sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mulher inacessível


Thais, 36, é professora de matemática e leciona 34 horas semanais em duas escolas, uma pública e outra privada, na cidade de São Paulo. Seu salário é de R$ 1.700. Para complementar, vende cosméticos que lhe rende R$ 1.000 em dez horas de trabalho por semana. Ela é casada com o João Carlos, 42, funcionário de uma concessionária de automóveis. O casal tem dois filhos: João de 7 anos e Carla de 5.
A rotina de Thais é infernal. Acorda às 5 horas, arruma o café da manhã dos meninos que tomam o ônibus para a escola às 06h30min horas. As 7 sai de casa para o trabalho docente nas duas escolas em que tem aulas. Tudo isso de ônibus e metrô. Nas quartas e sábado vende cosméticos. No domingo descansa? Negativo. Neste dia prepara aulas e corrige testes de seus alunos e alunas. E João e Carla? Conversa com eles nos intervalos (no recreio) desta maratona. A sorte deles é o pai que tem mais tempo livre.
Thais está entre os 266 mil docentes da educação básica do país que possuem uma segunda ocupação, um “bico” fora do ensino segundo a Folha de São Paulo de 07/11/2011. Este número representa 10,5% do magistério nacional, índice bem acima da população brasileira (3,5% tem uma segunda ocupação).
João Carlos vive com Thais há dez anos. Ela sempre na maratona diária. Ele, mais tranquilo, tem uma rotina apenas alterada no fim do mês: a maldita meta de venda de automóveis da empresa.
Carla aniversaria dia no dia 28 de setembro. Naquele ano esta data, seu 6º niver,  foi num sábado. Os pais resolveram, junto com a filha, comemorar no McDonald. É a terceirização da festa já que pelas atividades da mãe foi impossível sua organização no condomínio onde moram. Foram convidadas as colegas, os colegas de escola, os parentes e agregados, cerca de 30 convivas.
No convite para a meninada dizia início da festa às 18 horas. João Carlos levou os filhos. E cadê Thais? Trabalhando. A turba convidada estava se esbaldando no tobogã e nos outros brinquedos do McDonald. 19 horas e nada de Thais. Às 20 horas o pai deliberou por cantar os parabéns e cortar o bolo. Às 20h05min chegou a esbaforida Thais no meio do parabém para você. Pode?
- Desculpe filha, mamãe saiu tarde do shopping de vendas. Meus parabéns, disse Thais beijando e abraçando Carla.
- Problema não mãe, já estou acostumada, disse a resignada filha.
Denise Alvarez em seu ótimo livro (e um belo título) tem o diagnóstico disto aí: “... fica clara esta mistura entre tempo social e tempo profissional, pois não é mais a vida profissional que interfere na vida social e sim o inverso, a vida social é que se infiltra na vida profissional, “atrapalhando” seu desempenho. Daí a afirmação que os aniversários – data única na vida de uma pessoa, que acontece uma vez por ano – têm o hábito de se concentrar em datas inconvenientes. Exemplo claro da relação entre temporalidade ergológica e tempo vivido nas relações sociais, pois não temos dois corpos: um dedicado ao trabalho e outro à vida social. O que há é uma fusão permanente entre valores que aí são tecidos e reelaborados. (Denise Alvarez, Cimento não é concreto, tamborim não é pandeiro, pensamento não é dinheiro! Para onde vai a produção acadêmica? Myrrha, Rio de Janeiro, 2004). Thais faz parte daquelas pessoas infectadas pelo trabalho.
 Thais precisa do trabalho para ajudar a pagar as contas da família? Sim. É a realidade da profissão professora no contexto desta droga malhada chamada educação brasileira. Mas também conheço pessoas que faz do trabalho uma fuga. Dizem: trabalho muito para não pensar em meus problemas pessoais. Nestes casos só Freud mesmo para explicar. Não tenho dados para afirmar que seja o caso de Thais. Mas relato a seguir o que aconteceu numa noite.
João Carlos chegou do trabalho mais tarde do que o normal. Encontrou os filhos dormindo e Thais no computador preparando aula. Constrangido resolveu confessar.
- Thais preciso te dizer uma coisa muito séria.
Thais na frente do computador.
- Será que você está prestando atenção?
E Thais continua no computador.
Já revoltado com a cena João Carlos finalmente disse:
- Hoje de noite fui para um motel com uma colega de trabalho.
Thais na frente do computador.
 - E você não vai me dizer nada? disse o marido.
Thais sem tirar os olhos da tela do computador respondeu:
- Tá bom João, agora vai dormir que preciso terminar minha aula.
João foi para a cama e Thais pensou: Deus sabe o que faz.
A vida continuou para os dois. Há coisas que não tem explicação, tem existência.

Edson Pereira Cardoso, julho de 2012.

Este texto foi inspirado por uma palestra de Denise Alvarez realizada na UFES.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Carlos Reichenbach: tradução cinema

Carlos Reichenbach, cineasta, faleceu no último dia 15 de junho aos 67 anos. Deixou órfãos cinéfilos a dar com pau. Dirigiu 22 filmes. Lembro-me de alguns: Anjos do arrabalde (1986), Alma corsária (1993), Dois córregos (1999) e Garotas do ABC (2004).

"Reichenbach parecia gostar dos marginais, dos inconformados. Sempre fez e defendeu um cinema autoral. Preferia um fracasso arriscado à mediocridade inofensiva. Para ele, cinema sem risco era cinema menor. Carlão foi uma figura fundamental do cinema marginal brasileiro e da Boca do Lixo. Depois, consagrou-se como um dos maiores autores de nosso cinema, dono de um estilo próprio que misturava erudição com uma busca constante pela comunicação com o público. Ele defendia que o bom cinema deveria ser para todos." André Barcinski (Folha de São Paulo, 15/06/2012).

Além de cineasta era um amante do cinema. Acompanhei de perto seus caminhos cinéfilos. Conheci algumas pérolas lendo seus blogs. Eis algumas: Dementia, John Parker (1955). Filme mudo, sem diálogos, mas com trilha sonora. Genial. Eraserhead (1977). A partir deste filme me interessei mais pela obra de David Linch.

Foi graças a Reichenbach que me tornei um conhecedor dos filmes de Anthony Hickox (a fina flor dos filmes de ação) tais como Knife edge (2009), Blast (2004), Marcados pela máfia (2002) e Invasion of privacy (1996). Idem para Cristhian Duguay de Caça ao terrorista (1997), Cilada (2002), Desafio radical (2002), Hitler: the rise of evil (2003), A ilha – uma prisão sem grades (2008) e os Scanners 2 e 3 (1991 e 1992).

E tem mais: os filmes de Samuel Fuller, Roger Corman e alguns faroestes spaghetti.

Das minhas últimas garimpagens no blog do Reichenbach conheci: Quando os Brutos se Defrontam (Faccia a Faccia, 1967), Sergio Sollima; Terror in Texas Town (1958), Joseph H. Lewis e Sick Nurses,2007, filme tailandez dirigido por Piraphan Laoyont.

Estamos órfãos, mas Carlos Reichenbach vive.

Veja lá em http://www.olhoslivres.com/links.htm

sábado, 9 de junho de 2012

Pai

Uma lembrança marcante que tenho de meu pai era a sua habilidade em datilografia. Ele era um exímio datilógrafo. Daqueles em que batia no teclado sem o ver; era capaz de escrever com os olhos fechados e usava os dez dedos da mão. Por outro lado era um escrevinhador de dar inveja. Tinha uma caligrafia de professora.

Meu pai foi um contador competente. Formou-se em ciências contábeis e trabalhava na serraria da família paterna, mas teve passagem, como contador, em outros locais. Finalmente passou a trabalhar como agricultor. Foi pai de oito filhos e filhas. Faleceu aos 66 anos, depois de 40 anos de casamento.

Convivi com meu pai em duas fases distintas. A primeira, na infância e adolescência. A segunda, como adulto. Na infância lembro-me das botinas e do corte de cabelo tipo meia tigela como o Cascão dos quadrinhos do Maurício de Sousa. Na adolescência e juventude tive os maiores conflitos com meu pai. Estávamos na década de 1960 e eu era Rolling Stones e não era Beatles. Era minha sedução primitiva pela guitarra, pelo rock.

Apesar da timidez já sabia na época o que eu não queria. E o que eu queria? Sei lá!

Meu pai sabia o que queria: o controle total sobre a formação dos filhos e filhas. Por isso o diálogo era zero. Era seu estilo. E para isto usava da violência. Levei surras homéricas do meu pai. Não tinha conversa: contrariado extravasava sua ira com um cinto ou laço de couro de boi.

Quando adolescente gostava muito de futebol. Numa manhã de domingo fui, na carroceria de caminhão, assistir o meu time de várzea num bairro distante de minha casa. Meu pai soube onde fui. Na volta tive que sofrer uma das surras mais inesquecíveis da minha vida. Por que, deuses! Gostava de futebol e torcia feliz pelo meu time.

Hoje me revolto quando presencio um pai usar de crueldade no tratamento com filhos. Este pai certamente não opta pela conversa, pelo convencimento e pela amabilidade. Usa o antigo método de domar cavalos. Antigo sim, pois atualmente existem métodos não violentos para treinar estes animais.

Talvez pelo que passei, um tema que me mobiliza muito hoje é a violência contra a criança. O Brasil é um dos campeões mundiais neste quesito. E mais de 60 % desta violência contra a criança ocorre no interior das famílias.

Às vezes penso como será esta criança (violentada) mais tarde como pai. Nem todos têm uma crítica sobre a educação que teve do pai e mãe. Aqueles sem a crítica reproduzem, como pai, o que sofreu como filho. "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..." é o que responderia mais tarde? É como na estória atribuída a Einstein (Como nasce um paradigma) que reproduzo no final deste texto. Será que meu pai está neste contexto? O que sei é que o seu pai (meu avô) tinha com os filhos uma relação marcada pela ira e pela violência.

Em tempo: meu bisavô paterno aos 13 anos, em Portugal, brigou com outro menino. Com medo de represália em casa fugiu e foi arrebanhado num porto e embarcado num navio com destino ao Brasil. Este meu bisavô homenageou seus descendentes com os nomes de seus avós maternos contrariando os costumes vigentes na época. Ele nunca voltou a Portugal. O que será que ele pensava do pai?

A negação ao estímulo fazia parte do estilo de meu pai. A ordem era exigir ao máximo do filho. Caso eu fizesse uma coisa boa lá vinha um desestímulo. Você fez pouco e fez errado. A tática era anular para se impor. É claro que isto me revoltava. Era visceralmente contra este comportamento dele. O ser do contra me marcou pelo resto da vida.

Na fase adulta o comportamento do meu pai mudou. Tínhamos alguns raros diálogos. Ele já tinha netos e netas com os quais se relacionava completamente diferente. Mudou da água para o vinho. Será que ele, na época, se autocriticou? Duvido! Para ele a relação com os filhos e filhas foi a correta. O ser severo fazia parte da educação que sempre aprendeu com seu pai e antepassados. Era o seu paradigma.

Somos humanos complexos. Veja esta. Lembro-me de uma passagem dele com um cunhado. Este fazia o gênero novo rico prepotente. Não sei por que, mas um dia ele ameaçou meu pai de forma quase humilhante. Não houve reação à ameaça. Meu pai não era covarde, apenas não gostava de briga. Muito tempo depois este cunhado estava à míngua, pobre, abandonado e doente. E quem o ajudou providenciando aposentadoria e outros auxílios? Meu pai. Uma de suas virtudes era sua capacidade de perdoar.

Outra lembrança que tenho de meu pai: sentado pensativo e imóvel em sua mesa de trabalho. Remoia seus papéis com as dívidas não pagas. E pior, sem como salda-las. Esta situação não se modificou até a sua morte. Como agricultor teve bons e maus momentos. Estes últimos fizeram com que vendesse as terras. Voltou a trabalhar com contabilidade.

A solidão era a marca que o acompanhava. Sofria só, consigo mesmo. A solidão o corroia, pois não dividia as responsabilidades com a família. Não tínhamos a menor ideia de seus negócios. Guardava a sete chaves todos os seus movimentos contábeis e não tinha a menor vontade em compartilhar com as pessoas próximas. A responsabilidade era só dele e mais ninguém.

Sinceramente não tenho mágoas congeladas em relação a meu pai. Apesar das lembranças ruins da adolescência e juventude guardo comigo boas heranças. A honestidade, o senso de responsabilidade e a humildade para com as pessoas foram legados adquiridos através da convivência em comum com meu pai. Ele tinha mais certezas do que dúvidas, mas também não congelava mágoas.



"Na época isso foi só um pequeno começo, mas esse sentimento de nulidade que frequentemente me domina (aliás, visto de outro ângulo, um sentimento nobre e fecundo) deriva, por caminhos complexos, da sua influência. Eu teria precisado de um pouco de estímulo, de um pouco de amabilidade, de um pouco de abertura para o meu caminho, mas ao invés disso você obstruiu, certamente com a boa intenção de que devia seguir outro".

(Franz Kafka, Carta ao pai)


Edson Pereira Cardoso
Junho de 2012


NB


Como nasce um paradigma

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros o enchiam de pancadas.

Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram.
Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.
Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria:
"Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui...".

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Caravaggio

Caravaggio está no Brasil.

A partir de 15 de julho próximo a mostra "Caravaggio e seus seguidores" acontecerá em Belo Horizonte na Casa Fiat de Cultura. A seguir vai para São Paulo, no Masp, de 26 de julho a 30 de setembro. São seis obras do pintor e mais 14 quadros de pintores caravaggescos. Imperdível!

Nesta mostra estará o quadro São Jerônimo que escreve. Só por ele vale a visita.


São Jerônimo que escreve (1605-1606)

Em 1606 Caravaggio matou um jovem durante uma briga e foge de Roma com a cabeça a prêmio. A caveira no quadro São Jerônimo é um símbolo da morte. Segundo o curador italiano Giorgio Leone o crânio é uma espécie de espelhamento do rosto do santo que está inacabado. "Creio que ele não conseguiu terminar a face porque teve que fugir de Roma (1)".

O crânio volta a aparecer no quadro São Francisco em meditação.


São Francisco em meditação (1606)

São Francisco "feito já em fuga" (exílio) segura a caveira na mão, como se tivesse a consciência de seu fim, segundo Leone.

É desta fase A morte da virgem. Novamente a preocupação com a morte.


A morte da virgem (1605-1606)

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) nasceu em Milão em 28 de setembro de 1571 e morreu em Porto Ercole em 18 de julho de 1610. Normalmente é identificado como um pintor barroco. O século XVII é século do barroco nas artes. A arte dos seiscentos.

"Sua vida foi marcada pelos mais variados acontecimentos, seja na esfera pessoal seja na publica, sua ligação para com a igreja não o impedia de adentrar no submundo existente na realidade presente em suas obras, os ladrões, mendigos e prostitutas presentes em seus quadros não são somente oriundos de sua imaginação fundada na realidade que o mesmo observa o artista italiano além de observar esta realidade como artística ele a viveu como homem (2)"

Para o pintor a presença divina se faz através dos humildes e dos necessitados. O realismo tem presença marcante em sua obra. A morte está presente em Caravaggio não como algo distante e sim como algo real. Foi assim em sua vida.

Medusa Murtola (1597)

O enfrentamento da realidade traz em seus quadros não heróis, trazem vítimas. É por essas e outras que Caravaggio transcende ao barroco.

O barroco é o estilo internacional do século XVII. A arte barroca está ligada à contra-reforma, um período histórico em que a igreja católica estimulou nas artes a volta dos símbolos religiosos. Do ponto de vista cultural é o início da liquidação da herança renascentista baseada nos princípios da tolerância.

Se o espaço é estático na renascença, no barroco é fragmentado. Se a luz é uniforme e equilibrada na renascença, no barroco caracteriza-se pela tensão e contração. No barroco tem a presença do movimento, da mobilidade. Caravaggio tinha a luz a serviço do drama e visava chocar e comover. Ele estava interessado a dramatizar o sagrado.

Conversão de São Paulo (1600)

As ideias barrocas têm suas marcas não apenas nas artes plásticas. Estão presentes na literatura, na música, na arquitetura etc.

Padre Antônio Vieira e sua eloquência é barroco. Cervantes idem. Lope de Vega e Macbeth de Shakespeare são barrocos.

Na música a polifônia de Bach e Haendel é barroca. A ópera é um gênero barroco por excelência.

Almodovar namora o barroco. Ana Costa analisa o filme Fale com ela: "No filme, a narrativa almodovariana é barroca: corpos em sofrimento, formas que se transmutam e se superpõem. A arte barroca tem a propriedade de transformar o padecimento em gozo, onde entra a apresentação da paixão. A paixão almodovariana se desdobra no drama, esticando até seu limite de suportabilidade (3)".
 

São João Batista jovem (1600)

Outro que namora o neobarroco: Glauber Rocha. "Quando consideramos "barrocos" os filmes e os textos de Glauber, e também as obras de diversos autores contemporâneos, isso não significa que já não se toma o barroco como um estilo artístico de determinada época, datado, fixo e morto" (4).

O filme Caravaggio de Derek Jarman (1986) retrata uma biografia do pintor com suas nuances conhecidas: a relação com a igreja, suas brigas, seu exílio, sua bissexualidade e seus métodos de trabalho.


Cena de Caravaggio, filme de Derek Jarman, 1986

Em algumas cenas deste filme há uma mistura de figurinos do século XX com os do século XVII, como na figura mostrada acima. Algo me diz que Jarman quis mostrar o Caravaggio atemporal. Caravaggio atual. A rebeldia, a insatisfação com a realidade em que vive e a manifesta tradução de sua personalidade em sua obra são as marcas desta grande personagem.

Caravaggio é punk!


 
Baco (1596)

Narcisuss, 1599



Pieta, 1499


Citações:

As reproduções dos quadros que estão neste texto estão disponíveis em http://www.caravaggio-foundation.org/

(1) http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,mostra-reune-obras-de-caravaggio-e-de-seus-discipulos,876259,0.htm 25/05/2012

(2) http://tribunasnalcova.wordpress.com/2009/09/07/caravaggio-e-o-barroco 25/05/2012

(3) Ana Costa, A arte de Almodovar, disponível em
http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/portugues/revista/leitura.asp?CodObra=116&CodRev=10 30/05/2012

(4) Jair Tadeu da Fonseca, Alegoria, barroco e neo barroco em Lezama Lima e Glauber Rocha. Disponível em http://www.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/58885_6799.PDF 30/05/2012

(5) Beyond Caravaggio page   14/02/2017


 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Meias


Ela tinha uma sensualidade especial, era reservada de um jeito que a fazia diferente das demais mulheres, e o segredo de sua atratividade era uma mistura de passividade e distinção. Parecia que escondia em seu interior uma misteriosa qualidade, que a fazia permanecer como alguém distanciada, sempre com seu tranquilo sorriso, inclusive quando se entregava ao desejo febril de seu esposo. Ele gostava daquele olhar distante, daqueles olhos claros que sorriam e da maneira tão peculiar de abandonar-se a si mesmo. (1)

Samantha é uma mulher singular. Vivia, com Arthur, um casamento de 20 anos. Em harmonia, sem muita surpresa. Ela considerava o marido um líder. Fazia o que ele pedia. Todo santo dia, antes de ir para o trabalho, Arthur pedia para Samantha colocar em seus pés as suas meias e depois o sapato. Quem fazia o prato de comida para ele no almoço? Samantha, claro. E sem misturar o arroz com o feijão!

Samantha, apesar das meias, tem boas lembranças de seu casamento. Ela nasceu em Indaiatuba, cidade do interior de São Paulo, de família tradicional. Estudou em colégio de freiras e teve a formação clássica de que mulher para ser mulher tem que ser uma boa esposa e uma boa mãe. Aos 21 anos casou-se com Arthur e desta relação apareceram dois filhos que foram criados em Campinas onde o casal passou a residir.

Samantha sempre foi do lar. Cuidava dos filhos, da casa e do marido com esmero e dedicação.

Boa cozinheira servia os seus com a competência de uma Roberta Sudbrack. Samantha tem um livro com recortes de receitas muito bem organizado. Arthur e filhos consideravam imbatíveis a torta de limão e o rosbife com nhoque ao sugo feitos por Samantha.

Nossa personagem é uma libertina na cama. E o Arthur? Às vezes era líder na cama. Às vezes não. Nestas horas ela não gostava. Ela gosta de homens com liderança agressiva. Ela esperava o prazer de Arthur. Quando isto não acontecia, o Arthur passivo, Samantha se frustrava.

É como escreveu Anais Nim em seus diários: A vontade dele, o prazer dele, o desejo dele, a vida dele, o trabalho dele, a sexualidade dele como medida, comando – como centro da minha órbita. Não me importa trabalhar, ter meu espaço intelectual como artista; mas como mulher, ah, Deus, como mulher eu quero ser dominada. Não me importa se me disserem que tenho de andar com minhas próprias pernas, ser independente – eu posso fazer isso – mas eu serei caçada, penetrada, possuída pela vontade de um homem na hora que ele quiser, ao seu comando.

Anais Nin foi uma mulher plural. Escritora viveu na primeira metade do século XX, uma vida agitada. Na época em que escreveu o que citei acima vivia (em Paris) numa dúvida entre três homens e uma mulher com os quais tinha uma intensa relação amorosa. Anais, além de uma intelectual incrível, foi uma libertária e uma libertina. Como o diabo gosta.

Numa época da vida Samantha como dona-de-casa teve uma decisão sui generis: se embrenhar pela literatura de Clarice Lispector. Até hoje seu livro de cabeceira é Perto do coração selvagem. Os dilemas de Clarice passaram a serem os de Samantha: a mulher, o casamento, o desassossego, o humano e outras questões sempre não lineares da autora. Mais tarde veio a conhecer Virgínia Wolf e Anais Nim.

Cá pra nós, ninguém passa impune por essas mulheres.

Recentemente Arthur teve problemas graves de saúde. Câncer no cérebro descoberto tardiamente. Faleceu seis meses após a descoberta da doença. Samantha sentiu muito a perda do marido. Afinal foi um casamento bem vivido de mais de vinte anos.

Para ela uma situação contraditória como se fosse uma mistura da dor de perder com a sensação de liberdade de deixar alguém partir (Elizabeth Bishop).

Passado o período de luto Samantha encontrou-se com uma amiga. E esta curiosa perguntou sobre como a amiga conviveu tanto tempo com Arthur na situação de submissão. Citou a estória das meias. Respondeu Samantha:

- Sabe o que é amiga, fazemos isso para que os homens pensem que mandam e que são superiores. E soltou um tímido sorriso maroto.

Epílogo

Cinco anos antes de Arthur morrer Samantha conheceu um homem. Passaram a se encontrar com frequência. Tornaram-se amantes. Sim, ela traia o marido.

Até hoje este homem tem sobre ela uma liderança amorosa e libidinosa. Ela continua com sua sensualidade especial misturando atratividade e distinção.

Mas calçar meias e fazer o prato no almoço para ele nunca mais.


Citação:

(1) Javier Moro, sobre Dona Leopoldina e Dom Pedro I em O Império é você, p. 96, Planeta, 2012.


NB: a ideia inicial deste texto veio da crônica Essas mulheres e suas histórias, de Joaquim Ferreira dos Santos em O Globo de 7 de novembro de 2011.

De Isabela Guerreiro: “O marido de uma amiga minha chega a pedir que ela lhe coloque as meias. Num dia, ela desabafou: ‘Se um dia fosses pra guerra, criatura, quem iria colocar as balas no teu revólver?’ Felizmente esse tipo de relação está cada vez mais raro hoje em dia, ou eu estou sendo ingênua?” Isabela, marido é gente folgada e assim continuará sendo, por definição e índole, até o fim dos tempos, cada vez mais próximo, dessa bizarrice que é o casamento. Conheço homem que não passa manteiga no pão porque considera isso uma prenda do lar e diz que o faz por respeito, por não querer invadir o espaço da patroa. Ô raça.

Essasmulheres-2 


 








 

domingo, 25 de março de 2012

Terra inacabada 2

Em 7 de novembro de 2011, escrevi neste blog um texto com o título "Terra inacabada". Era sobre a questão da Amazônia e as intervenções e interações com os humanos. Dentre outras coisas disse sobre o complexo hidrelétrico do rio Madeira.

Atualizando: numa reportagem da Folha de São Paulo de 25 de março de 2012 um relato do esperado.



Usina deixa moradores sem casa em Rondônia

FELIPE LUCHETE

ENVIADO ESPECIAL A PORTO VELHO

Às vésperas de acionar a primeira de 44 turbinas, a usina hidrelétrica de Santo Antônio, em Porto Velho (RO), enfrenta uma greve de 15 mil trabalhadores, a quarta paralisação em três anos e meio de construção.
Do lado de fora da obra, longe das discussões trabalhistas, um problema só revelado após a abertura das comportas da hidrelétrica, em 2011: 600 moradores deixaram suas casas às pressas diante da força das águas, entre dezembro e janeiro.

Desde então, famílias que viviam no mesmo bairro trocaram casas de madeira e alvenaria por quartos em nove pousadas da cidade. Reclamam do espaço e da proximidade do convívio.
O projeto ambiental da usina não previa impactos a esses moradores, por isso ainda não há definição sobre o futuro dessas famílias.
Vizinhas da usina, elas viram a força das águas do rio Madeira provocar deslizamentos nos terrenos. A Defesa Civil condenou a área -hoje um X vermelho indica que as casas erguidas entre o rio e a antiga ferrovia Madeira-Mamoré, vazias desde fevereiro, serão demolidas.

As casas, desertas, são fiscalizadas por vigilantes. Restam objetos, animais e rochas colocadas pela Santo Antônio Energia ao longo do barranco que começou a ceder.
Apenas outras comunidades tiveram a mudança planejada em documento entregue ao Ibama, que liberou a construção da obra.



ONDAS

Ex-moradores contaram que as ondas destruíram a área de uma hora para outra, com estrondos à noite. Era comum o nível do rio aumentar no verão, mas nunca naquelas proporções.

Em meio a um quilômetro de casas vazias, a Folha encontrou apenas um ex-morador: Francisco Batista de Souza, 56, construindo uma canoa nos fundos de um bar.

Ele vivia da venda delas fazia de três a quatro por mês, vendidas a R$ 1.500 cada uma.

Souza, 27 anos no bairro, trabalhava no quintal de casa, à sombra de uma árvore hoje engolida pelas águas. Na pousada em que vive agora com a mulher e duas filhas, não há espaço para canoas nem para o churrasco em família.

"Uma funcionária da usina chegou a falar para ir embora [da área de risco], mas tenho contas para pagar. Eles [a empresa] dão comida, bebida e dormida, mas onde vou trabalhar?", questiona.



PARALISAÇÃO

A obra de Santo Antônio foi paralisada nesta semana após trabalhadores decidirem cruzar os braços. A usina de Jirau, também construída no rio Madeira, enfrenta uma greve há quase 20 dias.

Os operários das duas usinas têm as mesmas reivindicações: reajuste salarial de 30%, aumento da cesta básica e mudanças no pagamento de horas extras e da jornada de trabalho, entre outros pontos. Ainda não houve acordo.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Metodologia científica

1. Introdução
As Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação Engenharia (Resolução CNE/CES 11), no que diz respeito à iniciação científica ou à metodologia científica, sugere as seguintes recomendações: (a) aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia; (b) projetar e conduzir experimentos e interpretar resultados; (c) conceber, projetar e analisar sistemas, produtos e processos; (d) identificar, formular e resolver problemas de engenharia; (e) desenvolver e/ou utilizar novas ferramentas e técnicas; (f) comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; (g) atuar em equipes multidisciplinares; (h) avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental; (i) avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia.
Estas recomendações dão a medida do que seria a formação em engenharia para além dos conteúdos programáticos necessários: o conhecimento-estrutura (o como fazer), isto é, o conhecimento construído que funciona como condição de assimilação de qualquer conteúdo (Becker). Faremos a seguir uma reflexão sobre o que seria uma metodologia científica contextualizada na formação em engenharia.
2. Uma crítica à metodologia cartesiana

Seria a metodologia científica um conjunto de diretrizes que orienta uma investigação científica? Seria, mas cabe aqui uma reflexão. Este conjunto de diretrizes por si só não garante os resultados desejados numa pesquisa. Para Mirian Limoeiro (Cardoso, 1976):
"Numa epistemologia cartesiana o método se reduz a um conjunto de regras que por si só garantem a obtenção dos resultados desejados. O investigador que as conheça bem e que consiga agir puramente de acordo com elas chegará certamente a bom termo no seu trabalho. Haverá, portanto, modos - uns corretos, outros não - de atingir o conhecimento científico. Nesse sentido ele se identifica como técnica, supostamente válida para a utilização nos mais diversos domínios da ciência, que é assim considerada unicamente nos seus aspectos substantivos. O pesquisador é aqui levado a adotar os padrões aceitos e estabelecidos do "método científico" sem uma discussão mais profunda dos critérios de cientificidade segundo os quais deva acatá-los e não a outros.

A metodologia não se restringe a uma técnica e muito menos tem o caráter de camisa de força. Ela está a serviço da pesquisa e não o inverso. As diretrizes que orientam o trabalho científico podem se adequar ao processo não impedindo a criatividade e a autonomia.
O filme Bola de fogo (Ball of fire), 1941, dirigido por Howard Hawks e escrito por Billy Wilder conta a estória de oito professores voltados exclusivamente para a elaboração de uma enciclopédia. Nenhum deles é casado, pois acredita-se que ter uma família é prejudicial ao andamento dos trabalhos. Beltram Potts (Gary Cooper), o mais novo, tem como função preparar a parte de literatura inglesa e pretende incluir em seu trabalho as mais variadas formas de gíria.
O filme critica a forma "erudita" e livresca de tratar o conhecimento. Numa parte do filme o Garbage Man - lixeiro (Jen Jenkins) entra no local de trabalho dos professores pedindo ajuda, pois ele queria participar de um concurso com prêmios numa rádio. A pergunta era sobre a morte de Cleópatra. De pronto veio a resposta: Cleópatra, rainha do Egito, filha de Ptolomeu XIII, nascida em 69 a.C. se matou em 29 de agosto de 30 a.C. pondo uma áspide no busto. Obviamente tiveram que explicar ao lixeiro que áspide é uma pequena cobra, pois ele não entendia o "inglês culto" dos professores.
Esta conversa deixou Potts encabulado. Entendeu muito pouco do que o Garbage Man falava. A partir daí tomou uma decisão.
- Pesquisar.
- Pesquisar o quê?
Responderam os colegas.
- Não ouviram o Garbage Man? Não entendi nada do que disse. Terminei meu artigo sobre gírias. 23 páginas tiradas de 12 livros de referência. 800 exemplos. E daí? São 800 exemplos que posso jogar no lixo. Está obsoleto.
- Vivendo aqui isolado, perdi contato com o mundo. Isso é imperdoável. Ele falou na língua viva. Eu embalsamei expressões mortas. Aonde vou? Coletar dados novos. Buscá-los nas fontes da gíria, nas principais fontes. Nas ruas, nos bairros pobres. Lamento ter perdido tempo... mas preciso fazer isso. De um colega de Potts: - Estou escrevendo sobre Saturno. Eu insisto em ir até Saturno?
A decisão de Potts foi de mudança metodológica durante a investigação. Mudou do método documental para a pesquisa de campo. E o professor de astronomia muda de método? Não. Inviável pesquisa de campo em Saturno. Continua com o método documental. No máximo atualiza os dados obtidos de observações astronômicas sobre Saturno.

3. O fazer diante de um problema novo: o planejamento da pesquisa
Existe construção de conhecimento quando perguntamos. E gerenciamos dúvidas. Sem pergunta não há conhecimento novo ou aprendizagem. O que, porque, como e quando fazer sintetiza nossas ações quando estamos enfrentando um problema novo. De outra forma podemos dizer que uma pesquisa tem objetivos, justificativas, metodologia e cronograma.
Escolhido o problema deve-se investigar o que existe no mundo sobre o tema. É o que denominamos de revisão ou estado da arte. Corresponde a um inventário do conhecimento sobre o que se pretende pesquisar. A partir desta revisão delimitamos nossas possíveis abordagens e conteúdos.
O passo seguinte será pensar o como enfrentar o problema. Quais metodologias são possíveis. Esta é uma fase delicada do processo. A escolha do como fazer. Será uma pesquisa apenas documental e normas técnicas? Terá desenvolvimento de software? Haverá simulações? E o desenvolvimento de protótipos em laboratório? Como será?
A fase final será o quando fazer. O cronograma a ser respeitado para o desenvolvimento do trabalho. É comum vincular as fases do cronograma aos passos da metodologia.
Laville e Dionne formulam o desenvolvimento do método científico baseado em quatro fases correlacionadas: (a) proposição e definição do problema; (b) elaboração de uma hipótese; (c) verificação da hipótese e (d) conclusão. Tem o enfoque nas ciências humanas, mas pode servir de orientação a outras áreas. A Figura 1, abaixo, apresenta um detalhamento destas fases em forma de mapa (cmap.ihmc.us).

Figura 1:Construção do saber na visão de Laville e Dionne
4. A normatização: forma e conteúdo
Terminado o planejamento da pesquisa passa-se à sua execução. Um procedimento importante nesta fase são os registros de tudo que se faz. Referências consultadas, procedimentos em laboratório, resultados preliminares em simulações e outros. O recomendável é fazer um diário de pesquisa. Isto ajuda a refletir sobre o trabalho e auxilia na confecção do relatório final.
Cabe aqui uma observação sobre a prática e a teoria. Junto do saber trabalhar com instrumentos de laboratório e dispositivos é importante o saber como organizar procedimentos e saber analisar os resultados coletados nas medidas. Experiência não é o que se fez, mas o que se faz com aquilo que se fez (Adous Huxley).
A redação do relatório final do trabalho é normatizada pela ABNT. A Biblioteca Central de UFES disponibiliza dois cadernos com orientações sobre o tema: Referências bibliográficas (NBR 6023-ABNT) e Trabalhos científicos e acadêmicos. A Tabela 1, abaixo, sintetiza uma estrutura de texto para o relatório final.
Durante a graduação e pós-graduação são realizados trabalhos científicos com especificidades inerentes ao nível de escolaridade. São eles: Iniciação Científica (IC), Projeto de Graduação (PG) ou Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), Monografia, Dissertação, Tese e Artigo Científico (Moretti). Todos têm um relatório ou texto final e dependendo da instituição podem ou não ter apresentação pública.
IC e PG são trabalhos de graduação que apresentam conhecimento novo, embora não necessariamente inédito. A monografia é um estudo científico de uma questão bem determinada e limitada, realizado com profundidade. É um estudo mais aprofundado que um trabalho de graduação. Uma dissertação de mestrado é condição exigida para obtenção do grau de "mestre". Possui uma originalidade e um aprofundamento maiores em se tratando das questões abordadas no trabalho científico, quando comparada com a monografia. Uma tese de mestrado ou doutorado refere-se ao estudo de uma hipótese formulada com originalidade e de real contribuição para a comunidade científica. Além de apresentar todas as características (enquanto pesquisa científica) presentes em uma monografia e em uma dissertação, uma tese de doutorado destaca-se quanto ao aspecto profundidade. Ou seja, o tema é investigado e delimitado com hipóteses mais específicas. O artigo científico se caracteriza por ser um trabalho científico sobre um tema específico.

FOLHA DE ROSTO (Inclui essencialmente título e subtítulo, autoria, data e local)
DEDICATÓRIA E AGRADECIMENTOS
APRESENTAÇÃO OU PREFÁCIO
LISTA DE GRÁFICOS, TABELAS, TELAS ETC
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
O problema, sua origem, sua importância
A pesquisa realizada
O que apresenta a seguir seu relatório
O PROBLEMA
Elaboração do problema, suas coordenadas pormenorizadas
Revisão da literatura e o que se sabe em relação ao problema
Hipótese (s): o que se pretende mostrar, demonstrar; o objetivo visado
METODOLOGIA E O DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO
A escolha do método
O desenvolvimento do trabalho.
A análise dos dados ou resultados
CONCLUSÃO OU CONSIDERAÇÕES FINAIS
Resumo da pesquisa
Principais conclusões, resultados ou considerações finais
Implicações e generalização eventual
Ampliação ou trabalhos futuros
REFERÊNCIAS OU BIBLIOGRAFIA
ANEXOS OU APÊNDICES
GLOSSÁRIO



Tabela 1: Estrutura de texto para o relatório final

O texto de um artigo deve ser sucinto e deve ter algumas qualidades tais como: linguagem correta e precisa, coerência na argumentação, clareza na exposição das idéias, objetividade, concisão e fidelidade às fontes citadas. O rigor científico segue as regras dos outros trabalhos, porém sua estrutura de apresentação textual é seqüencial, sem divisão em capítulos.

Observações pertinentes ao texto:
Inicie a redação do relatório pensando no título. Ele define o conteúdo do trabalho. A partir daí esboce um sumário preliminar que dará uma boa orientação para a estrutura do texto.

Qualquer idéia ou texto de outra autoria citado no relatório deve ser referenciado. Esta citação pode estar em rodapé de página ou no capítulo de REFERÊNCIAS.

As referências ou bibliografia podem ser ordenadas em ordem alfabética ou pela ordem que aparecer no texto. Endereço de site deve estar com a data da visita.

Tabelas, gráficos, figuras, telas e outros devem apresentar legendas explicativas. Caso sejam de outra autoria referenciar a origem nestas legendas.

5. O projeto em engenharia
O termo projeto, no sentido amplo, significa intenção, planejamento, organização do trabalho, propósito, objetivo, alvo. A origem deste termo remonta ao período quatrocentista italiano, no início do século XV, e tem sua expressão vinculada ao projeto arquitetônico.
Em engenharia, projeto, está associado a dimensionamento, modelagem, planejamento, normas técnicas e desenho. Dentre as competências solicitadas ao engenheiro na concepção e gestão de um projeto podemos citar: a avaliação técnica, a interpretação racional de uma situação, a representação dos obstáculos a serem superados, a concepção de soluções possíveis, as escolhas, as propostas, a defesa destas escolhas, a estimativa de custos e a verificação ou validação do projeto.
O exemplo clássico de um projeto em engenharia elétrica é o projeto de instalação
elétrica (predial ou industrial). Quem faz o projeto não o executa e este projeto técnico é orientado para a confecção de um objeto. O objeto principal do projeto é o dimensionamento e identificação dos componentes e fios a serem instalados. O
projetista pode supervisionar a sua execução, mas cabe a ele apenas dimensionar os componentes do sistema através de um modelo físico-matemático, acatando as normas técnicas que regulam as instalações elétricas. A execução do projeto, neste caso, está distante do ato de projetar. A ação é finalizada por um produto exterior. É diferente de um projeto de pesquisa que corresponde a uma atividade cujo fim termina em si mesmo.
A atividade de projetar é um processo dialético entre análise e síntese. O bom projetista sabe analisar, isto é, sabe como as partes se relacionam com o todo. E sabe como o todo responde a determinadas solicitações. No caso do projeto de instalação elétrica a síntese é o projeto final. É o resultado do dimensionamento e identificação dos componentes. A análise é o comportamento dos componentes e suas relações entre si. Este vai e vem da análise e da síntese é mediado pela simulação.
Com os avanços da computação e da telemática esta simulação tem um papel relevante no desenvolvimento de projetos em engenharia. No projeto de uma antena (projeto de dispositivo técnico), por exemplo, quem concebe pode executar. O diagnóstico, elaboração, operacionalização (execução) e análise (medidas) necessariamente passam por simulações repetidas vezes durante as fases do projeto até o resultado final. Neste caso a síntese está num relatório técnico onde são explicitados todo o processo de elaboração, testes e características da antena projetada (Cardoso, 2007).
O projeto de engenharia e o projeto de pesquisa são ancorados pela metodologia científica. Ambos têm um plano (pré-projeto), um desenvolvimento ou execução, uma finalização via relatório final e, caso necessário, a apresentação pública de seus resultados. Ambos, guardadas a idiossincrasias de cada um, respondem às perguntas do o que, do porque, do como e do quando fazer.
Edson Pereira Cardoso
Professor aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da UFES
Agosto de 2011.
Referências
BECKER, F., Um divisor de águas, Viver & Mente e Cérebro – Jean Piaget, Segmento-Duetto, 2005
CARDOSO, Mirian Limoeiro. O mito do método. Boletim Carioca de Geografia. Rio de
Janeiro, 1976, Ano XXV, pp. 61-100.

MORETTI, N., MANUAL DE METODOLOGIA CIENTÍFICA: como elaborar trabalhos acadêmicos, UNICA: União de Ensino Superior de Cafelândia, 2008.

CARDOSO, E.P., Projetos de aprendizagem mediados por ambientes virtuais no ensino de engenharia elétrica, Tese de Doutoramento, PPGEE, UFES, 2007. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/ 19/08/2011.