Em 7 de novembro de 2011, escrevi neste blog um texto com o título "Terra inacabada" http://librinas.blogspot.com.br/2011/11/terra-inacabada.html. Era sobre a questão da Amazônia e as intervenções e interações com os humanos. Dentre outras coisas disse sobre o complexo hidrelétrico do rio Madeira. Voltei ao assunto em "Terra inacabada 2"
http://librinas.blogspot.com.br/2012_03_01_archive.html
No texto de 2011 termino com a frase "Deus ainda não voltou à Amazônia para terminar seu trabalho. Os homens continuam lá, eles ainda não saíram."
Em 2014 está assim.
Hidrelétricas do Madeira subestimaram hidrografia e mudanças climáticas
POR TELMA MONTEIRO
A "oferta" foi feita por um diretor de Meio Ambiente de uma empreiteira, em 20 de janeiro de 2009, durante uma reunião em Porto Velho (RO): "Serão R$ 60 milhões à disposição das organizações não governamentais". O dinheiro, segundo ele, seria referente à compensação ambiental da usina Santo Antônio, no Rio Madeira, que poderia ir diretamente para as ONGs. A lei determina o recolhimento, pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), da compensação ambiental de até 0,5% sobre o custo das obras físicas de empreendimentos. O consórcio, informou o diretor, estava negociando com o MMA a ideia de destinar o recurso para projetos com ONGs e associações da região. Claro que, com isso, pretendia-se reduzir as resistências que o empreendimento provocava.
Estou expondo apenas um exemplo dos inúmeros artifícios usados e que ilustram a necessidade visceral do governo Lula e das empresas Furnas e Odebrecht de construir duas mega-hidrelétricas no Madeira, o maior afluente do Rio Amazonas. As usinas Santo Antônio e Jirau foram impostas à sociedade e viabilizadas com tantas irregularidades, ilegalidades, escamoteamento de informações, desinformações e subterfúgios que o resultado catastrófico acabou por ficar visível muito antes do que se previa.
Creio que não há mais dúvidas, hoje, de que a hecatombe que acontece em Rondônia, Acre e Bolívia tem, sim, relação com a construção das hidrelétricas no Rio Madeira. Basta consultar a história do processo de licenciamento das usinas no Ibama ou as mais de 20 ações civis públicas ajuizadas pelos Ministérios Públicos Federal e do Estado de Rondônia e por organizações não governamentais, para constatar que tudo estava previsto.
Nesta semana uma nova ação ajuizada por instituições de RO obteve a liminar que obriga os consórcios ESBR de Jirau e SAE de Santo Antônio a indenizar as vítimas da enchente e a refazer os estudos ambientais. A Justiça Federal, portanto, confirmou a responsabilidade das usinas e do Ibama no agravamento dos impactos da cheia do rio Madeira em Rondônia e no Acre.
A opção pelas turbinas tipo bulbo foi a justificativa principal para que a licença prévia das duas hidrelétricas fosse concedida. O argumento de que com elas o reservatório seria menor e com isso os impactos ambientais reduzidos, foi uma falácia. A única pessoa com poder para acatar o parecer dos técnicos do Ibama, sobre a inviabilidade ambiental das usinas e a extensão dos impactos não dimensionados no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), era a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Mas ela se rendeu às pressões. Aceitou como verdade que as turbinas resolveriam as questões ambientais e tapou olhos e ouvidos para o que diziam os experts da sociedade.
Prova disso é o último parágrafo da conclusão dos técnicos do Ibama, no famoso parecer 014/2007, de 21 de março de 2007, que tem que ser lembrado, enquadrado e estampado em jornais, portais e revistas. É apenas um parágrafo de oito linhas (no original), mas que traduz, em toda a sua amplitude e consequências, os impactos que estão acontecendo agora com a cheia histórica do Rio Madeira. Vejamos:
"Dado o elevado grau de incerteza envolvido no processo; a identificação de áreas afetadas não contempladas no Estudo; o não dimensionamento de vários impactos como ausência de medidas mitigadoras e de controle ambiental necessárias à garantia do bem-estar das populações e uso sustentável dos recursos naturais; e a necessária observância do Princípio da Precaução, a equipe técnica concluiu não ser possível atestar a viabilidade ambiental dos aproveitamentos Hidrelétricos Santo Antônio e Jirau, sendo imperiosa a realização de novo Estudo de Impacto Ambiental, mais abrangente, tanto no território nacional como em territórios transfronteiriços [Bolívia], incluindo a realização de novas audiências públicas. Portanto, recomenda-se a não emissão da Licença Prévia."
Não é preciso dizer que depois desse parecer alguma coisa de muito grave aconteceu, pois as fatídicas usinas estão aí. E os problemas apontados no parecer se materializaram. O que mudou no processo que fez com que a licença fosse concedida apenas três meses depois e sem o novo EIA/RIMA recomendado? Foi a alteração nos projetos? Foi a revisão dos impactos? Foi a mudança da equipe técnica? Nada disso.
Os problemas apontados no parecer eram de tal gravidade, veja-se as consequências hoje, que foi necessária a recomendação de um novo Estudo de Impacto Ambiental, pois a fase de complementações já se esgotara em 2006. Ou seja, tecnicamente, deveria haver um novo processo de licenciamento, com outro EIA/RIMA.
Será que mostrar tudo o que foi tramado de sórdido desde o início da campanha do governo Lula para impor as usinas hidrelétricas do Rio Madeira poderá ajudar agora os desabrigados de Rondônia, Acre e Bolívia? Poderá ajudar a recompor as perdas de pequenos comerciantes, agricultores, trabalhadores? Poderá trazer de volta as 100 mil cabeças de gado perdidas nas águas que invadiram a Bolívia? Poderá reverter os casos de doenças que virão depois que a enchente baixar? Poderá recuperar a qualidade das águas, agora contaminadas por lixo e esgoto? Poderá fazer com que os alunos recuperem as aulas perdidas nesse período? Poderá pagar o prejuízo causado pelo isolamento do Acre?
Porque o que levou a isso, na verdade, foi a concepção de dois projetos hidrelétricos eivados de falhas técnicas, que subestimou o Rio Madeira, que desconsiderou a bacia hidrográfica como um todo e a influência das mudanças climáticas no seu regime de cheias no Brasil e no país vizinho, a Bolívia. Junte-se a isso a minimização dos impactos, a falta proposital de exatidão nas informações. Tudo junto só poderia trazer o resultado que estamos assistindo na região há mais de um mês.
É preciso dar um "cala boca" definitivo nesses representantes atuais dos dois consórcios, autoridades do MME e do Ibama, que vêm a público para dar explicações técnicas indecifráveis para a sociedade leiga, tentando convencer que o agravamento da enchente em Rondônia, Acre e Bolívia não é consequência das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau. O jargão utilizado por esses "próceres" do setor elétrico lobista não nos convence mais, pois a verdade está estampada nas imagens e nas vozes da população afetada.
Há disponíveis dezenas de relatórios e documentos produzidos por especialistas brasileiros e bolivianos, por pesquisadores de renome, doutores, cientistas, engenheiros internacionais, que alertaram, desde o início, sobre os impactos, esses mesmos que estão aí e outros que ainda virão, que as duas hidrelétricas produziriam. Caso isso não baste, no primeiro Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE) das usinas, patrocinado por Furnas e Odebrecht, os técnicos apontaram os problemas dos impactos dos efeitos de remanso tanto no Brasil como na Bolívia e alertaram para o nível de assoreamento do reservatório, entre outros.
Os efeitos de remanso já foram descritos por vários especialistas em relação às usinas do Madeira. A explicação é que, apesar da cota máxima prevista no projeto, o nível do rio poderá subir mais do que isso a montante (acima), em situação de eventos extremos, e a água vai se espalhar pela planície sulcada por igarapés e pequenos rios, antes de chegar à barragem. É isso que está acontecendo ao longo do Rio Madeira, desde a Bolívia.
Outro problema que pode agravar a situação, no futuro, é o aporte de sedimentos do rio Madeira. O Ministério de Minas e Energia (MME) chegou a contratar um especialista internacional para dar um parecer sobre os sedimentos das águas do Madeira. A interpretação divulgada do parecer, não só minimizou o problema, como ainda desconsiderou os alertas do consultor e a sugestão de um arranjo mais eficiente e mais barato para Santo Antônio.
Infelizmente, listar aqui todos os problemas descritos no processo e que podem afetar duramente as populações das áreas de influência das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, exigiria um espaço de um livro em vários volumes. Já temos amostras demais, como os efeitos das águas dos vertedouros de Santo Antônio que estão "comendo" a margem direita e já desalojaram dezenas de famílias do bairro Triângulo, em Porto Velho. Seria esse mais um efeito da mudança não aprovada do layout das estruturas da usina de Santo Antônio?
O reverso da medalha está aí. As usinas do Madeira foram impostas à sociedade com o argumento de que estaríamos a beira do apagão se elas não fossem construídas. Hoje, quase concluídas e com muitas turbinas em operação, elas não estão servindo para gerar energia. As turbinas de Santo Antônio foram desligadas por ordem do Operador Nacional do Sistema (ONS) devido à cheia. As linhas de transmissão de 2.450 quilômetros não estão transportando nenhum Mwh. E a previsão é que as cheias da bacia do Rio Madeira devem avançar para todo o mês de março.
Na mesma toada vão as obras de Jirau, com algumas poucas turbinas em operação, com custos que já dobraram. Subsidiados pelo BNDES dos governos de Lula e Dilma Rousseff, estão ameaçadas de colapso pela enchente histórica. Do outro lado da fronteira, as autoridades bolivianas alegam que tinham a garantia das autoridades brasileiras de que as usinas não afetariam seu território. Balela. Tanto os bolivianos como os brasileiros sabiam direitinho que a Bolívia sofreria com as hidrelétricas. Até os estudos de viabilidade confirmavam isso. Estudos que os próprios empreendedores fizeram e que a Aneel aceitou.
Em 11 de março de 2009, fui convidada para uma reunião num hotel em Brasília, com o staff do governo boliviano que estava preocupado com os efeitos negativos da usinas em seu território. O grupo estava no Brasil para assinar um acordo proposto pelo governo brasileiro ao governo boliviano, que dizia respeito às hidrelétricas. Os participantes não estavam satisfeitos com a minuta do acordo e fui convidada para esclarecer alguns pontos sobre os impactos ambientais e sociais das usinas.
A minuta do acordo não refletia o entendimento técnico havido entre a Bolívia e o Brasil em uma reunião em La Paz, em 2008. Os bolivianos não estavam dispostos a assinar o acordo, pois tinham tido notícias do grave episódio da mortandade de toneladas de peixes em época do defeso (quando sobem até a cabeceira para a desova e reprodução), durante a construção das ensecadeiras da usina de Santo Antônio. Queriam detalhes sobre se isso poderia vir a afetar futuramente a atividade pesqueira dos ribeirinhos bolivianos. Eu havia escrito um artigo alertando para o desastre; partiu daí, então, o interesse deles por mim e o convite.
Em contrapartida, o governo brasileiro estava interessado em construir mais duas hidrelétricas no Rio Madeira – Cachoeira Esperança, na divisa com a Bolívia e El Bala, no rio Beni. Prometeu aos bolivianos que manteria um monitoramento permanente da qualidade da água e dos sedimentos a jusante, para prevenir possíveis impactos em seu território. Os bolivianos também informaram que a proposta do Brasil era bancar a construção das hidrelétricas e comprar toda a energia produzida por elas.
Nada melhor para calar uns e outros, que promessas de dinheiro e mega obras para políticos corruptos e empreiteiras sequiosas por empreendimentos que consomem muito concreto e aço e que precisam remover milhares de metros cúbicos de rochas. Na época, as duas hidrelétricas foram acertadas, e então ficou o dito pelo não dito. Os impactos das usinas do Madeira em terras bolivianas ficaram em segundo plano.
No Brasil, para conceber e construir projetos como os do Rio Madeira ou Belo Monte, não é preciso ter conhecimento técnico apenas, tem que saber enganar bem, fornecer dados inconsistentes. Saber manipular informações, números, valores, desconstruir laudos de especialistas internacionais, estatísticas, convencer autoridades e, principalmente, bancar muitas campanhas eleitorais. Se fosse possível conceder um prêmio de manipulação ele seria dividido entre os idealizadores do projeto Madeira e o governo Lula.
Telma Monteiro é ativista ambiental, pesquisadora independente, especializada em análises de processos de licenciamento ambiental de hidrelétricas na Amazônia
Blog da Amazônia / Altino Machado
http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2014/03/13/hidreletricas-do-madeira-subestimaram-hidrografia-e-mudancas-climaticas/ 15/03/2014
sábado, 15 de março de 2014
sábado, 1 de março de 2014
A Copa do Cu do Mundo
José Miguel Wisnik
http://oglobo.globo.com/cultura/a-copa-do-cu-do-mundo-11753269
01/03/2014
A Copa do Cu do Mundo
Linchamento é um simulacro perverso e inaceitável de julgamento sumário
http://oglobo.globo.com/cultura/a-copa-do-cu-do-mundo-11753269
01/03/2014
A Copa do Cu do Mundo
Linchamento é um simulacro perverso e inaceitável de julgamento sumário
Quando escrevi, no sábado passado, o artigo "O touro à unha", falando sobre as camadas de Brasil real que a perspectiva da realização da Copa do Mundo trouxe inesperadamente à tona, com tudo o que o país tem de difícil, eu não esperava que Caetano Veloso escrevesse no domingo um artigo, intitulado "O cu do mundo", em que falava das entranhas expostas de uma nação onde emergem sinais inquietantes da prática e da admissão pública de linchamentos. Nos dois textos estava em jogo a violência brasileira, ancestral, crônica, sintomática, e seu recrudescimento neste momento conturbado em que ela parece se voltar sobre si para obscurecer mas também para revelar, talvez, sentidos. Naquele mesmo domingo, à noite, um fato sinistro confirmava a junção dos dois temas: um grupo de torcedores do São Paulo trucidava um torcedor solitário do Santos que estava num ponto de ônibus qualquer da cidade. Enquanto isso, como num estranho alinhamento de planetas maléficos e benéficos, eu me deparava, num espetáculo do Teatro Oficina, com uma formulação iluminante do problema — aquela que dá nome a este artigo.
Imagens ligadas à execução do torcedor foram mostradas segunda-feira no "Jornal Nacional". Uma câmera de prédio capta, à distância, o movimento de dois carros parando próximos a uma esquina, dos quais descem dois grupos evidentemente aliados e armados de instrumentos contundentes. Sorrateiros e ostensivos como quem compartilha um segredo público, covardes conscientes, fingindo mal, entre si, de valentes, dobram a esquina e desaparecem da vista para retornar minutos depois e fugir nos dois carros. Pode-se considerar banalizado, diante da repetição de brigas de torcidas e casos de mortes em estádio e seus entornos, sem falar nos assaltos cotidianos, o assassinato inominável que está fora da cena, e que acontece quase cinematograficamente nos minutos de ausência.
Mais que isso, no entanto, as imagens expõem o grau de gratuidade sórdida a que chega a violência ali documentada (não sei até que ponto as imagens estão permitindo agora a localização e o enquadramento do grupo infame). Não se trata propriamente, aqui, de linchamento: linchamento é um simulacro perverso e inaceitável de julgamento sumário. Briga de torcidas, por sua vez, se faz a quente, na base do corpo a corpo, na panela de pressão do estádio ou da rua. Aqui temos a predação fria, em estado quimicamente puro, digamos assim, que parasita o jogo de futebol para buscar através deste a imagem regressiva de um outro a liquidar. Existe nisso o próprio modelo de uma faccionalização da vida que pode ser reconhecido em muitos campos, e que supõe a massa podre de um enorme ressentimento acumulado.
Ninguém como Zé Celso Martinez Correa, por sua vez, tem assumido ao longo das décadas o princípio vivificante do teatro como aquela experiência em ato que dá voz e corpo à doença social, tocando nela. O espetáculo em questão é o quarto da série das "Cacildas!", que tem como mote o estado de coma de Cacilda Becker, que antecedeu sua morte, em 1969, tomado como um imenso fluxo onírico, à maneira do "Vestido de noiva" de Nelson Rodrigues, através do qual se vai repassando e transfigurando toda a carreira da atriz, e com ela a história do teatro brasileiro. Desigual e fulgurante como sempre, nas suas seis horas de duração, a peça tem passagens sublimes como nunca, sem deixar de ter como alvo de seu mergulho no passado as urgências do presente.
Numa sequência ao mesmo tempo divertida e contundente, na base do programa de auditório, joga-se com a iminência da realização, no Brasil, desse maior espetáculo da Terra que é chamado nada mais nada menos do que a Copa do Cu do Mundo. Todo o sentido crítico que se possa, toda a virada pelo avesso do padrão Fifa, exibido pela culatra, toda a remissão às misérias, às derrisões e aos terrores da doença brasileira, tudo está aí, nesse nome. Mas também, no reconhecimento disso, a capacidade de afirmar a potência da cultura (com trocadilho), de rir das máscaras canastronas, de exercer o apetite de viver e, por incrível que pudesse ser e é, de marcar um lugar original no planeta. É claro que isso só pode ser afirmado em vista da grandeza artística do todo, e no modo como o espetáculo vai fundo na experiência social e vital do país.
A discutida camiseta da Adidas para a Copa, onde se estampa "I love Brazil" na forma de um coração-bunda, é uma versão limitada, mercadológica pitoresca e não assumida do fato de que se olha difusamente a Copa no Brasil como uma espécie de Copa do Cu do Mundo. O espetáculo de Zé Celso eleva esse conteúdo a uma outra potência: não o quarto mundo, não o cu do mundo, mas a quarta dimensão do cu do mundo.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Aberrações da Humanidade
28 de dezembro de 2013 | 2h 07
Marcelo Rubens Paiva - O Estado de S.Paulo
Sachê
Você sabe muito bem do que estou falando. Onde estão aqueles recipientes com mostarda e ketchup com que estávamos habituados, e aprendemos a espremer antes de escrever? E o saleiro, o açucareiro, a maionese no pratinho, com uma espátula apropriada? É mais raro encontrá-los do que guardanapos de linho. A Vigilância Sanitária, o lucro insano das corporações e o capitalismo selvagem nos obrigam a conviver com desagradáveis e minúsculos sacos plásticos não biodegradáveis que, dizem, contêm o condimento necessário para a nossa refeição. Como abrir? Com unhas? Dentes? Dentadas e unhadas? Imaginam que andamos com canivete suíço no bolso? Como abrir sem escorrer a metade do condimento? Como abrir sem espalhar pela mesa ou pelo colo ou, pior, espirrar no rosto do garçom, um saco que não fora planejado para ser aberto, mas para apenas armazenar uma porção que alguém arbitrariamente julgou a necessária. Bem, minhas fritas precisam de dezenas daqueles saquinhos. E tiveram a cara de pau de inventar sachê com azeite, vinagre e até shoyu. Queria que o inventor dessa barbaridade almoçasse numa cantina tradiça com a minha família italiana e tentasse temperar a salada, entre as polêmicas e discussões de sempre de domingo. Sem usar os dentes.
Protocolo de Atendimento
Outra aberração da humanidade. Já tive quatro protocolos de atendimento numa reclamação para o SAC de uma telefônica num telefonema de 30 minutos. Média: um protocolo a cada sete minutos e meio. No quarto, me perguntei o que foi feito com o coitado do primeiro, perdido, esquecido solitário no buraco negro que eles nomearam "sistema". E se precisamos de quatro, por que nos soletram três antes. Nossa vingança é quando fingimos que anotamos o protocolo de atendimento. "Senhor, por favor, anotar o protocolo de atendimento." Claro, querida, pode falar, estou anotando no meu álbum de protocolos de atendimento, que coleciono desde quando inventaram o protocolo de atendimento, meses depois de inventarem o atendimento. E repetimos em voz alta um número infindável, enquanto checamos e-mails, postagens nas redes sociais, confirmamos presença em eventos em que não daremos as caras... Se tivessem a mesma eficiência nos atendimentos que no exercício de dar protocolos de atendimento, o mundo seria com bem menos protocolos. E os consumidores ligariam bem menos para o atendimento.
Controle Remoto
Foi uma bela invenção. Que piorou a saúde da humanidade, aumentou o sedentarismo e nos deixou mais atordoados. Invenção que, com o tempo e o avanço tecnológico, piorou, como o relógio digital que está até em eletrodomésticos de linha branca, piscando teimosamente no 00:00, já que não sabemos programá-lo. Tá. Não bastam os botões de ligar, desligar, volume e canal. Existem dezenas deles, com números que não são parte de uma calculadora e símbolos que não fazem sentido, indicações e termos que só conseguem ser lidos com a ajuda de um microscópio. O controle da minha TV, comprada no Brasil, tem as opções power, source, ch, pre-ch, mute, ch.list, w.link, tools, return, info, exit, cc, mts, p.mode, e.mode, p.size, fav/ch, números e flechas... E, claro, um enter que, cuidado, se você apertar, a TV não funcionará por sete dias, até seu sobrinho geek fazer uma visita. Como se não bastasse, precisamos de três deles, às vezes mais, para assistir àquele filminho água com açúcar com a família. E sincronizar operações, como abaixar o volume da TV, aumentar o do Blu-Ray e mudar para modo HDTM3. Muitas vezes, quando acertamos e, milagre, o volume está OK e a legenda sincronizada, parte da família ronca ao lado. Mais fácil pilotar um caça sueco. Quer uma dica quando der pau? Uso aqui em casa: tira da tomada, conta até 15 e coloca novamente. Geralmente dá certo.
Renovação do Passaporte
Na Europa é de 15 em 15 anos. Nos EUA, de dez em dez. No Brasil, de cinco em cinco anos. Gênio. E lá vamos nós, com fotos, DARFs pagas, digitais, enfrentar filas para pegar senhas que nos levam a outras filas. E rezarmos para o sistema, aquele labirinto obscuro de informações, o entorpecente do burocrata descontente, não cair. O que costuma acontecer justamente nas vésperas das férias. Quando a categoria não entra em operação tartaruga ou greve. Por que não uma renovação de 20 em 20 anos? Aí, sim, os policiais federais poderiam trocar o cabo de um carimbo pelo de um revólver e ocupar o tempo com operações contra o crime organizado. Sem se preocuparem em organizar filas de turistas, sacoleiros, crianças ansiosas pela Disney, gente do bem sem antecedentes criminais.
Insulfilm
Serve para ocultar aquele barbeiro que nos fecha ou buzina sem parar. Protegido pelo anonimato, nos intimida. Caso contrário, xingaríamos quatro gerações da sua família. Se tivéssemos certeza de que dentro daquele carro popular com insulfilm não está a seleção brasileira de jiu-jítsu. O insulfilm aumenta a anarquia no trânsito. Incentiva a má-educação, a imprudência e o hábito tão cordialmente brasileiro de "não dar passagem". Tenho certeza de que, por trás daquele vidro escuro, está um fracote que desconta seu complexo de inferioridade no trânsito. Caso contrário, por que precisaria de um insulfilm? Pode apostar: no dia em que o proibirem, o buzinaço em todas as esquinas diminuirá.
Radiador
Aquilo que sempre esquecemos de checar se está completo. Como uma máquina tão evoluída, com computador de bordo, injeção eletrônica, radar traseiro, câmeras, que faz a baliza sozinha, GPS, MP3, freios ABS, airbag, precisa ser resfriada por um punhado de água engradada? A mesma água que esfriou as engrenagens de catapultas romanas e apaga as churrasqueiras do tiozinho do churrasco. Engradado que, a cada três anos, fura, e nos leva à loucura, aquecendo a máquina e nos deixando na mão e a pé. Tem mais computador num carro hoje em dia do que na Apolo 11, que levou o homem à Lua. Mas se ele aquecer... Houston, we have a big problem.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Contra o silício
Deu em O Globo de 04/01/2014.
A revolta contra o silício
Gentrificação em São Francisco e
colaboração com a NSA tornam empresas de tecnologia alvo de protestos nos
Estados Unidos
Rennan Setti (Email)
Publicado:4/01/14 - 12h00
Em novembro, manifestantes protestaram em frente
à sede do Twitter, em São Francisco, EUA: contra despejos e incentivos fiscais
a firmas de tecnologia David Paul Morris / Bloomberg
RIO - Os Estados Unidos pós-crise
elegeram a plutocracia como alvo de um ódio comungado por todos, dos homeless
à classe média hipotecada. Jovens armaram barracas em Wall Street em protesto
contra o 1% de endinheirados com a ajuda de smartphones, Twitters e Facebooks.
Nenhuma contradição no fato de essa parafernália ser responsável por uma
inédita concentração de milionários no outro lado do país, uma vez que ela
tornou possível o recente levante árabe. O Vale do Silício seguia blindado da
fúria contra o capital. Mas a combinação de ofertas de ação extravagantes,
arrogância, esbanjamento e um escândalo de espionagem começa a cobrar seu preço
aos geeks.
O desconforto virou notícia no início
de novembro de 2013, quando 150 pessoas protestaram em frente à sede do
Twitter, em São Francisco. Naquele dia, a rede social estreava na Bolsa
levantando US$ 2,1 bilhões e dando à luz 1,6 mil milionários. Por causa de
empresas como aquela, denunciavam os manifestantes, a cidade que já foi morada
de hippies e artistas tem hoje o metro quadrado mais caro do país. Apenas 10%
dos imóveis cabem no orçamento de quem ganha o salário médio, e despejos se
tornaram uma constante.
- Nem mesmo a Corrida do Ouro, no
século XIX, produziu tanto lucro na região - lembra Kevin Starr, professor da
University of Southern California. - Nenhuma economia do planeta suporta os
efeitos negativos desse tsunami de riqueza instantânea. Para o bem ou para o
mal, São Francisco desbrava um paradigma econômico nos EUA que refletirá em
outros países em seu descasamento de salários e na diminuição da prosperidade
da classe trabalhadora.
Nada simboliza tanto o conflito
quanto os ônibus da Google, que levam funcionários de São Francisco à sede da
empresa, em Mountain View, com direito a wi-fi e ar-condicionado. Há algumas
semanas, um dos veículos foi bloqueado durante meia hora por manifestantes que
acusavam a frota de usar indevidamente os pontos da cidade e de privar o
sistema de transportes de receita importante.
Em fevereiro, Rebecca Solnit escreveu
no “London Review of Books” que os ônibus são a prova de que, “diferentemente de
mega-empregadores em outros tempos e lugares, as corporações do Vale não estão
muito interessadas em melhorar o transporte público.”
Essa é uma face do dogma libertário
que reina no Vale, aquele que, segundo críticos, está no cerne de uma ideologia
corrompida. Para Evgeny Morozov, que deu aulas em Stanford, o que ele chama de
“solucionismo” faz start-ups acreditarem que seus apps e gadgets, não
governos, podem resolver os problemas do mundo.
“Eles pensam que tudo o que ajuda a
contornar instituições lhes dá, por definição, poder e liberdade. Você pode não
conseguir pagar seu plano de saúde, mas se um app alerta para o fato de que
você precisa de exercícios, eles acham que estão resolvendo um problema”,
contou Morozov à revista “New Yorker”.
Em novembro, Morozov publicou o
ensaio “Por que temos permissão para odiar o Vale do Silício”, em que advoga a
necessidade de combater a “linguagem banal mas eficiente” de empresas como
Google e Facebook e reexaminar sua “história furada”.
Ele argumenta que é urgente
“reinjetar política e economia no debate”, pois sua ausência permite às
corporações refutar como luditas e retrógrados todos os que se opõem aos rumos
da “tecnologia” e da “internet”. O próprio vernáculo “digital” esvaziaria a
discussão escondendo os reais interesses em jogo: seduzir nossas ansiedade e
privacidade com produtos “gratuitos”, engendrados agora em um modelo de
negócios monolítico baseado em anúncios.
“Por que tudo o que pode ‘destruir a
internet’ também arrisca quebrar a Google? Coincidência?”, escreveu. “Permitir
à Google organizar toda a informação do mundo faz tanto sentido quanto deixar a
petrolífera Halliburton organizar todo o petróleo do mundo.”
Morozov é um crítico contumaz, mas
mesmo a liberal “The Economist” previu que 2014 será o ano em que “a elite
tecnológica se juntará a banqueiros e petroleiros na demonologia pública.” Um
dos motivos é a colaboração de gigantes da tecnologia com a Agência de
Segurança Nacional (NSA) na espionagem de internautas. Outro está nas manobras
de firmas como Apple para deixar de pagar bilhões em impostos nos EUA. Há ainda
o esbanjamento de milhões em ocasiões como o casamento de Sean Parker,
ex-Facebook, que contratou a figurinista de “O Senhor dos Anéis” e Sting.
“Os geeks se transformaram nos
capitalistas mais impiedosos. A nova economia já foi uma fronteira aberta. Hoje
ela é dominada por um punhado restrito de oligopólios”, observou a revista.
O gosto pelo controle se manifesta em
muitas formas. O maior investidor da Exxon Mobil controla 0,04% das ações, mas
29,3% do Facebook estão nas mãos de Mark Zuckerberg. Apps, considerados jardins
murados por tecnólogos, estão substituindo a web aberta. Coincidência ou não,
as principais empresas do setor estão entre as mais secretas que já existiram:
a Apple organiza eventos para a imprensa onde é proibido fazer perguntas.
Para Alex Soojung-Kim Pang, consultor
na Strategic Business Insights, a transição de uma economia baseada em
fabricação de hardware para outra de negócios de internet acelerou a acumulação
de riquezas a uma velocidade inédita, alterando o DNA do Vale:
- Testemunhei a mudança quando
ensinei em Stanford, em 2000. Os alunos desenvolviam atitude do tipo “Por que
tenho que ler suas baboseiras se ganharei US$ 50 milhões no ano que vem?”.
Para Pang, o Vale se tornou um culto
à “disrupção”, cuja meta não é apenas o sucesso, mas a destruição de modelos
estabelecidos:
- O sofrimento de velhos modelos se
tornou a métrica do sucesso. Quanto mais os outros perderem, mais eu ganho. Se
desenvolvo software de educação, não é o bastante chegar às crianças na África.
Preciso que professores sejam demitidos nos EUA.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Insurgentes
O estadunidense John Reed em seu livro “México Insurgente” (Boitempo, 2010) relata sua passagem pela
revolução mexicana, como jornalista. Reed passou quatro meses no México a
serviço de um jornal de Nova Iorque. Retrata o povo mexicano em luta e em
especial, Pancho Villa.
Reproduzo aqui (p. 67) um diálogo com revolucionários
mexicanos.
- Estamos lutando – disse Isidoro Amaya – pela libertad.
- Que quer dizer libertad?
- Libertad é quando
eu posso fazer o que eu quero!
- Mas suponha que isso prejudique alguém.
Respondeu-me com a grande frase de Benito Juarez:
- O respeito pelo direito alheio é a paz!
Eu não estava preparado para isso. Surpreendeu-me tal
conceito de liberdade de um mestizo
descalço. Considero-o a única definição correta de liberdade – fazer o que quiser!
Os norte-americanos apontaram-no com ar de triunfo como um exemplo de
irresponsabilidade mexicana. Creio, porém, que é uma definição melhor do que a
nossa: “Liberdade é o direito de fazer o que ordena a Corte de Justiça”. Todo
menino mexicano em idade escolar conhece a definição de paz e parece
compreender o que ela significa. Mas nos Estados Unidos dizem: os mexicanos não
querem a paz. Isso é uma mentira estúpida. Deem-se os americanos o trabalho de
fazer um inquérito no exército maderista, perguntando se querem a paz ou não! O
povo está cansado da guerra.
Contudo, para ser justo, devo informar o que Juan Sanchez
expressou:
- Há guerra agora nos Estados Unidos? – perguntou.
- Não – contestei, mentindo.
- Não há guerra, de nenhuma espécie? – ele pensou um pouco. – Como vocês passam o tempo, então?
Corta
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6
de Janeiro de 2011:
A grande máquina de guerra dos EUA custa 1,5 trilhão de dólares
(equivalente ao PIB brasileiro) ao ano, valor que significa 43% dos gastos
militares em todo o mundo.
http://www.vermelho.org.br/es/noticia.php?id_noticia=144867&id_secao=9 12/12/2013
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A resposta a Juan Sanchez, em 2011, mostra como os EUA passam o tempo.
Pancho Villa (in the Presidential chair) chats with Emiliano Zapata at
Mexico City.
Tómas Urbina is seated at far left, Otilio Montaño (with his head
bandaged) is seated to the far right.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Sempre juntos, eternamente separados
Criaturas sem lembrança da sua meia-vida humana, jamais podem se tocar.
Apenas a angústia de um átimo, na aurora ou no poente quando estão por se
tocar. Sempre juntos, eternamente separados. Enquanto o soI Ievantar e se pôr. Enquanto
houver o dia e a noite, enquanto estiverem vivos. Do filme “Feitiço de Áquila” (1985), Richard Donner.
O enredo do filme
“Feitiço de Áquila” é mais ou menos assim: Europa, século XII. O Bispo de
Áquila (John Wood) toma consciência que sua amada, a bela Isabeau (Michelle
Pfeiffer), está apaixonada por Etienne Navarre (Rutger Hauer), um cavaleiro.
Áquila fica possuído de raiva e ciúme e lança uma maldição sobre o casal: de
dia ela sempre será um falcão (falcão peregrino ou falcão real) e de noite
Navarre toma a forma de um lobo (lobo cinzento), sendo que desta forma fica o
casal impedido de se entregar um ao outro. Lembro que estas espécies de falcão
e lobo são monogâmicas.
Com este prólogo
contaremos a seguir a estória de Alice.
Alice morava em Campinas.
De família trabalhadora ela sempre teve uma vida agitada. Aos 18 anos estudava
e trabalhava para se virar nos estudos e ajudar a família. Já nesta idade
arriscava na música. Tinha boa voz e começou a cantar com a turma da faculdade.
Gostava de Chico Buarque, Lupicínio Rodrigues, Dominguinhos e o sempre Noel
Rosa. Alice sabia todas as músicas do Noel.
O sol da Vila é triste / Samba não assiste / Porque
a gente implora: / Sol, pelo amor de Deus, / não vem agora / que as morenas /
vão logo embora / Eu sei tudo o que faço / sei por onde passo / paixão não me
aniquila / Mas tenho que dizer / modéstia à parte / Eu sou da Vila. (Feitiço da Vila)
Aos 30 anos Alice
morava em São Paulo. Já formada em Ciências Sociais trabalhava no IBGE como
pesquisadora. Mas ela fazia outras coisas. A música não saiu de sua vida. No
início paulistano cantava na noite e aprendeu piano. Como cantora sabia que não
sobreviveria, mas era o que mais gostava. E a noite era dela. Por isso adequou
seu horário de trabalho no IBGE para depois do meio-dia. Seguia a máxima do
Noel: Sol, pelo amor de Deus, não vem
agora...
E Alice namorava?
Claro, a noite é também para as paixões. Teve o Mário (músico), teve o Fábio
Aurélio (analista de sistemas), teve o Clayton (sociólogo) e outros namoricos.
Estas paixões foram boas, mas não aniquilaram Alice.
Aí entra a segunda
personagem desta estória: o Silvio.
O Sílvio quase
aniquilou Alice. Quando se conheceram numa noite ela estava nos 30 e ele nos
40. Ele era um empresário bem sucedido com uma vantagem: culto, bonito, sexy e um
senão: era casado. Tinha esposa (Clara) e filhos. Empresário bem sucedido
significa morar com a família numa casa própria espaçosa, ter outros imóveis,
jogar na bolsa de valores, viajar em férias a Paris, Nova Iorque, Istambul etc.
Sílvio era da noite. Quando jovem foi da turma do sexo, drogas e rock. Estava
bem quando estava na noite acompanhado de um uísque, amigos e amigas. E com a
música nos bares da vida melhor ainda.
Clara era do tipo de
mulher que tinha uma sensualidade especial, era reservada de
um jeito que a fazia diferente das demais mulheres e o segredo de sua
atratividade, para Sílvio, era uma mistura de passividade e distinção. E nesta
maré o casamento Clara-Silvio seguiu em frente por muito tempo. Nunca se
dissolveu. Sempre juntos.
Alice e Sílvio viveram muito tempo juntos, muito juntos, porém apenas a
noite. De dia tinham suas vidas separadas. Cada um num canto, cada um na sua. À
noite Alice vivia. De dia trabalhava. Vivia porque cantava e ficava com seu
homem querido.
Esta rotina dual como no filme “Feitiço de Áquila” até que no início não
desgastava Alice. Mas depois ela reclamou.
Vamos ficar neste
chove não molha até onde, Sílvio? Disse um
dia ela para ele.
Você quer que eu
seja sincero, Alice: não sei se sei até onde.
Ah é seu cafajeste,
então vai a merda! Respondeu Alice.
Depois desta conversa não se viram por um tempão. Acabou a dualidade.
Mas não teve jeito, exatos 90 dias após, se reencontraram na noite.
Alice se lixou para o aniquilamento. Venceu a paixão.
E continuaram como na música do Chico: O
nosso amor é tão bom. O horário é que nunca combina. Eu sou funcionário, ela é
dançarina. Quando pego o ponto, ela termina.
Sílvio faleceu aos 60 anos e deixou, agora sim, Alice aniquilada. Ela
curtiu - no mal sentido - a ausência dele por muito tempo. Demorou a Alice
considerar Silvio morto, mas com o tempo decidiu oferecer ao seu ego continuar
a vida. E continuou vivendo (à noite) e trabalhando (de dia).
Decorrido um ano da morte do marido Clara chamou Alice para uma
conversa. Combinaram o encontro no Terraço Itália na Avenida Ipiranga, centro
de São Paulo. Era a primeira vez que se encontraram. Alice, tensa, pensou “que
diabo esta mulher quer de mim”. Mas que nada. Foi uma conversa tranquila.
Falaram de trivialidades e num certo momento Clara disse:
“Você foi a
única mulher honesta que Silvio encontrou na vida”.
Alice quase
caiu da cadeira quando ouviu a declaração e Clara continuou
“Sabe o que
penso Alice, nós mulheres vivemos períodos na vida em que nos portamos como idiotas.
São os momentos em que nos apaixonamos por um homem.
Aconteceu comigo e com você em relação ao Sílvio, aquele cafajeste que nos seduziu”.
Aconteceu comigo e com você em relação ao Sílvio, aquele cafajeste que nos seduziu”.
Clara e
Alice se encontraram outras vezes até o falecimento da primeira.
Hoje Alice
vive num bom apartamento de 200 m2 que Clara deixou como herança
para "a única mulher honesta que Silvio encontrou".
NB: Qualquer relação das personagens desta estória não é mera coincidência
com a vida de Tatiana Leskova que foi bailarina, coreógrafa e professora de
balé do Municipal do Rio de Janeiro.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Ruthinéia, nossa Santa da Vida
Saudades da Ruthnéia
Plínio Marcos, Caros Amigos, setembro 1998.
Ruthnéia de Moraes, sem dúvida nenhuma, marcou o teatro brasileiro com sua coragem. Foi ela quem estreou a minha peça Navalha na Carne. Foi uma luta incrível contra a censura. Parada encardida! Não demos arreglo.
Primeiro, a encrenca se deu no prédio da Polícia Federal. Eu me alterei com um censor duro de molejo. Ele berrava, com todas as suas forças, que a minha peça era grosseira, cheia de palavrão. Eu respondia que o figurão não sabia ler peça de teatro e argumentava que o panaca estava encanado. E ele berrava que a peça era só palavrão.
Nisso, passou uma figura de grande gentileza e cultura, o coronel Montserrat. Mansamente, ele quis saber o que se passava. Expliquei pro coronel que minha peça era humanista e exercia uma realidade nua e crua. O censor quis chiar. Porém (sempre tem um, porém) o coronel cortou o papo. Me pediu para acompanha-lo até o general Sílvio Correia de Andrade, que ouviu tudo e decidiu: ele e o Montserat iriam ver o espetáculo naquela noite, com as esposas e a chefe deles também iriam.
Quando Ruthnéia começou a dizer o texto, os militares ficaram comovidos e suas mulheres choraram. A Ruthnéia estava completamente emocionada. No fim, o general me chamou num canto: "Achei sua peça linda. Essa moça, a Ruthnéia, é uma atriz maravilhosa. Agora, ouça: você quer que eu libere a peça agora mesmo e despeça os censores todos ou prefere que eu dê um depoimento de próprio punho?" Escolhi o depoimento do general.
Com o documento em mãos, continuei a luta pela liberação da Navalha. A Cacilda Becker deu força; convidou todos artistas e intelectuais de São Paulo para fazerem a leitura da Navalha na casa dela. Em cena, o trabalho de Jairo Arco e Flecha, dos atores Paulo Vilaça, Edgard Gurgel Aranha e da Ruthnéia. Foi um delírio.
A batalha esquentava. Fomos pro Rio de Janeiro. Tonia Carrero encampou a luta e fizemos outra leitura da Navalha, dessa vez na casa dela. A grande estrela queria fazer a peça. A peça estava com a Ruthnéia. Tonia propôs que ela fizesse no Rio, Ruthnéia em São Paulo. Eu não interferi. A Ruthnéia topou. Nesse momento, a peça estava praticamente liberada: a Tonia foi pra cima do ministro Gama e Silva e não houve mais nenhuma presepada. A Ruthnéia estreou em São Paulo e a Tonia no Rio. Sucesso, sucesso, sucesso!
Agora, que a Vera Artaxo está compilando minha obra teatral, morre Ruthnéia de Moraes. Não deu tempo pra magnífica atriz dar seu depoimento para a jornalista, mas ela terá, com certeza, lugar de honra no livro.
Uma das histórias que a Vera já selecionou é a de uma noite em especial da temporada da Navalha no Auditório Itália, na esquina da Ipiranga com São Luís, em São Paulo. A região era ponto de prostituição, mas Navalha estava lá e o teatro lotava todas as noites, com muitas prostitutas na plateia. Como se diz em circo, a casa andava a três de alto, com gente se agarrando pelos picos pra não espirrar pelo ladrão. Quando acabava o espetáculo, muita gente entrava no camarim pra cumprimentar a Ruthinéia.
Uma noite, depois que todo mundo saiu do camarim, uma mulher se aproximou e, timidamente, ofereceu um crucifixo pra Ruthnéia:
- Olha, eu sei que a senhora é artista. A senhora representa a gente que é da vida. A senhora é a nossa santa. A nossa Santa da Vida.
A mulher saiu, chorando. A Ruthnéia ficou no camarim, chorando, o crucifixo nas mãos.
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Navalha na carne - sinopse
Navalha na carne é a obra mais encenada do dramaturgo Plínio Marcos, ao lado de Dois perdidos numa noite suja. Censurada em 1967, a peça se passa em um sórdido quarto de hotel de quinta classe, onde a prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o homossexual Veludo encarnam a existência sub-humana e marginalizada.
Tudo começa quando Vado se dá conta de que o dinheiro do programa de Neusa Sueli, que seria gasto no jogo e na maconha, não foi repassado a ele. A suspeita do roubo cai sobre Veludo, empregado da pensão. A partir daí, o público assiste ao embate entre os três, que traz à tona insatisfações e sentimentos escondidos.
Como o próprio autor costumava dizer: "o texto só se tornou um clássico porque o país não muda". Navalha na carne é uma metáfora da estrutura de poder entre as classes sociais brasileiras, uma vez que as personagens, embora pertençam ao mesmo extrato social, se dedicam a uma incessante disputa para dominar o próximo.
RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
Ruthinéa de Moraes e Silva nasceu no dia 1 de junho da 1930 no Rio de Janeiro e faleceu no dia 24 de julho de 1998 em São Paulo aos 68 anos.
Adotou o nome artístico de Ruthinéia de Moraes, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 1 de junho de 1930. Depois de estudar balé durante sua infância, mudou-se para São Paulo, em 1958, onde formou-se na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD/USP).
No mesmo ano estreia como atriz na montagem de dois textos de Eugéne Ionesco, "A Lição" e "A Cantora Careca", com direção de Luís de Lima. Em seguida, faz, ao lado de Sergio Cardoso, "Nu com Violino", de Noel Coward, na Companhia Nydia Licia-Sergio Cardoso. De volta à companhia de Maria Della Costa, em 1959, faz parte do elenco de "Gimba", de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de Flávio Rangel. Com a companhia passa uma temporada em Portugal, atuando nas peças de repertório: "Society em Baby Doll", de Hugo Pongetti, com direção de Milton Moraes; "Moral em Concordata", de Abílio Pereira de Almeida, e "A Alma Boa de Set-Suan", de Bertolt Brecht, ambas com direção do Flaminio Bollini.
Ao voltar para São Paulo, em 1960, entra no Teatro de Arena, e atua em "Revolução na América do Sul", de Augusto Boal, direção de José Renato. No mesmo ano, participa de "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, com direção de Walmor Chagas, no Núcleo Experimental do Teatro Cacilda Becker, TCB. Ainda em 1960, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), integra as montagens de "A Semente", de Gianfrancesco Guarnieri. Em 1961, ainda no TBC, faz "A Escada", de Jorge Andrade, e "Almas Mortas", de Nikolai Gogol, e, no ano seguinte, "A Morte de um Caixeiro Viajante", de Arthur Miller, direções de Flávio Rangel. Em 1963, atua em "Os Ossos do Barão", de Jorge Andrade, sob a direção de Maurice Vaneau.
Em 1965, na companhia de Ruth Escobar, integra as montagens de "Soraia Posto 2", de Pedro Bloch, ganhando os prêmios Governador do Estado de São Paulo e Associação Paulista de Críticos Teatrais, APCT, de melhor atriz, e "Os Trinta Milhões do Americano", de Eugene Labiche, em 1966, ambas direções de Jô Soares.
Ao mesmo tempo, também faz parte do elenco do Teatro Popular do Sesi, em "A Sapateira Prodigiosa", de Federico Garcia Lorca, em 1965 e, no ano seguinte, em "O Avarento", de Molière, as duas encenações de Osmar Rodrigues Cruz.
Em 1967, faz seu grande papel no teatro: a prostituta Neusa Suely, na primeira montagem de "Navalha na Carne", de Plínio Marcos, com direção de Jairo Arco e Flexa, que lhe rendeu o Prêmio Molière de Melhor Atriz do ano. No mesmo ano, volta ao palco com novo texto de Plínio Marcos, "Homens de Papel", também direção de Jairo Arco e Flexa, ao lado de Maria Della Costa.
Em 1968, faz outro papel de peso, protagonizando "Cordélia Brasil", de Antônio Bivar, com direção de Emilio Di Biasi. Dois anos depois, retorna ao Teatro Popular do Sesi, onde, dirigida por Osmar Rodrigues Cruz, faz "Memórias de um Sargento de Milícias", de Joaquim Manuel de Macedo, "Senhora", de José de Alencar, em 1971, e "Um Grito de Liberdade", de Sérgio Viotti, em 1972, pelo qual recebe o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de melhor atriz.
Seu último grande papel, foi em 1973, quando, ao lado de Yolanda Cardoso, fez "A Dama de Copas e o Rei de Cuba", de Timochenco Wehbi, com direção de Odavlas Petti. A partir daí, integra produções irregulares, algumas de valor artístico, como "As Avestruzes", de Micheline Bourday, direção de Irene Ravache, em 1979, e "Vejo Um Vulto na Janela, Me Acudam Que Sou Donzela", de Leilah Assumpção, no mesmo ano.
Na década de 80, participa das montagens "Campeões do Mundo", de Dias Gomes, com direção de Antônio Mercado, "Moço em Estado de Sítio", de Oduvaldo Vianna Filho, direção de Aderbal Freire-Filho, em 1982. Em 1998 retorna ao teatro na peça "Laços Eternos"
Na televisão, participa de mais de 70 novelas, sendo que seu papel de maior sucesso foi em Vitória Bonelli, em 1973, na TV Tupi.
No cinema, foi dirigida por cineastas importantes como Carlos Manga, Roberto Palmari, Jean Garret, Fauzi Mansur, Eduardo Escorel, João Batista de Andrade, Roberto Santos e Chico Botelho. Com Denoy de Oliveira rodou três filmes, sendo que o cineasta foi o responsável por sua volta às telas em 1997, depois de 10 anos afastada, em "A Grande Noitada", seu último filme.
http://www.spescoladeteatro.org.br/enciclopedia/index.php/Ruthin%C3%A9ia_de_Moraes 2/9/2013
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Plinio Marcos de Barros nasceu no dia 29 de setembro de 1935 em Santos e morreu no dia 29 de novembro de 1999 em São Paulo aos 64 anos.
Li a biografia de Plinio Marcos (Bendito Maldito, Oswaldo Mendes, LeYa, 2009) e recomendo. Para conhecer mais, além das peças, vejam suas entrevistas e depoimentos no youtube. Vale a pena.
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