domingo, 19 de julho de 2020

Filmes parte 7

Diário de um cinemeiro

I Know This Much Is True, TV Mini-Series (2020), Derek Cianfrance
O paraíso deve ser aqui (It must be heaven), 2019, Elia Suleiman
O diabo riu por último (Beat the devil), 1953, John Huston
Tempos modernos (Modern time), 1936, Charles Chaplin
Shock corridor (Paixões que alucinam), 1963, Samuel Fuller
Soberba (The Magnificent Ambersons), 1942, Orson Welles
Deus é mulher e seu nome é Petúnia (Gospod postoi, imeto i' e Petrunija), 2019, Teona Strugar Mitevska, Macedônia
O menino selvagem (L'enfant sauvage), 1970, François Truffaut
O pagador de promessas, Anselmo Duarte, 1962
Intolerância (Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages), 1916, D.W. Griffith
Flores gêmeas (Fiore gemello), 2018, Laura Luchetti
O chifre da cabra (Kozijat rog), 1994, Nikolay Volev, Bulgária
Cão branco (White Dog), 1982, Samuel Fuller
O Enigma de Gaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle), 1974), Werner Herzog
Azali, 2018, Kwabena Gyansah, Suécia
Senhorita Oyo (Oyû-sama), 1951, Kenji Mizoguchi
Wasp network, 2019, Oliver Assayas
O jardim dos Finzi Contini (Il giardino dei Finzi Contini), 1970, Vittorio De Sica
O desprezo (Le mépris), 1963, Jean-Luc Godard
Dente de leite (Babeteeth), 2019, Shannon Murphy - Austrália
The old gard, 2020, Gina Prince-Bythewood
Um de nós morrerá (The Left Handed Gun), 1958, Arthur Penn
Estado zero (Stateless), 2020, Emma Freeman e Jocelyn Moorhouse


15/06/2020

I Know This Much Is True, TV Mini-Series (2020), Derek Cianfrance


'I Know This Much Is True' traz Mark Ruffalo em sua melhor atuação

Na primeira cena do primeiro episódio de "I Know This Much Is True", Thomas, um dos irmãos gêmeos interpretados por Mark Ruffalo, está em uma biblioteca falando alto e chamando a atenção dos outros frequentadores. Até que, para horror de todos, tira uma navalha e decepa sua mão direita. É assim, com passagens angustiantes, que a história dessa ótima série dramática é contada. Talvez o momento não seja ideal para lançar um produto tão sinistro como esse, mas quem der uma chance ao primeiro episódio vai ficar interessado até o fim. O programa é muito bem produzido e mostra cuidado com o cenário, a música, a iluminação, todos sufocantes. De quebra, tem o melhor trabalho de Mark Ruffalo até agora, seja na TV, seja no cinema.

Tecnicamente apurada, "This Much..." conta uma história triste e profunda sobre a batalha de um par de gêmeos idênticos que nasceram em uma família cheia de segredos. No presente, que na série é o fim dos anos 1990, aos 40 e poucos anos, Thomas é esquizofrênico, enquanto Dominick é um homem angustiado que se sente em eterna dívida com o irmão.

A mãe dos dois (Melissa Leo, ótima) nunca revelou a identidade do pai. O padrasto controlador e abusivo pegava no pé de Thomas na infância, pois o considerava fraco. Décadas depois, quando a trama se passa, Dominick tem uma vida estável comparada com a de seu irmão, que vive em uma instituição para doentes mentais. Até que acontece o incidente de abertura da série.
Depois de passar por um hospital, Thomas é levado para um manicômio e tirar o irmão dali vira a obsessão de Dominick. A diferença entre Thomas e Dominick não está só no fato de o ator ter convencido os produtores da série a fazer um intervalo de sete semanas para poder engordar 13 quilos e voltar para interpretar o irmão esquizofrênico.

A atuação dele é tão primorosa que Thomas e Dominick têm vozes diferentes, expressões diversas, posturas próprias. Não há o menor risco de o espectador confundir um e outro, ou, mais grave ainda, perceber que os dois são interpretados pelo mesmo ator. Por mais que a minissérie seja sombria, testemunhar o enorme desafio encarado por Mark Ruffalo é um prazer.

Baseado no romance de 1998 da escritora americana Wally Lamb ("Eu Conheço a Verdade" e "Ela é Desfeita"), o enredo em seis capítulos de mais ou menos uma hora cada um, que a HBO vem botando no ar semanalmente, é narrado por Dominick, o protagonista, em sua saga para libertar o irmão da prisão. Dominick também tem um passado cheio de sofrimento e um casamento desfeito por causa de uma tragédia.

Atualmente, ele tenta explicar para a assistente social da prisão (Rosie O'Donnell, que está muito bem) porque Thomas não deve estar ali, e a partir dessa passagem o personagem principal guia o espectador por memórias do passado. A série viaja por flashbacks até a infância dos irmãos e o tempo em que passaram juntos na universidade, para dar elementos que explicam o que pode ter provocado a circunstância atual.

E o que levou Dominick a se tornar um homem raivoso, circunspecto, que não consegue conviver em paz com sua namorada atual, Joy, uma menina mais nova e animada, papel de Imogen Poots. Ele ainda alimenta a esperança de se reunir com sua ex-mulher, Dessa (Kathryn Hahn, de "Transparent").
A série foi toda escrita e dirigida por Derek Cianfrance ("O Lugar Onde Tudo Termina", "A Luz Entre os Oceanos", "Namorados para Sempre") e captada em filme mesmo, como se fazia antes das câmeras digitais tomarem conta da indústria. Ter só um roteirista e diretor garante consistência ao programa. É de verdade um produto autoral, que se baseia tanto nas ideias de Cianfrance quanto na atuação de Mark Ruffalo.

O resto do elenco também é forte, dá para perceber que tem direção de atores e um bom trabalho de casting por trás. Juliette Lewis faz uma participação interessante. "This Much..." não é exatamente uma série agradável de se ver. É muitas vezes incômoda, aflitiva, mas vale o desconforto. Mesmo nessa época em que talvez muita gente não esteja a fim de se envolver com tanta desgraceira. Esse é um programa raro. (Teté Ribeiro)

19/06/2020

O paraíso deve ser aqui (It must be heaven), 2019, Elia Suleiman


Na sala de espera de uma grande produtora norte-americana, o cineasta Elia Suleiman (interpretando a si mesmo) é apresentado à mulher apressada: “Ele está fazendo um filme sobre a paz no Oriente Médio, mas é uma comédia”. Ela responde: “Sim, isso já é engraçado por si só”. Suleiman sai do local sem qualquer promessa de financiamento. “Boa sorte com o seu projetp”, finaliza a mulher, em falso tom de cordialidade. Instantes tragicômicos como este se multiplicam ao longo de It Must Be Heaven, comédia sobre as dificuldades sociais na Palestina e a impressão de superioridade dos países ricos (França e Estados Unidos, no caso) em relação ao mundo árabe.

Em suas últimas ficções, o cineasta tem investido neste tipo muito específico de humor que provém unicamente da construção da imagem e de gags visuais, sem o apoio de diálogos nem explicações de qualquer tipo. Ele propõe esquetes que se colam de maneira livre, até formar um panorama político do tema em questão – numa clara herança de Buster Keaton e Jacques Tati, e em diálogo direto com as ironias visuais dos contemporâneos Roy Andersson e Aki Kaurismaki, por exemplo. As cenas podem soar tão lúdicas quanto violentas, dependendo da interpretação. De qualquer maneira, não há espaço para ingenuidade no roteiro que propõe a viagem de um palestino a Paris e Nova York, apenas para perceber que estes lugares supostamente desenvolvidos possuem problemas sociais tão graves quantos os de sua terra natal... (Bruno Carmelo)

Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

20/06/2020
O diabo riu por último (Beat the devil), 1953, John Huston


Uma quadrilha criminosa de atuação internacional une-se ao casal de golpistas Billy (Humphrey Bogart) e Maria Dannreuther (Gina Lollobrigida) e partem todos para a África. Lá, usando a desculpa de que são vendedores de aspiradores de pó, eles tentam se apropriar de terras que supostamente têm uma grande quantidade de urânio, mesmo objetivo do casal Chelm (Edward Underdown e Jennifer Jones).

Humphrey Bogart: "Só os impostores acham engraçado. É uma bagunça." Sim, mas talvez seja a bagunça mais engraçada de todos os tempos. O filme brincava consigo mesmo, mas deu certo de uma maneira inovadora... (Pauline Kael in 1001 noites no cinema, Companhia das Letras, 1994, p. 143)

20/06/2020

Tempos modernos (Modern time), 1936, Charles Chaplin


1936: "Tempos Modernos", de Charlie Chaplin, chega às telas

Em 5 de fevereiro de 1936, Charlie Chaplin lançou "Tempos Modernos" em pré-estreia nos EUA. Ele dirigiu o filme e interpretou o papel principal. Na Alemanha e na Itália, a película "de tendência comunista" foi proibida.Na comédia Tempos Modernos, o autor, diretor e ator Charles Spencer Chaplin parodiava as facetas nefastas da crise econômica mundial e da nova fase da industrialização. Gente lutando contra máquinas, a exploração, a necessidade extrema. No centro da história, alguém tenta sobreviver aos difíceis tempos: um vagabundo, com chapéu-coco, bigode, sapatos enormes e bengala.

Devido a seus filmes de humor sofisticado, Charlie Chaplin pode ser considerado ainda hoje o comediante mais famoso de todos os tempos do cinema. Ele negava, porém, a imagem que faziam dele em função de seu trabalho. "As pessoas dizem que sou uma pessoa alegre. Não sou de jeito algum. Sou um homem bem sério. Com frequência não sei como devo expressar alguma coisa. Por isso meus filmes são sempre tão longos. E o mais difícil é dar-lhes a aparência de simples."
Marco cinematográfico

Chaplin precisou de quatro anos para concluir Tempos Modernos. O filme tornou-se um momento de ruptura em sua carreira. Pela última vez, o artista levava para as telas seu legendário vagabundo. E este entrou para a história do cinema como seu derradeiro filme mudo. Há tempos as películas haviam ganhado falas. Mesmo assim, Chaplin confiou mais uma vez em sua muda arte da pantomima, restringindo a sonorização à música e efeitos sonoros. Somente um personagem podia falar: o dono da fábrica, que vigiava seus operários através de uma gigantesca parede de projeção. "Pavilhão Número 5 está trabalhando muito devagar! Dobrem a velocidade! Capataz, os parafusos estão frouxos demais. Verifique o que está acontecendo! Ei, aqui não é lugar de se fumar, mas para trabalhar!", ditava ordens o patrão, interpretado por Alan Garcia...

Mensagem política ou pura diversão?

"Eu acho que passar mensagens é muito problemático. Elas podem ser indignas. Podem até mesmo serem ridículas. Não acredito em mensagens", comentou certa vez ao falar de Tempos Modernos. Chaplin não via seu último filme mudo como uma sátira política, mas como entretenimento. Mesmo assim, o governo americano sentiu-se incomodado, assim como os governos nazista da Alemanha e fascista da Itália, que proibiram a exibição da película. Após novos filmes e anos de atritos com o governo dos EUA, o artista britânico deixou o país que escolhera para viver, retornando à Europa.
Somente décadas depois Hollywood reconheceria o mérito das obras do criador do vagabundo.

Em 1971, Chaplin, já com 83 anos, recebeu um Oscar por sua "incalculável contribuição ao cinema".

Catrin Möderler (mw), Deutsche Welle, 05/02/2020


21/06/2020

Shock corridor (Paixões que alucinam), 1963, Samuel Fuller


PAIXÕES QUE ALUCINAM: UMA ANÁLISE DAS FORMAS DE MANIFESTAÇÃO DO INCONSCIENTE
O tema proposto para nossa investigação – as formas de manifestação do inconsciente nos três personagens do filme “Paixões que alucinam”, do diretor Samuel Fuller: Stuart, Tren e Boden – nos traz de início – e de acréscimo – duas outras questões fundamentais (ou ao menos preambulares): de qual inconsciente estamos falando e de que forma ele se dá a conhecer, isto é, de que maneiras ele se manifesta no sujeito.

Então, antes que possamos nos perder no exercício ao qual o trabalho nos convida – e nos seduz, nesse convite – devemos delimitar com algum rigor os conceitos dos quais lançaremos mão em nossa exposição. O apoio conceitual que nos irá guiar nesse empreendimento ousado virá, essencialmente, d´A Psicoterapia da Histeria. Contudo, advertimos desde já que o fato do filme lançar mão de algumas idéias derivadas do que poderia ser chamado de uma vulgarização do pensamento freudiano, nossos comentários poderão desatender, em algumas passagens, o rigorismo a que nos propomos no início.

Isso porque essa “vulgata freudiana” acabou por embaralhar conceitos, agrupando-os sem qualquer preocupação cronológica e ou coerência lógica, em total desatenção ao conjunto do pensamento freudiano, resultando na apresentação de fenômenos psicanalíticos de maneira um tanto grosseira, a ponto de torná-los de difícil reconhecimento. Voltaremos mais adiante a essas questões.

De todo modo, esses comentários que eventualmente não pertençam ao texto freudiano em referência serão apontados no curso do trabalho, como medida de esforço para conservar a sua coerência e a fidelidade à obra de Freud indicada... (Otávio Augusto Moreira D`Elia)

24/06/2020

Soberba (The Magnificent Ambersons), 1942, Orson Welles


"A exemplo de Andre Bazin e seus discípulos na Revue du Cinéma e, depois, no Cahiers du Cinéma, Paulo Emilio Salles, preferia o mutilado Soberba (The magnificent Ambersons), renegado por Orson Wells, a Cidadão Kane." (Sérgio Augusto).

“Soberba” é aquele eterno grande filme em potencial

Depois da desconcertante estreia com “Cidadão Kane” (Citizen Kane, 1941), um dos melhores da história de todos os tempos na lista de qualquer cinéfilo, Orson Welles dirigiu “Soberba”, novamente com muitas boas ideias, algumas delas ainda presentes no filme. Infelizmente, a produtora, RKO montou o filme sem a presença do diretor, descartando 50 minutos de filmagem, que foram destruídos. Uma das maiores incógnitas do cinema, então, é supor se este poderia ser tão bom ou talvez melhor que “Cidadão Kane”.

George Minafer (Tim Holt) é o esnobe filho de Isabel Amberson Minafer (Dolores Costello), uma rica família em uma cidade pequena dos Estados Unidos. Eugene Morgan (Joseph Cotten), um antigo pretendente de Isabel, é um empreendedor da nascente indústria automobilística, que volta a cortejá-la após a morte do pai de George, a contragosto deste. Essa oposição ao novo relacionamento da mãe se torna um obstáculo para o namoro dele com Lucy Morgan (Anne Baxter), filha de Eugene. A inversão dos poderes, pelas perdas econômicas da família Amberson e pela ascensão da empresa dos Morgans, podem alterar esse desajustado estado.

O prólogo de “Soberba” é arrebatador. Orson Welles entra como narrador da estória, que começa em 1873, com a tela toda em preto por alguns segundos, até a entrada da imagem da enorme casa dos Ambersons, em tom sépia, enquanto se descreve o poder da família naquela cidade, com entonação cômica. A íris do filme deixa as bordas arredondadas, imitando os primeiros filmes mudos. A mise en scène somente se torna contemporânea quando na estória George se torna adulto, tomando o centro do quadro, com postura arrogante.

O interior da casa dos Ambersons, onde se passa a maior parte da narrativa, sempre surge nas telas com muitas sombras, enquadramentos deslocados, e com câmera em altura abaixo da cintura, dando a impressão de um teto com pouca altura, oprimindo os personagens. Quando o pai de George morre, os personagens olham para a câmera dentro do caixão, como uma impossível câmera subjetiva do falecido. Fica evidente como George foi criado em ambiente que o tornou em um rapaz tão insolente.

Orson Welles trabalha enfaticamente o antagonismo entre a tradição dos Ambersons e a modernidade dos Morgans. George menospreza o automóvel, como sendo uma invenção sem futuro, e prefere levar Lucy para passear em um trenó puxado por um cavalo, enquanto Eugene conduz sua mãe e outros convidados em um automóvel que atola na neve. O adorno de madeira em frente à casa dos Ambersons traz a figura de um cavalo. E será justamente a opção por investir na moderna indústria automobilística que tornará os Morgans mais ricos que os Ambersons.

Mais importante ainda, o fato que mudará o comportamento de George envolverá um carro. Welles defende a modernidade porque sentiu na pele as críticas que “Cidadão Kane” recebeu, por utilizar técnicas narrativas de forma tão intensa como nenhum outro filme havia ousado até então. Seu cinema moderno não foi tão bem compreendido na época, mas anos mais tarde, foi reconhecido como um dos marcos da história dos filmes, da mesma forma que ocorreu com os automóveis, considerado indispensável depois de algumas décadas.

Welles não abandona as técnicas utilizadas em filme de estreia, como usar os noticiários de jornais para contar eventos da estória, ou montagens com comentários de personagens. Seu uso não é tão enciclopédico quanto em “Cidadão Kane”, o que talvez tornasse “Soberba” mais fluido, e isso pode ser apreciado especialmente até sua primeira metade.

Porém, a mutilação da RKO tornou incompreensível o arco dos personagens, finalizando de maneira rasa a transformação de personagens construídos com profundidade até então. “Soberba”, como foi entregue ao público, não é um grande filme. “Soberba”, como foi filmado, talvez seja, mas nunca saberemos. (Eduardo Kaneco)

Orson Welles interview on The Magnificent Ambersons and It's All True

25/06/2020

Deus é mulher e seu nome é Petúnia (Gospod postoi, imeto i' e Petrunija), 2019, Teona Strugar Mitevska, Macedônia


Sinopse: Em Stip, pequena cidade na Macedônia, é uma tradição anual que o padre jogue uma cruz de maneira no rio. Dezenas de homens mergulham atrás dela, visando sorte e prosperidade. Petúnia, no entanto, chega antes, suscitando a revolta dos que não entendem como uma mulher ousa participar do ritual. Mas ela se mantém firme, pois conseguiu sua cruz e não irá desistir.

Deus é Mulher e seu Nome é Petúnia

Petúnia está cansada. Petúnia está deitada, e tudo o que deseja é permanecer embaixo das cobertas. Petúnia não quer enfrentar os pais, os vizinhos, a vida lá fora. Petúnia não quer ir para mais uma entrevista de emprego, que vise uma posição muito abaixo da sua qualificação, e que mesmo assim não deverá lhe dar o valor devido. Petúnia não quer se humilhar, não quer implorar, não quer se sujeitar à avaliação dos outros.

Petúnia não quer ser incomodada no caminho até à fábrica, quando é perseguida pela própria mãe, que insiste em conselhos inapropriados de última hora, e muito menos quando está de volta, cerca por homens grosseiros preocupados muito mais com as regras e tradições do que com o bem-estar de quem passa ao lado deles. Petúnia não se importa com o que os outros podem pensar, e por isso, quando vê a oportunidade de fazer algo inesperado, simplesmente se atira. Afinal, se Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia, ela não pode estar errada, não é mesmo?

Inspirada em um evento verídico, a diretora e roteirista macedoniense Teona Struga Mitevska partiu para a ficção para tecer um olhar crítico e apurado sobre uma realidade que até hoje perturba e incomoda. Em diversas cidades e pequenas comunidades por todo o país, sempre no dia 19 de janeiro, o feriado da Epifania (batismo de Cristo) é celebrado em rios e córregos da seguinte forma: uma cruz é atirada na água, e à pessoa que for capaz de pegá-la estará reservada boa sorte e prosperidade para todo o ano seguinte. Quem mais do que Petúnia precisa de bons agouros nos meses que virão? No entanto, há um problema aí. Quando se dia “a pessoa que conseguir pegar a cruz”, lê-se “o homem que conseguir pegar a cruz”. Sim, pois esse é um mérito – e um direito – reservado apenas à ala masculina da nação. Às mulheres, resta apenas observar e aplaudir. Até que uma delas decida subverter essa ordem. E o nome dela, afinal, é Petúnia.

Petúnia nada faz de caso pensado. Apenas reage ao seu instinto. A situação se apresenta em sua frente, e ela decide seguir sua vontade. No entanto, sabe bem o preço de cada ação. Por isso, tem ciência também pelo que está lutando, e o que estão lhe exigindo para que abra mão. A cruz, em si, pouco importa. Nunca foi de dar atenção à religião, e bem sabe ela que todas as suas rezas e de sua família pouco ajudaram para mudar o rumo dos acontecimentos até ali. Sua birra, ou insistência – ou melhor ainda: resistência – se dá pelo gesto. Tem dois braços e duas pernas, uma cabeça pensante e uma respiração que a mantém viva da mesma forma que qualquer um dos homens que entraram na água e, sem tanta sorte – ou seria habilidade? – não conseguiram igualar o seu feito. Agora a cruz está com ela. Mas, mais do que isso, o que quer é o direito de tê-la. Tanto para guardá-la, como também para dela se desfazer, se assim desejar. Não é o objeto, portanto, e, sim, o princípio que motiva esse debate.

Antes disso, é bom estar atento ao universo que circunda nossa protagonista até o momento de virada. Mora com os pais – uma mãe autoritária e controladora, um pai submisso e ausente – e a única amiga, com quem imagina poder contar, está mais preocupada com frivolidades do que em fazer, de fato, diferença. Ao se apresentar para um possível trabalho, mais uma tentativa dentre tantas as quais tem se sujeitado ao longo dos anos, humilhação e assédio são moedas comuns, com as quais está acostumada. Seria de se esperar que os céus se iluminem, que os mares se abram, e que um príncipe lhe chegue sorrindo, montado num cavalo branco. Mas isso só acontece nos contos de fadas – ou na imaginação dos mais fervorosos. Petúnia, no entanto, não é apenas uma coisa ou outra, boa ou má, santa ou puta.

É tudo isso, e um pouco mais. Assim como qualquer um na audiência. Essa sua miríade, portanto, não apenas a faz humana, mas também digna de ser observada com cuidado.
Tentam calá-la. Se esforçam para desmoralizá-la. Gritam, ameaçam, esperneiam. A incompreensão começa em casa, vai para as ruas e se espalha por um país. A imprensa tenta cumprir sua missão, com um olho na urgência da notícia, e outro no sensacionalismo do episódio. A polícia a protege por obrigação, assim como a repudia nos bastidores. Tanto um, quanto o outro, no entanto, possui suas brechas – o cinegrafista que se revolta, o oficial que se compadece.

À Petúnia, portanto, cabe estar com os ouvidos – e todos os seus demais sentidos – bem atentos. Ela fez muito pouco, quase nada. Mas esse mínimo acabará por fazer significado num momento em que mais nada importa. Seu exemplo é que conta. É este que fará barulho, aquele que irá perdurar e provocar mudanças. Não hoje, talvez ainda não amanhã. Mas com certeza, um passo foi dado. Aqui a discussão começa, pois, quando menos se espera, um mundo inteiro poderá ser acordado. Com tudo de ruim – e de bom – que isso implica. (RobledoMilani)


27/06/2020

O menino selvagem (L'enfant sauvage), 1970, François Truffaut


O menino selvagem no Vimeo

O Garoto Selvagem
Baseado no livro do Doutor Jean Itard, O Garoto Selvagem é um fascinante estudo social psicológico sobre o homem e a natureza, resgatando a ideia de Rousseau sobre o “bom selvagem”. Truffaut, com poucos recursos investe no projeto de forma bastante pessoal e logo na abertura procura deixar claro que se trata de um caso verídico, algo que transpassa ao tom de documentário da obra. Certamente não se trata de um filme “fácil”, mas que merece ser assistido e reassistido.

A opressão civilizatória do longa-metragem se apresenta de forma arrebatadora de imediato. Um garoto sujo de cabelos e unhas grandes é encontrado em uma floresta na França. Curiosos com o fato os homens “civilizados” ao redor organizam uma equipe de busca, ou de caça, para capturar a selvagem criatura. Desde já somos pegos de surpresa com o garoto em questão sendo tratado como um verdadeiro animal exótico, sendo perseguido por cães e tirado de seus esconderijos com fogo e fumaça. Ao ser praticamente raptado, o jovem que não passa dos doze anos passa por uma série de mãos de estudiosos, que buscam entender aquela persona tão incomum. Chega a ser perturbador a forma como os parisienses se aglomeram para, fascinados, observarem o pobre garoto.


Curiosamente, porém, de todas essas indignidades a maior pela qual Victor (Jean-Pierre Cargol) passa é justamente a tentativa de educação por parte do Dr. Jean Itard (interpretado pelo próprio Truffaut). O roteiro aqui é preciso, deixando claro que tais médicos procuram ajudar a criança, quando, de fato, ela não precisava de ajuda – estava perfeitamente bem em seu estado selvagem (a tal ponto não há como não ver o argumento de Rousseau se construindo). Do andar sobre as duas pernas até aprender a falar, o menino vai se tornando cada vez mais como nós, mas sempre retomando suas origens com fugas e olhares distantes para as árvores. Com o tempo a personalidade exótica vai desaparecendo, se transformando a algo próximo de uma criança comum.

A presença do diretor em cena, apesar de apenas cumprir o papel de seu personagem, sem impressionar, é crucial para a direção da criança. Em diversos momentos um olhar atento perceberá que François direciona a movimentação de Jean-Pierre, sempre prezando o realismo da obra. De fato, temos aqui a maior qualidade de O Garoto Selvagem – como dito, a linguagem documental tem forte presença, em especial através dos movimentos de câmera precisos que acompanham cada personagem. Além disso, porém, Truffaut opta por uma ênfase no caráter de época do longa e, além do óbvio preto e branco, utiliza transições típicas aos primórdios do cinema.

A caracterização não se limita à linguagem da narrativa e marca forte presença desenho de produção, surpreendente considerando as limitações financeiras da obra. Somos perfeitamente transportados para 1798, ao ponto que verdadeiramente acreditamos estarmos assistindo gravações de tal época (ainda que seja algo impossível por razões óbvias).

Diante de tal busca pelo naturalismo, contudo, o roteiro acaba pecando por uma relativa repetitividade. Como já dito, o filme funciona como um fascinante estudo social e psicológico, mas como narrativa cinematográfica ele pode nos cansar pelas sequências atrás de sequências dos estudos de Victor. Felizmente, o diretor está ciente de tal fato e trabalha em uma duração bastante limitada de 83 minutos que termina exatamente quando o cansaço atinge o espectador de fato.

Esse fator, porém, não influi na qualidade de O Garoto Selvagem, que parece somente aumentar sua força sobre nós com o passar dos anos – quanto mais nos afastamos da época retratada, maior nosso estranhamento em relação a ela. Novamente reitero que não se trata de um filme fácil de ser assistido, mas que merece ser apreciado por qualquer espectador –  preferencialmente mais de uma vez. Jean-Jacques Rousseau em essência. (Guilherme Coral)

28/06/2020
O pagador de promessas, Anselmo Duarte, 1962


Anselmo Duarte fez história como primeiro – e único, em 2020 – brasileiro a receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Foi em 1962, há quasse 60 anos... A Novaes Teixeira, ele disse que queria contar a história de um Cristo terceiro-mundista. Não a maior história de todos os tempos, mas algo muito mais simples e humano. Cristo como um carteiro (mensageiro de Deus?), filho do carpinteiro e da lavadeira. E, num rompante, para espanto de Novaes, chegou a dizer que voltaria a Cannes com seu Cristo e levaria a Palma. Por mais que Anselmo possa ter aumentado e até inventado a história, prevaleceu o conceito fordiano em O Homem Que Matou o Facínora – 'Print the legend'.

Ele, realmente, voltou a Cannes em 1962 e ganhou a Palma de Ouro com O Pagador de Promessas. Não era bem a história de Cristo, mas era a história da crucificação de um brasileiro comum pela intolerância, e não apenas religiosa... Trabalhou durante seis meses e aí começou a desanimar. A coisa não andava. Seu Cristo estava emperrado. E então um jovem diretor de teatro, de muito prestígio na época, Flávio Rangel, convidou-o para ver sua nova montagem.

Era de uma peça de Dias Gomes. Anselmo foi, e no palco, em Zé do Burro, encontrou o seu Cristo. Indescritível a sua emoção. Juntando o que não tinha, comprou os direitos, embora não tenha sido fácil convencer o autor. Dias Gomes era um homem engajado, de esquerda. Desconfiava daquele galã. Ao comprar os direitos, Anselmo armou-se de uma cláusula, que lhe assegurava o direito de fazer mudanças no original. Dias Gomes assegurou-se de outra cláusula. Flávio Rangel teria de ser diretor assistente...

Na história, o nordestino Zé faz uma promessa para salvar seu burro, que está morrendo. Promete carregar uma cruz até a igreja, em Salvador. Mas ele fez sua promessa num terreiro de candomblé, e ao chegar o padre o impede de entrar na igreja. Cria-se um caso. A imprensa explora o episódio. A mulher de Zé, Rosa, é atraída pelo gigolô Bonitão e isso provoca a ira da prostituta Marly, que acusa a 'santinha' de estar querendo roubar seu homem. Engalfinham-se numa briga de arranhões e puxões de cabelo. Cria-se um 'carnival' semelhante ao que Billy Wilder armou em A Montanha dos Sete Abutres, mais de dez anos antes. Zé do Burro, amarrado à própria cruz, só entra morto na igreja, nos braços do povo...

Chegou o grande dia em Cannes. A seleção daquele ano era pródiga em grandes nomes. Michelangelo Antonioni (O Eclipse), Luís Buñuel (O Anjo Exterminador), Robert Bresson (O Processo de Joana D'Arc), Pietro Germi (Divórcio à Italiana), Sidney Lumet (Longa Jornada Noite Adentro), Otto Preminger (Tempestade sobre Washington), Agnès Varda (Cléo das 5 às 7), etc. Um filme da Grécia, Electra, a Vingadora, de Michael Cacoyannis, foi aplaudido sem parar, durante dez minutos, algo nunca visto na história do festival.

Mas veio O Pagador, e algo se passou. (Luiz Carlos Merten)

29/06/2020

Intolerância (Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages), 1916, D.W. Griffith



... Intolerância é um triunfo narrativo, uma produção espetacular que consegue eclipsar até mesmo obras monumentais que viriam décadas depois como Cleópatra e Ben-Hur em termos de escala, suntuosidade e até mesmo técnica.

No entanto, o espectador moderno, mesmo o mais ávido e eclético apreciador de filmes, precisa ter paciência e tranquilidade para assistir as quase três horas de projeção (há outras versões, algumas até 20 minutos mais longas, mas em razão da velocidade do frame rate da fita em si, não pela adição de conteúdo – a versão objeto da presente crítica é a “Killiam Shows”, de 176 minutos), além de uma mente programada para ver muito mais um momento marcante e fundamental da História do Cinema do que um “filme comum”. As quatro histórias contadas de forma entrecortada ao longo de toda a duração do filme são, em ordem cronológica:

– Ano 539 a.C. – Na Babilônia, um conflito religioso leva à guerra entre o Rei Nabonido (Carl Stockdale) e seu filho, o Príncipe Belsazar (Alfred Paget) e Ciro, o Grande, da Pérsia (George Siegmann), o que resulta na Queda da Babilônia e o fim de sua independência. A história, baseada em fatos reais, é vista sob o ponto de vista da Moça das Montanhas (Constance Talmadge), levada por seu irmão para o “mercado de noivas” na cidade e que acaba se apaixonando pelo príncipe e lutando em seu exército.

– Ano 27 a.C. – A história de Jesus Cristo, o Nazareno (Howard Gaye) – do primeiro milagre até sua crucificação – que ganha enfoque reduzido.

– Ano 1572 d.C. – Massacre da Noite de São Bartolomeu, na França, em que Caterina de Médici (Josephine Crowell)  fomenta os católicos a assassinar os protestantes huguenotes.

– Ano 1914 d.C. – O foco principal do filme e única história fictícia, ainda que baseada em questões sócio-políticas até hoje relevantes. Nela, a Doce Menina e o Rapaz enfrentam o preconceito e a hipocrisia puritana para sobreviver e criar seu filho, depois que uma greve e suas consequências obrigam suas respectivas famílias a se mudarem de cidade... (Ritter Fan)

Não existe outra conexão entre esses segmentos senão o fato de abordarem a intolerância (religiosa, política e social) ao longo da História.

Projetado na URSS em 1920, Intolerância exerceu ali grande influência sobre os jovens cineastas soviéticos Eisenstein, Pudoviskin, Kulechow, mas sobretudo por suas primeiras sequencias, que mostram uma greve e sua selvagem repressão. (George Sadoul)

Intolerância no youtube

Comentários sobre Intolerância de André Sturm

03/07/2020

Flores gêmeas (Fiore gemello), 2018, Laura Luchetti


Fiore gemello (tradução livre)

Há flores que nascem naturalmente juntas. Sem managem e sem intervenção humana. Eles têm um caule, mas duas flores. Como em Fiore gemello, o segundo filme de Laura Luchetti que, antes de chegar aos cinemas italianos, percorreu o mundo com a estreia mundial no Festival de Cinema de Toronto, onde ganhou o prêmio Fipresci (ou seja, a Federação Internacional de Impressão de Filmes) e depois também chegou à Itália em Alice na cidade, a seção independente do Festival de Roma.

Ela é Anna (Anastasiya Bogach), uma garota sardenha de cara limpa. Ele só está carregando a mochila e está fugindo de algo, alguém. Este é Basil (Kallil Kone), um imigrante ilegal da Costa do Marfim e chegou à Sardenha através de mensageiros contrabandistas (mais tarde dirigido pelos italianos Aniello Arena e Mauro Addis). Eles se encontram por acaso. Eles se tocam. E então eles caminham juntos, talvez, para um novo futuro. Os níveis temporais em que a história é construída são dois: o presente refere-se ao passado, o de Anna. O único que você quer descobrir a razão da fuga. A compreensão imediata de Basil sobre seu desejo, sua necessidade. Anna, por outro lado, uma jovem italiana, quer entender por que não tem mais nada nas mãos. Não é uma afeição, nem uma referência. E ele também sorri, adoece, tem medo, mas nunca fala. Ele confiou suas mãos e seu olhar com ação e decisão.

Filmado na Sardenha arcaica, entre saleiros, bosques, praias primitivas, países brancos e estreitos, Fiore gemello é um filme italiano muito bom, diferente na fatura feita na Itália e na construção dramatúrgica. Poderia, mas não, recorrer às manobras narrativas fáceis para contar a dor de dois meninos jovens e solitários. Ela é branca, ele é negro, e ainda não é um filme sobre a necessária integração de dois mundos diferentes, talvez oposto, mas no final semelhante. Sua amizade, que então se torna uma história de amor natural, é o resultado da união de duas almas nunca se entregando que não estão contentes em sobreviver.

Eles são frágeis, aparentemente sem esperança, mas sua fraqueza é sua própria força. Porque os torna semelhantes, faz com que eles olhem para dentro e se recuperem, um para o outro, a inocência. E graça. O mesmo que vem do amor, muitas vezes terreno narrativo escorregadio, que em vez disso em Flor Gêmea se torna um gerador de força.

Uma força que também é apoiada pela música de Francesco Cerasi composta de instrumentos (intenso, talvez às vezes demais, a presença do violoncelo) e da natureza. O da Sardenha, cheio de lugares arcaicos, fauna incomum e uma vegetação de cores mutantes. Os lugares, portanto, tornam-se evocativos dessa liberdade que todo homem deve conquistar.

Não é coincidência que o filme (que tem um final magnífico) também seja filmado no sul da Sardenha, na ilha de Sant'Antioco, cujo nome vem do patrono da Sardenha que era apenas um mártir negro que fugiu da Sardenha da Mauritânia. (Emanuela Genovese)

05/07/020

O chifre da cabra (Kozijat rog), 1994, Nikolay Volev, Bulgária


Bulgária, século XVII, uma terra dominada pelos turcos. Um casal de jovens que vivem perto das montanhas, tem uma filha. Um dia, o pai, que é pastor, até as montanhas com seu rebanho, a tragédia acontece, entretanto, a sua família: um grupo de turcos vêm em sua cabine e estuprar e matar sua esposa na frente de sua filha. O pai desolado vendo o seu infortúnio, ele leva sua filha para as montanhas e educação, como se fosse um menino, sua formação como um menino. Preparando a vingança da morte de sua mãe. Um chifre de cabra acentuado será o instrumento de sua vingança.
Este filme, ambientado no século XVII, é uma história que centra a sua atenção sobre o ambiente séculos dolorosa das mulheres camponesas dominado e estuprada pelos turcos, contada com uma linguagem simples, quase sem diálogo, um cinema, quase puro e A história é contada apenas com imagens, ações e gestos dos protagonistas.

06/07/2020

Cão branco (White Dog), 1982, Samuel Fuller


‘Cão Branco’: um filme maldito, mas uma poderosa obra anti-racista

Samuel Fuller entra facilmente no Hall de diretores desprezados no mundo cinematográfico. Em suas mãos, temas rotineiros ganham ótimos contornos dramáticos enquanto ideias triviais se transformam em virtudes. Martin Scorsese falou que o cinema de Fuller é aquele que entra sorrateiramente pela “porta dos fundos” através de filmes que desenrolam-se convulsivamente e violentamente, tal como o cotidiano da vida, composto por emoções genuínas.

Não à toa, que Sam foi intitulado de “contrabandista do cinema”, já que dentro dos seus melodramas tradicionais, encontrava-se um vespeiro subversivo repleto de temas polêmicos, e que transformava o cinema em um campo de batalha para discutir o embate ético e moral das questões hipócritas da sociedade americana, como bem visto nas suas obras-primas Paixões que Alucinam (1963) e O Beijo Amargo (1964).


Na filosofia “fulleriana”, seus filmes são pura emoção: amor, ódio, violência e morte. A ação está sempre a serviço do campo estético – de enquadramentos e movimentos refinados –  e narrativo, de narrar através das imagens, os exageros da vida e expor a ferida ao público, para tirá-lo da zona de conforto e permitir que seus filmes, dialogassem diretamente com os sentidos do espectador.
Cão Branco (White Dog, 1982) é um excelente exemplo disso.

Foi o último filme do cineasta em solo americano e se tornou um filme maldito para ele, que viu a Paramount, dona dos direitos, sequer lançá-lo no cinema depois que circularam “boatos” de bastidores que a obra era de cunho racista e incitaria a violência racial nos EUA. Fuller ficou amargurado pelo filhote ficar retido na prateleira do estúdio, sem que ninguém mais o visse – na terra de Trump, o filme estreou “só” 10 anos depois da morte do diretor, em casas de arte.

O fato é que essa desilusão, é o seu canto de cisnes cinematográfico, uma espécie de “Jaws” sob quatro patas realizado no final da sua carreira. De filme maldito na época, é possível enxergar Cão Branco como uma poderosa obra anti-racista, que mostra o prenconceito com uma profundidade fascinante, expondo essa crença irracional na metáfora de um cachorro condicionado a atacar negros. Um filme a cara do seu insinuante cineasta: provocador, que revela a estupidez e irracionalidade do racismo na nossa sociedade.

Na história, a atriz Julie (Kristy McNichol, papel imaginado na época pelo diretor a uma jovem Jodie Foster) atropela um pastor alemão branco. À medida que cuida dele, ela se afeiçoa ao animal, até o momento em que descobre que ele foi condicionado a atacar indivíduos negros – inspirado nos ‘cães brancos’ da África do Sul, daí o título original do filme, White Dog. Desesperada, a garota procura ajuda de especialistas em adestramento como última tentativa de salvar seu “urso polar”. E, aí entra a figura Keys (Paul Winfield, eterno coadjuvante em filmes policiais e ótimo no papel) e Carruthers (o veterano Burl Ives). O primeiro é um treinador de animais, negro por natureza, que assume a incumbência de tentar reeducar o animal.

A partir desse ponto de partida, Fuller realiza uma investigação fascinante sobre a intolerância racial, onde a real intenção não é condenar a ação do animal e sim eliminar o racismo que ele adquiriu do seu dono – o texto é genial ao indicar que assim como a irracionalidade do animal, o racismo e a violência seguem o mesmo caminho. Há boas reflexões por parte do roteiro assinado pelo diretor e o ainda jovem Curtis Hanson (diretor de Los Angeles – Cidade Proibida, falecido ano passado) de dissecar se o racismo que é aprendido, pode ser recondicionado – nossas crenças já estão presentes quando nascemos ou somos moldados pela sociedade? O preconceito deve ser punido ou podemos curá-lo? A razão pode extirpar o racismo? São várias provocações que o filme lança na cabeça do público.

É o olhar complexo sociológico e psicológico fascinante de Fuller sobre a doença do ódio, uma metáfora reveladora, que a maldade humana ainda se faz ainda presente na nossa sociedade atual por meio da segregação racial, de inferiorizar o outro pela sua cor da pele “Quem o tornou doente, o tornou doente para sempre” diz Keys para Julie em certo momento do filme e isso é bem a cara da nossa realidade quando entramos nas redes sociais.

Essa batalha sobre a natureza do ódio é encenada em uma sequência memorável: o ataque do cão a um negro no interior de uma igreja. É uma cena perturbadora e forte, porque Fuller, logo após o ataque, direciona a câmera a subir lentamente para mostrar a figura de um santo como testemunha inerte do ato, a representação que a violência, além de física, é também espiritual por acontecer dentro do recinto sagrado. É a mise-en-scène Fulleriana, de que o cinema serve de encenação para as batalhas da vida.

Não falta ao longa, o formalismo visual característico do cineasta: enquadramentos milimétricos, os planos e ângulos incomuns, a câmera ao nível do chão, closes nos rostos dos atores e do cão que ajudam a intensificar o impacto emocional no espectador. É interessante como ele transforma Cão Branco em um thriller ambíguo que transita entre o suspense atmosférico, o horror brutal e o western. Deste último, ele apresenta o duelo “westerniano” visual entre Keys e o cão, com os planos típicos do gênero como os closes nos olhos e pés dos personagens, unindo a forma cinematográfica ao seu dinamismo técnico apurado.

Este elemento ganha ainda fortes contornos místicos na magistral trilha sonora de Ennio Morricone (outro artista do western) que minimilista e nervosa, intimida toda vez que a fera ataca; e na rica fotografia de luz e sombras, branco e vermelho de Bruce Surtees – responsável pela estética de vários westerns de Clint Eastwood – que personifica a ambiguidade e os contrastes constante da obra. Por fim, deve-se valorizar a ótima montagem, que faz o cão oscilar entre a irracionalidade pura e a doce figura de melhor amigo do homem.

Isso não impede o longa metragem de ter seus “probleminhas”: a atuação de Kristy McNichol é esforçada, mas pouco convicente e há vários fatos que ficam sem explicação, como o namorado da protagonista que some de uma hora para outra da história e a falta de profundidade emocional por parte do texto em trabalhar as consequências concretas dos ataques do cão às pessoas.

São entraves pequenos para atrapalhar essa aula de cinema sobre o racismo. Se mesmo ao final do filme, você tiver alguma dúvida sobre isso, lembre-se de uma cena particular no ato final: o uso de um plano circular (travelling) que se movimenta entre dois personagens abraçados. Nele, Fuller revela o quanto o racismo está incrustado no interior da alma, a corroendo e por isso é difícil de ser combatido. Em apenas um movimento de câmera, o diretor comprova sua competência para resumir sua discussão. É coisa de gênio.

O fato é que dentro da sua simples história animal, Cão Branco é um ótimo manifesto antirracional, a despedida por cima de um mestre em solo americano. Mais do que domar uma fera irracional personificada na figura de um cão, o longa mostra a importância da humanização de nossas crenças e valores.

Sem dúvida, uma obra atemporal que dialoga muito bem com o mundo de hoje. (Danilo Areosa)

06/07/2020

O Enigma de Gaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle), 1974), Werner Herzog


O filme no youtube

Um homem jovem chamado Kaspar Hauser (Bruno S.) aparece de repente na cidade de Nuremberg em 1828, e mal consegue falar ou andar, além de portar um estranho bilhete. Logo é descoberto que sua aparição misteriosa se deve ao fato de que ele ficou trancado toda sua vida em um cativeiro, desconhecendo toda a existência exterior. Quando ele é solto nas ruas sem motivo, muitas pessoas decidem ajudá-lo a se integrar na sociedade, mas rapidamente Kaspar se transforma em uma atração popular.

O enigma da aquisição da linguagem de Kaspar Hauser à luz do gerativismo
Margarete G. M. de Carvalho e Carmem Elisabete de Oliveira

Resumo: Este artigo relaciona a trajetória do comportamento linguístico do protagonista do filme de 1974, O Enigma de Kaspar Hauser, do diretor alemão Werner Herzog, aos fenômenos de aquisição da linguagem e da competência linguística inata, postulados pelo gerativismo e investiga como eles se revelam na prática de um falante que adquiriu tardiamente a linguagem verbal. A Teoria Gerativista postula a existência de um dispositivo de aquisição da linguagem com o qual o indivíduo nasce e que, em contato com uma língua natural, gera a gramática da língua a que estiver exposto, desenvolvendo a capacidade de comunicação. O presente trabalho é uma análise ficcional em forma de estudo de caso, do tipo descritivo e exploratório, de cunho qualitativo. Esta análise ficcional, relacionada ao gerativismo, corrobora a ideia de que é possível alguém que tenha ficado sem contato com outros humanos, como foi o caso de Kaspar, desenvolver a linguagem verbal ainda que tardiamente, porém com algumas limitações, especialmente relacionadas ao pensamento abstrato que possibilita a compreensão da representatividade dos signos linguísticos...

08/07/2020

Azali, 2018, Kwabena Gyansah, Suécia


Azali (tradução livre)

Uma jovem, Amina, vive com sua mãe, avó e tio em uma pequena vila nos arredores de Accra. Ela vive uma vida confortável, mas chata, à qual sua mãe deseja libertá-la. A avó dela deseja que Amina se case com um homem mais velho de sua aldeia. A mãe de Amina protesta e, sem saber, vende Amina a estranhos na esperança de que ela encontre uma vida melhor na cidade. Em sua jornada, Amina encontra um jovem que também foi vendido quando jovem e, de alguma forma, torna-se seu único amigo. Os dois fugiram com um pequeno grupo de crianças que também foram vendidas. Enquanto os dois embarcam em várias tarefas através de Accra eles tentam ganhar o seu sustento.

O jovem, Seidu, torna-se popular por ser um trabalhador rápido e trabalhador. Amina é desajeitada e não consegue acompanhar o trabalho dado a ela. Ela rapidamente se encontra vivendo em um complexo de uma mulher que exige aluguel diariamente. Aqui Amina aprende para ficar ela deve sempre ter dinheiro, no entanto seu trabalho como head-porter não é lucrativo o suficiente. Ela decide se juntar ao vizinho, o favorito do proprietário, como prostituta para ficar. Por um tempo isso vai bem, mas ela fica mais triste à medida que o trabalho continua. Eventualmente, ela tenta se reunir com Seidu. Ele a afasta porque não pode se dar ao luxo de ser um estranho em seus recém-encontrados arranjos de vida/trabalho como porteiro. Amina retorna ao composto tributante e se torna complacente com o passar do tempo. Durante este tempo, o tio de Amina, Akatok, vai procurar Amina em Accra depois que sua mãe descobre a notícia de que sua filha está "desaparecida".

Durante meses, Akatok procura, mas sem sucesso. Ele decide que vai desistir depois de apenas três meses de busca, mas é colocado de volta nos trilhos por um velho amigo com um grande conselho. Amina, agora mais acostumada ao seu trabalho, dorme com um homem que se recusa a pagar-lhe o salário prometido. Ela, por sua vez, quebra um copo na cabeça dele e rouba o dinheiro da carteira dele. Amina corre para encontrar Seidu para dizer a ele que deseja voltar para casa. Em vez disso, ela encontra o chefe de Seidu que a chama para esperar seidu juntos. O chefe de Seidu ataca Amina enquanto eles estão sozinhos e se força a ela. Seidu volta à cena terrível e pede desculpas por interromper seu chefe. Enquanto ele se afasta, ele está visivelmente perturbado com o que acabou de testemunhar.

Seidu, mais tarde, bate em seu chefe pelo que ele fez deixando-o sangrando na rua. Amina retorna ao exigente proprietário e seu vizinho que tenta cuidar dela após o ataque. Logo após Amina e o proprietário saberem da gravidez de Amina, a qual o proprietário a repreende. Amina não pode ter um bebê no complexo, então ela vai viver nas ruas de Accra enquanto está grávida de apenas algumas semanas.

Oito meses se passam e Amina tornou-se um head-porter novamente, desta vez mais gracioso e mais pesado; ela está em seu último trimestre de gravidez. Akatok e seu amigo continuam a busca nas proximidades. Enquanto trabalha Amina encontra uma multidão de pessoas que estão tentando espancar um homem até a morte. Eles chamam este homem de animal e derramam gasolina sobre ele. Uma vez que ela se aproxima Amina percebe que o homem ensanguentado e espancado é Seidu. Com nojo e horror, ela se afasta enquanto o jogo está sendo aceso. Ela também nota o chefe de Seidu na multidão cuidando de tudo enquanto a fumaça escura começa a subir atrás dele. Neste momento Akatok e seu amigo de longa data avistar Amina na multidão e ir até ela. Akatok está muito feliz, mas é de curta duração quando ele nota o chefe de Seidu. Ele aponta o homem para Amina como seu pai, Razak; Amina imediatamente desmaia ao ouvir a notícia.

Finalmente, de volta à sua cidade natal, Amina, e Akatok, encontram sua mãe e avó em seu complexo. Eles se alegram por seu retorno, mas novamente Amina vacila, segurando seu estômago. Ela dá à luz no complexo de sua família sob o céu cheio de estrelas. Nas cenas finais ouvimos o bebê chorando e a avó cantando sobre o bebê. Ouvimos um homem, presumivelmente Akatok, falar em sua língua nativa. As palavras na tela enquanto ele fala diziam: Esta criança nunca será aceita pela tradição, então em nossos corações enterramos um segredo que só Deus sabe.

Azali é um filme de 2018 do gênero drama, dirigido por Kwabena Gyansah. Foi selecionado  para o melhor longa-metragem internacional no 92º Oscar (2020), mas não foi indicado. Foi a primeira vez que Gana submeteu um filme ao Oscar de melhor longa-metragem internacional.

08/07/2020

Senhorita Oyo (Oyû-sama), 1951, Kenji Mizoguchi


Senhorita Oyu (Oyû-Sama – 1951)

Existe uma parcela de críticos que consideram esse um dos pontos mais baixos na carreira de Kenji Mizoguchi, mas eu discordo totalmente.
O alvo do estúdio Daiei era o público feminino do pós-guerra, então o diretor entregava para esse mercado, com rapidez e elegância, melodramas de qualidade superior, alternando-os a projetos mais pessoais e autorais, como “Oharu: Vida de Uma Cortesã”, que o consagraria no mercado internacional com um Leão de Prata, no Festival de Veneza.

Levando a trama, que originalmente no livro “Ashikari” de Junichiro Tanizaki se passava na Era Meiji, para o Japão contemporâneo, o roteiro de Yoshikata Yoda utiliza o erotismo inerente à obra do escritor ao delinear o triângulo amoroso. A história aborda uma cruel negociação entre a bela viúva Oyu (Kinuyo Tanaka), sua irmã submissa (Nobuko Otowa) e o cunhado (Yûji Hori), por quem ela realmente se apaixona, iniciando então um jogo de sedução e negação de desejo.

O aspecto mais interessante é que Oyu finge não perceber que o cunhado compartilha de seu sentimento, aproveitando em vários momentos para sadisticamente provocá-lo, numa intensa dominação psicológica elevada pela excelente interpretação de Tanaka. O mesmo roteiro, em mãos menos sofisticadas, com certeza não estaria sendo lembrado nesse texto.

A fotografia de Kazuo Miyagawa, em sua primeira parceria com o diretor após seu reconhecimento mundial por “Rashomon” (de Kurosawa), entrega verdadeiras pinturas em cada cena, como aquela que finaliza o drama do personagem vivido por Hori, caminhando sem rumo em direção à luz da lua, após ter afirmado com seu sacrifício a maior declaração de amor possível. É possível notar até certa influência de “Aurora”, de Murnau.

A contribuição de Miyagawa, com seus infinitos tons de cinza entre o preto e o branco, na carreira de Mizoguchi é crucial, pois transformou a identidade visual de seus filmes, trabalhando experimentalmente com profundidade de campo. (Octavio Caruso)

Ainda sobre Mizoguchi

Wasp network, 2019, Oliver Assayas


Wasp Network: Rede de Espiões

Tendo em vista os filmes que fez nessa década, Wasp Network é um projeto diferenciado na carreira de Olivier Assayas. O diretor francês é conhecido por trabalhar com atenção o desenvolvimento de seus personagens, assim como por dar foco ao drama e às questões mais internas, humanas. Por este motivo, o filme de espionagem protagonizado por Edgar Ramirez (cuja história foi adaptada do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais), representa outro olhar do diretor - por mais que sua personalidade possa ser vista com facilidade em certas passagens. Este é um olhar mais pautado pela ação e reação que as pessoas deste universo produzem do que propriamente por uma aproximação mais clara enquanto indivíduos. Seu novo filme e os personagens que nele habitam podem ser comparados a uma teia de aranha em que todos estão ali, juntos, mas de forma nada organizada.

Contando a história real de um grupo de cubanos que se infiltrou em uma rede anti Fidel Castro na Flórida, o filme possui uma narrativa um tanto padrão para o gênero de espionagem, mas o fator Assayas tem grande peso no tratamento de personagens. Ao invés de focar inteiramente no grupo formado por Wagner Moura, Ramirez e Gael Garcia Bernal, o diretor dá muita atenção ao fator familiar que os cerca. Penélope Cruz, intérprete de uma esposa cubana que é deixada na ilha pelo marido, ganha tempo mais que suficiente em tela para que suas dores sejam explícitas e tão marcantes quanto o fato da contrarevolução que o grupo de homens desertores está disposto a fazer.
Justamente pelo foco de Assayas ser o lado humano e reflexivo de seus personagens, o filme custa a evoluir narrativamente.

Por muitas vezes é inegável sentir um certo marasmo nas situações abordadas e nas dúvidas dos principais personagens, cujos diálogos raramente saem do mesmo lugar. Há um certo didatismo neles, assim como já é possível entender toda a trama em torno de uma hora de projeção. A partir daí, não existe evolução no texto ou na montagem.

Tal montagem foi criticada no festival de Veneza e fez com que o diretor reajustasse alguns detalhes. Isso deixa ainda mais claro o fato de que o filme não funciona como uma trama de espionagem, apenas como um drama familiar. Graças às suas boas atuações, Wasp Network toma fôlego quando há o dinamismo do trio (especialmente Ramirez) quando divide a cena com Leonardo Sbaraglia. O modo como Assayas filma as cenas de diálogos entre os homens na Flórida (sempre num plano e contra-plano em conjunção com um leve zoom enquanto falam) não é algo fenomenal, mas são engrandecidas por uma fala aqui e ali que destacam a importância daquele plano que, mesmo falho, significou muito... (Barbara Demerov)

Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.

Opositores ao regime cubano querem tirar do ar 'Rede de espiões',

10/07/2020

O jardim dos Finzi Contini (Il giardino dei Finzi Contini), 1970, Vittorio De Sica

Lírica evocação, por Vittorio de Sica, de um grupo de pessoas desaparecidas (os cultos e aristocráticos terratenentes judeus italianos) e de um desaparecido estado de espírito. Baseado no romance semi-autobiográfico de Giorgio Bassani (1916 - 2000), o filme me lembra como Giorgio, um estranho a esse grupo da classe média (Lino Capolicchio), é atraido para o mundo decadente e encantado dos Finzi Contini pela imperiosa e voluntariosa Micòl (Dominique Sanda); ela e seu lânguido irmão (Helmut Berger) são pessoas mimadas e bonitas, sem vontade de salvar-se. Este filme extraordinário, com seu glamour melancólico, talvez seja o único que registre as tíbias medidas anti-judaicas da época de Mussolini - que, no entanto, foram suficientes para varrer os Finzi Contini e tudo o que eles representavam. (Pauline Kael in 1001 noites no cinema, Companhia das Letras, 1994, p. 252)

12/07/2020

O desprezo (Le mépris), 1963, Jean-Luc Godard



Sobre O desprezo neste Blog


13/07/2020
Dente de leite (Babeteeth), 2019, Shannon Murphy - Austrália


A protagonista de Dente de Leite sofre de câncer, mas só descobrimos isso após cerca de meia hora de filme. Antes disso, conhecemos Milla (a ótima Eliza Scanlen) como uma simples adolescente que ama música e tem pais carinhosos, sempre presentes. O que Shannon Murphy executa logo nas cenas iniciais é tornar o que poderia ser apenas um drama numa história de amor, com foco em tudo o que será ocasionado pelo fato de Milla conhecer o conturbado Moses (Toby Wallace) em uma estação de trem.

A partir deste encontro inusitado, este é o fato que mais importa no enredo - mais do que o câncer da garota em si. Quando a relação entre Milla e Moses evolui para o nível dele frequentar sua casa, seus pais Henry (Ben Mendelsohn) e Anna (Essie Davis) não a encaram com bons olhos. É só após isso que a doença é apresentada ao espectador; mas tudo é feito sutilmente, com a delicadeza da diretora em nos mostrar com gestos, e não com palavras, a situação que Milla se encontra. Ela corta seu cabelo com Moses num ato de rebeldia e, só então, entendemos que esse é também um ato que já teria que acontecer de toda forma.

Aliado ao excelente trabalho de fotografia, que mescla cores frias com quentes como se elas dissessem como os personagens estão se sentindo, Dente de Leite administra bem todas as tramas que busca conectar. O filme não é só de Milla: seus pais ganham bastante atenção do roteiro enquanto casal e enquanto indivíduos, seja quando precisam lidar com a enfermidade da filha ou do próprio casamento, com incertezas e questionamentos. Da mesma forma que este também é um filme sobre vício em drogas (lícitas ou ilícitas), temática que ganha um arquétipo drástico através de Moses, que fora expulso de casa pela própria mãe devido à sua condição.

Mas é claro que o cerne da história se encontra na jovem protagonista, personagem esta que capta tudo ao seu redor e ao mesmo tempo orbita em seu mundo particular. É curioso como Milla parece ter mais entendimento da própria situação do que aqueles à sua volta, e também como consegue separar o câncer e seu tratamento de sua personalidade alegre. Tendo em vista a fase da adolescência, o ápice de experiências malucas e de grandes aprendizados, é impossível não se deixar cativar pelo espírito cheio de vida que Milla esbanja, mesmo enfrentando tantos problemas.

Ao mesmo tempo que trabalha num ritmo de estilo coming of age, Dente de Leite possui todos os altos e baixos de uma adolescência comum, mas conta com a impactante adição de uma doença terminal, o amor proibido regado à má conduta do "príncipe encantado" da protagonista e, mais do que tudo, o apoio e comanhia dos pais. O que poderia ser apenas mais uma história de amor na adolescência tranforma-se em uma série de oscilações imperfeitas, assim como é a vida real. (Barbara Demerov)

Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.

Em tempo: muito bonito como o filme trata das relações entre filha, mãe e pai. O final é impactante. Belo filme

14/07/2020

The old gard, 2020, Gina Prince-Bythewood



Mad Max: Estrada da Fúria e Atômica são dois exemplos de filmes protagonizados por Charlize Theron que possuem ação para dar e vender, mas que ao mesmo tempo estão apoiados por um roteiro que justifica as ações e motivações dos personagens. De tal forma, estes filmes não fazem com que a narrativa fique amparada apenas pela violência, chegando a ir além da capacidade de impactar visualmente para deixar uma mensagem consolidada.

Em The Old Guard, no entanto, isso não chega a acontecer. O roteiro do filme dirigido por Gina Prince-Bythewood centra-se muito no impacto visual que a história em quadrinhos explora (algo claramente importante na composição do enredo), mas ao mesmo tempo o cenário total falha em entregar mais complexidade à história. E isso acontece especialmente quando o espectador passa a conhecer algumas informações sobre o background dos três personagens que atuam ao lado de Theron (mais uma vez dedicada em seu papel de líder). Ao mesmo tempo em que sabemos o que eles são, a explicação de suas origens são deixadas de lado. E isso faz falta para compreendermos tudo claramente.

Imortais há centenas de anos, o time de Andy (Theron) é forte, corajoso e não mede esforços para obter sucesso em suas missões secretas para salvar pessoas em perigo. Fica claro deste o início que Andy e seus parceiros, viajantes do mundo, querem se manter nas sombras e têm medo do que uma exposição maior poderia fazer com suas vidas. A premissa é instigante, uma vez que estes personagens já viveram em séculos tão longínquos e possuem experiências das mais diversas - em certo ponto, há até uma piada envolvendo Rodin... (Barbara Demerov)

16/07/2020

Um de nós morrerá (The Left Handed Gun), 1958, Arthur Penn


Sobre Um de nós morrerá ver neste Blog



18/07/2020

Estado zero (Stateless), 2020, Emma Freeman e Jocelyn Moorhouse

Série sobre refugiados com Cate Blanchett sofre com soluções fúteis
Em primeiro lugar, “Estado Zero” não é uma boa tradução para o título original, “Stateless”, que significaria, antes, sem pátria, apátridas, sem lugar. Quase qualquer outro título, aliás, seria mais apropriado do que “Estado Zero”, que parece introduzir algum documentário sobre ideias econômicas neoliberais.

Nada disso. A minissérie nos lembra em seis capítulos de um problema maior, que a pandemia acabou por soterrar, o dos refugiados e, pior, dos campos de refugiados que hoje assolam a Europa, sobretudo, mas não só. Esse é o primeiro eixo da minissérie, o que impõe sua relevância temática geral.

O segundo é o caso real de desaparecimento de uma cidadã australiana nascida na Alemanha. O fato se deu na virada do século, onde se situa a ação da série, embora com nomes trocados. Insatisfeita com os familiares e frustrada com a vida em geral, Sofie Werner, papel de Yvone Strahovski, se joga nos braços de uma seita suspeitíssima e se dá mal. Ao deixar a seita, Sofie não sabe nem mais quem é, sofre de medo patológico e só quer sair da Austrália.

Desarvorada e sem identidade, acaba, ironicamente, recolhida ao campo como imigrante ilegal. Ela constitui o segundo eixo da história. Entre os refugiados, o centro é Ameer, vivido por Faissal Bazzi, afegão que tenta introduzir sua família na Austrália a partir do Paquistão e sobre quem desaba uma tempestade de catástrofes, mal-entendidos e baixezas que desaguam no comportamento kafkiano das autoridades australianas de imigração. Aí começam os problemas de “Estado Zero”. Colar a história de uma australiana de mente conturbada à de refugiados em situação material desesperadora pode ser até tentador, mas é tarefa delicada. São universos distantes e questões diversas.

Completa o quadro o drama dos agentes do campo. Os centrais são Clare, interpretada por Asher Keddie, burocrata durona e recém-empossada como gerente do lugar, com a missão de fazer com que ele suma do noticiário. Entre seus subordinados está Sandford, papel de Jai Courtney, que, tendo uma bela família, topa o emprego como guarda no local. Clare vai sendo aos poucos consumida pela tarefa amarga de despachar os refugiados de volta a seus países, sejam lá quais forem as consequências. Já Sandford, homem de bom coração, vai se deixando absorver pela violência daquela porta de inferno.
Temos então dois eixos –os de dentro da Austrália e os de fora; um caso coletivo (o dos refugiados) e alguns casos pessoais (australianos). Para fazer disso uma unidade, os responsáveis pela série recorreram ao trivial do cinema contemporâneo –a família.

Num mundo onde todos perdemos referência, resta a família como único ponto de apoio do sujeito. Ela pode ser problemática como a de Sofie, miserável como a de Ameer, quase feliz, como a de Sandford, destruída antes de existir, como a de Clare. Não importa, a família é o centro. O estratagema banal conduz à reiteração contínua das questões levantadas. Acima de cada personagem paira sempre a relação familiar. É possível temer, odiar, proteger, rejeitar essa relação et cetera. O fundo é sempre o mesmo.

Com alma de narrativa, a série passa pelos acontecimentos de forma mais ou menos indiferenciada, dando igual ênfase, não raro, às sequências interessantes e aos momentos banais. Com isso, o essencial e o convencional se confundem e desembocam, invariavelmente, em soluções melodramáticas fúteis. “Estado Zero”, em que Cate Blanchett comparece como cocriadora, corroteirista e quase figurante, poderia se reduzir a quatro capítulos dotados de certa energia, em lugar de seis com frequência chochos.

Mas, sim, os temas da sorte dos refugiados e da violência dos departamentos de imigração policial justificam sua existência e a atenção que o espectador lhe possa eventualmente dispensar. (Inácio Araujo)

A série termina com estes dados escabrosos

DESDE 2012, QUEM BUSCA ASILO NA AUSTRÁLIA POR BARCO, É DETIDO EM CENTROS DE IMIGRAÇÃO FORA DO PAÍS,INCLUINDO NAURU, PAPUA NOVA GUINÉ E ILHA MANUS. ADVOGADOS, MÍDIA E DEFENSORES TÊM ACESSO ALTAMENTE RESTRITO AOS CENTROS. NO MUNDO, HÁ MAIS DE 70 MILHÕES DE PESSOAS DESLOCADAS À PROCURA DE REFÚGIO DA GUERRA E DA PERSEGUIÇÃO. METADE DELAS SÃO CRIANÇAS.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Um de nós morrerá

Paul Newman não foi o primeiro, nem o último. Virou astro fazendo papéis originalmente destinados a James Dean e que haviam ficado vagos após a morte prematura do astro, em 1956. Naquele mesmo ano, Jimmy deveria interpretar Rocky Graziano na cinebiografia do pugilista por Robert Wise. Newman substituiu-o e interpretou Marcado pela Sarjeta, ou Somebody Up Like Me.

No ano seguinte, Dean estava programado para interpretar a estreia de Arthur Penn na direção, mas quem fez The Left Handed Gun foi, de novo, Newmam. O filme estreou em 1958.  Em todo o mundo foi lançado com a tradução do título original para diferentes línguas. Le Gaucher, El Zurdo, O Canhoto. Fazia todo sentido, considerando-se que se tratava de um western e culmina com uma instituição do gênero, o duelo. Um pistoleiro destro, outro, canhoto.


 No Brasil, ficou Um de Nós Morrerá. No começo dos anos 1960, até o mestre John Ford já não acreditava nos mitos do western, que ajudara a construir. Ford dirigiu em 1962 um filme visceral no processo de desmistificação, enterrando os mitos em O Homem Que Matou o Facínora. Sam Peckinpah prosseguiu e até aprofundou a tendência e não houve, naquela década, grande diretor de westerns que não mostrasse velhos mocinhos, cansados de guerra. O fim da lenda, do heroísmo.

Na Itália, os spaghetti westerns construíram sua estética sobre os bounty killers, caçadores de recompensas que representavam a escória nos exemplares norte-americanos do gênero.
Penn havia feito nome na TV, nos anos 1950. Hoje em dia, grandes nomes do cinema estão migrando para a televisão, em busca de liberdade criativa. Estão fazendo o caminho inverso da geração de John Frankenheimer, Sidney Lumet e Penn, que desembarcou em Hollywood cheia de expectativa, com a promessa de injetar sangue novo na indústria.

Frankenheimer foi o primeiro, em 1956, com No Labirinto do Vício. Nos anos 1960, fez filmes que marcaram época, como Sob o Domínio do Mal, a primeira versão (com Frank Sinatra), O Segundo Rosto e o admirável The Fixer, adaptado de Bernard Malamud, em que Dirk Bogarde está genial. No Brasil, chamou-se O Homem de Kiev. Seguiram-se mais três grandes filmes por volta de 1970 – Os Paraquedistas Estão Chegando, O Pecado de Um Xerife e O Homem do Buzkashi. Depois, foi o resto.

Lumet começou fazendo história com Doze Homens e Uma Sentença, em 1957. Depois, tornou-se ziguezagueante, mas com momentos de brilho – O Grupo, O Homem do Prego. Nos 70, enfileirou filmes impactantes – Serpico, Um Dia de Cão.

Penn foi o maior de todos, mas certamente haverá controvérsia. A Um de Nós Morrerá seguiram-se O Milagre de Anne Sullivan, Caçada Humana, Bonnie & Clyde/Uma Rajada de Balas. Nenhum outro cineasta de sua geração foi tão crítico com os EUA. Penn filmou a América com desgosto, mostrando como o país, historicamente, nunca conseguiu resolver seus conflitos senão através da violência.
Com Um Lance no Escuro, de 1975, fez o maior filme da era Watergate. E, embora tenha realizado outros filmes depois, seu verdadeiro adeus foi em 1982, com Amigos para Sempre. Diante do filho baleado, no hospital, o pai imigrante diz apenas, e com amargura, ou será rancor?, "América!".

Tudo começou com a cinebiografia de Billy the Kid. Antes, entre 1953 e 58, Penn realizara cerca de 200 telefilmes dramáticos. Um de Nós Morrerá pertence a uma fase que o próprio diretor definia como psicanalítica, quando fazia filmes para retratar uma sociedade que não saía da puberdade, e na qual os revólveres substituíam o falo. Howard Hawks já tivera esse lampejo no fim dos anos 1940, em seu western (clássico), Rio Vermelho, quando Montgomery Clift e John Ireland ficam exibindo suas pistolas, para ver quem tem a maior. Essa linha freudiana prosseguiu até que, em Uma Rajada de Balas, de 1967, Clyde/Warren Beatty supera a impotência e faz sexo com Bonnie/Faye Dunaway. Habilitam-se a uma vida plena, mas é tarde demais. A polícia, no encalço da dupla – que já virou lenda aos olhos do público da Depressão –, fuzila os dois. Essa desmontagem psicanalítica do mito já está em Um de Nós Morrerá, quase uma década antes.

O filme baseia-se numa peça escrita por Gore Vidal, A Morte de Billy the Kid, e o roteiro é assinado pelo futuro diretor Leslie Stevens. Vidal já transformara seu pistoleiro num homossexual neurótico. Penn mantém o foco na psicanálise, mas por outro viés. A impotência, real ou figurada, sempre esteve no centro de seu cinema. William Bonney, chamado de Billy, é um órfão que vai trabalhar para um velho fazendeiro. No início, ele antecipa o garoto selvagem de François Truffaut. Parece um idiota, ou algum tipo de deficiente. Responde de forma monossilábica, os movimentos dos olhos e do corpo são desarticulados. O homem que o adota, Tunstall, é o oposto disso. Articulado, culto. Reúne o conhecimento instintivo de Billy e algo mais, uma consciência. Tunstall tem uma passagem relâmpago pelo filme e pela vida de Bonney. Fica uns dez minutos, mas é essencial.

Numa cena, Tunstall lê, Billy parece agitado. Curioso pelo livro, mas temeroso. Sua mãe possuía uma Bíblia, lia passagens para ele. Tunstall lê o título do capítulo – Através de um espelho escuro. Explica a que se refere. Algo que não se pode ver, mas se teme. “Um inimigo”, diz Billy. “Não, pode ser um amigo”, retruca Tunstall. É, claramente, nesse começo, o pai que Billy nunca teve. Ensina-o a ler, a escrever. Não anda armado e, percebendo a revolta que ameaça destruir o jovem Billy, tenta convencê-lo a domá-la. De alguma forma, Tunstall antecipa Anne Sullivan/Anne Bancroft no filme seguinte, mas logo é assassinado, e para Billy é um novo trauma. Ele já tinha tentado defender a mãe. Não conseguiu defendê-la, nem a Tunstall. Seu objetivo passa a ser a vingança. Quatro homens, incluindo o xerife, mataram seu mentor. Não existe possibilidade de recorrer à lei e à justiça, porque são corruptas. Billy assume a justiça por conta própria. Caça os quatro homens, vira um vingador.

Durante toda a sua obra, Penn nunca recorreu aos métodos de Sam Peckinpah – a câmera lenta, por exemplo – para mostrar a violência e seus efeitos. A violência em seus filmes levanta sempre questões de ordem moral, aqui relativas ao envolvimento dos quatro homens na morte de Tunstall e às características pessoais de cada um. As cenas são muito fortes, intensas. Newman era um ator do Método. Não lhe bastava interpretar, tinha de incorporar, de 'ser' o personagem. Mais de um crítico acha que a presença convulsiva de Newman deixa o filme datado, mas, para quem entra no espírito, é fascinante acompanhar a evolução de William Bonney e sua transformação em Billy the Kid. Só como adicional de informação. Não foi uma convivência tranquila no set. Penn e Newman tiveram momentos de confronto. Divergiam quanto ao conceito do personagem, que o ator já interpretara na TV, em 1955.

Na concepção trágica de Penn, Billy é um outsider em busca de família. Perde o pai substituto e terá outras perdas ao longo do caminho. Mata dois dos quatro homens e tem seu momento (ousado) de sexo com a mulher de um sujeito que parece inofensivo, mas é pistoleiro (e pode ser cruel). O sexo vira motor, a maneira como a mulher deseja o Kid, e se torna desejável para ele. A essa altura, dois movimentos impulsionam a narrativa – a lenda de Billy como pistoleiro cresce no Oeste selvagem e ele passa a ser caçado por outra figura que se tornou lendária, Pat Garret. Esse era um amigo – um irmão? –, mas um tiroteio, destruindo seu casamento, leva ao antagonismo. A cena é muito bem construída. A foto posada no átrio da igreja, Pat Garret ao centro, como pilar da sociedade. (O ator John Dehner, que faz o papel, é muito bom, austero, em oposição a Newman.) A partir daí, o caminho é sem volta. A construção do mito é feita pelo escritor de novelas baratas Moultrie, interpretado por Hurd Hatfield, que se tornara conhecido ao interpretar O Retrato de Dorian Gray, a versão de Albert Lewin, de 1945.

Moultrie é um personagem ambíguo. Veste-se de preto, antecipando a morte de Billy. Possui uma fixação homossexual no jovem pistoleiro. Transforma Bonney no Kid. Penn usa os símbolos. Com Tunstall, Billy encontra os ciganos, queimando o boneco de palha. Na festa que vira fuzilaria, outro boneco é queimado. Após o sexo, Billy encontra o jornal que anuncia sua morte, e que ele queima. As chamas da paixão? Um pouco, mas o fogo marca a morte de Bonney e sua ressurreição como Kid.

 A oposição entre lenda romantizada e realidade brutal antecipa Bonnie & Clyde. Como ocorre com frequência para os personagens de Penn, a consciência chega para eles tardiamente. Para Billy, antecede a morte violenta. Penn sempre gostou de criar esse tipo de efeito dramático. Não há liberação emocional para o espectador, que é levado a torcer pelos personagens (Billy, Bonnie, Clyde etc), somente para que o autor corte o cordão umbilical numa ruptura extrema que interrompe bruscamente o efeito catártico.
Um de Nós Morrerá foi tão mal recebido nos EUA que Penn chegou a pensar que não teria futuro no cinema. Foi dirigir teatro, o que foi decisivo para sua evolução como diretor de atores. Voltou somente quatro anos depois, com O Milagre de Anne Sullivan, baseado na peça de William Gibson. Vale lembrar – durante dois anos Penn ficou em cartaz com outra peça de Gibson, Dois na Gangorra, interpretada por Henry Fonda e Anne Bancroft. Apaixonado por ela, o dramaturgo desenvolveu uma teleplay que Penn transformou em O Milagre de Anne Sullivan, seu clássico de 1962, pelo qual Anne e Patty Duke ganharam os Oscars de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante.

Em 1966, foi a explosão de Caçada Humana e, no seguinte, Bonnie & Clyde. Caçada/The Chase é um daqueles filmes faróis. A caçada a um fugitivo acirra todos os preconceitos durante o fim de semana, numa cidadezinha sulista. Penn dirigiu um elenco de astros e estrelas (Marlon Brando, Jane Fonda, Robert Redford, etc). Criou cenas integradas ao imaginário do cinéfilo – o xerife Calder/Brando leva uma surra memorável, mas se levanta, todo rebentado, para tentar fazer valer a lei e a ordem.

Sam Spiegel foi um produtor importante, vencedor do Oscar com os filmes de Elia Kazan (Sindicato de Ladrões, de 1954) e David Lean (A Ponte do Rio Kway e Lawrence da Arábia, de 1957 e 62). Dispõe da fama de ter sido produtor cooperativo, mas viveu às turras com Penn e afastou o diretor da montagem. Penn, que tinha um Caçada Humana ideal na cabeça, sempre rejeitou o trabalho, achando que a preferência foi sempre por tomadas e cortes mais convencionais. Já a crítica dividiu-se e o autor do texto está entre os que reputam o filme como obra-prima. “Tout est dans la mise-en-scène”, como diziam os críticos franceses, nem a remontagem conseguiu destruir o grande filme que é.

O mais crítico de Penn, como representação de uma sociedade doente. Ele continuou se exercitando no cinema de gênero. Filmou gângsteres (Bonnie & Clyde), mocinhos e bandidos do Wild West (Pequeno Grande Homem e Duelo de Gigantes), detetives particulares (Um Lance no Escuro). A revisão dos gêneros faz-se por um olhar único – seu projeto foi retomar, à européia, de forma autoral e consciente, grandes clássicos da tradição hollywoodiana. David W. Griffith, Kazan, Richard Brooks. Não se pode esquecer que Robert Benton e David Newman escreveram Bonnie & Clyde para ser filmado por François Truffaut ou Jean-Luc Godard.

Em 2007, recebeu um Urso de Ouro especial por sua carreira em Berlim. O repórter estava lá, integrando o grupo que fez questão de entrevistá-lo. Discutimos cada filme. Admitiu que talvez mudasse algumas coisas em Um de Nós Morrerá. Achava a música invasiva e a balada nos créditos um clichê que gostaria de ter evitado, mas o estúdio – a Warner – impôs.

Como obra de um estreante no cinema, orgulhava-se do trabalho de câmera – com o fotógrafo J.Peverell Marley –, tendo plena consciência de haver influenciado outros diretores de westerns, como Sam Peckinpah e o Marlon Brando de A Face Oculta, de 1961.

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo
15 de julho de 2020

sábado, 11 de julho de 2020

O desprezo

O cinema, disse Andre Bazin, substitui um mundo por outro mais em harmonia
com nossos desejos. "O Desprezo" é a história desse mundo.


Paul: Uma mulher sempre pode encontrar uma desculpa para não fazer amor.
Camille: Você as vezes é um babaca.
Paul: Linguagem vulgar não combina com você.
Camille: O que não combina? Escuta só... caralho, foder, merda, puta que o pariu, babaca, filho da puta, puteiro. Então, ainda acha que não combina?
Paul: Por que não quer mais fazer amor?
Camille: Certo, façamos, mas que seja rápido.


Em anos praticamente sucessivos, 2016 e 18, imagens emblemáticas de dois filmes de Jean-Luc Godard ilustraram o cartaz do Festival de Cannes. Primeiro foi a de O Desprezo, de 1963, a Villa Malatesta, em Capri. “Está tudo ali. Os degraus, o mar, o horizonte, o homem que ascende em direção ao seu sonho, em uma luz quente do Mediterrâneo que torna tudo dourado. A imagem é uma reminiscência da frase atemporal de Michel Mourlet usada no começo do filme - 'O Cinema substitui nosso olhar espantado e fixo por um mundo em harmonia com nossos desejos”, segundo o anúncio oficial do festival.

Dois anos depois do cartaz com Le Mépris, foi Pierrot le Fou, de 1965, lançado no Brasil como O Demônio das Onze Horas. Jean-Paul Belmondo e Anna Karina, cada um em seu carro, em direções opostas, beijam-se. São filmes cuja importância para o cinema ultrapassa o significado artístico, e esse já é enorme. Evocam a intimidade de Godard, que no começo dos anos 1960 se ligou a Anna Karina. Embora baseado no romance de Alberto Moravia, O Desprezo é, ou também é, sobre a crise no casamento de ambos.

Na volumosa biografia de Godard por Antoine De Baecque (Ed. Grasset, 2010), o autor reproduz declarações de Anna dizendo que frases que o diretor colocou na boca de Brigitte Bardot eram dela, mas mais que tudo a maneira de dizer as coisas. Brigitte, por sinal, queixou-se que Godard lhe impunha um comportamento glacial, estatuesco, nas cenas de agressão verbal. Ela queria se soltar, ele a refreava. Pensava na Karina. A crise, a despedida - Pierrot le Fou foi a última parceria.

Cada crítico terá seu Godard e, ao longo dos anos 1960 - até hoje -, ele foi o grande revolucionário da tela. Como homenagem ao grande crítico gaúcho, vale lembrar o que dizia Jefferson Barros - “(Luchino) Visconti é a maneira clássica de fazer cinema revolucionário, (Joseph) Losey, a maneira revolucionária de fazer cinema clássico, e Godard, a maneira revolucionária de fazer cinema revolucionário”. A chacun son Godard. O do autor do texto é O Desprezo, o que não deixa de carregar certo paradoxo. É o filme 'clássico', como realização, do diretor. A sua forma de fazer uma superprodução de US$ 5 milhões, o que representava muito mais dinheiro na época - umas dez vezes mais que o filme mais caro que ele havia feito.

Foi também a rodagem mais tumultuada da carreira de Godard, já que os paparazzi nunca deixaram de correr atrás de Brigitte Bardot, as iniciais BB, na sua época de grande estrela e um dos corpos mais desejáveis do planeta. Um dos? Por que não o mais? Godard, aliás, tinha plena consciência de estar encarando o mito. Brincou com seu fotógrafo, Raoul Coutard, que estavam inventando um novo sistema, o FesseColor, que, em bom português, quer dizer BundaColor. Consta até que a única briga de Godard com Michel Piccoli no set foi um pouco por causa disso. Por contrato, ele tinha de mostrar Brigitte nua. Na cena em que ela toma sol no terraço, suas nádegas estão cobertas por um livro em cuja capa se lê 'Entre sem bater'. Piccoli tentou virar o livro para impedir a leitura. Godard foi veemente - “Surtout pas”.  De jeito nenhum. No fim dos anos 1950, uma nova geração se estabelecera no cinema francês, substituindo a geração anterior, que um de seus arautos - François Truffaut - fustigou como 'cinema de papai'.

Mas, passada a curiosidade inicial, o público reagiu, e mal. Pode-se argumentar que o novo sempre assusta. Os filmes começaram a fracassar na bilheteria. Os 'velhos' exultavam - consideravam a Nouvelle Vague cada vez mais 'onda', cada vez mais 'vaga'. Mas Godard adquirira prestígio. Aceitou a proposição para fazer O Desprezo. O filme reunia investidores da França (Georges de Beauregard), da Itália (Carlo Ponti) e dos EUA (Joseph Levine). Esse último queria que o filme fosse feito com Frank Sinatra e Kim Novak. Ponti tentou impor sua mulher, Sophia Loren (e Marcello Mastroianni). Godard e Beauregard propuseram Brigitte Bardot, sem saber se ela aceitaria. Godard fez o que nunca tinha feito. Enviou-lhe um texto de mais de 100 páginas com o que queria fazer, e sobre sua personagem.

Brigitte, a princípio, desdenhou - era a própria velha onda. Tinha muito a perder, quase nada a ganhar. Mas talvez tenha sido por isso que aceitou. Os paparazzi, que ainda regurgitavam o efeito Cleópatra - correndo atrás do casal adúltero Elizabeth Taylor/Richard Burton - prepararam-se para novo round. BB! As filmagens ocorreram em Roma e Capri. A estrela vivia assediada pela imprensa, principalmente fotógrafos. Para complicar, estava sozinha - chegou a trazer os pais da França -, porque o então namorado, Sami Frey, estava distante, comprometido com outra filmagem. Andava deprimida, chorava muito, irritava-se (com os paparazzi), mas foi profissional. Na verdade, os problemas de Godard foram com o astro americano Jack Palance, dos filmes de Elia Kazan e Robert Aldrich. Palance, um ator do Método, ressentia-se do método gordardiano de trabalho. Kazan, que veio visitar o set, também. Vendo Godard no trabalho, ele se admirou com a sua ausência de planos de cobertura e a despreocupação com o eixo. A situação chegou a um ponto em que Palance não queria falar com ninguém. O lendário Fritz Lang, que fazia o diretor do filme dentro do filme, achava melhor assim. Para ele, Palance era um chato de galocha.

O Desprezo é sobre Paul Javal/Michel Piccoli, contratado para reescrever o roteiro de uma versão da Odisseia que está sendo filmada por um mestre alemão, Lang (no próprio papel). Paul é casado com uma bela mulher (Camille/Brigitte), que passa a ser assediada pelo produtor, Prokosch/Palance. Paul empurra Camille nos braços de Prokosch e, no final, a vê partir. Godard tinha a maior admiração pela escrita de Moravia. Considerava-o, segundo De Baecque, o equivalente de Joseph L. Mankiewicz no cinema de Hollywood - alguma coisa de sutil, refinado, a mais bela prosa a serviço de personagens que afundam. Na origem do romance está uma história real que outro grande escritor - Vitaliano Brancati autor de O Belo Antônio - contou a Moravia. Ele trabalhava no cinema somente para oferecer à mulher a casa dos sonhos dela, e quando conseguiu levantar o dinheiro o casamento havia acabado. Moravia somou a desventura de Brancati à própria experiência quando trabalhou na adaptação de Homero que resultou em Ulisses, de Mario Camerini, com o astro Kirk Douglas, de 1953.

É a anatomia do fracasso de um casamento. A crise dos sentimentos. O filme antonionesco de Godard. Como o amor se transforma em indiferença e até desprezo. Godard estava vivenciando esse processo na relação com Anna Karina. Transformou o processo em criação, a história de um homem que sabe que está perdendo a mulher. A presença de Brigitte é pivotal. Desde E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim, de 1956, ela povoava as fantasias das plateias masculinas. Na Odisseia, Ulisses vaga por dez anos, na tentativa de voltar para casa, em Ítaca. A mulher, Penélope, nunca deixa de esperá-lo, desfazendo à noite o que teceu de dia, porque no fim dessa atividade interminável terá de escolher um marido. Na ficção godardiana, a mulher moderna - Brigitte - não espera, mas isso é porque o homem moderno - Piccoli -, com seu comportamento permissivo (inglório?), também não é Ulisses. Só resta a Fritz Lang realizar sua versão da Odisseia, no cenário majestoso de Capri, com estátuas em lugar de gente.Era, desde o início, o conceito - transformar Brigitte, uma das mulheres mais sexies do mundo, numa fria estátua de mármore.

Dessa forma, Godard afronta, e enfrenta, o mito para seguir com seu projeto autoral, subvertendo, desde o interior, uma produção 'hollywoodiana'. Apesar do custo elevado para os padrões do cinema francês da época, o filme, como destaca De Baecque, foi feito com simplicidade - com economia de meios e grande eficácia. Sendo um filme sobre o casal, é também sobre o cinema, seus bastidores. É famosa a cena em que, ao fim de uma discussão com Lang e Paul, Prokosch reage brutalmente - “Sempre que ouço falar em arte eu pego a caneta e me preparo para asssinar o cheque.”

Para colocar o espectador dentro do próprio ficcional, Godard (e Coutard) iniciam O Desprezo por um dos planos-sequências mais belos do cinema. Tudo já está ali, o décor e a vida, a realidade e a fantasia.

Essa fábula de desintegração, sobre a dificuldade e até impossibilidade de erigir o mundo sonhado e fazê-lo real tem ainda uma quinta personagem, além do roteirista, sua mulher, o produtor e o velho cineasta. Como se falam diversas línguas no set fictício, há uma figura que faz a junção de todas as demais, a tradutora, Francesca Vanini. Esse nome não é por acaso e encerra uma dupla homenagem a Roberto Rossellini, por meio da citação a Francisco, Arauto de Deus e Vanina Vanini, de 1950 e 61. Ela é interpretada por Giorgia Moll, atriz de Mankiewicz em Um Americano Tranquilo, de 1957, e que participou de alguns filmes de aventuras mitológicas na Itália por volta de 1960. Amorosa de Paul, respeitosa de Lang, invejosa da beleza de Camille, altiva perante Prokosch, Francesca cumpre o papel da dançarina do templo de O Tigre da Índia, do próprio Lang, de 1958, faz a ligação entre os homens e os deuses. Lang adorou a experiência. Escreveu para Piccoli, de quem se tornou amigo, uma carta que De Baecque reproduz na biografia de Godard. Vale transcrever o trecho sobre o diretor.

Diz Fritz Lang - “Ele (Godard) tenta com sinceridade e um grande senso de responsabilidade continuar e avançar o que a minha geração tentou fazer no período silencioso e no começo do sonoro. Tenho a impressão de que Godard busca seu estilo pessoal, enquanto eu estive sempre mais interessado no conteúdo das histórias que queria contar. Estou certo de que ele não faz concessões e sei, por experiência própria, que quem trilha caminhos novos encontra sempre a resistência de produtores que preferem destruir aquilo que não compreendem.”

Lang e Godard participaram depois de uma histórica emissão da série Cineastes de Notre Temps, de André S. Labarthe, O Dinossauro e o Bebê, definida como 'documento excepcional sobre a paixão de cinéfilos, além de uma grande lição de cinema.” A paixão de cinéfilo transparece num detalhe que encontra ressonância em outro filme da série Clássico do Dia. Como Dean Martin em Deus Sabe Quanto Amei/Some Came Running, de Vincente Minnelli, de 1959, e numa dupla homenagem ao astro e ao grande diretor, o roteirista interpretado por Piccoli porta sempre chapéu.

Mas Lang, infelizmente, estava certo. Presente à primeira projeção de O Desprezo, Truffaut entusiasmou-se e definiu o filme como um dos melhores de Godard – um Viver a Vida (de 1962) em cores, calmo e triste. Já as reações de BB e dos produtores foram desastrosas. BB considerou o filme inacabado, Levine disse que pagou caro pelo corpo dela - US$ 1 milhão - e exigiu mais cenas de nu. Godard, depois de muita polêmica, cedeu e acrescentou mais três minutos de nudez à montagem, mas filtrando o corpo desejado nas cores vermelho, branco e azul - da bandeira francesa, de certa forma antecipando Krzystof Kieslowski e a trilogia das cores. O resultado, somado ao tema composto por Georges Delerue, criou o que De Baecque define como poema irreal para uma deusa grega. Godard, apesar das dificuldades - das pressões -,  venceu a parada. Fez seu filme 'narrativo', 'tradicional', um dos maiores, senão o maior. Mas talvez tenha sido como reação a O Desprezo que ele propôs, no ano seguinte, Uma Mulher Casada, mais próximo do seu estilo desconstruído habitual, com Macha Mérril.

Desprezo  Youtube

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo
10 de julho de 2020

terça-feira, 7 de julho de 2020

Tudo acaba em barro

Um coveiro em Manaus conta seu cotidiano durante a pandemia

Marcos Antonio da Silva Santos

Silva Santos, no cemitério em que trabalha FOTO: RAPHAEL ALVES_2020

Marcos Antonio da Silva Santos tem 42 anos e trabalha há dezessete como coveiro em um cemitério da Prefeitura de Manaus, o Nossa Senhora Aparecida, que ficou conhecido em todo o Brasil por causa das valas coletivas abertas ali para o enterro de pessoas mortas pela Covid-19. Naqueles dias de abril, Santos chegou a enterrar 115 corpos em um único dia. “O defunto que morre de Covid vem sempre mais pesado do que os outros”, ele conta no diário a seguir. “A gente não sabe qual é o mistério que tem.”

25 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA

Ontem fui ao Rio Solimões com mais cinco amigos dar uma pescada. Eram duas canoas, a gente usou tarrafa e linha comprida. Deu pra pegar uns 30 kg de surubim, caparari e dourado. No Solimões tem muito peixe sem escama, que é mais gostoso de comer. No Rio Negro dá mais tambaqui, pacu, piranha, peixes com escama.
A gente foi bem cedo, eram umas seis e meia da manhã. Voltamos lá pelas seis da tarde. Quando cheguei em casa, botei logo os peixes no freezer. A minha mulher, a Etelvina, vai fazer guisado e cozido com eles. Estamos casados faz catorze anos. Nossa filha, a Geovana, já está com 6 anos. Tenho também um filho de criação, o Ítalo Roger, de 22 anos. Ele trabalha numa igreja, fazendo serviço geral.

Hoje acordei às 4h45. Tomei banho e fui pro estacionamento perto de casa pegar minha moto. Eu pago 100 reais por mês pra deixar a moto lá, porque tenho medo de ela ser roubada se eu deixar na rua. Cheguei no cemitério às 5h40, não tenho um horário de entrada fixo. O importante é chegar antes do almoço e cavar dez covas novas por semana. O cemitério fecha às cinco da tarde.

Tomei café com o Alcindo e o Chiquinho. Os dois também são coveiros. O acordo no trabalho é que todo mês cada um leva um pacote de café e um de açúcar. Além disso, quem pode leva pão, bolacha, macaxeira, o que tiver. Eu paro todo dia numa padaria que fica no meio do caminho pra comprar 2 reais de pão. Dá uns oito pãezinhos. Às vezes alguém leva manteiga, às vezes, não.

Às 7h15 teve o primeiro enterro. Cova normal, não era morto de Covid, mas de arma de fogo. Fomos eu, o Alcindo e o Rafael colocar o caixão no buraco. Eu tenho enxada, picareta, pá, ferro de cova e espátula. Gosto muito da minha enxada de cabo curto pra cavar. O Nossa Senhora Aparecida é um cemitério bem antigo, tem quase uns 50 anos, e aqui o trabalho de cavar sempre foi manual. Mas agora, com essa pandemia, passaram a usar trator. Como é muito defunto, a gente não estava dando conta. A administração alugou dois tratores. Um de draga, que rasga o chão todo, e um de concha, pra furar vala por vala. Também contratou um caminhão frigorífico, pra guardar caixão quando tem muitos corpos.

O cemitério aqui termina dentro da floresta e teve que ser aumentado. Primeiro, o trator de draga derrubou uma parte da mata e abriu espaço pra uma quadra só com defunto de Covid. Depois, o trator de concha furou os buracos das covas. A gente só precisava arriar os caixões, porque o próprio trator jogava terra em cima, e fazer o acabamento, aplanando com a pá e botando uma cruz. A cruz tem o endereço da quadra, o nome do defunto e a data do nascimento e da morte dele. Quem escreve tudo na cruz é o Batalha, que também é coveiro e tem letra bonita. Além da cruz, a sepultura tem também o castilho, que é aquela muretinha de madeira, mais ou menos do tamanho do caixão, cercando a cova pro pessoal saber onde está o defunto.

No auge da Covid, a gente enterrou 115 corpos num dia. Em dia normal, não passa de vinte. Eu e mais seis coveiros. Já tinha o trator pra ajudar, mas, mesmo assim, o trabalho durou até sete da noite. Como era muito corpo, a gente passou a enterrar de cinco em cinco. Era tanta coisa acontecendo que eu nem percebi se estava com medo, mas minha mulher ficou bem assustada de eu levar a doença comigo pra casa. Passei a tomar banho com álcool quando chegava, num chuveiro que tem do lado de fora. Só depois eu entrava.

Antigamente, o enterro era normal, cada um na sua enxada. O caixão chegava, ficava uns minutos na mesa pra receber homenagem e a família carregava até a cova. Agora é assim: se é morte por Covid, o corpo vai direto pra cova. Se é morte morrida normal, fica mais tempo na mesa, até juntar cinco caixões. Aí o pessoal coloca todos eles num tratorzinho com carroceria e leva os cinco pra serem enterrados de uma vez só. Fizeram esse protocolo aí porque o pessoal não estava tendo tempo de enterrar um por um.

O enterro é em cova coletiva, a não ser que a família tenha algum jazigo antigo. O cemitério aqui é da prefeitura. Quem quer enterrar em cova particular precisa comprar no cemitério da frente, o Parque Tarumã, que é privado. Mesmo quando não é Covid, a gente tem que usar máscara. Se é Covid, tem que usar roupa especial. Por causa da doença, o prefeito também baixou um decreto que só deixa cinco familiares do defunto acompanharem o enterro. Agora tem aparecido pouco morto de Covid, mas varia. Hoje, por exemplo, foram sete enterros. Só um era da doença. O João e o Rafael fizeram esse aí.

Larguei o trabalho às cinco da tarde. Cheguei em casa meia hora depois. Tomei banho e fui pra sala ver televisão. Boto sempre no canal A Crítica, que tem o programa do Sikêra Junior. Ele falou de um homicídio de uma moça de 14 anos, de sábado pra domingo. Acharam o corpo na Estrada da Praia Dourada. Acho que ela não foi enterrada lá no cemitério, não. Teve dois enterros de arma de fogo, mas os mortos eram homens.

26 DE MAIO, TERÇA-FEIRA

O celular despertou antes e acordei mais cedo, às 3h45. Fiquei vendo televisão e saí de casa uma hora depois. Passei na padaria, depois abasteci a moto: 4 reais de gasolina, pra completar o tanque. A moto é flex, mas eu só boto gasolina. Não gosto de andar com o tanque na reserva, pra não dar risco de ficar vazio quando saio do cemitério.

Tomei café da manhã com o Chiquinho e o Alcindo de novo. Quando deu 7h15, o fiscal mandou a gente abrir uma cova na quadra 56, pra um defunto que ia ser enterrado na parte da tarde. Foi feita na mão mesmo, com enxada e pá, porque o trator não chega até lá. O Sidney me ajudou. A gente cavou 1 metro pra baixo, que é o espaço de dois caixões.

Quando a família tem sepultura, a gente tem que tirar o caixão mais antigo pra poder caber o novo. Mas só pode fazer isso depois que o caixão tem quatro anos debaixo da terra, que é o tempo que o defunto leva pra virar só roupa e osso.

A gente cava, arranca os pedaços do caixão e joga fora a calça, a camisa, o tênis ou o sapato, essas coisas. Quem come defunto não é minhoca. É o barro mesmo. Quando o caixão é aberto, depois de muito tempo, está tudo misturado no meio do barro: a madeira, as roupas, os ossos. A gente cata os ossos que sobraram e coloca dentro de um saco, mostra pra família e, depois, enterra de novo. O saco fica em cima do caixão do defunto novo. Se a família quiser, até pode colocar os ossos numa gaveta, mas aí tem que pagar a mais. Esse serviço de gaveta só tem no Parque Tarumã.

Umas semanas atrás, fiz um desses enterros, só que mais difícil. Precisei tirar um caixão de anjinho, que é como a gente chama a criança que morreu, e refazer a cova toda pra caber um adulto. A parte da terra onde ficava o caixão antigo é mais molinha, porque já foi revirada antes. A parte de terra virgem, que nunca foi remexida, é bem mais dura. Tem que fazer assim: primeiro a gente mede tudo pra dar o tamanho do caixão novo. Aí joga água pra amolecer a terra e cava um palmo pra baixo. Depois joga mais água, espera uns vinte minutos, cava de novo, e assim por diante. Se não fizer isso, você bate a enxada e ela não tira nada.

O defunto da cova que a gente abriu de manhã chegou às quatro e meia da tarde. Era um senhor de idade, morreu de Covid. Eu já estava com roupa especial, tinha botado uns dez minutos antes. O fiscal, o Átila, avisa quando tem Covid e traz a roupa pra gente. É uma capa de pano feita de napa, tipo capa de chuva. Tem também touca, luva e máscara. Depois de usar, tem que jogar tudo na lixeira. Até agora, nenhum coveiro adoeceu. Por isso eu não fico mais tenso. Passo álcool em gel, e é vida que segue.

Depois de enterrar esse morto de Covid, tomei um banho e fui embora. Tomei outro banho quando cheguei em casa. O jantar vai ser guisado de peixe.

27 DE MAIO, QUARTA-FEIRA

Acordei às 5h40. Comprei pão e fui pro cemitério. Quando cheguei, o Átila pediu pra eu e o Sidney cuidarmos da parte de Covid. O primeiro sepultamento foi às dez da manhã. Era um rapaz. Botei a farda, enterrei, descartei a farda. No fim da tarde, enterrei uma mulher. A família e os amigos dos mortos ficam chorando enquanto a gente enterra os defuntos, mas eu quase não me emociono. Só uma vez eu chorei, num enterro de uma mulher que tinha sido morta pelo marido a facada. Quando vi os filhos chorando na beira do caixão, eu chorei também.

Almocei costela e guisado. Tem um rapaz que fornece comida no cemitério. Ele liga pra gente por volta de nove da manhã, diz qual é o cardápio do dia, a gente escolhe, e lá pelo meio-dia chega a quentinha, que custa 10 reais. A gente come numa mesa improvisada, bem longe das covas. Normalmente, eu almoço junto com o Chiquinho, o Carlinhos e Irmão Zé, que tem esse nome porque é pastor. O Chiquinho sempre faz um café.

28 DE MAIO, QUINTA-FEIRA

Hoje foi bom, deu só dois enterros. A gente aproveitou o tempo livre pra lembrar os sepultamentos de antigamente. Falamos do finado Bigode e do finado Cairara. Os dois eram coveiros, morreram de velho. O finado Cairara foi um dos fundadores do cemitério, passou 46 anos nesse trabalho. Depois dele, o mais antigo é o João Montenegro, que tem mais de quarenta anos como coveiro e vai se aposentar daqui a um tempo. A prefeitura afastou ele, o Macedo e o Lázaro, todos de idade, por causa da Covid. Como não contratou gente nova, a gente teve que dividir as funções. Mas não foi muito trabalho, não, porque o João e o Lázaro só enterravam anjinho.

No ano passado, teve um dia que enterrei um defunto de 386 kg. Era um rapaz novo, que engordou muito. O caixão nem era caixão. Era uma caixa de madeira tão grande que nem cabia no esquife, aquele carrinho de transportar o corpo até a cova. A família levou a caixa de madeira na caçamba de um caminhão. Eu nunca tinha cavado uma cova grande daquele jeito. Primeiro, a gente usou umas tábuas pra arriar a caixa do caminhão pro gramado. Depois, todo mundo ajudou a levar do gramado pra cova, porque só os seis coveiros não davam conta. Foi gente segurando pelas beiras, pelas cordas. Deus me livre.

Outra história curiosa no trabalho foi com um colega meu, o André, que era fiscal. Um dia a gente saiu do cemitério lá pelas seis e pouco da tarde, no carro dele. Quando o carro estava passando entre as quadras 18 e 17, nós vimos uma mulher sentada num banco, com o cabelão todo jogado na frente da cara. Eu falei: “Ô André, você viu isso aí?” Ele tinha visto também e logo deu marcha à ré, para poder conferir quem era. Mas a mulher tinha sumido, assim, rapidinho. Até hoje eu não sei o que foi aquilo que a gente viu, porque naquele horário já não podia ter mais ninguém visitando as covas.

Teve uma vez que a gente estava cavando na quadra 17 quando caiu um raio por perto. Todo mundo sentiu um choque na perna e caiu no chão. Depois o pessoal se levantou de volta e continuou enterrando.

Tem dezessete anos que eu sou coveiro, mas trabalho desde que era criança. Minha mãe morreu quando eu tinha 5 anos, de tétano, depois que ela pisou num prego enferrujado. Quando eu tinha 8 anos, foi a vez do meu pai, que morreu de câncer. Minha madrasta passou a cuidar da casa e de quatro irmãos menores que eu. Larguei a escola e fui aprendendo a dar meu jeito. Comecei empacotando coisas na feira e nas Casas da Banha, um supermercado que existia na época. Também trabalhei de engraxate e em conserto de carro.

Quando eu tinha uns 16 anos, fui pro interior. Tenho uma irmã bem mais velha que mora em Itacoatiara. Fiquei um ano lá, plantando mandioca. Depois voltei e fui trabalhar de auxiliar na Zona Franca, enchendo caminhão com DVD, televisão e outros aparelhos. Como não era todo dia que davam carreta pra encher, passei a ir bastante na Secretaria Municipal de Limpeza Pública e perguntar se tinha vaga de gari. O salário era melhor. Comecei a lavar carro do pessoal que trabalhava lá, pagar conta no banco para eles, essas coisas. Um dia a chefa do setor de pessoal me avisou que ia aparecer uma vaga. Deu certo, fiquei uns três anos varrendo a cidade. Em 2003, o pessoal da secretaria me perguntou se eu não queria mudar pra coveiro. O salário era igual, mas tinha uma parte melhor: no cemitério, a gente trabalha uma semana inteira e folga na outra. Hoje ganho 2 100 reais por mês, sem carteira assinada.

No começo, eu vinha pro trabalho de ônibus bem cedo e descia no portão de entrada. Tinha que atravessar o cemitério inteiro a pé, de madrugada, e às vezes ainda estava escuro. Dava um pouco de medo. Depois, fui ganhando coragem. Hoje, gosto do que faço. Já enterrei juiz, promotor, policial e um cantor famoso, o Arlindo Júnior, que cantava no Festival de Parintins. Enterrei os defuntos do micro-ônibus que bateu num caminhão na Djalma Batista, uma avenida daqui de Manaus. Foram dezesseis mortos numa tacada. Enterrei também aqueles presos do Compaj [o Complexo Penitenciário Anísio Jobim], depois da rebelião que aconteceu lá em 2017. A imprensa deu que foram 56 mortos, mas a gente abriu 147 covas. Essa tragédia foi no dia 1º de janeiro, dia do meu aniversário.

Fui eu que enterrei também o Fábio dos Santos Maciel, aquele sargento da Marinha que morreu na própria festa de casamento, no Rio de Janeiro. Ele caiu em cima de uma taça de vidro, que cortou a veia da perna dele. No enterro teve homenagem, e o chefe do Fábio pediu pra gente arriar o caixão bem devagar. De vez em quando, a viúva visita a sepultura.
Quando o defunto vem de outro estado, o caixão tem que ter uma proteção de zinco por dentro, pro chorume não escapar. Se não tiver, a empresa aérea não faz o traslado. E, dependendo do tempo que vai levar até o enterro, o defunto precisa ser embalsamado. Colocam formol na coxa, no antebraço e no pescoço, e dessas partes o líquido se espalha pelo corpo todo. Tem funerária que também tira as tripas.

31 DE MAIO, DOMINGO

Tive dor de cabeça e febre na sexta-feira, mas passou rápido. Acho que foi por causa do sol quente. Bateu uns 38ºC. Eu não uso protetor solar, porque o corpo fica muito liguento. O verão pior aqui é em agosto e setembro. Faz mais de 40ºC. A cigarra canta tanto que espoca. Até já gravei uma cigarra cantando e coloquei como toque do meu celular. Nessa época é ruim de cavar porque não chove. O barro vai ficando mais duro. A gente chega no cemitério ainda de madrugada pra poder cavar antes do sol aparecer. Antes da Covid, cada coveiro tinha que deixar prontas dez covas por semana, pra quando chegasse o defunto. Agora, no caso de morto de Covid, quem faz isso é o trator.

Hoje foi meu último dia de trabalho na semana. O Rafael, meu colega aqui, teve a ideia de a gente fazer um churrasco no cemitério, numa área longe das quadras de enterro. Cada um deu 10 reais pra comprar bisteca, linguiça, farinha e banana-prata. A gente montou a grelha com uma grade velha, daquelas da parte de trás de geladeira, e usou como base um pedaço de meio-fio. No lugar do carvão, usamos umas madeiras que estavam lá mesmo. Queimou rapidinho. Cada um se revezou como churrasqueiro. Teve uma hora que o Rafael, o Batalha, o Alcindo e o Carlinhos foram fazer um enterro, e eu fiquei no fogo. O churrasco durou umas duas horas. Sem bebida, pois não é permitido.

Hoje foram sete enterros no total. Nenhum era Covid. Teve o de um morto por arma de fogo e o de uma moça que teve o pescoço cortado por uma linha de pipa quando andava numa moto. A moto dela não tinha aquele ferrinho no guidão que protege contra isso. A minha também não tem, mas não tenho medo porque nunca passo em área que tem pipa.

Peso de defunto varia muito. O defunto de Covid vem sempre com o corpo mais pesado do que os outros, por exemplo. A gente não sabe qual é o mistério que tem. Defunto morto por arma de fogo também costuma pesar mais. Não é por causa do chumbo, porque o IML costuma tirar as balas. Mas uma vez eu exumei um cadáver que estava enterrado tinha uns quarenta dias. O laudo dizia que o defunto morreu por asfixia. Mas a mãe dele não estava convencida disso, achava que o rapaz tinha sido morto por arma de fogo. Quando o perito foi examinar o corpo, viu o buraco de um tiro atrás da orelha.

Outra vez, em 2008, fiz a exumação de um defunto de 48 dias. Era um traficante de um bairro chamado Praça 14 de Janeiro. Ele tinha morrido de tiro. A gente desenterrou, abriu o caixão, mas na hora de transferir pro esquife o corpo partiu no meio, na altura da barriga. A gente pegou as duas metades e colocou no rabecão pra ir pro IML. Já estamos acostumados com isso.

Quando tem exumação, o pessoal do IML vem acompanhar, porque é caso de polícia. Às vezes vêm também agente, delegado e juiz, pra não deixar ninguém chegar perto do corpo. A gente usa máscara e roupa especial. Quando termina a exumação, joga a máscara fora e a roupa também, porque ela fica com cheiro do chorume do defunto. A última exumação que eu fiz tem uns dois anos. Foi o de uma mulher morta pelo marido, um pastor que não aceitava a separação. O caixão estava no barro tinha uns vinte dias, que é até um tempo tranquilo. Quando passa disso, o cheiro começa a piorar. A gente tirou o corpo e botou num caixão novo, que foi levado pra outro cemitério, no interior do Amazonas, onde a família tinha jazigo, pra ser enterrado de novo. A família tinha conseguido autorização pra fazer a exumação.

O defunto aqui no Nossa Senhora Aparecida pode ser enterrado em três lugares: gaveta, porão e chão. A gaveta é uma sepultura de concreto que fica em cima da terra, às vezes numa capelinha, se a família tem dinheiro pra fazer a construção de uma por cima. A sepultura de porão também é feita de concreto, só que pra baixo da terra, num buraco. A gente cava e cimenta as paredes. Já a sepultura que a gente chama de chão é aquela cova de barro mesmo, também pra baixo da terra, mas sem concreto em volta. Acho que uma capela com umas quatro gavetas custa uns 10 mil reais. O porão sai por uns 6 mil. O barro é mais barato, uns 800 reais.

Coronel e capitão costumam ser enterrados no barro. General é no concreto. Juiz e desembargador também são em sepultura de concreto. Mas isso varia. Já enterrei policial federal em cova de barro. Tem gente que tem interesse em enterrar bem, tem gente que não. Hoje em dia tem até um crematório em Manaus, as coisas estão mudando.

O cemitério chique aqui na cidade é o São João Batista. É da prefeitura, mas quem tem capela lá é barão. Custa uns 28 mil reais. É como no Cemitério Morada da Paz, no Recife. Fui lá em 2016, quando viajei de férias com a minha mulher e a minha sobrinha. A gente fez um city tour que passou na frente do cemitério. No dia seguinte, deixei as duas no hotel e voltei lá sozinho. É tipo cemitério da Europa, todo bem cuidado. Também fui sozinho, uns dias depois, no crematório de Olinda.

Tenho medo de morrer, mas nosso destino é esse, não é? Quando eu morrer, posso ir pro Santa Helena, onde tem uma sepultura da minha família, ou posso ficar por aqui. A prefeitura dá uma cova no barro pra cada coveiro que trabalha no Nossa Senhora Aparecida. Acho que prefiro ficar aqui, porque todo mundo já me conhece.

1º DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA

Ontem, depois do jantar, fiquei na frente de casa jogando dominó com os vizinhos. Moro na beira de um igarapé, no bairro Educandos, numa vila cheia de casas de palafita. A última vez que teve um grande alagamento na vila foi em 2012, mas eu ainda não morava lá. Depois, teve só uns alagamentos menores.

Na semana de trabalho, durmo lá pelas sete e meia da noite. Minha mulher fica vendo novela até mais tarde. Já me acostumei tanto com esse horário que, em semana de descanso, também durmo cedo e acordo cedo, tipo cinco da manhã. Aí vou pra casa da minha sogra e tomo café lá. Ela mora numa casa quase encostada na minha.

Hoje foi o primeiro dia dessa minha semana de folga. Fui no banco pagar minha moto. Pago com boleto: 416 reais por mês. Já quitei 12 das 48 parcelas. Pago também o rastreamento da moto, que custa 59 reais.

Desde sábado, minha geladeira está ruim. Não está gelando. Botei as coisas no freezer e pedi pro meu sobrinho vir consertar. Estou querendo fazer compra, mas dependo da geladeira. Faço compra para o mês inteiro. Alugo um carro particular pra caber tudo e vou dirigindo pro mercado. Minha mulher vai junto. Eu chamo ela de “Pai”, não sei por quê. Ela me chama de “Amor”.

8 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA

A geladeira queimou mesmo. Dei pro meu sobrinho naquele dia a estragada e comprei outra, uma Panasonic, de 1 mil e poucos reais. Vou pagar em três vezes. Minha mulher gostou. A gente foi na loja Tvlar, porque Manaus liberou a abertura do comércio no dia 1º. Por enquanto está tranquilo na cidade. Eu uso máscara e álcool em gel na rua, mas vi gente que não estava usando.

No sábado, fui no Rio Solimões com a minha mulher, meus cunhados e uns vizinhos. Alugamos quatro lanchas aqui perto de casa e seguimos pra comunidade do Lago Janauari. Tem gente que vai pra lá com caixa de som e assa peixe na beira do rio. A gente fez uma caldeirada de bodó. Só tirei a máscara pra comer e tomar banho no rio.
Acordei hoje com uma dor de cabeça horrível e não fui trabalhar. Amanhã, se Deus quiser, eu vou.

9 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA

Foi devagar hoje, fiz três enterros só. Um era acidente de carro, os outros dois eram arma de fogo. Em Manaus as mortes por Covid diminuíram. Agora, está mais no interior. São enterrados por lá mesmo.

O caminhão frigorífico foi embora. Nessa semana vão levar os tratores também. Eles ajudaram bastante porque a demanda era muito grande. Vou voltar pro manual, mas não vou sentir saudade das máquinas, não. Já estou acostumado a cavar o chão.

11 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA

Hoje é Dia de Corpus Christi. O cemitério enche mais, apesar de a prefeitura ter proibido as visitas já tem uns meses. Os feriados mais cheios são o Dia das Mães, o dos Pais e o de Finados. No Dia das Mães teve gente desavisada que veio para o cemitério, mas foi barrada no portão. Eu estava de folga, mas soube que teve muita reclamação.

Enterrei dois de Covid. Continuo sem medo de pegar a doença. O caixão já chega aqui lacrado, protegido num plástico, que a gente fura na hora de botar a corda pra arriar na cova. Quem deve correr mais risco é o pessoal da funerária, que tem que botar o defunto num saco, fechar com zíper e depois colocar dentro do caixão.

Ontem teve um caso que mexeu comigo. Enterrei uma senhora de idade, morta a facada pelo filho. Parece que ele estava preso e só saiu porque ela pagou a fiança. Aí o filho voltou pra casa e matou a mãe. No cemitério, estavam as irmãs e a filha da mulher, todas chorando. Fiquei um pouco emocionado. Isso é uma tragédia, né?

Difícil mesmo é enterro de defunto que não tem ninguém da família. Acontece muito quando é indigente. O corpo chega no rabecão do IML, em caixão bem simples, de compensado. Aí vai pra uma área só deles, onde é enterrado no barro. Não tem nem cruz por cima. O cemitério só manda colocar a cruz quando aparece alguém da família pra pagar pela cova. O defunto indigente fica enterrado lá quatro anos, que é o tempo de tudo virar barro. Quando chega um morto novo, a gente enterra por cima, sem nem tirar os ossos.

MARCOS ANTONIO DA SILVA SANTOS
Trabalha como coveiro num cemitério municipal de Manaus

 PIAUÍ - EDIÇÃO 166 | JULHO_2020


sexta-feira, 3 de julho de 2020

INTOLERÂNCIA

Prelúdio

Para o intolerante ou para quem se coloca acima da antítese tolerância-intolerância, julgando-a historicamente e não de modo prático-político, o tolerante seria freqüentemente tolerante não por boas razões, mas por más razões. Não seria tolerante porque estivesse seriamente empenhado em defender o direito de cada um a professar a própria verdade, no caso em que tenha uma, mas porque não dá a menor importância à verdade. Mas, ao lado das más razões, existem também boas razões. Expondo-as, gostaria de evitar a tentação de inverter a acusação e afirmar que não se pode ser intolerante sem ser fanático.  (Norberto Bobio, A era dos direitos, p.87)

A modesta pretensão aqui é analisar a intolerância através de três filmes: Intolerância (1916), Pagador de promessa (1962) e Deus é Mulher e Seu Nome é Petrunia (2019).

Aos filmes

Intolerância (Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages), 1916, D.W. Griffith


... Intolerância é um triunfo narrativo, uma produção espetacular que consegue eclipsar até mesmo obras monumentais que viriam décadas depois como Cleópatra e Ben-Hur em termos de escala, suntuosidade e até mesmo técnica. No entanto, o espectador moderno, mesmo o mais ávido e eclético apreciador de filmes, precisa ter paciência e tranquilidade para assistir as quase três horas de projeção (há outras versões, algumas até 20 minutos mais longas, mas em razão da velocidade do frame rate da fita em si, não pela adição de conteúdo – a versão objeto da presente crítica é a “Killiam Shows”, de 176 minutos), além de uma mente programada para ver muito mais um momento marcante e fundamental da História do Cinema do que um “filme comum”.

As quatro histórias contadas de forma entrecortada ao longo de toda a duração do filme são, em ordem cronológica:

– Ano 539 a.C. – Na Babilônia, um conflito religioso leva à guerra entre o Rei Nabonido (Carl Stockdale) e seu filho, o Príncipe Belsazar (Alfred Paget) e Ciro, o Grande, da Pérsia (George Siegmann), o que resulta na Queda da Babilônia e o fim de sua independência. A história, baseada em fatos reais, é vista sob o ponto de vista da Moça das Montanhas (Constance Talmadge), levada por seu irmão para o “mercado de noivas” na cidade e que acaba se apaixonando pelo príncipe e lutando em seu exército.

– Ano 27 a.C. – A história de Jesus Cristo, o Nazareno (Howard Gaye) – do primeiro milagre até sua crucificação – que ganha enfoque reduzido.

– Ano 1572 d.C. – Massacre da Noite de São Bartolomeu, na França, em que Caterina de Médici (Josephine Crowell)  fomenta os católicos a assassinar os protestantes huguenotes.

– Ano 1914 d.C. – O foco principal do filme e única história fictícia, ainda que baseada em questões sócio-políticas até hoje relevantes. Nela, a Doce Menina e o Rapaz enfrentam o preconceito e a hipocrisia puritana para sobreviver e criar seu filho, depois que uma greve e suas consequências obrigam suas respectivas famílias a se mudarem de cidade... (Ritter Fan)

Não existe outra conexão entre esses segmentos senão o fato de abordarem a intolerância (religiosa, política e social) ao longo da História.

Projetado na URSS em 1920, Intolerância exerceu ali grande influência sobre os jovens cineastas soviéticos Eisenstein, Pudoviskin, Kulechow, mas sobretudo por suas primeiras sequencias, que mostram uma greve e sua selvagem repressão. (George Sadoul)

Filme no youtube

Comentários de André Sturm


O Pagador de Promessas (1962),  Anselmo Duarte


Anselmo Duarte fez história como primeiro – e único, em 2020 – brasileiro a receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Foi em 1962, há quasse 60 anos... A Novaes Teixeira, ele disse que queria contar a história de um Cristo terceiro-mundista. Não a maior história de todos os tempos, mas algo muito mais simples e humano. Cristo como um carteiro (mensageiro de Deus?), filho do carpinteiro e da lavadeira. E, num rompante, para espanto de Novaes, chegou a dizer que voltaria a Cannes com seu Cristo e levaria a Palma. Por mais que Anselmo possa ter aumentado e até inventado a história, prevaleceu o conceito fordiano em O Homem Que Matou o Facínora – 'Print the legend'.

Ele, realmente, voltou a Cannes em 1962 e ganhou a Palma de Ouro com O Pagador de Promessas. Não era bem a história de Cristo, mas era a história da crucificação de um brasileiro comum pela intolerância, e não apenas religiosa... Trabalhou durante seis meses e aí começou a desanimar. A coisa não andava. Seu Cristo estava emperrado. E então um jovem diretor de teatro, de muito prestígio na época, Flávio Rangel, convidou-o para ver sua nova montagem.

Era de uma peça de Dias Gomes. Anselmo foi, e no palco, em Zé do Burro, encontrou o seu Cristo. Indescritível a sua emoção. Juntando o que não tinha, comprou os direitos, embora não tenha sido fácil convencer o autor. Dias Gomes era um homem engajado, de esquerda. Desconfiava daquele galã. Ao comprar os direitos, Anselmo armou-se de uma cláusula, que lhe assegurava o direito de fazer mudanças no original. Dias Gomes assegurou-se de outra cláusula. Flávio Rangel teria de ser diretor assistente...

Na história, o nordestino Zé faz uma promessa para salvar seu burro, que está morrendo. Promete carregar uma cruz até a igreja, em Salvador. Mas ele fez sua promessa num terreiro de candomblé, e ao chegar o padre o impede de entrar na igreja. Cria-se um caso. A imprensa explora o episódio. A mulher de Zé, Rosa, é atraída pelo gigolô Bonitão e isso provoca a ira da prostituta Marly, que acusa a 'santinha' de estar querendo roubar seu homem. Engalfinham-se numa briga de arranhões e puxões de cabelo. Cria-se um 'carnival' semelhante ao que Billy Wilder armou em A Montanha dos Sete Abutres, mais de dez anos antes. Zé do Burro, amarrado à própria cruz, só entra morto na igreja, nos braços do povo...

Chegou o grande dia em Cannes. A seleção daquele ano era pródiga em grandes nomes. Michelangelo Antonioni (O Eclipse), Luís Buñuel (O Anjo Exterminador), Robert Bresson (O Processo de Joana D'Arc), Pietro Germi (Divórcio à Italiana), Sidney Lumet (Longa Jornada Noite Adentro), Otto Preminger (Tempestade sobre Washington), Agnès Varda (Cléo das 5 às 7), etc. Um filme da Grécia, Electra, a Vingadora, de Michael Cacoyannis, foi aplaudido sem parar, durante dez minutos, algo nunca visto na história do festival.

Mas veio O Pagador, e algo se passou. (Luiz Carlos Merten)


Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia (Gospod postoi, imeto i' e Petrunija), 2019,  Teona Strugar Mitevska


19 de janeiro, um ritual único é realizado na Macedônia. O pároco mais importante de cada cidade lança uma cruz no rio, e centenas de homens mergulham para alcançá-la, sob a promessa de que assim terão felicidade e prosperidade durante o ano. Na pequena vilda de Stip, a cerimônia é interrompida por um acontecimento inédito. Petrunya, mulher de 31 anos que está solteira e desempregada, mergulha para pegar a cruz e se torna a vencedora. Mas o povo de sua cidade não permitirá que ela seja reconhecida como tal.

"Deus É Mulher e seu Nome É Petúnia" O caça à bruxa

“Mãe, olha para mim. Eu saí da sua vagina. Sou tão feia assim?”. Petrunya fica revoltada quando a mãe demonstra desprezo pelo corpo nu da filha. Aos 32 anos de idade, esta historiadora representa um símbolo de fracasso social aos olhos de todos: não se casou, está desempregada, é considerada feia (“um monstro", ainda de acordo com a mãe), não manifesta apreço pela religião e defende as revoluções comunistas do último século. Ela se sente tão excluída que, um dia, joga-se no rio no momento exato em que ocorre um ritual religioso exclusivo para homens. Diante da tarefa de pegar uma cruz lançada por um pároco, quem alcança o objeto sagrado é Petrunya.

A diretora Teona Strugar Mitevska tem plena consciência de estar trabalhando com pequenos símbolos, dentro de uma fábula exemplar. A cerimônia religiosa, no fundo, importa muito pouco, porém serve a representar o dia em que uma mulher completamente marginalizada decide se confrontar ao patriarcado. Em questão de poucas horas, uma mulher solitária é confrontada à brutalidade física e psicológica de instituições poderosas e machistas como a polícia, a Igreja ortodoxa e a população de jovens homens que se acreditavam merecedores da cruz. A narrativa acompanha o calvário legal e moral da protagonista diante da ordem vigente.

Por um lado, é delicioso ver a desbocada Petrunya (Zorica Nusheva) confrontar padres e policiais à sua própria falta de lógica no pretenso respeito à laicidade. As farpas do diálogo lançam um retrato da Macedônia que não deve ser tão diferente de qualquer outro país cujo poder é majoritariamente reservado aos homens – inclusive o Brasil. Por outro lado, quanto mais a história se desenvolve, mais ela coloca na boca de Petrunya tudo o que pretendia dizer sobre a importância da emancipação feminina, a igualdade de gêneros e a separação entre Igreja e Estado.

Em outras palavras, esta mensagem é dita pelos personagens, e não representada em imagens. Esta constitui uma saída fácil para canalizar seu discurso, enquanto as imagens supostamente amadoras do operador de câmera local respondem por uma quantidade excessiva de cenas. Enquanto discute política, Teona Strugar Mitevska não constrói uma forma politizada em si, apenas uma sucessão de close-ups claustrofóbicos em Petrunya, um tanto mal iluminados, em movimentos de câmera mal ajustados. É compreensível que a atenção se volte a ela, mas por que espremê-la nos enquadramentos, mesmo quando está sozinha dentro de uma sala da delegacia?...  (Bruno Carmelo)


Epílogo

Intolerância está vinculada agressão, coação, discriminação, fanatismo, opressão, perseguição, preconceito, repressão e violência.
Convivemos hoje (e no passado também) num mundo de afetos e solidariedade, mas infelizmente juntos com a intolerância. Sentimos a intolerância de perto no Brasil de 2020.

Os três filmes acima resenhados trazem em comum a intolerância ao longo dos tempos. No épico de Griffith, de 1916, já estão os elementos de não tolerância ao longo de 2500 anos de história.
Em O pagador de promessas a intransigência religiosa. E no filme (explicitamente feminista) Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia retira das cinzas o medieval caça às bruxas.

Conviver com as diferenças: você com certeza sabe que essa não é uma tarefa fácil. Somos quase 8 bilhões de indivíduos com opiniões, crenças, valores e contextos diferentes. E é com frequência que escutamos ou lemos sobre relatos de desrespeito e intolerância em razão de opiniões políticas, orientação sexual, religião, nacionalidade, raça, entre outros. Muitas vezes, as manifestações de intolerância resultam em violências. Como exemplo podemos citar uma das maiores tragédias da humanidade: o Holocausto – durante o Nazismo na Alemanha. Naquela ocasião, cerca de 6 milhões de judeus foram mortos. Motivada pela prevenção de atrocidades como as que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial, em 1948, as Nações Unidas aprovaram a Declaração Universal dos Direito Humanos (DUDH). Esse documento define os direitos fundamentais dos seres humanos, sem distinção de cor, sexo, língua, raça, opinião, nacionalidade ou classe social.  (Talita de Carvalho )