Cayahuari Yacu, the jungle Indians call this country, the land where God did not finish Creation. They believe only after man has disappeared will He return to finish His work. (do filme Fitzcarraldo)
O cineasta Werner Herzog conheceu a região amazônica quando esteve por lá durante as filmagens de Aguirre, der zorn gottes (Aguirre, a cólera dos deuses) em 1972 e Fitzcarraldo em 1982. Suas impressões sobre as filmagens de Fitzcarraldo e a convivência com a selva amazônica estão no documentário Burden of dreams (Aflição dos sonhos) dirigido por Les Blank em 1982. Werzog, um alemão urbano, relata que esta região “é uma terra que Deus, se ele existir, criou com raiva. É a única terra onde a criação está inacabada ainda.”
As filmagens de Fitzgarraldo, realizadas em Iquitos (na margem do rio Amazonas), no Peru, e a 2 mil kilômetros ao sul, próximo à fronteira com o Acre, foram conturbadas devido à navegação em rios com corredeiras e cachoeiras. Além disso, as chuvas e a convivência com os índios da região dificultaram os trabalhos da equipe de filmagens. Fitzcarraldo é a estória do visionário Brian Sweeney Fitzgerald (interpretado Klaus Kinski, um ator cheio de maluquices), que sonhava em construir na selva um teatro de ópera. Para levantar o dinheiro para a empreitada, decide entrar no lucrativo ramo de exploração da borracha. Consegue um navio e ruma ao impossível: em determinado momento do percurso dos rios com suas margens perigosas, repletas de índios violentos, haverá a necessidade "corriqueira" de arrastar, montanha acima, o navio a vapor. É a metáfora do filme. As adversidades das filmagens, a convivência complicada com Kinski (1) e os enfrentamentos com a natureza fizeram de Werzog um homem pessimista e, em parte, explica o desabafo de que Deus criou aquela terra com raiva.
Fitzcarraldo se passa no auge do ciclo da borracha em fins do século XIX e início do século XX. Nesta época a região amazônica foi protagonista de um descalabro histórico: a estrada de ferro Madeira-Mamoré. Fitzcarraldo foi delírio. Madeira-Mamoré, uma insensatez.
A saga começou em 1879, comandada pelo coronel estadunidense George Church e terminou com apenas 7,5 km construídos de estrada. O tratado de Petrópolis, assinado a 17 de novembro de 1903, com a Bolívia abriu as portas para a reativação do projeto Madeira- Mamoré, que permitiria que a borracha (e outras riquezas da floresta) descesse o Rio Madeira de trem, transpondo suas dezenove cachoeiras, e seguisse pelo rio Amazonas em navios a vapor até o Atlântico e, dali para a Europa e os Estados Unidos. O governo Afonso Pena, em 1907, assinou uma concessão para que outro estadunidense, Percival Farquhar, construísse a ferrovia em quatro anos. Farquahar era um negociador astuto e controlava ferrovias e outros negócios em diversos países. Com a borracha em seu apogeu, ele jogou duro com o governo e garantiu uma concessão de 69 anos que incluía a ferrovia e grandes seringais ao longo do rio Madeira (2).
A minissérie Mad Maria, da rede Globo (2005), baseada no livro homônimo de Márcio de Souza, descreve Percival como um crápula, além dos atributos acima. Tem sentido, já que a história do Brasil é recheada de falcatruas impostas pelos ditos (ou mal-ditos) países dominadores.
Os trabalhadores da construção da estrada formavam uma verdadeira babel: tinha brasileiros, alemães, estadunidenses (os gerentes e engenheiros), espanhóis, gregos, indianos etc. Dos EUA vieram os confederados, perdedores da guerra da secessão naquele país. Resultado da insensata aventura: para construir a estrada (com 336 km), em quatro anos, ligando Porto Velho a Guarajá-Mirim, mais de 30 mil trabalhadores foram hospitalizados e destes, 10 mil morreram infectados por malária, beribéri etc.
Com o fim do ciclo da borracha Madeira Mamoré ficou inútil poucos anos após sua inauguração em 1912.
E hoje, em 2011, o que acontece por lá?
Cito dois exemplos: o complexo hidrelétrico do rio Madeira, Santo Antônio – Jirau, e a estrada sobre o território indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis) na Bolívia.
TIPNIS
A construção de uma rodovia na Bolívia, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), colocou líderes indígenas bolivianos em pé de guerra com o presidente Evo Morales e com a construtora brasileira OAS. A estrada, que ligará os Departamentos (províncias) de Cochabamba e Santa Cruz, terá 306 km e começou a ser aberta no último dia 3 de junho. A obra está estimada em US$ 415 milhões, dos quais US$ 322 milhões vêem de financiamento do banco brasileiro. O foco da tensão é o trecho 2 da estrada, com 177 km de extensão e que atravessa o Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), uma reserva de 1,091 milhão de hectares onde vivem entre 10 mil e 12 mil nativos dos povos moxeño, yurakaré e chimane (Valor Econômico, em 09/08/ 2011).
Uma pergunta pertinente: neste caso o conglomerado OAS/BNDES hoje faz o papel de Percival Farquhar da estrada de ferro Madeira Mamoré?
Em setembro de 2011, depois de muita luta dos movimentos sociais bolivianos e muita violência policial contra os manifestantes, o presidente Evo Morales suspendeu as obras da rodovia prometendo um referendo popular sobre a continuidade do empreendimento. Junto com rodovia viriam sérios transtornos sócio-ambientais na amazônia boliviana porque lá como aqui os ecossistemas são vilipendiados pela ganância produtivista.
Complexo hidrelétrico do rio Madeira
O complexo hidrelétrico do rio Madeira é formado pela Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, a primeira das duas usinas hidrelétricas a serem construídas no Rio Madeira. Esta usina será localizada a 7 km de Porto Velho. A outra usina do complexo do Madeira (hidrelétrica de Jirau) ficará a 136 km da cidade de Porto Velho. Juntas, as duas usinas terão capacidade instalada de 6.450 MW, tornando-se o 3º maior pólo de geração de energia hidrelelétrica do Brasil, atrás apenas de Itaipu (14.000 MW) e Tucuruí (8.340 MW). Está previsto para 2013 o início de operação da hidrelétrica de Jirau. Na versão oficial, para a construção destas duas usinas, serão inundados 300 km2 de terra nas margens do rio Madeira.
Estes dois mega projetos foram aprovado durante o governo Lula com pressões de todo tipo contra IBAMA para a aprovação de licenciamentos ambientais. E contra a posição de várias entidades ligadas às questões ambientais. Num manifesto de 2006, em carta ao presidente, diziam mais de vinte entidades assinantes:
Os impactos sociais, ambientais e econômicos serão observados desde o alto Madeira até sua foz e também no rio Amazonas. A experiência da hidrelétrica de Tucurui, no Pará, mostra que os impactos a jusante das grandes barragens amazônicas são tão sérios quanto os da área inundada. A retenção de sedimentos prejudica a fertilidade da várzea, afetando famílias de agricultores. A inviabilidade econômica do empreendimento e evidenciada pela previsão de gastos superiores a 18 bilhões de reais na construção e outros 10 nas linhas de transmissão. A insistência no modelo de construção de mega-hidrelétricas na Amazônia condena o pais a insegurança energética, pois se prevê que mais da metade da nova capacidade de geração venha das obras do Madeira e de Belo Monte, no rio Xingu – também esta uma obra sem comprovada viabilidade.
Nada evitou o ímpeto governamental / empresarial. E no futuro, como sempre ocorre com grandes projetos no Brasil, Porto Velho terá uma grande periferia pobre, desassistida e miserável formada por ex tra balhadores das hidrelétricas.
Deus ainda não voltou à Amazônia para terminar seu trabalho.
Os homens continuam lá. Eles ainda não saíram.
(1) Herzog dirigiu, em 1999, o documentário Mein liebster feind – Klaus Kinsk (Meu melhor inimigo) em que relata sua relação tempestuosa e afetiva com Klaus Kinsk.
(2) Rose Neeleman e Gary Neeleman, Trilhos na selva: o dia a dia dos trabalhadores da ferrovia Madeira-Mamoré, BEI Comunicação, 2011.
Edson Pereira Cardoso, novembro 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
domingo, 23 de outubro de 2011
Assédio sexual em metrô
Deu na Folha de São Paulo em 23 de outubro de 2011.
LAURA CAPRIGLIONE
DE SÃO PAULO
OLÍVIA FLORÊNCIA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
X. nunca conseguiu dar risada de um quadro do humorístico "Zorra Total" (TV Globo) que se passa num vagão do metrô. "Sempre achei um desrespeito", diz a jovem de 21 anos, aparência de 15.
Mas, agora, X. não pode nem sequer ver as personagens "Valéria" e "Janete". Ela acusa um advogado de 46 anos de tê-la atacado sexualmente em um trem no metrô, às 18h40 do último dia 14.
"A gente que trabalha sabe o empurra-empurra que é pegar o metrô na ida e na volta, e ainda por cima no horário de pico. Aí, eles põem essa brincadeira ridícula. Só quem já sentiu na pele a humilhação de ter um sujeito se esfregando contra o seu corpo sabe a tristeza que é. Tem gente que acha engraçado, mas eu, se eu pudesse, tirava [o quadro] do ar", disse X.
Baixinha (1,59 metro) e magricela, resultado da dieta sem carne que segue desde criança, quando assistiu a um documentário sobre matadouros, X. saía do trabalho no centro de São Paulo, depois de uma jornada de nove horas, rumo à sua casa, em Itaquera (zona leste). Trajava calça jeans e blusa de mangas compridas.
Nesse trajeto, a chamada Linha Vermelha do metrô apresenta densidade máxima (10,9 pessoas por metro quadrado no horário de pico). É a mais congestionada do sistema paulistano.
"ELE VINHA"
Segundo X., o assédio iniciou-se tão logo ela entrou no vagão lotado, o advogado encostando-se em seu corpo:
"Eu cheguei a pensar que fossem outras pessoas que estivessem empurrando. Eu tentava me esquivar e ele vinha. Eu saía e ele vinha. Toda hora. Eu tinha ainda a preocupação com a bolsa, para não roubarem. Então, uma hora, não tive mais para onde ir, porque ele colocou as mãos nos ferros de cima e me apertou com o corpo."
Um rapaz de 24 anos, comerciário, que estava no mesmo vagão, flagrou o instante em que X. desmaiou: "Ao olhar para trás, ela viu o pênis do advogado fora da braguilha da calça do terno".
GRITOS NA ESTAÇÃO
"Eu fiquei travada, eu parei, eu não tive reação. Sei lá o que estava passando pela minha cabeça." Assim a moça descreveu a espécie de blecaute que sofreu.
Foi o jovem comerciário quem segurou as portas do vagão na estação Belém, para que X. fosse retirada, e que, aos gritos, chamou a segurança do metrô, que impediu o advogado de seguir viagem tranquilamente.
"O homem alto e engravatado saiu do trem ainda com tudo para fora, o cinto solto e a braguilha aberta", disse o rapaz na Delpom -Delegacia de Polícia do Metrô.
X., que pretende tornar-se psicóloga, só chorava. "Por ele ter saído do jeito que saiu e por mim, porque eu sou mulher. Eu nunca imaginei que fosse acontecer isso comigo, um monte de gente perto. Muita vergonha, nossa."
INADEQUADO
No final de 2004, o Metrô realizou uma pesquisa com usuários, que entre outros quesitos, avaliou as ações da companhia para prevenir o assédio sexual nos trens.
Para 21%, nada era feito -serviço considerado inaceitável-; 45% disseram que a companhia só agia quando a vítima conseguia informar um funcionário -nível considerado inadequado.
Sete anos depois, o Metrô diz não dispor de dados atualizados sobre níveis de satisfação (ou insatisfação) em relação à prevenção de assédio.
Em nota, afirma que, de janeiro a setembro de 2011, foram registradas na Delpom dez casos de ato obsceno e 43 casos de importunação. "No mesmo período, o Metrô transportou 807 milhões de passageiros."
Para Marisa Mendes, 53, do sindicato dos metroviários, o que há é uma "imensa subnotificação, porque as mulheres molestadas se sentem humilhadas e desassistidas demais". Segundo a sindicalista, os ataques decorrem da superlotação dos trens e da falta de investimento em segurança, que poderia intimidar os assediadores.
Marisa responsabiliza também o que chama de "banalização do assédio, propiciada por um tipo de humorismo que faz graça com a dor das mulheres". Refere-se ao quadro do "Zorra Total".
X. continua pegando o metrô para ir e voltar para o trabalho. Não mais do mesmo jeito, contudo: "Nossa, eu estou parecendo louca. Fico olhando para trás o tempo todo. Tenho cisma de alguém atrás de mim. Se tem um homem atrás de mim, eu saio. Eu não consigo evitar". X. vai marcar uma consulta com a psicóloga da empresa em que trabalha.
LAURA CAPRIGLIONE
DE SÃO PAULO
OLÍVIA FLORÊNCIA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
X. nunca conseguiu dar risada de um quadro do humorístico "Zorra Total" (TV Globo) que se passa num vagão do metrô. "Sempre achei um desrespeito", diz a jovem de 21 anos, aparência de 15.
Mas, agora, X. não pode nem sequer ver as personagens "Valéria" e "Janete". Ela acusa um advogado de 46 anos de tê-la atacado sexualmente em um trem no metrô, às 18h40 do último dia 14.
"A gente que trabalha sabe o empurra-empurra que é pegar o metrô na ida e na volta, e ainda por cima no horário de pico. Aí, eles põem essa brincadeira ridícula. Só quem já sentiu na pele a humilhação de ter um sujeito se esfregando contra o seu corpo sabe a tristeza que é. Tem gente que acha engraçado, mas eu, se eu pudesse, tirava [o quadro] do ar", disse X.
Baixinha (1,59 metro) e magricela, resultado da dieta sem carne que segue desde criança, quando assistiu a um documentário sobre matadouros, X. saía do trabalho no centro de São Paulo, depois de uma jornada de nove horas, rumo à sua casa, em Itaquera (zona leste). Trajava calça jeans e blusa de mangas compridas.
Nesse trajeto, a chamada Linha Vermelha do metrô apresenta densidade máxima (10,9 pessoas por metro quadrado no horário de pico). É a mais congestionada do sistema paulistano.
"ELE VINHA"
Segundo X., o assédio iniciou-se tão logo ela entrou no vagão lotado, o advogado encostando-se em seu corpo:
"Eu cheguei a pensar que fossem outras pessoas que estivessem empurrando. Eu tentava me esquivar e ele vinha. Eu saía e ele vinha. Toda hora. Eu tinha ainda a preocupação com a bolsa, para não roubarem. Então, uma hora, não tive mais para onde ir, porque ele colocou as mãos nos ferros de cima e me apertou com o corpo."
Um rapaz de 24 anos, comerciário, que estava no mesmo vagão, flagrou o instante em que X. desmaiou: "Ao olhar para trás, ela viu o pênis do advogado fora da braguilha da calça do terno".
GRITOS NA ESTAÇÃO
"Eu fiquei travada, eu parei, eu não tive reação. Sei lá o que estava passando pela minha cabeça." Assim a moça descreveu a espécie de blecaute que sofreu.
Foi o jovem comerciário quem segurou as portas do vagão na estação Belém, para que X. fosse retirada, e que, aos gritos, chamou a segurança do metrô, que impediu o advogado de seguir viagem tranquilamente.
"O homem alto e engravatado saiu do trem ainda com tudo para fora, o cinto solto e a braguilha aberta", disse o rapaz na Delpom -Delegacia de Polícia do Metrô.
X., que pretende tornar-se psicóloga, só chorava. "Por ele ter saído do jeito que saiu e por mim, porque eu sou mulher. Eu nunca imaginei que fosse acontecer isso comigo, um monte de gente perto. Muita vergonha, nossa."
INADEQUADO
No final de 2004, o Metrô realizou uma pesquisa com usuários, que entre outros quesitos, avaliou as ações da companhia para prevenir o assédio sexual nos trens.
Para 21%, nada era feito -serviço considerado inaceitável-; 45% disseram que a companhia só agia quando a vítima conseguia informar um funcionário -nível considerado inadequado.
Sete anos depois, o Metrô diz não dispor de dados atualizados sobre níveis de satisfação (ou insatisfação) em relação à prevenção de assédio.
Em nota, afirma que, de janeiro a setembro de 2011, foram registradas na Delpom dez casos de ato obsceno e 43 casos de importunação. "No mesmo período, o Metrô transportou 807 milhões de passageiros."
Para Marisa Mendes, 53, do sindicato dos metroviários, o que há é uma "imensa subnotificação, porque as mulheres molestadas se sentem humilhadas e desassistidas demais". Segundo a sindicalista, os ataques decorrem da superlotação dos trens e da falta de investimento em segurança, que poderia intimidar os assediadores.
Marisa responsabiliza também o que chama de "banalização do assédio, propiciada por um tipo de humorismo que faz graça com a dor das mulheres". Refere-se ao quadro do "Zorra Total".
X. continua pegando o metrô para ir e voltar para o trabalho. Não mais do mesmo jeito, contudo: "Nossa, eu estou parecendo louca. Fico olhando para trás o tempo todo. Tenho cisma de alguém atrás de mim. Se tem um homem atrás de mim, eu saio. Eu não consigo evitar". X. vai marcar uma consulta com a psicóloga da empresa em que trabalha.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Beatrix
Deu na imprensa
Após pedir a suspensão de um comercial de lingerie com a modelo Gisele Bundchen por considerar a propaganda agressiva à mulher, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes (PT), se envolveu em mais duas polêmicas. Ela enviou um ofício à TV Globo sugerindo que uma personagem violentada pelo marido na novela "Fina Estampa" procure o Serviço de Atendimento à Mulher (180), e que o agressor seja encaminhado aos centros de educação e de reabilitação para agressores, previstos na Lei Maria da Penha. Na quarta-feira, a pasta de Iriny enviou um ofício à emissora e ao autor da novela, Aguinaldo Silva, mostrando preocupação com o personagem Baltazar. Na trama, ele humilha e bate na mulher, Celeste. Em ofício enviado à emissora, a ministra Iriny Lopes sugere que Celeste, que resiste em denunciar o parceiro dizendo que o ama, procure a Rede de Atendimento à Mulher, por meio do telefone 180. Segundo a ministra, o alerta na telenovela, como em outras que já trataram do tema da violência à mulher, se faz importante em um país com um índice de quatro mulheres agredidas a cada dois minutos - 1,051milhão por ano (grifo do autor).
http://gazetaonline.globo.com 06/10/2011.
Em 2007, Beatrix era casada com Bento. Ela era uma mulher muito bonita e ele um ciumento doentio. Com um problema: ele era alcoólatra. Morava em Estrela Dalva, um dos 289 bairros de Cariacica, Espírito Santo. Ela era cabeleireira e ele pedreiro.
Durante a semana Bento era um anjo. Mas a partir da sexta o diabo entrava no corpo com força. Saía do serviço e começava beber todas. Onze da noite chegava em casa e reclamava de tudo. Da comida, da cama, da roupa. Beatrix vinha do serviço as dez e tinha que ouvir. Queria que ela ficasse em casa cuidando da casa e da filha Perla. Mas como não trabalhar fora? Só com o que ele ganhava não dava. E quando ela reclamava da situação o pau comia. Bento batia em Beatrix até cansar.
No sábado e domingo o drama para Beatrix se repetia. Sábado ela ficava no salão de beleza até às sete da noite. Bento chegava bravo e na presença de Perla o show se repetia. E toma surra de novo.
De uma amiga de Beatrix:
Amiga: porque você não denuncia teu marido na delegacia de defesa da mulher. Vai lá menina. Aqui perto, em Campo Grande, tem uma. É a lei Maria da Penha.
Beatrix: sei não, amiga, fico sem coragem. E depois? Aí que ele me arrebenta.
Amiga: e tem mais, além de te espancar sabia que sustenta outra com casa e tudo aqui no bairro?
A lei Maria da Penha, de que trata das punições das agressões contra a mulher, foi sancionada pelo Presidente da República em agosto de 2006.
Beatrix criou coragem para denunciar o marido. Numa sexta entrou num ônibus e foi até Campo Grande, e conversou com a delegada. Feito o registro a delegada disse que iria até Estrela Dalva intimar o marido.
Nem foi preciso a intimação. O destino reservou uma tragédia para Beatrix.
Bento apareceu furioso no sábado à noite. E bêbado, como sempre, disse:
Bento: olha aqui sua puta, hoje te vi conversando com um homem em frente ao salão. Cê tá pensando que sou trouxa?
Beatrix estava conversando sim, mas era com um amigo. O Escobar.
Beatrix: era um amigo, ô babaca. E você? Todo mundo sabe aqui no bairro que você sustenta uma vagabunda. Com casa e tudo. Você surra ela também?
Aí o diabo tomou conta de Bento. Primeiro golpe: um murro no nariz da mulher. Segundo golpe: um chute no estômago. Beatrix quase desmoronou com o chute. Com o nariz ensanguentado criou forças e já curvada viu um vergalhão de aço encostado na pia da cozinha. Criou coragem e numa fúria canina lascou o vergalhão na cabeça do marido. Bento desmoronou no chão já desmaiado. A fúria, agora sanguinária, aumentou. Beatrix pegou uma faca que estava na pia abaixou a calça do homem e decepou testículos e pênis de uma só vez. Ato contínuo jogou a tralha toda pela janela. Bento estrebuchou, mas Beatrix não satisfeita enterrou a faca no peito do moribundo. Duas vezes, até comprovar que estava morto. Um banho de sangue. E Beatrix, como uma besta, urrou de vingança e ciúmes. A filha, Perla, não presenciou a tragédia, felizmente. Foi passar a noite na casa de uma amiguinha.
Após o ocorrido, Beatrix desapareceu na escuridão da noite. Apresentou-se à polícia uma semana depois.
Foi a julgamento e condenada a 10 anos de prisão.
Na penitenciária Beatrix sempre teve o apoio do Escobar. Tornaram-se namorados e já com um ano de convívio ela se engravidou de Ezequiel.
Após quatro anos de prisão e bom comportamento, Beatrix está livre sob condicional.
Hoje, a família Beatrix, Escobar, Perla e Ezequiel vivem em Campo Grande, outro bairro de Cariacica. Ela tem um salão de beleza e ele é sargento da Polícia Militar.
Vivem bem, em harmonia e felizes como deve ser.
Edson Pereira Cardoso, outubro de 2011
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Desvinculação amorosa
Alba Lívia é filha de Alma. Alma é esposa de Tobias. Juntos tiveram quatro filhos bem criados e educados. Não diria que Alma seja uma matriarca, mas o matriarcado sempre rondou pela sua família. A mãe de pulso forte, a mulher que não tem muitas dúvidas e sabe aonde quer chegar.
Alba hoje tem uma vida estável. Claro, circunscrita às fronteiras freudianas do que seja estável. Trabalha muito, mas penso que já nasceu agitada. Não diria com o diabo no corpo. Diria o corpo a serviço da cabecinha endiabrada. Alfredo que o diga.
Alfredo é o namorado de Alba. Gosta muito dela e a compreende. Ele pensa assim: se eu não entender a cabeça desta mulher e não aceitar 90% do que ela pensa não consigo ficar com ela. É um caso de amor destrambelhado. Um condenado.
A relação Alba-Alfredo estava em crise. Já não estavam se entendo. Será que era a desvinculação amorosa? Este palavrão é o que intelectuais respondem por separação. O sonho acabou. A casa caiu, mas Alfredo não desistiu.
Pediu socorro para Alma. Quem sabe a mãe ajudaria. Foi lá na casa de Alma e foi recebido por Tobias. Na sala o pai esta tomando uma cachaça.
- Vem cá, Alfredo, toma umazinha comigo. Esta é da boa.
E emendou
- Alma está tomando banho. Por isso que estou com este copo. Se me pega assim ela vai chutar o balde. Mas toma aí.
Quando Alma deu sinal de aparecer na sala Tobias correu para esconder a cachaça que tomava.
- Olá Alfredo, que surpresa! disse Alma.
- Sabe o que é Dona Alma, vim pedir ajuda, respondeu Alfredo.
- Minha relação com Alba não está nada agradável. Ultimamente ela anda muito agitada e mal humorada. Não sei se é o trabalho dela ou se tem a ver com nossa relação.
Conversaram mais um tempo até combinarem uma conversa a três na casa de Alba. No dia combinado Alfredo buscou Alma. Já no carro ela disse assim:
- Sabe Alfredo, quando mais nova eu resolveria este caso de outra forma. Alba sempre foi deste jeito: de uma teimosia difusa e calada. Às vezes eu resolvia com o chicote mesmo. Gosto muito dela, mas tem hora que me tira do sério.
Na casa de Alba a conversa se deu assim:
Alma: minha filha, o Alfredo me disse do que vocês dois estão passando. A versão dele. Agora gostaria de ouvir a tua.
Alba: gosto muito dele, mamãe. No início foi muito bom, mas com o tempo descobri diferenças entre nós.
Alfredo:diferenças, Alba? Você já refletiu no que se tornou nossa relação? Nem nos fins de semana está disponível. É só trabalho, trabalho e trabalho.
Alba: olha aqui, Alfredo, posso até concordar com você sobre isto, mas não vem dar uma de santo não.
Alfredo: como assim?
Alba (nervosa): cê tá pensando que não percebo quando toca o teu celular. Você se afasta de mim para conversar. E mais, já vi as chamadas recebidas. Diga-me quem são: Clara, Ana Elisa e Elizângela? No teu trabalho não conheço ninguém com estes nomes. De anjo você não tem nada, ô cafajeste!
E tempo esquentou. Alma no meio do tiroteio pensou: briga de casal e eu aqui fazendo o que, meu Deus?
Alma: meninos será que não dá para discutirem com menos baixaria? Alba tenha paciência com o Alfredo. Você sabe como são os homens.
Alba: sei como são os homens, mamãe, mas não sou besta não. E ademais tenho mais o que fazer na vida.
Alma saiu da reunião pessimista. Não foi a primeira separação da filha. Com um pouco de desapontamento deixou o caso para Deus resolver. Não tinha mais o poder de alterar o destino da filha.
Alba e Alfredo ficaram juntos por mais um mês. Um dia ela o traiu com outro rapaz que conhecia já de algum tempo. Arrependeu-se. A partir daí resolveu pela separação. Alfredo continua sem entender nada do que significa o sexo em sua vida.
Alba desvinculou aos poucos: foi retirando sua energia libidinal da relação que vivia com Alfredo e, com o passar do tempo, desistiu do objeto, declarando-o morto e oferecendo ao ego o incentivo de continuar vivendo (Ingrid Luiza F. Viégas).
Edson Pereira Cardoso, outubro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Finoca
Orípia, minha mãe, também conhecida como Finoca, nasceu em 21/09/1922 na cidade de Barretos. Estudou no Colégio Anjo da Guarda em Bebedouro até formar-se professora em 1942. Casou-se com Sebastião, o Tatau, barretense nascido em 02/12/1919. No embalo deste enlace surgiram quatro filhos e quatro filhas. A mãe, a esposa, a mulher e a professora sempre estiveram na mente e no coração da Finoca.
Finoca vem da família Marques, povoadores da cidade de Barretos, os librinas. A mãe da Finoca é a Maria Cândida e o pai, Joaquim Cândido, que nasceram em 1887. A avó da Finoca é Maria Cândida de Jesus (Mãe Cândia), casada (em 1874) com Jerônymo José Marques (Jerominho). Finoca é trineta de Simão Antônio, um dos fundadores de Barretos: é filha de Maria Cândida que era filha de Jerônymo José que era filho de Joaquim Simão Marques que era filho de Simão Antônio Marques. Até casar Finoca vivia na fazenda Córrego do Meio (mais popular como Córgo do Meio), em Barretos, propriedade de Joaquim Cândido e Maria Cândida.
A família de Maria Cândida e Joaquim Cândido se reunia em fins de semana, na fazenda, para fazer farinha de mandioca, fazer pamonha e matar porco. Filhos, filhas, netos, netas, agregados e agregadas se reuniam em mutirão. E toma arrancar, lavar, descascar, ralar, secar mandioca e torrar resultando na farinha e no polvilho que ainda hoje existe nas feiras de Barretos. Reproduzíamos o que os índios brasileiros já faziam nos idos de 1500, como relatado por Hans Staden.
Córrego do Meio era uma fazenda antenada com o século XX. Tinha uma hidrelétrica que fornecia energia para iluminação da sede e para mover um moinho que produzia fubá. A água encanada do Córrego do Meio chegava até a sede através de uma bomba hidráulica. O gado bovino produzia leite e o queijo era produzido sob a coordenação da Maria Cândida. Tinha também a lavoura de milho e um belo pomar com jabuticaba, manga, banana, laranja, pitanga, amora e muitas outras frutas.
Finoca foi criada neste meio e teve filhos e filhas nele misturado. A netaiada de Maria Cândida se divertia neste ambiente integrado com a natureza. Hoje, em 2011, a família da Orípia e Sebastião está assim: 4 filhos, 4 filhas, 12 netas, 5 netos, 4 bisnetas e 5 bisnetos.
Orípia teve sua educação formal no Colégio Anjo da Guarda em Bebedouro (colégio interno) no período de 1932 a 1942. Foram 11 anos de colégio interno divididos em quatro de primário, cinco de ginásio e dois de escola normal. Lá estudou Latim, Francês, Português, Geografia, História, Matemática, Física, Educação Moral e Cívica, Música, Trabalhos Manuais, Desenho, Sociologia, Pedagogia e Prática Pedagógica.
Professora formada, Finoca começou o magistério, em 1943, numa escola em Alberto Moreira, distrito de Barretos, como professora substituta efetiva. Esteve por lá até 1944. A rotina da Professora Orípia, quando em Alberto Moreira, era a seguinte: ia da fazenda dos pais a cavalo (chamado “Docinho”) até a fazenda do tio Rosa (Olintho Marques). Depois a pé, na companhia de alguns alunos, atravessava o Córrego da Mixórdia e caminhava até Alberto Moreira. Após as aulas o caminho de volta: a pé até a fazenda do Tio Rosa e depois no lombo do “Docinho” chegava em casa.
A rotina da Finoca não ficava só na escola. No sábado, de trem, fazia o trajeto Alberto Moreira - Barretos. Em Barretos ficava na casa dos pais (Avenida 21 entre as ruas 14 e 16) e no sábado ministrava aulas de catecismo na Catedral. Eram nestes fins de semana que Finoca se encontrava com o Tatau para namorar, meio que a contragosto do pai, Joaquim Cândido. Na segunda-feira estava ela de volta à rotina das aulas em Alberto Moreira.
Orípia casou-se com Sebastião no dia 5 janeiro de 1946 e exonerou-se da escola durante o período de 1945 a 1948. Neste período tiveram Aluisio (1946) e Maria Cristina (1949). Sebastião pedira à esposa que ficasse em casa para cuidar dos filhos. Mas em 1949 Orípia voltou a trabalhar a contragosto do marido, para ajudar no sustento da família. Finoca contrariou o pai para casar e agora contrariava o marido para voltar ao trabalho como professora. Isto na década de 1940. Ela seguiu a história de outras duas librinas porretas: Inácia Bernarda e Mariana Librina (tias-triavó de Finoca) sobre as quais já escrevi.
Nos anos de 1949 e 1950 Orípia trabalhou na Escola Antônio Olympo (1º Grupo), em Barretos como professora substituta efetiva. Efetivou-se em abril de 1951 e se mandou para Nova Granada para lecionar numa Escola Típica Rural. Nesta época Finoca já estava com o terceiro filho Edson (1950). Sem o marido e os outros dois filhos que ficaram em Barretos ela seguia seu destino de mãe e professora, amamentando e lecionando.
Um parêntesis: Edson formou-se em engenharia na década de 1970. Resolveu, na época, ser professor. Finoca não concordou. Um absurdo argumentava. Onde se viu, estuda engenharia cinco anos e vai para sala de aula. Edson bateu o pé e seguiu seu destino. O que ela queria? O cara nasce e praticamente vai do hospital direto para uma sala de aula acompanhar a mãe. Tinha ou não tinha que ser professor!
Em 1952, Orípia se transferiu para uma escola em Ibitú e por lá ficou até 1954. Em 1955 voltou para Barretos e trabalhou numa escola isolada situada no bairro Vila Nogueira. Voltou para a Escola Antônio Olympio em 1957 e lá trabalhou até se aposentar. A mãe continuou sua lida: teve Cândida em 1955, Ana Maria em 1957, Clóvis em 1958, Cláudio em 1961 e Mônica em 1965.
Quando Finoca chegava na Santa Casa para ter nenê as freiras logo diziam: Ih, lá vem ela de novo!
Sebastião se formou em ciências contábeis na Escola de Comércio Álvares Penteado, em São Paulo. Ele trabalhava na serraria da família Cardoso Carvalho, mas teve passagem, como contador, pela prefeitura de Paulo de Faria e em Ibitú trabalhou na Socelis, empresa de bomba d’água. A seguir voltou à serraria a pedido do pai, João Cardoso de Carvalho. Finalmente Tatau passou a trabalhar como agricultor, no sítio herdado por Finoca. Nesta batida os dois criaram e educaram seus oito filhos e filhas. Sebastião faleceu no dia 11 de março de 1986 aos 66 anos, depois de 40 anos de casamento.
Orípia foi muito querida pelos alunos e colegas de trabalho. Reproduzo aqui um trecho da homenagem que recebeu de suas colegas em 1996.
“(...) Para falar de uma pessoa autêntica, cheia de simplicidade e valores seria preciso que pudéssemos traduzir mensagens que brotam diretamente de nossos corações. E para isso melhor do que pobres palavras basta que a Orípia olhe nossos sorrisos, que perceba a expressão sincera de ternura, amizade e admiração que todas nós temos em nossas faces. Então nossas palavras, nossas simples palavras, revelam o que está além das palavras, por mais expressivas que sejam. Orípia é assim, professora e mãe que nos dá a maior lição, a lição de viver. Professora exemplar durante 30 anos batalhou sempre pela educação dos alunos como se fossem seus próprios filhos. Mãe carinhosa de oito filhos: Aluisio, Maria Cristina, Edson, Cândida, Ana Maria, Clóvis, Cláudio e Mônica, que com seu exemplo e dedicação deu-lhes valores e qualidades para vencerem na vida. Que Deus lhe dê, Orípia, muita saúde para poder continuar a dar-nos sua lição de vida. Deus a conserve assim por muito tempo serena e feliz entre nós. Associação dos Professores Aposentados de Barretos – 1996”
Atualmente Finoca vive por conta de cuidar da casa e acompanhar, junto com filhos e filhas, o crescimento de seus netos, netas, bisnetos e bisnetas. Além disso, têm as novelas, as músicas, as viagens para ver a família e para apreciar música em teatros, as plantas, os gatos e os cachorros... e a laranja depois do almoço.
Hoje, dia 21, Dona Orípia completa 89 anos.
Por tudo isso Finoca pode entrar em casa com dignidade.
Edson Pereira Cardoso, 21 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
O Estado privatizado
Clovis Rossi, na Folha de São Paulo de 08/09/2011, publicou o artigo intitulado Que tal estatizar o Estado? É deveras relevante no momento. Ei-lo:
O PROFESSOR Delfim Netto saudou ontem, em sua coluna nesta Folha, o que chamou de "estatização" do Banco Central, em alusão à decisão de baixar os juros. Um sinal, torce Delfim, de "menor influência do setor financeiro privado". Tomara. Pena que falte o principal, "estatizar" também os governos, mais e mais dependentes de ordens não escritas emanadas do setor financeiro.
No Brasil, essa "privatização" do público aparece na manutenção de um elevado superavit primário (receitas menos despesas do governo, fora juros da dívida).
Só no primeiro trimestre deste ano, as despesas com juros foram de R$ 119 bilhões, 30% a mais que em 2010. Montante que equivale a impressionantes 6,12% de tudo o que a economia produz em bens e serviços, o tal de PIB (Produto Interno Bruto).
É a rubrica que mais consome recursos públicos, como se o Brasil estivesse com todos os problemas resolvidos e pudesse dedicar a maior fatia de seu carinho aos credores, uma ínfima minoria.
Mas é na Europa que aparece com mais nitidez a privatização do Estado. Açoitados pelos mercados, um governo após o outro adota medidas de austeridade que sufocam a recuperação ainda débil da economia. O ponto culminante desse assalto aos Estados se dá pela tentativa de inscrever na Constituição um limite para o deficit público.
Até concordo que os Estados, como as pessoas físicas, devem viver de acordo com as suas posses. Mas sempre aparecem circunstâncias excepcionais que tornam imprescindível aumentar o gasto público e, com isso, gerar deficit/dívida.
Se quando eclodiu a crise financeira já estivesse em vigor esse tipo de veto constitucional, não teria sido possível adotar os colossais pacotes de estímulo que foram decisivos para evitar a depressão.
A privatização do espaço público se dá até na narrativa da crise: a obsessão com o ajuste fiscal é tanta que fica a impressão de que foram os gastos irresponsáveis dos governos que a provocaram, quando ocorreu o contrário. O comportamento irresponsável do sistema financeiro é que gerou a crise e, por extensão, a necessidade de pacotes de estímulo, que levaram a um endividamento/deficit colossal.
Agora, os mercados que comeram na mão dos governos exigem austeridade, que é de fato necessária, desde que se levem em conta outras necessidades imperiosas, como crescer, reduzir o desemprego etc.
Vale comentário da jornalista e escritora espanhola Irene Lozano para "El País", no qual lamenta "a hegemonia atual desses entes fantasmagóricos chamados mercados, que não se apresentam às eleições nem prestam contas aos cidadãos nem explicam seus programas, mas ostentam a faculdade de impor a visão de mundo mais benéfica para eles". Lozano recupera frase de Adam Smith, o grande profeta do capitalismo e do livre-mercado, capaz no entanto de enxergar que "a rapacidade mesquinha e o espírito de monopólio dos mercadores não são nem devem ser os governantes da humanidade".
Pois é, velho Adam, dois séculos depois, a rapacidade dos mercadores governa o mundo, sim, senhor.
No Brasil, essa "privatização" do público aparece na manutenção de um elevado superavit primário (receitas menos despesas do governo, fora juros da dívida).
Só no primeiro trimestre deste ano, as despesas com juros foram de R$ 119 bilhões, 30% a mais que em 2010. Montante que equivale a impressionantes 6,12% de tudo o que a economia produz em bens e serviços, o tal de PIB (Produto Interno Bruto).
É a rubrica que mais consome recursos públicos, como se o Brasil estivesse com todos os problemas resolvidos e pudesse dedicar a maior fatia de seu carinho aos credores, uma ínfima minoria.
Mas é na Europa que aparece com mais nitidez a privatização do Estado. Açoitados pelos mercados, um governo após o outro adota medidas de austeridade que sufocam a recuperação ainda débil da economia. O ponto culminante desse assalto aos Estados se dá pela tentativa de inscrever na Constituição um limite para o deficit público.
Até concordo que os Estados, como as pessoas físicas, devem viver de acordo com as suas posses. Mas sempre aparecem circunstâncias excepcionais que tornam imprescindível aumentar o gasto público e, com isso, gerar deficit/dívida.
Se quando eclodiu a crise financeira já estivesse em vigor esse tipo de veto constitucional, não teria sido possível adotar os colossais pacotes de estímulo que foram decisivos para evitar a depressão.
A privatização do espaço público se dá até na narrativa da crise: a obsessão com o ajuste fiscal é tanta que fica a impressão de que foram os gastos irresponsáveis dos governos que a provocaram, quando ocorreu o contrário. O comportamento irresponsável do sistema financeiro é que gerou a crise e, por extensão, a necessidade de pacotes de estímulo, que levaram a um endividamento/deficit colossal.
Agora, os mercados que comeram na mão dos governos exigem austeridade, que é de fato necessária, desde que se levem em conta outras necessidades imperiosas, como crescer, reduzir o desemprego etc.
Vale comentário da jornalista e escritora espanhola Irene Lozano para "El País", no qual lamenta "a hegemonia atual desses entes fantasmagóricos chamados mercados, que não se apresentam às eleições nem prestam contas aos cidadãos nem explicam seus programas, mas ostentam a faculdade de impor a visão de mundo mais benéfica para eles". Lozano recupera frase de Adam Smith, o grande profeta do capitalismo e do livre-mercado, capaz no entanto de enxergar que "a rapacidade mesquinha e o espírito de monopólio dos mercadores não são nem devem ser os governantes da humanidade".
Pois é, velho Adam, dois séculos depois, a rapacidade dos mercadores governa o mundo, sim, senhor.
Aqui, neste contexto, tem pertinência recorrermos a Bobbio (*). No ítem sobre O Estado Contemporâneo e sub-ítem A teoria marxista do Estado diz:
"Parece evidente que a política econômica do Estado (composta da política monetária, fiscal e social) subordina-se progressivamente à lógica da valorização de um dos setores do capital global. É possível distinguir também a constituição de um complexo político-industrial formado pela articulação formado pela articulação da autoridade política com os interesses da valorização do capital. Daí o conseqüente fim da forma-mercado e a criação de um sistema, dentro do qual operam de modo complementar, duas lógicas formalmente diversas: a do capital, de tipo quantitativo, que tenta a criação e a realização do lucro, e a do Estado, de tipo qualitativo, que não produz mercadorias (valores de troca) para o mercado, mas sim valores de uso, que podem compreender contribuições de uso vário, da criação de infra-estrutura à qualificação da força-trabalho, e que representam as condições gerais da valorização do capital."
A pergunta que fica é: para onde vamos com este Estado?
Edson Pereira Cardoso, setembro de 2011
(*)Norberto Bobbio, Nicola Matteucci, Gianfranco Pasquino, "Dicionário de Política", Edunb, 4ª edição, 1992, p. 405
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Resultados da crise de 2008: bancos ricos. E quem paga a conta?
"No decurso das crises, quando o momento de pânico passou e a indústria estagna, o dinheiro está fixo nas mãos dos banqueiros, dos agentes de troca, e tal como o cervo brame a sua sede por água fresca, o dinheiro grita o seu desejo de um domínio onde possa ser valorizado enquanto capital." (*)
Deu no O Globo de 04 de setembro de 2011: “Bancos ricos, governos pobres”, Bruno Villas Boas.
Quase três anos após a quebra do megabanco de investimentos Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, a crise financeira internacional que teve origem no mercado imobiliário americano com as hipotecas de alto risco, as chamadas subprime, segue abalando mercados e assombrando governos. Os cofres públicos e bancos centrais de todo o mundo já arcaram com US$12,4 trilhões até agora para incentivar suas economias e limpar os estragos provocados por grandes bancos globais. Essa conta se transformou numa dívida explosiva de países, e agora cobra sua conta e derruba as bolsas de valores. As instituições financeiras socorridas na crise, no entanto, estão muito bem, obrigado. Seis dos principais bancos ajudados na crise - Bank of America Merrill Lynch, BNY Mellon, Citigroup, Goldman Sachs, JPMorgan Chase e Morgan Stanley - lucraram, somados, US$42,4 bilhões no ano passado, aumento de 40% na comparação a 2009. E os bônus dos grandes executivos de Wall Street voltaram, com pagamentos que em um dos casos chegou a US$23,3 milhões.
- O problema dos bancos com a dívida imobiliária foi absorvido, e eles voltaram a ser lucrativos, na maioria dos casos. A crise que era de empresas e bancos transformou-se agora numa crise de governos, principalmente em países como Grécia, Portugal e Irlanda, e provavelmente Espanha e Itália, que precisaram socorrer suas economias. Nos EUA, a dívida ganhou uma dimensão explosiva e está em níveis preocupantes, ainda que a solução preocupe menos do que na Europa - afirma Carlos Langoni, ex-diretor do Banco Central e economista da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) compilados pelo GLOBO, a dívida bruta dos países do G-7 - os mais ricos do mundo, entre os quais EUA, França e Itália - cresceu de US$35,3 trilhões em 2009 para US$41,26 trilhões em 2011, um aumento de 16,7%. No mesmo período, o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelos países) desse grupo avançou apenas 1,36%, considerando projeções do Fundo. Dessa forma, o endividamento dos países passou a representar 118,2% do PIB.
............
Bancos voltam a pagar bônus gordos e o risco nas medidas de austeridade
Nesse embalo, o presidente do Bank of America, Brian Moynihan, recebeu cerca de US$10 milhões em 2010, segundo jornais americanos. O do Citibank, Vikram Pandit, que por dois anos ficou com salário simbólico de US$1 enquanto tentava pôr o banco nos trilhos, passou a receber US$1,75 milhão no ano passado. Em maio, Pandit levou mais US$23,3 milhões pelos excelentes resultados do Citi, a serem pagos nos próximos quatro anos. No Reino Unido, a situação é semelhante: o Royal Bank of Scottland deve pagar 1 bilhão de libras em bônus.
Enquanto isso, os países da zona do euro lançam programas de austeridade fiscal para estancar a crise de confiança em seus títulos soberanos, o que é fundamental para refinanciar suas dívidas. Segundo Luiz Roberto Cunha, professor da PUC-Rio, ao recuperar a confiança de investidores e empresas, os países pretender incentivar investimentos e gerar empregos. O problema é que, ao cortar gastos, empurram ao mesmo tempo suas economias para uma recessão.
- Isso pode criar um círculo vicioso e exige um ajuste fino. Não está na hora de austeridade, mas de investimentos, de fazer a economia funcionar, gerar empregos. O problema é que quem está comprando os títulos desses países, como a Grécia e Irlanda, são os contribuintes de Alemanha e França. E eles querem contrapartidas fiscais dos vizinhos - afirma Cunha.
Na visão de Cesar Benjamin (Folha de São Paulo, 20/09/2008):
Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D - D essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D - D. Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D - D. Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.
Resumo da ópera: e quem pagará a conta da crise de 2008? Os governos?
Não. Seremos nós mortais trabalhadores e pagadores de impostos.
(1) K. Marx, Manuscritos de 1857-1858, Paris, Editions sociales, 1980. A crise de 1857 começou com um colapso bancário em Nova York e depois espalhou por Áustria, Alemanha, França e Inglaterra. http://www.marxists.org/portugues/bensaid/2009/08/marx.htm#r11 06/09/2011
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