produzir tweets espontaneamente depois de interagir com os humanos. Em menos de 24 horas a Microsoft teve que tirar Tay do ar, porque a menina dotada de inteligência e vontade própria virou nazista. Isso mesmo, Tay virou nazista (com elogios públicos a Hitler), além de homofóbica, racista e misógina. Para o constrangimento da empresa que teve que vir a público se desculpar das declarações que Tay fez com ódio amplo e disseminado a povos, pessoas, a praticamente todo mundo. Eu poderia dar exemplos aqui, mas os tweets de Tay são mesmo impublicáveis.

Não à toa, um punhado de pesquisas acadêmicas tenta mapear a relação real entre ódio e internet. Essa impressão de que a internet simplesmente deu voz a uma legião de imbecis (como disse Eco) não é mais completamente aceita. Existe uma possibilidade real de que seres humanos confinados em bolhas artificiais de algoritmos e trending topics (onde pessoas tendem a ler e conviver muito mais com pessoas que pensam e concordam com elas sobre os mais diversos assuntos) estejam de fato sendo levados a uma radicalização forçada do pensamento, levados a uma atrofia da faculdade de percepção da realidade. Somos todos Tay, portanto. Ou mais ou menos isso.

Eu que não tenho dignidade para ser offline, nem vegano, nem triatleta (mas tenho um respeito profundo aos três) estava aqui juntando três pontinhos soltos no espaço: a gentileza alienada desse meu amigo offline, o nazismo inesperado de um programa de inteligência artificial e a tal tese de que talvez a internet não tenha desvelado simplesmente os monstros guardados nos calabouços da alma; quem sabe ela tenha dado um sopro de vida para alguns desses monstros também.

Somos todos Tay e somos todos Frankenstein. Hashtag qualquer coisa aqui.
 
 
 
 




 
 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Elza


Olho pro meu corpo / Sinto a lava escorrer / Vejo o próprio fogo / Não a força para deter

Me derreto tonta / Toda pele vai arder / O meu peito em chamas / Solta a fera pra correr

Unhas cravadas / Em transe latejo / Roupas jogadas no chão / Pernas abertas / Te prendo num beijo / Sufoco a sofreguidão

Meu temporal me transforma em loba / Presa, você vai gemer / Feito um cordeiro entregue pra morte / Seu sussurrar a pedir

Pra fuder! Pra fuder! Pra fuder!


Esta é a letra da música Pra fuder de Kiko Dinucci, do último CD de Elza Soares "A mulher do fim do mundo", Natura Musical, 2015.

Elza não sossega.

Caminha para além do samba e bossa nova. Namora o modernismo paulistano e, não à toa, o disco inicia, a capela, com Coração do mar poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik. E tome samba, afro-beat, rock, rap, punk-samba, eletrônico, distorções e dissonâncias. Tem sexo, morte, drogas, negritude e violência doméstica dentre outros temas.

Elza bota pra fuder.
 



A ficha do disco:
01. Coração do Mar (Poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik)
02. Mulher do Fim do Mundo (Romulo Fróes / Alice Coutinho)
03. Maria da Vila Matilde (Douglas Germano)
04. Luz Vermelha (Kiko Dinucci / Clima)
05. Pra Fuder (Kiko Dinucci)
06. Benedita (Celso Sim / Pepê Mata Machado / Joana Barossi / Fernanda Diamant) Part. Celso Sim
07. Firmeza?! (Rodrigo Campos) Part. Rodrigo Campos
08. Dança (Cacá Machado / Romulo Fróes) Part. Romulo Fróes
09. O Canal (Rodrigo Campos)
10. Solto (Marcel Cabral / Clima)
11. Comigo (Romulo Fróes / Alberto Tassinari)
Ficha Técnica:
Produção Musical: Guilherme Kastrup
Fotos: Alexandre Eça
Um Projeto Natura Musical


Elza é de 1937 para algumas fontes. Para outras, 1930. Casou, obrigada pelo pai, aos 12 anos e ficou viúva aos 21. Com quatro filhos e uma filha.

Nos seus 78 (ou 85) anos Elza comeu o pão que o diabo amassou.

Em 2007 assisti a um show de Elza num galpão portuário em Vitória (ES). Galpão lotado e agitação total durante 2 horas de espetáculo. Quase o fim do mundo!
A Mulher do Fim do Mundo é uma corda esticada sobre um precipício por onde caminha tensa e decidida. Aos declarados 78 anos de idade, com a dor das costas operadas limitando seus passos e o desespero da recente perda de um filho ainda tomando o peito, Elza, mais do que cantar, precisa do grito. (1)

Eu sou, eu vou / até o fim / cantar.


(1) http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,elza-soares-lanca-seu-primeiro-album-de-ineditas-desafiada-por-um-novo-conceito,1772047 em 07/12/2015


 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Super-ricos

Um episódio relatado por John Kenneth Galbraith. No início dos anos 60, Ted Kennedy, o caçula da família, enfrentava a sua primeira disputa eleitoral. Ted acordou cedo para fazer campanha na porta de uma fábrica. Um trabalhador mais velho se aproximou dele e disse: "Teddy, meu menino, eu ouvi dizer que você nunca trabalhou nem um dia sequer na vida". Era realmente o ponto mais vulnerável do candidato e ele se preparou para responder com cuidado. Mas o velho não esperou: "Deixe eu lhe dizer, rapaz. Você não perdeu absolutamente nada".

 Deu em Carta Capital, 01/09/2015
Conheça os super-ricos - e saiba como você financia a fortuna deles

Os impostos da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos e 65,8% da renda total dos super-ricos são considerados isentos pela legislação.
André Forastieri - R7 (via Jornal GGN)
 
Os ricos do Brasil são muito mais ricos do que você imagina. São super-ricos. E ficam mais e mais ricos a cada dia que passa. Existem duas razões principais para isso. Os impostos da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos. E os ricos pagam menos imposto que a classe média e os pobres.

Só agora a gente está entendendo quem são os super-ricos do Brasil. A análise tradicional, feita com as pesquisas do IBGE, não dão conta da realidade. Um novo estudo realizado pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), chega mais perto. Eles analisaram os dados das declarações de imposto de renda das pessoas físicas. As conclusões são chocantes.

Segundo o IBGE, a renda média do 1% mais rico do país foi de R$ 214 mil em 2012. Mas segundo o estudo do IPEA, a renda anual do 1% mais rico é aproximadamente R$ 575 mil. Explicação: o IBGE não capta toda a renda das pessoas mais ricas, que tem muitas rendas provenientes do capital (como aplicações financeiras, aluguéis, lucros e dividendos).

R$ 575 mil já é uma boa grana: mais de R$ 40 mil por mês. Mas esses 1% ainda não são a elite. Os super-ricos do Brasil ganham acima de 160 salários mínimos por mês. São 0,05% da população economicamente ativa.

Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.

E em 2015? Não sabemos, mas é seguro dizer que estão bem mais ricos que em 2014. Quem tem muito capital investe e recebe rendimentos financeiros enormes. Os juros no Brasil são sempre muito altos, mas agora estão estratosféricos. Trabalhar não tem nada a ver com a fortuna crescente dessa turma. Neste nível de renda, trabalha quem quer, não porque precisa.

Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo. Se você tem muita grana, não precisa de criatividade para enriquecer mais e mais. Basta comprar títulos públicos do governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. E de onde vem esse dinheiro para pagar os juros? Do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam.

Mas alguns pagam mais que outros. O detalhe mais cruel sobre a desigualdade brasileira está aí. Os super-ricos brasileiros, esses que ganham mais de 160 salários mínimos por mês, pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o estudo do IPEA.

Como isso é possível? É que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros. Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social no Brasil. É garantia de injustiça, ignorância, violência. E até de atraso em outros campos. Se fala muito que o Brasil tem pouca inovação tecnológica, mas quem vai arriscar capital investindo em inovação, se você pode faturar com juros altos e não pagar quase nada de imposto?

Essa bizarria cruel é criação brasileira. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.

O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmidade social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. Agora, como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos.

Os super-ricos pagam o mesmo imposto sobre produtos que você, eu ou a vovó que recebe Bolsa Família. Pagam o mesmo imposto pelo arroz, o café, o remédio, o fogão. Isso significa que proporcionalmente o pobre paga muito mais imposto a classe média. E infinitamente mais que a elite.

Os super-ricos não são os vilões dessa história. As regras estão aí para beneficiá-los. Não é ilegal. Certamente há na elite gente que topa abrir mão de suas vantagens, em benefício de quem mais precisa... Mas, como era de se esperar, existem super-ricos que atuam diretamente para que esse estado de coisas continue exatamente assim: juros altíssimos e taxação mínima. Basta isso para os donos do capital ficarem mais e mais ricos a cada ano que passa, sem trabalho, sem esforço, sem contribuir para o país.

Os super-ricos têm muito poder. Influenciam muito no debate político e econômico. Abundam na imprensa argumentos a favor de que as coisas se mantenham como são. E são super-ricos os financiadores das campanhas da maioria dos políticos, claro.

A recessão radicaliza a injustiça. Penaliza o trabalhador e o empreendedor, o importador e o exportador, o estudante e o aposentado. Esta recessão não veio do espaço sideral. Foram tomadas decisões erradas no passado? Claro, muitas, desde 1500. Mas não dá para mudar o passado. O futuro felizmente está ao nosso alcance.

Esse ano e os próximos serão muito difíceis. O cenário internacional é hostil. O cobertor está curto. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de 2015 e dos próximos anos. O resto é resto.

http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FConheca-os-super-ricos-e-saiba-como-voce-financia-a-fortuna-deles-%2F7%2F34390